A imagem da mulher e a esquerda

15 03 03 Lincoln Secco Esquerda Mulher2[La Liberté guidant le peuple (1830) de Eugène Delacroix, uma das representações mais célebres da “Liberdade” como uma mulher nas barricadas. Embora tivesse sido elaborado em comemoração à Revolução de Julho de 1830 que levou Luís Felipe ao poder, o quadro foi considerado explosivo demais e acabou sendo comprado e guardado pelo Rei para evitar sua exibição pública.]

Por Lincoln Secco.*

“Uma mulher tem o direito de subir ao cadafalso;
ela deve ter também o de subir a uma tribuna.”
Olympe de Gouges, Les droits de la femme et de la citoyenne1

Marianne é o símbolo da Revolução Francesa. A Estátua da Liberdade é uma mulher. A República e a Nação são mulheres. Também a deusa da democracia. Os principais ícones que ainda sustentam os ideais de emancipação humana são femininos, entretanto as relações práticas das mulheres com os movimentos de esquerda nunca se deram em termos de igualdade. Proudhon, o teórico do anarquismo e da liberdade, acreditou, em seu Amour et mariage, na inferioridade da mulher. A Associação Internacional dos Trabalhadores, da qual Marx e Engels faziam parte, condenou o trabalho feminino para que as mulheres pudessem “ficar em casa”. Certamente, e como teremos oportunidade de ver, mulheres participaram sempre desses movimentos, fossem eles anarquistas, socialistas ou comunistas.

É verdade que a aristocracia setecentista nas regiões francesas podia ser acusada de muitas coisas, mas não por seu machismo2. Entretanto, a liberdade feminina era restrita às cortesãs e às mulheres de sangue nobre. Somente na Grande Revolução Francesa as mulheres esboçaram sua primeira forma de participação política coletiva. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão não se referiu às mulheres. E as Constituições da França monárquica ou republicana não lhes deram direitos (nem mesmo a Constituição de 1793, a mais democrática de todas)3.

Só às vésperas da República, depois de 1791, um “feminismo teórico”, na expressão de Elizabeth Roudinesco, ganhou força. Era o ano da crise, da guerra. Ano em que foi criada a Sociedade dos Amigos da Verdade4, primeiro clube feminino. O ano seguinte assistiria à fuga de Varennes e às dissensões que levariam ao 10 de Agosto, à vitória francesa em Valmy, à queda da monarquia e ao início do Ano I republicano (22 de setembro de 1792). No Ano II, a atriz de província Claire Lacombe (dita Rose Lacombe) e Pauline Léon animaram o segundo clube exclusivamente feminino da Revolução: o Clube das Cidadãs Republicanas Revolucionárias. Dominado pelo espírito enragé de homens como Leclerc e Jacques Roux, o clube representava a sans-culotterie feminina. Mas foi fechado pelo Comité de Salut Publique em 30 de setembro de 1793. Protegida pelos hébertistes, Lacombe só foi aprisionada em março do ano seguinte. Permaneceu presa até 17955.

Apesar desses antecedentes, o feminismo não se desenvolveu nem deixou rastros por muitos anos. Ele só recobraria ânimo depois de 1830, com o advento da Monarquia de Julho, de recorte liberal. O regime juste milieu não poderia manter as mulheres nas mesmas condições da Restauração. Ou poderia? Certamente, as mulheres mais militantes não concordaram com isso e fizeram suas demandas no bojo da nova ascensão das lutas revolucionárias dos anos 1830-1848. Foi nesses anos que a própria palavra começou a ser veiculada em francês. Féminisme apareceu por volta de 18376. Não por acaso foi nessa época que a palavra socialisme começou a ser utilizada, e Robert Owen asseverou que o grau de emancipação da mulher era a medida mais segura para mostrar o nível de emancipação humana. As experiências cooperativistas de Owen criaram os jardins-de-infância e promoveram as ideias de igualdade entre os sexos.

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“A República” [à esquerda], de Daumier, foi encomendada para representar as virtudes do republicanismo: a figura feminina robusta portando a bandeira tricolor e rodeada de crianças se nutrindo e se educando trabalha a ideia de um corpo político provedor. Ironicamente, o quadro ficou pronto justamente em 1848, ano em que Daumier esboçou a charge “Les divorcés” [à direita], retratando a luta pelo direito ao divorcio e captando os temores burgueses da ocupação do espaço político pelas mulheres. Ambas as ilustrações integram o livro Paris, capital da modernidade, de David Harvey (Boitempo, 2015). [Nota do editor].

A nova fase despertada pelas revoluções, especialmente depois de 1848, viu surgir uma nova mulher naqueles meios mais militantes (não necessariamente operários). A mulher livre, que, segundo um dicionário de 1845, era aquela mulher que se desejava independente da lei e do poder do homem. Que pretendia os mesmos empregos que ele. E citava como as mais célebres mulheres livres aquelas da época da Revolução Francesa, como Catherine Théot e Olympe de Gouges7. Mas, em verdade, as mulheres militantes (do feminismo e/ou do socialismo) fizeram suas primeiras aparições públicas na Primavera dos Povos. Foi a mais notável geração de mulheres revolucionárias surgida até então.

Em geral, nasceram com a Revolução de Julho de 1830 e eram bem jovens em 1848, mas já em condições de participar ou compreender o fenômeno revolucionário. E se tornaram militantes maduras na época da Primeira Internacional e da Comuna de Paris. Esses marcos históricos fizeram dessa geração a mais importante na luta pela emancipação feminina. Favorecidas pela educação recebida e, muitas vezes, pela origem na classe média, elas optaram, sempre, por uma combinação de estudos das questões sociais com uma vida independente que exigia de algumas delas um extenuante trabalho físico para a garantia da sobrevivência. Afastadas de casamentos tradicionais, elas tiveram muitas dificuldades financeiras. A boa educação foi fator decisivo na evolução de todas elas. Nathalie Lemel (1827-1921) era filha do dono de um café e adquiriu boa instrução. Abriu, depois, uma livraria. Léodile Léo (1832-1900), que se tornaria conhecida assinando seus escritos como André Léo, era filha de um oficial da Marinha, o qual lhe concedeu excelente educação formal. Louise Michel (1830-1905), a mais célebre agitadora e escritora socialista, era filha do châtelain de Vroncourt, que lhe deu boa instrução. A mais jovem dessa geração, Pauline Mekarska Mink (1839-1901), conhecida como Paule Mink, era filha do conde Mekarski, participante da insurreição polonesa de 1830 e que se refugiara na França. Margherite Tinayre (1831-?) era filha de burgueses remediados e fez bons estudos.

Essa geração só se tornou reconhecível depois de 1860, data da publicação de “La femme affranchie”, de Jenny d’Héricourt. O movimento feminista ampliou-se e cooperativas de ajuda mútua e de consumo foram criadas com as mulheres. Livros e artigos começaram a ganhar a imprensa operária. No final do século XIX, o catálogo do Partido Operário Belga tinha uma seção de feminismo8.

A palavra féministe passou a ser usada para designar essas mulheres militantes. A Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864, já tinha mulheres como Nathalie Lemel. Ela fundou, com o militante Varlin, La Marmite, uma sociedade de alimentação para operários, a preços módicos.

Em Paris, as mulheres trabalhadoras viviam em situação de penúria. Em 1870, a cidade tinha ao redor de 112 mil operárias9. Um livro de 1874 declarava que uma mulher solitária não poderia viver com menos de 248 francos numa cidade. Na juventude ela ainda conseguiria em média 172 francos. No auge de sua força física, uns 250 francos. Mas, na velhice, não mais do que 126 francos10. Essas mulheres dificilmente chegariam aos mesmos níveis de educação daquelas supracitadas. Ainda assim, a exemplo dos operários do sexo masculino, ainda que em menor medida, muitas delas se fizeram autodidatas e escreveram autobiografias. Na Áustria, Adelheid Popp descobriu sua militância por meio da auto-educação. Com um histórico de abusos sexuais, opressão familiar e falta de escolaridade formal, ela começou lendo romances até que descobriu a literatura socialista. Leu Kautski, Lassale, Engels e os jornais operários. Fez-se a primeira líder feminina da Socialdemocracia austríaca. Foi editora do partido e, depois da Guerra de 1914-1918, deputada no parlamento11.

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À esquerda, caricatura de uma pétroleuse em uma peça de propaganda anti-communard datada de pouco depois da destruição da Comuna. À direita, fotografia da Estátua da Liberdade em construção em Paris, pouco antes de ser enviada aos EUA. Ambas imagens integram o livro Paris, capital da modernidade, de David Harvey (Boitempo, 2015). [Nota do editor].

Mas esse já era um momento em que o feminismo tinha se espraiado para além do socialismo, envolvendo mulheres de classe média que lutavam pelo voto. Um comentário de um autor português da época revela muito: “[…] todas as meneuses do sufragismo inglês […] roucas, violentas, desgrenhadas, masculinas, invectivando de punhos cerrados a multidão –, hão-de ser vencidas na luta com o homem, sobretudo por que a sua obra, além de contraditória com a fisiologia e com a psicologia da mulher, é uma obra destruidora de toda a harmonia, de toda a felicidade, de toda a beleza. O enigma da mulher resume-se nisto: ser bela para ser possuída”12.

Era obra da mentalidade difusa na época o ideal de estar de acordo com a fisiologia, a psicologia, a sociologia… enfim: a ciência. Não era até mesmo o racismo “científico”? O preconceito contra a mulher não era diferente. E só foi combatido de modo eficaz por elas mesmas, incluindo os movimentos socialistas. Eles foram menos hostis a elas. Mas não estavam despidos de toda a misoginia de sua época.

A prova disso pode ser encontrada seja nos meios socialistas, seja naqueles libertários (de longe os mais abertos à liberdade sexual e social das mulheres). No início do século XX, a principal acusação que se fazia às mulheres nos meios anarquistas era a de que sua entrada no mercado de trabalho rebaixava os salários dos homens e provocava até mesmo o desemprego entre eles13. Os sindicatos socialistas e trabalhistas preferiam ver a mulher casada no lar. E, de fato, a maioria delas trabalhava até o casamento, mas não depois (com as exceções habituais, como a região têxtil do Lancashire). Na Inglaterra, em 1911, só 11% das trabalhadoras tinham marido, e na Alemanha, em 1907, 30%14. Muitas que continuavam a trabalhar para fora o faziam em casa. Mas nem mesmo o trabalho doméstico, típico de famílias aristocráticas ou das classes dominantes e das camadas médias no Terceiro Mundo ainda hoje, manteve sua importância no emprego das mulheres. Em 1913, só 5% das casas na Inglaterra tinham domésticas residentes. Em 1951, apenas 1%15.

Tudo isso mudou muito depois de 1914, com a Guerra Europeia. Mais mulheres assumiram postos na indústria e no setor terciário. E os movimentos exclusivamente femininos, bem como as alas femininas dos sindicatos e partidos operários, levaram a esquerda a ampliar a luta pela igualdade de direitos entre os gêneros. Incluindo o sufrágio universal. Inicialmente, as mulheres só puderam votar na sua “periferia”, como Finlândia (1906) e Noruega (1913), ou em colônias de povoamento europeu, como Nova Zelândia (1893) e Austrália (1902). Esse direito se estendeu aos Estados Unidos e ao Brasil depois da Revolução de 1930, abarcando, hoje, a maioria dos países.

Depois de 1917 (ou de 1919, se preferirmos a data da fundação da Internacional Comunista), as relações entre as mulheres e o movimento socialista internacional estiveram  subsumidas aos mesmos imperativos que se sobrepuseram à ação geral dos partidos comunistas  nacionais. Ou seja, as decisões se tornaram cada vez mais centralizadoras e voltadas à adaptação a necessidades exógenas ao movimento e atinentes às necessidades do Estado soviético.

Além disso, as mulheres socialistas ou comunistas se viram numa situação inédita: sob as leis de Estados nominalmente proletários ou socialistas. O primeiro ímpeto revolucionário provocou uma onda de libertação das injunções legais que discriminavam as mulheres e uma defesa aberta, por parte de líderes comunistas, da liberação sexual feminina (entendida como adesão livre à união matrimonial sancionada ou não pelo Estado e também como direito de sair do matrimônio).

Nos anos 1930, houve um refluxo do feminismo socialista. As obras de Alexandra Kollontai deixaram de ser editadas nas tiragens de outrora ou simplesmente foram substituídas pelo seu oponente, professor Zaldkin. Houve também um retrocesso das leis soviéticas sob Stalin (cotejando-se as Constituições de 1918 e de 1936), com a proibição do aborto16, da seção feminina do Comitê Central e da prostituição. O divórcio se tornou burocratizado e dificultoso17. Todavia, o livro texto mais importante acerca da legislação soviética dos anos 1930, organizado por Vishinsky, fazia elogios aos avanços dos direitos das mulheres na União Soviética. Afinal, elas estavam não só no mercado de trabalho, mas também em condição superior à do passado. Em 1897, 55% das mulheres empregadas eram serviçais domésticas, enquanto em 1930 apenas 2%. Nas  eleições de 1934-35 foram eleitas 26,2% de mulheres como deputadas, numa época em que somente 22 países garantiam o sufrágio realmente universal. A porcentagem de mulheres nas instituições superiores de ensino era de 41% (1937). Mas essa porcentagem excluía as escolas superiores do partido e academias industriais18. Afinal, em 1929, apenas 13,7% dos membros do partido eram mulheres. Esse número atingiu 21% em 197019.

A conclusão a que chegaram as mulheres socialistas é a de que a mera socialização dos meios de produção e a garantia de direitos políticos iguais aos dos homens eram condições necessárias para a emancipação da mulher, mas insuficientes sem uma “revolução da cultura”. Essa revolução continua a ser imprescindível não só para as mulheres, mas também para o socialismo, pois, desde Robert Owen, dos socialistas utópicos e do velho Engels, sabemos que o índice de emancipação da humanidade mede-se pela liberdade das mulheres.

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Este artigo integra a edição de número 7 da revista semestral Margem Esquerda – Ensaios Marxistas, da Boitempo, e é recuperado aqui, no Blog da Boitempo, no contexto do especial “Dia da mulher, dia da luta feminista“, que conta também com colaborações de Maria Rita Kehl, Maria Lygia Quartim de Moraes, Michael Löwy, Urariano Mota, Flávia Biroli, Luis Felipe Miguel, entre outros. Além disso, a Boitempo também disponibiliza todos seus títulos assinados por autoras mulheres e/ou com temática feminista por um desconto especial até o dia 9/03/2015! Saiba mais abaixo:

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NOTAS

1 Elizabeth Roudinesco, Théroigne de Méricourt: uma mulher melancólica durante a Revolução (Rio de Janeiro, Rocco, 1997), p. 106.
2 Apud Renato Janine Ribeiro em Montesquieu, Cartas persas (São Paulo, Paulicéia, 1991).
3 Les Constitutions de la France depuis 1789  (Paris, Flammarion, 1979), p. 73.
4 Elizabeth Roudinesco, Théroigne de Méricourt, cit., p. 103
5 J. Tulard et al., Histoire et dictionnaire de la Révolution Française: 1789-1799 (Paris, Robert Laffont, 1987), p. 917.
6 Albert Dauzat, Jean Dubois e Henri Mitterrand, Nouveau dictionnaire étymologique et historique (Paris, Larousse, 1971), p. 300.
7 Ch. Saint-Laurent, Dictionnaire encyclopédique usuel: répertoire universel et abrégé de toutes les connaissances humaines (3. ed., Paris, Au Comptoir des Imprimeus-Unis, 1845), p. 581.
8 J. Destrée e Emile Vandervelde, Le socialisme en Belgique (Paris, V. Giard e E. Brière Libraires-Éditeurs, 1903; 1. ed.: 1898).
Bernard Nöel, Dictionnaire de la Comune (Paris, Fernand Hazan Éditeur, 1971), p. 171.
10 Ernest Legouvé, Histoire morale des femmes (Paris, Didier et cie., Libraires-Éditeurs, 1874), p. 371.
11 Martyn Lyons, “Experiências de leitura: mulheres de classe trabalhadora na Europa do século XIX”, em M. Lyons e C. Leahy, A palavra impressa: histórias da leitura no século XIX (Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 1999), p. 85.
12 Júlio Dantas, Figuras de ontem e de hoje (2 ed., Porto, Livraria Chardron, 1919), p. 54-5.
13 M. Angeles García-Maroto, La mujer en la prensa anarquista: España 1900-1936 (Madri, Anselmo Lorenzo, 1996), p. 77 ss.
14 Eric Hobsbawm, Mundos do trabalho (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988), p. 135.
15 Idem, Da Revolução industrial inglesa ao imperialismo (Rio de Janeiro, Forense, 1979), p. 260.
16 Ainda depois da morte de Stalin o aborto era um problema de saúde pública. No período 1954-1966, 80% dos abortos foram feitos fora de hospitais (basicamente abortos ilegais). Alena Heitlinger, Women and state socialism (Londres, Macmillan, 1979), p. 127.
17 Adriana d’Atri, “Un análisis del rol destacado de las mujeres socialistas en la lucha contra la opresión y de las mujeres obreras en el inicio de la Revolución Rusa: 20 de octubre de 2003”. Disponível em: Rebelión (diario electrónico alternativo): http://www.rebelion.org.
18 Andrei Vishinsky (Ed.), The law of the soviet state (Londres, Macmillan, 1951), p. 595.
19 Alena Heitlinger, Women and state socialism, cit., p. 105.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, e um dos autores do livro de intervenção da Boitempo inspirado em Junho Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

Mulheres infelizes no Brasil

Um texto de Contardo Calligaris, publicado há tempo na Folha de São Paulo, me deu inspiração para esta coluna. O artigo de Calligaris me chamou a atenção desde o título, “Mulheres infelizes“. Mas não só, porque depois de mencionar os romances Anna Karenina, Madame Bovary e Therese D., Contardo Calligaris escreveu que “a modernidade poderia (ou deveria) começar, exemplarmente, com essas três histórias de insatisfação feminina, ou seja, com a descoberta de que as mulheres têm sonhos e devaneios que vão além de um marido devoto, de uma família e de uma vida ao abrigo da necessidade – em outras palavras, com a descoberta de que existe um desejo feminino”.

E foram as frases entre aspas acima que me moveram para esta coluna. Não sei se Calligaris sabe, mas no Brasil a infelicidade das mulheres bem que gostaria de possuir maridos devotos, mais famílias e vidas sem necessidades básicas. Se assim fossem infelizes, 90% das brasileiras até poderiam dizer que sentiam um pouquinho do gosto da felicidade. É sério. Quando a gente relaciona a infelicidade feminina dos romances clássicos às mulheres brasileiras, a inadequação é a mesma do pregador franciscano em Canudos, no instante em que recomendava jejum de farinha e bacalhau aos sertanejos famintos. O religioso recebeu gargalhadas, aos gritos de que “assim já é fartura”.

Queremos dizer, a infelicidade da mulher nos romances apontados por Calligaris é, ela mesma, uma infelicidade ainda inalcançável para a maioria das brasileiras. E se falo mais claro, digo: o nosso inferno é maior, muitos buracos mais embaixo. Pois se não sabem, saibam que também há uma radicalização no infernizar a infelicidade, como um descer vertical no aviltamento, numa injustiça que aprisiona, condena e mata. Escreve Calligaris: “Não é por acaso, aliás, que, nos três romances, a maternidade não faz a felicidade das mães. A descoberta do desejo feminino acompanha a descoberta da inadequação e da insuficiência dos homens, como maridos e também como filhos”. Mas em que mundo ele vive? A infelicidade das mães no Brasil começa já na falta de um lugar onde com segurança elas deem à luz. Enquanto escrevo, as maternidades populares estão repletas de mulheres nos corredores, no chão, agonizando. Ah, quem dera fossem Bovary.

No geral, as traduções das mulheres infelizes do mundo clássico para o Brasil atendem pelo nome de Maria. Em lugar de nobres e burguesas, esse nome é dado para melhor corpo e formas, que se machucam nas pessoas das pobres, bravas e violentadas. Agora mesmo é possível sentir o cheiro do velho tempo que sobrevive na modernidade do Brasil. O cheiro vem de flores sem perfume, apenas com um acento de náusea, porque cobrem cadáveres. Exagero? É só ter olhos de ver, coração de sentir e pensamento de não negar. Abram as folhas, percorram a web, escrevam na busca mulheres assassinadas. Entre os 2.800.000 resultados, a maioria será de crimes “de amor”. Na verdade, são mulheres assassinadas por um amor que jamais receberam. E que amam ainda assim.

Na verdade, as mulheres sem amor amam, mas em um afeto de compensação. Agora digo por que o texto de Calligaris me deu o mote para a coluna de hoje. O seu título, “Mulheres infelizes”, me trouxe à lembrança um trecho do meu romance, O filho renegado de Deus. Dele copio o trecho a seguir:

Maria parece menina, tão livre e liberada se acha na conversa com o irmão. Parece até que estão apaixonados. Felizes e abertos, francos e verdadeiros, sorridentes. Maria, mais plena, sem os freios de Maciel, que não se liberta como gostaria, Maria gargalha, gargalha e fica rubra de tanto rir, até um ponto em que lágrimas correm dos seus olhos. Maria chora desimpedida, arrebatada de feliz, como nunca mais na sua curta vida. Feliz como uma anunciação, como se recebesse a ganhasse a visita miraculosa de um anjo, porque meses depois chorará outro gênero de lágrimas, em uma feroz despedida.

Observando-os há pouco, sob os cabelos grisalhos, Jimeralto vê Maria apaixonada pelo irmão. Ela não se dava conta, percebe. Então ele se fala e penetra o que até então ele não soubera.

Existe no coração das pessoas uma vontade irrefreável de amar. Ama-se um gato, ama-se um cachorro, um papagaio, uma flor que ninguém quer ou vê. Talvez esse amor que deriva e vaga por objetos e coisas que não respondem, ou respondem abaixo da fome de amar, talvez sejam sintomas do afeto que procura no mundo um individuo que lhe responda. Ou, quem sabe, o amor elástico, amplo e plástico onde tudo cabe. Em lugar de um pansexualismo, como o vê uma absurda redução, o amor às coisas é antes um panafeto. O carinho e o cuidado com que se toca uma mercadoria, um carro, um revólver, uma faca ou uma caneta, em lugar de um desvio, de um puro desvio daquele coração que se guarda para um amor maior, talvez seja o coração mudado para um afeto camaleão, que se veste da pele do lodo do esgoto ao verde da mata. Camaleão feio, mas camaleão. Iguana de luxo, iguana-afeto, que em vez de saltar os obstáculos à sua natureza, faz da adaptação ao obstáculo a sua natureza. Isso Jimeralto consegue compreender, isso na reflexão liberada como num sonho ele consegue. Enquanto caminhava na rua do subúrbio ele viu um iguana escuro, coberto de lama, surgido de um riacho poluído, e num pensamento que era uma associação lembrou o afeto mimese, o afeto em que se transformava o amor de sua mãe.

Quero dizer, enfim: a modernidade poderia e deveria começar no Brasil com a descoberta de que mulheres são pessoas plenas, loucas por um dia terem o drama de Madame Bovary. E corrijo: no Brasil? Melhor seria dizer, nos Brasis de todos os lugares onde houver a redução de gente a coisa, ou a corpo, puro corpo. Os puros corpos desejados de mulheres, que ao fim são destruídos.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui. O livro impresso está com desconto especial durante a promoção “Dia da mulher, dia da luta feminista”, junto com dezenas de outros títulos da Boitempo! Saiba mais abaixo:

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Maria Rita Kehl: A mínima diferença

Maria Rita Kehl Diferença mínimaPor Maria Rita Kehl.*

Há cem anos não se fala em outra coisa.1 O falatório surpreenderia o próprio Freud. Se ele criou um espaço e uma escuta para que a histérica pudesse fazer falar seu sexo, num tempo cuja norma era o silêncio, o que restaria ainda por dizer ao psicanalista, quando a sexualidade circula freneticamente em palavras e imagens, como a mais universal das mercadorias?

Ainda assim, parece que nada mudou muito. O escândalo e o enigma do sexo permanecem, deslocados – já não se trata da interdição dos corpos e dos atos – avisando que a psicanálise ainda não acabou de cumprir o seu papel. Mulheres e homens vão aos consultórios dos analistas (e, como há cem anos, mais mulheres do que homens), procurando, no mínimo, restabelecer um lugar fora de cena para uma fala que, despojada de seu papel de lata de lixo do inconsciente (no que reside justamente sua obscenidade), vem sendo exposta à exaustão, ocupando lugar de destaque na cena social, até a produção de uma aparência de total normalidade.

Parece que nada mudou muito: mulheres e homens continuam procurando a psicanálise para falar da sexualidade e suas ressonâncias; mas o que se diz ali já não é a mesma coisa. “O que devo fazer para ser amada e desejada?”, perguntam as mulheres, com algum ressentimento: não era de se esperar que o amor se tornasse tão difícil já nos primeiros degraus do paraíso da emancipação sexual feminina. “O que faço para ser capaz de amar aquela que afinal me revelou o seu desejo?”, perguntam os homens, perplexos diante da inversão da antiga observação freudiana, segundo a qual é próprio do feminino fazer-se amar e desejar o próprio do homem, narciso ferido eternamente em busca de restauração, amar sem descanso aquela que parece deter os segredos da sua cura. Mulheres que já não sabem se fazer amar, homens que já não amam como antigamente. Como se pedissem aos psicanalistas: “o que faço para (voltar a) ser mulher?”, “como posso (voltar a) ser homem?” – questões que me remetem à observação de Arnaldo Jabor em artigo de para a Folha de São Paulo, sobre o choro (arrependido?) de algumas mulheres da cena política e da mídia brasileiras: “O que é isso? A feminilidade como retorno?”.

Incapaz de formular uma interpretação satisfatória para o que ouço no consultório e na vida, dou voltas em torno desse mal-estar. Tento cercar com perguntas aquilo para o que não encontro resposta. É possível que a relação consciente/inconsciente se modifique à medida que mudam as normas, os costumes, a superfície dos comportamentos, os discursos dominantes? A questão remete, sim, à relação entre recalque e repressão. Se mudam as normas, mudam os ideais e o campo das identificações – e, com eles, uma parte das exigências do superego, uma parte das representações submetidas pelo menos ao recalque secundário –, mudam também as chamadas soluções de compromisso, os sintomas que tentam dar conta simultaneamente da interdição e do desejo recalcado… Dito de outra forma – os “novos tempos” nos trazem novos sujeitos? Novos homens e mulheres colocam outras questões à observação psicanalítica? E aqui vai a ressalva: não há nenhuma euforia, nenhum otimismo no emprego da palavra “novo”. A própria psicanálise já nos ensinou que a cada barreira removida, a cada véu levantado, deparamos não com um paraíso de conflitos resolvidos e sim com um campo minado ainda desconhecido.

Avancemos mais alguns passos nesse campo minado. O lugar reservado às mulheres na cena social (e sexual) desde o surgimento da psicanálise foi sendo alterado (por obra, entre outras coisas, das próprias contribuições freudianas) e ampliado; as insígnias da feminilidade se modificaram, se confundiram, as diferenças entre os sexos foram sendo borradas até o ponto em que a revista Time americana publica em 1992, como artigo de capa, a seguinte pesquisa: “Homens e Mulheres: Nascem Diferentes?”. Na dinâmica de encontro e desencontro entre os sexos, a intensa movimentação das tropas femininas nos últimos trinta anos parece ter deslocado os significantes do masculino e do feminino a tal ponto que vemos caber aos homens o papel de narcisos frígidos e às mulheres o de desejantes sempre insatisfeitas. Não cabe hoje aos homens dizer: “devagar com a louça!” – aterrados diante da audácia dessas que até uma ou duas gerações atrás pareciam aceitar as investidas do desejo masculino como homenagem à sua perfeição ou como o mal necessário da vida conjugal?

Já sabemos que o homem odeia o que o aterroriza. Se a verdade do sexo vazio da mulher sempre tem que ser dissimulada com os engodos fálicos da beleza e da indiferença, tal a angústia que é capaz de provocar em quem ainda sente que tem “algo a perder”, essa angústia parece redobrar diante da evidência de que esse sexo vazio também é faminto, voraz. “O que elas querem de nós?”, indagam entre si os varões, tentando se assegurar de que ainda é possível entrar e sair da relação com a mulher, sem deixar por isso de ser homens – mas como, se a mulher que expõe seu desejo sexual age “como um homem” e com isso os feminiza?

Os artistas da virada do século já previam a sorte dessas novas-ricas da conquista amorosa. Ana Karênina2 pagou por sua ousadia debaixo das rodas de um trem, como “a mais desgraçada das mulheres”, enlouquecida ao descobrir que o. amor não é meio de vida., o amor não garante nada – o casamento, sim. Emma Bovary3 queimou as entranhas com arsênico por não ter sido capaz de tomar a aventura amorosa do mesmo modo que seu amante Rodolfo – apenas como uma aventura. Na virada do século XX, já não havia Werther que destruísse sua vida pela utopia do amor de uma mulher. O amor da mulher foi deixando de ser utopia para se tornar fato corriqueiro: são as grandes amorosas que se matam, então ao descobrir que seu dom mais precioso perde parte do valor, justamente na medida em que é dado.

O destino da Nora, de Ibsen,4 nos parece mais promissor, porque a peça termina quando tudo ainda está por começar. Ela abandona a “casa de bonecas” ao descobrir que sua alienação (termo que Ibsen nunca usou) era condição de felicidade conjugal. Depois de entender que no código do marido o amor mais apaixonado só iria até onde fossem as conveniências, Nora recusa o retorno à condição feminina-infantil de seu tempo e sai em busca de… mas aqui cai o pano e agora, mais de um século depois, fazemos o balanço do que ela encontrou. Independência econômica, algum poder, cultura e possibilidades de sublimação impensáveis para a mulher restrita ao espaço doméstico. Também a possibilidade da escolha sexual, e uma segunda (e a terceira e a quarta…) chance de um casamento feliz. E a possibilidade de conhecer vários homens, e compará-los. De ser parceira do homem, reduzindo a distância entre os sexos até o limite da mínima diferença. Mas teria Nora, melhor que as contemporâneas literárias, conquistado alguma garantia de corresponder  às paixões masculinas sem “se desgraçar”?

No Brasil, onde historicamente todas as diferenças são menos acentuadas, a história de amor mais marcante já neste século é a história de um engano. É por engano que o jagunço Riobaldo5 se apaixona por seu companheiro Diadorim, ou Maria Deodorina, que acaba perdendo a vida em conseqüência de sua mascarada viril. É por engano – ou não é ? – que Diadorim desperta a paixão de um homem, travestida de homem, por sua feminilidade diabólica que se insinua e se inscreve justo onde deveriam estar os traços mais fortes de sua masculinidade – a audácia, a coragem física, o silêncio taciturno. Como se Guimarães Rosa tivesse dado a entender, lacanianamente: se uma mulher quer ser homem, isso não faz a menor diferença, desde que continue sendo uma mulher. Ou mais: se uma mulher quer ser homem e se esconde nisso, daí sim é que ela é mesmo uma mulher.

O fato é que não se trata só de esconder ou disfarçar, como no caso de Diadorim. O avanço das Noras do século XX sobre espaços tradicionalmente masculinos, as novas identificações (mesmo que de traços secundários) feitas pelas mulheres em relação a atributos que até então caracterizavam os homens, não são meros disfarces: são aquisições que tornaram a(s) identidade (s) feminina(s) mais rica(s) e mais complexa(s).  O que teve, é claro, seu preço em intolerância e desentendimento – de parte a parte. Aqui tomo emprestado um conceito que Freud empregou no “Mal-Estar…”,6 sem ter se estendido mais sobre ele. Nesse texto Freud cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças” tentando, explicar as grandes intolerâncias étnicas, raciais e nacionais – sobretudo a que pesava sobre os judeus na Europa. É quando a diferença é pequena, e não quando é acentuada, que o outro se torna alvo de intolerância. É quando territórios que deveriam estar bem apartados se tornam próximos demais, quando as insígnias da diferença começam a desfocar, que a intolerância é convocada a restabelecer uma discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam muito ameaçadas.

No caso das pequenas diferenças entre homens e mulheres, parecem ser os homens os mais afetados pela recente interpenetração de territórios – e não só porque isso implica possíveis perdas de poder, como argumentaria um feminismo mais belicoso, e sim porque coloca a própria identidade masculina em questão. Sabemos que a mulher encara a conquista de atributos “masculinos” como direito seu, reapropriação de algo que de fato lhe pertence e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma mulher é impossível se roubar a feminilidade: se a feminilidade é máscara sobre um vazio, todo atributo fálico virá sempre incrementar essa função. Já para o homem toda feminização é sentida como perda – ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. Ao homem, interessa manter a mulher à distância, tentando garantir que este “a mais” inscrito em seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade.

A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos masculinos e femininos são para o homem mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata, quando um homem se vê diante da pretensão feminina de ser também homem, sem deixar de ser mulher. Bruxas, feiticeiras, possuídas do demônio, assim se designavam na antiguidade essas aberrações do mundo feminino que levavam a mascarada da sua feminilidade até um limite intolerável. Só a morte, a fogueira ou a guilhotina seriam capazes de põe fim à onipotência dessas que já nasceram “sem nada a perder”.

E quem duvida de que Ana Karênina, Emma Bovary, Nora, Deodorina tenham se tornado aquilo que se costuma chamar de “mulheres de verdade” a partir do momento em que abandonaram seus postos na conquista deste a mais que, tão logo conquistado, parece lhes cair como uma luva? Mas quem duvida também de que o preço dessas conquistas continue sendo altíssimo? Quando não a morte do corpo (pois não é no corpo que se situa o tal a mais da mulher!), a morte de um reconhecimento por parte do outro, na falta do que a mulher cai num vazio intolerável. Pois se a mulher se faz também homem, é ainda por amor que ela o faz – para ser ainda mais digna do amor.

Quando o amor e o desejo da mulher se libertam de seu aprisionamento narcísico e repressivo para corresponder aos do homem, parece que alguma coisa se esvazia no próprio ser da mulher. Os suicídios de Ana e Emma são nesse caso, exemplares. Teriam suas vidas perdido o sentido depois que elas se entregaram sem restrições ao conde Vronsky, ou a Rodolphe Boulanger? Não; diria que a perda de sentido se dá nelas próprias. Ao desejarem e amarem tanto quanto foram amadas e desejadas, elas deixaram de fazer sentido como mulheres – primeiro para os amantes, depois para si mesmas.

Na defesa do narcisismo das pequenas diferenças, é do reconhecimento amoroso que o homem ainda pode privar a mulher, esta que parece não se privar de mais nada, não se deter mais no gozo de suas recentes conquistas. Mas não se imagine que o homem o faz (apenas) por cálculo vingativo. É que ele já não consegue reconhecer esta mulher tão parecida consigo mesmo, na qual também odiaria ter que se reconhecer.

Vale ainda dizer que não é só da falta de reconhecimento masculino que tratam o abandono e a solidão da mulher. Já nos primórdios dessa movimentação toda, Melanie Klein e Joan Rivière escreviam que, muito mais do que a vingança masculina, o que uma mulher teme em represália por suas conquistas é o ódio de outra mulher, aquela a quem se tentou suplantar, etc., etc. Ódio que frequentemente se confirma “no real”, para além das fantasias persecutórias.

E aqui abandono o campo minado das “novas sexualidades” sem nada além de hipóteses e questões a respeito do nosso mal-estar, antes que esse texto se torne paranóico; mas como não ser paranóico um texto escrito por mulher, sobre a ambiguidade, os impasses e as pretensões da sexualidade feminina?

* Texto escrito originalmente em 1992, e recuperado pela autora especialmente para o especial “Dia da mulher, dia da luta feminista“, no Blog da Boitempo.

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NOTAS

1 Publicado em Daniela Roppa, org., Anuário de Psicanálise 1992/93. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.
2 Leon Tolstoi, Ana Karênina (1873-77). São Paulo: Ed. Abril, 1979. Tradução de João Gaspar Simões.
3 Gustave Flaubert, Madame Bovary (1853-56). Paris: Garnier Flammarion, 1966.
4 Henrik Ibsen, Casa de Bonecas (1879). Mairiporã (SP): Veredas, 1990.
5 João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (1956). Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
6 Sigmund Freud, “El Malestar em la Cultura”, in: Obras Completas. Madri: Biblioteca Nueva, 1976.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam O tempo e o cão: a atualidade das depressões (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010, e 18 crônicas e mais algumas (Boitempo, 2011). Colabora esporadicamente para o Blog da Boitempo esporadicamente.

O ódio aos russos do fascismo ucraniano

miguel urbano rt1[A jornalista russa Olga Skobeeva sendo silenciada por um segurança ucraniano após dirigir uma pergunta ao presidente ucraniano Petro Poroshenko que saía de longa reunião do Quarteto da Normandia em Minsk no dia 12.02.2015.]

Por Miguel Urbano Rodrigues.

A mídia portuguesa dita de referência continua apresentando um panorama deformado da crise ucraniana.

Para os comentaristas da TV e dos grandes jornais o governo fascizante de Kiev é democrático. Acusam a Rússia de uma política agressiva e anexionista e apoiam a ajuda financeira da União Europeia e dos Estados Unidos à Ucrânia.

A comunicação social portuguesa inspira se, aliás, na campanha de desinformação internacional que difunde pelo mundo uma falsa da realidade ucraniana.

Diariamente o Canal Russia Today nos seus programas em inglês e espanhol transmite imagens, notícias e entrevistas que revelam uma realidade totalmente diferente da forjada pela propaganda da mídia ocidental.

Nessas reportagens, bem documentadas, transparece com nitidez o ódio – a palavra é essa mesma – do fascismo ucraniano à Rússia.

Dos muitos casos relatados pelo referido canal selecionei alguns que iluminam bem a atitude das autoridades de Kiev perante os jornalistas russos que cobrem acontecimentos na Ucrânia.

– Em Minsk durante a cimeira que reuniu Merkel, Hollande, Putin e Poroshenko, a jornalista Olga Skobeeva, do Canal Rússia 24, quando aproximou o microfone do Presidente da Ucrânia foi brutalmente agredida por um segurança de Poroshenko que lhe colocou um braço no pescoço e lhe tapou a boca impedindo-a de falar.

– Dois jornalistas que cobriam acontecimentos em território ucraniano foram detidos pelos Serviços de Segurança e ameaçados de serem processados por “atividades informativas subversivas” contra a Ucrânia por incumbência da Rússia.

– O mesmo Serviço advertiu que qualquer cidadão que colabore com jornalistas russos incorre em responsabilidade penal.

– Uma jornalista do Canal russo NTV ficou detida uma noite no aeroporto de Kiev, privada de passaporte, depois de lhe negarem entrada no país.

– Dois jornalistas russos que filmavam uma manifestação da extrema-direita em Kiev foram presos e deportados.

– Zaur Sheozh, repórter da sucursal em Moscovo da Al Jazira, do Qatar, foi preso quando prentendia cobrir o primeiro aniversário de Maidan e o cessar-fogo assinado em Minsk. Interrogado durante quatro horas, foi depois deportado.

– Eelisaveta Jramtsova, correspondente da Life News, e a sua ajudante foram detidos quando tomavam um táxi para ir entrevistar um especialista de questões ligadas à agricultura. Dois homens entraram no táxi, identificaram-se como agentes do Serviço de Segurança e informaram que pretendiam interrogá -los sobre um possível atentado numa praça da cidade. Conduzidas a um lugar desconhecido,  foram deportadas e proibidas de voltar à Ucrânia durante cinco anos.

A HISTERIA ANTI-RUSSA

O Serviço de Segurança elaborou uma lista negra dos meios de comunicação da Rússia. Todos, com exceção do canal de TV Dozhd, oposicionista, foram proibidos de trabalhar na Ucrânia. Simultaneamente suspendeu as credencias dos representantes de 100 representantes da mídia russa.

A decisão foi tao absurda que a União Europeia e a OSCE decidiram protestar, por envolver um ataque inadmissível à liberdade de expressão.

O Clube de Jornalistas do México também enviou um protesto ao governo de Kiev pelas medidas que impedem os jornalistas russos de trabalhar na Ucrânia.

O governo de Putin, através do Vice-ministro das Relações Exteriores, Vassili Nebenzia, sentiu a necessidade de condenar com veemência a atitude assumida pelo parlamento ucraniano ao aprovar no dia 26 de Fevereiro a decisão do Serviço de Segurança que impede na pratica os media russos de trabalhar no país.

O assassinato en Moscovo, no dia 28 de Fevereiro, de Boris Nemtsov, ex vice-primeiro ministro de Ieltsin e líder da oposição, contribuirá certamente para a intensificação da campanha ocidental contra a Rússia e Putin no momento em que a popularidade do presidente russo atinge o auge pela sua firmeza no diálogo com a União Europeia e os EUA a propósito da crise ucraniana. Observadores ocidentais admitem que o crime tenha sido ideado por forças políticas da oposição empenhadas em destabilizar a Rússia.

***

Miguel Urbano Rodrigues é um jornalista e historiador português. Nascido em Moura, em 1925, passou 20 anos exilado no Brasil entre as décadas de 50 e 70. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

A desilusão: a hera na lapela

15 02 27 mauro iasi a desilusão 1Por Mauro Luis Iasi. 

“Toco el diamante,
y lo volvió al carbón,
y al atorrante lo sembró
en la administración”
– 
Silvio Rodriguez, “La desilusión

Gosto da palavra desilusão. É como fazer o caminho inverso da ilusão, como deixar de se iludir, ou como dizia Alfredo Moffat, desesperar, deixar de esperar. Lenin considerava uma das condições objetivas de uma situação revolucionária quando nos alertava que não bastaria o agravamento extremo da miséria das massas, mas era necessário que a isso se juntasse uma “angustia”, expressando que os trabalhadores não mais acreditariam que suas demandas podiam ser satisfeitas pelos caminhos instituídos numa determinada ordem.

No entanto, sabemos, a desilusão não é necessariamente o caminho para alternativas revolucionárias. No momento em que as ilusões vendidas naufragam no mar agitado da história e na dinâmica concreta da luta de classes, a desilusão funciona como fermento para todo tipo de niilismo, de paralisia, de impotência, condição para que a classe trabalhadora volte a mergulhar na consciência reificada e nas malhas tão eficientes da ideologia, virando presa de alternativas conservadoras.

James Joyce em um de seus belos contos dublinenses, nos descreve a cena de alguns trabalhadores à frente de uma lareira no final de um dia de eleição esperando para receber o dinheiro que lhe prometeram pelo trabalho na captura do voto. Como chovia e fazia frio, eles contornaram a tarefa remunerada para se refugiar no calor da lareira. Traziam na lapela uma folha de hera que lembrava o dia da morte de Charles Steward Parnell (1846-1891), político nacionalista que tivera um papel importante na causa irlandesa no Parlamento. O aniversário de sua morte e a hera na lapela representavam a persistência da luta necessária.

Ocorre que vários deles ali coletavam votos para políticos muito pouco nacionalistas e que sabiam claramente que não os representava, como fica claro numa fala de um deles. Diz o personagem defendendo um candidato operário que havia sido acusado de ser um pobretão:

“Só porque é operário você diz isso? Que diferença existe entre um pedreiro honesto e um negociante, hein? Por acaso um operário não tem direito de pertencer ao Conselho Municipal como qualquer pessoa? Muito mais direito até que esses parasitas que estão sempre de chapéu na mão diante de qualquer aristocrata”.

E completa:

“ele é um homem honesto, livre de qualquer suspeita, vai representar a classe operária. Esse para quem vocês trabalham quer apenas arranjar um bom emprego”.
(“A hera na lapela”, em Dublinenses)

Quando, num determinado momento histórico, uma força política que logrou representatividade e legitimidade diante da classe trabalhadora para representá-la desvia de seu rumo e sofre as auguras do transformismo, ele não perde de imediato a referencia dos trabalhadores, mas estes sabem que há algo errado.

O comandante Ernesto Che Guevara, em um texto em que aborda os problemas do sectarismo, avalia que o principal e mais preocupante efeito dos desvios sectários é a separação entre a vanguarda e as massas. Quando ocorre um desvio, uma quebra dos princípios de uma moral revolucionária (no caso o comandante fala do uso indiscriminado da violência, dos fuzilamentos e perseguições muitas vezes movidos por oportunismos pessoais), por mais que tentemos escondê-lo sob as justificativas de um discurso, por mais que os trabalhadores pareçam aceitar naquele momento, quando, nas suas palavras “nós não sabemos ou não queremos saber das coisas”, é importante destacar que os trabalhadores sabem, sempre sabem.

A consciência de classe é produto de uma fusão que resulta em uma identidade coletiva. É muito mais que uma representação por mandato, é um novo pertencimento no qual um nós se impõe à fragmentação individualista de maneira que os atos de uma vanguarda política são nossos atos, sua fala é nossa fala, seus objetivos são os nossos. Se por qualquer motivo a consciência imediata dos trabalhadores percebe que “eles” agem por seus próprios objetivos e que estes cada vez mais não são os nossos, se produz uma trinca nesta identidade, uma suspeita, e o diamante da consciência se converte uma vez mais em carvão, a consciência conquistada em nova serialidade alienante.

O problema é que na superfície do fenômeno tudo segue aparentemente como estava antes. Os símbolos na lapela, os votos na urna… mas algo se rompeu. Os trabalhadores sabem.

O contra-revolucionário, continua Che, não é apenas o que luta contra as transformações, mas também “aquele senhor que valendo-se de sua influência, consegue uma casa, consegue depois dois carros […] obtém tudo que o povo não tem”, e conclui: “contra-revolucionário é todo aquele que contraria a moral revolucionária”. Não seria um desvio moralista de nosso querido comandante? Cremos que não. Há uma moral revolucionária e quando ela se quebra, algo de muito importante de perde, sem o qual nenhum processo político que se queira emancipatório é possível.

A base dos valores morais são as relações que constituem a produção material da vida. O próprio Che alerta aos que o escutam que eles são muito importantes nas tarefas de defesa (falava aos membros dos Comitês de Defesa da Revolução), mas “menos importantes que o desenvolvimento da economia”. É mais importante ter inhame suficiente do que CDRs, ironiza o dirigente cubano. É verdade, mas as relações humanas, ainda que tenham no ato de produção da vida um momento essencial (Lukács diria ontológico), são amarradas por mediações que se tornam tão essenciais à vida como o alimento e os instrumentos de trabalho sem os quais não vivemos: a linguagem, a arte, os valores que orientam nossa ação.

O problema do moralismo é que ele fragmenta esta unidade do ser social. Acredita que os desvios morais produzem os desvios materiais e, portanto, podem ser corrigidos com pregações moralistas, com atribuição e expiação de culpas. Esta é uma maneira de individualizar e personalizar os desvios. Mas mais que isso, é funcional, pois uma vez personalizado e isolado de suas determinações pode-se estripa-los sem maiores consequências.

O sectarismo, os desvios de conduta, as práticas deploráveis que afastam as formas políticas da classe de onde nasceram são expressão das contradições de uma alternativa revolucionária agindo dentro da ordem jurídica e política instituída que, por sua vez, tem por base, as relações econômicas que constituem uma determinada sociabilidade, mais precisamente de uma alternativa que se rendeu ao pântano do pragmatismo. Mas esta é uma contradição inevitável, uma vez que toda alternativa transformadora deve por princípio atuar na ordem existente para revolucioná-la. É neste ponto que o aspecto ético se torna importante. Não podemos evitar o fato de que temos que atuar num contexto material existente, mas é sempre bom lembrar os objetivos, as metas, os valores que constituem a base da consciência de uma classe que quer e precisa ir além das fronteiras do existente. E nesta dimensão os valores são essenciais.

Os tempos são propícios a transformismos e a ordem se prepara para recompensar os que se rendem. Neste momento, no qual as ilusões fazem água, no qual a desilusão abre seus braços gelados para receber os que se iludiram, precisamos ter muito cuidado. Um amigo latinoamericano (e nesses momentos amigos são coisa muito importante) que trabalha significativamente com mosaicos, transformando os cacos fragmentados em arte e memória, me lembrou de poema de Benedetti. Não sei como evitar a desilusão, nem, como evitar que nossa classe embarque em alternativas conservadoras, mas se você estiver se sentindo sozinho e passar pela cabeça que não há o que fazer a não ser se render a esta ordem de merda… bom, vai aí o apelo poético de nosso camarada Mario Benedetti. Espero que ajude:

Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos
Soltar o lastro,
Retomar o vôo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,
Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo

(Mario Benedetti)

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Não deve haver limites para o homem…

15 02 26 Izaías Almada Limites[Paulo Roberto Costa, novo herói brasileiro, e Eddie Redmayne no papel de Stephen Hawking em fotograma de A teoria de tudo]

Por Izaías Almada.

Tenho absoluta convicção de que os leitores, em algum momento de suas vidas, se confrontaram com a estranha sensação de se sentirem perdidos, psicologicamente desequilibrados mesmo, ao compararem fatos comezinhos completamente díspares ou mesmo paradoxais, quer da sua vida particular, da vida coletiva à sua volta ou mesmo entre tempos e épocas diferentes, consoante o conhecimento que se tem da História. Uma sensação de pesadelo ao vivo. Ou, se me faço entender, uma espécie de bipolaridade na velocidade da luz. Esperança e desilusão em segundos. Euforia e desanimo instantâneos.

E neste particular, a arte – em suas diversas manifestações – tem uma função importante e por vezes pedagógica quando nos aponta tais situações e nos faz refletir sobre elas. Como, por exemplo, descobrirmos que no mesmo instante em que uma jovem mãe dá à luz ao seu primeiro filho na cidade do Cabo, alguém perde a vida num desastre ferroviário no interior do México. Ou enquanto um grupo de juízes condena arbitrariamente cidadãos sem provas, um poeta escreve versos exaltando a liberdade.

No caso, nada que se assemelhe ao Efeito Borboleta ou teorias do gênero.

Há alguns dias tive uma sensação dessas. Foi durante a sessão do excepcional filme que vi (e recomendo) sobre o físico Stephen Hawking, A teoria de tudo. Um filme sobre o ser humano e não sobre fórmulas matemáticas na lousa que a maioria dos mortais não entende, porque antes dos números e dos teoremas está o homem.

Sabemos que o cinema, quando se trata de apresentar a vida de alguns seres humanos excepcionais pode se tornar redutor ou parcial na apresentação dos fatos históricos que o cercam ou, num outro extremo, exagerar na dose dos bons atributos do protagonista.

Não é o caso aqui: com um roteiro seguro na apresentação da ideia central e das peripécias que acontecem ao protagonista, A teoria de tudo é um filme encantador. Realista, mas com toques românticos e mesmo melodramáticos para os mais emotivos, a história é um belo exemplo da vontade de viver, da perseverança e do respeito entre seres humanos, sobretudo com aqueles que, sem tornar o ato de amor piegas ou o dissimulado fruto de uma crença religiosa qualquer, dedicam-se àquela das nossas virtudes mais esquecidas: a solidariedade.

Stephen Hawking, ainda estudante na Universidade de Cambridge, onde fazia seu mestrado, recebeu o diagnóstico de ser portador de esclerose lateral amiotrófica, doença incurável e responsável pela paralisia progressiva dos músculos do movimento e não só, podendo levar à morte em curto espaço temporal. Hawking, a quem o diagnóstico médico deu dois anos de vida quando estava com vinte e poucos anos de idade, vive até hoje. A biografia de Hawking pode ser fartamente encontrada na internet ou em livros.

O que importa aqui é chamar a atenção para uma singularidade, ou duas, se quiserem: o livro, escrito por sua primeira mulher, Jane Hawking, com carinho, mas sem concessões aos altos e baixos de uma personalidade acostumada a orgulhar-se de sua inteligência; e a fulgurante interpretação do ator Eddie Redmayne, merecidamente ganhador do Oscar de interpretação, numa das mais brilhantes atuações que vi nos últimos anos. Não só pela progressiva e bem cuidada construção física da doença, mas – sobretudo – pelas expressões faciais, dos olhos em particular, do ligeiro tremor dos lábios, que demonstram em fração de segundos a tristeza, a alegria, a dor, o amor, esses sentimentos que um close-up pode engrandecer ou mostrar a falta de talento de atores e atrizes.

Pois bem: em algumas dessas cenas passei pela tal bipolaridade na velocidade da luz, quando me perguntava: como é possível, por exemplo, existirem seres humanos com as qualidades de Stephen Hawking ou um atrasado mental como Paulo Roberto Costa? Qual é a química que forma neurônios em busca do avanço da ciência e da felicidade do homem e aquela que induz mentecaptos a dilapidarem o patrimônio público de um país em proveito próprio? Ingenuidade do autor nos tempos que correm? Disparate?

Pior ainda: qual a razão política, cultural, psicológica, sociológica – seja ela qual for para aqui chamada – que submete um país como o Brasil contemporâneo a um tratamento de choque moralista, anticorrupção, protofascista, justamente por parte daqueles que a praticam vinte quatro horas por dia?

Ou como alguns juízes da mais alta corte de justiça do país, atropelando elementares fundamentos do direito e escondendo provas desencriminadoras, se põem a alardear, antes da sentença final, que determinado partido político promoveu a maior corrupção da história brasileira até que se desmente, um ano depois, com o surgimento de uma lista de clientes de poderoso banco internacional na Suíça que arrola mais de cinco mil brasileiros sonegadores de impostos ao enviaram qualquer coisa ao redor de sete bilhões de dólares para o exterior. Alguma dúvida que entre esses honestos e íntegros brasileiros estejam alguns donos de jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão no Brasil?

Que mundo é esse cada vez mais injusto e desigual? Qual a origem disso tudo? Onde começou? Onde irá terminar? Questões que nos afetam (ou não) de maneiras e intensidades diferentes é verdade, mas que estão nas mentes dos cientistas mais brilhantes e do mais comum dos cidadãos.

Tem razão boa parte da classe média brasileira e seus arautos da mediocridade e da subserviência: o Brasil é um país de merda, mas não necessariamente pelos problemas que apontam. É um país de merda por ter a elite que tem, é um país de merda por sua secular subserviência a culturas exógenas, por ter parte das suas universidades ainda arraigada a um colonialismo cultural, por não lutar com maior vigor para diminuir a injustiça social, por continuar a fazer da política um cabide de empregos e negócios, por ainda ter vergonha da senzala enquanto mendiga favores aos donos da Casa Grande ao norte e ao sul do Equador. Por ter uma esquerda desorientada e inerte para travar o combate político. E, sobretudo, nos dias que correm, por ter uma mídia nefasta ao país, criminosa e entreguista.

A frase que dá título a esse artigo resume um dos conceitos de Hawking sobre a ciência e penso que a história da humanidade corrobora tal pensamento. O que o professor inglês não tinha em mente é que os gigolôs das grandes conquistas do homem têm o mesmo entendimento, mas num viés diferente e totalmente oposto: não têm limites nem escrúpulos para justificar os seus atos.

E para continuarmos apenas no atual momento da conjuntura brasileira, que tal se nos fosse dado saber os nomes da já famosa lista de sonegadores do HSBC suíço? O suiçalão? Desses brasileiros acima de qualquer suspeita, de caráter ilibado? Talvez muitos cidadãos começassem a perceber como compram gato por lebre quando se emprenham pelos ouvidos ou pelos olhos com a nossa imprensa, cuja ética e o profissionalismo já não cabem nos contornos de seus próprios vasos sanitários.

A teoria de tudo: um filme, algumas reflexões e uma enorme vontade de vomitar.

E viva a democracia da delação premiada! Da justiça feita em tribunais penitenciários que acobertam juízes, delegados e políticos como uma espécie de membros de um PCC de gravatas borboletas. Dos sonegadores em pele de cordeiro! Da liberdade de imprensa em causa própria! De deboche ao cidadão brasileiro.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Ódio sem fim ao PT

15 02 25 lincoln secco odio sem fio ao ptPor Lincoln Secco e Ciro Seiji.

Manchete da Folha de São Paulo no dia 12 de fevereiro de 2015: “Doleiro Afirma que José Dirceu Sabia de Repasses de Desvios da Petrobrás ao PT”. Nenhum acusado por um criminoso sob delação premiada mereceria uma primeira página. Exceto se ele for do PT.

José Dirceu foi condenado e já cumpriu parte de sua pena. Aguarda sua liberdade plena para pedir a revisão criminal de seu julgamento e, eventualmente, apelar a tribunais internacionais. A sua condenação não teve sustentação nos autos, como juristas de diferentes posicionamentos ideológicos declararam.

Obviamente que Dirceu cometeu erros políticos que deveriam, em outras circunstâncias, ser julgados pelo seu partido. Foi ele quem escolheu o caminho de um partido social democrata de massas com alianças amplas para chegar ao poder.

O PT entrou no governo pedindo licença – não precisava. Vinha sustentado pelas ruas, com a identidade dos militantes dos sindicatos, dos movimentos populares e da esquerda. Mas introjetou a ideia de que tinha ganho a partir de uma artimanha publicitária, a Carta ao Povo Brasileiro. Tanto que ao primeiro sinal de golpe em 2005, Lula colocou o boné do MST e quer repetir a dose hoje com o MTST. Mas agora a nova geração de lutadores sociais não levará borrachada por ele.

NEOPETISMO

Os dirigentes neopetistas1 até poderiam ter rifado Dirceu e Genoíno para salvar a própria pele, mas não deveriam ter abandonado o partido às hienas míopes para que a sua rebeldia, história e prontidão fossem transformadas em moranguinhos2 e burocratas da estrutura do Estado.

Depois, o PT conseguiu a proeza de escolher os juízes que colocaram na cadeia dois de seus ex-presidentes: Dirceu e Genoíno. Eles pagaram pela ideologia do republicanismo periférico: aquele que considera neutras instituições forjadas pela classe dominante apenas para seu uso egoísta.

Mas José Dirceu também foi condenado pelo seu “sucesso” político. Arquiteto da chegada do PT ao poder e oriundo da luta armada, os de cima não o perdoariam jamais.

A causa disso é aquilo que Florestan Fernandes denominava a resistência sociopática da burguesia periférica a qualquer mudancismo social. A insistência na fabricação de escândalos como arma política e a tentação recorrente de derrubar o PT de um governo para o qual foi eleito legitimamente demonstram que nem mesmo as mudanças ordeiras produzidas pelo neopetismo foram assimiladas.

A perseguição atinge até mesmo executivos de empresas no exercício de seu “sagrado” direito de financiar todos os partidos em troca de favores públicos. Inconformados em suas celas, perguntam-se: “O que fizemos de errado?”. A resposta é uma só: juntaram-se ao PT. O objetivo da maioria do poder judiciário é secar as fontes de financiamento do partido infligindo o pânico nos doadores de campanha.

CAOS

No entanto, há um preço a se pagar. O PT foi a última chance da burguesia legitimar sua “dominação democrática”. A derrocada “ética” do PT e seu afastamento de práticas socialistas não ensejaram novas formas permanentes de luta na esquerda. Junho ainda não decantou e as derrotas populares de 2014 o comprovaram. O neopetismo, mistura de covardia republicana e repressão aos novíssimos movimentos sociais colaborou com aquelas derrotas.

O PT seguiu o caminho da água, o mais fácil, porque os neopetistas não são leões famintos, mas lobos domesticados de estômago elástico. Mesmo assim insultou com a sua mera presença na festa das figuras medíocres da política nacional, da elite sem berço que vê o Brasil como uma criança branca que volta de Miami carregada de brinquedos de plástico.

O único que eles temiam, e temiam porque já teve um revolver na mão, era Dirceu. Era preciso, portanto, reduzir a pedaços os seus nervos e a sua vontade. Mas não conseguiram porque o ódio não tem data de validade.

O destino de José Dirceu é um símbolo do futuro de seu partido. À sua direita o seu próprio governo; à sua esquerda, os reclamos de sua militância desorganizada, sem núcleos e perdida nas ruas desde junho. Dali ecoam cada vez menos discretamente os sons da insurreição.

Na encruzilhada, o PT hesita entre a debandada e outra revolta dos bagrinhos3. Só que os bagrinhos de hoje estão nas ruas, ocupações, na educação popular, nos mesmos lugares em que apanham sob o olhar cúmplice de dirigentes que se calam para proteger seus glúteos recostados em cadeiras irresistíveis.

NOTAS

1 O neopetismo não diz respeito a pessoas que adentraram recentemente no partido. O PT mais que dobrou de tamanho nos primeiros 3 anos de governo Lula, mas muitos jovens aderiram não apenas por oportunidade de carreira, e sim porque a imagem do PT continua incomodando as elites das classes dominantes. Por outro lado, muitos dirigentes neopetistas são antigos membros do partido que aderiram ao nepotismo, ao conservantismo e apoiam a repressão policial e judiciária de manifestantes.

2 Primeira leva em massa de militantes pagos pelo PT em São Paulo.

Alusão à imagem de revolta interna da base petista nos anos 1980.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, e um dos autores do livro de intervenção da Boitempo inspirado em Junho Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

“Eu sou estúpido e maldoso” | Žižek esclarece sua posição sobre o “Je suis Charlie”

Zizek esclarece hebdoPor Slavoj Žižek.

No rescaldo dos atentados de Paris, o filósofo esloveno Slavoj Žižek escreveu, no calor da hora, um artigo de intervenção no debate sobre o Charlie Hebdo. Rejeitando o diagnóstico de um impasse civilizacional entre ocidente e oriente, ele insistia que o fenômeno tinha de ser analisado a partir de um mesmo chão comum e recuperava a tese frankfurtiana de que o fascismo fundamentalista seria uma resposta – ainda que falsa e mistificadora – a uma fratura real no paradigma liberal. Republicado na Folha de S.Paulo, o texto teve uma repercussão em larga medida pautada pelo contraponto encomendado a João Pereira Coutinho e, como apontou Christian Dunker em sua intervenção no debate, por uma estigmatização da posição de esquerda que acabou por não registrar o essencial da contribuição de Žižek. 

Neste novo artigo enviado pelo autor ao Blog da Boitempo, Žižek esmiúça sua posição mais a fundo, repassando (agora não mais no calor da hora) os principais atores e elementos envolvidos no fenômeno, mapeando os mecanismos ideológicos em jogo nas suas interpretações. Para ele, os ataques terroristas conseguiram o impossível: reconciliar a geração de 1968 com seu arqui-inimigo. O filósofo enfrenta ainda a difícil questão dos limites do humor e do “politicamente incorreto”, e mostra como é justamente neste debate que aparece a zona cinzenta que funda os impasses da modernidade capitalista. Para ele não devemos condenar o humor do Charlie Hebdo por ter ido longe demais, muito pelo contrário, “o problema é que ele se encaixava perfeitamente no funcionamento cínico hegemônico da ideologia em nossas sociedades. Ele não representava ameaça alguma àqueles no poder; ele meramente tornava seu exercício do poder mais tolerável.”

Contra as acusações de estar pregando o retorno a um novo fundamentalismo no ocidente, Žižek insiste enfim que “alegar que o anti-semitismo articula, de forma deslocada, uma resistência ao capitalismo de forma alguma o justifica” e que procurar compreender o mal, de forma alguma significa relativizar ele, nem “transformar opressor em vítima”, e conclui com a triste constatação de que é preciso abandonar a ideia de que há algo de emancipatório em experiências extremas, que o terror não nos permite abrir os olhos à radical verdade da situação. A tradução é de Artur Renzo, confira:

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O OBSCENO DA IDENTIFICAÇÃO

A patética formula de identificação “Eu sou …” (ou “Somos todos …”) só funciona no interior de certos limites, para além dos quais converte-se em pura obscenidade. Podemos até proclamar “Je suis Charlie”, mas as coisas já começam a ruir com exemplos como “Somos todos de Sarajevo!” ou “Estamos todos em Gaza!”. O fato brutal de que não estamos de forma alguma em Sarajevo nem em Gaza é forte demais para ser compensado por uma patética identificação dessas. E a identificação se torna plenamente obscena no caso dos Muselmänner (o termo alemão para “muçulmanos”, usado para descrever os prisioneiros mais miseráveis e brutalizados de Auschwitz). É completamente inconcebível dizer: “Somos todos Muselmäner!” Em Auschwitz, a desumanização das vítimas foi tão longe que se identificar com elas em qualquer forma significativa é impossível. (E na direção oposta, seria também ridículo declarar solidariedade com as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 alegando que “Somos todos Nova Iorquinos!” Milhões diriam: “Sim, adoraríamos ser Nova Iorquinos, nos dê um visto norte-americano então!”)

O mesmo vale para os assassinatos do mês passado: era relativamente fácil se identificar com os jornalistas do Charlie Hebdo, mas teria sido muito mais difícil anunciar: “Somos todos Baga!” Para quem não ficou sabendo: Baga é uma pequena cidadezinha no nordeste da Nigéria onde Boko Haram executou duas mil pessoas. O nome “Boko Haram” pode ser traduzido meio ao pé da letra como “Educação ocidental é proibida” (mais especialmente educação das mulheres). Como dar conta do estranho fato da existência de um movimento sociopolítico maciço cuja principal pauta programática é a regulação hierárquica da relação entre os sexos? O enigma é o seguinte: por que é que esses muçulmanos, que estão sem dúvida expostos à exploração, dominação e outros aspectos destrutivos e humilhantes do colonialismo, miram sua reação na melhor parte (para nós, ao menos) do legado ocidental, nosso igualitarismo e nossas liberdades pessoais, incluindo a liberdade de tirar sarro de todas autoridades? A resposta óbvia é que seu alvo na verdade é muito bem escolhido: o oeste liberal é tão insuportável porque ele não só pratica a exploração e a violenta dominação, como ainda por cima apresenta essa realidade brutal à guisa de seu oposto: liberdade, igualdade e democracia.

ESPETÁCULO DE HIPOCRISIA

Mas voltemos ao espetáculo dos grande nomes políticos do mundo tudo de mãos dadas em solidariedade às vitimas das chacinas de Paris, de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas: se alguma vez houve imagem de falsidade hipócrita, foi essa. Quando a procissão passava sob a janela de um cidadão anônimo, ele colocou pra tocar num alto falante a “Ode à alegria” de Beethoven, o hino não-oficial da União Europeia, acrescentando um tom de kitsch político ao repugnante espetáculo encenado pelos maiores responsáveis pela bagunça em que estamos hoje. E o que dizer do Ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov se juntando à fila de dignitários se manifestando diante da morte de jornalistas? Se ele se atrevesse a participar de uma tal marcha em Moscou (onde dezenas de jornalistas foram assassinados) ele seria imediatamente reprimido! E que tal a obscenidade do Netanyahu se espremendo para aparecer na frente da manifestação, enquanto que em Israel a mera menção pública a al-Nakbah (a “catástrofe” de 1948 para os palestinos) é proibida? Cadê a tolerância para com a dor e o sofrimento do outro?

E o espetáculo foi literalmente encenado: as fotos expostas na mídia davam a impressão de que a linha de líderes políticos estava na frente de uma grande multidão que marchava pela avenida – dando assim a impressão de uma suposta solidariedade e união com o povo… Só que outra foto foi tirada mais de longe pegando a cena toda e mostrou claramente que atrás dos políticos só havia cento e poucas pessoas e muito espaço vazio, patrulhado de todos os lados pela polícia. O verdadeiro gesto digno do Charlie Hebdo seria ter publicado na sua capa uma caricatura grande e de brutal mal gosto tirando sarro desse episódio todo.

Embora eu seja um ateu resoluto, acredito que essa obscenidade foi demais até para Deus, que se viu obrigado a intervir com uma obscenidade divina digna do espírito do Charlie Hebdo: enquanto o presidente François Hollande abraçava Patrick Pelloux, o médico e colunista do Charlie Hebdo, na frente do escritório do semanário, um passarinho cagou no ombro do presidente francês! Os funcionários do jornal, ao fundo, se esforçavam para segurar o riso… Relembre, nesse contexto, a imagem cristã da uma pomba pousando para entregar uma mensagem divina… além disso, em alguns países, quando um pombo caga na sua cabeça, é sinal de boa sorte!

SOMOS TODOS POLICIAIS

Há ainda um elemento dos recentes acontecimentos na França que parece ter passado desapercebido: além dos cartazes e das faixas dizendo “Je suis Charlie” havia outras que diziam “Je suis Flic” [Eu sou policial]. A grande unidade nacional celebrada e encenada em grandes mobilizações populares não era apenas a unidade das pessoas, atravessando grupos étnicos, classes sociais e religiões, mas também a unificação das pessoas às forças de controle e ordem.

Até então, a França era o único país no ocidente em que (até onde sei) os policiais eram um constante foco de piadas brutais os retratando como burros e corruptos (como era comum nos países ex-comunistas). Agora, no rescaldo da chacina do Charlie Hebdo, a polícia é aplaudida e elogiada – não só a polícia mas também o CRS (um dos slogans de maio de 1968 era inclusive “CRS-SS”), o serviço secreto e todo o aparato securitário estatal. Não há lugar para Snowden ou Manning nesse novo universo. “Ressentimento contra a polícia não é mais o que era, exceto entre a juventude pobre de origens árabes ou africanas”, escreveu Jacques-Alain Miller no mês passado. “Algo sem dúvida jamais visto na história da França”.1

Em resumo, os ataques terroristas conseguiram o impossível: reconciliar a geração de 1968 com seu arqui-inimigo em algo como uma versão popular francesa do Patriot Act, com pessoas se voluntariando para serem vigiadas.

A CONTRADIÇÃO IMANENTE DO POLITICAMENTE CORRETO

Esses momentos extáticos das manifestações de Paris foram um triunfo da ideologia: eles mobilizaram as pessoas contra um inimigo cuja fascinante presença momentaneamente oblitera todos os antagonismos. Ao publico restou uma escolha deprimente: ou você está com os Flics [policiais], ou está com os terroristas. Mas como é que o humor irreverente do Charlie Hebdo se encaixa aqui nesta escolha? Para responder a esta questão temos que ter em mente a interconexão entre o Decálogo e os direitos humanos como seu obverso moderno: que o que a experiência de nossa sociedade liberal-permissiva demonstra é que os direitos humanos são no final das contas os direitos de violar os dez mandamentos.2

O direito à privacidade é um direito a cometer adultério. O direito à propriedade privada é um direito de roubar (de explorar os outros). O direito de liberdade de expressão é um direito de dar falso testemunho. O direito de portar armas é um direito de matar. O direito à liberdade de culto religioso é um direito de adorar falsos deuses. É claro, os direitos humanos não toleram diretamente a violação dos Mandamentos, mas eles mantém aberta uma zona cinzenta marginal que deve estar fora do alcance do poder (religioso ou secular). Nessa zona cinzenta, eu posso violar os mandamentos, e se o poder se debruçar sobre ela e me pegar no flagra, posso gritar: “Assalto aos meus direitos humanos básicos!” A questão é que para o poder é estruturalmente impossível traçar uma linha clara de separação para prevenir só o “uso indevido” dos direitos humanos sem infringir no seu uso adequado, isto é, o uso que não viola os mandamentos.

É nessa zona cinzenta que pertence o humor brutal do Charlie Hebdo. Lembremos como o semanário começou em 1970 como um sucessor do Hara-Kiri, um periódico banido por ter tirado sarro da morte do General de Gaulle. Depois de receberem uma carta de leitor acusando o Hara-Kiri de ser “estúpido e maldoso” (“bête et méchant”), a frase foi adotada como o slogan oficial do jornal e passou a permear a linguagem cotidiana: “Hara-Kiri: journal bête et méchant”. Essa é a zona cinzenta do Charlie Hebdo: não sátira benevolente mas sim, muito literalmente, estúpida e maldosa, de forma que seria mais apropriado que os milhares marchando em Paris proclamassem “Je suis bête et méchant” ao invés do simples e piegas “Je suis Charlie”. E de fato, as manifestações midiáticas de solidariedade em Paris foram efetivamente “bête et méchant”.

Por mais refrescante que podia ser em algumas situações, a atitude “bête et méchant” do Charlie Hebdo é condicionada pelo fato de que o riso não é por si só liberador, mas profundamente ambíguo. Lembremos daquele famigerado contraste que a imagem difundida da Grécia Antiga nos trás: entre os Espartanos solenes e aristocráticos e os Atenienses jocosos e democráticos. O que escapa a essa imagem é que os espartanos, que se orgulhavam de sua severidade, punham o riso no centro de sua ideologia e prática: eles reconheciam o riso comunal como um poder que ajudava a aumentar a glória do Estado. (Os atenienses, em contraste, legalmente restringiam tal riso brutal e excessivo como uma ameaça ao espírito do respeitável diálogo onde nenhuma humilhação do oponente deve ser permitida). O riso espartano – a zombaria brutal de um inimigo ou escravo humilhado, tirando sarro de seu medo e dor a partir de uma posição de poder – encontrou um eco nos discursos de Stalin, quando ele escarnecia do pânico e da confusão dos “traidores”, e persiste ainda hoje, no humor dos ditos “politicamente incorretos”. (Aliás, esse riso deve ser distinguido ainda de outro tipo de riso daqueles em poder, a derrisão cínica que mostra que eles próprios não levam sua ideologia a sério).

O problema com o humor do Charlie Hebdo não é que ele tenha ido longe demais em sua irreverência, mas que era um excesso inócuo que se encaixava perfeitamente no funcionamento cínico hegemônico da ideologia em nossas sociedades. Ele não representava ameaça alguma àqueles no poder; ele meramente tornava seu exercício do poder mais tolerável.

É nesse sentido que devemos abordar o delicado tema dos diferentes modos de vida. Nas sociedades liberais-seculares ocidentais, o poder do Estado protege as liberdades públicas mas intervém no espaço privado – quando há uma suspeita de abuso infantil, por exemplo. Mas como esclarece Talal Asad3, tais “intrusões no espaço doméstico, em domínios ‘privados’, não são permitidas pela Lei Islâmica, embora a conformidade no comportamento “público” pode até ser mais rigorosa. […] Para a comunidade, o que importa é a prática social do sujeito muçulmano – incluindo manifestações verbais – não seus pensamentos internos, quaisquer que possam ser.” O Al corão diz: “A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser.” Mas, nas palavras de Asad, esse “direito de pensar o que for que se quiser não […] inclui o direito de expressar suas crenças religiosas ou morais publicamente com a intenção de converter pessoas a um ‘falso comprometimento’”. É por isso que, para os muçulmanos, “é impossível permanecer em silêncio quando confrontados com a blasfêmia […] sua reação é tão acalorada pois para eles, a blasfêmia não é nem ‘liberdade de expressão’ nem o desafio representado por uma nova verdade mas algo que busca perturbar uma relação de vida”. Do ponto de vista liberal ocidental, há um problema com ambos os termos desse nem/nem: e se a liberdade de expressão passasse a incluir também atos que podem perturbar uma relação viva? E se uma “nova verdade” tiver o mesmo efeito disruptivo? Uma decodificação científica do universo não tende a perturbar uma “relação de vida” tradicional? E se uma nova consciência ética fizer com que uma relação de vida existente apareça injusta?

Se, para os muçulmanos, não é somente “impossível permanecer em silêncio diante da blasfêmia” como é também impossível permanecer inativo – e o impulso de fazer algo pode incluir aí atos violentos e assassinos – então a primeira coisa que devemos fazer é localizar essa atitude em seu contexto contemporâneo. O mesmo vale para o movimento cristão anti-aborto, que também acha “impossível permanecer em silêncio” diante das mortes de centenas de milhares de fetos todo dia, uma chacina que eles comparam ao Holocausto. É aqui que começa a tolerância: a tolerância ao que sentimos como impossível-de-suportar (“l’impossible-a-supporter”, na formulação de Lacan), e nesse ponto o “politicamente correto” da esquerda liberal se aproxima do fundamentalismo religioso com sua própria lista de “blasfêmias” diante das quais é “impossível permanecer em silêncio”: machismo, racismo e outras formas de intolerância. O que aconteceria se um jornal abertamente zombasse do Holocausto?

É fácil tirar sarro de todas as regras muçulmanas para cada detalhe da vida cotidiana (uma característica que, aliás, compartilham com o judaísmo), mas e da lista “politicamente correta” de todos aqueles jogos de “sedução” (sic.) que podem ser considerados assédio verbal, das piadas que são consideradas racistas ou machistas – ou ainda “especiestas” (que tiram sarro de outras espécies de animais que não a humana)? O que interessa ressaltar aqui é que há uma contradição imanente na posição liberal de esquerda: a posição libertária de ironia universal e zombaria, tirando sarro de todas as autoridades, espirituais e políticas (a atitude personificada no Charlie Hebdo), tende a deslizar em seu oposto, uma sensibilidade aguçada à dor e à humilhação do outro.

RESPOSTAS À ESQUERDA

É por conta dessa contradição que boa parte das reações de esquerda às chacinas de paris seguiram um deplorável padrão previsível: eles corretamente suspeitaram que algo estava profundamente errado com o espetáculo do consenso e da solidariedade liberal para com as vítimas, mas tomaram a direção errada quando se permitiram condenar as chacinas só depois de longas e enfadonhas qualificações do tipo “também somos todos culpados”. Esse medo de que ao condenar abertamente a chacina estaríamos de alguma forma alimentando a islamofobia é politicamente e eticamente errado. Não há nada de islamofobico em condenar as chacinas de paris, da mesma forma em que não há nada de anti-semita em condenar o tratamento de Israel aos palestinos.

Quanto à noção de que devemos contextualizar e “compreender” as chacinas de Paris, ela pode também ser uma completa armadilha. Talvez um dos melhores exemplos de burrice mascarada de profunda sabedoria seja o ditado: “Um inimigo é alguém cuja história você ainda não conhece”.4 Não há exemplo melhor dessa tese que Frankenstein, de Mary Shelley. Shelley faz algo que um conservador jamais teria feito. Em uma parte central de seu livro, ela permite que o monstro fale por conta própria e nos conte a história a partir de sua perspectiva. Essa escolha de Shelley expressa, em seu nível mais radical, a atitude liberal diante da liberdade de expressão: o ponto de vista de todos deve ser ouvido. Em Frankenstein, o monstro não é um terrível objeto que ninguém ousa confrontar; ele está plenamente dotado de subjetividade. Shelley mergulha na sua mente e pergunta como é ser rotulado, definido, oprimido, excomungado, e ainda fisicamente distorcido pela sociedade. O supremo opressor pode assim se apresentar como supremo oprimido. O monstruoso assassino se revela como sendo um individuo profundamente machucado e em apuros, ansiando por companhia e amor… Há, no entanto, um claro limite para esse procedimento: será que estamos dispostos a afirmar que Hitler só era um inimigo porque sua história não foi realmente ouvida? Para mim, muito pelo contrário, quanto mais conheço e “compreendo” Hitler, tanto mais imperdoável ele aparece a mim. Compreender o mal não é perdoá-lo, é ver como o mal funciona – com isso, o mal não é de forma alguma relativizado muito menos amenizado.

O que isso também significa é que, ao abordarmos o conflito Israel-Palestina, devemos nos ater a padrões frios e implacáveis: devemos incondicionalmente resistir à tentação de “compreender” o anti-semitismo arábico (quando realmente o encontramos) como uma reação “natural” à triste condição dos palestinos, ou de “compreender” as medidas de Israel como uma reação “natural” à memória do Holocausto. Não deve haver “compreensão” alguma para o fato de que em muitos países árabes Hitler seja considerado um herói, e que crianças na pré-escolas são incutidas de inúmeros mitos anti-semitas, dos notoriamente forjados Protocolos dos sábios de Sião até alegações ridículas de que os judeus usam o sangue das criancinhas para fins sacrificiais.

Alegar que esse anti-semitismo articula, de forma deslocada, uma resistência ao capitalismo de forma alguma o justifica (o mesmo vale para o anti-semitismo nazista: ele também extraiu sua energia da resistência anti-capitalista). O deslocamento aqui não é uma operação secundária, e sim o gesto fundamental de mistificação ideológica. O que essa alegação sim implica é a ideia de que, no longo prazo, a única forma de derrotar o anti-semitismo não é pregando a tolerância liberal, mas articular o motivo anticapitalista subjacente de uma forma direta, não deslocada.

A LIÇÃO DO TERROR

O ponto chave é portanto precisamente não interpretar ou julgar atos singulares “em conjunto”, não localizar eles no “contexto mais amplo”, mas extraí-los de sua textura histórica: as atuais ações das Forças de Defesa de Israel na Margem Oeste não devem ser julgadas contra o pano de fundo do Holocausto; a celebração que muitos árabes fazem à imagem de Hitler ou a profanação de sinagogas na França e por toda parte na Europa não devem ser julgados como reações inapropriadas porém compreensíveis ao que Israel está fazendo na Margem Oeste.

Quando qualquer protesto contra Israel é categoricamente denunciado como uma expressão de antissemitismo – isto é, quando a sombra do Holocausto é permanentemente evocada a fim de neutralizar qualquer crítica às operações militares e políticas de Israel – será que não basta insistir na diferença entre antissemitismo e crítica a políticas específicas do Estado de Israel que, nesse caso, esta profanando a memória das vítimas do Holocausto, as instrumentalizando como uma forma de legitimar medidas políticas presentes?

O que isso significa é que devemos categoricamente rejeitar a noção de qualquer ligação lógica ou política entre o Holocausto e as atuais tensões Israel-Palestina. Eles são dois fenômenos rigorosamente diferentes: um deles é parte da história europeia da resistência direitista às dinâmicas da modernização; a outra é um dos últimos capítulos na história da colonização. Em contrapartida, a difícil tarefa diante dos palestinos é aceitar que seu verdadeiro inimigo não são os judeus, mas sim os próprios regimes árabes que manipulam sua condição oprimida precisamente para prevenir essa transformação – isto é, a radicalização política em seu próprio seio.

A ascensão do antissemitismo na Europa é inegável. Quando, por exemplo, uma minoria muçulmana agressiva em Malmö molesta os judeus a ponto deles terem medo de andar nas ruas com suas vestimentas tradicionais, isto deve ser condenado claramente e sem ambiguidade. A luta contra o antissemitismo e a luta contra a islamofobia devem ser vistos como dois aspectos de uma mesma luta. E longe de configurar uma posição ingenuamente utópica, essa necessidade de uma luta comum se funda na própria natureza de vasto alcance que as consequências da opressão extrema têm.

Em uma memorável passagem de seu Still Alive, Ruth Klüger descreve uma conversa com “alguns candidatos avançados de PhD” na Alemanha:

Um deles relata como ele conheceu um velho judeu húngaro que era um sobrevivente de Auschwitz, e entretanto esse homem xingava os árabes e nutria desprezo por eles. “Como pode alguém que vem de Auschwitz falar assim?”, pergunta o alemão. Eu entro na conversa e discuto, talvez de forma mais acalorada do que fosse preciso. O que ele esperava? Auschwitz não era nenhuma instituição de instrução […] Não se aprendia nada lá, muito menos humanidade e tolerância. “Absolutamente nada de bom saiu dos campos de concentração”, eu me pego dizendo, com minha voz se elevando, e ele espera catarse, purgação, o tipo de coisa que se espera quando se vai ao teatro? Foram os estabelecimentos mais inúteis e sem sentido imagináveis.

Ou seja, o extremo horror de Auschwitz não o fez um lugar que purifica suas vítimas sobreviventes tornando as sujeitos eticamente sensíveis desprovidos de interesses egoístas tacanhos; muito pelo contrário, parte do horror de Auschwitz é que ele também desumanizou muitas de suas vítimas, as transformando em sobreviventes brutos e insensíveis e tornando impossível para elas praticarem a arte do juízo ético balanceado.

Temos que abandonar a ideia de que há algo emancipatório em experiências extremas, que elas nos permitem abrir os olhos à radical verdade da situação. Essa talvez seja a mais deprimente lição do terror.

NOTAS
1.
Ver Jacques-Alain Miller, “L’amour de la police“, bloggado em 1/13 2015 e publicado em inglês em lacan.com como “France loves its cops“.
2. Me baseio aqui no artigo de Julia Reinhard Lupton (UC Irvine) and Kenneth Reinhard (UCLA), “The Subject of Religion: Lacan and the Ten Commandments.”
3. Talad Asad, Wendy Brown, Judith Butler, Saba Mahmood, Is Critique Secular? Blasphemy, Injury, and Free Speech, Berkeley: University of California Press 2009.
4. Epígrafe de “Living Room Dialogues on the Middle East,” citado em Wendy Brown, Regulating Aversion, Princeton: Princeton University Press 2006.
5. Ruth Kluger, Still Alive: A Holocaust Girlhood Remembered, New York: The Feminist Press 2003, p. 189.

* Texto enviado pelo autor ao Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Um novo mundo é possível?

15 02 12 Izaías Almada Um novo mundo é possível[Imagem feita pelo designer André Almada, especialmente para esta coluna]

Por Izaías Almada.

Quanto riso, ó, quanta alegria.
Mais de mil palhaços no salão…”
– Zé Kéti

Sempre tive grande fascínio pelo cinema, desde o momento em que fui levado pelo meu pai para assistir ao clássico Fantasia com os famosos bonecos da Disney. O mundo cicatrizava as feridas de uma segunda guerra mundial e eu, na inocência dos meus quatro anos de idade, não tinha a menor ideia do que se passava além dos muros da nossa casa. Contudo, fiquei conhecendo o rato Mickey, aprendiz de feiticeiro, na divertida sequencia com a vassoura e as baldes.

Ainda na infância fui apresentado ao Pato Donald, à Margarida, ao Pateta, à dupla Tom & Jerry, ao Pernalonga e ao Hortelino Trocaletra, Gaguinho, Petúnia Resedá, Reco-Reco, Bolão e Azeitona (desses poucos se lembram), Pica Pau, Frajola e outros divertidos personagens que encantaram a minha e várias outras gerações de crianças.

Mais alguns anos e descubro o gênero western que, ao lado do gênero musical, me encantou na adolescência. Dois gêneros de filmes, que após Chaplin e ao lado de Hitchcock, transformaram o cinema americano numa das maiores máquinas de diversões, dinheiro e manipulação da mente humana, antes da televisão, da Internet e do Facebook.

O western foi minha primeira incursão ao mundo do homem bom e do homem mau, do bandido e do mocinho. Maniqueísmo em cinemascope.

E assim vem caminhando a humanidade. Aos trancos e solavancos, como diz uma amiga.

Apesar de toda parafernália tecnológica atual e dos grandes avanços da ciência, a medicina em particular, entre outros, o homem tem evoluído pouco. A frase, com algum ranço de lugar comum, não explica, entretanto, porque – afinal de contas – a bandidagem tem se misturado tanto com a política.

Não estou falando da bandidagem dissimulada de gravata borboleta e vestidos longos. Ou a dos bicheiros ligados a policiais, hoje substituída pelo rentável tráfico de droga pesada. Sequer a do Comando Vermelho ou do PCC.

Não: estou falando da bandidagem moderna, “democrática” e cheia de títulos acadêmicos. Onde já não conseguimos distinguir mocinhos e bandidos. Ou lobistas, para ser mais sutil. Vale tudo. O público e o privado se misturam e estão nas principais manchetes dos jornais.

Já há quem desavergonhadamente insinue que existe uma “corrupção do bem” e outra “corrupção do mal”, tamanho o cinismo dos partidos de oposição e seus senhores na mídia.

Em Washington, Paris, Tel-aviv, Pequim, Brasília, Buenos Aires. As máfias contam-se aos magotes. Até mesmo em facebooks, onde a hipocrisia e algum sentimento nazifascista recheiam milhões de entradas nessa rede social pelo mundo.

Empresas, bancos, políticos, advogados, policiais, juristas, misturam-se todos num caldeirão que vai cozinhando a honestidade em banho Maria, deixando que os falsos moralistas tomem a frente no combate à corrupção, num teatrinho sem vergonha que já não engana a mais ninguém. E atenção: o fenômeno não é só brasileiro como gostam de encher a boca os pusilânimes caboclos em particular nossa classe média idiotizada e neofascista. Está presente na maioria dos países…

A justiça é matéria obrigatória, obvio, nas faculdades de Direito, mas aos poucos vai se tornando uma espécie de arqueologia do saber. Um museu de boas intenções. Quem tem dinheiro, manda. Quem tem dinheiro, faz justiça em causa própria. Quem não tem…

O deboche, a arrogância, a hipocrisia, a injustiça são as palavras e as ações da vez. E, na contramão de Fernando Pessoa, arrisco dizer que tudo vale à pena quando a alma é pequena.

Andaram espalhando por aí que um novo mundo seria possível. Também apostei minhas esperanças nessa possibilidade. E ele está aí, mais firme e arrogante como nunca. É o capitalismo na sua forma mais requintada e que dispõe de todos os meios para espalhar a eterna boa nova aos crentes e aos inocentes: seja um homem de sucesso!

Estude aqui ou acolá, compre esse carro, aumente o seu desempenho sexual, deposite nesse banco que seu dinheiro vai render mais, vote num democrata cristão, contribua para tais obras de caridade, leia a lista dos mais ricos do mundo, não vai ter copa, o Brasil é uma merda, a corrupção começou com o PT, nos Estados Unidos a justiça funciona, Miami é uma maravilha, lá fora é tudo mais barato… O intoxicante repertório de imbecilidades é extenso e produz efeitos deletérios até entre mentes mais abertas e progressistas.

A tal ponto que jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, sem nenhum compromisso com o povo brasileiro deitam e rolam sobre o leite derramado. O que dizem é lei e não há contestação.

O momento é de guardar a máscara da honestidade no armário (pois corruptos são sempre os outros, não é senhor Fernando Henrique Cardoso?) e cair na folia, pois ninguém é de ferro. E não se preocupem irmãos, pois Deus é brasileiro! Aleluia, Saravá!

Todos aos sambódromos!

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Michael Löwy: a ofensiva do capital financeiro na Grécia

15 02 11 Michael Löwy Grécia[Alexis Tsipras, novo Primeiro Ministro da Grécia, deposita rosas no monumento aos resistentes comunistas fuzilados pelos nazistas em Kesariani, perto de Atenas; Fotografia de Alexandros Beltes, EPA]

Por Michael Löwy.

Pela primeira vez em sua história, a Grécia tem um governo “vermelho” (não rosa-bombom), um governo dirigido pelo Syriza (Synaspismos tis Rizospastikis Aristeras), ou Coligação da Esquerda Radical, uma formação que se originou do Partido Comunista Grego do Interior (eurocomunista), fundado em 1968, mas reúne hoje um amplo leque político, que vai dos trotskistas aos ecologistas de esquerda, além de muitos militantes oriundos dos movimentos sociais, antirracistas, feministas e outros. O primeiro gesto de Alexis Tsipras depois de eleito foi depositar uma rosa – vermelha – no monumento aos resistentes comunistas fuzilados pelos nazistas em Kesariani, perto de Atenas.

Nasce uma grande esperança! Mas o governo da esquerda radical terá mil dificuldades para superar, a começar pela ausência de maioria absoluta (ele precisava de dois deputados mais), pela sabotagem da oligarquia grega, pelas medidas de retaliação do capital financeiro e pela má vontade da Comissão Europeia. Eles serão bem-sucedidos? Isso depende não só dos dirigentes do Syriza, mas principalmente do povo grego, de sua capacidade de se mobilizar para que as promessas sejam cumpridas, sem concessões nem recuos.

A oligarquia capitalista europeia – os Junker, Merkel, Draghi –, com a anuência frouxa dos chamados sociais-democratas – Sigmar Gabriel, François Hollande –, decidiram declarar guerra (financeira) contra o povo grego. O objetivo é estrangular economicamente essa tentativa corajosa de romper com o calamitoso “austericídio” neoliberal. Os eurocratas a serviço do capital financeiro estão decididos a impedir, a todo custo, que essa experiência dê certo. Para eles, é uma questão de demonstrar, de uma vez por todas, que, como dizia Ms. Thatcher, TINA (“There Is No Alternative”). E dane-se que o resultado da operação seja a decomposição da União Europeia e o crescimento inexorável da extrema direita.

* A tradução é de Mariana Echalar, para o Blog da Boitempo.

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A aula de abertura “Karl Marx como sociólogo da religião”, já está disponível online abertamente. Aulas novas toda semana! Acompanhe no canal da Boitempo no YouTube clicando aqui.

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Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.