Crônicas de Berlim (20): Uma ilha navegando na contramão

Fotografia do monumento a Leif Ericsson, o primeiro viking a comandar uma expedição que chegou ao continente americano

Por Flávio Aguiar.

Antigamente os animais falavam e as ilhas navegavam. A primeira referência que tenho da palavra “Brasil”, por exemplo, é de uma ilha – Hy Brazil – da mitologia celta. A cartografia medieval a situava em diferentes locais: a oeste da Irlanda, ou perto dos Açores, ou ainda em locais mais distantes, sempre a Ocidente. É muito provável que o nome da nossa terra venha daí, e o próprio nome do pau-brasil que, muitos acreditam, a teria batizado.

Hoje os animais não falam mais – a não ser os papagaios e os fascistas. Mas certas ilhas continuam a navegar, algumas, inclusive, na contramão! Visitei, na semana passada, uma dessas ilhas, a Islândia, a meio caminho entre o Velho e o Novo Mundo – em todos os sentidos.

É bom lembrar, nessa altura, que é na Islândia que o dr. Lindenbrock e seu sobrinho Axel, ajudados pelo guia Hans, descobrem o caminho para o centro do planeta, mais precisamente na cratera do vulcão Snaeffels. Isso se passa em meados do século XIX, no extraordinário Viagem ao centro da Terra, de Júlio (ou Jules) Verne. Depois eles retornarão à superfície pela boca de outro vulcão, o Stromboli, na Sicília, lembrando também o personagem do livro e do desenho animado  Pinóquio.

Mas estamos nos afastando demais da Islândia. Voltemos. Lá fui para tentar entender o que acontecera nessa ilha, que andou de um lado para o outro na nossa geografia ideológica.

No final do século XX e começo do XXI a Islândia tornou-se a menina dos olhos do velho mundo neoliberal. Entre 1998 e 2002 privatizou e desregulamentou completamente o seus sistema bancário, até então estatal. Também privatizou e desregulamentou completamente corações e mentes. Não só criou-se nela, da noite para o dia, uma geração de banqueiros privados, como meio mundo quis, de certo modo, tornar-se seu próprio banqueiro.

Muita gente vendeu o que tinha para comprar ações dos “novos” bancos privatizados: o Landsbanki, o Glitnir e o Kaupthing, e assim ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Os bancos e seus novos managers passaram a contrair empréstimos vultosos no mercado internacional, em euro e em dólar. Investiram em negócios tidos como fabulosos, como o mercado – central e colateral – das hipotecas norte-americanas. Pessoas físicas contraíram dívidas em dólar e em euros, sob a forma de empréstimos. Criou-se em pouco tempo uma casta de novos-ricos. Onde antes reinava apenas a coroa (krona), moeda inconversível no mercado internacional, passaram a reinar a nova moeda européia, atraente e brilhante, e o velho dólar das cobiçadas verdinhas.

Em 2008, depois de dar mostras por cinco anos de que algo ia mal em sua digestão, esse castelo de cartas ruiu. As cartas viraram contas a pagar. E impagáveis (não no sentido do riso). É que com a quebradeira nos Estados Unidos, os credores internacionais passaram a não financiar a renovação dos títulos islandeses. Aqueles três grandes bancos faliram. O Estado teve de nacionalizar as suas dívidas.

A dívida pública islandesa era pequena. Mas a capacidade de ação do Estado também era, pois ela fora comprimida por uma política linear de impostos, com alíquota única sobre a renda,  que beneficiava os mais ricos, as corporações e os ganhos de capital. Impulsionada também pela súbita desvalorização da moeda, a dívida pública foi para a estratosfera, as dívidas dos cidadãos também, e os sonhos dourados daquele novo mundo financeiro foram para o espaço, ou para as profundas do inferno, dependendo do ponto de vista.

Sucedeu-se uma pequena revolução. Houve manifestações iradas em frente ao Parlamento. Em 2009 o governo conservador, que liderara aquela conversão neoliberal, caiu. Subiu uma coligação mais para a esquerda. Fatos não convencionais passaram a acontecer. Fez-se uma devassa no mundo financeiro. Executivos caíram. Alguns foram detidos. O antigo primeiro-ministro também, embora por algum tempo, tão somente. Mas foi, e por negligência.

Dona de sua própria moeda, a Islândia conseguiu uma reordenação de suas contas. Aplicou um plano de austeridade nas contas públicas sim, mas preservando a área social. Investiu em cursos de novo treinamento para quem tinha perdido o emprego. Privilegiou garantir depósitos em conta-corrente, ao invés dos empréstimos por investidores privados do estrangeiro. Em suma, navegou na contra-mão de tudo o que o restante da Europa está fazendo.

Resultado: enquanto a Europa mergulha na aflição e no desemprego, este caiu na Islândia. Era 10% em 2010. Hoje está em 6%. A economia voltou a crescer, à base de uns 2,5% ao ano. Como se isso não bastasse, a Islândia começou um processo muito democrático de revisão de sua Constituição. Foi nomeada uma espécie de Assembléia Nacional Constituinte, com 1500 pessoas, que delineou os parâmetros para a nova Carta Magna. Daí indicou-se uma Comissão de 25 cidadãos comuns, sem vínculos partidários, que redigiu o ante-projeto de Constituição, entregue ao Parlamento. Este organizou então um plebiscito, perguntando, entre outras coisas, se esse ante-projeto deveria ser a base da nova Carta, com esmagadora maioria apontando que sim. Também perguntava, por exemplo, se as reservas naturais do país deveriam ser propriedade da nação. Resposta esmagadora: sim.

Isso, enquanto no restante da Europa em crise desossam-se direitos da cidadania, e se enfiam planos de “austeridade” goela abaixo das populações, à força de cassetete e gás lacrimogênio.

Enfim, para concluir, a Islândia vale uma viagem.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Seu próximo livro, A Bíblia segundo Beliel será lançado pela Boitempo em dezembro de 2012. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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