Žižek, sobre a Grécia: por uma nova heresia

zizek greciaPor Slavoj Žižek.

 

A luta que se trava hoje é luta pela cultura econômica e política dominante (Leitkultur) na Europa. As potências da União Europeia defendem o status quo tecnocrático que preserva e mantém há décadas a inércia da Europa.

Em suas Notas para uma Definição de Cultura, o grande conservador T.S.Eliot ensina que há momentos nos quais a única escolha que há é entre a heresia e a não crença — nestas horas, a única maneira de poder manter viva uma religião é fazer um corte sectário no âmago do corpo principal.

Essa é nossa posição hoje, em relação à Europa: só uma nova “heresia” (representada hoje pelo Syriza) pode salvar o que ainda vale a pena salvar do legado europeu: a democracia, a confiança no povo, a solidariedade igualitária.

A Europa que vencerá, se o Syriza for atropelado, é uma “Europa com valores asiáticos” (o que, é claro, nada tem a ver com a Ásia, mas tem tudo a ver com a tendência visível e atual no capitalismo contemporâneo, de suspender a democracia).

Nós, da Europa Ocidental gostamos de olhar para a Grécia como se fôssemos observadores distanciados que acompanham, com compaixão e simpatia, o suplício de uma nação empobrecida. Esse confortável ponto de vista repousa sobre uma ilusão fatídica. Verdade é que o que se passa na Grécia nessas últimas semanas nos diz respeito a todos: o que está em jogo é o futuro da Europa. Portanto, quando lemos sobre a Grécia desses dias, não nos esqueçamos que, como diziam os antigos, de te fabula narratur [a fábula fala de ti].

* Publicado originalmente em inglês no Greek Left Review. A tradução é de Vila Vudu, para o OutrasPalavras.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Cantata para um bastidor de utopias

garcia lorca izaiasPor Izaías Almada.

Federico Garcia Lorca, um poeta a ser abatido, como – aliás – parece ser o destino de muitos poetas que cantam o amor e a liberdade sob regimes totalitários.

Em 1936 Lorca foi covardemente fuzilado pelo fascismo franquista, esse mesmo fascismo que atravessando tempos, oceanos e agora modernizado pelos cabos de fibra ótica e satélites, anda se esgueirando por ruas, restaurantes, shoppings e hospitais brasileiros. Sem falar nos ninhos coalhados de filhotes da serpente espalhados pelas redes sociais, esse nome pomposo que pode servir de tribuna aos homens dignos, mas que vem se transformando no grande refúgio dos imbecis.

A obra poética e dramática de Lorca, espanhol da Andaluzia é densamente rica em sentimentos de amor e solidariedade entre homens e mulheres, carregada pela paixão ibérica dos amores trágicos, das castanholas, dos xales negros e flores nos cabelos e também do passo doble.

Bodas de Sangue, Yerma, A Casa de Bernarda Alba, em teatro, e o Romancero Gitano em poesia, são alguns marcos dessa caminhada do poeta, interrompida ainda enquanto jovem pelos falangistas espanhóis, naquela que foi uma das mais sangrentas batalhas entre irmãos, a guerra civil que marcou profundamente a Espanha.

Uma sua outra tragédia, ao mesmo tempo política e revolucionária, talvez menos conhecida entre nós, Mariana Pineda, foi encenada em São Paulo pela Cia. Do Tijolo, numa temporada que se iniciou em 2013 e a que ainda tive a felicidade de assistir em sua última noite no TUSP.

Um espetáculo soberbo em sua concepção cênica, onde o grupo presta comovente homenagem aos mortos e desaparecidos brasileiros vítimas da ditadura civil/militar de 64 no Brasil em forma de cantata. E através dos versos do poeta andaluz.

Cantata para um Bastidor de Utopias é uma criação coletiva que durante três horas e meia de espetáculo convoca o público a um passeio pela dignidade e pela luta de centenas de brasileiros, e não só, que perderam suas vidas na luta contra o arbítrio. E o faz com o sentido atento para os diálogos e os versos que cantam a epopéia de uma heroína espanhola do século XIX que, para não denunciar seus companheiros antimonarquistas é condenada a morrer na forca.

Paralelismo unido pela poesia e pelas utopias que forjam o progresso e as relações humanas. Apaixonada, Mariana Pineda borda a bandeira dos liberais em confronto com a monarquia espanhola. Age, ama e enfrenta o poder dos homens à sua volta, não cedendo ao desejo dos seus verdugos. Assim como muitas mulheres que enfrentaram a ditadura civil militar brasileira, como Iara Iavelberg, Heleny Guariba, Inês Etiene Romeu e tantas outras.

Sob a emoção de músicas e sons que misturam as terras brasileiras e ibéricas, fenômeno cultural já salientado por Ariano Suassuna em algumas de suas obras e palestras, nós espectadores rimos e choramos diante da tragédia anunciada, mas jamais dimensionada em seu significado individual, daqueles que lutaram e lutam coletivamente.

O espaço cênico, muito bem aproveitado, aproxima o drama de diversos passados ao real e ao presente de uma plateia que vive o dia a dia de um país desunido com alguma violência nos últimos dois anos. Nesse jogo de ideias e sentimentos que é o teatro, Federico Garcia Lorca é o anfitrião vestido de versos e gravata borboleta que recebe em sua obra o poeta brasileiro, ambos identificados pela dor dos que sofrem no amor e nas lutas políticas.

Sonhar mais um sonho impossível já cantavam os versos do também musical ‘O Homem de La Mancha’ que mostra a obra e a vida de outro escritor e poeta espanhol, Miguel de Cervantes. Entre os dois poetas, o Renascimento, o humanismo.

E de sonho em sonho caminhamos à procura do impossível. Caminhada difícil, desencorajadora para muitos, obsessiva para outros, mas que têm a capacidade de se renovar de tempos em tempos nos bastidores das utopias.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Michael Löwy: A crítica romântica de Charles Dickens ao capitalismo

charles dickens lowy finalPor Michael Löwy e Robert Sayre.*

Embora fosse completamente alheio às ideias socialistas, Charles Dickens era um dos autores favoritos de Marx. Seu romance Tempos difíceis, publicado em 1854, contém uma expressão excepcionalmente articulada da crítica romântica à sociedade industrial. Não faz uma homenagem tão explícita às formas pré-capitalistas, geralmente medievais, quanto a maioria dos românticos ingleses – como Burke, Coleridge, Cobbett, Walter Scott, Carlyle (a quem Tempos difíceis é dedicado), Ruskin e William Morris –, mas a referência aos valores morais do passado é um componente essencial da atmosfera criada por ele. Por um paradoxo que é apenas aparente, o refúgio desses valores aparece na forma de um circo, uma comunidade um tanto arcaica, mas autenticamente humana – na qual as pessoas ainda têm um “bom coração” e uma “atitude muito natural” – que se situa fora, e em franca oposição, à sociedade burguesa “normal”.

Em Tempos difíceis, o espírito frio e quantificador da era industrial é magnificamente personificado por um ideólogo utilitarista e membro do Parlamento, Mister Thomas Gradgrind (senhor “Triturador-sob-medida” é a tradução aproximada do nome…). Trata-se de um homem que tem “uma régua e uma balança, e a tabuada sempre no bolso” e está sempre “pronto para pesar e medir qualquer parcela da natureza humana, e dizer o resultado exato”. Para Gradgrind, tudo no universo é “mera questão de números, um caso de simples aritmética”, e ele administra com mão de ferro a educação das crianças, segundo o princípio salutar de que “aquilo que não se podia expressar em números, ou demonstrar que era comprável no mercado mais barato e vendável no mais caro, não existia, e não deveria existir”. A filosofia de Gradgrind – a amarga e dura doutrina da economia política, do utilitarismo estrito e do laisser-faire clássico – era que:

tudo devesse ser pago. Não se podia, em hipótese alguma, dar nada a ninguém, ou oferecer ajuda gratuita. A gratidão deveria ser abolida, e as virtudes que dela brotavam deveriam deixar de existir. Cada minuto da existência humana, do nascimento até a morte, deveria ser uma barganha diante de um guichê.1

A esse retrato poderoso e evocador – quase um tipo ideal weberiano – do éthos capitalista, cujo triste triunfo se concretizará quando “o romance for expulso” da alma humana, Dickens contrapõe sua fé na vitalidade das “sensibilidades, afeições e fraquezas” da alma humana, “desafiando todos os cálculos do homem, e tão desconhecida da sua aritmética como é o seu Criador”. Ele acredita, e toda a trama de Tempos difíceis é um arrazoado apaixonado em favor dessa crença, que existem no coração dos indivíduos “essências sutis da humanidade que escaparão até da maior habilidade algébrica, até o dia em que o som da última trombeta fizer em pedaços até mesmo a álgebra”. Recusando-se a ceder à máquina-de-triturar-sob-medida, ele abraça valores irredutíveis aos números2.

Here Was Louisa, On The Night Of The Same  Day, Watching The Fire As In Days Of Yore.

“Louisa estava observando o fogo como nos velhos tempos.” Esta ilustração de Harry French incluída na edição brasileira de Tempos difíceis capta como o distanciamento sentido pela filha de Thomas Gradgrind em relação aos valores frios e calculistas transmitidos pelo pai se traduz em uma condição de solidão e alienação que remete melancolicamente ao passado.

Mas Tempos difíceis não tratam apenas da trituração da alma: o romance ilustra também como a modernidade expulsou da vida material dos indivíduos qualidades como beleza, cor e imaginação, reduzindo-a a uma rotina fastidiosa, cansativa e uniforme. A cidade industrial moderna, “Coketown”, é descrita por Dickens como “uma cidade de máquinas e chaminés altas, pelas quais se arrastavam perenes e intermináveis serpentes de fumaça que nunca se desenrolavam de todo”. Suas ruas eram semelhantes umas às outras, “onde moravam pessoas também semelhantes umas às outras, que saíam e entravam nos mesmos horários, produzindo os mesmos sons nas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho, e para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior”3. O espaço e o tempo parecem ter perdido toda diversidade qualitativa e toda variedade cultural, tornando-se uma estrutura única, contínua, moldada pela atividade ininterrupta das máquinas.

Para a civilização industrial, as qualidades da natureza não existem: ela só leva em conta as quantidades de matéria-prima que pode extrair dela. Coketown é, em consequência, uma “feia cidadela, onde a Natureza era mantida firmemente do lado de fora pelas mesmas paredes de tijolos que mantinham os ares e os gases letais do lado de dentro”; suas altas chaminés, lançando “suas baforadas venenosas”, escondiam o céu e o sol, e este estava “eternamente em eclipse, através de uma barreira de vidro enfumaçado”. Os que ansiavam “tomar ar fresco” ou queriam ver uma paisagem verdejante, árvores, pássaros, um pouco de céu azul, tinham de percorrer alguns quilômetros pela ferrovia e caminhar pelos campos. Mas ainda assim não estavam em paz: poços abandonados, depois que todo o ferro ou todo o carvão haviam sido extraídos da terra, escondiam-se no mato, como armadilhas mortais.4

Dickens era um moderado favorável às reformas sociais, mas a crítica romântica da quantificação também pode assumir formas conservadoras e reacionárias: por exemplo, na defesa de Adam Müller e outras figuras do romantismo político da propriedade feudal tradicional, que supostamente representaria uma forma qualitativa de vida, contra a monetarização e a alienação mercantil da terra. Ou então no ódio antissemita contra o judeu identificado com o dinheiro, a usura e as finanças, e visto como considerado um fator de corrupção e subversão do Antigo Regime. O panfleto de Edmund Burke contra a Revolução Francesa é um exemplo clássico da utilização contrarrevolucionária do argumento romântico a respeito da quantificação moderna: denunciando a humilhação que os revolucionários de 1789 impuseram à rainha da França, ele exclama: “A idade do cavalheirismo passou – sucedeu-lhe a dos sofistas, dos economistas e dos calculadores; e a glória da Europa está extinta para sempre”5.

* Este artigo é um trecho do livro Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, de Michael Löwy e Robert Sayre, que integra a coleção “Marxismo e literatura” coordenada por Michael Löwy na Boitempo.

Tempos difíceis, de Charles Dickens é o próximo livro a ser discutido no Clube de Leitura da Boitempo e da Cia. das Letras na Livraria da Vila da Fradique em São Paulo. A roda de conversa é aberta e informal, e acontece no próximo de 13 de julho às 20h. Dá tempo de ler o livro antes de participar!

NOTAS

1. Charles Dickens, Tempos difíceis (trad. José Baltazar Pereira Júnior, São Paulo, Boitempo, 2014), p. 15, 38 e 322-3. Mais tarde, eleito para o Parlamento, Thomas Gradgrind torna-se “um dos respeitados membros dos pesos e medidas, um dos representantes da tabuada, um dos honoráveis cavalheiros surdos, um dos honoráveis cavalheiros mudos, um dos honoráveis cavalheiros cegos, um dos honoráveis cavalheiros mancos, um dos honoráveis cavalheiros mortos, a qualquer outra consideração” (ibidem, p. 111).
2. Ibidem, p. 187, 244 e 119, respectivamente.
3. Ibidem, p. 37.
4. Ibidem, p. 81, 188 e 299. O herói do romance, o operário Stephen Blackpool, cai em um desses poços – o “velho Poço do Inferno” e morre.
5. Edmund Burke, Reflexões sobre a Revolução em França (trad. Renato de Assumpção Farias, Denis Fontes de Souza Pinto e Carmen Lídia Richter Ribeiro Moura, Brasília, UnB, 1997), p. 100.

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Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Culltura Inútil: Sobre velhos e velhice

cultura inútil velhice bgPor Mouzar Benedito.

“Escondendo a verdade
Deixou de ser velho:
Agora é da melhor idade”

Antes de entrar em ditados e pensamentos de gente famosa sobre o assunto (há alguns muito interessantes e divertidos), umas considerações minhas. Em parte, considerações óbvias.

Velho, antigamente, era velho. Quando se falava de um velho respeitosamente, como um sábio, podiam chamá-lo de ancião, “amenizando” o peso da palavra velho. Depois “amenizaram” também para os velhos comuns, velho passou a ser idoso. Aí surgiu o eufemismo “terceira idade”, e parecia que os eufemismos parariam aí, mas em seguida veio outro pior: “melhor idade”.

Essa expressão me irrita, mas um dia parei pra pensar e concluí que para certas pessoas a velhice é mesmo a melhor idade. É o caso de mulheres que vivem sufocadas por maridos mandões. Muitas delas não podem fazer absolutamente nada de prazeroso. Como mulheres “do lar”, trabalham, trabalham e trabalham em casa, mas os maridos dizem que elas não trabalham. Não viajam, não passeiam, não dançam, não têm vida social, não estudam… Quando o marido morre, é uma libertação. Passam a fazer tudo o que gostam e querem.

Há muitos anos, conheci na Paraíba uma velhinha simpática, culta, sorridente, alegre, cheia de vida, mãe de amigos meus. Aí me contaram que ela só ficou assim depois que o marido morreu. Foi a libertação, que eu já citei. Ele era do tipo que não permitia à mulher nem ficar olhando a rua pela janela. Se ela fizesse isso, era repreendida com brabeza por estar “flertando” com homens que passavam por ali. Visitas, ele aceitava poucas e mandava embora às 9h da noite. Até o que ela lia ele regulava. Com a morte dele, ela desabrochou, passou a ser uma mulher extremamente feliz.

Numa viagem a Goiás, fui visitar Cora Coralina, que já conhecia de viagens anteriores, e comentei esse caso com ela. Cora Coralina também foi uma mulher que só “desabrochou” depois de velha. Começou a publicar poemas já bem idosa. Perguntei, então, se o caso dela era como o da mãe dos meus amigos paraibanos, se a morte do marido representou sua libertação. Ela disse que não:

– Não é só o marido. Os filhos também atrapalham. A libertação só veio quando meu último filho se casou. Aí fiquei sozinha e passei a fazer o que eu queria, inclusive a ter tempo para isso.

DOCES E POSEIA

Já que falei de Cora Coralina, conto como a conheci. Era 1976, eu fazia uma pesquisa sobre cultura popular em várias partes do Brasil, e em Goiânia, uma moça que trabalhava no Sesc me deu uma ótima ajuda, foi minha cicerone no estado e conhecia bem a cultura goiana. Além de me apresentar a vários artesãos, me levou também a muitos artistas. Um dia ela me falou de uma mulher, doceira, que quase aos oitenta anos de idade revelou-se uma grande poetisa (hoje, o feminino de poeta, para muita gente é poeta mesmo, mas acho a palavra poetisa mais bonita). Fomos à cidade de Goiás e ela me apresentou a Cora Coralina. Comprei seu primeiro livro, publicado havia pouco tempo, e conversamos bastante.

No ano seguinte, fui de novo à cidade de Goiás e fiz uma entrevista com a poetisa, com intenção de publicar no Versus, jornal de que eu era um dos editores. Quando apresentei a entrevista na reunião de pauta, dizendo que era uma velha com mais de 80 anos, mas que ela “tinha futuro” como escritora, acharam que eu estava maluco.

Levei a entrevista à redação do jornal Movimento e apresentei à então editora de cultura, Maria Rita Kehl, que gostou e publicou com o título “Meus doces são melhores do que meus poemas”. Pelo que me disseram depois, foi a primeira entrevista com Cora Coralina publicado num jornal de fora de Goiás.

Em mais uma viagem a Goiás, em janeiro de 1983, fui conversar com Cora Coralina de novo. Comprei seu livro Poemas dos becos de Goiás e outras estórias mais, e pedi que autografasse. Tive a petulância de pedir um autógrafo especial, em que ela falasse alguma coisa dela mesma. Com sua letra trêmula pela idade, mas firme, ela escreveu:

“Mouzar,

Como mulher, deveria ter sido mais bonita e menos idiota. Mais vaidosa e menos inteligente. Mais sofisticada e menos simplória.

Devia ter tido a coragem que me faltou e não devia ter tido o medo que me sobrou.

Devia ter sido mais mentirosa e menos sincera. Devia ter me casado com um moço e me casei com um homem 22 anos mais velho do que eu. Errei de ponta a ponta. Quando reconheci o erro já era tarde.

Cora Coralina

Cidade de Goiás, 24-1-83.”

FRASES E DITADOS

Há muitos ditados e pensamentos “construtivos” e elogiosos sobre velhos e a velhice. Mas quase sempre me soam um tanto falsos. Na nossa sociedade, o “normal”, ou pelo menos o comum, ao se falar de velhos, é usar frases como “já pendurou as chuteiras”, “está mijando nos pés”, “é bananeira que já deu cacho”, “já está de cachimbo apagado”, “é do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça”, “é mais velho do que cagar de cócoras” ou que “foi garçom da Santa Ceia”. E mais: “quem gosta de velho é reumatismo, vento encanado, cadeira de balanço, rede e fila do INSS”, “lugar de velho é na igreja” e “se eu gostasse de velho ia trabalhar em museu”.

E, se alguém acha que merece respeito apenas por ser velho, há um ditado arrasador: “Os canalhas também envelhecem”.

Selecionei ditados gozadores e outros até valorizando(!) os que dobraram o Cabo da Boa Esperança, às vezes contrapondo velhice e juventude, e em seguida frases ditas por gente famosa ou nem tanto.

DIZ O DITO POPULAR:

Se o jovem soubesse e o velho pudesse, nada há que não se fizesse.

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Ninguém é tão velho que não cuide viver mais um ano, nem tão novo que não possa morrer logo.

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Mais vale o velho que me ame do que o moço que me assombre.

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O tempo cura tudo, menos a velhice.

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Homem velho, saco de azares.

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A mocidade é defeito que se corrige dia a dia.

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Aos vinte anos, cabeça oca, aos trinta riqueza pouca.

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Moça com velho casada, como velha se trata.

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Quem quiser ser velho muito tempo, comece-o a ser cedo.

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Não há melhor espelho do que amigo velho.

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Velho gaiteiro, velho menino.

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Queda de velho não levanta poeira.

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Velho na sua terra e moço na terra alheia, sempre mentem de sua maneira.

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Velho que não anda, desanda.

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Velhos são os trapos.

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Velho não se senta sem “ui”, nem se levanta sem “ai”.

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Não há sábado sem sol, nem jardim sem flores, nem velhos sem dores, nem moça sem amores.

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Pote velho é que esfria água – este é semelhante àquele que virou sucesso numa música sertaneja: “Panela velha é que faz comida boa”.

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Tatu velho não cai em mundéu.

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Burro velho não toma ensino.

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Macaco velho não mete a mão em cumbuca.

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Velhice é mal desejado.

O QUE SE DISSE POR AÍ…

Simone de Beauvoir: “A velhice é a paródia da vida”.

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Machado de Assis: “Matamos o tempo, o tempo nos enterra”.

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Mia Couto: “A velhice não nos dá nenhuma sabedoria, simplesmente autoriza outras loucuras”.

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Groucho Marx: “Ficar mais velho não é problema. Tens apenas que viver o tempo suficiente”.

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Érico Veríssimo: “Moça rica, quando cai na boca do povo não perde nada, mas moça pobre quando é falada…”.

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Charles de Gaulle: “A velhice é um naufrágio”.

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Ambrose Bierce: “Velhice: aquele período da vida no qual ajustamos os vícios que ainda temos, denegrindo aqueles que não conseguimos satisfazer”.

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Victor Hugo: “A miséria de uma criança interessa a uma mãe, a miséria de um rapaz interessa a uma rapariga, a miséria de um velho não interessa a ninguém”.

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Victor Hugo, de novo: “Quarenta anos é a velhice dos jovens; cinquenta anos é a juventude dos velhos”.

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Camilo Castello Branco: “As almas infelizes envelhecem cedo”.

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Camilo Castello Branco, de novo: “As mulheres de 25 anos datam a velhice dos 35, e dos 40 em diante confundem a todas as senhoras na respeitabilidade de suas mães e avós”.

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Camilo Castello Branco, mais uma vez: “O tempo chega sempre; mas há casos em que não chega a tempo”.

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Júlio Dantas: “Afinal, a velhice é um simples preconceito aritmético, e todos nós seríamos mais moços se não tivéssemos o péssimo hábito de contar os anos que vivemos”.

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Júlio Dantas, de novo: “A longevidade é uma prerrogativa das naturezas vulgares”.

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Raquel de Queiroz: “A mocidade é o tempo em que a gente quer ser dono do mundo e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mundo”.

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Maroquinha Jacobina Rabelo: “Prepara na primavera as flores que irão florir o outono e o inverno da vida”.

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Henry Mencken: “Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria”.

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Vitor Caruso: “Velhice e a digestão lenta da mocidade”.

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Doris Lessing: “Conforme envelheces, não ficas mais sábios. Ficas mais irritável”.

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Pierre Proudhon: “A vida do homem divide-se em cinco períodos: infância, adolescência, mocidade, virilidade e velhice. No primeiro período o homem ama a mulher como mãe; no segundo, como irmã; no terceiro, como amante; no quarto, como esposa; no quinto, como filha”.

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Goethe: “Viver muito tempo significa sobreviver a muitos entes amados, odiados e indiferentes”.

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Maurice Chapelan: “Saber envelhecer é fácil: já não se tem a dificuldade da escolha”,

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Suzanne Necker: “Se se pudessem conquistar os homens com fingimentos, todas as mulheres velhas teriam amantes”.

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Godofredo de Almeida: “O futuro de todos nós é o túmulo”.

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Platão: “Deve-se temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas são provas de idade e não de prudência”.

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Nelson Mandela: “Uma das vantagens da velhice é que as pessoas nos respeitam só pelos cabelos brancos e dizem toda espécie de coisas simpáticas sobre nós que não se baseiam sobre quem somos realmente”.

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Mark Twain: “Sou velho e já passei por muitas dificuldades, mas a maioria delas nunca existiu”.

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Jorge Luis Borges: “A velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão ainda maior”.

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Coelho Neto: “Os séculos são longos e quem se destina a atravessá-los deve ir devagar. Quereis saber como se consegue a Eternidade? Com o Tempo”.

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Sêneca: “Ninguém é tão velho que não espere que depois de um dia não venha outro”.
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Walter Waeny: “Quando um homem honrado envelhece, ele se torna um ancião; quando um canalha envelhece, ele é apenas um velhaco que já viveu muito”.

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Walter Waeny, de novo: “A velhice dá o direito de exigir respeito, mas tira o direito de fazer tolices”.

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François La Rochefoucauld: “Os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de já não estarem em estado de dar maus exemplos”.

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Catherine Deneuve: “Acho lamentável o culto à beleza e à juventude, porque é muito limitador. Nos Estados Unidos isso é muito forte, mas na Europa o envelhecimento é melhor aceito”.

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Christian Hebbel: “Muitas vezes a juventude é repreendida por acreditar que o mundo começa com ela. Mas a velhice acredita ainda mais frequentemente que o mundo termina com ela. O que é pior?”.

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Millôr Fernandes: “Você está começando a ficar velho quando, depois de passar uma noite fora, tem que passar dois dias dentro”.

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Millôr Fernandes, de novo: “Um homem começa a ficar velho quando já prefere andar só do que mal acompanhado”.

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Gabriel García Márquez: “O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão”.

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Madame de Stael: “As ideias novas desagradam às pessoas de idade; elas gostam de se convencer de que, depois de haverem deixado de ser novas, o mundo, em vez de se enriquecer, só se perdeu”.

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Carlos Drummond de Andrade: “Há duas épocas da vida em que a felicidade está numa caixa de bombons: a infância e a velhice”.

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Schopenhauer: “Na juventude, imaginamos o mundo repleto de felicidade e prazer, sendo que a única dificuldade é alcançá-los, enquanto na velhice sabemos que do mundo não há muito a esperar. Logo, acalmados por completo, fruímos um presente suportável e encontramos alegrias até em miudezas”.

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Padre Manuel Bernardes: “A velhice é uma quase morte, assim como crepúsculo vespertino é uma quase noite”.

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Nelson Rodrigues: “Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério depois que fica velho”.

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Jeanne Moreau: “A idade não nos protege contra o amor. Mas o amor, até certo ponto, protege-nos contra a idade”.

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Albert Camus: “Envelhecer é passar da paixão à compaixão”.

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Albert Einstein: “A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo homem que lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar”.

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Itamar Franco: “Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo”.

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Rousseau: “Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele”.

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Rousseau, de novo: “O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu a vida”.

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Mário Quintana: “Infância: a vida em tecnicolor. Velhice: a vida em preto e branco”.

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José Saramago: “Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia. Provavelmente, é isto a velhice”.

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Marcel Proust: “Acontece com a velhice o mesmo que com a morte. Alguns enfrentam-nas com indiferença, não porque tenham mais coragem do que os outros, mas porque têm menos imaginação”.

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Rubem Alves: “Toda saudade é uma espécie de velhice, É por isso que os olhos dos velhos vão se enchendo de ausências”.

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Benjamin Franklin: “A mocidade é um erro, a idade madura uma luta, a velhice um lamento”.

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Oswald de Andrade: “Senhor / Que eu não fique nunca / Como esse velho inglês / Aí do lado / Que dorme numa cadeira / À espera de visitas que não vêm”.

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Ediel: “A diversão não acaba com a velhice. A velhice é que acaba com a diversão”.

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Alphonse Daudet: “Os homens envelhecem mas nem sempre amadurecem”.

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Mary Wortle Montagu: “Aos 40 anos, a mulher está longe ser fria e insensível; mas ela sabe, quando necessário, cobrir o fogo com as cinzas”.

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 Benrard Baruch: “Nunca serei velho. Para mim, a velhice começa 15 anos depois da idade em que eu estiver”.

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Barão de Itararé: “A natureza, que, com a idade, nos põe tanta prata nos cabelos, bem que podia ter a gentileza de nos meter algumas no bolso”.

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Woody Allen: “Não há vantagem em envelhecer: não se fica mais sábio e ainda se sofre com dor nas costas. Recomendo que não o façam”.

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Ariano Suassuna: “Terceira idade é para fruta: verde, madura e podre”.

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Henriqueta Brieba: “A vantagem de ter nascido em 1901 é que o século XX estará sempre correndo atrás de mim, em vez de eu ficar correndo atrás dele”.

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Homero: “As mulheres da Grécia contam sua idade a partir de seu casamento e não de seu nascimento”.

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Daniel Auber: “Não tenho 80 anos e sim quatro vezes 20”.

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Jean de la Bruyère: “A maior parte dos homens emprega a primeira metade de sua vida a tornar a segunda metade insuportável”.

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Benjamin Disraeli: “A juventude é um disparate, a idade adulta uma batalha, a velhice uma saudade”.

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Disraeli, de novo: “O homem passa por três idades: a tolice da juventude, a luta da idade madura e os remorsos da velhice”.

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Ricardo Bacchelli: “Quero dizer-vos a diferença entre o lobo e o homem: nenhuma, exceto uma. Na velhice, o lobo entra nos bosques para esperar seu fim sozinho; o homem, quanto mais sente que a morte se aproxima, mais busca companhia, mesmo se ele se aborrece e se ela se aborrece”.

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Madame de Sévigné: “O coração não tem rugas”.

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Autor desconhecido: “Meia idade é quando você para de criticar os mais velhos e começa a criticar os mais novos”.

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Marquês de Maricá: “A velhice é a idade dos desenganos, como a mocidade a das ilusões”.

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Marquês de Maricá, de novo: “A velhice é prêmio para uns e castigo para outros”.

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Marquês de Maricá, mais uma vez: “A velhice é um mal incurável que só a morte pode nos libertar”.

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Charles Saint-Beuve: “Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo”.

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Autor desconhecido: “Os anos entre os cinquenta e os setenta são os mais difíceis. Você é constantemente solicitado a fazer coisas para as quais ainda não se sente suficientemente decrépito para recusá-las”.

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Stendhal: “A velhice, essa época em que se julga a vida e em que os prazeres do orgulho se revelam em toda a sua miséria”.

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Giácomo Leopardi: “A velhice é o pior dos males, pois ela priva o homem de todos os prazeres deixando-lhe o apetite”.

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 Rita Lee: “Geriatras, me aguardem! Vou botar fogo no asilo”.

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Eu: “Já passei da idade de namorar mulheres da minha idade”.

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Tallulah Bankhead: “Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo”.

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 Oscar Niemeyer: “Ficar velho é uma merda”.

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Gostou? Leia as outras colunas da série “Cultura Inútil”, de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo clicando aqui.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Lançamento Boitempo: Margem Esquerda 24

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Acaba de sair a nova edição da revista semestral Margem Esquerda: Ensaios Marxistas, da Boitempo. A edição abre com uma longa entrevista com o intelectual nova-iorquino Immanuel Wallerstein realizada por Daniel Bin, cientista político e colaborador do Blog da Boitempo. Além de textos inéditos de Michael Löwy, José Paulo Netto e Emir Sader, esta 24ª conta com um dossiê bastante oportuno sobre “Cidades em conflito, conflito nas cidades”, coordenado pelo arquiteto e urbanista João Sette Whitaker Ferreira. Confira o sumário completo da revista aqui

Leia abaixo a apresentação da edição

São muitas as formas de discutir as cidades. O dossiê deste número, “Cidades em conflitos, conflitos nas cidades”, organizado por João Sette Whitaker Ferreira, com a colaboração de Karina de Oliveira Leitão, o faz por meio da análise da crise no espaço urbano e dos conflitos dela decorrentes. Há muito os efeitos do neoliberalismo, as rebeliões nas ruas, a urbanização militarizada, o desenvolvimento insustentável, a especulação imobiliária, a mobilidade e as novas configurações das lutas de classes vêm merecendo a atenção de estudiosos e militantes políticos das mais diversas filiações. Embora com enfoques diversos, os textos de Agnes Deboulet, Flávio Villaça, Gabriel De Santis Feltran e Tom Angotti concordam que a segregação urbana é maior quanto mais se intensifica a desigualdade social. Os autores colocam em pauta novas formas, soluções e modelos de organização do espaço público, buscando enfrentar os impasses do presente e os desafios do futuro.

Ilustra o dossiê um ensaio do fotógrafo Mauro Restiffe, que, segundo o editor de imagens Sergio Romagnolo, “mostra a sua e a nossa perplexidade diante do mundo, de Moscou ao Complexo da Maré”. A fotografia de Restiffe é química, como aquela inventada há 150 anos e agora em desuso. “Seu processo de trabalho é a imersão. Ele viaja ao encontro do assunto, como se quisesse descobrir o que acontece com o mundo. Suas fotos já exibiram a posse de Lula, em 2003, e a de Obama, em 2008, a reforma do antigo prédio do Detran – projeto de Niemeyer – para a inauguração do novo Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP), comunidades pobres, casas modernistas de projetos utópicos, centros de cidades como São Paulo e Istambul ou motoqueiros de Taipé. Não existe uma linha formal para a sua produção plástica. Se a arte moderna talvez tivesse uma leitura cartesiana do mundo, a arte não moderna prescindiria de uma linha na qual pudesse se apoiar. Mauro, como outros de sua geração, está livre para pensar e questionar o que o rodeia”, afirma Romagnolo.

Para analisar as metrópoles como palco de conflitos, não poderia faltar a figura da polícia, a parte mais visível do aparelho repressivo do Estado. Assim é que, na seção Artigos, os leitores encontrarão o texto “Por que tem sido tão difícil mudar as polícias?”, de Luiz Eduardo Soares. A execução de jovens pobres pela polícia é uma sinistra tradição que se mantém, protegida pela omissão das autoridades, pela conivência das elites e pelo silêncio de parcela expressiva da população. 

Esta Margem enfrenta também o difícil tema da xenofobia, do avanço do neofascismo e do fortalecimento de partidos da extrema-direita na Europa. O sociólogo italiano Pietro Basso aponta a intensificação do racismo de Estado, contra o qual emerge um antirracismo de classe que aproxima trabalhadores nacionais e imigrantes.

Ainda na seção Artigos, Mario Duayer contribui com “Jorge Luis Borges, filosofia da ciência e crítica ontológica”, em que vai da literatura à filosofia da ciência para sustentar o caráter incontornável da razão para a práxis transformadora. Já Michael Löwy nos brinda com um texto sobre Lucien Goldmann – intelectual marxista nascido em 1913, na Romênia, que estudou a filosofia de Kant e o pensamento de Lukács, mas se interessava também pela visão trágica de mundo dos jansenistas e de Pascal.

O entrevistado desta edição é o intelectual nova-iorquino Immanuel Wallerstein, uma das principais referências teóricas dos movimentos antiglobalização, de quem a Boitempo publicou o livro O universalismo europeu, em 2007. Na entrevista – realizada por Daniel Bin, com a colaboração de Emir Sader, João Alexandre Peschanski e Luiz Bernardo Pericás –, Wallerstein fala sobre sua formação, a crise estrutural do sistema-mundo e questões relacionadas à política internacional dos Estados Unidos.

Na seção Clássico temos um verbete enciclopédico escrito pelo revolucionário russo Leon Trotski sobre outro genial líder bolchevique, Vladimir Ulianov Lenin. Escrito em 1926 para a 13ª edição da Enciclopédia Britânica, o texto foi traduzido por José Eudes Baima Bezerra e editado por Alexandre Linares.

As Homenagens são para Leandro Konder – “outro revolucionário cordial”, nas palavras de José Paulo Netto e no conceito de tantos quantos o conheceram. Homem amável, generoso, Leandro (que nos deixou em 12 de novembro de 2014) reuniu, como poucos, firmeza teórica e gentileza, na mais fiel tradução da máxima “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” – e para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, morto em 13 de abril de 2015. O autor de As veias abertas da América Latina, que falava por todos nós e melhor que todos nós, é lembrado em texto de Emir Sader. 

Esta edição traz ainda uma resenha do livro Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco, e quatro notas de leitura, além de um poema do tunisiano Aboul-Qacem Echebbi, traduzido por Flávio Aguiar.

No ano em que celebramos sete décadas da vitória dos Exércitos Vermelhos sobre o eixo nazifascista e quatro da vitória vietnamita sobre os Estados Unidos, recordamos com pesar as mortes de Roque Dalton – comunista, poeta, pensador e revolucionário salvadorenho –, assassinado em 1975, e de Inês Etienne Romeu. Ex-dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e única sobrevivente da Casa da Morte, em Petrópolis – aparelho clandestino de tortura do regime militar que executava presos políticos –, Inês faleceu no dia 27 de abril, em Niterói, aos 72 anos. A eles, e também a Konder, Galeano e tantos que empenharam sua vida em fazer deste um mundo mais justo e igualitário, dedicamos esta edição.

— Ivana Jinkings

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Maringoni: É legal à beça colorir as fotos do Facebook

MaringoniPor Gilberto Maringoni.

É legal à beça colorir as fotos do Facebook! Estamos comemorando uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos.

É medida progressista legalizar a união entre pessoas, qualquer que seja a maneira de se amar.

Não é uma vitória do imperialismo e nem de um governo que massacra países e povos, assim como a conquista dos direitos civis, nos EUA dos anos 1960 também não foi.

As vitórias contra o racismo e a homofobia são vitórias da Humanidade.

A decisão da Suprema Corte dos EUA tem dimensões planetárias, pela posição hegemônica do país no mundo.

A luta pela jornada de oito horas teve seu ponto de virada nas jornadas de Chicago, nos anos 1880. A luta pelos direitos das mulheres tem no país um palco importante.

A música americana – em especial o blues, o jazz e o rock – são ritmos nascidos nas comunidades negras e pobres do meio oeste.

Mesmo o inglês, antes de ser a língua do império, é a língua de Shakespeare, de Yeats, de Whitman, de Hemingway, de Fitzgerald, de John dos Passos, de Hawthorne, de Hammett, de Faulkner, de Capote, de Auster e de um timaço de gênios.

A literatura americana, com sua linguagem direta e seca, surgiu a partir dos pulps, revistas impressas em papel barato, destinadas aos trabalhadores, no final dos anos 1800. A partir dali, um novo tipo de narrativa, com diálogos secos e frases enxutas, surgiu na esteira da revolução do jornal, na virada daquele século.

Hugo Chávez, uma vez disse: “Somos antiimperialistas, não somos antiamericanos”.

A diferença é essencial.

Não percebê-la significa confundir a ação de um Estado dominado por megacorporações com as demandas e conquistas do povo estadunidense. Implica não perceber algo óbvio: lá também existe luta de classes. E de forma encarniçada.

Estampar o arco-íris nas fotos do Facebook diz mais a respeito da luta contra o obscurantismo aqui dentro do que de decisões tomadas em terras gringas. Aliás, nada mais gringo do que o próprio Facebook, com suas bisbilhotices na privacidade alheia.

É uma boa que isso tenha acontecido, mesmo sabendo que sentença semelhante foi proferida pelo STF daqui há um par de anos.

O que soma não atrapalha.

Especialmente se a causa é generosa e contribui para torpedear o atraso.

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Na mesa “Que cidade queremos? Apontamentos para o futuro da cidade” do Seminário Internacional Cidades Rebeldes, o Deputado Federal Jean Wyllys falou e da importância de fazer uso das redes sociais na disputa dos valores e do imaginário político. Neste trecho, partindo da afirmação ousada de que “os homossexuais são o grupo mais odiado da história da humanidade”, atravessando as mais diversas culturas e civilizações, ele reflete sobre como o fascismo opera e insiste na urgência de lutar por uma democracia efetiva.

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Gilberto Maringoni é doutor em História Social pela FFLCH-USP e professor adjunto de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É autor, entre outros, de A Revolução Venezuelana (Editora Unesp, 2009), Angelo Agostini: a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal – 1864-1910 (Devir, 2011) e da introdução do romance O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura. Cartunista, ilustrou algumas capas de livros publicados pela Boitempo Editorial na Coleção Marx Engels, como o Manifesto comunista. Integra o conselho editorial do selo Barricada, de quadrinhos da Boitempo.

A “Ideologia de gênero” e as ameaças à democracia

flávia biroli_ideologia de gênero_1Por Flávia Biroli.

A democracia e os direitos individuais estão sendo ameaçados por ofensivas contra o que vem sendo chamado de “ideologia de gênero”. Trata-se da ação retrógrada, orquestrada, de alguns grupos religiosos na política. Embora se digam contra uma “ideologia”, atuam para frear e interromper a consolidação de valores básicos da democracia, como o tratamento igual aos indivíduos independentemente do que os singulariza e a promoção, no ambiente escolar, do respeito à pluralidade e diversidade que caracterizam as sociedades contemporâneas.

Em Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores, esses grupos vêm atuando para eliminar das diretrizes educacionais orientações para a valorização e respeito à diversidade sexual e para a superação das desigualdades de gênero. A própria palavra “gênero” vem sendo sistematicamente eliminada nos casos em que essa empreitada teve sucesso. O requerimento de informação apresentado pelo deputado Izalci Lucas (PSDB-DF) em maio de 2015, dirigido ao MEC, é um exemplo bastante claro do que se passa: solicita esclarecimentos sobre o que caracteriza como a “manutenção da ideologia de gênero como diretriz obrigatória para o PNE”, contrariamente ao que teria sido determinado pela apreciação do Congresso Nacional. O deputado, que é membro da Comissão Especial formada na Câmara dos Deputados para análise do Plano Nacional de Educação (PNE), apresenta como inaceitáveis – e característicos do que define como “ideologia de gênero” – os seguintes trechos do PNE:

– Inciso III do artigo 2º, que define como diretriz a “superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual”,

– Estratégia 3.12 da Meta 3, que coloca como objetivo “implementar políticas de prevenção à evasão motivada por preconceito e discriminação racial, por orientação sexual ou identidade de gênero, criando rede de proteção contra formas associadas de exclusão”.

Nas democracias ocidentais, sobretudo a partir de meados do século XX, a noção de direito individual foi tensionada e ampliada pela ação de movimentos sociais que denunciaram os limites da cidadania nessas sociedades. Movimentos feministas, movimentos de gays e lésbicas e movimentos antirracistas foram responsáveis pela inclusão, na agenda política, do entendimento de que a garantia formal de direitos iguais universais para os indivíduos não foi suficiente para reduzir a exclusão, marginalização e estigmatização de parte da população. As democracias conviviam, ainda, com preconceitos e arranjos sociais discriminatórios, mesmo quando a lei determinava que os indivíduos eram cidadãos iguais independentemente do sexo, da cor, do estilo de vida. A noção de gênero se define no contexto dessas lutas, na interface entre a atuação dos movimentos sociais feministas e de gays e lésbicas, como um dispositivo para a compreensão e a superação de formas de violência e opressão baseadas na recusa à diversidade das vivências e experiências dos indivíduos. Os estudos de gênero, presentes em diferentes universidades e países do mundo, expõem não apenas essa diversidade, mas o caráter autoritário e coercivo de códigos morais baseados no que seria a realidade incontornável da natureza humana – nesse caso, do sexo biológico. Esses códigos permitem colocar os indivíduos em hierarquias, fazendo com que alguns mereçam respeito, outros não. As experiências de tantas pessoas, seus afetos e os valores que fazem delas quem são concretamente são diminuídos e estigmatizados por não coincidirem com o que teria sido determinado como correto pela “natureza” e/ou por textos de caráter religioso.

Trata-se de questões bem concretas, e não de um embate entre ideias. Os movimentos sociais que têm o gênero como parte da sua agenda denunciaram e continuam a denunciar o fato de que alguns indivíduos, pelas suas características, têm menos chances do que outros de ser respeitados e são alvos de violências e humilhações cotidianas. A violência contra as mulheres está, em grande medida, associada à busca do controle dos homens sobre elas – quando não se comportam de modo que confirma essa ideia, terminando um relacionamento, mantendo uma vida mais autônoma ou vestindo-se de maneiras vistas como não-decorosas, estão mais expostas a agressões. A violência contra a população homossexual se ancora no entendimento de que existem formas corretas de amar e se relacionar com outras pessoas, enquanto outras seriam desvios que marcam os indivíduos negativamente, fazendo com que integrem o grupo dos que poderiam ser violentados e torturados sem que isso gere sobressaltos ou fira a democracia. Os movimentos antirracistas expuseram dinâmicas muito semelhantes. É também uma ideia de superioridade, desta vez impregnada na pele, que justificou historicamente o racismo: o fato de não se ser branco – assim como, nos exemplos anteriores, o de não se ser homem ou heterossexual – justificaria desrespeitos e violências contra quem é circunscrito como “outro”, como portador de uma diferença que ameaça em vez de uma humanidade comum. 

No ambiente escolar, essas formas de discriminação e desvalorização produzem sofrimentos e reduzem o aproveitamento de muitas crianças. É também no processo de socialização, em que a escola tem um papel fundamental, que podem ser ativadas concepções democráticas da vida ou reforçados preconceitos. As crianças são objeto de práticas menos ou mais tolerantes e igualitárias, mas são também sujeitos na sua reprodução. A importância da educação para a igualdade e a diversidade é, portanto, dupla. Ela pode orientar a atuação de professoras/es e alunas/os, de forma que diminua o sofrimento dos indivíduos que veem o valor das suas vidas reduzido – meninas que estão sujeitas a estupro e abuso, meninas e meninos agredidos em razão de sua identidade sexual ou dos arranjos familiares de que fazem parte – e ela nos dá a esperança de que poderemos ter, nas crianças, agentes na construção de relações mais respeitosas, de uma sociedade mais igualitária.

A diversidade de corpos, de valores e de estilos de vida é um fato, e não uma ideia. Ainda que isso seja óbvio para quem se permita olhar ao redor sem anular de antemão as vidas e as experiências de tantas pessoas, é importante assinalar que esse fato está na base de ideais que visam orientar a construção de sociedades mais justas, e não o contrário. O que quero dizer é que o ideal da tolerância nasce, desde bem cedo, no pensamento liberal moderno, do fato da diversidade e da pluralidade nas sociedades. A diversidade permanece mesmo quando não há tolerância: o resultado de ações retrógradas como as que estão sendo aqui discutidas é que os “outros” estarão mais expostos ao sofrimento, à opressão e à violência.

A laicidade do Estado – a separação entre Estado e religião – foi uma solução histórica para essa diversidade, que se apresenta também como pluralidade de crenças e de credos. A laicidade é um princípio fundamental da democracia porque permite que essa diversidade se apresente sem que o Estado assuma e promova a superioridade de um grupo relativamente a outro. Quando a religião orienta políticas de Estado, rompe-se com a ideia de que os indivíduos merecem igual respeito e têm igual valor na sociedade – os valores, crenças e estilos de vida de alguns fariam deles o povo eleito, e a democracia não resiste a essa visão exclusivista e excludente. Ela produz intolerância. E a intolerância, volto a dizer, é bem mais que uma ideia, é a justificação e a aceitação do tratamento desigual, da humilhação e da violência contra aqueles que “não vivem como acho que deveriam viver”.

Acredito que seja importante também uma palavra, breve, sobre o uso do termo ideologia nessa investida contra os direitos individuais e a democracia no Brasil de hoje.

Em algumas abordagens no pensamento político, a noção de ideologia se aproxima da ideia de mistificação, ilusão, inversão da realidade. Em outras, prevalece o entendimento de que a ideologia corresponde a um conjunto de sentidos, de ideias, que constituem nossa relação com o mundo e fazem de nós quem somos. O primeiro caso pressupõe uma antítese bem definida entre a realidade objetiva e os significados a ela atribuídos. É nesse sentido que, no senso comum, pode-se atribuir a alguém a pecha de ideológico quando distorce os fatos em vez de ater-se à “realidade” das coisas. O segundo já pressupõe o entendimento de que a relação com o mundo social é sempre atravessada por sentidos que nos precedem, e que estão em disputa. Não há momento ou circunstância em que a realidade se dê a ver sem estar impregnada de significados e de valores. É numa realidade que não é nem falsa nem verdadeira, mas socialmente significada, que nos constituimos como indivíduos.

Essa breve menção ao debate sobre ideologia nas Ciências Sociais – que se apoia na análise de Terry Eagleton (Ideologia: uma introdução, publicado no Brasil pela Boitempo e pela Unesp) – deve incluir também uma outra dimensão, que entendo atravessar tanto os entendimentos da ideologia como mistificação quanto aqueles que ressaltam seu caráter constitutivo: a ideologia tem função legitimadora, confirmando e mesmo naturalizando perspectivas. Vejo as ofensivas contra a “ideologia de gênero” como a busca de naturalização de posições – as visões bem situadas e particulares de alguns, no caso de grupos religiosos, apresentadas como se fossem universais. Nesse caso, o recurso à ideia de que existe uma natureza/verdade e uma ideologia/falsidade é o dispositivo central para a universalização de uma posição bem situada.

Talvez se possa considerar que documentos e esforços internacionais pela promoção da igualdade de gênero e do respeito à diversidade sexual, como a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 1979 e ratificada pelo Brasil em 1984, e a Campanha pela igualdade e direitos da população LGBT, lançada pela ONU em 2014, assim como o acúmulo sistemático de estudos produzidos nas mais diferentes universidades sobre a construção social das identidades de gênero, sejam parte de uma disputa ideológica e sejam, também eles, bem situados. Sim, em todos esses casos não se trata de registrar desígnios da natureza ou de assumir uma posição de neutralidade: assume-se neles uma posição a favor da igualdade, do respeito à diversidade e da superação da opressão. Essa posição fere os privilégios daqueles que talvez se sintam superiores, e que certamente obtêm vantagens, ao desvalorizar os “outros” e exercer controle sobre aqueles, e em especial aquelas, que lhes seriam inferiores.

O que está em questão é se teremos diretrizes educacionais orientadas para a igualdade, a tolerância e a diversidade ou fundadas em noções de superioridade, em visões exclusivistas e excludentes. De maneira mais ampla, o que está em questão nesse momento é a nossa democracia e a capacidade que teremos, como sociedade, de garantir o respeito aos direitos individuais.

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Para aprofundar a reflexão sobre as questões de gênero, o impacto do feminismo na teoria política e as diferentes matizes e debates em torno da luta e da teoria da emancipação das mulheres, recomendamos a leitura de Feminismo e política: uma introdução, de Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel, que oferece um inédito e didático panorama do feminismo hoje.

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Flávia Biroli é professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. É autora, entre outros, de Autonomia e desigualdades de gênero: contribuições do feminismo para a crítica democrática (Eduff/Horizonte, 2013), Família: novos conceitos (Editora Perseu Abramo, 2014) e, em co-autoria com Luis Felipe Miguel, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014).

A direita prática e os conservadores sofisticados

eduardo cunha daniel binBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Daniel Bin.*

Em meados dos anos 1950, o sociólogo Immanuel Wallerstein escreveu uma dissertação de mestrado1 em que analisava o papel do macartismo nos conflitos entre dois grandes grupos em que dividia-se a direita política estadunidense. Seu argumento central era que a caça às bruxas promovida pelo senador republicano Joseph McCarthy não visava aos membros do Partido Democrata tampouco aos “comunistas” eventualmente presentes na administração do presidente Harry Truman. Segundo Wallerstein, McCarthy tinha como alvo os “conservadores sofisticados,” os quais o senador por Wisconsin queria ver fora das posições de poder no governo dos Estados Unidos.

Aquele trabalho de Wallerstein partiu da ideia central de que havia dois tipos de conservadores: a direita prática e os conservadores sofisticados. Tais categorias eram inspiradas em C. Wright Mills, que as distinguia de acordo as posições de cada grupo conservador em relação às lideranças de trabalhadores. Os sofisticados acreditavam ser capazes controlar a situação social pela via da manutenção de tais lideranças como aliadas inferiores e na linha de frente dos interesses dos primeiros. Distintamente, os integrantes da direita prática temiam a usurpação de suas prerrogativas de poder em situações desse tipo.2 Os práticos tinham uma visão mais estreita das questões econômicas e os sofisticados, uma visão dos interesses das classes proprietárias como um todo.3

Cerca de sessenta anos mais tarde, Wallerstein viria a afirmar que aquela mesma batalha descrita em seu estudo “é a batalha atualmente em curso no Partido Republicano nos Estados Unidos, entre o pessoal do Tea Party e os dirigentes conservadores mais clássicos.”4 Foi o que se observou com mais clareza nas últimas eleições legislativas, em 2014. Naquele momento, mais precisamente nas eleições primárias, os conservadores sofisticados do Partido Republicano conseguiram impedir algumas vitórias de pré-candidatos vinculados ao Tea Party, o que, em seguida, permitiu ao partido conquistar o controle do Senado.5

Immanuel Wallerstein, autor de O universalismo europeu: e retórica do poder. A nova edição da Revista Margem Esquerda, n.24 abre com uma longa entrevista com o pensador, conduzida por Daniel Bin.

Mas se no Hemisfério Norte vemos certa contenção de forças mais reacionárias, ou mesmo algum crescimento de movimentos mais à esquerda, como na Grécia e na Espanha, no Brasil a tendência parece querer tomar sentido oposto. Desde depois das primeiras manifestações de rua de junho de 2013, temos visto a revelação de fenômenos que, se por um lado não podem ser classificados como novidade, por outro, não encontravam até então espaço suficiente para deixar o estado latente. Em 2013 esse espaço começou a se alargar. Após as manifestações de caráter popular, cujo marco é a luta pela redução do preço do transporte público, vieram também manifestações reacionárias e, em certos casos, com coloração fascista.

Coloração essa que voltou a aparecer no início de 2015, quando, em meio a manifestações pelo impeachment da presidenta da República, alguns chegaram a pedir coisas como a volta de uma ditadura militar. De um modo geral, o tom usado pela imprensa conservadora na cobertura dos protestos de 2015 foi de exaltação do seu caráter democrático, o que, contudo, deve ser tomado de forma relativa: balas de borracha disparadas por polícias militares contra manifestantes em 2013 e selfies tiradas por manifestantes junto a policiais militares em 2015 são amostras de como conservadores são capazes de relativizar o conceito de democracia.

As manifestações de 2015 foram em parte embaladas por forças políticas que, ao recorrer a uma retórica estilo Tea Party — há quem diga que Obama é “comunista” — se aproximam de uma versão doméstica daquilo que Wright Mills chamou de direita prática. Essa comparação, claro, deve ser feita com as devidas mediações, mas na retórica, a direita prática daqui padece de suporte lógico tanto quanto a direita prática de lá. Mas para quem opta pela retórica em detrimento da lógica, pouco importa serem de uma mesma classe os que financiam as campanhas de republicanos e democratas ou de tucanos, peemedebistas e petistas. Não obstante, isso importa a quem pauta a ação por uma racionalidade de tipo instrumental, ou seja, aquela com vistas aos fins e nunca com vistas à tradição.6 Mesmo que nos altos círculos das grandes empresas e de suas associações também ocorram tensões entre práticos e sofisticados,7 é no segundo grupo que estão os principais financiadores de campanhas eleitorais.

Tem-se a impressão que enquanto o avanço da direita prática era percebido como restrito a manifestações de rua ou em redes sociais, os conservadores sofisticados não viram nisso tantos problemas. Aliás, isso não deixou de lhes ser útil na medida que tais manifestações serviram para colocar o atual governo brasileiro na defensiva. No entanto, quando esse mesmo contexto ajuda a criar condições objetivas para que o reacionarismo até então latente encontre terreno fértil em instituições como o parlamento, os riscos representados pela direita prática começam a ser percebidos pelos conservadores sofisticados. Tomo como evidência dessa hipótese o conteúdo do editorial da Folha de S. Paulo do penúltimo domingo, dia 14, onde se lê que

“nos tempos de Eduardo Cunha, mais do que nunca a bancada evangélica se associa à bancada da bala para impor um modelo de sociedade mais repressivo, mais intolerante, mais preconceituoso […] Os inquisidores da irmandade evangélica, os demagogos da bala e da tortura avançam sobre a ordem democrática e sobre a cultura liberal do Estado.”

O referido editorial sugere que o atual presidente da Câmara dos Deputados seria a personificação de um conservadorismo que o jornal, contudo, trata de forma genérica ao colocar-se como defensor da “cultura liberal do Estado” agora sob ataque. No entanto, Cunha — e isso vale também para a parcela da Câmara que ele por enquanto controla — representa aquela figura que Wright Mills distinguiu do conservador sofisticado para classificar como direita prática. A sofisticação conservadora aqui aparece, por exemplo, no referido editorial, cuja defesa da “cultura liberal do Estado,” aliás, reforça essa ideia. Seguindo Wright Mills, uma das condições que faz sofisticados os conservadores sofisticados é a capacidade de tomar e usar retórica liberal dominante em favor de seus propósitos.8

Enfim, parece que forças conservadoras do tipo sofisticado começam a se mover diante das potenciais ameaças do avanço da direita prática. Um desses movimentos foi o recuo tucano de levar adiante a tese do impeachment da presidenta da República. Não por reconhecer a legitimidade desta, mas a tese que teimava em não encontrar-se com um fato determinado deu àquela insistência a cor de golpe, e isso é atitude antes de práticos do que de sofisticados. Outro movimento significativo deu-se na semana retrasada, quando o governador de São Paulo esteve em Brasília negociando alternativa ao formato de redução da maioridade penal atualmente em discussão no Câmara dos Deputados. Logo em seguida, no dia 15, em novo editorial a Folha de S. Paulo fez coro à proposta do governador ao opinar que, em vez da redução, “a solução mais sensata é a de reformar o [Estatuto da Criança e do Adolescente].”

São esses os movimentos, especialmente o editorial que trata “[d]os tempos de Eduardo Cunha,” que agora surgem como sinais do convencimento, por parte dos conservadores sofisticados, de que se quiserem voltar ao poder em 2018, uma de suas tarefas será a contenção do ímpeto obscurantista da direita prática. Mas aqui o termo contenção não deve ser lido como sinônimo de enfrentamento. Poucos têm sido tão úteis aos conservadores sofisticados contra os seus potencias maiores adversários — os quais são inseparáveis do atual governo — em 2018 do que a parcela da direita prática agora reunida em torno de Eduardo Cunha. Outro problema, para os conservadores sofisticados, será resolver a divisão que já se anuncia dentro da sua maior força partidária, mas este é um problema antigo.

NOTAS
1.
 Immanuel Wallerstein. 1954. McCarthyism and the conservative. Masters essay. New York: Columbia University.
2.  C. Wright Mills. 1948. The new men of power, Americas labor leaders. New York: Harcourt, Brace.
3. C. Wright Mills. 1956 [2000]. The power elite. New York: Oxford University Press.
4. Gregory P. Williams. 2013. “Retrospective on the origins of world-systems analysis“. Journal of World-Systems Research, v. 19, n. 2.
5. Daniel Bin. 2015. Entrevista: Immanuel Wallerstein. Margem Esquerda: Ensaios Marxistas, n. 24.
6.  Max Weber. 1922 [1964]. Economía y sociedad: esbozo de sociología comprensiva. México: FCE.
7. C. Wright Mills. 1956 [2000]. The power elite. New York: Oxford University Press.
8. Idem.

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Daniel Bin entrevistou o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein para a nova edição da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas, n.24. A edição conta ainda com um dossiê especial “Cidades em conflito, conflitos nas cidades”, coordenado pelo urbanista João Sette Whitaker Ferreira e artigos de Emir Sader, José Paulo Netto, Luiz Eduardo Soares, Michael Löwy, Flávio Villaça, Mario Duayer, entre outros. Saiba mais sobre a Revista clicando aqui.

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Daniel Bin é professor de políticas públicas na Universidade de Brasília. Doutor em sociologia pela mesma universidade, com estágio de doutorado na Universidade de Wisconsin-Madison, realizou estágio pós-doutoral na Universidade Yale. Dele, leia também A financeirização da democracia brasileira, A (in)visibilidade da luta de classes nas Jornadas de Junho,  “Uma pessoa, um voto”, ou “um real, um voto”? e “O lulismo, a nova política e o libertador“, no Blog da Boitempo.

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O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

Curso completo: A psicopatologia do Brasil entre muros, coordenado por Christian Dunker

curso christian

O psicanalista Christian Dunker foi o curador de um módulo do Café Filosófico da CPFL Cultura baseado inteiramente em sua obra Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015). Ao todo foram quatro encontros, com alguns dos principais pensadores da psicanálise no Brasil hoje. Confira!

O módulo se inicia com uma conferência de abertura do próprio Christian Dunker, que mapeia as três noções de “mal-estar”, “sofrimento” e “sintoma”, que balizam o curso, e introduz o ousado gesto de colocar o Brasil no divã. Nas suas palavras, “para entender o brasil, é preciso imaginá-lo como um agente que sofre, vive às voltas com o mal-estar e é capaz de produzir sintomas. um desses sintomas é a nossa vida em condomínio, uma representação da psicopatologia de um país entre muros: os muros dos diagnósticos da escola, da justiça, das avaliações nas empresas, do trabalho em forma de projetos.” Em seguida, o psicanalista Nelson da Silva Jr. discutirá as noções chave de “sintoma social” e “racionalidade diagnóstica” na historicização de Dunker do sofrimento psíquico no Brasil e as formas de articular ele. Essa abordagem o permite decifrar a dimensão política como fundamental para compreender esta dinâmica. Na sequência, a psicanalista Maria Lívia Tourinho Moretto discute os contornos do nosso sofrimento social à brasileira no interior de uma cultura global do sucesso e questiona a máxima da sociedade contemporânea: “é preciso ser feliz”? Por fim, o filósofo Vladimir Safatle encerra o módulo com um raio-x da “lógica do condomínio”, dispositivo que, na tese de Dunker, seria a matriz fundamental de articulação dos afetos no Brasil contemporâneo. Confira a gravação integral das quatro conferências abaixo!

1. O Brasil no divã: “mal-estar, sofrimento e sintoma”
Com Christian Dunker
Neste primeiro encontro Dunker apresenta as três noções de “mal-estar”, “sofrimento” e “sintoma” no contexto da expansão do uso de diagnósticos clínicos e sociais para definir nossas formas de vida: da dimensão filosófica e existência da angústia que se apresenta no “mal-estar”, passando pelas condições narrativas pelas quais o “sofrimento” se exprime e é reconhecido socialmente, até a ideia de “sintoma” como algo que atrapalha mas também porta uma verdade que ainda não pode ser reconhecida pelo sujeito.

2. Sintoma social e racionalidade diagnóstica
Com Nelson da Silva Jr.
A conversa se dedica a esclarecer os diferentes sentidos da expressão “sintoma social”, que pode encontrada, com significados radicalmente diversos, tanto nos discursos higienistas, quanto nos marxistas, nos gerenciais e nos psicanalíticos. Ao longo da conferência, o psicanalista Nelson da Silva Jr demonstra como estabelecimento de fronteiras, e o exame da racionalidade diagnóstica presente em cada um desses usos exige a explicitação de sua compreensão do que é a vida social em seu princípio, isto é, seu posicionamento político.

3. O sofrimento na nossa cultura do sucesso
Com Maria Lívia Moretto
Neste último encontro, a psicanalista e professora da USP Maria Lívia Tourinho Moretto discute os contornos do nosso sofrimento social à brasileira no interior de uma cultura global do sucesso e questiona a máxima da sociedade contemporânea: “é preciso ser feliz”?

4. A lógica do condomínio
Com Vladimir Safatle
Nesta terceira conversa, o filósofo Vladimir Safatle demonstra como a lógica do condomínio impõe-se enquanto modelo de produção social de afetos. Ele defende que ela só pode ser compreendida no interior da elevação do medo a afeto social fundamental (seguindo com isto uma tradição que remonta a Hobbes), e encerra comentando como tal articulação pode nos dizer muito sobre as formas de sofrimento social em terras nacionais.

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Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros
por Christian Dunker

prefácio
Vladimir Safatle
orelha
José Luiz Aidar Prado (Leia aqui).

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Para descontrair: Christian Dunker desempacota seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma, na edição de estréia do “conversas de estoque” na Boitempo. Entre pilhas e “muros” de livros, o autor discute como a “lógica do condomínio” baliza nossas formas de sofrer e sublinha o papel da cultura em criar narrativas para articularmos e darmos outros sentido ao sofrimento e, enfim, “inventar novas formas de sofrer” – uma tarefa que Dunker coloca como sendo urgente para o Brasil de hoje.

 

Para ampliar a discussão: Não deixe de conferir o debate de lançamento de Mal-estar, sofrimento e sintoma, com Christian Dunker, Paulo Arantes, Maria Rita Kehl e Vladimir Safatle, intitulado “Segregação e ódio no Brasil partido”. Realizado no centro de São Paulo, numa Quadra dos Bancários apinhada de interessados, o evento teve a mediação do jornalista Antonio Martins e discutiu as interfaces possíveis entre psicanálise e política para pensar os impasses do Brasil entre muros.

A alma revolucionária

Christian Dunker_A alma revolucionáriaPor Christian Ingo Lenz Dunker.

Tenho recebido objeções de que minhas ideias em torno da emergência de uma lógica de condomínio no Brasil são aplicadas de modo exclusivo aos condomínios de direita. Aceito parcialmente a crítica de que minha anatomia, ainda em curso, dos pensadores liberais, mesmo os liberais por subtração, deixa de lado os condomínios de esquerda.

Para entender o funcionamento da lógica segregatória na esquerda seria preciso renunciar, ainda que por um instante, ao bestiário atualmente disponível sobre a matéria. Suspender, mesmo que por caridade metodológica, a geografia liberal que postula que a própria divisão entre esquerda e direita é coisa da esquerda anacrônica, pois a validade deste plano “ideológico” foi desativada com queda do muro de Berlim, em 1989. Pois para muitos incautos, a divisão correta se daria entre os de esquerda e as “pessoas de bem”, ou melhor, entre os que “se metem com política” e os que estão realmente interessados em trabalhar e corrigir problemas do mundo. Como nos vinhos, só haveria dois tipos possíveis: os tintos e os ruins. A má nova para esta geografia ingênua é que a alma revolucionária pode não estar na esquerda constituída, assim como a esquerda visível nem sempre é a esquerda “verdadeira”. Sim, a esquerda caracteriza-se pela divisão de correntes, conflitos internos intermináveis, cisões e crises permanentes de identidade. Por isso sua anatomia não fica completa por partições simples como egoísmo ou altruísmo, conservadores ou progressistas.

Até o século XVIII acreditava-se que o coração dos seres humanos era composto por três e não por quatro câmaras interligadas. O mais incrível é que esta crença sobreviveu à descrição completa e correta do sistema circulatório proposta por William Harvey (1578-1657) bem antes disso. Esse é um exemplo clássico de como a ciência nem sempre avança por grande descobertas revolucionárias, mas pela alteração da organização geral do saber e seus modos mais genéricos de colocar e entender problemas. Antes que a medicina de Galeno (que prescrevia três câmeras para o coração humano) fosse questionada pela emergência da clínica moderna, tínhamos que aceitar esta incorreção como um mero detalhe necessário para salvaguardar o sistema. E o coração da anatomia de Galeno possuía três ventrículos simplesmente porque ele dissecou porcos e não seres humanos reais.

De certa forma a descrição corrente da alma do revolucionário está a nos apresentar um retrato galênico composto por três ventrículos, ligados a um espírito de “porco”, por um sistema circulatório pouco plausível. Ao contrário da alma liberal que se farta na guerra de todos contra todos, que justifica muros e mais muros, no interior dos quais os iguais enfim se reconhecerão, a alma revolucionária sofre com uma inadequação congênita a si mesma. Exceto quando assume a forma militante ela não está muito interessada em purificar os outros, mas antes a si mesma. E como ela é uma alma coletiva ela sofre de permanente tendência à autoamputação.

Ao contrário de nossos colegas liberais, que só conseguem perceber aglomerados de indivíduos reunidos circunstancialmente pelo acaso de seus interesses, os revolucionários definem-se pela insatisfação permanente com o uso do pronome “nós”. Enquanto os primeiros querem diminuir o tamanho do mundo em pequenos blocos de propriedades rentáveis, os segundos estão interessados em expandir o tamanho da alma comum e sua expressão coletiva.

Não se trata de “realismo” versus “idealismo”, nem de “pessimismo” versus “otimismo”. Há tolos em todos os lados. Assim como há um terceiro mundo no primeiro mundo, há um primeiro mundo no terceiro mundo. Não se trata tampouco de céticos versus crentes, nem de muçulmanos contra cristãos. A alma revolucionária pode assumir a compleição mais institucionalista ou um corte mais crítico, conforme se alimente ora de responsabilidade, ora de convicção. O que é característico de sua forma de vida é a insubmissão insatisfeita com a sua própria identidade e com o mundo tal qual ele se apresenta em sua tediosa banalidade. Como mostrou Michel Löwy, o anticapitalismo romântico é a fonte esquecida do pensamento de esquerda.

Quando se discute a reformulação da esquerda, quando se pondera o sentido do engajamento institucional, seja sob a forma de movimentos sociais e partidos, seja sob a forma governo, devíamos ter em conta dois fenômenos: nosso cansaço com a representação e nosso complexo de inautenticidade.

CANSAÇO COM A REPRESENTAÇÃO

O cansaço com a representação foi detectado por Ernesto Laclau na tese de que a ideologia não deve ser pensada como um sistema fixo de crenças ou disposições de ação, mas como uma articulação de discurso. Ou seja, as ideias mais libertárias e os valores mais sublimes facilmente se tornam fonte de opressão ou justificativa para os sistemas mais tirânicos e para as práticas mais conservadoras. No começo, certos significantes “flutuantes” são importantes para inscrever nossa demanda. Devemos contar com o fato de que, no segundo tempo, a síncope se revelará e descobriremos que nosso semelhante não estava nesta causa pela mesma causa que “nós”.

A alma revolucionária está sujeita ao cansaço da representação, este truque pelo qual ao nomear um representante, um delegado, uma instituição somos imediatamente demitidos do processo, instilados por dúvidas conspiratórias senão paranoicas. Este exílio faz nosso desejo de mudança degradar-se, graças à circulação política defeituosa, em processos impessoais, administrações corruptas e instâncias imorais. Portanto, não há porto seguro. Não basta sentar em cima de sua teoria, de seu título revolucionário, de seu cargo público para assegurar a criticidade ou pertinência de sua perspectiva ou de sua prática.

Os dois primeiros ventrículos da alma revolucionária dividem-se entre a teoria do Estado e a prática de governo, entre acadêmicos em suas torres de marfim e verdadeiros ativistas das ruas. É a bela alma hegeliana que será tão mais revolucionária quanto menos sujar suas mãos com as impurezas do mundo. É também o dilema relativo ao quanto de corrupção o coração do revolucionário aguenta antes de falecer de vergonha. Quantas concessões ao capitalismo podem ser feitas antes de nos envenenarmos sem volta. Até onde podemos caminhar juntos, porque assim tudo terminará bem? E onde começa a patologia do estar juntos para nos encobrir e nos defendermos de um inimigo comum, ainda pior?

Esta lógica de autosegregação da pureza pode levar qualquer um que trabalhe com lucro e dinheiro a ser um traidor da causa em potencial. Assim chegamos à tese da direita de que de fato, para querer mudar alguma coisa é preciso ser pobre e desinteressado, senão você é traidor. Nesta espécie de circulação por auto-catarse a alma revolucionária termina só e isolada, como o síndico em seu condomínio, só que por outros meios.

COMPLEXO DE INAUTENTICIDADE

O complexo de inautenticidade ataca as duas aurículas da alma revolucionária. Ele pode ser diagnosticado por meio do que Slavoj Žižek chamou de “fantasia ideológica”. O truque fundamental da fantasia é nos fazer acreditar que nós a conhecemos, que nós a dominamos, que nós podemos usá-la em nosso favor, quando, em geral, é ela que está nos usando para extrair um a-mais de gozo. Depois de anos tratada à base de elixires teórico-críticos, de experiências formativas e práxis alternativas a alma revolucionária cede à tentação da soberba veemente e acredita-se imune a tentações. Por isso o sentimento de impostura ou inautenticidade é a percepção sintomática, ainda que difusa, de que motivos insondáveis e pessoais rondam nossas opções políticas.

Nunca vi um liberal com pesadelos para saber se ele é tão radicalmente liberal quanto dele se espera e quanto ele mesmo se espera. Mas esta é uma fantasia endêmica na alma do revolucionário. Uma fantasia que ataca de duas maneiras.

Pela noite ela nos faz crer que nosso desejo não é puro, e que ser um mero executor da lei e da soberana purificação inspirada por Robespierre ainda assim não nos garante a filiação protetora que esperávamos, o sentimento inequívoco de que estamos do lado certo, do lado do bem, do lado de Rousseau contra Hobbes. Mas pela manhã esta experiência de culpa se voltará contra o outro, o macho branco, rico e predador, o porco capitalista de três câmaras na alma. Enquanto dormíamos aos engasgos e soluços ele aproveitava-se de nossas dúvidas para gozar um pouquinho a-mais. Enquanto ele caminha impávido nós nos degladiamos para descobrir quem é o mais revolucionário entre os revolucionários.

A fantasia ideológica da esquerda não tem a ver com o conflito de classes, mas com ressentimento de classe. Não tem a ver com diferença de gênero, mas com ressentimento de gênero. Esta esquerda culpada e denunciativa será também objeto de escárnio de nossos colegas liberais. Eles perceberão na polidez de sua correção política, na defesa fácil das causas indefesas a produção de um estilo de vida orientado para a “personalidade sensível” das classes altas e seus telhados de vidro.

Há uma antiga piada sobre psicanalistas lacanianos e seu modo prolífico e disruptivo de associação. Para fundar uma nova escola de psicanálise basta um psicanalista. Dois são suficientes para tornar tal empreendimento um acontecimento internacional. Mas se você tiver três lacanianos juntos é uma questão de tempo até isso se transformar em uma ruptura inconciliável, motivada pelos mais fundamentais antagonismos epistemológicos, éticos e metapsicológicos. É obviamente uma piada de “condomínio”, uma internal joke, que aponta para a falta de senso de tamanho, a extrema idealização de si mesmo e dos grupos humanos em que se toma parte, bem como o efeito desagregador das ideologias baseadas na autenticidade.

Assim como os trotskistas, guiados pelo ideal de “revolução permanente”, os lacanianos são conhecidos pela sua obsessão com a “formação permanente”. Assim como os seguidores da Quarta Internacional os lacanianos nutrem esta vigilância permanente com relação aos desvios e traições que se pode verificar no manejo dos textos e no estilo de transmissão. Assim como Stalin traiu Lenin, os pós-freudianos traíram Freud. Assim como os escolásticos defendem que a psicanálise é a clínica “limpinha” dos consultórios, os engajados argumentam que as estruturas descem às ruas. É por isso que os autênticos psicanalistas, como os autênticos revolucionários, tão só quanto sempre estiveram em sua relação com a causa, nunca poderiam realmente fazer parte de um clube que os aceitasse como sócios, pois o tal clube rapidamente incorreria em infidelidade de representação ou desvio ético.

A alma do revolucionário também cria condomínios, mas eles são formados por outros tipos de muro: muros de vidros ou de cristal. Seus síndicos são permanentemente apedrejados em atos expiatórios, em rituais de vergonha pública ou em provas e testemunhos de fé. A sua felicidade não é deste mundo, deste Alpha-mundo, mas do outro. A alma revolucionária pode ser uma alma errante rumo a um abismo inexistente, contudo ela ainda tem quatro câmeras (e não três) e respira, desde que ligada a um coração capaz de sonhar.

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No dia 6 de julho, segunda-feira, Christian Dunker debaterá “Avanço conservador e formas de resistência“, com Guilherme Boulos em São Paulo. O evento é gratuito e aberto ao público em geral, sem necessidade de inscrição prévia. Saiba mais clicando aqui. Não perca!

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Christian Dunker debateu “Nacionalismo, identidade nacional e segregacionismo”, com Gilberto Maringoni e Jessé Souza no Seminário Internacional Cidades Rebeldes. Confira a gravação integral da mesa:

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012, seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015). Colabora também com o livro de intervenção Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (Boitempo/Carta Maior, 2015). Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.