De bar em bar XXIV: Ferro’s Bar

13.05.07_MouzarBenedito_FerrosBarPor Mouzar Benedito.

Eu já morava em São Paulo em 1964, mas era ainda um molecão, não frequentava botecos. Nem tinha dinheiro pra isso. Mas sei que nessa época, antes do golpe militar de 31 de março, os militantes comunistas frequentavam regularmente dois bares aqui: o Riviera, na esquina da Consolação com a Paulista, e o Ferro’s, na rua Martinho Prado, em frente à sinagoga.

Com o golpe, a repressão baixou nesses bares e os comunistas se afastaram, e eles passaram a ser frequentados por outro tipo de gente. O Riviera virou ponto da contracultura, dos grupos underground, de artistas e de uma esquerda estudantil meio festiva. Ficou famoso, entre outras coisas, por seus garçons antigos, íntimos de todo mundo, que até bebiam com os fregueses. Muitas revoluções de boteco foram discutidas nas madrugadas que – já nesse tempo “alternativo” – a gente varava lá.

O Ferro’s Bar passou a ser ocupado pelas lésbicas. Em 1967, quando eu me mudei para a avenida 9 de Julho, ali pertinho, suas mesas eram ocupadas por casais de mulheres ou por grupos de lésbicas. A comida era de ótima qualidade e barata, e o bar ficava aberto a noite toda. Virou um ponto da minha turma.

Dois personagens me vêm à memória quando me lembro do Ferro’s. Um era o Doce e o outro era a Joana (nome fictício). O Doce tinha uma cara imberbe e atraente para as mulheres das lésbicas. Era só a gente chegar ao Ferro’s e ocupar uma mesa que logo ele começava a ser paquerado por alguma delas. E a parceira da paqueradora logo ficava brava, começava a rodear a nossa mesa olhando fixo na cara dele e dando murros na própria mão. Não o atacava porque sempre tinha amigos dele na mesma mesa.

A Joana eu encontrava no Ferro’s por volta de 1975 ou 76, quando eu estudava jornalismo, morando de novo no mesmo apartamento da 9 de Julho. A primeira vez que a vi lá foi num sábado de madrugada, voltando pra casa, a pé, com fome, e parei no Ferro’s pra tomar uma cerveja e jantar. Dei de cara com ela, minha colega da faculdade, no maior amasso com outra mulher.

Ao me ver, ela ficou meio incomodada e eu fui pra uma mesa lá no fundo, pra evitar constrangimentos. Na faculdade, a Joana passou a me cumprimentar meio ansiosa. Percebi que ela tinha receio que eu contasse pros colegas. Como não falei nada, ela pegou confiança em mim. Aí, todas as sextas-feiras me chamava no final das aulas:

— Vamos pegar umas mulheres num bar aí?

Às vezes eu ia, mas quem pegava mulher era só ela, pois os bares a que me levava eram sempre o Ferro’s ou outros pontos de mulheres que só apreciavam outras mulheres. Serviu, entre outras coisas, pra eu descobrir um monte de lugares de São Paulo frequentados apenas por lésbicas. Não imaginava que eram tantos.

Outra coisa que me lembro daquele bar, que infelizmente fechou há alguns anos, é que gostava de sacanear mocinhas ingênuas, principalmente as recém-chegadas do interior, levando-as ao Ferro’s. Elas ficavam de olhos arregalados vendo moças se amassarem, assustavam-se ao serem paqueradas por mulheres.

Fora isso de assustar mocinhas, muitas vezes parava com alguma namorada ali para beber uma cerveja antes de chegar em casa, sem nenhuma intenção de chocar. Numa dessas vezes, eu tinha começado a namorar uma judia e estávamos indo pra casa. Resolvemos dar uma paradinha no Ferro’s. Logo chegou o Ricardinho e ocupou uma cadeira na nossa mesa. Percebeu que a moça era judia e perguntou se ela sabia o que estava escrito em hebraico no portal da sinagoga ali em frente.

A moça olhou, olhou, disse que não se lembrava. O Ricardinho, brincou:

— Pô, eu que não sou judeu sei o que é.

— O que é, então? — perguntou ela, e ele gozou:

— Agradecemos a preferência.

Ela levantou brava, foi embora e eu, que não tinha nada a ver com a brincadeira do Ricardinho, fiquei chupando o dedo. Perdi a namorada.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

1 comentário em De bar em bar XXIV: Ferro’s Bar

  1. Olha… sei não se n conheço alguns conhecidos teus 😀 Eu (Menina do interior) fui levada por um amigo, artista plástico, que se chama Ricardo Barreto, num desses bares, talvez nesse aí 😀 N me lembro bem 😀 Fiquei realmente assustadíssima quando uma garota me paquerou 😀 e a minha amiga Letícia tbm estava lá, nesse dia 😉 Nessa noite fomos dormir cedo 😀

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1 Trackback / Pingback

  1. Saudações a Cassandra Rios | PASSA LÁ EM CASA

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