Crônicas de Berlim: Tinha umas pedras no meio do caminho

14.05.15_Flávio AguiarPor Flávio Aguiar.

Está difícil ser brasileiro em Berlim e manter a calma. Até mesmo o bom humor. A minha esposa até já me perguntou se eu estava arrependido de vir para cá. Não. Não estou. Mas está difícil.

A Copa envenenou o clima. Bom, não foi propriamente a Copa. Foi a mídia. As mídias. Não há dia em que não pingue  – no rádio, na TV, nos jornais ou revistas – pelo menos uma notícia contra o Brasil. É: contra o Brasil. Não se trata de apontar críticas, o que é normal. Trata-se de uma campanha, uma verdadeira campanha de descrédito.

A Copa vai bem,  obrigado. Outro dia ganhei de brinde num supermercado uma figurinha – aqui também, ou ainda, existem álbuns de figurinhas – do simpático goleiro alemão Neuer. Bandeiras do Brasil aparecem em lojas – como na do meu amigo turco aqui perto da minha casa – ao lado das alemãs e outras. O povo se prepara para assistir os jogos, e torcer. Etcétera.

Mas a mídia… É assim: nada vai dar certo, o Brasil é um país em constante naufrágio, mergulhando num oceano de corrupção, incompetência, sem esperança de resgate, um país de miseráveis, um país pobretão onde só há violência, enfim, uma espécie de vergonha para a humanidade. Um país sem futuro (pobre Stefan Zweig!), sem presente. Ah sim, e desmemoriado, ou seja, sem passado. Um farrapo humano.

A última edição que vi deste verdadeiro assalto foi um programa de TV da cadeia ARD sobre o estádio de futebol de Manaus. Um desastre, uma catástrofe, era o tom do comentário. Vai abrigar uma meia dúzia de jogos (os da Copa), e depois fechar para balanço. Em Manaus não há futebol que sustente um estádio daquele tamanho e – é bom dizer – daquela qualidade. De quebra apresentaram uma “manifestação” contra os gastos da Copa. Seria cômico, se não fosse uma tragédia jornalística. Uma meia dúzia de gatos pingados com uns poucos cartazes, e uma jovem, faminta por seus quinze segundos de fama, dizendo que não era contra a Copa, mas contra os gastos, etc. Daí puseram no ar alguém do mundo oficial dizendo que o estádio podia servir para outras coisas também, que assim não iria fechar. Mas o narrador fechou dizendo que ia. E ponto final: o destino está traçado, como numa tragédia grega. Convenhamos: Manaus é mais complexa do que esta pobreza enlatada e televisiva.

Dias atrás fui a uma reunião convocada pela mesma cadeia ARD para jornalistas, sobretudo, é claro, alemães, que vão ao Brasil durante a Copa. Na mesa a correspondente da TV Globo e da revista Veja, uma jornalista que escreve na mídia alemã sobre a Copa e a responsável pela formação de jornalistas para o Brasil pela Deutsche Welle, a agência estatal de notícias internacionais (isto existe aqui, e ninguém acha que isto atente contra a liberdade de imprensa).

Claro que houve declarações e críticas até bem intencionadas. Mas se eu fosse reduzir o encontro a palavras-chave, seriam muito poucas: Rio de Janeiro, favela, UPP, Copacabana, no primeiro plano; no segundo, colete à prova de balas (para ir à favela), violência, cuidado com os equipamentos, praça de guerra, perigo, e só. Ah sim, de repente falou-se de uma imagem que sempre aparece por aqui, “Amazônia”. Apenas para lembrar do absoluto “descaso” do governo brasileiro pelo meio-ambiente. Em suma, uma indigência em torno de clichês desgastados. Um país de 200 milhões de habitantes (duas Alemanhas e meia), oito mil quilômetros de comprido e outros oito mil de largura, reduzido a um punhado de lugares-comuns.

E assim o barco vai, dia após dia. Na segunda-feira passada um grupo de dez pessoas apedrejou a embaixada brasileira à uma hora da manhã. Estavam mascarados, e jogaram umas oitenta pedras, quebrando cerca de 30 vidraças. Felizmente não houve vítimas, apenas danos. Os atacantes – provavelmente preservando-se para fazer a revolução daqui a alguns dias – fugiram antes que a polícia chegasse. Fui la no dia seguinte, ver o que acontecia. Deparei com o prédio isolado, cordões de plástico, policiais isolando a área, etc. O grupo – ou alguém, em seu nome, ou usurpando a ação – divulgou um manifesto na internet, solidarizando-se com as manifestações “Não vai ter Copa” no Brasil. Furchtbar (horrível, medonho) e lächerlich (ridículo) ao mesmo tempo.

Aparentemente esta violência nada tem a ver com o clima de apedrejamento simbólico que o Brasil vem sofrendo na mídia alemã (e outras, sobretudo aquela que representa a City financeira londrina, The Economist e The Financial Times). Mas tem. Uma coisa é moldura da outra, ainda que não se queira dizer que haja uma incitação ao apedrejamento. O que a mídia faz, nestes casos, é apontar o alvo. Aí cada grupo parte parte para a loucura que quiser.

O drama é este: há um alvo apontado. Há uma desconstrução sistemática da aura deste alvo e de sua complexidade humanas, fazendo dele o bode expiatório de qualquer sentimento acumulado de frustração e ressentimento.  Conhecemos o processo, não? Talvez ele tenha se manifestado em circunstâncias muito mais dramáticas e trágicas aqui mesmo nesta Alemanha, no passado não tão remoto assim. Os personagens não são os mesmos. Mas a estrutura do processo é análoga.

Por quê tais atitudes na mídia? Na desqualificação do Brasil – sobretudo do governo brasileiro, empreendida por publicações como as citadas em nome da City londrina – compreende-se que haja  um embate ideológico, que elas desejem ajudar as oposições brasileiras a vencer as eleições em outubro. Mais ou menos como faz a mídia tradicional no Brasil, oligárquica e conservadora, que também apedreja diariamente o governo e por tabela o país.

No caso da imprensa alemã, penso que o motivo não é tão claro nem tão unívoco assim. É algo mais complexo. Na constelação das nações o Brasil mudou de lugar na última década. Navegando na contramão dos severos planos de austeridade, todos recessivos, impostos na Europa, o Brasil surpreendeu.

Num período em que o mundo perdeu 60 milhões de postos de trabalho (dados da OIT), o Brasil criou 16 milhões de novos postos (dados do IBGE, do DIEESE). O poder aquisitivo dos trabalhadores aumentou. O acesso à universidade também. As empregadas domésticas brasileiras – sempre apontadas como o resquício dos tempos da escravidão – hoje têm mais seguridade social do que as imigrantes que trabalham clandestinamente na Europa e na Alemanha também. Os brasileiros viajam muito mais de avião do que há dez anos atrás, dentro e fora do país.

O país deixou de ser devedor do FMI. Passou a ser credor. Não só do FMI: da União Europeia também, através do Fundo de Emergência de ajuda aos países endividados e ao sistema financeiro abalado do Velho Continente. O tempora,  o mores. O Brasil tornou-se uma liderança no G-20 e uma referência mundial em matéria de políticas sociais. Antes, foi até o fundador do Fórum Social Mundial, vejam só. É de arrepiar os cabelos. Até os nossos, por que não os dos outros?

Poderia citar mais. Os exemplos dados evidenciam esta mudança de lugar. Porém é difícil reconhecer esta mudança na constelação das ideias. Ela faz assomar um oceano de inseguranças. A reação mais imediata é a de olhar para o presente e para o futuro através do espelho retrovisor: restaurar a constelação do passado. Esta é a reação, que pode ter consequências ideológicas, é claro, que se manifesta em vários momentos na mídia alemã. Na de outros países também. Mas aqui esta manifestação é muito constante e muito forte. É preciso restaurar a imagem do Brasil pobretão e sem saída.

Por que será? Será porque a última Copa jogada na Europa aconteceu na Alemanha, e é visível motivo de orgulho por aqui? (E  justificado, por que não?) Será que este desprezo pela Copa no antigo terceiro mundo (em relação a África do Sul houve o mesmo amontoado de questionamentos, e ah! bons tempos em que havia um “terceiro mundo”) seria uma maneira de inconsciente ou subrepticiamente enaltecer o valor nacional alemão – tema tabu e intocável diretamente por aqui?

Vá se saber. Vamos pensar. Mas sem pedradas, por favor.

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Recomendamos a leitura do livro Brasil, país do passado?, organizado por Antonio Dimas, Berthold Zilly e Ligia Chiappini, e com o qual Flávio Aguiar colabora como autor (além de assinar a orelha do livro).

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

1 comentário em Crônicas de Berlim: Tinha umas pedras no meio do caminho

  1. “BOM DIA! GOSTO DO ARTICULISTA E PENSO QUE ELE FOI MAIS FELIZ EM OUTROS MOMENTOS, MAS SE É VERDADE QUE CÁ NOS TRÓPICOS EXISTE UMA OPOSIÇÃO DE DIREITA, EXISTE TAMBÉM UMA POSIÇÃO DE ESQUERDA, NO CASO DETERMINADAS COMPARAÇÕES DE UMA EUROPA RICA, E UMA AMÉRICA POBRETONA, E VERDADE SEJA DITA, BEM AO GOSTO DOS FINANCISTA, MAS PARECE QUE O MESMO EXAGEROU NO ARGUMENTO PARA DESQUALIFICAR AS MANIFESTAÇÕES DE RUA, QUE POR SINAL O ARTICULISTA TALVEZ POR ESTAR MUITO DISTANTE ACHE QUE O TAL “GOVERNO PROGRESSISTA” SEJA O QUE MELHOR PRODUZIU NESTE MOMENTO A NOSSA PÍFIA DEMOCRACIA, QUEM SABE AS MANIFESTAÇÕES COM “POUCAS PESSOAS” COMO TEVE NO ANO PASSADO, FORAM PARA DESESTABILIZAR ESTE “GOVERNO PROGRESSITA”, AFINAL, QUEM SABE O DINHEIRO PÚBLICO QUE FOI EMPREGADO EM REFORMAS E AMPLIAÇÃO DE ESTÁDIO PARA “BENEFICIAR O PAÍS”, SEJA MAIS IMPORTANTE DO QUE INVESTIMENTO EM SAÚDE E EDUCAÇÃO, SEJAMOS CLAROS, COMEÇO TER DESCONFIANÇA NESTA PALAVRA PROGRESSISTA.

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