Dois pesos…

Os candidatos à presidência da república José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) se cumprimentam durante debate eleitoral em setembro de 2010.

No dia do lançamento de 18 crônicas e mais algumas, coletânea de artigos e crônicas de Maria Rita Kehl publicadas em diversos periódicos e portais ao longo da última década, o Blog da Boitempo resgata o último artigo da psicanalista em sua coluna quinzenal no jornal O Estado de S. Paulo, cuja publicação (em 02 de outubro de 2010) provocou, dentre outros motivos, o cancelamento de sua coluna. O texto está incluído na coletânea que tem noite de autógrafos hoje, a partir das 19h na Livraria da Vila (Fradique). Mais informações ao fim do texto.

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Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.

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Noites de autógrafo de 18 crônicas e mais algumas (SP e RJ)

Maria Rita Kehl participará de duas noites de autógrafo de seu novo livro, 18 crônicas e mais algumas: em São Paulo, na Livraria da Vila (26/10, às 19h) e no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa (03/11, às 19h). O livro já está à venda nas livrarias e em ebook no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

Também à venda em ebook:

O tempo e o cão: atualidade das depressões, de Maria Rita Kehl * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Videologias: ensaios sobre televisão, de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl * PDF (Livraria Cultura)

O que resta da ditadura, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF * Com artigo de Maria Rita Kehl (Livraria Cultura | Gato Sabido)

1 comentário em Dois pesos…

  1. altieres edemar frei // 08/11/2011 às 11:50 pm // Responder

    Especulações sobre o Acontecimento-USP 08/11/11 e suas fagulhas: dolorosas, dolosas, luminosas.
    É doloroso e doloso, enquanto ainda houver pele no cidadão, humano, aparelho de pensamento tanta incompreensão, tantas manifestações pró-pm, pró-estado, intolerância, discursos e defesas.

    Não, antes de ring (ou octágono) de luta, isso é mundo. Como é mesmo? Somos todos iguais braços dados ou não.
    Esta é a maior tristeza de acompanhar as ressonâncias do desfecho da invasão dos alunos da USP, em 08.nov.2011; ainda mais dolorosa e dolosa que esta mancha que o estado impõe na memória, alma, atestado de antecedentes criminais de jovens (convenhamos corajosos, ainda que jovens) é ver tantos pequenos-fascismos.

    Que é esse ódio enrustido da polícia contra “esse tipo de molecada”, desses setores da mídia (gordos ou magros, Datenas ou Afanásios, tanto faz a época)? Que eficácia isso tem para silenciar tantas outras questões relevantes que essa movimentação desperta nas pessoas para a produção de reflexões – do ponto de vista da autonomia estudantil, civil, do exponencial aumento das repressões.

    No sub-texto, outras questões que poderiam ser amenas como a eventual ou eminente descriminalização prática do plantio caseiro de maconha, por exemplo – proposta adotada e tida como coerente em tantos países no planeta, como forma para separar o joio do trigo do consumo recreativo de uma substância cada vez mais popular e desvinculá-la das redes de tráfico. Regulamentações tão válidas do ponto de vista ético de uma sociedade quanto dispor de respectivas políticas públicas de cuidado das modalidades de uso que podem sim também vir a causar certos males do ponto de vista das adicções como quaisquer outras modalidades de uso de tantas outras recreações do capitalismo: academia, facebooks, compras, bebidas, doutrinas. Ou alguém ainda acha mesmo que ?maconha é que nem crack??)

    Este acontecimento não terá desfecho efêmero: aponta para uma reprogramação maquínica de pensamento, instante de novidade, disparador importante a médio e longo prazo de subjetivações que podem ser tão fortuitas quanto daninhas. Explico-me: estes eventos são tão divisores de água como certos “bugs”, panes – e seus respectivos pânicos.
    Podem até ser vistos como preceitos equivocados da esquerda, ou vistos como parte deste espírito-de-tempo das sintomáticas sacudidas do imponente capitalismo – a primavera tem sido longa. Se por vezes imperfeitas como a vida é, estas manifestações e suas respectivas resistências e fagulhas hão de ser vistas como a vida que escorre pela janela da sua sala. Da nossa janela do vagão.

    Se suas avessas manifestações de cegueiras ensaiadas também assustam (clichês de pensamentos a todo vapor) não resta melhor portal, cura, emplastos que mirar o novo. Veja, não se trata nada além do jogo de poder entre perigos e possibilidades.

    Da minha parte, como outra peça da engrenagem, torço, vibro e até escrevo para que o vírus se instaure, para que as zonas autônomas temporárias sejam portais para outras conexões que hão de vir. Como é mesmo? Não somos contra este sistema, este sistema é contra a vida. E a vida aponta para frente. Serão anos incríveis. Já era tempo.
    Email:: altieres@yahoo.com.br

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