Um caminho trilhado pela esquerda: entrevista de Ivana Jinkings à Revista Saraiva

Por Felipe Candido.*

A Boitempo Editorial se destaca no mercado nacional com foco no pensamento teórico de esquerda

Uma das editoras mais importantes no meio acadêmico do país, a Boitempo Editorial, fundada em 1995, afirma cada vez mais seu prestígio, focando suas publicações em grandes títulos e autores do pensamento crítico. Ivana Jinkings, editora da empresa e responsável por sua fundação, carrega a tradição de uma família de livreiros e pensadores, e faz com que a herança marxista mantenha seu lugar de destaque no mercado de livros no Brasil. 

Desde muito cedo, Ivana esteve cercada de livros, por influência de seu pai. “Após perder o emprego, ser preso e ter os direitos políticos cassados pelo golpe militar, meu pai, Raimundo Jinkings, buscou nos livros uma alternativa para sustentar os filhos. Ele e minha mãe compravam livros por reembolso postal numa época em que Belém carecia de livrarias, e assim mantinham contato próximo com editoras dos grandes centros. Sabendo do que lhe havia acontecido, alguns editores propuseram que ele se tornasse representante na cidade, dando assim o pontapé inicial ao que viria a se tornar depois a Livraria Jinkings, que fechou as portas em 2010, mas durante quarenta anos foi uma das mais importantes do Norte-Nordeste”, conta Ivana. 

O início

Quando Ivana saiu de Belém rumo a São Paulo, iniciou sua carreira como revisora em algumas editoras, e mais tarde foi jornalista. Porém nunca perdeu a vontade de criar sua própria empresa. “Em 1994 criei coragem de largar tudo e, com um pequeno capital oriundo do meu FGTS e de alguma ajuda familiar, lancei em 1995 o primeiro livro, Napoleão, de Stendhal.” Nascia a Boitempo Editorial. 

A inspiração para o nome da nova editora veio de um poema de Carlos Drummond de Andrade, e também foi uma homenagem às memórias de infância de Ivana. “Era o nome de uma editora fundada em Belém, em plena ditadura militar, por meu pai e Carlos Sampaio, ambos comunistas. Teve vida curta a primeira Boitempo, pois os livros, mal saíam da gráfica, eram apreendidos pelos militares.” A nova Boitempo mantém o mesmo pensamento da original. “A editora já nasceu com uma tendência à esquerda, principalmente pela formação que tive. Inicialmente planejei mais espaço para a ficção, que foi em parte ‘solapado’ pelas urgências teóricas do pensamento crítico”, afirma Ivana. Dessa forma vieram as publicações de grandes autores clássicos como Marx, bem como autores contemporâneos como Maria Rita Kehl e Slavoj Zizek. 

Uma referência editorial

Por se especializar em uma determinada linha de pensamento, e por manter alto nível editorial em suas publicações, a Boitempo se tornou um referencial, em especial no meio acadêmico. “Nosso público é composto principalmente por escritores, pesquisadores, professores, estudantes. Para o tipo de obras que publicamos o reconhecimento da academia e do público especializado é fundamental”, diz Ivana. 

O reconhecimento se deve principalmente ao lançamento de títulos até então inéditos no Brasil, ou então sem edições há muitos anos. Uma recente publicação da editora foi o título Grundrisse, de Marx. Outras publicações como esta estão nos planos da editora. “Acabamos de lançar uma nova edição das Memórias, do ícone da resistência à ditadura militar, Gregório Bezerra. Este mês a Boitempo lança O romance histórico, de Lukács. Além disso, iniciamos uma empreitada editorial e intelectual de peso: a tradução completa de O Capital, pela primeira vez a partir do projeto alemão MEGA-2, com tradução de Rubens Enderle e supervisão editorial de Jorge Grespan”, conta a editora. 

Para o futuro, Ivana Jinkings deseja continuar a seguir o caminho que sempre trilhou. “Seguiremos em linha reta, sem atalhos, sem abrir mão de princípios, ou da qualidade, para assim manter um público que nos é fiel e formar novos leitores. A cultura não se improvisa. Como bem disse Monteiro Lobato, ‘um país se faz com homens e livros’”, finaliza.

* Matéria publicada na Revista Saraiva.

2 comentários em Um caminho trilhado pela esquerda: entrevista de Ivana Jinkings à Revista Saraiva

  1. Parabéns pelo perfil à esquerda e pela qualidade editorial.

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  2. Carlos Mariano // 04/01/2012 às 3:39 pm // Responder

    A Boitempo vem trazendo, sem dúvidas, contribuições fundamentais para a reflexão de esquerda. Todavia, os preços praticados por essa editora não são um exemplo de “sagacidade capitalista”? Não seriam os seus preços astronômicos uma sacada de má-fe, que conta com o fato de o governo federal ser um grande comprador para abastecer as universidades?

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