Ditadura do proletariado em Gotham City: Artigo de Slavoj Žižek sobre o novo Batman

Por Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido por Rogério Bettoni, enviado com exclusividade pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

Adverte-se aos leitores que o texto contém detalhes da trama de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

For the english version, click here.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge confirma mais uma vez como os blockbusters de Hollywood são indicadores precisos da situação ideológica da nossa sociedade. A narrativa (resumida) se dá da seguinte maneira. Oito anos depois dos eventos de Batman – O Cavaleiro das Trevas, capítulo anterior da saga Batman, a lei e a ordem prevalecem em Gotham City: sob os extraordinários poderes do Ato Dent, o comissário Gordon praticamente erradicou o crime violento e organizado. No entanto, ele se sente culpado pela cobertura dos crimes de Harvey Dent (Dent morreu ao tentar matar o filho de Gordon, salvo por Batman, que assumiu a culpa em nome da manutenção do mito de Dent, levando a uma demonização de Batman como vilão de Gotham) e planeja admitir a conspiração em um evento público de celebração a Dent, mas acaba concluindo que a cidade não está preparada para a verdade. Bruce Wayne, que não atua mais como Batman, vive isolado na própria Mansão enquanto sua empresa desmorona depois de ter investido em um projeto de energia limpa criado para aproveitar a energia nuclear, mas encerrado quando ele descobriu que o núcleo poderia ser transformado em uma bomba. A lindíssima Miranda Tate, membra do conselho administrativo da Wayne Enterprises, convence Wayne a refazer a sociedade e continuar com seus trabalhos filantrópicos.

Aqui entra o (primeiro) vilão do filme: Bane, líder terrorista e antigo membro da Liga das Sombras, consegue a cópia do discurso de Gordon. Depois que as tramas financeiras de Bane quase levam a empresa de Wayne à falência, Wayne confia a Miranda a tarefa de controlar seus negócios, além de ter com ela um breve caso amoroso. (Nesse aspecto ela compete com a gata-ladra Selina Kyle, que rouba dos ricos para redistribuir a riqueza, mas acaba se juntando a Wayne e às forças da lei e da ordem.) Ao descobrir a movimentação de Bane, Wayne retorna como Batman e confronta Bane, que afirma ter assumido a Liga das Sombras após a morte de Ra’s Al Ghul. Depois de deixar Batman gravemente ferido em um combate corpo a corpo, Bane o coloca numa prisão de onde é praticamente impossível fugir. Seus companheiros de prisão contam para Wayne a história da única pessoa que conseguiu escapar: uma criança motivada pela necessidade e pela mera força de vontade. Enquanto o prisioneiro Wayne se recupera dos ferimentos e se prepara para ser Batman de novo, Bane consegue transformar Gotham City em uma cidade-Estado isolada. Primeiro ele atrai para o subsolo a maior parte dos policiais de Gotham e os prende lá; depois provoca explosões que destroem a maioria das pontes que conectavam Gotham City ao continente, anunciando que qualquer tentativa de deixar a cidade resultaria na detonação do núcleo de Wayne, do qual se apoderou e transformou em uma bomba.

Chegamos então ao momento crucial do filme: a tomada de poder por parte de Bane acontece junto com uma vasta ofensiva político-ideológica. Bane revela publicamente o acobertamento da morte de Dent e liberta os prisioneiros detidos pelo Ato Dent. Condenando os ricos e poderosos, ele promete devolver o poder ao povo, convocando as pessoas comuns a “tomarem a cidade de volta” – Bane revela-se como “o manifestante definitivo do Occupy Wall Street, convocando os 99% a se juntarem para derrubar as elites sociais”[1]. Segue-se então a ideia do filme de poder do povo: uma sequência mostra  uma série de julgamentos e execuções dos ricos, as ruas tomadas pelo crime e pela vilania… alguns meses depois, enquanto Gotham City continua sofrendo o terror popular, Wayne consegue fugir da prisão, retorna a Gotham como Batman e convoca os amigos para ajudá-lo a libertar a cidade e desarmar a bomba nuclear antes que ela exploda. Batman confronta e domina Bane, mas Miranda intervém e apunhala Batman – a benfeitora social revela-se como Talia al Ghul, filha de Ra’s: foi ela que escapou da prisão quando criança e foi Bane que a ajudou a fugir. Depois de comunicar seu plano de terminar a tarefa do pai de destruir Gotham, Talia foge. Na confusão que se segue, Gordon destrói o dispositivo que permitia a detonação remota da bomba enquanto Selina mata Bane, permitindo que Batman vá atrás de Talia. Ele tenta forçá-la a levar a bomba para a câmara de fusão onde pode ser estabilizada, mas Talia inunda a câmara. Talia morre quando seu caminhão bate, confiante de que a bomba não pode ser detida. Usando um helicóptero especial, Batman transporta a bomba para além dos limites da cidade, onde ela explode sobre o oceano e supostamente o mata.

Agora Batman é celebrado como um herói cujo sacrifício salvou Gotham City, enquanto Wayne é tido como morto nos motins. Após seus bens serem divididos, Alfred vê Bruce e Selina juntos em um café em Florença, enquanto Blake, jovem policial honesto que conhecia a identidade de Batman, herda a Batcaverna. Em suma, “Batman salva a situação, aparece incólume e continua com uma vida normal, enquanto outro o substitui no papel de defender o sistema”[2]. A primeira pista dos fundamentos ideológicos desse final é dada por Gordon, que, no (suposto) enterro de Wayne, lê as últimas linhas de Um conto de duas cidades, de Dickens: “Esta é, sem dúvida, a melhor coisa que faço e que jamais fiz; este é, sem dúvida, o melhor descanso que terei e que jamais tive”. Alguns críticos do filme interpretaram essa citação como um indício de que o filme “atinge o nível mais nobre da arte ocidental. O filme apela para o centro da tradição norte-americana – o ideal do nobre sacrifício pelo povo comum. Batman deve se humilhar para ser exaltado e renunciar à própria vida para encontrar uma nova. […] Como máxima figura de Cristo, Batman sacrifica a si para salvar os outros”[3].

Dessa perspectiva, com efeito, Dickens está apenas a um passo de distância de Cristo no Calvário: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?” (Mt 16:25-26 da Bíblia de Jerusalém). O sacrifício de Batman como repetição da morte de Cristo? Essa ideia não seria comprometida pela última cena do filme (Wayne com Selina em um café em Florença)? O equivalente religioso desse final não seria a conhecida ideia blasfema de que Cristo realmente sobreviveu à crucificação e teve uma vida longa e pacífica (na Índia, ou talvez no Tibete, de acordo com algumas fontes)? A única maneira de remir essa cena final seria interpretá-la como um devaneio (alucinação) de Alfred, que se senta sozinho em um café em Florença. Outra característica dickensiana do filme é a queixa despolitizada sobre a lacuna entre ricos e pobres – no início do filme, Selina sussurra para Wayne enquanto eles dançam em um baile exclusivo da elite: “Está vindo uma tempestade, sr. Wayne. É melhor que estejam preparados. Pois quando ela chegar, todos se perguntarão como acharam que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto”. Nolan, como todo bom liberal, está “preocupado” com essa disparidade e reconhece que essa preocupação impregnou o filme:

O que vejo do filme relacionado ao mundo real é a ideia de desonestidade. O filme inteiro trata da chegada do seu ponto crítico. […] A ideia de justiça econômica perpassa o filme, e por duas razões. Primeiro, Bruce Wayne é um bilionário. Isso tem de ser levado em conta. […] E segundo, há muitas coisas na vida, e a economia é uma delas, em que precisamos confiar em grande parte do que nos dizem, pois a maioria de nós se sente desprovida das ferramentas analíticas para saber o que está acontecendo. […] Não acho que existe uma perspectiva de direita ou de esquerda no filme. Ele faz apenas uma avaliação honesta, ou uma exploração honesta, do mundo em que vivemos – de coisas que nos preocupam.[4]

Por mais que os espectadores saibam que Wayne é extremamente rico, eles tendem a se esquecer de onde vem a riqueza dele: fabricação de armas e especulação financeira, e é por isso que as jogadas de Bane na Bolsa de Valores podem destruir seu império – traficante de armas e especulador, esse é o verdadeiro segredo por trás da máscara do Batman. De que modo o filme lida com isso? Ressuscitando o tema arquetípico dickensiano do bom capitalista que se envolve no financiamento de orfanatos (Wayne) versus o mau e ganancioso capitalista (Stryver, como em Dickens). Nessa moralização dickensiana excessiva, a disparidade econômica é traduzida na “desonestidade” que deveria ser “honestamente” analisada, embora não tenhamos nenhum mapeamento cognitivo confiável, e uma abordagem “honesta” como essa nos leva a mais um paralelo com Dickens – é como afirmou Jonathan (corroteirista), irmão de Christopher Nolan, sem rodeios: “Para mim, Um conto de duas cidades foi o retrato mais angustiante de uma civilização reconhecível e descritível que se desintegrou completamente em pedaços. Com os terrores em Paris, na França daquela época, não é difícil imaginar que as coisas dariam tão errado assim”[5]. As cenas do vingativo levante populista no filme (uma multidão sedenta pelo sangue dos ricos que os ignoraram e exploraram) evocam a descrição de Dickens do Reino do Terror, tanto que, embora não tenha nada a ver com política, o filme segue o romance de Dickens ao retratar “honestamente” os revolucionários como fanáticos possuídos, e assim fornece

a caricatura do que, na vida real, seriam revolucionários comprometidos ideologicamente no combate da injustiça estrutural. Hollywood conta o que o establishment quer que saibamos – que os revolucionários são criaturas brutais, sem nenhum respeito pela vida humana. Apesar da retórica emancipatória sobre a libertação, eles têm projetos sinistros por trás. Portanto, quaisquer que sejam as razões, elas precisam ser eliminadas.[6]

Tom Charity destacou corretamente “a defesa que o filme faz do establishment na forma de bilionários filantrópicos e uma polícia corrupta” – na sua desconfiança das pessoas que resolvem as coisas com as próprias mãos, o filme “demonstra tanto o desejo por justiça social quanto o medo do que realmente pode parecer nas mãos de uma multidão”[7]. Aqui, Karthick levanta uma questão bem clara sobre a imensa popularidade da figura do Coringa no filme anterior: qual o motivo de uma atitude tão hostil para com Bane quando o Coringa foi tratado com tanta mansidão no filme anterior? A resposta é simples e convincente:

O Coringa, que clama por anarquia na sua mais pura manifestação, enfatiza a hipocrisia da civilização burguesa como ela existe, mas é impossível traduzir suas visões em uma ação de massa. Bane, por outro lado, representa uma ameaça existencial ao sistema de opressão. […] Sua força não é apenas a psique, mas também sua capacidade de comandar as pessoas e mobilizá-las rumo a um objetivo político. Ele representa a vanguarda, o representante organizado dos oprimidos que promove a luta política em nome deles para gerar mudanças sociais. Tamanha força, com o maior dos potenciais subversivos, não tem lugar dentro do sistema. Ela precisa ser eliminada.[8]

No entanto, ainda que Bane não tenha o fascínio do Coringa de Heath Ledger, há uma característica que o distingue desse último: o amor incondicional, a mesma fonte da sua dureza. Em uma cena curta mas comovente, vemos como, em um ato de amor no meio do sofrimento terrível, Bane salvou a garota Talia sem se importar com as consequências e pagando um preço terrível por isso (foi espancado quase até a morte por defendê-la). Karthick tem toda razão ao situar esse acontecimento dentro da longa tradição, de Cristo a Che Guevara, que exalta a violência como uma “obra do amor”, como nas famosas palavras do diário de Che Guevara: “Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem essa qualidade”[9]. O que encontramos aqui nem é tanto a “cristificação de Che”, mas sim uma “cheização do próprio Cristo” – o Cristo cujas palavras “escandalosas” de Lucas (“se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo” [Lc 14:26]) apontam exatamente na mesma direção que a famosa citação de Che: “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura”. A afirmação de que “o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor” deveria ser interpretada juntamente com a declaração muito mais “problemática” de Guevara sobre os revolucionários como “máquinas de matar”:

O ódio é um elemento da luta; o ódio impiedoso do inimigo que nos ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em eficazes, violentas, seletivas e frias máquinas de matar. Assim devem ser nossos soldados; um povo sem ódio não derrota um inimigo brutal.

Ou, parafraseando Kant e Robespierre mais uma vez: o amor sem crueldade é impotente; a crueldade sem amor é cega, paixão efêmera que perde todo seu vigor. Guevara está parafraseando as declarações de Cristo sobre a unidade do amor e da espada – em ambos os casos, o paradoxo subjacente consiste nisto: o que torna o amor angelical, o que o eleva acima da mera sentimentalidade instável e patética, é essa mesma crueldade, o seu elo com a violência – é esse elo que eleva o amor acima e além das limitações naturais do homem e o transforma em pulsão incondicional. É por isso que, voltando a O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o único amor autêntico no filme é o de Bane, o “amor do terrorista”, em nítido contraste a Batman.

Nesse mesmo viés, a figura de Ra’s, pai de Talia, merece um exame mais cuidadoso. Ra’s é uma mistura de características árabes e orientais, um agente do virtuoso terror lutando para contrabalancear a corrompida civilização ocidental. O personagem é interpretado por Liam Neeson, ator cuja persona na tela geralmente irradia uma nobre bondade e sabedoria (ele faz o papel de Zeus em Fúria de Titãs), e que também representa Qui-Gon Jinn em A Ameaça Fantasma, primeiro episódio da série Star Wars. Qui-Gon é um cavaleiro Jedi, mentor de Obi-Wan Kenobi, bem como o descobridor de Anakin Skywalker, acreditando que Anakin é O Escolhido que restituirá o equilíbrio do universo, ignorando os alertas de Yoda sobre a natureza instável de Anakin; no final de A Ameaça Fantasma, Qui-Gon é morto por Darth Maul[10].

Na trilogia Batman, Ra’s também é professor do jovem Wayne: em Batman Begins, ele encontra Wayne em uma prisão chinesa; apresentando-se como Henri Ducard, ele oferece um “caminho” para o garoto. Depois que Wayne é libertado, ele segue até a fortaleza da Liga das Sombras, onde Ra’s está esperando, embora se apresente como servo de outro homem chamado Ra’s Al Ghul. Depois de um longo e doloroso treinamento, Ra’s explica que Bruce deve fazer o que for preciso para combater o mal, embora revele que eles treinaram Bruce para liderar a Liga com o intuito de destruir Gotham City, que eles acreditam ter se tornado irremediavelmente corrupta. Portanto, Ra’s não é a simples encarnação do Mal: ele representa a combinação de virtude e terror, a disciplina igualitária que combate um império corrupto, e assim pertence ao fio condutor (na ficção recente) que vai de Paul Atreides em Duna até Leônidas em 300 de Esparta. E é crucial que Wayne seja seu discípulo: Wayne foi formado como Batman por ele.

Duas críticas do senso-comum se apresentam aqui. A primeira é de que houve violência e matanças monstruosas nas revoluções reais, desde o estalinismo ao Khmer Vermelho, por isso está claro que o filme não está apenas engajado na imaginação revolucionária. A segunda, oposta, é esta: o atual movimento Occupy Wall Street não foi violento, seu objetivo definitivamente não era um novo reino do terror; na medida em que se espera que a revolta de Bane extrapole a tendência imanente do movimento OWS, o filme, portanto, deturpa de maneira absurda seus objetivos e estratégias. Os atuais protestos antiglobalistas são o exato oposto do terror brutal de Bane: este representa a imagem espelhada do terror estatal, uma seita fundamentalista e homicida dominada e controlada pelo terror, e não a sua superação por meio da auto-organização popular… As duas críticas compartilham a rejeição da figura de Bane. A resposta a essas duas críticas é múltipla.

Primeiro, devemos esclarecer o atual escopo da violência – a melhor resposta para a afirmação de que a reação violenta da multidão à opressão é pior que a opressão original foi dada por Mark Twain no seu Um ianque na corte do rei Artur: “Houve dois ‘Reinos do Terror’, se bem nos lembramos; um forjado na incandescente paixão, outro no desumano sangue frio. […] Mas todos os nossos temores, que os tenhamos pelo menor terror, o momentâneo, por assim dizer; pois o que é o terror da morte súbita pelo machado se comparado à morte em toda uma vida de fome, frio, insulto, crueldade e desilusão? O cemitério de qualquer cidade pode bem conter os caixões cheios desse breve terror, que todos aprendemos com afinco a temer e lamentar; mas a França inteira mal conteria os caixões cheios daquele outro terror, mais antigo e verdadeiro, o terror de amargura e atrocidade indizíveis, que nenhum de nós aprendeu a encarar em toda sua amplitude ou desprezo que merece”.

Depois, deveríamos desmistificar o problema da violência, rejeitando afirmações simplistas de que o comunismo do século XX agiu com uma violência homicida excessiva demais, e de que deveríamos tomar cuidado para não cair mais uma vez nessa armadilha. Com efeito, trata-se de uma terrível verdade – mas esse foco voltado diretamente para a violência obscurece uma questão basilar: o que houve de errado no projeto comunista do século XX como tal, qual foi o ponto fraco imanente desse projeto que impulsionou o comunismo a recorrer (não só) aos comunistas no poder para a violência irrestrita? Em outras palavras, não basta dizer que os comunistas “negligenciaram o problema da violência”: foi um aspecto sócio-político mais profundo que os impulsionou à violência. (O mesmo se aplica à ideia de que os comunistas “negligenciaram a democracia”: seu projeto geral de transformação social impôs sobre eles esse “negligenciar”.) Portanto, não é apenas o filme de Nolan que foi incapaz de imaginar o poder autêntico do povo – os próprios movimentos “reais” de emancipação radical também não o fizeram e continuam presos nas coordenadas da antiga sociedade, e, por essa razão, muitas vezes o efetivo “poder do povo” foi esse horror violento.

E, por último, mas não menos importante, é muito simples dizer que não há potencial violento no movimento OWS e similares – há sim uma violência em jogo em todo processo emancipatório autêntico: o problema com o filme é que ele traduziu essa violência de uma maneira errada em terror homicida. Qual é, então, a sublime violência em relação à qual até mesmo o mais brutal assassinato é um ato de fraqueza? Façamos uma digressão em Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, que conta a história dos estranhos eventos na capital sem nome de um país democrático não identificado. Quando a manhã do dia das eleições é arruinada por chuvas torrenciais, a quantidade de eleitores presentes é extremamente baixa, mas o tempo melhora no meio da tarde e a população segue em massa para as seções eleitorais. No entanto, o alívio do governo logo acaba quando a contagem de votos revela que 70% das cédulas na capital foram deixados em branco. Frustrado por esse aparente lapso civil, o governo dá aos cidadãos a chance de refazer o fato uma semana depois, em mais um dia de eleição. O resultado é pior: agora 83% dos votos foram brancos. Os dois principais partidos políticos – o governante partido da direita (p.d.d.) e seu principal adversário, o partido do meio (p.d.m.) – entram em pânico, enquanto o infeliz e marginalizado partido da esquerda (p.d.e.) apresenta uma análise afirmando que os votos brancos são, essencialmente, um voto por sua agenda progressiva. Sem saber como responder a um protesto benigno, mas certo de que existe uma conspiração antidemocrática, o governo rapidamente rotula o movimento de “terrorismo puro e duro” e declara estado de emergência, permitindo a suspensão de todas as garantias constitucionais e adotando uma série de medidas cada vez mais drásticas: os cidadãos são apanhados aleatoriamente e desaparecem em interrogatórios secretos, a polícia e a sede do governo saem da capital, proibindo a entrada e a saída da cidade e, por fim, fabricando seu próprio líder terrorista. A cidade toda continua funcionando quase normalmente, as pessoas se esquivam de todas as ofensivas do governo com uma harmonia inexplicável e com um verdadeiro nível gandhiano de resistência não violenta… isso, a abstenção dos eleitores, é um exemplo de “violência divina” verdadeiramente radical que desperta reações de pânico brutal nos detentores do poder.

Voltando a Nolan, a trilogia dos filmes do Batman, portanto, segue uma lógica imanente. Em Batman Begins, o herói continua dentro dos limites de uma ordem liberal: o sistema pode ser defendido com métodos moralmente aceitáveis. O Cavaleiro das Trevas é de fato uma nova versão de dois clássicos de faroeste de John Ford (Sangue de Heróis e O Homem Que Matou o Facínora) que retratam como, para civilizar o ocidente selvagem, é preciso “publicar a lenda” e ignorar a verdade – em suma, como nossa civilização tem de se fundamentar em uma Mentira: é preciso quebrar as regras para defender o sistema. Ou, dito de outra forma, em Batman Begins, o herói é simplesmente uma figura clássica do vigilante urbano que pune os criminosos naquilo que a polícia não pode; o problema é que a polícia, órgão responsável pela imposição das leis, relaciona-se de maneira ambígua à ajuda de Batman: enquanto admite sua eficácia, ela também considera Batman uma ameaça ao seu monopólio do poder e uma testemunha da sua ineficácia. No entanto, a transgressão de Batman aqui é puramente formal, consiste em agir em nome da lei sem a legitimação para fazê-lo: nos seus atos, ele nunca viola a lei. O Cavaleiro das Trevas muda essas coordenadas: o verdadeiro rival de Batman não é o Coringa, seu oponente, mas Harvey Dent, o “cavaleiro branco”, o novo e agressivo promotor público, um tipo de vigilante oficial cuja batalha fanática contra o crime o conduz ao assassinato de pessoas inocentes e o destrói. É como se Dent fosse a resposta à ordem legal da ameaça de Batman: contra a vigilante luta de Batman, o sistema gera seu próprio excesso ilegal, seu próprio vigilante, muito mais violento que Batman, violando diretamente a lei. Desse modo, há uma justiça poética no fato de que, quando Bruce planeja revelar ao público sua identidade como Batman, Dent o interrompe e se apresenta como Batman – ele é “mais Batman que o próprio Batman”, efetivando a tentação à qual Batman ainda era capaz de resistir. Então quando, no final do filme, Batman assume os crimes cometidos por Dent para salvar a reputação do herói popular que incorpora a esperança para o povo comum, seu ato modesto tem uma ponta de verdade: Batman, de certa forma, devolve o favor a Dent. Seu ato é um gesto de troca simbólica: primeiro Dent toma para si a identidade de Batman, e depois Wayne – o Batman verdadeiro – toma para si os crimes de Dent.

Por fim, O Cavaleiro das Trevas Ressurge ultrapassa ainda mais os limites: Bane não seria Dent levado ao extremo, à sua autonegação? Dent que chega à conclusão de que o sistema é injusto, de modo que, para combater a injustiça com eficácia, é preciso atacar diretamente o sistema e destruí-lo? E, como parte da mesma atitude, Dent que perde as últimas inibições e está pronto para usar toda sua brutalidade assassina para atingir esse objetivo? O advento dessa figura muda a constelação inteira: para todos os participantes, inclusive Batman, a moralidade é relativizada, torna-se uma questão de conveniência, algo determinado pelas circunstâncias: é uma guerra de classes aberta, tudo é permitido para defender o sistema quando estamos lidando não só com gângsteres malucos, mas com uma revolta popular.

Será, então, que isso é tudo? O filme deveria ser categoricamente rejeitado por quem se envolve em lutas emancipatórias radicais? As coisas são mais ambíguas, e é preciso interpretar o filme da maneira que se interpreta um poema político chinês: as ausências e as presenças surpreendentes também contam. Recordemos a antiga história francesa sobre uma esposa que reclama do melhor amigo do marido, dizendo que o amigo tem se insinuado sexualmente para ela: leva algum tempo para que o amigo surpreso entenda a mensagem – de uma maneira invertida, ela o está incitando a seduzi-la… É como o inconsciente freudiano que não conhece a negação: o que importa não é um juízo negativo sobre algo, mas o simples fato de que esse algo seja mencionado – em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o poder do povo ESTÁ AQUI, encenado como um Evento, em um passo fundamental dado a partir dos oponentes habituais de Batman (criminosos megacapitalistas, gângsteres e terroristas).

Temos aqui a primeira pista – a perspectiva de que o movimento OWS tome o poder e estabeleça a democracia do povo em Manhattan é nítida e completamente tão absurda e irreal que não podemos deixar de fazer a seguinte pergunta: POR QUE UM IMPORTANTE BLOCKBUSTER DE HOLLYWOOD SONHA COM ISSO, POR QUE EVOCA ESSE ESPECTRO? Por que sequer sonhar com o OWS culminando em uma violenta tomada de poder? A resposta óbvia (manchar o OWS com acusações de que ele guarda um potencial terrorista totalitário) não é o bastante para explicar a estranha atração exercida pela perspectiva do “poder do povo”. Não admira que o funcionamento apropriado desse poder continue branco, ausente: nenhum detalhe é dado sobre como funciona esse poder do povo, sobre o que as pessoas mobilizadas estão fazendo (é preciso lembrar que Bane diz que as pessoas podem fazer o que quiserem – ele não impõe sobre elas a sua própria ordem).

É por isso que a crítica externa do filme (“sua retratação do reino do OWS é uma caricatura ridícula”) não basta – a crítica tem de ser imanente, tem de situar dentro do próprio filme uma multiplicidade de sinais que aponte para o Evento autêntico. (Recordemos, por exemplo, que Bane não é apenas um terrorista brutal, mas sim uma pessoa de profundo amor e sacrifício.) Em suma, a ideologia pura não é possível, a autenticidade de Bane TEM de deixar rastros na tecitura do filme. É por isso que o filme merece uma leitura mais íntima: o Evento – a “república do povo de Gotham City”, a ditadura do proletariado sobre Manhattan – é imanente ao filme, é o seu centro ausente.


[1] Tyler O’Neil, “Dark Knight and Occupy Wall Street: The Humble Rise”, Hillsdale Natural Law Review, 21 de  julho de 2012.

[2] Karthick RM, “The Dark Knight Rises a ‘Fascist’?”, Society and Culture, 21 de julho de 2012.

[3] Tyler O’Neil, cit.

[4] Christopher Nolan, entrevista na Entertainment 1216 (julho de 2012), p. 34.

[5] Entrevista de Christopher e Jonathan Nolan ao Buzzine Film.

[6] Karthick, cit.

[7] Forrest Whitman, “The Dickensian Aspects of The Dark Knight Rises”, 21 de julho de 2012.

[8] Karthick, cit.

[9] Citado em Jon Lee Anderton, Che Guevara: A Revolutionary Life, New York: Grove 1997, p. 636-637.

[10] Notemos a ironia do fato de que o filho de Neeson é um xiita devoto, e que o próprio Neeson às vezes fala sobre a sua futura conversão ao islamismo. 

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Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

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Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido) (LANÇAMENTO)

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No dia 4 de julho de 2012, o psicanalista Christian Dunker se reuniu com os filósofos Paulo Arantes e Vladimir Safatle no Espaço Revista CULT para discutir os novos livros dos filósofos Slavoj Žižek (Vivendo no fim dos tempos) e Alain Badiou (A hipótese comunista), ambos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial. Confira abaixo gravação integral do debate:

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009) e os mais recentes Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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41 comentários em Ditadura do proletariado em Gotham City: Artigo de Slavoj Žižek sobre o novo Batman

  1. Uma punheta seria muito mais rentável q esse texto.

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  2. Meu deus.

    Cara na boa discordo de 98% de tudo que você disse e isso não é o caso, cada um tem o direito de achar o que quiser, e a interpretação vai por conta de cada um. Mas na boa que texto mal escrito, não entendo como com tão boas bases conseguiu fazer um trabalho tão mal feito.

    Eu copiei colei e contei

    o começo do texto: são 2 páginas, 4 parágrafos, 954 Palavras num total de 5678 caracteres.

    E completamente inutil, simplesmente um resumo mal feito do filme (pois vc corta cenas como a volta do batman e a invasão do Bane a bolsa de valores, a relação dele com a Selina e depois cita isso como se fosse obvio) um conselho, numa próxima Resenha, faça sua analise e ignore os resumos, este texto esta grande demais e extremamente Prolixo. Sinceramente, acho que você poderia conseguir um conteúdo melhor do que este, ou reescrever sua propria versão…traduzir um texto ja não é muito interessante, traduzir um texto ruim é pedante.

    P.S. Wayne Enterprisese é uma holding de Investimento e Tecnologia…não tem nada relacionada armas, esta é a Stark Industries..do Homem de ferro…da Marvel … O Bruce Wayne tem uma politica rígida contra formentar o crime por conta do trauma que ele tem na morte dos pais.

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    • Lucas Luz // 22/11/2012 às 2:15 // Resposta

      pesquisa direito o que é a Wayne Enterprise…:

      Wayne SteelEdit

      Wayne Steel é uma das fábricas mais antigas de aço e refinarias de metal em Gotham e aço suprimentos para construção naval. Ele também estuda e replica tecnologia alienígena. Isto levou a Batman recebendo prioridade em tecnologia e ligas para ele estudar. Wayne aliança de aço com a Marinha dos EUA eo governo tem produzido inúmeros contatos para Wayne Enterprises.

      Wayne ShipbuildingEdit

      WayneYards é responsável pela construção de um grande número de navios de guerra, comercial, e navios privados e está a construir um porta-aviões Nimitz classe em Gotham. Instalações WayneSteel e WayneYards reparar um grande número de cruzadores e destróieres e também tem contatos dentro dos pilões superiores da Marinha e do negócio marítimo mundial

      Wayne AerospaceEdit

      Wayne Aerospace constrói jatos de luxo e exclusivo corporativa e privada e aviões. Seu ramo de aviação experimental produz aviões experimentais e de pesquisa construídos para os Estados Unidos governo e da NASA. Os desenhos da aviação militar de filiais e fabrica caças e helicópteros para as Forças Armadas dos EUA. Os modelos mais notáveis ​​são o lutador W-4 Wraith eo helicóptero de ataque Kestrel. Wayne Aeroespacial mantém a concorrência com empresas aeroespaciais outros como Ferris Air e LexAir. A divisão mantém instalações e veículos de Archie Goodwin International Airport.

      entre outros… fonte: http://batman.wikia.com/wiki/Wayne_Enterprises

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  3. Ops, Zizek é um bom filósofo, mas como crítico de cinema continua sendo somente um bom filósofo. Essa de querer colocar Occupy Wall Street como metáfora no filme foi obra de RP da Warner, que ele, a imprensa e o Nolan (que nesse filme se perdeu feio) infelizmente quer ajudar a difundir. Pena.Get a grip, Slavoj, get real!

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  4. Rodrigues // 10/08/2012 às 2:42 // Resposta

    Para variar, Zizek se deixa levar pela superinterpretação. Tudo o que este texto consegue é gerar (mais) publicidade para o filme.

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  5. André Serpa // 10/08/2012 às 3:00 // Resposta

    Discordo, discordo e discordo. O cara pegou pesado e se equivocou ao dizer que Bruce/ Batman é um traficante de armas. O que as Industrias Wayne faz é desenvolver tecnologia, algumas vezes em parceria com o governo. Inclusive nota-se a preocupação clara de Lucius Fox, e depois, de Bruce com a finalidade, o destino e a guarda de certas tecnologias. O Departamento de Ciências Aplicadas, não é o mais importante, tanto é verdade que qu é quase secreto e mantido nas mãos de uma pessoas extremamente séria e ética. Vide “O Cavaleiro das Trevas”. Os acionistas não lidam com ele. Vc acha que investiriam grana alta em algo que não sabem o que é?? Distorceu.

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  6. André Serpa // 10/08/2012 às 3:22 // Resposta

    Quanto a Che Guevara pode ter alguma semelhança, embora o revolucionário latino-americano jamais quisesse jogar uma bomba nuclear em seu próprio povo. Quanto a Jesus está mais longe ainda. Apenas 2 pontos de muitos discordantes:1. O Reino de Cristo não é deste mundo. 2.O preceito da não violência é indissociável da ética e conduta de Jesus.

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  7. Vinicius Brito // 10/08/2012 às 12:42 // Resposta

    Gostei mais das respostas do que do texto…Concordo em partes com os comentários, mas o texto tampouco é ruim. Só não é a verdade absoluta sobre o filme. E ainda se fosse: P0RRA, é só um filme. Feito para vender e entreter. Precisa de explosões, mocinhas e mocinhos. Coisas que agradam as massas. Pessoas inteligentes pra cacete deveriam gastar tempo super-analisando eventos mais relevantes. Ou fazer seus próprios filmes, com a mensagem que quiser (ninguem vai assistir e só vai passar no Telecine Cult).

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  8. Gustavo Bruno // 10/08/2012 às 13:56 // Resposta

    Mas que interpretação absurda. Toda a interpretação do Zizek sobre o filme se encaixa nos DESEJOS de Zizek, e não do que podemos realmente retirar do filme. Acho que todo mundo aqui já apontou os erros, enganos e exageros do autor. Mas só pra finalizar, Zizek e muitos outros ignoraram que Bane não é um líder revolucionário e sim POPULISTA. Ele chama as massas para fazer valer seus próprios interesses, e não os interesses do povo. Ele não está interessado em distribuir poder e renda ao povo, mas enganá-los para que seu objetivo maior, que é destruir Gotham e concretizar os planos de Ra´s.

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    • Justamente, como o proprio Zizek fala, trata-se de uma CARICATURA do revolucionario, seu cabeção. Uma caricatura que retrata um certo tipo de visão que assimila o revolucionario a um terrorista e a causa revolucionaria a um “projeto sinistro”.

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  9. Ricardo André // 10/08/2012 às 14:18 // Resposta

    Gostei da análise. Em especial do paralelo feito com a obra de Saramago. Não vi o filme, verei com esse viés crítico – o que certamente tornará a experiência mais interessante. Vi os filmes anteriores e me pareceram pertinentes as reflexões relacionadas a eles… A ideia psicanalítica do “espectro” (quando conclui que o “poder do povo” exerceu sobre Hollywood algum magnetismo e que tal aspecto não deve passar em branco neste filme) e, sobretudo, as conclusões para além do senso comum estão presentes, como sempre. Isso é marcante no pensamento de Zizek. E é mais interessante porque ele se propõe a bordar suas ideias sobre o tecido de uma cultura de massa. Essa perspectiva crítica e materialista (quando lançada sobre uma história de herói que tenderia ao banal) é muitíssimo instigante.

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    • Afinal, um comentário lúcido e inteligente! Merece resposta! Veja, Ricardo, o que pensa sobre a idéia do amor nos revolucionários? Já leste O Príncipe, do Maquiavel? E na tua opinião, o que move uma grande potência a invadir outros países para “salvar” seu povo de alguma coisa, promovendo a matança, não é o amor?

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      • Acho engraçado esse ideal da revolução do povo, e ainda comparar com cristianismo. Enquanto Marx falava na união do povo para mudar um sistema, Jesus fala da mudança pessoal para mudar o todo o que acaba sendo distoante. No final a experiência comunista foi um fracasso, porque sempre esbarra no grande problema do homem como individuo, sim porque mesmo um ideal revolucionário , com belos principios demagógicos, no final resultaram no inicio de um novo regime com lideres com grande fraqueza moral (pessoas que não mudaram) como exemplo che guevara e Fidel (um traindo o outro), os lideres da CCCP com maior destaque para Stalin, enfim pessoas que vieram de “belos ideais” mas que no fim só mudaram a própria vida (no caso o bolso), transformando assim na boa e velha mensagem, “eu me tornei quem eu tanto combati…”

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  10. Cristiano // 10/08/2012 às 14:56 // Resposta

    Concordo em alguns pontos, discordo em muitos outros. Gotham no filme se divide entre sua elite (a maioria corrupta, ok), os bandidos relacionados ao crime organizado, e o povo propriamente dito, que sofre na mão da elite dominante e dos gângsters. É por esses que Batman sempre lutou, apesar de no último filme essa motivação ficar um pouco de lado. Acho que a idéia do “ressurgimento” vem daí. A decisão do Batman provocou o fim dos bandidos nas ruas, mas se mostrou equivocada, já que então o povo passou a sofrer só na mão dos bandidos da elite, respaldados pelo Ato Dent, e o herói se tornou novamente necessário. Nesse ponto o Nolan se atrapalhou com as fichas, e as motivações do Bane deram um nó no resto. Outra coisa, o tal “povo no poder” de Gotham não é realmente o “povo” de Gotham. Quem toma o controle da cidade e organiza os julgamentos da elite capitalista e corrupta (e seriam todos corruptos só por serem ricos ?), são os mercenários da Liga das Sombras e os presos que foram soltos. O fato deles terem sido presos e ficarem trancados por uma lei opressora não os absolve dos seus crimes (ou absolve?), e eu acho muito difícil de acreditar que TODOS naquela prisão tenham sido trancafiados só APÓS a aprovação do Ato Dent. E convenhamos, o “juiz” do tribunal é o Espantalho, um psiquiatra de olhos azuis, ex-integrante da “elite dominante e corrupta”, completamente INSANO, que aproveitava a sua posição de poder para usar como cobaias nos seus cruéis experimentos os internos do Asilo Arkham. E aquilo não dá pra chamar de tribunal, já que a única escolha dos “culpados” era andar e morrer no gelo. Era apenas execução sumária disfarçada. Pra mim é só um filme confuso e pretensioso, que acerta em alguns pontos e erra em muitos outros ( Bane é o exemplo – um personagem fascinante que foi muito mal aproveitado ). As interpretações a partir daí ficam a cargo de cada um. Essa relação com o Occupy Wall Street pra mim é bem distante, mas outros podem pensar diferente e tem esse direito. Por enquanto espero a análise do mesmo autor sobre a season finale de “The Walking Dead”, e a frase de Rick Grimes: “- This is not a democracy anymore!”. Não rende alguns parágrafos ?

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  11. resenha fantástica, como esperado do zizek, mas percebi algumas lacunas:
    1- a caracterização do wayne como traficante de armas e especulador financeiro. os comentários acima rejeitaram a primeira afirmação mas não falaram da segunda, que é realmente verdadeira. aliás, o homem de ferro também é especulador e fabricante/comerciante de armas
    2- a representação dos movimentos de revolta como uma abertura em relação à barbárie. se a preocupação foi unicamente o ows, então é mesmo uma caracterização absurda. o ows teve um início espontâneo e é comprometido, por princípio, com a não-violência. mas se o objetivo foi algo mais geral, achei uma boa caracterização. diferente do ows até o momento, a revolta do filme foi uma revolta orquestrada por um não revoltoso, o bane, que manipula completamente o contexto de início da revolta para, então, se juntar às sombras, permitindo que os revoltosos se vejam como donos do processo, em vez de herdeiros de um plano completamente diferente, que não conhecem. essa crítica da manipulação das massas é sempre oportuna, na minha opinião
    3- harvey dent é mais batman do que o batman. nessa, eu tenho que admitir, fiquei completamente perdido. o fato de ele ser mais violento que o próprio batman também me soou estranho. a não ser que seja uma referência à cena em que ele ameaça matar um criminoso caso a moeda dê coroa (a moeda é falsa, tem duas caras, mas o ato é violento pela crueldade)
    4- achei muito boa a dinâmica do amor e da violência como fatores da atitude revolucionária. no caso, atitude terrorista de bane. mas tive uma dúvida: por que o zizek não percebeu que o batman TAMBÉM é um terrorista? diferente de bane, ele é um terrorista a favor do sistema, mas até aí, bush também era. quem leu o batman de frank miller (o cavaleiro das trevas/the dark knight returns e cavaleiro das trevas 2/the dark knight strikes again)”vai lembrar que ele diz “incutir terror é a melhor parte do trabalho”. batman aterroriza os criminosos utilizando seu próprio medo (o morcego). ele mantém o crime sob controle, mas não agindo nos motivos pelos quais o crime existe, mas reprimindo pela força a atividade criminosa, tanto do pé-de-chinelo desesperado quanto do tubarão de colarinho branco (e essa é a diferença do batman antigo, que só lutava com bandidinhos de rua e loucos com arsenais interessantes). se bane é movido por um grande amor, batman também é: ele ama a cidade, ama a memória dos pais. se bane se sacrificou para salvar talia, pagando um preço terrível, batman também o fez: ele perdeu o controle da própria vida civil, afastou amigos, perdeu a mulher que amava (tanto quando a salvou no primeiro filme quanto quando falhou em salvá-la no segundo. aliás, quando ela morreu, já estava fora do alcance dele). no final ele realmente reconquista pelo menos o que resta de sua vida (a aparição dele em florença dificilmente seria uma alucinação, pois o batsinal foi consertado e blake herdou a caverna)
    5- ainda sobre o amor e a violência. a comparação de guevara e jesus foi muito interessante. nunca li nada realmente informativo sobre o che, mas há um livro, muito interessante, chamado “a última semana”, que reconta a última semana de jesus, explicitando suas motivações políticas passionais (primeiro sentido de paixão, como amor devoto) que o levaram à paixão pela crucificação (segundo sentido de paixão, como sofrimento). é um livro interessante porque defende que não há possibilidade de um cristianismo que venere a segunda paixão sem compreender a primeira (e participar dela). e isso chama atenção para as várias significações de violência no texto do zizek. a violência pode ser tanto o ato de agressão, direto ou indireto, a outra pessoa quanto a recusa e inclusive o ataque a algo imaterial como um sistema político-econômico. e é através desse segundo sentido que zizek nos mostra a “violência” do ows e do cristianismo primitivo, ambos movimentos pacifistas

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  12. Carolina Nerval // 10/08/2012 às 22:50 // Resposta

    Zizek é um escritor instigante, sempre inteligente, profícuo. Incrível ter um texto dele assim tão elaborado, publicado no Brasil com exclusividade! A Boitempo está de parabéns por nos proporcionar boas reflexões, e de altíssimo nível. Abraços a todos aí.

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  13. Isso me remete aos Ufólogos que vêem conspirações governamentais para encobrimento da presença alienígena em todos os cantos, seja livros, músicas, filmes e todo tipo de manifestação midiática de massa. Também me recorda aqueles que conspiram a respeito de um governo mundial, os Iluminates, enfim não deixa de ser um tipo de alienação que faz o indivíduo perder a noção da realidade e ver aquilo que lhe interessa em tudo que o cerca.

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  14. Quando eu proponho este tipo de discussão o respeitável publico cai de pau em cima de mim

     http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2012/07/510123.shtml

    Desta vez Zizec apenas confirmou, com eloquencia, a validade do tipo de abordagem que eu faço.

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  15. Se for para interpretar o filme sob a velha dicotomia esquerda/direita, me parece muito mais significativo o fato de que o povo não participou da “revolução”: a luta final foi entre a polícia e o pessoal do Bane, os atos que pretendiam divulgar a revolução foram do pessoal do Bane, em nome do povo, que não foi consultado em nenhum momento e que nenhuma relevância teve no curso da estória, assim como frequentemente não o tem na História.
    Pois o que realmente me perguntei depois que começou a confusão toda em Gotham quando estava assistindo o filme foi: onde raios está o povo? esse homem, que nem é da cidade nem nada, chega invadindo a Bolsa, explodindo o estádio, prendendo a polícia no esgoto da cidade e falando de uma revolta popular, como se eles tivessem tido escolha em algum momento. Os julgamentos eram comandados pelo povo, mesmo? onde foi que apareceu a manifestação da massa, sem que eles estivessem usando aquelas roupas toscas do pessoal do Bane?
    Embora existam movimentos populares autênticos, ao longo da História o que mais se vê são aqueles em que o povo mesmo, é apenas o pretexto para os atos que permitirão que um grupo especifico satisfaça sua própria vontade e ao povo restará se adaptar ao fluxo do tempo e tentar sobreviver ao que nunca é um combate entre “O Sistema vs. Seus Destruidores” e sim “O Sistema atual vs. O Próximo Sistema”.

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  16. Capivara humana // 14/08/2012 às 13:10 // Resposta

    Esse Zizek é muito picareta hauhauhauhauahuahuah

    Muito, MUITO picareta

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  17. O Nolan já havia dito que seu filme foi inspirado em A Tale of Two Cities de Charles Dickens

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  18. Nolan escreveu e filmou ANTES do Ocupe Wall Street

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  19. Reblogged this on Casa do Grande Hippie "e comentado:
    Bane e os 99%

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  20. O texto traz considerações diferentes e apresenta outra visão. Concordar ou não é direito de cada um, mas comentários como o da punheta são bem dispensáveis.

    A análise do herói, fazendo um pareamento entre Guevara e Cristo não é novidade e nem deveria ofender religiosos. Já foi feita inúmeras vezes, e recomendo a leitura de “Herói Das Mil Faces” antes de falar bobagem.

    O texto não escapa de uma certa dicotomia, ainda que o autor tente minimizá-la um pouco: A direita liberal e opressora com medo dos que não comem, etc. Mas ele tem razão sob vários aspectos. Pode não ter sido uma intenção conciente do diretor ou roteirista, mas um filme que só pode tratar de revoltas populares como algo opressivo é um espelho de uma certa opressão que deveras existe, ainda que disfarçada. De fato há miséria, de fato Wall Street foi inepto e ganancioso em uma série de erros que culminaram na atual recessão americana e os liberais pedem “sepração de corpos” com o governo, mas ficam bem excitadinhos quando é preciso intervenções de injeção de dinheiro em bancos falidos.

    Mas fora tudo isso, o problema é que o filme não apresenta de forma clara a NECESSIDADE de mudanças. Talvez não tão radicais como a do filme, mas sem dúvida necessárias em algum ponto. Basta ver o que ocorre (ainda) na “Primavera Árabe” para entender que que há, sim, revoluções e levantes violentos porém necessários mesmo hoje em dia.

    E Bruce Wayne é um ‘terrorista” que usa o terror contra assaltantes, igualmente violento e moralmente questionável. É um justiceiro, que “não mata” porque é um personagem, mas seus equivalentes reais nada tem das mesmas preocupações éticas.

    É válida a crítica, no meu entender, portanto, e acho engraçado que em um país com enormes desigualdades e com governos de ética bem questionável, tanta surpresa cause uma defesa do direito de se revoltar contra uma situação opressiva e injusta.

    O problema das revoluções é o “day After” com julgamentos e patrulhamentos ideológicos em geral bem opressivos. Mas isso não altera o fato de uma outra opressão, anterior, ter sido tão forte a ponto de alimentar tamanha ebulição e caos social que a desestabilizasse, para início de conversa.

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  21. Existe um caminho que perpassa o pano de fundo do filme que vai dar nos quadrinhos. Sua releitura, sua adequação à realidade social, sua adequação ao produto da Industria Cultural. O derrapar de Slavoj encontra-se exatamente em não perceber essa rede discursiva e mirabolar pretensões discursivas.

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  22. muito bom mesmo, acadei de ler…concordo com algumas ideias. os americanos sempre gostam de representar um herói, esquecendo seu lado escuro( wayne vende armas, é especulador, etc.). o primeiro também mostrava um povo besta, manipulável, o que justifica a dominação de uma pequena elite em gotham(aí o livro de charles wright mill, as elites do poder, tem toda sua relevância). tenho certeza também que existem revolucionários sinceros e o contrário deles…kkk…o que seria o caso de zizek????? queria, porém, uma análise mais aprofundada da violência como uma necessidade em algumas ocasiões. Franz Fanon e Hannah Arendt escreveram excelentes livros sobre o tema… bom , depois ele tem uma concepção de violência que não é muito consequente na minha opinião, pois, o que deve ser problematizado de fato é a violência no sentido literal…

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  23. Reblogged this on Blog do Prof. Matheuse comentado:
    Interessante análise político-filosófico do filme “Batman, o Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Sugiro a leitura.

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  24. Anticomunismo // 23/08/2012 às 4:45 // Resposta

    Batman é só batman gente,o Nolan queria colocar algo mais serio e digamos até real nos filmes dele,não sobre herois bonzinhos e tudo mais,só que essa analise ai é uma merda,esse é o que eu chamo de o efeito socialismo/comunismo,querer dar em tudo um sentido filosofico,politico,por favor,esse papo de querer formar um significado não rola,e tem mais,se quer criticar uma coisa pelo menos entenda ela,falar que a wayne enterprises fatura dinheiro com armas é muita sacanagem.É facil ficar citando livros,textos,e autores cults pra comparar e comprovar a teses,mas tudo são apenas palavras pra tentar,e eu disse tentar forçar essa explicação sobre o filme.O filme nada mais é do que um filme,sem comprometimento com politica pesada ou essas coisas

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  25. marcus moura // 24/08/2012 às 15:36 // Resposta

    vamos ler o quadrinho sobre o bane!

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  26. quero ver slavoj comentar ‘os mercenários 2’…

    falando sério, a análise é interessante, mas não há cinema nela. teria mais valor se fosse feita juntamente com o diretor antes de filmar para dar mais profundidade psicológica aos personagens. PS. só faltou fazer um comparativo a relação do batman com a mulher-gato com o amor proibido de romeu e julieta. se batman fose che, teria uma ak-47 e fumaria charutos, se fosse jesus, andaria descalço e andaria de jegue.

    quanto ao filme, é um péssimo filme do batman; no qual o personagem-título aparece apenas uns 20-25 minutos do tempo total do filme. é o cavaleiro das trevas que aparece mais de dia que à noite. a primeira metade do filme dá sono, a outra, tédio. crise de identidade é pro chato do homem-aranha, que não sabe se casa ou compra uma bicicleta; batman tem que dar porrada em bandido, ter apetrechos legais no cinto, abrir a capa. nesse filme, ele quase é morto duas vezes e nenhuma delas se salvou por mérito próprio, mas, uma pela piedade do vilão não o ter matado (o mandou para prisão), a outra pela mulher-gato.
    ainda fico com os dois filmes do tim burton, com o michael keaton, que são mais dark!

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  27. É uma análise interessante, embora seja viciada pela obsessão intelectual de Zizek pelo Occupy Wall Street.

    O movimento iniciado por Bane é terrorista e sua parte revolucionária é ilusória. É como se Bane fosse um fundamentalista do talibã sequestrando aviões e explodindo pontos de Gotham com o objetivo de passar sua mensagem, mas não um ativista com uma agenda revolucionária. Basta lembrar que sua república “comunista” tinha prazo de validade definido pela bomba nuclear obtida nas Wayne Enterprises.

    Sua diferença em relação ao Coringa é que Bane é um terrorista profissional, usando de uma ordem para criar o caos em outra ordem, enquanto Coringa era o puro caos, trabalhando ou explorando as pessoas por um curto espaço de tempo para disseminar sua visão de mundo anarquista. Dessa forma é possível dizer que o Coringa era um vilão até mais ideológico que Bane.

    O Batman, nesse contexto é a própria ordem, baseada não no amor ao sistema, mas no amor às pessoas, à ideia de humanidade (de uma maneira que a metáfora de Jesus Cristo torna-se apropriada). Batman é avesso à morte e ao derramamento de sangue como métodos válidos de justiça, e, no final, acaba defendendo a vida mais que a propriedade. Basta ver como sua redenção ocorre depois que ele divide seus bens materiais e ressuscita o orfanato para notar que ele não é capitalista, e sim humanista.

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  28. Tem duas coisas muito complicadas nesse texto, que acabam derrubando toda a tese. Uma vez que o autor pauta sua argumentação em uma visão do personagem do Bruce Wayne que não é real, em relação as armas, parece algo pequeno, mas desconstrói todo o argumento. Em segundo lugar, o projeto do Bane de “devolver a cidade ao povo” nunca foi uma tentativa de instigar uma revolução anarquista, mas sim a criação de um caos da esperança, provando que, no desespero, toda a cidade de Gothan entraria em colapso pois a sua própria existência é corrupta. Ele levou ao extremo a tentativa do Coringa de fazer os barcos explodirem um ao outro simultaneamente no final do The Dark Knight. Nunca houve revolução, nunca houve participação popular e nunca houve possibilidade de redenção para a cidade dentro dos planos de Bane.
    Mas uma coisa eu concordo, o final que Bane teve foi patético. Não concordo com a carga simbólica que o autor atribuiu a isso, mas, falando agora como fã que achou a construção e a interpretação do personagem excelentes, acho que ele merecia um final mais digno.

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  29. Republicou isso em Páginas Perdidase comentado:
    Brilhante análise sobre o Homem Morcego.

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  30. resposta

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  31. teste

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