Notas sobre viver no fim dos tempos I

"Esportistas", de Kazimir Malevich (1928)

Por Slavoj Žižek.

Traduzido do inglês por Fernando Marcelino e Chrysantho Sholl.

Uma emergência econômica permanente

Uma coisa é clara: depois de décadas de Welfare State, quando os cortes sociais eram relativamente limitados e vinham com a promessa de que as coisas retornariam brevemente a normalidade, entramos agora num período em que um tipo de estado de emergência econômico torna-se permanente: transformando-se numa constante, num modo de vida. Isso tráz consigo o medo de medidas de austeridade muito mais selvagens, cortes nos benefícios, reduções dos serviços de saúde e educação e empregos mais precários. A esquerda encara a difícil tarefa de enfatizar que estamos lidando com economia política – que não há nada “natural” em tal crise, que o sistema econômico global existente depende de uma série de decisões políticas – tendo simultaneamente a consciência plena de que, enquanto estivermos no sistema capitalista, a violação de suas regras causa efetivamente quebras econômicas. Então, enquanto entramos claramente numa nova fase de exploração aberta [enhanced] (terceirizações etc.), devemos ter em mente que isto é imposto pelo próprio funcionamento do sistema, sempre na iminência de um colapso financeiro.

Notas para uma definição de cultura comunista

O conto “Josefina, a cantora ou o Povo dos Ratos” (1924) de Kafka nos leva à lógica da exceção constitutiva da ordem da universalidade: Josefina é o Um heterogêneo através do qual o Todo homogêneo do povo é situado (percebe a si mesmo) como tal. – Aqui, entretanto, vemos porque a comunidade de ratos não é uma comunidade hierárquica com um Mestre, mas uma comunidade “Comunista” radicalmente igualitária: Josefina não é venerada como um Mestre ou Gênio carismático, seu público sabe plenamente que ela é apenas um deles. Então a lógica não é sequer a do Líder que, com sua posição excepcional, estabelece e garante a equidade dos seus sujeitos (que são iguais em sua identificação compartilhada com o seu Líder) – Josefina ela própria tem de dissolver sua posição especial nesta equidade. Isto nos leva à parte central da história de Kafka, a detalhada, frequentemente cômica, descrição do modo como Josefina e seu público, o povo, se relacionam um com o outro. Precisamente porque o povo sabe que a função de Josefina é apenas reuni-los, eles a tratam com igualitária indiferença; quando ela demanda “privilégios especiais (isenção de trabalho físico) como compensação pelo seu trabalho ou como reconhecimento de sua distinção única e seu serviço insubstituível a comunidade”, ela não ganha nenhum favor especial.

Notem como Josefina é tratada como uma celebridade, mas não fetichizada – seus admiradores são cientes que não há nada especial nela. Para parafrasear Marx, ela pensa que o povo a admira por ser uma artista, mas na realidade ela é uma artista somente porque o povo a trata como tal. Aqui temos um exemplo de como, numa sociedade Comunista, o Significante-Mestre continua operando, mas desprovido de seu efeito fetichista – a crença de Josefina em si mesma é percebida pelo povo como seu inofensivo e até ridículo narcisismo, que deve ser gentil, mas ironicamente tolerado e sustentado. É assim que os artistas devem ser tratados numa sociedade Comunista – eles devem ser aplaudidos e bajulados, mas não lhes devem ser dado nenhum privilégio material, como isenção do trabalho ou ração especial.

***

Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009) e os mais recentes Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas-feiras.

5 comentários em Notas sobre viver no fim dos tempos I

  1. Leitora atenta // 22/06/2011 às 10:50 pm // Responder

    Como sempre, Zizek vai à alma da questão. Ótimo texto!
    Meu comentário é apenas uma observação de leitora atenta que não intenciona ser arrogante: a palavra traz vem do verbo trazer, e é grafada com Z. (2a frase do texto) 🙂

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  2. Quando ouço que “o pensamento à esquerda” morreu, sempre entendo que a frase, proferida muitas vezes por ex militantes de esquerda, padece tanto de contexto quanto de honestidade. O fato é que, os círculos de poder (seja esse poder político, econômico e/ou cultural) são viciantes… a Josefina, do magnífico conto de Kafka, poderia ser uma artista entre os ratos de Praga, mas não poderia ser um dos mandatários dentre os ratos do paiol da política brasileira… nem mesmo uma artista brasileira (dessas privilegiadas com as leis de incentivo, que deveriam beneficiar quem realmente precisa de incentivo). A esquerda morreu para estes. A eles não interessa o bem comum, a igualdade entre os semelhantes… como comprariam suas garrafas de uísque, seus charutos, suas carruagens blindadas? Mas a esquerda não morre, Zizek volta e meia nos brinda com um texto, lembrando aos outros que ela está mais viva que nunca.

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  3. Suely Farah // 24/06/2011 às 6:40 pm // Responder

    Interessante a reflexão de Zizek sobre o papel ou a função social do artista. Nós ocidentais inventamos essa versão mercantilizada de pessoas sensíveis ao seu tempo e sua gente, como pessoas antenadas, mas isoladas em seu tratamento especial ou percepção narcisística de si mesmas.
    Penso em outra cultura tradicional, como a árabe, por exemplo, com seus cantores e contadores de histórias não destacados, mas imersos na sensibilidade e cultura de sua gente e, no entanto, agentes de alteridade catalizadora de ações presentes e orgânicas, tão-somente como memória em atividade.
    Mas isso talvez também nem seja mais reconhecido como um papel e eu aqui apenas fico pensando tristemente: por que não? Não seria a “blogagem” uma variante dessa vertente cultural?
    Não conheço o conto de Kafka a que Zizek se refere, mas acho que entendi a referência, embora prejudicadamente. Vou procurá-lo para ler e, nesse sentido, ele já atuou como mediador de leitura… e assim vamos desenredando o enredo.

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  4. É tipo um recado do povo pra Cláudia, aquela do “ahan, claudia, senta lá”

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  5. Regina Coeli // 23/08/2011 às 2:40 pm // Responder

    Acho que gosto mais da análise de Deleuze-Guattari do dito conto. Não invalida que considero a atitude prescrita por Zizek incorreta. Aliás é assim mesmo que acho que as celebridades devem ser tratadas, como todo mundo deve ser tratado.
    Mas como análise do conto de Kafka, prefiro Deleuze-Guattari.

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