Mercado de Água Fria

Água Fria, já disse antes, não é um bairro. Aqueles 193 hectares aflorados entre o Arruda e Fundão, que sobem para o Alto do Pascoal passando pela Bomba do Hemetério ou pelo Beco da Beliscada, hoje Travessa do Dowsley (quem foi Dowsley, para ser mais digno que a Beliscada?), para esse mundo de história pessoal pouco importa que Água Fria nos documentos oficiais apareça como um bairro. Para o autor, Água Fria é um sentimento. A gente escreve isso e fica imóvel, para e paira. A vontade que dá é fazer um livro que explique o sentimento, como se fosse uma narração de anatomia, um inalcançável Rembrandt de luz, definido, para os significados do coração. Mas não cabe por ora, este é um dicionário com limites de linhas, de espaço e de gênero. É necessário ser objetivo.

No entanto um gosto de peixe de coco nos vem. Isso quer dizer que o Mercado Público de Água Fria vem do tempo de uma sexta-feira santa, o que significa: havia um mercado natural, desenvolvido de frutas, verduras e peixes antes do prédio inaugurado em 1954. Na Rua Japaranduba, que corre curta em metros a seu lado, um cenário de vendedores ambulantes já se estabelecera antes, ao que um prefeito construiu para o espontâneo do povo aquele prédio ali. Em forma de hangar, como um depósito para aviões.

Consulto o calendário e descubro que 26 de janeiro de 1954, o dia de inauguração do Mercado de Água Fria, caiu numa terça-feira. Mas aqui uma voz íntima sussurra que o significado objetivo de uma data é para a gente o subjetivo daquele dia. Há um tempo que é olfato. Associado ao peixe, vem um cheiro denso, perfumado, das noites em frente ao mercado, quando o abacaxi trescalava, amadurecia no sereno. Era um vento que soprava no calor e trazia pra gente desejos impossíveis. De que natureza somos feitos? Que demônio ou anjo nos pôs no peito desde a infância uma carência fora dos bons costumes? Do abacaxi vinha um perfume quase entre sombras, porque a frente do mercado, que dava para a Avenida Beberibe, não era bem iluminada. E, coisa rara, nesse quase escuro não havia malefício, era um bem para a alma da gente, assim como, se comparamos mal, cheiro de namorada pela noitinha, sem o testemunho da lua.

Mais de uma vez, quando vou a Água Fria, maneira de dizer, pois não vou, sempre volto a Água Fria, ou mesmo quando passo de carro pela frente do mercado, procuro aquele cheiro das noites de abacaxi que trescalava de ardor, entre doce e ácido. Mas não sei bem agora se esse era um cheiro que descia da fruta, ou se era o sentimento que o cheiro despertava na gente. Ardor, desejo, necessidade entre doce e ácido. Que diabo essa coisa de haver civilização em meninos pobres! Quanta ironia em haver sofisticação de alma em quem possuía apenas o básico. Esse cheiro de abacaxi maduro na noite, esse perfume que cintila e trescala, embriaga e faz sonhar até um desalmado, que ironia.

Havia mais perto, e disso lembro bem, os boxes de caldo de cana. Por Deus, é escrever “boxe de caldo de cana” e vem logo na boca o gosto do pão doce que se ensopava na língua junto ao verde do caldo. Os boxes tinham balcões altíssimos, inalcançáveis para um menino de 6 anos. Se a memória não trai, um copão cheio era cerca de 500 réis. Isso era moeda preciosa de 50, com aparência de 50 centavos de hoje, mas com um maior poder de compra, porque nos dava um caldo de cana ou a passagem do bonde. Duas maravilhas, cada uma em seu lugar e ocasião. Dois objetos de consumo de valor para a gente mais pobre. 

Havia Cecília, ou será Cristina?, irmã do mudo da leiteria da Rua Japaranduba. Ela era um bem maior que o porquinho-da-índia de Manuel Bandeira. As sombras da noite em torno do mercado, propícias ao crime, conspiravam contra os meninos que amavam as moças grandes. Os enamorados queriam as sombras, sabíamos. E nós, pequenos, tínhamos a triste sina de amar as namoradas que já tinham namorados. E se elas não os tivessem, qual seria o nosso futuro? Um sofrimento sem remédio, somos obrigados a concluir à distância. 

Nos comerciantes internos do mercado, os privilegiados que conseguiram os seus pontos, se misturavam os vendedores de charque “gorda e magra”, pois charque no seio do povo era, é do gênero feminino, a charque. Compravam-se de preferência partes misturadas de charque, pois a faca do português corria perita no corte. Era bom também ver na entrada do mercado, de quem entra pela Avenida Beberibe, à direita, o boxe do irmão de Sivuca, que vendia alpercatas e chinelos. Louro, branco avermelhado feito o irmão, mas nada albino, de tal modo enxergava bem nos preços e no comércio. Com o seu trabalho pagou a instrução do filho Emídio, um colega de turma do Colégio Alfredo Freyre, que na maturidade, anos depois, dirigiu o CNPQ e a reitoria da Universidade Rural por dois mandatos.

É inesquecível para mim a pessoa de Ivo, dono de um boxe à esquerda da entrada. Ele estudava economia, era leitor de Celso Furtado. Ivo me apresentou a Bira, o primeiro comunista que eu soube ser comunista em Água Fria. Bira me falava das teorias de Darwin, enquanto eu lhe repetia a fé em Deus, embora eu próprio não possuísse tanta. Antes de Bira, Ivo foi a primeira pessoa de esquerda que conheci na adolescência, a primeira a se declarar assim em fenomenais discussões. Escrevo agora e noto que o reino da cultura é a pátria da comunhão entre toda a gente. Num clima de feroz repressão e de caça aos comunistas, Ivo discutia as luzes do socialismo com um menino magro, leitor de Seleções. Havia uma base de confiança entre nós, porque eu buscava uma razão no mundo, e o amigo Ivo afirmava ter o caminho para resolver o meu desnorteamento.

Tempos depois reencontrei Ivo na Encruzilhada, já idoso. Lembrei-lhe o seu papel de formador de caráter, mas ele nem se dava conta da importância que tivera. “Que é isso, rapaz? Eu não fui isso não”. O tempo congelado para mim era desconhecido para ele. Escrevo isto agora e a vontade que tenho é de parar. É de sair e ficar ouvindo a valsa Eurídice nas mãos de Baden Powell. É saber que as coisas mais sérias têm uma vida efêmera, que só se perpetua na escrita, se esta algum valor tiver. No mais, é esquecimento. Que matéria difícil de encarar, que bruta e insensível é a própria matéria do tempo.

A gente nem imaginava, mas ali perto do Mercado, na Rua Japaranduba, havia um comunista organizado, dirigente de célula, um homem que por si só, para quem não o conheceu, parece mais um personagem de fábula. Era seu Luiz, o barbeiro. Luiz Beltrão falava inglês, estudava filosofia, tanto na universidade quanto fora dela, isso em 1960, e depois se fez professor de escola pública. Um barbeiro professor de filosofia não seria mais próprio de uma história de Andersen? A gente nem se dava conta, mas o mundo da fantasia era parte da realidade dos nossos dias. E por isso o maravilhoso nos tomava como se fosse a coisa mais natural e elementar. Na barbearia de seu Luiz os moleques, os maloqueiros como eram tidos os jovens sem eira nem beira, sabemos hoje, os desocupados podiam entrar e ler à vontade as revistas e as reportagens de O Cruzeiro. Como se clientes fossem, todos os dias, todas as manhãs. Não sabíamos, aquilo era uma liberdade aberta por um comunista, barbeiro e filósofo.

Na frente do mercado também se apresentavam mamulengos, os espetáculos de fantoches, como a ele se referem os dicionários do sudeste. Nesse particular, o Mercado Público de Água Fria copiava a história do Mercado de São José, em que um prédio faz encontro do comércio e de manifestações culturais. E para a frente do mercado descia, lá do Alto do Pascoal, um dos maiores artistas de teatro de bonecos: Ginu, o criador do personagem O Professor Tiridá. Era um encanto para adultos e crianças. Mas além de Ginu, que ficou conhecido como O Professor Tiridá, assim como Chaplin se transformara em Carlitos, além de Ginu havia uma excelência da arte da ilusão que era um senhor ventríloquo. Não sei o nome dele, mas sei que era ótimo em dar vida a um boneco negro, do tamanho de um menino, a quem ele chamava de Benedito. Hoje compreendo que veio dele a minha primeira e inesquecível lição de romancista. Os personagens têm vida, se tornam pessoas pela verdade que falam. O boneco falava, e me segue até hoje. É um sonho que não me deixa. Eu sempre pedia à minha mãe, quando ela saía: “quando voltar, traga o boneco que fala”.

A volta do Professor Tiridá e do boneco Benedito, de seu Luiz, de Ivo, da moça linda da leiteria da Rua Japaranduba, ter a retenção do Mercado de Água Fria e possuir a volta de pessoas e entidades que nos falam até hoje, isso para nosso desgosto não pode, é impossível. Mas o Mercado de Água Fria ainda está lá. Queremos dizer, o prédio erguido no mesmo espaço físico bem que poderia ser recuperado com banheiros mais limpos, bares com melhor cardápio, para encontros gastronômicos e shows de música e lançamentos de livros. Um lugar digno à altura da sua história, queremos dizer. Isso não é um sonho. No Mercado da Madalena, no Mercado da Boa Vista essa festa de carne e alma já acontece. Um mercado de bairro popular deveria receber o mesmo carinho e zelo. Ou será este o sonho impossível?

*Do Dicionário amoroso do Recife, publicado pela Casarão do Verbo.
Leia também Eutanasinha.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

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