O direito à literatura no século XXI: uma homenagem a Antonio Candido


Confira abaixo homenagem de Flávio Aguiar a Antonio Candido, apresentada durante a programação da VIII Semana de Ciências Sociais da USP, evento apoiado pela Boitempo Editorial. Confira mais registros fotográficos da homenagem clicando aqui.

***

No dia 10 de maio passado, houve uma tocante cerimônia na Bebelplatz, em Berlim.  A cerimônia, organizada pelo partido Die Linke, A Esquerda, consistiu numa leitura de trechos de livros. Uma instalação especial recebia quem chegava à praça: cadeiras espalhadas com livros sobre elas, alguns em edições antigas. A brisa da manhã folheava distraída os volumes, dando um toque algo telúrico, ao mesmo tempo brejeiro e melancólico à cena.

Quem abriu a série de leituras foi uma simpática senhora de 101 anos de idade. Antes de ler a passagem do livro que escolhera, ela recordou o motivo da comemoração, que testemunhara, aos 22 anos de idade. Tratava-se das sinistras cerimônias de queima de livros considerados decadentes, subversivos, inadequados ao “caráter alemão”, que se realizaram em rituais macabros, de maio a junho de 1933.

A inauguração desse verdadeiro holocausto da inteligência dera-se naquela mesma praça, 79 anos antes, à noite. Existem registros cinematográficos do evento. A praça, então denominada Praça da Ópera, ficava e fica entre o prédio da Ópera Municipal e a Faculdade de Direito, em frente da Universidade Humboldt, que então se chamava Universidade Friedrich Wilhelm, todos eles testemunhas mudas desse ato de barbárie no coração da civilização.

70 mil pessoas, na maioria jovens estudantes, participaram do ato. Os livros vieram de toda Berlim, não apenas da Universidade e da Faculdade próximas. Vinham em carroças carregadas, acompanhadas por milhares de jovens, muitos fardados com os uniformes pardos das SA ou negros das SS hitleristas, e por professores em vestes talares. Na própria praça estiveram 40 mil. Foram incinerados 25 mil livros de diversa procedência: Bertolt Brecht, Heinrich Mann, Franz Kafka, Stefan Zweig, Erich Maria Remarque, Walter Benjamin, Ernest Hemingway, John Dos Passos, Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Karl Marx, e muitos e muitos outros. Uns foram trazidos à pira por serem autores judeus, outros, comunistas, outros social-democratas, ou ainda liberais, alguns por algumas dessas razões acumuladas. O nome da praça homenageia hoje um dos autores condenados, o militante socialista August Bebel.

Esteve presente o Ministro da Propaganda do regime nazista, Joseph Goebbels. Em seu discurso, proclamou que daquelas cinzas renasceria o “novo homem germânico, livre do intelectualismo judaico”.

Hoje, na praça há um monumento planejado pelo artista israelense Micha Ullman: sob uma placa transparente, estantes álgidas e vazias lembram o acontecido. Ao lado, uma placa de bronze traz esta frase de uma das peças de teatro do poeta, dramaturgo, jornalista  alemão Heinrich Heine, uma das vítimas do zelo nazista: “Isto foi só um prelúdio: ali onde se queimaram livros, se termina por queimar seres humanos”.

A evocação destes fatos passados e recentes me veio junto com a releitura do ensaio/conferência de Antonio Candido, “O direito à literatura”, que dá nome a este evento e a que e a quem nele homenageamos. A certa altura do ensaio, o professor Candido assinala o que entende por “traços essenciais da humanidade”, a que a fruição da literatura e o direito a ela estão ligados. São eles:

1)      O exercício da reflexão;

2)      A aquisição do saber;

3)      A boa disposição para com o próximo;

4)      O afinamento das emoções;

5)      A capacidade de penetrar nos problemas da vida;

6)      O senso da beleza;

7)      A percepção da complexidade do mundo e dos seres;

8)      Last, but not least, o cultivo do humor.

Cenas como a que evoquei aqui nos lembram, no entanto, alguns outros traços essenciais da humanidade:

1)      A negação da reflexão como estratégia de dominação;

2)      A satisfação com a própria ignorância e a dos outros, e seu estímulo programado;

3)      O embrutecimento das emoções;

4)      O ódio ou o desprezo pelo próximo, e sua indução individual e coletiva;

5)       A capacidade de fugir ou negar os problemas da vida através de fantasias fanatizantes;

6)      A fixação num único ideal de beleza, em geral narcisista, e a destruição de outras formas do belo como repugnantes, decadentes ou impuras;

7)      A simplificação fanática do mundo e dos seres, em geral de forma maniqueísta e auto-complacente;

8)      Last, but not least, o cultivo do ressentimento e do amargor, e a confusão do humor com o sarcasmo destruidor do outro.

Não fiz essa comparação para negar a lista de valores de Antonio Candido. Ao contrário, é para confirmá-la, lembrando o que ela procura combater através da fruição desse “sonhar acordado” que é a literatura, por ele identificada, de modo genérico, com a capacidade de fabulação dos seres humanos, coisa que também percebemos no teatro, no cinema, na música e nas demais artes. Podemos também compreender aí a arte das operações verbais que outro pensador da teoria literária e do exercício da linguagem, Northrop Frye, chama de “temáticas”, por oposição às fictivas: o ensaio, o tratado, a tese,  a dissertação, etc.

Nessa altura o pensamento de Frye pode nos ajudar a compreender, ampliando, o ponto de vista do Professor Antonio Candido. Frye visualiza a experiência verbal humana – a individual e a das coletividades – como compondo, em contato com outras formas da cultura, um círculo da experiência, um autêntico “anel de saber” que acompanha toda a atividade dos seres humanos e que lhes dá a possibilidade de ver sentido, algum sentido, naquilo que fazem. Essa “faculdade da expressão” se manifestaria de modo radical nas obras de arte, inclusive na literatura, por se tratar de uma experiência – agora retomando os termos de Candido – de dar alguma organização a esta e “superar o caos”. É evidente que isso está longe de afirmarmos que somente a boa ordem sintática e morfológica das palavras encarna essa “tentativa de superação do caos”, ou que apenas certa ordem figurativista e acadêmica em outras artes o faz com exclusividade.

Não. Como diz Candido, a fruição da arte literária, seja a de criador, leitor ou crítico especializado, está longe de ser algo inocente. Ela é uma “uma iniciação à vida”, e isso implica o medir-se com a pletora das dimensões da vida, seus lados satânicos – por vezes os mais criativos artisticamente – obscuros, turvos, malditos, recalcados, destruidores, como vimos na cena inicial evocada nesta fala.

Dizendo de outro modo, em outra dimensão, Frye, que era pastor metodista, afirma que toda obra de arte tem algo de profundamente herético nela, pois trata-se de um esforço de recriar a Criação, de refundar na dimensão humana o gestus, no sentido brechtiano, inicial do Criador. E que isto é essencialmente bom e desejável. Dizia ainda  Frye que em todas as suas formas e expressões – até a de um Big Bang – o nome do Criador é um Verbo, como está na versão de João Ferreira de Almeida do Evangelho de São João. Se assim for, então a Criação e sua história nada mais são do que a conjugação desse Verbo em todas as suas formas, modos, tempos, os que conhecemos e os que ainda não conhecemos, e a fruição das formas de fabulação, como quer Candido, nos leva ao encontro e de encontro a essa inimaginável dimensão da liberdade humana.

Tocamos aqui num ponto essencial do pensamento do Professor, neste seu ensaio e em outros. Seguindo os passos do Padre Louis Joseph Lebret, que atuou muitos anos no Brasil, e teve entre nós uma influência enorme, na tábua dos direitos humanos, a capacidade e o acesso às formas de fabulação seria um dos bens “incompressíveis” (não “incompreensíveis”… mas aqueles que não podem ser comprimidos…) dos seres humanos. A capacidade de fabulação é uma qualidade universal dos seres humanos, embora ela possa – e até deva – se manifestar de formas diferentes em diferentes culturas. Ela é como o sonho: indispensável. Portanto, por essa dimensão, ela é um direito, e, como tal, um direito inalienável do direito ao exercício da liberdade, do direito de ter e exercer direitos. De certo modo, ela é um “ur-direito”, um direito primevo, porque é através do exercício contínuo da fabulação que podemos abrir o pensamento e as emoções para a imaginação de outros mundos possíveis, e portanto, assim, começar a transformar este em algo melhor. Ou pior, retomando novamente as cenas iniciais aqui evocadas da iniciação à hecatombe nazista.  De qualquer modo, olhando esta faculdade e esse direito de um ponto de vista positivo, também é através dos processos de fabulação que começamos a ver o mundo e a nós mesmos com os olhos de outrem, abrindo o espírito para as aventuras das transformações.

Antonio Candido fez a conferência que transformou em ensaio para livro em 1988, incluído nas edições revistas e ampliadas de Vários escritos, livro publicado pela primeira vez em 1970. Pode=se dizer que a conferência culmina um ciclo do pensamento de Antonio Candido, iniciado em 1975 com os Debates do Teatro casa Grande, no Rio de Janeiro, ainda em plena ditadura militar, onde Antonio Candido apresentou uma reflexão sobre as vanguardas literárias. De um modo geral, pode-se dizer que esse ciclo ou momento se dá na moldura da intensificação  das lutas pelas liberdades democráticas e pelos direitos humanos no Brasil, depois da histórica eleição de 1974, primeira desde o golpe militar de 1964 em que o partido da ditadura saiu claramente derrotado das urnas. São marcos mundiais desse momento o fim da guerra do Vietnã, em 1975, com a vitória dos Vietcongs e do Vietnã do Norte contra o Vietnã do Sul e os Estados Unidos, e a queda do muro de Berlim, em 1989, começo do fim dos regimes comunistas e da União Soviética, derrotada na Guerra Fria pelo hegemon do capitalismo ocidental, a partir daí mundial.

No ensaio, o Professor situa a contradição de um momento histórico em que se vislumbra possibilidades de construir um mundo menos desigual, eliminando, por exemplo, a fome como endemia social, mas onde permanece uma combinação de “barbárie e civilização”. Nessa época muito do que era apenas uma utopia distante se transformara em possibilidade real. No plano da consciência, se via que, se a barbárie continuava a permanecer no mundo, já não se fazia o elogio da barbárie, como naquela sinistra queima de livros em 1933. “Há uma consciência infusa”, diz o ensaio/conferência, “cada vez mais generalizada de que a desigualdade é insuportável”. Este era o contexto espiritual em que se deu o ciclo de palestras sobre direitos humanos, em S. Paulo, de que “O direito à literatura” fez parte, convivendo com as últimas etapas da definição da nova Constituição brasileira, promulgada em outubro daquele ano.

Podemos nos perguntar o que mudou neste contexto, de lá para cá, em quase um quarto de século. É certo que muita coisa mudou no Brasil e na América Latina como um todo, tendo nós atravessado um ciclo neoliberal de desossamento do Estado brasileiro, do espaço público e da consciência coletiva e atravessando agora um ciclo em que se tenta a reconstrução desses espaços, com um sucesso relativo em áreas sociais. Também devemos registrar que o Brasil, por assim dizer, mudou de lugar na ordem – ou desordem, se quiserem – internacional. O Brasil tornou-se uma liderança mundial de médio porte, digamos assim, sem ter a fluência política, econômica e militar das potências dominantes, mas, por isso mesmo, fruindo de um trânsito político muito aberto em relação ao chamado Sul do mundo e em relação a potências relativamente periféricas em relação ao hegemon central, como China e Rússia, por exemplo.

Ao mesmo tempo, constatamos que vivemos num mundo desnorteado, isto é, em que o chamado Norte do mundo não serve mais de exemplo ou modelo para ninguém. Pelo contrário, hoje vemos, com alguma angústia, é verdade, a União Européia, sobretudo na Zona do Euro, construir a sua periferia, o seu Sul, reorganizando e redistribuindo de modo franco e aberto a desigualdade social dentro de suas fronteiras geográficas. Do outro lado do Atlântico, o american way of life mostrou seu lado mais feio, descortinando pobres e desamparados fora de qualquer sistema de proteção social em números espantosos. Para culminar esse quadro de um mundo de pernas para o ar, lembro que já há algum tempo os relatórios anuais da Organização Internacional do Trabalho citam a Europa como um dos lugares mais ameaçadores no mundo no que se refere à segurança no emprego para os trabalhadores, sobretudo os jovens, ao mesmo tempo em que se refere à América Latina e ao Brasil em particular como países que vão se tornando exemplares nesse campo. Só dizendo: o tempora o mores!

Ou seja, para retomar o eixo central de nosso tema, vivemos num mundo que está a clamar, tanto do ponto de vista individual quanto do coletivo, por novos processos fabulativos que nos ajudem a entender o que está acontecendo e a vislumbrar novas experiências possíveis.  Aqui começam os novos problemas.

Nestes quase quarenta anos que separam o fim da guerra do Vietnã e a atual discussão das potências da OTAN de como se desatolar da Guerra do Afeganistão, o espaço de fabulação em liberdade terá se ampliado ou diminuido? De certo modo, ambas as coisas. O desenvolvimento tecnológico, assim como nas décadas de 70 e 80 do século passado tornava possível vislumbrar a transformação de utopias em realidades palpáveis, ainda que permanecendo distantes, hoje permite experimentar redes de conhecimento e comunicação espantosas, pelo menos para quem venha do tempo do papel carbono e considerasse o fax e o xerox como instrumentos quase mágicos de reprodução e contato.

Porém ao mesmo tempo esses novos espaços são cada vez mais disputados e ocupados por megamensagens, às vezes caóticas demais, às vezes organizadas em uníssono demasiado, bombardeando todos os sentidos do corpo humano com um único sentido: você não precisa sonhar, nós sonhamos por você. Basta você comprar o aparelho, o acesso à rede e o conteúdo. Para retomarmos uma terminologia que hoje já é quase peça de museu, você pode comprar simbioticamente o meio e a mensagem – ou se deixar comprar por eles, cada vez com mais facilidade. Não nos iludamos em nenhuma das direções: também é verdade que a telefonia celular ajudou a bloquear o golpe de estado na Venezuela em 2002, ou que processos como o do Fórum Social Mundial seriam impensáveis sem as grandes redes virtuais de contato internacional. Mas também é verdade que, com a convergência cada vez maior de redes e de apararelhagens, unificando, por exemplo, tv, telefone móvel ou fixo, computador e rede virtual, se potencia cada vez mais o alcance do que, a partir de retóricas especialmente construídas para tal fim, ainda que algumas possam ser inadvertidas, se injeta, como vírus, veneno ou sedativo, nos processos de fabulação individuais e coletivos.

Vou me deter num exemplo, entre tantos possíveis, que estou vivendo bem de perto, embora hoje a noção de “perto” e “longe” seja inteiramente outra daquela de trinta anos atrás. Faz já algum tempo que parte considerável do mundo europeu – o norte-americano também, e por extensão, muito do nosso mundo – vem sendo organizado de modo sistemático em torno de uma idéia de diluição do mundo conceitual de O choque das civilizações (The Clash of Civilizations), de Samuel Huntington. O livro com tal título, e com o subtítulo “Remaking the World Order”, “Refazendo a ordem mundial”, foi publicado em 1996, desenvolvimento de um artigo inicialmente publicado por aquele professor universitário em 1993 na revista Foreign Affairs, transcrição de uma conferência proferida em 1992 no “American Entreprise Institute”.

Curiosamente, o título do artigo era uma pergunta: The Clash of Civilizations?. No livro, três anos mais tarde, o ponto de interrogação sumira. A conferência e  o artigo eram uma resposta à teoria do “fim da história”, de Francis Fukuyama,  publicada em livro naquele mesmo ano, 1992. Não, dizia Huntigton, a história não terminara; no século XXI, prosseguia ele, ela seria moldada não mais pela luta ideológica, como fora na Guerra Fria, nem pela guerra entre as nações (a luta de classes, aparentemente, não estava entre as suas cogitações principais) ou por disputas econômicas. O século XXI sria moldado pelo choque entre distintas civilizações, culturas e religiões. Huntignton identificava várias “civilizações” no mundo: 9 maiores, para ser mais preciso, com algumas interfaces entre elas, como no caso da América Latina. Mas é claro que entre esses confrontos privilegiava-se aquele entre a Ocidental e a Islâmica, como apontou Edward Said na crítica rascante que escreveu sobre o livro e as idéias de Huntington, “The Clash of Ignorance”, em 4 de outubro de 2001, publicada no semanário norte-americano The Nation.

Evidentemente, podemos ver traços profundos e marcantes do mundo conceitual de Huntington na macropolítica externa dos Estados Unidos, mais tenazes pelo menos durante o governo de George Bush e depois da hecatombe de 11 setembro de 2001, com o assalto às Torres Gêmeas em Nova Iorque. Também, como aponta Said em seu artigo, podemos ver a contrapartida deste mundo conceitual naqueles que querem reduzir o Islã a “um código penal”, bem como o significado da palavra jihad a um amontoado de procedimentos guerreiros indiscriminados contra inimigos mais presuntivos do que reais.

Mas há uma outra permanência desses traços, talvez mais insidiosa ainda, nas políticas do cotidiano, na mídia e no contexto do dia a dia. Refiro-me, por exemplo, ao sucesso do recente livro Deutschland schafft sich ab – “A Alemanha se anula”, ou se destrói, de Thilo Sarrazin. O livro vendeu 1,3 milhão de exemplares, e transformou seu autor num milionário da noite para o dia. Ele era e é membro do Partido Social Democrata (!), foi Secretário da Fazenda de Berlim e era membro do Conselho do Bundesbank, posiçào que teve de abandonar por pressão do próprio presidente da República depois da publicação do livro.

Essa publicação é uma longa (e maçante) diatribe contra os imigrantes – turcos em particular – muçulmanos, em geral – que se recusam a se integrar no mundo germânico, rejeitando a educação, preferindo viver às custas do Estado, e assim contribuem de modo significativo para o que o autor considera o “emburrecimento” generalizado do país.

Segundo ele, o que caracteriza o mundo de turcos e árabes na Alemanha é:

  • “Integração abaixo da média no mercado de trabalho;
  • Dependência do sistema social acima da média;
  • Participação educacional abaixo da média;
  • Fertilidade acima da média;
  • Segregação espacial com tendência à formação de uma sociedade paralela;
  • Religiosidade acima da média com crescente tendência ao fundamentalismo;
  • Criminalidade acima da média, variando de um simples crime violento até o terrorismo.

Também afirma que apenas um terço dos imigrantes muçulmanos sobrevivem do seu próprio trabalho, e que a taxa de desemprego entre os muçulmanos é quatro vezes maior do entre os alemães. Destaca ainda, que a alta dependência dos sistema social e alta taxas de desemprego não são comuns entre os grupos de imigrantes não-muçulmanos.

“Em todos os países europeus os imigrantes muçulmanos custam à sociedade mais do que fornecem devido a sua pouca atividade de trabalho e aos benefícios sociais que recebem”

“Do ponto de vista cultural e civil, as concepções sociais e os valores que representam são um retrocesso”, e que a imigração tem tornado a sociedade alemã mais burra, pois os imigrantes muçulmanos não tem bom nível educacional  (…) a maioria deles não tem qualquer atividade produtiva, senão vender frutas e legumes”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Thilo_Sarrazin

Sarrazin foi muito enfático em declarar, quando do lançamento do livro, em agosto de 2010, que ambos, ele e a publicação, nada têm de “racismo”.  Suas referências seriam “estatísticas confiáveis” e o universo cultural desse meio.

A mesma reivindicação fazem inúmeros políticos e movimentos de extrema-direita em toda a Europa, inclusive Marine Le Pen, na recente eleição presidencial francesa, estigmatizando os imigrantes – e sempre ressaltam aí os muçulmanos, árabes, norte-africanos, etc. – como os culpados e portanto os tentadores bodes expiatórios da crise econômica, social, cultural e política que vive a Europa nesse mundo desnorteado. Tais movimentos se espalham hoje de modo dramático pela Holanda, Áustria, Grécia, Suíça, Suécia, Finlândia e o antigo Leste Europeu, onde também vicejam movimentos anti-roma (ciganos) sugerindo alguns, até que se subtraiam as crianças das famílias roma para educá-las em separado como “cidadãos dos seus países” (caso específico da Hungria). Há portanto, uma rejeição massiva – embora não majoritária, ainda que difusa, infusa e disseminada – de qualquer política ou convivência multi-cultural.

Dois casos recentes e dramáticos espelham essa nova fabulação disfórica, grotesca e dissimuladora da natureza da crise vivida hoje pelas sociedades européias e mundiais. No primeiro, ocorrido na Noruega, um visionário de extrema direita, Anders Breivik, tentou eliminar o que ele via como a esquerda multiculti de amanhã em seu país, no  duplo massacre no centro de Oslo e no acampamento da juventude do Partido Trabalhista Norueguês. No segundo, a polícia alemã ficou procurando, durante mais de dez anos, uma suposta “máfia turca” para solucionar dez assassinatos e outros atentados cometidos, ao fim e ao cabo descobriu-se, por uma célula de neonazistas, que sobreviveu 13 anos na clandestinidade tendo, inclusive, infiltrações nos aparatos de segurança. O caso comoveu a sociedade e as autoridades alemãs, pela cegueira coletiva que se instalou em relação ao grupo neonazi, cujos indícios foram tão conspícuos e evidentes que chegaram a chamar até a atenção do FBI norte-americano, que alertou seus congêneres alemães sobre a verdadeira natureza dos crimes.

Também podemos lembrar aqui de repetidos argumentos na mídia e fora dela, por vulgarizações mas também por analistas que se apresentam como sábios, de que a crise que varre os países desse novo “Sul da Europa” se deve às diferenças culturais com o “Norte” laborioso, já que naquele Sul haveria, por exemplo, uma “aceitação cultural” da corrupção, da irresponsabilidade, da leniência e do favor. Para volvermos à n ossa terra, lembremos da fúria que tomou conta de parte de nossas elites econômicas quando “aquele índio”, “daquela nação de índios” aqui ao lado, ousou nacionalizar as reservas de gás. Houve até quem mencionasse, além de sanções econômicas, uma intervenção militar para salvaguardar “nossos” direitos.

É nesse contexto complexo que voltamos a afirmar a pertinência de incluir o “direito à literatura”, como direito à fabulação com liberdade, no âmbito das lutas pelos direitos humanos, como conquista individual e patrimônio coletivo. É claro que, sem prejuízo quanto ao valor dos demais processos fabulativos, cabe sempre ressaltar o valor do especificamente literário e do amor pelos livros, sejam eles impressos ou virtuais, tanto quanto pelo rico universo da oralidade sempre presente em todas as culturas. Ressalta portanto a importância daquela singela cerimônia no dia 10 de maio próximo passado, recobrindo a cicatriz dolorosa e pungente com a homenagem aos livros queimados: até mesmo porque, entre os exemplares expostos àquela brisa que os folheava algo amorosamente, estavam alguns que, evidentmente, haviam sido salvos, na clandestinidade, por quem não se abatera perante a fúria do nazismo triunfante.

Ao final de seu ensaio, conclui o Professor:

“Portanto a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura. A distinção entre cultura popular e cultura erudita não deve servir para justificar e manter uma separação iníqua, como se do ponto de vista cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunicáveis, dando lugar a dois tipos incomunicáveis de fruidores. Uma sociedade justa pressupõe o respeito aos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável”.

A essa justa preocupação com as desigualdades internas às diversas sociedades humanas, poderíamos acrescentar também esta outra preocupação, parafreasando o texto anteriormente citado:

“Portanto a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis de cultura, e tenham suas culturas mundialmente respeitadas e estimuladas.  As diferenças culturais não devem servir para justificar e manter separações iníquas, como se do ponto de vista cultural as sociedades se dividissem em esferas incomunicáveis. Um mundo mais justo pressupõe o respeito aos direitos humanos de todas as sociedades. A fruição da arte e da literatura em todas as modalidades  e em todos os níveis é um direito inalienável de todos os indivíduos e de todas as coletividades, no sentido de que eles e elas venham a se conhecer melhor uns aos outros e umas às outras, tornando possível assim, vislumbrar, desejar e construir o horizonte de uma cultura da paz”.

Para encerrar, quero lembrar que se hoje podemos fazer essa ampliação do horizonte de nosso olhar, é porque estamos assentados sobre os ombros de um gigante intelectual, que ajudou a elevar a reflexão brasileira a um nível extraordinário para qualquer cultura no mundo.

Obrigado.

***

Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés (finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012). Ambos estão à venda na Livraria da Travessa e na Gato Sabido pela metade do preço dos livros impressos.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

2 comentários em O direito à literatura no século XXI: uma homenagem a Antonio Candido

  1. Esplêndido!
    Acompanhei a maior parte das histórias, inclusive de Thilo Sarrazin, e não poderia ter descrito com tanta beleza meus pensamentos. Encantada.

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  2. Republicou isso em luveredas.

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