Sistema midiático e poder na era digital

13.04.03_Sistema midiático e poder na era digitalPor Dênis de Moraes.*

Em memória do meu amigo e mestre René Armand Dreifuss,
há dez anos ausente e presente

O sistema midiático contemporâneo apresenta pelo menos três características fundamentais. Primeiramente, evidencia capacidade de fixar sentidos e ideologias, interferindo na formação da opinião pública e em linhas predominantes do imaginário social. Em segundo lugar, demonstra desembaraço na apropriação de diferentes léxicos para tentar colocar dentro de si todos os léxicos, a serviço de suas intenções particulares. Palavras que pertenciam tradicionalmente ao léxico da esquerda foram ressignificadas no auge da hegemonia do neoliberalismo, nos anos 1980 e 1990. Cito, de imediato, duas – reforma e inclusão – insistentemente mencionadas, por exemplo, nas retóricas publicitárias da era Fernando Henrique Cardoso. Em terceiro lugar, os discursos e falas massivas da mídia se projetam como intérpretes e vigas de sustentação do ideário privatista do neoliberalismo e variações associadas. Incutem e celebram a tirania do dinheiro, a competição e o lucro, propagando valores e modos de vida que transferem para o mercado a regulação das demandas coletivas, como se isso fosse possível. Ao mesmo tempo, procuram neutralizar o pensamento crítico e as expressões de dissenso, reduzindo espaços para ideias alternativas e contestadoras, ainda que estas continuem se manifestando, resistindo e reinventando-se.

Esse modelo está associado à lógica concentracionária e expansivamente reprodutiva do mercado e da cultura tecnológica, cujos eixos preponderantes são a digitalização, a virtualização, a mercantilização simbólica e a internacionalização de negócios. Os projetos mercadológicos e ênfases editoriais podem variar, menos num ponto chave: operam, consensualmente, para reproduzir a ordem do consumo e conservar hegemonias constituídas.

Os megagrupos midiáticos detêm a propriedade dos meios de produção, a infraestrutura tecnológica e as bases logísticas, como parte de um sistema que rege habilmente os processos de produção material e imaterial. Além de planejar e coordenar atividades correlatas, esse sistema exerce interferência crucial na circulação de informações, interpretações e crenças indispensáveis à consolidação de consensos sociais, por mais diversificadas que possam ser as reações e respostas. O grau de incidência oscila de veículo para veículo, em decorrência de recursos tecnológicos, linguagens, metodologias produtivas, características dos mercados, padrões de interação e perfis de públicos e audiências.

A digitalização favoreceu a multiplicação de bens e serviços de “infoentretenimento”; atraiu players internacionais para operações em todos os continentes; intensificou transmissões e fluxos em tempo real; instituiu outras formas de expressão, conexão, intercâmbio e sociabilidade, sobretudo por meio da internet (comunidades virtuais, redes sociais); e agravou a concentração e a oligopolização de setores complementares (imprensa, rádio, televisão, internet, audiovisual, editorial, fonográfico, telecomunicações, informática, publicidade, marketing, cinema, jogos eletrônicos, celulares, redes sociais etc.).

Tudo isso sob a égide de três vetores: a tecnologia que possibilita as sinergias; o compartilhamento e a distribuição de conteúdos gerados nas mesmas matrizes produtivas; e a racionalidade de gastos, custos e investimentos.

Origina-se daí um sistema multimídia que explora uma gama de empreendimentos e serviços tornados convergentes e sinergéticos pela digitalização. A execução de tal objetivo implica a reorganização das relações entre os grupos globais e os públicos consumidores regionais, nacionais e locais, por intermédio de ações de marketing que caucionam uma oferta mais heterogênea e mesclada de produtos, em consonância com dinâmicas desterritorializadas de consumo e afinadas com demandas de clientelas específicas.

A demarcação do caráter nacional de boa parte dos conteúdos em circulação torna-se problemática, tendo em vista que os materiais são produzidos e distribuídos, global e simultaneamente, por grupos transnacionais, a partir de suas matrizes. Não raro, estes grupos sequer têm filiais ou estruturas físicas em países onde suas mercadorias são comercializadas por sócios ou parceiros locais – ainda que se abasteçam de dados sobre as realidades em que atuam, procurando criar pontes de conexão com as bases consumidoras. Na essência, as políticas de geração de conteúdos almejam a maximização de lucros, dentro das conveniências estratégicas das instâncias de emissão.

Bem sabemos que existem respostas, interações e assimilações diferenciadas por parte do público consumidor dos produtos e mensagens midiáticos.  Entretanto, em face da concentração transnacional das chamadas indústrias culturais, a possibilidade de interferência do público (ou de frações dele) nas programações depende não somente da capacidade criativa e reativa dos indivíduos, como também de direitos coletivos e controles sociais sobre a produção e a circulação de informações e entretenimento.

Ainda que tenha sido ampliado, de modo exponencial, o espectro de produção, difusão e consumo de bens e serviços simbólicos, a mundialização cultural se inscreve mais na órbita das exigências mercadológicas do que na pluralização de visões de mundo e nos usufrutos equânimes de conhecimentos e informações.

À medida que essa configuração se cristaliza, reduz-se o campo de manobra para um desenvolvimento equilibrado e estável dos sistemas de comunicação e agravam-se descompassos estruturais em área estratégica da vida social. Daí a urgência de respaldarmos reivindicações por diversidade cultural onde hoje vigora a concentração monopólica da mídia. Diversidade se assegura, sobretudo, com políticas e providências públicas que, refletindo anseios sociais, valorizem a comunicação como direito humano e contribuam para deter a oligopolização da produção simbólica. Isso implica, necessariamente, a definição, a aplicação e a vigência de mecanismos democráticos de regulação, de universalização de acessos, de proteção do patrimônio cultural intangível, de descentralização das fontes informativas e de usos educativos e comunitários das tecnologias.

* Desenvolvo e amplio questões abordadas neste artigo no meu livro Mídia, poder e  contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação, em parceria com Ignacio Ramonet e Pascual Serrano. O livro será lançado pela Boitempo Editorial até 15 de abril próximo.

***

A versão eletrônica (ebook) de O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos, de Dênis de Moraes, já está disponível por metade do preço do impresso na Gato Sabido e na Livraria da Travessa!

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Dênis de Moraes é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993) e pós-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO, Argentina, 2005). Atualmente, é professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Foi contemplado em 2010 com o Premio Internacional de Ensayo Pensar a Contracorriente, concedido pelo Ministerio de Cultura de Cuba e pelo Instituto Cubano del Libro. Autor de mais de 25 livros publicados no Brasil, na Espanha, na Argentina e em Cuba. Pela Boitempo, publicou Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação (2013) e O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

2 comentários em Sistema midiático e poder na era digital

  1. Reblogged this on Educadormagno's Bloge comentado:
    Um novo espírito infecta a onosfera…

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  2. Malaquias // 12/08/2015 às 23:26 // Resposta

    Gostei muito do seu artigo, senhor. Mas acabei de ler outros artigos que me deixaram inseguros. Como os artigos são muito vagos por serem neutros, conscienciosos, e muito efusivos, não dá, digamos, para fazer algum juízo preciso e dar alguma opinião contribuinte para seus escritores. Um, talvez, parte de uma bipolaridade politicoideológica como solução de um problema muito complexo que não se resolve desta maneira. Não tem como se posicionar contra o sistema dentro dele. O outro deixou-me inseguro por incluir a dominação religiosa neste meio, como se capaz de dissecar intencionalidades e separar o joio do trigo. Mas como não eximir o poder midiático destas questões? Ele existe. A liberdade de expressão é uma espada de dois gumes que tanto corta do lado do mal quanto do bem. Como dela nos valemos agora com fim pacifício e socioconstrutivo. De qualquer maneira, foi interessante ler este artigo. Muito obrigado, senhor. Ele trouxe-me uma necessidade de moderação e retificação de minhas ideias sobre o poder midiático. Temo apenas uma ditadura cultural que se valha do pretexto de que pregar sua fé seja, interpretativamente a interesse deles, ditatorial. Não penso assim. É uma questão de escolha e vejo isto porque sou um profeta. Nem todos estão na tv para impor ideias, mas para compartilhar suas experiências espirituais. Se querem sair do sistema, precisam falar de fora dele. Mas isto configuria-se em autoanulação existencial. O sistema, quer seja midiaticotelevisivo ou internético, existe tão necesseriamente quanto asfalto, avião, carro, eletricidade, computador, o plástico, celular, televisão,etc. Ter estas coisas te coloca no sistema automaticamente. Muito obrigado por me deixar falar, senhor. “A besta” precisa existir para realçar a escolha do que é de fato espiritual e essencial a verdadeira felicidade e ao sentido da vida. E a fé. É hora e vez dela ser e acontecer. Não podemos viver fora do sistema, mas podemos ser livres de sua possessão de dentro para fora.

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