A mãe e o valentão

Dirico era o menino mais valente no beco. Talvez também o maior brigão nas redondezas. Ele era menino de família grande. E família vai aqui num sentido não só de aglomerado de pessoas desunidas por laços de sangue, mas também num sentido forçado, porque de miseráveis não se dizia possuírem família, deles se dizia terem outra coisa. Além da família num sentido especial, Dirico era um dos filhos do sapateiro cotó, conhecido por essa mutilação, “o Cotó”. Dos filhos do Cotó ele era o de gênio mais violento. (“Na infância se dizia, ‘tem gênio’, para identificar pessoas de temperamento difícil, irritável, explosivo”, lembra. ) De pequena estatura, o que para os meninos maiores era um convite para lhe dar uma lição, e uma vergonha, na volta, pela lição recebida, ele não impressionava por músculos ou por força nos braços. Esperto, disso tirava partido. Rápido, ágil no ataque, em lugar de se mover com prudência, a estudar o adversário como os boxeadores antes dos golpes, ele partia logo para derrubar o que estivesse pela frente. Como? Do natural pequeno, descia ainda mais a cabeça no primeiro movimento, e como um touro investia com cabeçadas, e com tal surpresa e acerto, que os grandes e médios meninos eram derrubados, ou, se cambaleassem em pé, desnorteavam de dor. Ele vencia sempre. Assim era e assim foi com Jimeralto. Mais de uma vez Dirico lhe havia aplicado uma surra. Não de ser espezinhado na humilhação, que, naquele tamanho, a natural perversidade em Dirico ainda não se desenvolvera plena, como veria mais tarde nos valentes do bairro, que chutavam a cara do inimigo caído. Não. À maneira dos gatos que matam o rato e o deixam de lado, Dirico vencia, ganhava os elogios e partia para diferente ocupação. Mas se a humilhar não chegava, o abuso vinha de outra maneira. Como todo vencedor que se torna íntimo, Dirico já não respeitava Jimeralto. Ordenava-lhe:

– Me dá um taco desse pão!, e apontava para o pedaço que Jimeralto comia. E à recusa ameaçava:

– Quer briga?

E não faltavam os bons companheiros das demais casinhas, a incentivar o espetáculo:

– Olha, ele quer dar não, ó… quer dar não. Tu aguenta isso, Dirico?

Assim era. E de tal sorte chegava o desrespeito, que certa ocasião, na presença de Maria, Dirico partiu no costume de antes para Jimeralto, tão senhor do escravo se julgava.

– Me dá um taco!

O taco dessa vez era de uma banana que Jimeralto comia. Ele fez que não ouvira. E Dirico cresceu, ainda mais ameaçador:

– Me dá um taco!

Jimeralto olhou para Maria. Ela, sentada no assento improvisado de tijolos, que imitava um banquinho, em silêncio o observava. E por isso Jimeralto devolveu para o menino mais valente do beco:

– Você é besta? Vá pra merda.

Dirico não acreditou no que ouvira:

– O quê?! Quer briga?

Os outros meninos se acercaram. Maria, calada, observava. Ela só possuía olhos para o filho. Não interveio, não interviria, pensava Jimeralto no outro século, 12 anos adiante: ela queria ver se ele reagiria como homem, ela queria ver se ele confirmava uma sina triste para ela, amar pessoas que não agiam como homens, porque entre eles não encontrava sorte. “Quer briga?” Jimeralto ouvira. E diferente de outras vezes, em que para não apanhar mais uma vez respondia “Toma!”, com falsa raiva, para se mostrar digno quando era servil, desta vez respondeu:

– Que é que há?

Ah, para quê? Hum, pra quê? Sem dizer lá vai, Dirico arremessou contra ele o golpe mortal. Sem gesto de aviso, como um raio, meteu-lhe uma cabeçada no ponto sensível do fígado, que em uma briga, ao sofrer um golpe, funciona como testículos na pancada. A dor de Jimeralto veio funda. Sem conseguir respirar, sem fôlego, faltou-lhe a voz. E como ele não saiu da arena para chorar escondido, como sempre fizera, Dirico o castigou mais violento: meteu-lhe outra cabeçada e o derrubou. E com o inimigo derrubado jogou-se contra o corpo estendido. Sentou-se em cima para melhor machucá-lo. Dessa vez, Dirico não era mais o gato que despreza o rato imobilizado, dessa vez Dirico queria ferir o rato para o animal nunca mais esquecer. Então, naquela agonia, naquele suplício, Jimeralto buscou Maria. E viu que ela estava em pé, entre a vergonha e a censura, lhe pareceu, mas não, Maria estava indecisa entre socorrer o seu homem e o grito “vamos, levante-se, vamos, reaja”. Jimeralto não soube depois se agiu por vergonha, pela mais profunda vergonha, a de se mostrar um filho de Maria abatido na frente de Maria, ou se agiu abrigado, fortalecido pelo olhar que dizia “Não tenha medo, derrote esse medo, eu estou a seu lado. Vamos”. Então ele viu: maior que a dor, a deixá-lo sem fala, era o medo da dor. Que era aviltante, mais doloroso que a dor, esse medo. Então fosse por vergonha, fosse por se achar fortalecido, ele abriu mais os olhos e viu a cabeça de Dirico, a descer o catarro das ventas sobre ele, e assim com os olhos abertos, em lugar de antes quando os tinha fechados para não ver a sua abjeção, viu tudo em roda, o céu girando, mas perto estava Maria, e por isso quis erguer o braço, impossível, porque Dirico o mantinha preso. Então, num recurso de luta que em canto nenhum aprendera, por trás da fera trouxe as pernas, enganchou-as no pescoço de Dirico e o empurrou de volta, derrubando-o no chão. Ah, agora era a sua vez. Partiu para cima de Dirico e lhe deu murros, muitos muros, pagamento do velho e atrasado, até que Maria, com carinhosas, doces e falsas reprimendas o levasse para a casinha.

– Está feito galo de briga? Venha tomar um banho morno.

Dirico, com a cara inchada, a partir dali nunca mais lhe tomou pedaço de pão. A sua arma mortal havia caído sob o olhar de Maria.

*Do romance O filho renegado de Deus, editora Bertrand Brasil, 2013.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

1 comentário em A mãe e o valentão

  1. Veralucia Pereira da Silva // 13/05/2014 às 10:55 // Responder

    Vera Lucia Pereira da Silva”Possa o longo sol brilhar sobre você,Todo amor circundá-lo,E a pura luz dentro de vocêGuiar o seu caminho”😉

    Date: Tue, 13 May 2014 08:01:28 +0000
    To: vluciaa7@hotmail.com

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