A ideologia de Göran Therborn

Por João Alexandre Peschanski.

Há poucos pensadores atuais com a envergadura intelectual de Göran Therborn, no Brasil para conferências em São Paulo, Porto Alegre e Belém, de 10 a 13 de abril, a convite da Boitempo (mais informações abaixo). A importância do sociólogo sueco, professor emérito da Universidade de Cambridge, se mede tanto pelo impacto de sua obra — ele é um dos marxistas mais citados da atualidade — quanto pela ambição das questões de seus livros, que incluem a teorização da estrutura estatal numa perspectiva marxista, uma análise crítica das relações de gênero e assistência social no capitalismo, um panorama histórico das sociedades e culturas mundiais. O livro que lança pela Boitempo, Do marxismo ao pós-marxismo?, com tradução de Rodrigo Nobile, traça a evolução da tradição marxista e seus desafios no século 21, com um enfoque original: relaciona as biografias e projetos políticos dos marxistas a suas ideias, elabora as condições políticas e nacionais da formação de marxismos diversos e mapeia propostas e questões intelectuais atuais vinculadas a essa tradição.

Em The Ideology of Power and the Power of Ideology [A ideologia do poder e o poder da ideologia], livro de 133 páginas, publicado em 1980 e relançado em 1999 (infelizmente sem tradução para o português), Therborn desenvolve uma teoria concisa e brilhante da formação dos sujeitos. Influenciado pelo pensamento estruturalista de Louis Althusser, A ideologia do poder… é um marco no debate sobre ideologia.

A noção de ideologia é fundamental na tradição marxista. Teoricamente, é um dos principais mecanismos da teoria de reprodução social, estabelecendo como sistemas de relações sociais opressoras se sustentam de maneira estável. Marxistas desenvolveram teorias da ideologia para responder questões como: por que os trabalhadores não se revoltam continuamente contra a exploração e a dominação no capitalismo? A revolta permanente de trabalhadores levaria provavelmente ao colapso do capitalismo, incapaz de manter-se estável. Pode-se tomar essa questão específica por diferentes ângulos — os problemas da ação coletiva, as contingências históricas, as dinâmicas dos compromissos de classe, a ameaça do desemprego –, mas a ideologia permanece um elemento-chave para qualquer resposta. Esta serve para explicar por que os trabalhadores aceitam sua exploração; não é suficiente dizer que os trabalhadores são sempre coagidos a trabalhar.

Na teoria clássica, remontando a Marx e Engels, define-se ideologia como falsa consciência. Por mais que Marx nunca tenha usado a expressão exata, empregada por Engels numa carta de 1893, a ideia de falsa consciência é consistente com sua análise de mistificação em A ideologia alemã e fetichismo da mercadoria em O capital. Lenin também fundamentou sua análise de ideologia na ideia de falsa consciência; apesar de apresentar modificações importantes em relação ao argumento clássico original, Lukács desenvolveu sua teoria de ideologia nos parâmetros da noção de falsa consciência. De modo geral, nessa visão a ideologia é um conjunto de mecanismos e processos que impede os explorados e oprimidos de entender e reconhecer sua exploração e opressão. Uma variação dessa definição, importante no debate dos anos 1970, é que não só os explorados e oprimidos não entendem e reconhecem sua exploração e opressão (função negativa da ideologia, de ocultar e obscurecer), mas as justificam e perpetuam, assim pressupondo um envolvimento ativo e criativo dos explorados e oprimidos (função positiva da ideologia, de fortalecer e alimentar o sistema de exploração e opressão). Não cabe nesse ensaio curto esmiuçar a distinção entre as duas funções de ideologia como falsa consciência.

Marx e seguidores apontam algumas dimensões da “falsidade” da consciência, geralmente atreladas a dinâmicas psicológicas. Primeiramente, corresponde à falta de compreensão das pessoas em relação às forças fundamentais que as impelem a pensar e agir, ou seja, falsa consciência corresponde a ignorar influências causais. Em segundo, diz respeito a pensamentos ilusórios: o que as pessoas imaginam e lhes parece real não o é. Em terceiro, relaciona-se com o modo como as pessoas interpretam os motivos e fontes de seus pensamentos com idealismo; como toda ação é mediada pelo pensamento, aparece-lhes como se fosse fundamentada no pensamento. No capitalismo, assume-se então que os trabalhadores representam falsamente as relações sociais dominantes, isto é, o que veem é uma representação distorcida da realidade social. Vale notar que representações distorcidas não são alucinações, têm base em experiências vividas. Exemplo dessas dimensões da falsidade em operação é o fetichismo da mercadoria, analisado por Marx no fim do primeiro capítulo do primeiro volume de O capital. Nesse trecho, Marx afirma que as mercadorias parecem ter um poder próprio, autônomo em relação ao produtor. Assim, por mais que as mercadorias adquiram valor por meio do trabalho social, como diz Marx, parecem ter valor no momento de sua troca, fora da esfera da produção.

Na introdução de A ideologia do poder…, Therborn rompe com a teoria clássica de ideologia. Diz, nas páginas 4 e 5 (tradução livre): “Rompo [com essa visão de ideologia] porque está vinculada a uma visão das motivações humanas que me parece insustentável. […] Fundamentalmente, tomam a ‘superestrutura’ das formas de consciência como epifenômenos. O comportamento humano estava determinado por ‘interesses’, interesses de classe. Os tipos de consciência ou correspondiam a esses ‘interesses’, como consciência ‘verdadeira’, ou não correspondiam, e nesse caso se tornavam ilusões e por isso ineficazes (pelo menos no longo prazo). Essa visão tem seu exemplo em como Marx trata a ideologia burguesa e proletária; está na crença arraigada que a classe trabalhadora viria a desenvolver uma consciência verdadeira de seus interesses de classe, apesar das aparências distorcidas nas relações capitalistas de produção, apesar da ‘reificação’, ‘fetichismo da mercadoria’ e a exploração ‘assalariada’”. A crítica de Therborn sugere que a teoria clássica pressupõe uma realidade verdadeira, cognoscível por meio da ciência materialista histórica, o que é inaceitável do ponto de vista materialista histórico. Apesar de pouco materialista, a pressuposição teve implicações profundas na tradição marxista; basta pensar em alguns textos de Lenin em que caracteriza o quadro político como a pessoa a desenvolver uma ideologia científica e, assim, orientar as lutas dos trabalhadores, presos a suas mistificações, contra as supostas bases reais e verdadeiras de sua opressão e exploração. Outra deficiência da teoria clássica é que se fundamenta numa explicação funcionalista, ou seja, essa teoria afirma que a ideologia dominante é aquela que estabiliza da melhor forma possível o sistema de relações dominante. Para fugir do raciocínio funcionalista, é preciso propor em mecanismos que alimentem a falsa consciência que sejam funcionais para a estabilidade do capitalismo. Não parece haver tais mecanismos e, se houver, não há teoria dos mecanismos que previnem a mistificação.

Therborn oferece uma definição original de ideologia, fundamentada na interpelação dos seres humanos como sujeitos, em referência à noção cunhada por Althusser: “a operação da ideologia na vida humana envolve a constituição e a padronização de como os seres humanos vivem suas vidas como iniciadores conscientes e reflexivos de atos dentro de um mundo estruturado e com sentido” (p. 15). A constituição e a padronização se referem à interpelação, um processo duplo segundo Therborn que sujeita e qualifica as subjetividades. A sujeição e a qualificação não estão necessariamente em correspondência — uma das diferenças centrais entre sua teoria e a de Althusser — e se definem, respectivamente, como a formação da individualidade e a inserção em relações sociais. As ideologias sujeitam e qualificam as pessoas ao dizer-lhes e fazer-lhes reconhecer o que existe, o que é bom e o que é possível. Toda ideologia resulta de práticas discursivas e não discursivas sistemáticas de afirmação e sanção: quando alguém age de acordo com as normas enunciadas por tal ideologia, espera chegar a um resultado; quando não age de acordo com as normas, é punido.

Na visão de Therborn, diferentes ideologias coexistem e se emaranham. “A determinação da relação entre dadas ideologias é de dominação e subordinação, crescimento relativo, reforço, marginalização e declínio. A matriz material [de afirmação e sanção das ideologias] não opera como um ménage à trois envolvendo os homens, a ideologia e a realidade, mas como um determinante na competição e choque entre diferentes ideologias, entre diferentes interpretações da realidade ou diferentes interpelações em relação ao que existe, o que é bom e o que é possível” (p. 34). Torna-se portanto central para o materialismo histórico entender as bases da preponderância de uma ideologia sobre outras, considerando que as ideologias existem como formas históricas, em articulação com outras ideologias, classes e ideologias de classe (ao especificar ideologias de classe como parte de um leque de várias ideologias, Therborn adota uma noção abrangente de ideologia, que abarca subjetividades que não são fundamentadas em classes).

A teoria relacional de Therborn oferece então uma visão própria da geração de ideologias e de transformação social. Num processo histórico, ao mesmo tempo de continuidade, já que toda nova ideologia se funda sobre uma ideologia superada, e discontinuidade, já que em mudanças fundamentais quebra-se a totalidade social, a transformação social depende de um ou mais desses fatores: mudanças estruturais no modo de produção, a produção de novas matrizes de sanção e qualificação a partir da luta de classes e contradições sem solução entre interpelações diferentes. No livro, Therborn oferece exemplos desses processos históricos, ao analisar a formação e reprodução ideológica no feudalismo e capitalismo — cada qual com componentes de sanção e qualificação próprios e em interação –, que não abordo aqui.

Therborn apresenta um quadro absolutamente original de ideologia, fora da tradição clássica, presa a uma noção quase autoritária de verdade, e busca determinantes institucionais para entender a estabilidade de ordens sociais. Sua análise é histórica, dinâmica e relacional — na linha da metodologia marxista, apresentada de modo clássico na Introdução dos Grundrisse, refutando a própria resposta de Marx à questão.

***

Göran Therborn vem ao Brasil esta semana, a convite da Boitempo, para o lançamento do livro Do marxismo ao pós-marxismo? Serão três dias de eventos nas capitais de São Paulo, Rio Grande do Sul e Pará: na terça (10/04), a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) recebe Therborn no Teatro TUCARENA; na quarta (11/04) é a vez da Câmara Municipal de Porto Alegre; e na sexta (13/04), o autor se apresenta na Universidade Federal do Pará (UFPA).

O livro já está à venda em versão eletrônica (ebook) na Gato Sabido, pela metade do preço do livro impresso.

Todos os eventos são gratuitos e não há necessidade de inscrição prévia.

Confirme presença, convide amigos e compartilhe a página oficial no Facebook de Göran Therborn no Brasil.

Programação completa

10/04 | Terça-feira | 19h30 – São Paulo (SP)
Teatro TUCARENA (PUC-SP)
Rua Ministro Godói, 969 – Perdizes – (11) 3670-8453

Com a presença de Ana Amélia da Silva (Faculdade de Ciências Sociais/PUC-SP) e Ruy Braga (FFLCH/USP e autor do texto de orelha do livro).

Realização: APROPUC, Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP e Boitempo Editorial
Apoio: PUC-SP, NEHTIPO, NEAMP e Teatro TUCARENA.

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11/04 | Quarta-feira | 19h – Porto Alegreo (RS)
Plenário Otávio Rocha da Câmara Municipal de Porto Alegre
Avenida Loureiro da Silva, 255 – Centro – (51) 3220-4187

Com a presença do Prof. Dr. Marcelo Kunrath da Silva (PPG Sociologia/UFRGS).

Realização: Câmara Municipal de Porto Alegre, Escola do Legislativo Julieta Battistoli, Comissão de Educação, Cultura, Esportes e Juventude (CECE), Seção de Memorial, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS, Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS e Boitempo Editorial
Apoio: Hotel Everest, Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS e Sindicato Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CEPERGS)

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13/04 | Sexta-feira | 17h – Belém (PA)
Auditório José Vicente Miranda Filho do Instituto de Ciências Jurídicas – ICJ da Universidade Federal do Pará (UFPA) – (91) 3201-7211

Com a presença dos professores Fábio Castro (Comunicação) e Marise Morbach (Ciências Políticas).

Realização: Universidade Federal do Pará (UFPA), Pró-Reitoria de Relações Internacionais (PROINTER), Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPESP), Editora UFPA e Boitempo Editorial

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João Alexandre Peschanski é sociólogo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

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