Lançamento Boitempo: Altíssima pobreza, de Giorgio Agamben

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A Boitempo acaba de lançar Altíssima pobreza: regras monásticas e forma de vida, de Giorgio Agamben. Neste novo título do ambicioso projeto Homo Sacer, o filósofo italiano mergulha numa pesquisa rigorosa das regras monásticas, e reconstrói a genealogia  de uma forma-de-vida, “uma vida que se vincule tão estreitamente a sua forma a ponto de ser inseparável dela”. Pensar a vida como aquilo de que nunca se dá propriedade, mas apenas um uso comum, é, para o filósofo, o legado mais precioso do franciscanismo com o qual, tantas vezes, o Ocidente voltará a confrontar-se como se fosse sua tarefa indeferível.

Leia abaixo a orelha do livro, assinada por Edson Teles

Seria possível imaginar um modo de vida em que o agir coincidisse com o ser? Como conceber uma vida não determinada pelo direito e pelas leis? Qual o limiar entre a vida e a regra?

Aprofundando reflexões sobre o contemporâneo já iniciadas nas outras obras de Homo sacer, Giorgio Agamben se lança em uma pesquisa sobre as regras monásticas, nas quais se encontra uma série de regulações da vida, do comportamento, dos hábitos cotidianos que vão desde a marcação do tempo – dividido entre noite, dia, hora de cuidar do ser, do trabalho – até as relações hierárquicas e de obediência e comando, passando pelas incidências de danos às quebras de procedimento.

As “formas de vida” nascem de um ideal monástico, centrado na fuga do indivíduo para uma vida solitária e de entrega espiritual, e parecem dar origem a um modo de vida em comunidade.

Distinto do modelo contemporâneo, no qual se adéqua o cotidiano à lei e às regras, o dispositivo monástico não aplica a norma à vida, mas busca construir uma formulação em que se vive de acordo com a norma. Com os franciscanos elabora-se uma vivência em comum pela indiferenciação entre vida e regra. Uma forma de vida que não é conselho, nem moral, nem ciência, nem lei, mas funciona como o cânone de uma comunidade do bom uso da vida.

“Altíssima pobreza” é menos uma prática ascética de perfeição do que a possibilidade de uma vida fora do direito e da propriedade, como se ela a ninguém pertencesse e pudéssemos apenas dela fazer um uso comum. A vida franciscana não se situa no plano da doutrina ou da lei, mas na experiência de um modo de vida e de relação com o mundo.

Agamben propõe uma rigorosa genealogia das formas monásticas, relacionando-as às liturgias, à vida comum, às instituições de poder, para construir um duplo caminho: através de um profundo mergulho na figura histórica do pensamento religioso, o autor nos remete diretamente aos dilemas do contemporâneo.

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Adverte-se aos curiosos: esta edição de Altíssima pobreza foi publicada 50 anos depois do lançamento de O evangelho segundo são Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini. No filme, o jovem Giorgio Agamben (22 anos), então estudante de Direito, trabalha como ator no papel do apóstolo Felipe. Confira:

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

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