Movimento Passe de Classe

13.10.11_SoutoMaior_Passe de ClassePor Jorge Luiz Souto Maior.

Recentemente, a sociedade brasileira foi definitivamente influenciada pelo Movimento Passe Livre, no sentido de compreender a importância das mobilizações populares na luta pela efetivação de direitos.

Ainda que muitos insistam em fazer crer que se tratou de uma onda passageira, sem maiores implicações históricas, o fato é que várias têm sido as repercussões positivas daquele momento, sendo que a mais recente está prestes a ocorrer exatamente na estrutura mais arcaica e antidemocrática da sociedade brasileira, que é o futebol.

Noticia-se que 75 (setenta e cinco) atletas profissionais do futebol organizaram um movimento para questionar o calendário fixado pela CBF para o ano de 2014.

Esse movimento bem que poderia se chamar Movimento Passe de Classe, por vários motivos.

Primeiro, para, fazendo alusão ao Movimento Passe Livre, expressar que as manifestações de junho repercutiram na mobilização dos jogadores, servindo, inclusive, para demonstrar uma interação destes com os problemas sociais brasileiros.

Segundo, para deixar claro, já no nome, que a reação contra um calendário que só vislumbra os interesses econômicos e políticos dos clubes e das entidades ligadas ao futebol, desprezando a salubridade e a própria sanidade dos trabalhadores, quais sejam, os atletas, tem a função, também, de preservar a qualidade dos passes e dos dribles, em nome de um melhor espetáculo, pois o futebol, por intermédio da construção romântica de tantos poetas, tornou-se também uma arte.

E terceiro, e mais importante, para que os atletas profissionais de futebol assumam, enfim, a sua feição de classe, uma classe de trabalhadores, o que, ademais, representa algo efetivamente revolucionário no meio e serve de grande exemplo para os demais trabalhadores.

O fato é que a estruturação econômica do futebol tem servido, ao longo dos anos, para desprezar a amplitude dos direitos fundamentais dos atletas, os quais acabam se submetendo a inúmeras situações supressivas da dignidade, tudo em prol dos interesses maiores dos clubes, considerados, inclusive, como entidades que carregam a responsabilidade de manter sobre controle social uma legião de seguidores ardorosos e doentes, os torcedores.

É bem verdade que hoje em dia, muitos clubes possuem uma estrutura exemplar no tratamento da saúde e do desenvolvimento do potencial atlético dos jogadores, mas isso está longe de constituir a generalidades dos casos e não elimina todos os sacrifícios a que os atletas são expostos com a quantidade excessiva de jogos, com as concentrações e, até mesmo, com a constante insegurança quanto ao efetivo recebimento dos salários, sem falar de todas as situações que passam ao longo da construção da carreira até conseguirem alcançar os denominados bons empregos, com boas condições de trabalho e bons salários (por vezes ilicitamente disfarçados em direito de imagem).

Desde a formação, os jogadores estão sujeitos a várias agressões. No caso brasileiro, são expostos desde cedo à condição de deixarem os estudos em segundo plano, para privilegiarem a dura luta por um lugar ao sol no futebol (lógica que, infelizmente, se estende a todos os demais esportes). E, para tanto, são expostos, bem cedo, à lógica da concorrência, com incentivo a uma postura individualista na busca do sucesso, da estabilidade econômica e da fama, almejando chegar à condição especial de “astros” do time e de, assim, angariarem a “adoração” da torcida.

Só que até a realização desse sonho, que se concretiza para muito poucos, os jogadores vão se desumanizando até o ponto de se verem considerados como um “patrimônio” do clube ou de “empresários” e neste percurso vão aceitando quase que naturalmente as condições de trabalho impostas e, em geral, dando-se por satisfeitos e agradecidos por terem a oportunidade de participar da equipe, reforçando-se a lógica do favor/gratidão pela difusão da ideia de que os clubes “investem” nos jogadores, de onde advém, aliás, a racionalidade de uma espécie de “escravidão por dívida”, da qual apenas se libertam com o pagamento do “passe”, lógica esta que se reforça seja pela sensação de que a realidade de “pertencerem” a um clube ou a um empresário já é por si bem melhor do que a vida difícil que tinham antes (no geral das vezes), seja pela esperança de que dias ainda melhores virão. E essa opressão é favorecida pelo caráter restrito deste mercado de trabalho, no qual muito facilmente se identificam os “rebeldes” do futebol, que passam a levar consigo essa “marca” e a ser alvo de retaliações, ainda que veladas.

A presente mobilização dos atletas profissionais de futebol contra o calendário significa, portanto, um passo essencial para que estes desenvolvam uma efetiva consciência de classe, promotora da solidariedade, permitindo que reconheçam, enfim, a importância da ação sindical, para que, desse modo, na perspectiva de uma atuação coletiva, várias outras formas de supressão da condição humana dos jogadores sejam postas em pauta, a começar, talvez, pela necessidade de preservação do direito fundamental à privacidade.

A situação vivenciada pelos jogadores de futebol, no sentido das dificuldades, não é pior que aquela por qual passa a enorme maioria dos trabalhadores brasileiros, aliás, muito pelo contrário, até porque estes não são tratados com qualquer espécie de “glamour”, não recebem vultosos salários e estão por aí enfrentando enormes dificuldades para chegar e voltar do trabalho, para manter o emprego e, em certo sentido, para conseguir sobreviver.

De todo modo, não se pode menosprezar as dificuldades enfrentadas pelos jogadores de futebol e minimizar a relevância de sua luta, até porque as histórias de sucesso não se dão para a maioria deles e não é porque se paga ou se recebe um bom salário que a condição humana pode ser aviltada. 

A mobilização dos atletas profissionais do futebol, que se anuncia, é extremamente importante para que se consiga, enfim, dar um basta ao tratamento coisificado que os jogadores têm recebido na relação com os clubes, o que não raramente se estende aos torcedores e mesmo a parte do segmento do jornalismo esportivo, e para que os demais trabalhadores brasileiros percebam que se mesmo neste ambiente hostil à ação coletiva, vez que se baseia na lógica do individualismo e na concorrência predatória, ainda que o jogo seja coletivo, a mobilização organizada é possível, sendo, ademais, a única capaz de alterar a realidade, com muito mais razão devem considerar que a solidariedade de classe é a essência de sua luta trabalhista. Devem reconhecer que não será pela reprodução da lógica da concorrência, da superação do adversário a qualquer custo, que conseguirão uma situação progressiva ou revolucionariamente melhor.

Em suma, que os atletas profissionais do futebol consigam com seu Movimento melhorar o Passe e se vejam, enfim, como Classe.

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Recomendamos também a leitura de Democracia corintiana: a utopia em jogo, de Sócrates Brasileiro e Ricardo Gozzi.

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Jorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com o qual colabora com o texto “A vez do direito social e da descriminalização dos movimentos sociais”. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos conhecidos como as “Jornadas de Junho”, com textos de autores nacionais e internacionais como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski, Carlos Vainer, Venício A. de Lima, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa. O livro também conta com um ensaio fotográfico do coletivo Mídia NINJA e ilustrações sobre as manifestações de Laerte, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Fido Nesti, Bruno D’Angelo, João Montanaro e Pirikart, entre outros.

Cidades Rebeldes_JornadasConfira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Lincoln Secco, Dênis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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