Onde o rato sumiu? Músicas com letras que me marcaram

15.07.14_Mouzar Benedito_LupcínioPor Mouzar Benedito.

Quando o governo Costa e Silva resolveu baixar o Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5, só um membro do governo teve reação contrária: o vice-presidente Pedro Aleixo disse temer o resultado dele.

Alguém, acho que o próprio ministro da Justiça, Gama e Silva, autor do texto, ficou bravo e perguntou: “Você não confia nos nossos generais?”.

Pedro Aleixo respondeu: “Nos generais, eu confio. O que eu não confio é no guarda da esquina”. Bom, eu não confiaria nem nos generais nem nos guardas da esquina, mas realmente, com o endurecimento da ditadura, tudo quanto é “guarda da esquina” passou a se sentir uma grande “otoridade” e cometer abusos de todos os tipos. Porteiro de prédio, por exemplo, se julgava imperador do condomínio, se sentia com poderes para ameaçar quem quer fosse, de visitas a moradores.

Um exemplo que me lembro bem dessas “otoridades” é de um motorista de ônibus. Eu estudava Geografia na USP e muitos dos meus colegas gostavam muito de cantar. No ônibus da Cidade Universitária para o centro, no final das aulas, lá pelas onze da noite, o pessoal já entrava cantando, mas não era coisa barulhenta. Eram músicas bonitas, cantadas baixinho. Não chegava nem a incomodar quem estivesse conversando com outro passageiro.

Um dia, quando o pessoal foi entrando no ônibus, o motorista gritou: “Se cantar eu levo direto pra delegacia”.

Um dos meus colegas perguntou: “E falar, pode?”. O motorista ameaçou ficar bravo: “Tá me gozando?”. “Pode ou não pode?” “Claro que pode”. Aí esse colega começou a falar: “Meu coração, quando te vê, bate feliz, não sei porquê…”, e foi acompanhado por todo mundo “falando” a letra da música Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro.

A mais admirada do poeta

Lembrando dessa história e da música Carinhoso, vieram ao meu pensamento algumas letras maravilhosas da música popular brasileira. O poeta Manuel Bandeira disse certa vez que, se se fizesse um concurso para escolher “o verso mais bonito da nossa língua”, provavelmente votaria naquele que diz: “Tu pisavas nos astros distraída”, referindo-se à música Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. É uma música com letra inteira muito bonita, e esse verso faz parte da estrofe que diz:

A porta do barraco era sem trinco
e a lua furando nosso zinco
salpicava de estrelas o nosso chão .

E tu pisavas nos astros distraída,
sem saber que a ventura desta vida
é a cabrocha, o luar e o violão…

Acho bonito também. É uma letra muito poética. Fico admirado pensando não só nas maravilhas feitas por compositores bem formados, mas também por pessoas que tiveram uma vida dura e pouca formação escolar, como Cartola e Nelson Cavaquinho. Eles e muitos outros faziam letras muito elaboradas, até sofisticadas.

Mas gosto também de lembrar de outros estilos, do humor aos xingamentos.

Pobre, mas estiloso

De humor, nem vale lembrar Noel Rosa, um mestre. Cito João da Baiana, no samba Cabide de Molambo, que tem um trecho assim:

Meu Deus, meu Deus eu ando com sapato furado,
tenho a mania de andar engravatado.
A minha cama é um pedaço de esteira
e uma lata velha que me serve de cadeira.

Minha camisa foi encontrada na praia,
a gravata foi achada na ilha da Sapucaia;
meu terno branco parece casca de alho,
foi a deixa de um cadáver num acidente de trabalho…

Agora vejam uma sacada genial de Adoniran Barbosa, na música Tocar na Banda:

Num relógio é quatro e vinte,
no outro é quatro e meia;
é que de um relógio pra outro
as horas vareia.

Mestres das imprecações

Lupicínio Rodrigues, autor de músicas belíssimas, é mais lembrado por algumas no estilo dor de cotovelo e outras cheias de imprecações. Tinha cada samba-canção que deixava a gente com sensação de quase pavor. A música Vingança, por exemplo, diz no início:

Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar…

No fim dela mesma, tem esses versos: 

Mas, enquanto houver força em meu peito
eu não quero mais nada:

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
que rolam na estrada,
sem ter nunca um cantinho de seu
pra poder descansar.

Falando de imprecações, não poderia deixar o tango de lado. Certo, tango é argentino, não é brasileiro. Mas houve uma época em que era comum aqui, tinha inclusive bons compositores brasileiros dedicados ao gênero. E, para o meu gosto, um dos maiores cantores de tango de todos os tempos era o brasileiro Nelson Gonçalves, mais conhecido como intérprete de sambas-canções, mas que não deixava nada a desejar interpretando tangos, compostos aqui mesmo ou traduzidos.

Preciso lembrar aqui que tango, no início, na Argentina, não era música de tragédias. Foi criado por negros e suas letras eram alegres, até que foi assumido pelos brancos de classe média, aí sim virou uma coisa tão trágica que quando alguém tinha uma vida cheia de sofrimentos, aqui no Brasil, dizia: “Minha vida dá um tango”.

Embora lembrando de alguns tangos brasileiros, vou citar aqui um argentino que, acredito, foi o maior mestre das letras arrebatadoras e arrebentadoras. Seu nome é Enrique Santos Discépolo. Basta lembrar a letra de Cambalache, tango proibido na Argentina na época da ditadura. Aqui, ele foi cantado (em castelhano mesmo) por Caetano Veloso e fez o maior sucesso. Mas na linha das imprecações, um tango arrasador, de autoria de Discépolo, é Esta noche me emborracho, traduzido para o português (Esta noite me embriago) e cantado por Nelson Gonçalves. Falando de uma ex-amada, ele começa assim:

Triste, sozinha desprezada
a vi de madrugada sair de um cabaré.
Fraca, mostrando que a sorte
destruiu todo seu porte
sem lhe dar vez.

Magra, vestida sem aprumo
a exibir sem rumo sua nudez
fez de si um quadro sem valor
mostrando sem pudor
seu corpo sem calor…

Ex-namorada, por sinal, é tema de muitas letras malvadas, e não é só em tango que Nelson Gonçalves desanca uma. O samba-canção Revolta, dele e Raul Sampaio, tem um trecho assim:

É meu consolo acreditar que estás sofrendo
e em sua vida de prazeres vives louca…

Nessas imprecações, às vezes era preciso encontrar formas elaboradas para descrever a decadência de uma pessoa. Não valia dizer que “minha ‘ex’ virou puta e foi pra zona. Paguei pra transar com ela”. Vejam uma forma Adelino Moreira encontrou pra dizer isso, no samba-canção A flor do meu bairro, cantado por Nelson Gonçalves:

Hoje, depois de alguns anos,
Eu encontrei-me com ela
Na rua dos desenganos,
Menos ingênua e mais bela.

Ela fingindo desejo,
a boca me ofereceu.

E eu paguei por um beijo
que no passado foi meu.

Bronca e tristeza

Nestes tempos em que é “politicamente correto” tentar controlar a vida alheia, com um “bom-mocismo” esquisito, como o que tenta proibir as pessoas de fumarem (“é para o bem delas”, dizem os cínicos), se eu tivesse bom ritmo e boa voz, sairia cantando bem alto:

Se eu quiser fumar eu fumo,
se eu quiser beber eu bebo,
não interessa a ninguém.

Ah, o fim dessa estrofe é assim:

Se o meu passado foi lama
hoje quem me difama
viveu na lama também.

Noel Rosa, em seu samba Último Desejo, também falando de uma “ex”, dá seu recado aos desafetos:

Às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é um botequim.

Que eu arruinei sua vida,
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

Agora, um estilo que acho muito bonito é o de Batatinha, compositor baiano que quase caiu no ostracismo, e uma das pessoas que não deixaram acontecer isso, cantando suas músicas maravilhosas, é Maria Bethânia. Batatinha compunha músicas alegres, mas algumas com letras tristes, que pareciam não combinar com elas. Mas combinava, de maneira provocante e bonita. É o caso de O Circo, que começa assim:

Todo mundo vai ao circo,
menos eu, menos eu.

Por não poder pagar ingresso
fico de fora escutando as gargalhadas…

Para terminar, safadezas

Ah, as músicas com letras safadas… Escutei muitas por aí. E lembro de uma ouvida em Minas. Mas antes de falar dela, aí vai o motivo por que me lembrei da dita cuja: uma vez, numa véspera de Natal com a família quase toda reunida na chácara de um dos meus irmãos, os três filhos dele, meninos que, se me lembro bem, tinham respectivamente 8, 6 e 4 anos de idade, estavam numa fase de cantar e de vez em quando pediam a todos que os ouvissem interpretando musiquinhas infantis.

Chamei os três de lado e falei que ia ensinar uma música a eles. O mais velho falou: “Não, a mamãe falou que você só ensina bobagem pra gente”. Pensei: “Ah, é? Eu ia ensinar uma música bonitinha, mas agora vou mudar”. E falei: “É a música do Lelê. Pergunte pra sua mãe se lelê é palavrão ou bobagem”.

Ele foi e perguntou: “Mamãe, lelê é palavrão?”. Ela disse que não e ele falou: “Então o Mouzar vai ensinar pra nós a música do lelê”. Ela permitiu.

Eu ensinei, eles puseram todo mundo a postos para ouvi-los e cantaram pomposos, deixando a mãe furiosa:

Subiu um rato na perna da comadre,
veio o compadre pra ver o que aconteceu.
Tirou a roupa da comadre e sacudiu,
mas ninguém sabe, ninguém viu
onde o rato se escondeu.
Foi no lelê que o rato sumiu,
foi no lelê que o rato sumiu.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

5 comentários em Onde o rato sumiu? Músicas com letras que me marcaram

  1. Gilberto Braga // 17/07/2014 às 17:32 // Responder

    Prezado jornalista;
    Admirável a sua matéria sobre os compositores brasileiros e a marca de sua personalidade que eles deixaram nas suas composições.
    Se me permite eu acrescentaria que por exemplo, Lupicinio Rodrigues surpreendente e audacioso colocou frases como “..ela nasceu com o destino da lua pra todos que andam na rua não vai viver só pra mim “(Cadeira Vazia, parceria com Alcides Gonçalves):”Esses moços”, “saibam que deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno a procura de luz…”ou “Quem há de dizer” “e eu o dono, espero louco de sono o cabaré terminar…” Também Adoniran Barboza em Saudasa Maloca que nos versos sempre atual quando vemos um despejo e nos versos diz: “Cada táuba que caía duía no coração”…

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  2. Mouzar Benedito // 18/07/2014 às 14:00 // Responder

    Prezado Gilberto.
    O Lupicínio tem músicas cujas letras são poemas de deixar a gente babando. Como disse, ficou mais conhecido pelas músicas “dor de cotovelo”, mas ele é muito mais do que isso. E a música Felicidade, que Caetano cantou anos depois, resumindo sua letra? Lembra-se? “A minha casa fica lá de trás do mundo, onde eu vou em um segundo quando começo a pensar…”. Nessa mesma música que você citou (“Quem há de dizer”), do verso “ela nasceu com o destino da lua…” tem um trecho que diz “reparem bem / que cada vez que ela fala / ilumina mais a sala”.
    Adoniran, Nelson Cavaquinho, Cartola… só para citar os mais “antigos”, são todos geniais.
    Abraços.
    Mouzar

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  3. foi no lelê que o rato sumiu!!!!!

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  4. Questões Relevantes // 19/07/2014 às 16:45 // Responder

    Caro Mouzar, foi uma agradável leitura e ou belo passeio pela memória. Deixo aqui uma pequena contribuição, na seção dores de amor.

    Conhecia a primeira estrofe na voz de Caetano Veloso, mas foi na gravação de Marlui Miranda que descobri a segunda:

    Sodade, meu bem, sodade – de Nazaré Pereira.

    Os óios da cobra verde,
    Hoje foi que arreparei,
    Se arreparasse a mais tempo,
    Não amava a quem amei.

    Quem levou meu amor,
    Deve ser o meu amigo,
    Levou pena deixou glória,
    Levou trabaio consigo

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  5. Geraldo Prado (Alagoinhas). // 17/04/2017 às 16:30 // Responder

    O meu amigo e ex colega uspiano é fantástico.

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