Carta Aberta à CAPES em defesa da liberdade acadêmica e das Ciências Humanas e Sociais

14.06.05_Carta aberta à CAPES

Para aderir ao movimento e assinar:

  1.  Grupos, Núcleos de Pesquisa, Associações e Instituição
    enviar email com o nome do grupo/instituição, etc… para ivaboschetti@gmail.com ou elan.rosbeh@uol.com.br
  2. Docentes, pesquisadores, alunos individuais:
    assinar a petição criada no AVAAZ

* * *

Frente ao ocorrido no Edital Procad 071/2013, da CAPES – a subscrição pela CAPES de um parecer de mérito sem substância, preconceituoso e ideológico, amplamente denunciado pelos pesquisadores da UnB, UERJ e UFRN da área de Serviço Social atingidos –, e ao baixíssimo número de projetos das Ciências Humanas e Sociais aprovados, os abaixo-assinados, grupos de pesquisa, pesquisadores individuais, instituições universitárias, associações científicas e da sociedade civil, extremamente preocupados com os rumos da pesquisa social no Brasil, vimos por meio deste manifestar nossa posição. Ao final, apresentamos algumas reivindicações:

  1. É inaceitável que uma agência pública do Estado democrático e republicano brasileiro subscreva pareceres ideológicos, tendenciosos, superficiais e inconsistentes, que se fundamentem no questionamento da opção teórica metodológica adotada em projetos de pesquisa, sem nenhum fundamento plausível, o que expressa uma visível prática ideológica;
  2. O patrulhamento ideológico não é somente contra o marxismo, mas, também contra a dialética, um saber que, como disse Hegel, vagou por dois mil anos e foi reconstruído na Filosofia Moderna. A maioria dos projetos sobre dialética são renegados, ainda que não se refiram diretamente ao marxismo. Fato este que deveria envergonhar, pela ignorância e pelo preconceito, os pareceristas da CAPES e de outras entidades de pesquisa fomentadas pelo Estado.
  3. Uma agência pública que tem por missão coordenar o aperfeiçoamento da pós-graduação e da produção de conhecimento no Brasil tem a obrigação e responsabilidade de reconhecer a ciência e a produção científica das diversas áreas de conhecimento e das diferentes abordagens metodológicas utilizadas, sem preconceito, ou cerceamento ideológico, reconhecendo a pluralidade de ideias e métodos como um requisito para a liberdade e igualdade, assegurados pela Constituição Federal;
  4. A abordagem teórico-metodológica fundada na tradição marxista, no campo das ciências humanas e sociais, e adotada, ontem, por importantes pensadores brasileiros e, hoje, por inúmeros pesquisadores, grupos de pesquisa e presente nos projetos pedagógicos de importantes cursos de graduação e pós-graduação, deve ser respeitada e não ser objeto de cerceamento ideológico. Impõe-se reconhecer que a liberdade de expressão, de pensamento e decisão teórico-metodológica na atividade de pesquisa são conquistas democráticas fundamentais da vida social e acadêmica no Brasil contemporâneo, a não ser que estejamos retornando ao obscurantismo de 50 anos atrás. A CAPES, e nenhuma agência de fomento, tem o direito de selecionar projetos com base em argumentos ideológicos. Isso fere totalmente a isonomia, a liberdade de expressão e de opção teórica, metodológica e política asseguradas constitucionalmente. Estas são conquistas caras e recentes em nosso país e muitas gerações foram torturadas ou morreram lutando contra a ditadura, com suas queimas de livros e perseguição de pessoas, para assegurar o livre direito de pensar, de se manifestar e de fazer escolhas teórico-metodológicas e políticas.
  5. Cerca de 90% dos projetos aprovados no Edital Procad 071/2013 são das ciências exatas e biomédicas, o que parece uma clara e injustificável discriminação institucional contra as áreas de conhecimento no campo das ciências humanas e sociais,

Considerando essas reflexões, inquietações e fatos objetivos, reivindicamos: reunião com a direção da CAPES, em caráter de urgência, para debater este problema e suas conseqüências institucionais, dentre as quais a pertinência do anonimato dos pareceres e a necessidade de bancas públicas, e que o Projeto “Crise do capital e fundo público: implicações para o trabalho, os direitos e as políticas sociais”, seja reavaliado com base no Edital, respeitando-se os critérios de isonomia e legalidade.

Assinam esta Carta:

Equipe do Projeto “Projeto Crise do capital e fundo público: implicações para o trabalho, os direitos e as políticas sociais”
Universidade de Brasília – Proponente
Ivanete Salete Boschetti – Coordenadora
Evilásio da Silva Salvador
Rosa Helena Stein
Sandra Oliveira Teixeira
Maria Lúcia Lopes da Silva

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Participante
Elaine Rossetti Behring – Coordenadora
Marilda Vilella Iamamoto
Maria Inês Souza Bravo
Maurílio de Castro Matos
Mariela Becher
Tainá de Souza Conceição
Juliana Cislaghi Fiúza

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Participante
Rita de Lourdes de Lima – Coordenadora
Silvana Mara de Morais dos Santos
Andreia Lima da Silva
Maria Célia Correia Nicolau
Severina Garcia de Araujo
Ilka de Lima Souza
Miriam de Oliveira Inacio

Grupos e Núcleos de Pesquisa
Cemarx/Unicamp
Centro de Estudos Octávio Ianni – CEOI/UERJ
Grupo de Estudos Antonio Gramsci – UFGD
Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Gênero, Política Social e Serviços Sociais – GENPOSS/UnB
Grupo de Estudos e Pesquisas do Orçamento Público e da Seguridade Social – GOPSS/UERJ
Grupo de Estudos e Pesquisas MarxLutte – UEM
Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Seguridade Social e Trabalho /GESST
Grupo de Estudos e Pesquisas Trabalho, Ética e Direitos – GEPTED/UFRN
Grupo de Estudos Marxistas – GEPM/UFRB
Grupo de Estudos Marxistas em Educação da Universidades de Santa Cruz – BA
Grupo de Pesquisa “Filosofia, História e Teoria Social”- Unifal/MG
Grupo de Pesquisa “Implicações Metodológicasda teoria Histórico-Cultural”- UNESP/Marília
Grupo de Pesquisas sobre Poder Local, Políticas Urbanas e Serviço Social – LOCUSS/UnB
Grupo de Trabalho Marx – Anpof
Grupo de Trabalho Marxismo e Ciências Sociais – Anpocs
Grupo LEPEL/UFBA
NIEP/MARX/UFF
Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Teoria Social, Trabalho e Serviço Social – NUTSS/UnB
Núcleo de Estudos Agrários, Desenvolvimento e Segurança Alimentar – NEAD/UnB

Associações Científicas e Revistas

Associação Brasileira de Educadores Marxistas – ABEM
Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS
Instituto Caio Prado Jr.
Revista Novos Temas
Revista Margem Esquerda: ensaios marxistas

10 comentários em Carta Aberta à CAPES em defesa da liberdade acadêmica e das Ciências Humanas e Sociais

  1. Filipe Alves // 05/06/2014 às 18:49 // Responder

    E os marxistas não fazem exatamente a mesma coisa em quase todas as faculdades publicas desse país? Não promovem o ódio e repudio a qualquer um que pense minimamente diferente de suas diretrizes? Estão provando do próprio veneno, apenas isso.
    Mas como bons hipócritas que são, gostam de criticar e cercear as liberdades e ideias alheias, mas quando alguém faz o mesmo com eles, brandam chavões de “liberdade acadêmica”. Parece aos meus olhos “liberdade sob meus termos” isso sim.
    Sobra ego, falta racionalismo. Qualquer pessoa racional sabe que, tão errado quando não dar um determinado pensador ou linha de pensamento, apenas por questões ideológicas, é dar apenas esse pensador/linha de pensamento, e brandar que essa é a unica verdade, correta e perfeita,e que todas as outras são erradas e ruins, também se baseando pura e unicamente por ideologia.
    E sim, faço uma generalização burra, mas como eu disse, apenas por que é algo comum a todos os marxistas que eu conheço, generalizar quando convém.

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  2. Felipe Alvim // 06/06/2014 às 11:01 // Responder

    Filipe, não sou marxista e você é um quadrúpede. Nesse caso, não generalizo, é específico para você.

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  3. onde esta o parecer emitido?? sem ter conhecimento do parecer fica dificil opinão

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  4. Geraldo Augusto Pinto // 06/06/2014 às 14:36 // Responder

    Felipe, amadureça e perceba que o mundo é muito mais amplo, diverso, complexo e contraditório do que a sua rusga com este/a docente que repudiou suas ideias. Todavia, se se trata de um problema de envergadura nacional o que (e tal qual) você aponta, faça uma denúncia à altura, fundamentada, documentada e assinada, no mesmo nível que esta que você comenta.

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  5. Bem, primeiro faço minha, a pergunta do Cabral, onde está o parecer emitido? Precisamos ter conhecimento desse parecer para emitirmos qualquer juízo. Segundo, mesmo sem ter conhecimento dos argumentos utilizados pelo relator para reprovar tais projetos,eu “tiro o chapéu” para esse sujeito, pois o “método” marxista histórico dialético, não tem nada a ver com o método científico,pois a dialética não é ciência, dado que ela se apresenta através de uma característica fundamentalmente SUBJETIVA. O filósofo Kant já havia nos alertado para isso.Segundo ele a dialética é a”lógica da aparência”, é uma ilusão,pois baseia-se em princípios que, na verdade, são SUBJETIVOS.Um exemplo de como isso funciona: Para uma mesma tese e antítese, pensadores diferentes chegam a sínteses diferentes, cada qual com a sua concepção.Devido a isso, a dialética é apenas ilusão, algo “provável”, e jamais será ciência, pois a sua conclusão não se sujeita ao rigor da prova empírica.Em suma, a dialética não pode ser testada cientificamente!

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    • hummm!!! Temos um cientista então! É fera é tu que tá certo! Todos os grandes pensadores erraram: Freud, Lacan, Sartre, Heidegger, Merleau-Ponty, Lukács, Aristóteles, Platão, Hegel, Spinoza, Einstein, Rosa Luxemburg, Kierkegaard, Rousseau, Voltaire, Diderot etc. etc. e tal.
      E viva a Capes, a Paz Perpétua e o imperativo categórico (rsrsrsrs).

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  6. A quem interessar ler o “parecer” (tem que ser entre aspas, pois na argumentação alguma. Apenas um amontoado de frases recheadas de erros de concordância e digitação) e o recurso apresentado: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9661%3Arecurso-ao-parecer-do-capesprocad&catid=61%3Anotas-em-destaque&Itemid=164

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  7. Guilherme Albuquerque // 09/06/2014 às 11:07 // Responder

    Eu também já tive um manuscrito recusado em uma revista muito conceituada na área da Saúde Coletiva, por utilizar o referencial Marxista. Segundo o avaliador, um referencial “fora de moda”.
    Pode?

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  8. Amana Mattos // 26/06/2014 às 16:39 // Responder

    Rodrigo Constantino deve estar dando “capacitação” para os pareceristas da CAPES. Lamentável…

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  9. Bem Basco,
    Primeiro em momento algum vc refuta meus argumentos, apenas ironiza.
    Segundo, o que eu afirmo é que a dialética não é ciência, pois se apresenta por um método fundamentalmente subjetivo, ou seja, não se sujeita a prova empírica, logo não pode ser testada cientificamente. Terceiro, que todos os grandes pensadores erraram, é uma afirmativa sua!
    A propósito, vc colocou todos os pensadores no mesmo balaio de gato como se a dialética utilizada por eles fossem iguais, e mais, gostaria que vc mostrasse um texto de Freud e de Voltaire onde eles tenham usado a dialética.

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