Reservas ambientais, reservas do imaginário

Cena de Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul (2004)

Por Maria Rita Kehl.

Caros,

o assunto do Código Florestal não sai de minha cabeça. Mando pro Blog da Boitempo um artigo que escrevi em 1989 e que me parece mais atual do que nunca.

***

– Doutor, eu gostaria que o senhor me explicasse prá que serve uma Onça-Pintada?

A pergunta foi dirigida a meu irmão, ardente defensor das causas ambientalistas, pelo barbeiro da cidadezinha do interior onde mora. O cara, exaltado, foi além:

– Uma Onça-Pintada não serve para nada, doutor. Só prá comer o gado de uns pobres sitiantes. Não entendo por que esse pessoal da cidade faz tanto barulho quando se mata uma Onça. Se uma Onça-Pintada não tem mesmo serventia nenhuma neste mundo, o que dizer de uma reserva ecológica inteira? São terras preciosas pro plantio, ou para empreendimentos turísticos, ou para a implantação de pólos industriais, são milhões de reais – ou de dólares – convertidosem quê? Emmato, doutor.

Mato e bicho do mato. Que serventia tem gastar tanto espaço e dinheiro preservando mato?

Nenhuma, eu diria. Colocadas as coisas nesses termos, os termos dos nossos tempos neoliberais, uma reserva ecológica não serve mesmo pra nada. Não dá lucro, não movimenta o mercado, não se compra nem se vende. Uma inutilidade. Mas tento pensar o contrário – o que seria de nós, num planeta que só refletisse a nossa cara, a cara do homem e de sua civilização?

Suponhamos que o problema dos recursos naturais, das chuvas, do clima, se resolvesse em laboratório e num futuro de ficção científica o homem não precisasse mais preservar nem mesmo a Amazônia – a ciência nos forneceria o necessário à vida, ainda que a terra inteira estivesse urbanizada, ou desertificada, tanto faz. Neste caso, a inutilidade da Onça-Pintada, dos Gorilas, do Boto, dos Golfinhos e todo o seu ecossistema estaria mais do que provada.

Danem-se os bichos e suas exigências tão antifuncionais, nós somos os reis da criação. Viveremos muito bem com galinhas de granja, verduras de estufa e gado sintético. Um mundo mais limpo. Mais asfaltado. O clima regulado por satélites. Não vai ser bom?

Mas, instintivamente, esta idéia nos provoca horror.

Não é racional, o horror. Talvez chegue mesmo o dia em que a humanidade não precise da natureza em estado bruto para sobreviver. No entanto, acho que não poderemos sobreviver sem ela. As reservas naturais, mesmo para quem nunca saiu de um apartamento na Avenida Paulista, são reservas do nosso imaginário.

Mesmo quem nunca pisou na Antártida ou na Amazônia sabe que habita um planeta onde vivem Araras e Pinguins, onde existem grandes florestas e grandes geleiras, onde nem tudo tem a cara da nossa civilização. Precisamos das reservas naturais como reservas de mistério, de desconhecido, reservas para nosso fascínio e nosso medo. Reservas de escuridão. Já pensaram que a escuridão total, completa, de uma noite sem lua e sem estrelas, é quase uma desconhecida para a maioria de nós? Reservas de silêncio, como no deserto. Reservas de cheiros estranhos, que nos remetem a um mundo sem humanidade, o mundo das nossas origens perdidas no tempo. Reservas de memória, da memória da espécie, impossível de se guardar no computador. Reservas para o inconsciente.

Reservas de humildade, onde devemos ser lembrados da insignificância de nossa condição no universo. Reservas de instintos, de pulsões, de fúria, de desamparo. Nós não seríamos humanos se não existissem as grandes reservas naturais.

***

Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, sempre na primeira segunda-feira do mês.

5 comentários em Reservas ambientais, reservas do imaginário

  1. Paulo Souto // 01/06/2011 às 1:27 pm // Responder

    Excelente texto. A esquerda precisa encarar de fente,sem medo, o tema da destruição ambiental e parar de achar que os ‘ambientalistas’ se restringem ao direitíssimo PV…

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  2. Maria Rita Kehl sempre consegue se posicionar e poetizar…

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  3. Geraldo R. Pontes Jr // 21/06/2011 às 7:55 pm // Responder

    Maria Rita, admiro a vivacidade de seus comentários, no calor da hora de cada crise. Mesmo sabendo que também existe “tecnicamente” uma explicação sobre a necessidade das reservas, bem complexa e que, em sua base, esteja a defesa da preservação do planeta e da nossa espécie, essa que é a dos maiores predadores de todos os seres vivos, psiquicamente também precisamos de reflexões que nos lembrem que imaginamos e que, graças a nossa memória, vivemos de um legado ainda maior do que o que mantém animais perpetuando ecossistemas e equilíbrios planetários.

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  4. para que serve a reserva ecologica?

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  5. Antonio Carlos (Filho) // 04/02/2016 às 11:53 am // Responder

    Um cometário maravilhoso e sobre o imaginário, casou certinho com o trecho de uma canção que eu fiz que diz o seguinte:
    Enquanto houver matas e rios e o nativo pra cuidar,
    Seus mistérios e segredos, ninguém irá desvendar…

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