Preocupação com o uísque

14.09.18_Flávio Aguiar_EscóssiaPor Flávio Aguiar.

Alguns anos atrás eu fazia a cobertura do Fórum Social Europeu em Paris, para a Carta Maior. Numa das voltas, acompanhava um debate absolutamente morno sobre “minorias sem estado próprio na Europa”. Desfilavam pela mesa sonolentos e lamuriosos (desculpem se estou ofendendo alguém, mas é que os advogados destas causas, lá no debate, eram modorrentos mesmo) catalães, bascos, vênetos, bretões, langues d’oc, frísios, valões, galeses, até bávaros havia.

Eis que se não quando, de repente, não mais que derepente, adentrou o recinto o representante da Escócia. Era um homem gigantesco, caminhando a passos largos com uns meiões de escoteiro, borzeguins enormes, sacudindo o seu kilt, aquele saiote axadrezado que eles usam. Sentou-se à mesa e, para o despertar delirante da platéia, disse aos berros: “Eu vim repartir com vocês o verdadeiro espírito escocês”! E tirou do seu alforje uma, duas garrafas de uísque, dando uma para a atônita mesa depois de sorver ele mesmo um golacho, e a outra deu-a ao público que, como eu disse, já delirava embriagadamente. E daí lascou uma fala vibrante sobre a independência escocesa, que deve ter feito todos os reis passados e futuros da Inglaterra tremerem em seus túmulos.

Lembrei-me deste episódio porque na quinta-feira, dia 18, enquanto esta crônica estiver sendo publicada no blogue da Boitempo, a Escócia estará votando sim ou não à sua independência. As pesquisas apontam resultados apertados para um ou outro lado, diferenças de não mais do que 1 ou 2% em meio a proporções muito grandes de indecisos (pelo  menos 10%).

Confesso minha perplexidade diante do assunto. Movimentos separatistas europeus têm o mau hábito de pender à direita. No caso escocês, no entanto, há forças à direita e à esquerda que apoiam a independência. Sean Connery é pela independência, Mick Jagger contra, o que me faz pender para ela. Além disto, o establishment financeiro europeu e mundial – o mesmo que quer derrubar Dilma Rousseff a qualquer custo (ou lucro, melhor dizendo) – é radicalmente contra a independência.

O FMI ameaça com insolvências. Os bancos escoceses disseram que se mudam para Londres, caso a Escócia fique independente. Empresários anunciam deserções (como na primeira eleição do Lula em 2002, lembram?). A Rainha recomenda cautela. David Cameron afaga com promessas de maior autonomia, e bate na mesa anunciando que a Escócia independente ficará sem a libra esterlina, tendo que inventar outra moeda. Os Estados Unidos são contra. Bill Clinton disse que prefere o Reino Unido unido do  jeito que está.

É claro que nestas preocupações do establishment europeu vai o temor de que se a independência da Escócia sair das urnas, os movimentos separatistas no continente e fora dele vão ganhar impulso: além daqueles acima citados na modorrenta mesa, há os lombardos (estes sim, hoje, à direita), os russos, há a Ucrânia do Leste em efervescência, mais os roma (ciganos), a miríade dos balcânicos, e ainda outros espalhados pelo mundo velho sem porteira, como o Québec, os curdos, províncias na China, e até mesmo me ocorre a pergunta: seriam os palestinos um movimento separatista em Israel?

Há outros fatores que me levam a pender pela causa escocesa. Por exemplo, meu coração farroupilha. Calma, leitores: considero as bolhas separatistas que assomaram no Rio Grande depois da eleição do Collor uma bobagem, algo mais ligado ao fechamento das agências do Banco do Brasil promovido pelo afã privatista do que a algum sentimento histórico. Sou um gaúcho brasileiro, ou um brasileiro gaúcho. Mas não nego que em 1835 eu estaria lutando ao lado das tropas de Bento Gonçalves e do General Netto, de preferência junto às Brigadas de Cavalaria dos Lanceiros Negros liderados pelo bravo Coronel Teixeira Nunes, assassinado pelos imperiais quando a guerra já ia ao fim, contra os imperiais dos insolventes  governos da Regência. Já imaginaram, lutar ao lado de Giuseppe e Anita Garibaldi? Melhor do que lutar ao lado do futuro Duque de Caxias, não é mesmo? Bom, pelo menos me restou o consolo de fazer isto no meu romance Anita, aliás, premiado no Brasil.

Também não nego que em décadas passadas, quando houve dois jogos no Beira-Rio entre as seleções do Brasil e do Rio Grande (que felizmente terminaram empatados) torci desbragadamente por esta. De quebra, foi um prazer ouvir as sonoras vaias num dos jogos – em plena ditadura – quando foi anunciada a presença do general presidente de plantão que, por sinal, para variar, era gaúcho!

E quando mais não seja, sacudir a City Londrina, Downing Street no. 10 e o Palácio de Buckingham, e sacudir ainda Frankfurt-am-Main, sede do Banco Central Alemão, e também o Banco Central Europeu,  me são coisas simpáticas.

Vamos ver o que acontece.

De todo modo, confesso aqui à socapa que naquele dia no modorrento debate sacudido pelo terremoto escocês, consegui passar a mão na garrafa e brindar à independência da Escócia ou do uísque, ou de ambos, já não lembro bem.

14.09.18_Flávio Aguiar_Escóssia_2

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

1 comentário em Preocupação com o uísque

  1. Flavio Aguiar // 22/09/2014 às 8:42 // Responder

    É, mas a Escócia perdeu… Infelizmente, foi uma vitória do medo e da chantagem, não de algum projeto interessante. Em todo caso, com o país tão dividido, talvez tenha sido melhor assim. Eles enfrentariam graves crises, como ter de optar por um regime republicano ou continuar a ter Elizabeth II como raInha, apesar da independência,caso optassem pela monarquia…

    Curtir

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