Edgard Carone: Bibliófilo Marxista

Edgard Carone fotografado por Nellie Solitrenick

Por Lincoln Secco.

Entre os historiadores marxistas, o mais citado e menos reconhecido pela Academia talvez seja Edgard Carone.

Sua  origem não lhe denunciava a adesão ao comunismo. Carone nasceu em 14 de setembro de 1923 na cidade de São Paulo. Cresceu na Rua Florêncio de Abreu. Naquelas imediações, sua  família de origem libanesa mantinha  comércio.

Nos anos de 1940, como vários de sua geração, recebeu influência da vitória da União Soviética contra a vertente militarista do fascismo, assistiu ao ressurgimento do Partido Comunista do Brasil (PCB), à organização dos intelectuais junto ao Congresso Brasileiro de Escritores e ao desenvolvimento da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), onde estudou História e Geografia.

Reprovado em Tupi, Carone abandonou o curso, assumiu a fazenda Bela Aliança em Bofete e, depois, estabeleceu-se em Botucatu. Nos anos de 1960 concluiu o  curso e iniciou carreira docente na Fundação Getúlio Vargas, Unesp e, finalmente, na sua própria universidade, a USP, onde foi professor titular de História do Brasil.

Historiador dedicado ao período republicano, ao movimento operário e à história do marxismo no Brasil, Carone era marcado principalmente pela  recusa de participação em falsos debates acadêmicos. Expunha seu trabalho através dos livros e não comentava os ataques velados que começaram a surgir depois de 1980, quando nova vertente historiográfica procurou outras abordagens do movimento operário.

Sua obra é essencialmente narrativa. Ele primeiro coletava e publicava os documentos, narrava a evolução política e analisava as classes sociais, sua posição econômica e as ideologias. O estilo era seco, direto, sem rodeios até surpreender o leitor com uma frase  dura que sintetizava a condição trágica de nossa história. Seu método foi apreendido em obras anteriores ao marxismo ocidental e na convivência com seus amigos Caio Prado Junior, Aziz Simão e Antonio Candido. Assim, o método só se desvenda dentro da própria narrativa. Carone era avesso a  introduções teóricas.

Ele foi acima de tudo bibliófilo de esquerda e, com Astrojildo Pereira, um dos primeiros historiadores das edições socialistas e comunistas. Manteve coleção de mais de 30 mil volumes sobre o movimento operário num apartamento na Vila Romana em São Paulo. Não gostava de emprestar livros e nem que algum visitante lhes tocasse muito. Por vezes, dava livros sem anúncios ou esperar agradecimento. Dava e pronto.

Edgard Carone faleceu em São Paulo, em 31 de Janeiro de 2003. O corpo, velado no Cemitério do Araçá e sepultado na Consolação, recebeu a homenagem do Núcleo de Estudos de O Capital – PT / SP, do PC do B e de seus familiares e amigos. A Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas deu seu nome a uma de suas salas de aula.

Ele nunca foi filiado ao Partido Comunista. Seu irmão, Maxim Tolstoi Carone liderou a juventude comunista nos anos de 1930. Mas aceitava as missões “intelectuais” que os comunistas solicitavam. Numa ocasião, participou de um debate sobre o Primeiro de Maio juntamente com Paula Beiguelman. Ambos deram verdadeiras aulas de história para os “alunos” apinhados no Sindicato dos Condutores, à Rua Pirapitingui. Terminada a conversa, foi Carone embora com suas sacolas na direção dos sebos da Praça da Sé.

As obras de Edgar Carone

Esta pequena bibliografia não inclui os inúmeros artigos publicados em revistas e jornais. Edgard Carone escreveu resenhas, críticas de cinema e artigos políticos e acadêmicos.

 Livros

A II Internacional pelos seus congressos (1889-1914). São Paulo: Edusp – Anita Garibaldi, 1993, 128 p.

O PCB. 1922 a 1943. São Paulo: DIFEL, 1982, 350 p. (Vol. 1).

O PCB. 1943 a 1964. São Paulo: DIFEL, 1982, 325 p. (Vol. 2).

O PCB. 1964 a 1982. São Paulo: DIFEL, 1982, 400 p. (Vol. 3).

Da esquerda à direita. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991, 230 p.

Socialismo e anarquismo no início do século. Petrópolis:  Vozes, 1996, 173 p.

O movimento operário no Brasil (1877-1944). São Paulo: DIFEL, 1979, 578 p. 2 edição: 1984, 486 p.

O movimento operário no Brasil (1945-1964). São Paulo: DIFEL, 1981, 276 p.

O movimento operário no Brasil (1964-1984). São Paulo: DIFEL, 1984, 314 p.

Classes sociais e movimento operário. São Paulo: Ática, 1989, 309 p.

O Marxismo no Brasil (das origens a 1964). Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, 264 p.

Memória da Fazenda Bela Aliança. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991, 155 p.

Brasil: Anos de Crise. 1930 – 1945. São Paulo: Ática, 1991, 336 p.

O pensamento industrial no Brasil (1880-1945). São Paulo: DIFEL, 1977, 582 p.

Centro Industrial do Rio de Janeiro e sua importante participação na economia nacional (1827-1977). Rio de Janeiro: Cátedra, 1978,  196 p.

A  Evolução industrial de São Paulo (1889-1930). São Paulo: Ed. Senac, 2000, 198 p.

Revoluções do Brasil Contemporâneo (1922-1938). São Paulo: Desa editora, 1965, 174 p (Coleção Buriti, 11). 2 edição revista: São Paulo: DIFEL, 1975, 141 p. 3 edição, 1977, 141 p.

A República Velha. Instituições e classes sociais (1889-1930). São Paulo: DIFEL, 1970, 392 p. (Coleção Corpo e Alma do Brasil,  XXXI). 2 edição, revista e aumentada, 1972, 390 p. 3 edição,  com  apêndice, 1975, 390 p. 4 edição, 1978, 390 p.

A primeira república (1889-1930). Texto e contexto. São Paulo: DIFEL, 1969, 303 p. (Corpo e Alma do Brasil, XXIX). 2 edição revista e aumentada, 1973. 3 edição, com  apêndice, 1976. 4 edição, 1988.

A República Velha II. Evolução política (1889-1930). São Paulo: DIFEL, 1971, 483 p. (Corpo e Alma do Brasil, XXXIV). 2 edição, 1974. 3 edição revista e acrescida de índice onomástico, 1977. 4 edição, 1983.

A segunda república (1930-1937). São Paulo: DIFEL, 1973, 452 p. (Corpo e Alma do Brasil, XXXVII). 2 edição, 1974, 452 p. 3 edição, 1978, 452 p.

A república nova (1930-1937). São Paulo: DIFEL, 1974, 414 p. (Coleção Corpo e Alma do Brasil, XL). 2 edição, s.d.p. [1976]. 3 edição, 1982.

O Estado Novo. São Paulo: DIFEL, 1976, 387 p. (Coleção Corpo e Alma do Brasil, LI). Primeira reimpressão, 1977. 5 edição, 1988.

A terceira república (1937-1945). São Paulo: DIFEL, 1976, 585 p. (Coleção Corpo e Alma do Brasil, XLIV).

A república liberal I. Instituições e classes sociais (1945-1964). São Paulo: DIFEL, 1985, 390 p.

A república liberal II. Evolução política (1945-1964). São Paulo: DIFEL, 1985, 257 p.

A Quarta república. São Paulo: DIFEL, 1980, 587 p.

O tenentismo. São Paulo: DIFEL, 1975, 518 p.

Tese 

União e estados na vida política da Primeira república. Tese de Doutoramento apresentada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidadede São Paulo(USP), 1971, 483 p.

Artigos em Livros, prefácios, separatas, coordenações etc

“A trajetória do manifesto Comunista no Brasil”, in: Marx, K. e Engels, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Novos Rumos, 1986, pp. 9-36.

“Bibliografia”, in: Gomes, Paulo Emílio Salles. Vigo, Almereida. São Paulo: Edusp, Companhia das Letras, pp. 167-170.

“Coleção azul, crítica pequeno burguesa à crise brasileira de1930”. Separata da Revista Brasileira de Estudos Políticos,  números 25/26, 1968-1969.

“Coordenação”,  in: Mussolini, Gioconda. Ensaios de antropologia indígena e caiçara. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, 290 p.

“Os primórdios do movimento operário no Brasil (1820-1914). Caderno especial das  revistas Princípios e Debate Sindical. São Paulo, 1996, 31 p.

“Prefácio”, in: Deaecto, Marisa M. Comércio e Vida urbana na cidade de São Paulo (1889-1930). São Paulo: Senac,  2002, 235 p.

“Seleção, notas e bibliografia”, in: Simonsen, Roberto. Evolução industrial do Brasil  e outros estudos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1973, 479 p. (Coleção Brasiliana, vol. 349).

***

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras, durante o ano de 2011. Com esta coluna, o autor se despede temporariamente de seus leitores aqui no Blog.

4 comentários em Edgard Carone: Bibliófilo Marxista

  1. LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA // 12/12/2011 às 3:32 pm // Responder

    Já sinto saudades das colunas semanais do meu camarada e professor Lincoln Secco no blog da Boitempo. Espero que volte logo, com a erudição, a perspicácia e a vocação literária que lhe são peculiares. Colho do ensejo para indagar: bibliofilia e marxismo estão sempre inextricavelmente juntos?

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  2. Caro Luiz
    os nossos clássicos (Marx, Lenin, Gramsci e tantos outros) passsaram boa parte de suas vidas em bibliotecas. Ao lado dos livros…

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  3. Caro Lincoln, sou neto do Edgard e agradeço, mesmo que tardiamente, esta breve homenagem ao meu avô. Um homem incrivelmente culto, muito calmo e amoroso, com suas poucas palavras, porém sábias. Um abraço.

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    • Fui aluno dele em dois cursos nos anos 70 em Araraquara, que concordo com o Vitor, acrescentando despreendido, e retificar em termos a informação de não gostar de emprestar livros, fiquei um tempão com o Mein Kampf dele (1974 não se encontrava à venda nem existia na biblioteca).

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