Afinal, quem desistiu do Brasil?

14.08.21_Izaías Almada_Quem foi que desistiu do Brasil_2Por Izaías Almada.

Pelos eriçados, nervos à flor da pele. Aproximam-se as eleições de outubro e os brasileiros, bem ou mal, vão tomando conhecimento daquilo que pretendem os candidatos.

Alguns não pretendem nada como sempre, mas vendem seus segundos na televisão a preço de ouro. Nosso “quadro eleitoral”, como se costuma dizer, a sua composição pelo menos em vésperas de eleição se assemelha por vezes a uma mesa de cassino.

Enquanto a sonhada reforma política não vem, o festival de siglas partidárias atrai para o seu palco um fantástico balé de alianças envolvendo bailarinos dos mais variados interesses, alianças esdrúxulas, apoios imorais, onde muitos se candidatam desavergonhadamente na esperança de participar na distribuição dos butins municipais, estaduais e federais dos próximos quatro anos. É só observar atentamente na maioria dos cartazes e panfletos espalhados e distribuídos pelo Brasil.

Tudo em nome de uma democracia que antes de chegar à adolescência já é dependente química dos conchavos eleitoreiros, das barganhas entre políticos bandidos e bandidos políticos. E sob tutela de uma imprensa calhorda, partidária do atraso, irresponsável, que aposta suas fichas na construção de um país de fancaria e dependente.

Jagunços de Goiás se unem a malandros cariocas. Velhos coronéis nordestinos a mafiosos paulistas. Gaúchos machões a mineirinhos espertos, escancarando ao país mais uma vez o jogo que, sob certos aspectos, gostaríamos de ver definitivamente encerrado.

Como a ideologia da maioria dos partidos e candidatos é o que menos interessa nessa sopa de letrinhas, muitos de nós desejaríamos também que os próximos quarenta e cinco dias se passassem em 24 horas, o que nos pouparia de assistir a uma guerra que consegue ser mais chata que novelas de televisão. Mais medíocre que esses programas policiais de fim de tarde, mais idiota do que determinadas entrevistas de “celebridades”. Mais vazia que a cabeça de Bush Jr.

Portanto, ideologias e programas partidários à parte, desculpem a redundância, vamos ao que interessa:

Brasil velho ou Brasil novo?
Futuro ou passado?
Azeite de oliva extra virgem ou manteiga rançosa?
Emprestar ao FMI ou pedir emprestado ao FMI?
BRICS ou BREQUES?
Justiça com J maiúsculo ou justiceiros de aluguel?
Informação com seriedade ou manipulação criminosa?
Soberania ou dependência?
O petróleo é nosso ou é dos outros?
Vamos voltar a tirar os sapatos em determinados aeroportos do mundo?
A tolerar governos que agem “no limite da irresponsabilidade”?
Aceitaremos o neofascismo brasileiro ou o combateremos?

Estava eu nessa altura do artigo quando fui surpreendido com a trágica notícia da morte do governador Eduardo Campos, um dos candidatos à presidência.

A matilha conservadora, nem bem o país se refazia do choque com a notícia do desastre aéreo, já saia a campo até com pesquisa sobre como e por quem substituir o candidato desaparecido, numa demonstração inequívoca de sua truculência e de sua falta de ética e educação cívica, para usarmos uma linguagem minimamente civilizada. Pesquisa eleitoral genialmente definida pelo cartunista Bessinha como a primeira pesquisa de boca de túmulo.

Comentários e “análises” vieram à tona nos últimos dez dias e serviram – em inúmeros casos – para confirmar a tese desse modesto artigo: o Brasil vai com sacrifício e a duras penas saindo de seu secular subdesenvolvimento, em seus hiatos de governos desenvolvimentistas, correndo o risco de cair nas mãos de uma oposição fratricida e impatriótica. Um salto no escuro.

Aécio Neves e Marina Silva significam um salto no escuro, um desastre anunciado. Somados em ideologia, visão de país e programas partidários, se assim posso me expressar, representam a visão ultrapassada de vários conceitos e mecanismos econômicos, o fundamentalismo religioso a serviço do atraso, o ambientalismo de algibeira, o progresso visto com o binóculo ao contrário.

Nessa altura, e por conta da mórbida exposição midiática do alento conservador com a morte de Eduardo Campos, peço licença aos leitores para reproduzir carta enviada “post-mortem” por um cidadão brasileiro a Eduardo Campos. Assino embaixo:

CARTA A EDUARDO CAMPOS

Por Carlos Francisco da Silva, de Bezerros (PE)

Eduardo, você não imagina o quanto eu e todo povo pernambucano estamos lamentando a tua trágica e inesperada partida. Temos muitos motivos para isso. Primeiro, pela falta que irás fazer a tua família e aos teus amigos. Depois, pelo exemplo de homem público que representavas para o nosso Estado e para o Brasil.

No entanto, eu tenho um motivo particular para lamentar a tua morte. Depois da tua entrevista no Jornal Nacional, eu fiquei com muita vontade de te encontrar, de apertar a tua mão, olhar no teu olho e te perguntar: Quem disse que eu desisti do Brasil, Eduardo? Infelizmente, no dia seguinte, ocorreu o trágico acidente e eu nunca vou poder te dizer isso.

Eduardo, não fui eu, nem o povo brasileiro que desistimos do Brasil.

Quem desistiu do Brasil foram setores da política e da mídia brasileira, quando promoveram o golpe militar de 1964 que mergulhou o nosso país em 21 anos de ditadura militar e que submeteu o povo brasileiro aos anos mais difíceis de nossa história. Inclusive, sua família foi vítima na carne daquele momento, quando o seu avô e então governador de Pernambuco, o inesquecível Miguel Arraes, foi retirado à força do Palácio do Campo das Princesas e levado ao exílio.

Eduardo, você não imagina o que essa mesma mídia está fazendo com a tragédia que marcou a queda do teu avião. Eu nunca pensei que um dia pudesse ver carrascos do jornalismo político brasileiro como William Bonner, Patrícia Poeta, Alexandre Garcia e Miriam Leitão falando tão bem de um homem público. Os mesmos que, um dia antes do acidente, quiseram associar a tua imagem ao nepotismo no Brasil choram agora a tua morte como se você fosse a última esperança do povo brasileiro ver um Brasil melhor. Reconheço as tuas qualidades, governador, mas não sou ingênuo para acreditar que sejam elas o motivo de tanta comoção no noticiário político brasileiro.

A pauta dos veículos de comunicação conservadores do Brasil sempre foi e vai continuar sendo a mesma: destruir o projeto político do partido dos trabalhadores que ameaça por fim às concessões feitas até então a eles. O teu acidente, Eduardo, é só mais uma circunstância explorada com esse fim, do mesmo jeito que foi o mensalão, os protestos de julho e a refinaria de Pasádena. Se amanhã surgir um escândalo “que dê mais ibope” e ameace a reeleição de Dilma, a mídia não hesitará em enterrar você de uma vez por todas. Por enquanto, eles vão disseminando as suposições de que foi Dilma quem sabotou o teu avião, e que fez isso no dia 13 justamente pra dizer que quem manda é o PT. Pior do que isso é que tem gente que acredita e multiplica mentiras e ódio nas redes sociais.

Lamentável! A Rede Globo e a Veja não estão nem aí para a dor da família, dos amigos e dos que, assim como eu, acreditavam que você não desistiria do Brasil. Você é objeto midiático do momento.

Eduardo, não fui eu quem desistiu do Brasil. Quem desistiu foi o PSDB, que após o regime militar teve a oportunidade de construir um novo projeto de nação soberana e, no entanto, preferiu entregar o Brasil ao FMI e ao imperialismo norte americano, afundando o Brasil em dívidas, inflação, concentração de renda e miséria. O mesmo PSDB que, antes do teu corpo ser enterrado, já estava disseminando disputas entre o PSB e REDE para inviabilizar a candidatura de Marina, aliança que custou tanto a você construir.

Eu não desisti do Brasil, Eduardo. Quem desistiu foi a classe média alta que vaiou uma chefe de Estado num evento de dimensões como a abertura de uma Copa do Mundo porque não se conforma com o Brasil que distribui renda e possibilita a ricos e pobres, negros e brancos as mesmas oportunidades.

E tem mais uma coisa, Governador. Se ao convocar o povo brasileiro para não desistir do Brasil o senhor quis passar o recado de que quem desistiu foi Lula e Dilma, eu gostaria muito de dizer que nem eu, nem o povo e, nem mesmo o senhor, acredita nisso. Muito pelo contrário. A gente sabe que o PT resgatou o Brasil do atraso imposto pelo nosso processo histórico de colonização, do intervencionismo norte americano e da recessão dos governos tucanos. Ao contrário de desistir do Brasil, Lula e Dilma se doaram ao nosso povo e promoveram a maior política de distribuição de renda do mundo, através do bolsa família. Lula e Dilma universalizaram o acesso às universidades públicas através do PROUNI, do FIES e do ENEM. Estão criando novas oportunidades de emprego e renda através do PRONATEC e estão revolucionando a saúde com o programa Mais Médicos.

Eduardo, eu precisava te dizer: não fui eu, nem o povo brasileiro, nem Lula, nem Dilma que desistimos do Brasil. Quem desistiu do Brasil, meu caro, foram os mesmos que hoje estão chafurdando em cima das circunstâncias que envolvem o acidente que de forma lamentável tirou você do nosso convívio. Fazem isso com o motivo único e claro de desgastar a reeleição de Dilma e entregar o país nas mãos de quem, de fato, desistiu do Brasil.

Descanse em paz, Eduardo. Por aqui, apesar da falta que você vai fazer a todo povo pernambucano, eu, Lula, Dilma e os brasileiros que acreditam no futuro do Brasil vamos continuar na luta, porque NÓS NUNCA DESISTIREMOS DO BRASIL.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

4 comentários em Afinal, quem desistiu do Brasil?

  1. É uma tristeza: estamos entre o ruim e o muitíssimo pior – este, com os desdobramentos de extremo ódio dos entreguistas, dos que dizem que não vai haver verdade.

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  2. Desistiu do Brasil quem não conhece o Brasil e a sua verdadeira história, quem procura somente ver o que não dá certo e criticar o está dando certo., quem procura chifres em cabeça de cavalo.

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  3. Concordo plenamente com a abordagem do artigo. Como pernambucano, fico impressionado como Eduardo Campos que era um “ninguém” no plano nacional foi erigido ao status de solução para o país. Em parte, isso se deve ao fato de que, quando alguém morre, temos a tendência (cristã) de lembrarmos só as coisas boas, e não as más, e também ao fato de que insistimos que o Brasil é o país do futuro, mas nunca do agora. Assim, entramos num paradoxo: se morreu a “solução” (Eduardo) indica que não temos mais solução!
    Quem milita nos movimentos sociais pernambucanos, certamente lembra da truculência que Eduardo Campos (aqui conhecido como “Dudu Malvadeza”) tratava as manifestações, bem como de todas as benesses que o seu governo deu ao capital, como o hoje discutido “Projeto Novo Recife”.
    Nunca vi Eduardo como solução para o país.
    Parabéns ao autor do artigo e da “carta”.

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