Hugo Rafael Chávez Frias

"Mulata com gato preto" (1966), de Di Cavalcanti

Por Izaías Almada.

Daqui do espaço deste blog, envio – na contramão da má fé e da desinformação da imprensa nacional e internacional, para dizer o mínimo – a minha solidariedade e o meu desejo sincero de restabelecimento ao presidente Hugo Chávez da Venezuela, batalhador incansável pela dignidade de seu povo e dos povos latino-americanos.

Faço-o, transcrevendo o capítulo de um livro meu sobre a Venezuela, escrito em 2007, sob o título Venezuela Povo e Forças Armadas:

Entre o menino de pés descalços que vendia doces em Sabaneta de Barinas, cidadezinha próxima à cordilheira de Mérida, por volta de 1960, e o eloquente e aplaudido discurso pronunciado em 15 de setembro de 2005 perante a 60Assembléia Geral das Nações Unidas, em nome do povo venezuelano, o mundo assistiu ao nascimento de uma nova liderança política latino-americana e mundial, forjada na mesma pobreza de outros milhões de excluídos do planeta, alicerçada na convicção de que nada é perene e imutável, e conquistada sob o risco de uma ação que sua condição de militar lhe impusera como cidadão e patriota. Esse líder é Hugo Rafael Chávez Frias.

Já muito se escreveu (e ainda se escreverá) sobre esse tenente-coronel do Exército venezuelano que, em 04 de fevereiro de 1992, comandou um levante militar contra o governo de Carlos Andrés Pérez, sendo derrotado – naquela ocasião – em menos de 24 horas. Enviado à prisão após um pronunciamento pela televisão, e até mesmo por causa dele, tornou-se uma esperança para milhares de venezuelanos. Uma esperança que ultrapassou rapidamente as grades da prisão de Yare em 1994, onde esteve enclausurado por dois anos, e hoje, anos depois, ultrapassa as fronteiras da sua Venezuela e da própria América do Sul.

No livro Chávez Nuestro, trabalho dos jornalistas cubanos Rosa Miriam Elizalde e Luis Báez, um dos livros mais pungentes e humanos que li até agora sobre Chávez e a Revolução Bolivariana, há na introdução uma curiosa versão do “Pai Nosso” cristão, que foi entregue a Chávez por um anônimo cidadão de Caracas na prisão de São Carlos, pouco depois do seu levante de 1992:

ORAÇÃO A CHÁVEZ NOSSO

Chávez nosso, que estás na prisão,

Santificado seja teu golpe,

Vinga a todos nós, teu povo,

Faça-se a tua vontade

E a de teu Exército.

Dá-nos hoje a confiança já perdida

E não perdoes aos traidores.

Assim como também não perdoaremos

Aos que te prenderam.

Salva-nos de tanta corrupção

E livra-nos de Carlos Andrés Pérez.

Amém.

Escrita por um popular anônimo, penso que a oração, além de emblemática, sintetiza de forma significativa, uma das principais, senão a principal, bases de sustentação da Revolução Bolivariana: a integração cívico-militar.

Essa integração, escopo primordial deste trabalho, salientada pela maioria das pessoas com as quais conversei na Venezuela, militares ou civis, tem no próprio Chávez a sua expressão mais autêntica, mais arraigada, pelas duas condições que ele reúne em si mesmo: a de militar e a de cidadão originário das camadas mais humildes da população. Para muitos da sua geração, pobres como ele, só a carreira militar oferecia a possibilidade de estudos numa academia. Embora o beisebol, o esporte nacional venezuelano, fizesse parte também do seu interesse pela carreira militar, foi nos estudos que o jovem cadete encontrou sua verdadeira vocação.

Das inúmeras entrevistas dadas por Chávez a jornalistas e escritores de vários países, algumas delas – em particular aquelas em que o entrevistador não se coloca na perspectiva de um provocador a serviço de seus opositores – apresentam com transparência e objetividade o pensamento político do presidente, desde a sua formação escolar.

Numa delas, Chávez fala de seu processo de conscientização política, um processo que se inicia ainda em seus tempos de cadete quando realizava manobras e exercícios militares pelas montanhas da Venezuela:

“Eu escrevia diários quando era cadete. Um desses apareceu por aí, num programa de televisão, quando fui surpreendido pelo apresentador que me mostrou o diário. Há lá uma frase escrita aos meus dezoito anos: ‘hoje passamos por vários casebres e vejo sempre a mesma coisa. Uma casa miserável, uma mulher esfarrapada e umas crianças miseráveis… E depois, uma conclusão: algum dia é preciso fazer alguma coisa por eles…’”

Para a elite venezuelana, o que incomoda em Chávez, além da sua trajetória rebelde, de seus inegáveis conhecimentos de estratégia política, de sua coerência ideológica, são também os seus traços de negro e índio. Para seus opositores, os colonizadores brancos e os mestiços nacionais que trazem dentro de si o preconceito e o aculturamento, nada mais humilhante de que se submeter aos avanços de um processo revolucionário comandado por alguém que não se assemelha ao biótipo anglo-saxão ou ibérico.

As elites venezuelanas (e nisso elas não se diferem de suas congêneres em toda a América do Sul), mais afeitas a Washington, Miami e Madrid do que a Caracas, usam todos os meios possíveis para inviabilizar o seu governo e, apoiada por dólares e euros das corporações transnacionais e de uma mídia comprometida (*) com os interesses antinacionais, investe furiosamente contra Chávez, na tentativa de reverter um quadro que tomou ares de definitivo após a tentativa do golpe de estado de Carmona & Cia em abril de 2002 e mais recentemente com as várias eleições parlamentares e presidenciais, incluindo-se um plebiscito em que foi derrotado. 

Criado pela avó paterna, Rosa Inês, junto com o irmão Adan (na altura em que escrevo este livro, Adan é embaixador da Venezuela em Cuba), Hugo Chávez teve uma infância muito pobre. Uma infância de pés descalços, roupas rotas e o sacrifício dos pais professores que – para minorar as dificuldades na educação de cinco filhos – enviaram os dois mais velhos aos cuidados da avó.

Já pós-adolescente, o menino Hugo, fã ardoroso do beisebol – esporte mais popular do que o futebol no país – e premido pela necessidade de vencer as dificuldades econômicas para poder estudar, procura pela carreira militar, fato corriqueiro para muitos jovens venezuelanos. Em 08 de agosto de 1971, com 17 anos de idade, ingressa na Academia Militar da Venezuela.

Dessa data até 04 de fevereiro de 1992, passa por um rico processo de estudos e conscientização política e ideológica. Destaca-se como aluno dedicado aos estudos e vai sucessivamente, sempre com distinção, galgando os degraus da hierarquia militar: subtenente em 1975, tenente em 1978, capitão em 1982, major em 1986, tenente-coronel em 1990 e é com essa patente que se lança na insurreição de 1992.

Em 1982, alguns meses depois de se tornar capitão, presta um juramento na companhia de mais três companheiros de armas: Felipe Acosta Carlez, morto em 1989, Jesus Urdaneta Hernández e Raul Isaías Baduel (**). O juramento ficou conhecido como o Juramento de Samán de Güere, local onde Simón Bolívar costumava descansar em meio às suas batalhas. Nele, os quatro companheiros prometiam lutar por mudanças dentro do Exército venezuelano, e não só. Sob a árvore em que descansara Bolívar, iniciavam os quatro companheiros de farda – com solenidade – aquilo que se transformaria no movimento bolivariano e na própria Revolução Bolivariana.

Seu percurso militar inclui a graduação como subtenente de Artilharia, especializado em Ciências e Artes Militares, divisão de Engenharia. Realiza cursos de capacitação profissional na Escola de Comunicação e Eletrônica das Forças Armadas; curso de capacitação na arma de Blindados. Serve sucessivamente como chefe do Departamento de Educação Física do Exército, chefe do Departamento de Cultura e Comandante de Companhia. Em 1988, é designado secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa no Palácio de Miraflores. Em julho de 1991, ao terminar o curso de Comando e Estado Maior na Escola Superior do Exército, assume o comando da Brigada de Pára-quedistas Nicolas Briceño em Maracay, uma das mais importantes unidades militares do país.

Em 04 de fevereiro de 1992 lidera uma insurreição militar que é derrotada em 24 horas. Assume a responsabilidade pela ação, mas ganha enorme simpatia popular, principalmente pelo descrédito que já desfrutava o governo neoliberal de Carlos Andrés Pérez. É feito prisioneiro e enviado para o quartel de San Carlos em Caracas, sendo transferido depois para uma prisão em San Francisco de Yare, onde permanece recluso por dois anos.

É na prisão de Yare que Chávez fortalece seus contatos, seu movimento bolivariano e suas convicções políticas. Como também é a prisão que o transforma no centro de atração de muitos dissidentes dentro e fora das Forças Armadas, ampliando-se o elo de simpatia civil, particularmente entre os mais desfavorecidos socialmente.                     

De minha parte, não tenho a menor dúvida em afirmar que, se vivo fosse, o sociólogo e pensador Florestan Fernandes, teria acrescentado Hugo Chávez ao seu pequeno dicionário de homens íntegros a que chamou de A Contestação Necessária, obra editada em 1995, quando ainda Chávez e seus companheiros traçavam a estratégia da sua Revolução Bolivariana.

(*) – Alguns dos principais jornais, revistas e emissoras de televisão brasileiras, vêm deliberadamente ocultando ou mesmo mentindo sobre a Revolução Bolivariana e o governo de Chávez há vários anos.

(**) – Hoje em lados opostos, tendo Baduel sido acusado e respondido a processo por corrupção no Exército.

 

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mimO medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

1 comentário em Hugo Rafael Chávez Frias

  1. Sturt silva // 15/07/2011 às 8:06 pm // Responder

    Bela coluna! Reproduzirei no Diário Liberdade!

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