Estrelas de couro: a estética do cangaço

14.05.16_Estrelas de couro

Por Luiz Bernardo Pericás.

Resultado de pesquisa minuciosa realizada entre 1997 e 2000, Estrelas de couro: a estética do cangaço (Escrituras Editora, 2010), do historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor do já clássico Guerreiros do sol (publicado originalmente em 1983), coroa quase quarenta anos de estudos sobre o cangaço, desta vez, abordando especialmente a estética, os símbolos e os trajes de Lampião, Corisco e outros bandoleiros emblemáticos. Em linguagem sofisticada, quase poética, Pernambucano de Mello, escritor inserido na linhagem intelectual (e familiar) de Gilberto Freyre e Evaldo Cabral de Mello, descreve o dia a dia dos cangaceiros, seu cotidiano nas agruras do sertão e agreste nordestinos, trazendo de volta à vida aqueles que, segundo ele, são um exemplo nítido do “irredentismo coletivo, armado, popular e metarracial brasileiro”. Afinal, para ele, “os objetos falam”. E é justamente através dos objetos, muitos de sua coleção particular (possivelmente a maior do país), que o autor penetra no mundo dos cangaceiros, seus hábitos, seu estilo de vida.

A indumentária daqueles homens, neste caso, só seriam comparáveis às dos cavaleiros medievais e dos samurais. Em um ambiente cinzento e árido, usariam roupas coloridas, trabalhadas com esmero, com o objetivo maior de lhes proporcionar uma voz singular, um rosto, uma personalidade. Os símbolos “mágicos” nos chapéus, por outro lado, cumpririam não só uma função estética, mas também lhes dariam proteção, ou seja, uma “blindagem mística”. Por isso, o uso de signos-de-salomão, estrelas de oito pontas, cruz-de-malta e flor-de-lis, por exemplo, vestígios quinhentistas e seiscentistas que teriam permanecido até quase meados do século XX, uma clara referência do autor à força exercida pela cultura e pelas mentalidades dentro de uma análise histórica de longa duração. Frederico, portanto, intelectual ao mesmo tempo gilbertiano e braudeliano.

“O livro que eu gostaria de ter escrito”, afirma Ariano Suassuna no prefácio da obra. A frase de efeito tem motivo, já que Pernambucano de Mello certamente sabe como poucos escrever em estilo apurado e ao mesmo tempo com grande profundidade, sobre o banditismo rural nordestino. Por sua vez, Melquíades Pinto Paiva, responsável pelo mais completo dicionário bibliográfico sobre o tema, Cangaço: uma ampla bibliografia comentada, para referenciar o livro, citaria um texto de divulgação indicando ser esta “a primeira produção de história íntima sobre o fenômeno de insurgência social de maior apelo popular do Brasil”, opinião confirmada pelo próprio historiador em entrevista ao jornalista Francisco Bezerra em Recife na época do lançamento deste trabalho. Ou seja, em suas páginas, Estrelas de couro, de acordo com o próprio Pernambucano de Mello, passaria pela “história do imaginário” e também se situaria, por outro lado, “dentro do prisma da história das mentalidades”.

Desde seu “Aspectos do banditismo rural nordestino”, de 1974 até a recente biografia do árabe Benjamin Abrahão, Frederico tem produzido trabalhos fundamentais para o entendimento do Brasil profundo. Do período em que integrou a equipe do sociólogo Gilberto Freyre na Fundação Joaquim Nabuco, de 1972 a 1987, até hoje, o membro da Academia Pernambucana de Letras lançou estudos importantes, como A guerra total de Canudos (1997), Delmiro Gouveia: desenvolvimento com impulso de preservação ambiental (1998) e Tragédia dos blindados: a revolução de 30 no Recife (2007). Isso para não falar no já citado Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros, publicado em 2012, outra obra de bastante repercussão quando lançada.

Também cabe destacar aqui, sobre este “ensaio interdisciplinar”, finalista do Prêmio Jabuti, a beleza das fotos e ilustrações, os capítulos referentes aos punhais, chapéus e trajes de volantes e cangaceiros, assim como a assimilação de Lampião e seu grupo na cultura nacional, em pinturas, revistas, jornais, sambas, canções populares, cordéis, cinema e literatura. Em suma, um livro imperdível. 

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Recomendamos a leitura do aclamado Os cangaceiros – ensaio de interpretação histórica, de Luiz Bernardo Pericás, uma análise cultural, política e sócio-histórica da figura mítica do cangaceiro, referência obrigatória para o estudo banditismo rural nordestino e seus desdobramentos na atualidade. Gilberto Freyre também é um dos autores contemplados na nova coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizada por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco, que procura recuperar os pensadores críticos do país marginalizados pela historiografia hegemônica.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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