Žižek e o Estado laico

14.09.01_Zizek Estado laicoPor Slavoj Žižek.*

Em meio a um cenário marcado por discussões acaloradas sobre a laicidade do Estado num Brasil em pleno debate eleitoral – um dos países mais religiosos do mundo, mas também um dos que mais sofre com violência contra a mulher, minorias LGBT e negros (algo que se evidencia inclusive, como vimos muito recentemente, nos rituais coletivos nacionais mais populares como o futebol) – Slavoj Žižek, que acaba de publicar no Brasil Violência, seis reflexões laterais (Boitempo, 2014), reflete sobre os impasses da sociabilidade contemporânea entre a ideologia do multiculturalismo e o fundamentalismo arraigado. Comentando o recente escândalo de Rotheram, junto com outros fenômenos de violência contra a mulher no mundo inteiro, o filósofo esloveno chama atenção para o fato de que “em todos esses casos a violência não é uma explosão espontânea de energia brutal que rompe as amarras dos costumes civilizados, mas algo aprendido, imposto externamente, ritualizado, parte da substância coletiva de uma comunidade”. Confira:

*  *  *

No debate sobre Leitkultur (cultura dominante) da década passada, os conservadores insistiam que todo Estado é baseado em um espaço cultural predominante que os membros de outras culturas que vivem no mesmo espaço devem respeitar. Ao invés de lamentar a emergência de um novo racismo anunciado em tais declarações, devemos voltar um olhar crítico sobre nós mesmos e nos perguntar até que ponto nosso próprio multiculturalismo abstrato contribuiu para este triste estado de coisas. Se todos os lados não compartilharem ou respeitarem a mesma civilidade, então o multiculturalismo se torna uma forma de legalidade regulada por ignorância mútua ou ódio.

O conflito sobre multiculturalismo já é um conflito sobre Leitkultur: não é um conflito entre culturas, e sim um conflito entre diferentes visões de como culturas diferentes podem e devem coexistir, sobre as regras e práticas que essas culturas tem de compartilhar se quiserem co-existir. Devemos portanto evitar a armadilha da pergunta liberal “com quanta tolerância podemos arcar para com o outro?”. Nesse nível, é claro, nunca somos tolerantes o suficiente, ou então já estamos sendo tolerantes demais… A única forma de romper com esse impasse é propor e lutar por um projeto universal positivo compartilhado por todos os participantes.

É por isso que a tarefa crucial daqueles que hoje lutam pela emancipação é de ir além do mero respeito por outros, em direção a uma Leitkultur emancipatória positiva que, somente ela, poderá sustentar uma coexistência e mistura autêntica de culturas diferentes.

Nosso axioma deve ser que a luta contra o neocolonialismo ocidental, bem como a luta contra o fundamentalismo, a luta do WikiLeaks e de Snowden bem como a do PussyRiot, a luta contra o antissemitismo bem como a contra o sionismo agressivo, são partes de uma mesma luta universal. Se fizermos qualquer concessão aqui, estaremos perdidos em ajustes pragmáticos, e nossa vida não vale ser vivida.

* Trecho do artigo “Rotherham child sex abuse: it is our duty to ask difficult questions“, publicado originalmente no The Guardian em 1° de setembro de 2014.
A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

***

Esta quarta, dia 3/9, Violência, de Žižek será tema de debate entre o candidato a presidente Mauro Iasi, o candidato a governardor Gilberto Maringoni e o psicanalista Christian Dunker. Na Livraria Martins Fontes da Av.Paulista. Saiba mais aqui.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Alguém disse totalitarismo? Cincon intervenções no (mau) uso de uma noção * ePub (Amazon | Gato Sabido) 

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Amazon |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub  (Amazon | Gato Sabido)

Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético * ePub (Amazon | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Violência, seis reflexões laterais * Kindle (Amazon | Travessa)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

4 comentários em Žižek e o Estado laico

  1. Fernando Dias Campos Neto // 02/09/2014 às 2:14 // Responder

    A NATUREZA DO EIIL.

    31/08/2014

    Embora distante do Brasil em ano eleitoral, quando há tanta confusão entre o que seja verdadeiro ou falso por factóides midiáticos, no momento em que o governo de centro-esquerda buscar se reeleger, contrariando os interesses do capital em explorar livremente o proletariado em busca do lucro máximo e imediato, a questão do Oriente Médio é importante.

    E assistindo, como de hábito, o programa “Globo News Painel”, de hoje, ocorreram-me algumas coisas sobre o EI.

    Enquanto uma pretensão de construir um Estado-nação islâmico na região, redesenhando as fronteiras atuais, segundo a religião arcaica, ele chama a atenção para o que está talvez por detrás disso.

    Em outro programa se falou na Arábia Saudita, sunita e inimiga do Irã, como financiadora e fornecedora de armas. Mas, discutiu hoje, a coisa não é tão simples.

    Eu enfatizaria no redesenho dos Estados-nação na região, a questão da criação do… Estado-nação !

    A Síria, hoje à mercê da guerra civil, foi um Estado-nação em que até a criação do Partido “Bahat” já se tinha feito ! Ghadafi ao escrever o “livro –verde” buscou amadurecer a visão fundamentalista corânica. Foi desmoralizado e destruído. Nasser, no Egito, não foi muito longe.

    Por que, após as primaveras árabes, houve uma desconstrução dos Estados-nação do Oriente Médio e a necessidade de novamente redesenhar-lhes as fronteiras ? Os EUA no Afeganistão e no Iraque, teriam deixado atrás de si uma regressão a etapas históricas que no processo histórico precederam os Estados que já haviam e fizeram aqueles povos retornar ao medievo ?

    Temo que o capital nacional-transnacional sediado em países ricos é que atuaram, e atuam na região, beneficiando-se da guerra na exploração do petróleo e na especulação financeira. Inclusive armamentista. Ora sobem umas ações, ora descem…

    Que o que se discute é uma “realidade da alienação” na economia-política em torno da acumulação do capital que progride não só no Oriente-Médio, mas na Ucrânia, onde a Rússia mantém bases aliadas na Criméia e que abastecem Tartus na Síria.

    Os povos do Oriente-Médio já tinham os seus Estados-nação, mas eram governados por assessores locais do socialismo. Então foram pouco a pouco destruídos desde a guerra-fria e, agora, surge o impasse entre capitalismo e pós-capitalismo. E, na China, entre capitalismo e o socialismo de mercado.

    A barbárie entre regimes tribais do Oriente-Médio já havia sido superada, em maior ou menor medida, mas pela aliança com países de esquerda, não capitalistas !

    O capital não deseja isso. Ele que chegar até a “vitória” de colocar assistentes locais em Moscou e em Pequim. Não se podia incluir isso na “ficção” de um “Relatório Lugano” ?

    Não há como combater o EI, sem combater o capital nacional-transnacional. O seu lado aparentemente confuso e heterogêneo – supostamente o novo Estado – não é um Estado de Israel, então cúmplice e refém do capital ou, de certo modo, outra e a mesma Arábia Saudita…

    O capital gera insatisfação e ameaça na Europa. Isso é visível na foto, seja montagem ou não, do britânico que ameaça o americano de decapitação. Mas as adesões ao islamismo – como antes às religiões da Índia, Theodor Reik descreve o fascínio pelo “deus alheio” – são adesões a “realidades da alienação” !

    Alienação da economia-política em fundamentalismos religiosos, racismos, etnicismos, nacionalismos etc.

    O socialista não queima etapa histórica do Estado –Nação, mas o liberal- econômico quer o Estado-nação mínimo para a sua auto-regulação de mercado, afinal a anarquia de mercado, além das carnificinas em perversos redesenhamentos do que já existia.

    Seria assim ?

    Fernando Neto

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  2. ABOMINAÇÃO DA LEITKULTUR EMANCIPATÓRIA E DEFESA DA BIODIVERSIDADE HUMANA — EM RESPOSTA AO CAMARADA ZIZEK

    Gosto muito do camarada Zizek.
    Afinal, tal como o poeta Pessoa: sou senhor
    Despótico no âmbito da minha simpatia.
    Gosto de quem eu gosto, e fim!

    Mas é tempo de confrontar alguma tese, — um tanto
    Fraca, deveras —, difundida por Zizek, recentemente.

    A tese de que seria válida uma: leitkultur emancipatória,
    Ao invés do — multiculturalismo. Ou do plurinacionalismo.
    O problema aqui é evidente: qualquer espécie de cultura
    Dominante é, de saída: uma cultura da dominação.

    Dominação de uma classe sobre outra; de uma nação
    Invasora, imperialista sobre outra ou outras;
    Dominação do que esteja em situação de fraqueza
    Pelo oportunista em situação privilegiada de força.

    Onde ele quer chegar com esse paradoxo
    — Que remete à hipocrisia da ideologia
    Que dilui fezes em água, segundo a sua própria
    Análise do liberalismo à luz dos três padrões
    De sanitários encontrados no Ocidente —;
    Onde ele quer chegar, senão no seu ponto
    De partida: no comunismo marxista-soviético,
    Desde sempre uma leitkultur, uma forma de
    — Imperialismo.

    Ele quer chegar ao Estado laico, livre de preconceitos,
    De fundamentalismos e, sobretudo, de violência;
    Porém, o imperialismo, ou globalização; o paternalismo,
    A leitkultur em si — é a violência!

    A leitkultur é o fundamentalismo e é a violência.
    Marx é indefectível na sua crítica do capitalismo,
    Mas é messiânico na tentativa de criar uma leitkultur
    Emancipatória, cujos — fundamentos aproveitassem
    A todos os povos.

    Não há fundamento pétreo, supostamente laico,
    Que resista ao mais leve sopro do senso emancipado.
    O fundamento de que os povos não podem constituir
    Estados teocráticos, por exemplo, é — violência pura!
    Em que tábua sagrada está escrito que um deus qualquer
    Não possa servir de inspiração aos-homens no seu contrato?
    Ora, se foi esse, inclusive, — Deus —, um dos mais comuns
    Avalizadores dos pactos nacionais primevos: dos antigos
    Aos aborígenes.

    Curioso como, por falar nos aborígenes, todos consentem
    Em que seria hediondo aculturá-los, tanto os conservadores
    Como os progressistas; nestes talvez remanesça o mito
    Do bom selvagem engendrado por Rousseau; naqueles
    Tudo o que há é o oportunismo colonialista em seu afã
    De refrear os gigantes emergentes por qualquer meio e,
    Com estes, a multipolarização, o multiculturalismo.

    Eles já dizimaram, há muito, os aborígenes que coabitaram
    Terras com eles e, agora, clamam a preservação das culturas
    Dos autóctones que habitam terras de outros continentes…

    Eis a típica hipocrisia da ideologia que dilui em água as suas
    Fezes, tão bem flagrada pelo camarada Zizek.

    As culturas indígenas, todos concordam: devem ser preservadas;
    Direitistas, esquerdistas: todos consentem em elevar acima das
    Cabeças esse fundamento pétreo, como a um cordeiro de ouro:
    Sagrado e inquestionável…

    Porém, nenhum deles nutre convicções que suportem a pergunta:
    Por que as culturas dos índios devem ser preservadas de mutilações?

    Alguns dirão: porque eles, os índios, são puros! E aí está Rousseau.
    Não uma má influência, sem dúvida; porém, tão-pouco, uma das
    Mais atualizadas. Raros e mui raros dirão: porque eles, os índios,
    São — únicos: só eles são o que são. Eis porque devem ser poupados.
    Poupados de toda leitkultur pensável; ou: de toda dominação em prol
    Da civilização — álibi romano clássico; em prol da salvação — álibi
    Cruzado; da liberdade (mágica) ou livre-arbítrio: não a liberdade como
    Autodeterminação, senão uma indeterminada…, álibi liberal hodierno.
    Ou mesmo da emancipação geral — álibi marxista-soviético.

    Os árabes, entrementes, são também — únicos: ninguém é o que eles
    São da forma como eles o são, e isso é que faz deles merecedores
    De preservação e respeito. De onde desentranhar tal fundamento?
    Ora: de onde mais, senão da inteligência empática de que eles amam
    A sua autodeterminação assim como nós, nosso eu-coletivo, à nossa?

    Tal é o único fundamento aceitável em prol do multiculturalismo.

    E é o mesmo, unânime, entre os ambientalistas, quando propõem que
    Uma espécie de insetos quase invisíveis deve ser poupada da extinção
    Provocada por nós, humanos, simplesmente por ser — única, e nunca
    Por ser útil para fabricar um remédio, uma vacina, ou produzir energia.
    Se o argumento fora este último, seria de todo antropocêntrico. E vil!
    Mas o que se quer é preservar a biodiversidade: a unicidade e variedade.
    Em suma: as diferenças e, com estas, a diferenciação, ou — vida.

    Quanto aos povos, às culturas cabe o mesmo sentimento e princípio:
    Sustentar a biodiversidade humana contra qualquer ataque imperial;
    Qualquer modo ou disfarce de — leitkultur; pois que esta, inclusive,
    Como cultura da dominação, encerra a mais perversa lição já dada:
    A de que os fortes devem elidir os fracos,
    Aquilo que os distingue e conforma,
    Intervindo nos seus processos de mutação e evolução,
    E sob pretextos piedosos: levar a civilização; levar a fé e absolvição;
    A liberdade indeterminística ou mágica; a emancipação de si mesmo.

    Igor Buys
    (heterônimo Gregório Ivo)
    09 de setembro de 2014
    http://www.igorbuys.com
    http://www.recantodasletras.com.br/poesias/4956230

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  3. Professor ZIzek, qual seria a cultura dominante que o professor propõe por Leitkultur?

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  4. Zizek, escreva alguma coisa que preste! Você está armando a burguesia contra a classe trabalhadora, seu filho da PUTA!
    Quero que você morra com o capitalismo! Quero a sua prisão pela classe trabalhadora. Você se aproximou de mim a fim de me roubar o que penso para usar contra a classe trabalhadora?
    Você sabe que eu estou na vanguarda que trago ideias novas da minha psico-análise por isso fica no meu pé. Saiba que tudo o que for meu e você usar contra a classe trabalhadora vai fazer você sofrer insuportavelmente (que tal umas 30 mg de Haloperidol?). Tudo penso e faço visa o fim desse sistema se isso não acontecer peço com todo o meu ser a justiça divina. Você vai pagar e mudar agora ou depois, eu acredito em Deus.

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