Anotações sobre Gore Vidal

Por Ricardo Musse.

Gore Vidal foi talvez o mais versátil dentre os escritores contemporâneos. Além de trafegar com desenvoltura por diversos gêneros do romance, escreveu regularmente para o teatro, o cinema e a televisão. Destacou-se ainda como ensaísta e memorialista.

Ele nasceu em 1925, no hospital da Academia Militar de West Point. Seu avô materno era senador por Oklahoma. O pai, Gene Vidal, trocou o exército pela aviação civil. Gore Vidal passou a infância em Washington, no convívio com os rituais do poder e na condição de figura pública – uma celebridade dos cinejornais, acompanhando seu pai e o casal Lindbergh em voos pioneiros. Gene Vidal dirigia o departamento de comércio aéreo, no governo de Franklin D. Roosevelt. Gore Vidal alistou-se em 1943. Autodidata, desistiu de estudar em Harvard para tornar-se escritor.

Publicou seu primeiro romance, Williwaw, em 1946. A história se passa no local onde ele participou da guerra como piloto de um barco do exército: a ilha Umnak, parte do arquipélago das Aleutas, que se estende do Alasca à Rússia. Williwaws são ventos repentinos e inesperados provenientes do alto das montanhas das ilhas. O romance descreve a devastação produzida em um barco por uma dessas ventanias. Trata-se de uma metáfora: o temor de um ataque do exército inimigo é transposto para ameaças oriundas da natureza. A trama gira em torno de uma morte, talvez um assassinato, evocando Lord Jim, de Joseph Conrad, em um estilo assumidamente inspirado em Stephen Crane.

Williwaw insere-se no ciclo de romances do pós-guerra, em geral, relatos das experiências de jovens combatentes dentro da máquina de guerra e nos campos de batalha, numa orientação acentuadamente naturalista. O tom convencional dessa série limitou seu impacto na ficção norte-americana, contrastando com os livros sobre a Primeira Guerra, marcados pelo experimentalismo formal.

Em 1947, Vidal mudou-se para a Guatemala. Lá concluiu A cidade e o pilar, romance que aborda o tema, então tabu, da homossexualidade. O livro foi um dos mais vendidos do ano de 1948, numa lista encabeçada por 1984, de George Orwell e na qual constava ainda Os nus e os mortos, de Norman Mailer. Mesmo assim a imprensa manteve silêncio acerca do livro. Um boicote que se estendeu ao longo da década de 1950, sobretudo após a publicação de Dark green, Bright red (1950), romance sobre a interferência militar e política dos EUA na América Latina.      

A cidade e o pilar relata a história de dois amigos da adolescência. Quando adultos, um deles, Bob Ford, “esquece” um idílico amor juvenil que o outro, Jim Willard, procura recuperar escrevendo sobre os acontecimentos de sua infância. O “recalque” é superado num processo complexo, em que a memória é ativada por meio de sonhos e do livre exercício da imaginação.

Vidal passou os dois anos seguintes na Europa. Em Roma, conheceu Tennessee Williams. Em sua companhia viajou para Paris e Londres, convivendo no meio artístico e literário. Em 1950, instalou-se em Nova York, em uma mansão à beira do rio Hudson. À exceção de A cidade e o pilar, seus livros desse período não fizeram sucesso nem com o público nem com a crítica: In a Yellow Wood (1947); The Season of Comfort (1949); À procura do rei (1950); The Judgment of Paris (1952); Messias (1954).

Para manter seu alto padrão de vida, Vidal recorreu a vários expedientes. Escreveu livros policiais sob pseudônimo, peças para a TV e para a Broadway, roteiros para o cinema (dois deles tornaram-se clássicos de Hollywood: Ben-Hur e De repente no último verão). Além de dinheiro, granjeou assim uma notoriedade pública que lhe permitiu tentar retomar a tradição familiar, candidatando-se ao Congresso norte-americano em 1960. Apesar do empenho pessoal de Eleanor Roosevelt e de suas relações com a família Kennedy (o primeiro padrasto de Vidal tornou-se em seguida padrasto de Jackie), não conseguiu se eleger, fracasso repetido em 1982.  

No início dos anos 1960, Vidal retornou a Roma e ao romance. Com Juliano (1964), um relato do curto reinado do último imperador romano pagão, retorna também à lista de livros mais vendidos. Insistindo nessa vereda, escreveu uma série de romances históricos, revitalizando um gênero então desgastado. Adotou como cenário ou a Antiguidade greco-romana, caso de Juliano e Criação (1981), ou a sociedade norte-americana: Washington, D.C. (1967); Burr (1973); 1876 (1976);Lincoln (1984); Império (1987); Hollywood (1990); A era dourada (2000).

Vidal justifica seus romances históricos como uma tentativa de superar uma inversão contemporânea, na qual os melhores autores tendem a escrever sobre o simples e o banal enquanto os piores se atrevem a tratar dos mesmos assuntos que Homero, Dante e Shakespeare, isto é, a vida dos “heróis”.

Mas como reconstituir o passado sem recair em anacronismos ou na ilusão de imparcialidade? Vidal recusa a pretensão à verdade da ciência, construindo uma espécie de “objetividade” literária que prescinde do recurso à onisciência. Para tanto, vale-se de técnicas narrativas que ressaltam a importância do recalcado e de motivações não-conscientes. O relato, em geral uma “memória fictícia”, é feito a partir do ponto de vista de um personagem secundário que, à maneira do historiador moderno, especula acerca das motivações das personagens reais. Uma situação, diga-se de passagem, que Vidal vivenciou quando seu amigo Jonh Kennedy tornou-se presidente dos EUA. Apesar dos cuidados com a veracidade e de suas minuciosas pesquisas históricas, sua obra não deixa de superestimar o papel dos “grandes homens” e da elite dominante, deixando na sombra os fatores econômicos, sociais e culturais.

Seus livros históricos procuram mostrar que os EUA jamais foram uma democracia. Nas palavras de Vidal, “somos governados há duzentos anos por um sistema oligárquico em que os homens de posses podem prosperar enquanto os outros devem se arrumar sozinhos”. Mais que isso, depois de 1900 e da Guerra contra a Espanha, tornaram-se imperialistas.  

Seu repúdio à sociedade americana transparece também em seus romances experimentais ou sarcásticos. Na série iniciada com Myra Breckinridge (1968), continuada com Myron (1975) (Rocco), Kalki (1978) e Duluth (1983), Vidal examina as diversas modalidades de controle social – a sexualidade, a religião, a família, a indústria cultural etc. – que transformaram os Estados Unidos em uma sociedade autoritária.

Gore Vidal escolheu relatar sua vida sob a forma de memórias, prescindindo do trabalho de confrontação das fontes que se tornou marca registrada de seus romances históricos. O gênero, composto de fragmentos, permite divagações e confluências ocasionais que revelam aspectos ignorados dos acontecimentos. Em Palimpsesto (1995), ele relata seus primeiros 39 anos de vida, até sua mudança em definitivo para a Itália. Começa pela família, com um retrato impiedoso da mãe e a admiração contida pelo pai e pelo avô. Fala pouco de si mesmo, apenas aludindo à sua compulsão à leitura na infância, e sexual na adolescência.

Seu foco são as personalidades com quem conviveu, cujos encontros e desencontros descreve minuciosamente: Anais Nin, Edmund Wilson, Lionel Trilling, Tennessee Wiliams, Norman Mailer, Paul Bowles, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs. Outro fio do livro são suas relações no mundo da política, com a viúva de Roosevelt e com a família Kennedy. Conta em detalhes sua briga com Robert Kennedy que o afastou da Casa Branca, precipitando sua mudança para Roma e seu retorno à literatura.

Vidal publicou mais de uma dezena de livros de ensaios, granjeando uma reputação que ameaça sobrepujar a de romancista. No Brasil, esses ensaios foram reunidos em duas coletâneas: De fato e de ficção (1987) e Como faço o que faço e talvez inclusive o porquê (1990). A primeira contém importantes artigos sobre escritores contemporâneos e acerca da geração anterior, um texto polêmico sobre a autoria no cinema e uma crítica da teoria do “novo romance” francês. A segunda coletânea traz artigos sobre Henry James e John dos Passos, um texto sobre a gênese e o declínio do império americano e sua resposta às críticas endereçadas ao seu romance Lincoln.

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Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.

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