Boitempo indica leituras de fim de ano!

Recomendações de leitura 2014Dois mil e crazy, dois mil e catarse, 2014… que ano! A Boitempo preparou uma série de indicações de livros para ler ou presentear os queridos.

Confira abaixo sugestões de nossos funcionários, colaboradores e autores:

A Atualidade da Atualidade da Depressão
Para esta época natalina, repleta de balanços, balancetes e demasiados ajustes de contas com o destino e o mundo, recomendo o livro de Maria Rita Kehl, O tempo e o cão – a atualidade das depressões, que ganhou o prêmio Jabuti de 2010. Para este tempo de distanciamento da pressão e de espera do recomeço, às vezes maníaco do ano-novo, nada melhor que este tempo reencontrado das depressões produtivas e improdutivas. O trabalho da Maria Rita, recém-egressa do brilhante trabalho junto à Comissão Nacional da Verdade, reúne os três movimentos para pensarmos uma psicopatologia crítica, ou seja, uma forte incursão pelas modalidades históricas que construíram nossa atual experiência depressiva do mundo desde sua separação da melancolia, um diálogo transversal com os saberes que universalizam a depressão para a além de sua dimensão patológica, desde a filosofia até a literatura e as artes, terminando pelo retorno ao relato clínico e sua hipótese concernente à experiência do tempo, na fantasia e na posição subjetiva do deprimido.
Discutindo com Alain Ehrenberg, que mostrou porque a depressão é a forma prevalente de mal-estar no enquadramento social do neoliberalismo, e continuando a tradição de crítica da subjetividade inaugurada por Adorno e Benjamin, Maria Rita confirma que há uma psicanálise que consegue dizer mais além de seus próprios muros. Esta analítica do tempo consegue mostrar em ato que a clínica psicanalítica nada mais é do que crítica social feita por outros meios:

“Para este tempo achado, que o sujeito toma para si como momento oportuno (Kairós), o analisando só se torna disponível depois de desprender da posição fantasmática que fazia de seu tempo um movimento de eterno retorno às formas de servidão infantil.”

Boa leitura, para apreciar com moderação, para sorver com cuidado, longe das urgências universitárias.
Christian Dunker, autor

Como vou ministrar um curso de introdução à sociologia clássica no próximo semestre, sinto a necessidade de me atualizar e nada mais recomendável do que o novo livro de Michael Löwy, A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. Como tive a oportunidade de receber Michael na USP no ano de 2012, ocasião em que ele ministrou aulas sobre os temas deste livro, estou familiarizado com o resgate empreendido pelo autor das surpreendentes “afinidades eletivas” anti-capitalistas existentes entre Weber e Marx. Trata-se de uma perspectiva inovadora, principalmente, em relação a Weber, e bastante audaciosa em se tratando de teoria sociológica. Além disso, o livro permite avançar sobre autores, tais como G. Lukács e W. Benjamin, por exemplo, que foram muito influenciados por Weber e cuja contribuição para a reconstrução do marxismo no século XX é verdadeiramente inestimável.
Ruy Braga, autor

Marxismo e Direito: um estudo sobre Pachukanis, de Márcio Bilharinho Naves, desde seu lançamento em 2000 foi um divisor de águas na teoria marxista sobre o direito. Antes de tal obra, muitos ainda trilhavam a ilusão de que reformas jurídicas fossem o meio de, quantitativamente, se chegar ao socialismo. Mas Naves vai às minúcias do pensamento pachukaniano para demonstrar a especificidade do direito no capitalismo. A forma jurídica é espelho da forma mercadoria. O direito, mais ou menos ou diferente, é sempre capitalismo. Já Engels e Kautsky, no primoroso O socialismo jurídico, assim também apontavam no século XIX. Tais reflexões são balizas que fundamentam minhas próprias reflexões, como em Estado e forma política.
Alysson Mascaro, autor
 

Minha indicação não será de um lançamento (embora tenhamos excelentes este ano!), mas de um livro que julgo fundamental, não apenas pelo tema tratado (uma educação revolucionária), mas por ser uma obra acessível, introdutória ao pensamento – por vezes complexo – do grande filósofo húngaro István Mészáros: A educação para além do capital. Nesse pequeno livro, Mészáros afirma que a educação não é um negócio, é criação. Que educação não deve qualificar para o mercado, mas para a vida. O autor ensina que pensar a sociedade tendo como parâmetro o ser humano exige a superação da lógica desumanizadora do capital, que tem no individualismo, no lucro e na competição seus fundamentos. Que educar é – citando Gramsci – colocar fim à separação entre Homo faber e Homo sapiens; é resgatar o sentido estruturante da educação e de sua relação com o trabalho, as suas possibilidades criativas e emancipatórias. E recorda que transformar essas ideias e princípios em práticas concretas é uma tarefa a exigir ações que vão muito além dos espaços das salas de aula, dos gabinetes e dos fóruns acadêmicos. Que a educação não pode ser encerrada no terreno estrito da pedagogia, mas tem de sair às ruas, para os espaços públicos, e se abrir para o mundo. Reflete sobre algumas questões de primeira ordem, tais como: Qual o papel da educação na construção de um outro mundo possível? Como construir uma educação cuja principal referência seja o ser humano? Como se constitui uma educação que realize as transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias?
Pequeno em tamanho, é um livro imenso em esperança e determinação. Nele, o pensador marxista condena as mentalidades fatalistas que se conformam com a ideia de que não existe alternativa à globalização capitalista. Em Mészáros, educar não é a mera transferência de conhecimentos, mas sim conscientização e testemunho de vida. É construir, libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a história é um campo aberto de possibilidades. Esse é o sentido: educar para além do capital implica pensar uma sociedade para além do capital.

Ivana Jinkings, editora

Recomendar livros da Boitempo é fácil! Fazer isso em poucos caracteres é que torna a missão quase impossível! Pra economizar letrinhas, vou me focar nos três lançamentos de estreia do selo Barricada, de HQs, que veio para mostrar que a literatura se renova sempre, em formato e conteúdo. Cânone gráfico, a maravilhosa série, organizada por Russ Kick, da qual acabamos de publicar o primeiro volume, que transporta para a linguagem dos quadrinhos e das ilustrações algumas das mais incríveis histórias escritas desde o começo dos séculos, como o Mahabharata, As mil e uma noites, peças de Eurípides e Aristófanes, romances de cavalaria, sonetos shakesperianos, textos de Benjamin Franklin e muito mais, culminando, neste volume, em As ligações perigosas (só pra dar água na boca, o volume seguinte vai de Kublai Khan a O retrato de Dorian Gray), tudo isso transformado em quadrinhos por gente como Will Eisner, Robert Crumb, Peter Kuper e outros artistas extremamente talentosos. Pra quem gosta de quadrinhos e literatura, mas sabendo que se trata de uma obra em si mesma, não de nenhuma releitura caça-níqueis chatinha. Da alemã Franziska Becker, o álbum Último aviso, com charges selecionadas dessa feminista sagaz e brilhante, capaz de rir de si mesma, do mundo e, pior, de nós leitores, que fechamos o livro com uma imprecisa sensação de que em algum momento já fizemos alguma daquelas coisas ridiculamente humanas. E, por fim, nosso brasileiro, Claun: a saga dos bate-bolas, quadrinho que conta a história dos grupos de foliões mascarados que tomam as ruas do Rio de Janeiro durante o carnaval desde o início do século XX, colorindo a periferia da cidade e fazendo barulho, provocando tumulto e agitando o imaginário dos cariocas – afinal, o carnaval do Rio não se resume às caríssimas celebridades cuidadosamente embrulhadas em anúncios de marcas de cerveja, ele também é contestação, é a época em que, fantasiados, todos podem ser heróis por três dias. A criação e o roteiro são do cineasta Felipe Bragança, a arte é de Daniel Sake, Diego Sanchez e Gustavo Bragança. Divirtam-se!
Bibiana Leme, editora-adjunta

Depois de um ano tão denso do ponto de vista político, social e humano, nada melhor do que recuperar o fôlego tirando uns dias para refletir sobre tudo o que se deu e sobre tudo o que está aí. Bons livros costumam ser os melhores companheiros nessa jornada. E como o tempo é artigo raro mesmo nas férias, recomendo duas leituras breves, pequenos frascos que contêm grandes perfumes, e outra, um pouco mais ampla, de peso histórico.
O ódio à democracia, do filósofo francês Jacques Rancière, numa cuidadosa tradução de Mariana Echalar, pode nos ajudar a entender de onde vem, por exemplo, a absurda grita, em pleno 2014, pela volta do regime militar no Brasil. Em pouco mais de 100 páginas, o autor recua até a Antiguidade clássica e dialoga com pensadores de diferentes épocas para colocar em perspectiva o mal-estar que a palavra democracia vem causando ao longo dos séculos. “Ela não se fundamenta em nenhuma natureza das coisas e não é garantida por nenhuma forma institucional. Não é trazida por nenhuma necessidade histórica e não traz nenhuma. Está entregue apenas à constância de seus próprios atos. A coisa tem por que suscitar medo e, portanto, ódio, entre os que estão acostumados a exercer o magistério do pensamento. Mas, entre os que sabem partilhar com qualquer um o poder igual da inteligência, pode suscitar, ao contrário, coragem e, portanto, felicidade.”
Dando continuidade a essa reflexão, mas num registro um pouco diferente, o economista Marcio Pochmann limpa todo o ranço do senso comum, à direita e também à (pseudo) esquerda, no debate sobre a questão da inclusão social no Brasil do século XXI. Nas quase 150 páginas de O mito da grande classe média, ele nos faz enxergar quanta balela e quanto preconceito há no discurso que quer, a todo custo, enquadrar numa nova classe média a ascensão e o fortalecimento das classes trabalhadoras. Leia com cuidado, especialmente se sua ceia de Natal e de Réveillon estiver rodeada por cozinheiras, empregadas domésticas e babás trabalhando até altas madrugadas em pleno feriado.
E para entender onde tudo isso começou, Trabalhadores, uni-vos!, organizado pelo cientista político italiano Marcello Musto e traduzido por Rubens Enderle (que em 2014 ganhou o Jabuti pela tradução de O capital, Livro I, de Marx), traz os textos originais da Associação Internacional dos Trabalhadores, a I Internacional, que acaba de completar 150 anos. É uma antologia emocionante, da mensagem inaugural – onde se encontra a famosa frase que dá título à obra  – às discussões sobre temas como o trabalho, os sindicatos, as greves, a educação, a Comuna de Paris etc. Tudo demasiadamente atual, como destaca o organizador do volume numa introdução que, além de ser um delicioso banho de história, é um chamado à cidadania. Numa edição caprichada, com uma série de imagens, é, no mínimo, um belo presente de Natal.
Com esses três companheiros de jornada, depois de refletir sobre tudo o que se deu e sobre tudo o que está aí, você certamente vai enxergar com outros olhos tudo o que ainda está por vir. Feliz 2015!
Isabella Marcatti, editora-adjunta

Eu recomendo para as férias a leitura do Cânone gráfico, v.1. Achei muito interessante a ideia de republicar clássicos em quadrinhos. Essa coletânea é ótima para conhecer um pouquinho da literatura de várias partes do mundo. Gostei bastante do que li até agora e adorei as imagens. Não costumo ler quadrinhos, por isso está sendo uma experiência diferente para mim.
Livia Campos, produção gráfica

Em 2012, numa de suas históricas conferências, David Harvey observou quão irrestrita é a criatividade do capitalismo. Não existem limitações para a imaginação deste sistema, que não precisa se preocupar com qualquer princípio ou valor além da perpétua busca pela geração de lucro. Para Harvey, uma das principais causas da dissolução da URSS foi a limitação da criatividade com a qual o socialismo disputava o imaginário social em tempos de guerra fria – a esquerda tem, portanto, o dever de elaborar em novos termos seus discursos e suas bandeiras. Este é o argumento central do artigo “Marxismo e fantasia” (publicado na Margem Esquerda 23) e também a base da militância estética de China Miéville – um dos maiores nomes da ficção científica e do pensamento marxista da atualidade, que temos o prazer de começar a publicar no Brasil este ano. A esquerda precisa abraçar o pensamento fantástico (do que mais são feitas as utopias, os ‘outros mundos possíveis’ e a própria crítica negativa?), superar os vícios culturais elitistas de nossa sociedade e exercitar o pensamento para além dos caminhos que estão dados. Confesso estar apaixonado por essas armas da crítica defendidas por Harvey e Miéville, razão pela minha recomendação não poderia ser outra: A cidade & a cidade, romance de Miéville que pratica ficcionalmente a crítica dos processos urbanos contemporâneos pela qual Harvey se tornou tamanha referência.
Kim Doria, divulgação e eventos

Li recentemente Tempos difíceis, de Charles Dickens, e me encantei. A história parece falar de tempos idos, mas é atualíssima: a exploração, a degradação do meio ambiente, os políticos que parecem viver em outro mundo, as bizarrices que se cometem em nome do status… Dickens é sempre envolvente, mas largar desse livro não é uma tarefa fácil.
Mariana Echalar, tradutora

Eu recomendo a leitura do trabalho de Ludmila Costhek Abílio em Sem maquiagem, que parte de um estudo sério e aprofundado sobre o cotidiano das revendedoras de cosméticos, leva à reflexão não apenas sobre os novos mecanismos de opressão do proletariado contemporâneo, mas também lança um olhar atento para as mulheres dentro desse novo contexto. Pesquisa sensível, é voltada ao trabalho das revendedoras de cosméticos, sem, no entanto, ser um trabalho de gênero, uma vez que fomenta a visibilidade de contextos trabalhistas que, sob a égide do progresso, são naturalizados como “formas alternativas de trabalho”, sem problematização dos mecanismos que os movem. Também amo o Profanações do Agambem. Bom, na verdade, Boitempo é amor <3
Luciana Lima, revisora

Minha recomendação para este fim de ano é Último aviso, da cartunista alemã Franziska Becker. Franziska tem uma forma muito própria de apresentar situações cotidianas, com as quais todos nós nos identificamos, sempre com humor e um olhar ácido bastante divertido e provocador. Por isso, Último aviso combina bem com esta época do ano: é uma leitura deliciosa que, ao mesmo tempo, nos convida a refletir sobre questões de gênero, consumo, política e vários outros temas. Além disso, trata-se do primeiro título do selo Barricada, ótima iniciativa da Boitempo neste 2014 que chega ao fim. E que venham mais novidades em 2015!
Mariana Tavares, revisora

Velhas e novas ameaças do neoliberalismo aos direitos dos trabalhadores

14.12.19_Souto Maior_Velhas e novas ameaças do neoliberalismo aos direitos dos trabalhadoresPor Jorge Luiz Souto Maior.

Muitos olhares desconfiados de parte do setor econômico foram voltados para o Supremo Tribunal Federal depois que algumas decisões progressistas foram tomadas no âmbito daquela Casa a respeito do direito de greve no serviço público, notadamente no que se refere à impossibilidade do corte de ponto e à consequente preservação do salário durante a greve (vide Reclamações ns. 11.536; 11.847; 16.535 e Processo Eletrônico DJe-177).

A repercussão dessas decisões demonstra o quanto as questões trabalhistas se mantêm na centralidade das preocupações sociais, políticas e econômicas e como ainda é forte a resistência à afirmação de direitos trabalhistas na realidade brasileira, sobretudo no contexto neoliberal instaurado a partir da década de 1990, cujo propósito foi, precisamente, reduzir, ou até eliminar, a proteção jurídica dos trabalhadores.

No Brasil, que conviveu com a escravidão em quase 400 de uma história de 500 anos e que ainda convive com estruturas culturais escravistas, o advento dos direitos trabalhistas foi marcado por muita resistência do ainda restrito setor industrial. Depois de instituídos, esses direitos têm sido alvo de constantes ataques desferidos por esse mesmo setor – que só cresceu desde então, vale frisar – com os mais variados adjetivos e estigmas: no começo a legislação trabalhista seria “inoportuna”. Na sequência foi chamada de “fascista”, “partenalista”, “intervencionista”, “retrógrada”… Presentemente, vive sob o fogo das retóricas da “cubanização” e do “bolivarianismo”.

Cumpre compreender que esse modo de refutar a posição do Estado e de suas instituições frente às questões trabalhistas põe em grave risco o projeto constitucional, que está baseado na essência do valor social do trabalho e dos direitos sociais. Quando a retórica do “paternalismo” ganha força os direitos sociais tendem a perder eficácia, não só do ponto de vista da construção teórica, mas, sobretudo, no aspecto da sua concretização, porque a efetividade de muitos desses direitos depende da implementação de políticas públicas que intervenham diretamente nas relações sócio-econômicas, sendo que no que se refere especificamente aos direitos trabalhistas é inegável a necessidade de um Estado que não apenas proclame esses direitos, mas que também garanta a sua aplicabilidade com serviços de fiscalização, impondo limites aos interesses meramente econômicos, notadamente do grande capital.

Quando esse projeto constitucional, que se traduz pela ideia de uma democracia pautada pelo Direito Social, é apelidado de “paternalista” – seja lá o que queira dizer com isso, afinal os direitos liberais clássicos, propriedade e contrato, não existem sem a força coercitiva do Estado tanto para garantir a eficácia dos tratos negociais quanto para impedir a rebeldia dos excluídos do “sagrado” direito de propriedade, ou seja, sem um “parternalismo” em favor da classe dominante – corre-se o risco dos direitos trabalhistas virarem fumaça. Claro que não há nisso muita novidade, pois como já advertia Marx, mais cedo ou mais tarde as coisas se revelam e tudo que era sólido se desmancha no ar…

É, por isso, bastante oportuno verificar o quanto esses ataques ideológicos, que já se expressaram, no início da era neoliberal, em fórmulas como “modernidade” e “globalização”, visam mascarar a realidade da sociedade de classes, trazendo consigo, no âmbito específico das relações de trabalho, para essa mesma finalidade, noções como as de “parceiros sociais” e de “colaboradores”, e que hoje, em época nem tão distinta assim, se valem de outras fórmulas como a do “bolivarianismo”, tudo para minar a eficácia dos direitos trabalhistas, sendo que, presentemente, o risco é ainda maior na medida em que já não se fala mais eufemisticamente em flexibilização e sim de retirada, pura e simples, de direitos.

Claro que nada disso se manifesta de forma clara e mesmo a existência de um projeto neste sentido será negada por todas as formas.

Cumpre analisar, com cuidado metodológico, portanto, o que vem ocorrendo nas relações de trabalho desde a década de 90, pois isso permitirá perceber a continuidade de um projeto que visa minar a força dos direitos sociais e trabalhistas, para a satisfação de interesses estritamente econômicos, sem apoio em qualquer projeto de sociedade, ou seja, apenas para favorecimento do capital que atua em escala mundial.

[Leia o artigo completo em PDF clicando aqui.]

***

Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Lançamento Boitempo: A cidade & a cidade, de China Miéville

A cidade & a cidade, de China Miéville (capa)
A cidade & a cidade
é o livro de estreia do escritor China Miéville na Boitempo, que publicará toda a sua obra (tanto a ficcional quanto a teórica) no Brasil. O autor é um dos maiores nomes da fantasia e da ficção científica da atualidade e um pensador marxista mui original.

O livro foi aclamado com os prêmios British Science Fiction Association, World Fantasy, Arthur C. Clarke e Hugo, o mais importante da categoria. Já está disponível em livrarias de todo o país, dentre elas na Livraria da Travessa, Saraiva e Livraria Cultura!

Quer começar a ler? Baixe uma amostra do livro clicando aqui.

China Miéville é o cara!

“Diz o antiquíssimo ditado: não se julga um livro pela capa. De skinhead hooligan Miéville não tem nada: formado em Antropologia Social por Cambridge em 1994, com Mestrado e Doutorado em Relações Internacionais pela London School of Economics, Miéville atualmente é professor de creative writing na Warwick University. Trotskista de carteirinha e, além disso tudo, é escritor. Dos bons. Mas por que você nunca ouviu falar em China Miéville?”

Fábio Fernandes (tradutor da obra), no artigo China Miéville: este é o cara (que você não conhece)

Quer saber mais sobre o China? Curte a página no Facebook!

Marxismo e fantasia

Este é o tema de artigo de China Miéville publicado na revista Margem Esquerda #23 (que você pode ler aqui), que inspirou o debate de lançamento do livro, entre Fábio Fernandes, Ronaldo Bressane (leia texto de orelha abaixo) e Cynara Menezes. Assista aqui:

Crítica internacional do livro

“Este romance poderia ser classificado como ficção científica, mas vai muito além. É um livro sobre a alienação, o isolamento e a inabilidade de ver o mundo que habitamos.”
Walter Mosley

“Sutil, quase casualmente, Miéville constrói uma metáfora para a vida moderna e prova uma vez mais que é tão inteligente quanto original.”
Michael Moorcock, Guardian

“Uma ideia estranha e engenhosa, tão inteligente e convincentemente elaborada que resultanum romance excepcional: audacioso, original e assombroso.”
Daily Mail

“Kafka e Orwell costumam ser facilmente evocados para qualificar qualquer coisa que fuja um pouco do ordinário, mas neste caso são comparações certeiras.”
The Times

“Um assassinato misterioso que se passa em uma paisagem urbana à Blade Runner. Imagine um conto de duas cidades escrito por Stanley Kubrick e terá uma ideia do que vai aqui.”
Shortlist

“A premissa é espirituosamente elaborada, estendendo-se a cada detalhe da vida. A inventividade e precisão de Miéville são extraordinárias.”
Independent

Recepção crítica no Brasil

“A CIDADE & A CIDADE é um romance policial em um cenário que poderia ser considerado de ficção científico-antropológica, pois é estranhamente fantástico sem envolver magia e tecnologias futuristas ou alternativas.
Em muitas cidades reais, a existência lado a lado de populações, poderes e realidades que se esforçam por não ver uma à outra é rotina. Considere-se, por exemplo, a coexistência da cidade das favelas, tráfico e milícias e de uma cidade maravilhosa da classe média, dos turistas e dos espetáculos no mesmo Rio de Janeiro, frequentemente separadas por uma esquina, ou nem isso. O cenário deste romance apenas leva essa possibilidade ao extremo.”

Antonio Luiz M. Costa, CartaCapital

“É comum jornais e revistas chamarem Miéville de “escritor marxista”, termo que ele não rejeita. — Eu fico um pouco surpreso que minha posição política seja um assunto tão grande para as pessoas — diz. — Posso separar minha atividade política da minha ficção: ir para a porta da embaixada dos EUA em protesto pela morte de Mike Brown em Ferguson é uma coisa, enquanto escrever um livro de fantasia é outra bem diferente. Mas eu não posso separar minhas ideias políticas dos meus livros, porque a maneira como vejo o mundo, o que me inspira, o que me traz prazer e raiva, leva a sentimentos inextricáveis da minha ficção. A ficção não é uma mera expressão, um simples reflexo do pensamento político, até por isso podemos admirar autores com os quais não concordamos. Mas não há como separar as duas coisas.”

André Miranda, O Globo

Leia abaixo a orelha do livro, escrita por Ronaldo Bressane

Olhe à sua volta: existe outra cidade dentro da sua cidade, mas você não está vendo. Fronteiras são mais leves do que o ar; há cidadãos invisíveis a você — você mesmo é invisível a determinadas pessoas. O que é uma cidade, o que é uma nação, até que ponto um lugar compõe a sua identidade? Essas são algumas questões com que se depara o detetive Borlú ao investigar o estranho assassinato de uma jovem na cidade de Beszél — que também pode ser a cidade de Ul Qoma. Essas são também algumas premissas da literatura provocadora de China Miéville. O maior nome inglês da ficção-científica desde J. G. Ballard tem sua obra afinal apresentada no Brasil na excelente tradução do especialista Fábio Fernandes.

Miéville, destacado ativista de esquerda com formação na liberal London School of Economics, é o nome mais quente do new weird — subgênero da literatura de fantasia que atualiza temas da ficção científica, do horror e da literatura especulativa em linguagem realista e registro urbano. Neste romance, Miéville — tal como o mestre Philip K. Dick havia feito em Androides sonham com ovelhas elétricas? — combina a ficção-científica com outro gênero: o policial. À semelhança do autor de O homem do castelo alto, Miéville nos leva sorrateiramente a desconfiar da substância da realidade ao redor, jogando, em uma perspectiva paranoica, com a política e com a metafísica.

A cidade & a cidade habita um mundo estranhamente familiar: uma cidade pós-soviética com um nebuloso passado autoritário. Ao brincar com o paradoxo de Schrödinger (aquele em que o gato está e não está morto ao mesmo tempo — hum, muito complexo pra explicar nesta orelha) e distorcer a física afirmando que dois objetos podem ocupar o mesmo espaço, Miéville propõe que a cidade de Beszél exista no mesmo espaço que a cidade de Ul Qoma. Administrados por uma monolítica autoridade chamada Brecha, os cidadãos aprenderam a “não ver” os “vizinhos” da outra cidade — sob pena de serem multados ou presos: as cidades têm até aeroportos, códigos telefônicos, links de internet, línguas e alfabetos diferentes.

O inspetor Borlú, protagonista e narrador, é um frustrado farejador da verdade — a qual, em termos kafkianos, parece sempre escapar dele por meios burocráticos e regras inescapavelmente sinistras. Borlú crê que o assassinato da jovem tenha a ver com uma passagem ilegal entre as duas cidades, e que o crime seja acobertado pela Brecha. Aos poucos o detetive intui: a jovem estaria envolvida com enigmáticas escavações arqueológicas que levariam à descoberta de uma terceira cidade. Outras mortes tenebrosas surgirão em seu caminho — com a Brecha sempre por trás, colocando a vida de Borlú em risco. Ou não: lembrando o desfecho do conto “O jardim de caminhos que se bifurcam”, de Jorge Luis Borges — autor a quem, sem favor, Miéville tem sido comparado (assim como ocorreu com K. Dick) —, os fatos podem acontecer e não acontecer simultaneamente no extraordinário final de A cidade & a cidade. Agora dê outra olhada à sua volta: você está onde de fato acha que está?

Perfunctório

14.12.18_Izaías Almada_PerfunctórioPor Izaías Almada.

O título é esse mesmo, amigo leitor: PERFUNCTÓRIO.

Qualquer bom dicionário da língua portuguesa explica o significado do adjetivo. Coisa ligeirinha, superficial, feita rotineiramente, sem grandes objetivos, não atendendo a uma utilidade em proveito individual ou coletivo, por exemplo.

E daí? O que é que esse tal de perfunctório é para aqui chamado? O que é que ele tem a ver com o dia a dia de cada um de nós?

Dou uma dica: muitas decisões supostamente impactantes nos campos da economia, da política e da moralização dos negócios públicos no Brasil não passam de medidas perfunctórias. E há muito tempo…

Começaria por dizer que desde o instante em que as naus cabralinas lançaram ferros no litoral baiano, a “terra brasilis” – se não descobriu – com certeza ampliou, com louvor, o jeitinho perfunctório de fazer e administrar grandes negócios e política.

Uma herança portuguesa, cuja intrepidez de seus bravos navegantes quinhentistas mais se caracterizou pela natureza predatória de nossas riquezas naturais e pela firme vocação burocrática. Que o digam os índios remanescentes e os negros, escravizados por mais de duzentos anos e os últimos a serem libertados no mundo. Além, é claro, do atávico e grosseiro machismo disseminado em nossa cultura.

Embora esforçados historiadores e sociólogos pátrios desde antanho tenham mergulhado na interpretação dos fatos e acontecimentos que nos formaram como nação, os anos – em particular os mais recentes – vão comprovando que, com raríssimas exceções aqui e ali, continuamos a trabalhar em cima da perna, perfunctoriamente, com perdão pelo uso do advérbio.

Bom, e daí? Qual é a novidade?

Não se trata da novidade, claro, mas lancemos um olhar – mesmo que perfunctório – sobre as campanhas eleitorais, por exemplo, quando o país consegue respirar um pouco de democracia entre suas ditaduras: ouvimos as mais belas intenções de resolver este ou aquele problema, os indefectíveis auto elogios, as grandes realizações, misturadas que são às tradicionais acusações aos adversários. Um rosário de bobagens que não passa de uma brincadeira perversa com o cidadão.

Faz parte do jogo, do faz de conta, dirão muitos. Sempre foi assim emendarão os resignados. E continuará sendo, perorarão os fatalistas.

Os brasileiros da minha geração se lembram muito bem da corrupção que beneficiou as construtoras na época da construção de Brasília, algumas delas até hoje em franca atividade, quer na realização de obras e também na transferência de divisas para outros países. Corrupção e apartamentos na Avenida Foch em Paris ou na Vila Nova Conceição, bem como fazendas e aeroportos particulares  não são novidades entre nós. Muito menos as propinas internas do dia a dia.

E o slogan ‘rouba, mas faz’ de Adhemar de Barros em São Paulo nos anos 1950? Lembram-se? A eleição de Janio Quadros, com a encenação do uso da vassourinha, repetida anos depois com a eleição do “caçador de marajás”… Portanto, e os exemplos poderiam encher várias linhas do artigo, nada de novo no front… Em corrupção, aliás, as únicas coisas que não são perfunctórias são a grana que corre de mão em mão e os impostos sonegados…

Temos uma justiça perfunctória, de classe mesmo, partidarizada, e uma polícia conivente com as tramóias e a impunidade. Tudo como manda o figurino há quinhentos anos, onde a senzala tem de se submeter aos privilégios – quaisquer sejam eles – dos poucos integrantes da Casa Grande. Há que se criar um, dois, três novos Palmares. Ou um, dois, três novos Guevaras!

Calma, senhor articulista, não vá com tanta sede ao pote, calma! Não seja radical. Agora vai ser diferente.

Não ficará pedra sobre pedra, é isso, caro leitor? Muito embora na construção de Brasília o ditado tenha sido, por necessidade das circunstâncias, exatamente o inverso: era preciso que ficassem pedras sobre pedras, senão… Às vezes caem alguns viadutos por aí.

Está bem, vou me conter um pouco: afinal, novo governo, novas ideias. O tema da governabilidade outra vez em alta. Mãos estendidas ao diálogo e à distensão. Apuradas as urnas, mãos a obra. Quanto à corrupção, tudo será apurado, doa a quem doer. A propósito: do que se trata mesmo a tal história da privataria naquele festival de privatizações e roubalheira acobertado por um imortal acadêmico?

Contudo, como será o novo Joaquim? Servirá ele à economia como o outro se serviu da justiça? De repente o lugar comum vem à tona: no Brasil não se governa sem alianças ou pelo menos sem determinadas alianças. Quem tentou, ou se matou ou foi deposto.

Fazer alianças com o diabo tornará o inferno mais confortável?

Mas o mundo é outro, a realidade é dinâmica, tudo muda muito depressa… O senhor articulista não pensa assim?

Sério? O mundo é mesmo outro? Mudou assim tão rápido? Já não vivemos mais no capitalismo, então? Acabou o mais valor? A exploração do trabalho? Os meios de produção pertencem ao estado? O capital especulativo foi enquadrado? As grandes fortunas foram taxadas? O salário mínimo foi para três mil reais no Brasil? A democracia é participativa?

Lá vem o senhor outra vez com essas ironias… O Brasil não será o mesmo daqui para frente.

Claro que não será. Como é mesmo aquela história dos passos? Um passo atrás e dois à frente? Ou seria um passo à frente e dois atrás? Já faço alguma confusão com esses enunciados.

Boas festas e um ano de 2015 melhor para todos. E aqui, sem ironias.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Berlim: até mais ver

14.12.17_Berlim até mais ver_Flávio Aguiar2Por Flávio Aguiar.

Não, não estou me mudando. Continuarei morando em Berlim, pelo menos pelos próximos anos.

Mas pretendo mudar de assunto.

Não que falte assunto em Berlim, na Alemanha, ou na Europa.

Agora mesmo, por exemplo, dois temas marcantes emergem neste fim de ano.

Um deles é que pela primeira vez há um chefe de governo da Linke (“A Esquerda”) numa província alemã, a Turíngia. Desde a queda do muro (1989) esta província do antigo Leste era governada pela conservadora CDU (União Democrata-Cristã), partido da chanceler Angela Merkel. Na eleição deste ano (na Alemanha as eleições não coincidem, cada província tem seu próprio “timing”) a Linka foi a mais votada, e formou uma coalização com o SPD e com os Verdes.

Nossa! Foi uma comoção, um terremoto! No dia da votação que elegeu Bodo Ramelow, um ex-sindicalista e militante da Alemanha Oriental, houve protestos em frente ao Parlamento local, pedindo sua destituição por ser um remanescente do “comunismo”. (Convenhamos: parece a turma que pede a volta da ditadura no Brasil ou o impeachment da presidenta Dilma.) A chanceler Angela Merkel fez um pronunciamento no Bundestag advertindo o SPD (em coligação com a CDU no plano federal) sobre isso de fazer aliança com a Linke. Um juiz prrovincial está ameaçando retirar a imunidade de Ramelow para que ele possa ser processado por um confuso caso de manifestações pró e anti-nazis em 2010… Enfim, uma melée, para não dizer meleca.

Por falar em nazis, este é o outro assunto em ascensão por aqui neste final de ano. Há uma instituição aqui na Alemanha, que se chama “Casa para Refugiados”. (Como há agora no Uruguai para receber os refugiados de Guantánamo.) Normalmente elas (são várias) recebem refugiados do terceiro mundo. Já receberam, no passado, refugiados do Vietnã. Houve um grave incidente depois da queda do muro: um grupo de neonazis tacou fogo na casa dos vietnamitas e houve vítimas fatais.

Diante da resolução de criar mais uma em Berlim os neonazis se agitaram de novo, e estão fazendo manifestações semanais contra, no bairro, com apoio de parte da população local. Agora o caso se agravou mais ainda, porque na Baviera queimaram uma destas casas (desta vez sem vítimas) e deixaram suásticas nas paredes em volta, de lembrança. Uma confusão, mostrando que a Alemanha também está acertando o passo com outros países da Europa onde o movimento anti-estrangeiros, da extrema-direita, está ganhando impulso – e votos.

Como eu disse, assunto não falta. Mas… assim caminha a humanidade: volúvel, desde os tempos de Adão e Eva. E eu quero mudar de assunto.

Então de momento aproveito a despedida do ano para me despedir também das “Crônicas de Berlim”. Vou para outro rincão.

Rincão? Para a cozinha, melhor falando.

Faz tempo estou planejando escrever um livro de crônicas encadeadas, chamado de “A conquista da cozinha”. Não é um livro de receitas, embora algumas venham eventualmente a comparecer. Trata-se de um livro épico, sobre a conquista de um território, algo assim como  a Ilíada, ou dos sete mares – como no caso dos Lusíadas.

Minha cidade murada, meu mar proibido era a cozinha, território exclusivo das mulheres, fossem donas de casa ou empregadas domésticas. Havia a churrasqueira, é claro, pois estávamos no Rio Grande do Sul. Até mesmo a churrasqueira invisível, aquela feita apenas de uma trempe (grelha no resto do Brasil) com pés ou simplesmente disposta sobre uma armação de tijolos, ou ainda os espetos cravados na terra, no caso do método ser o do fogo de chão, uma vala cavada e cheia de carvão. Este era um território exclusivamente masculino (agora não é mais, o tempora, o mores, as mulheres estão até usando bombachas!).

Mas a cozinha não: aquilo do arroz-feijão de todos os dias, as massas, os bifes, as saladas, as sopas, as polentas, as sobremesas, os tachos de goiabada, as galinhas na panela ou no forno (galeto era do mundo da churrasqueira), o fogão, primeiro a lenha, depois a gás, o fogareiro a querosene, todo este mundo pertencia somente às mulheres.

Mas o fato é que pouco a pouco, por vezes em batalhas fragorosas e renhidas, por vezes através da infiltração sibilina ou da espionagem solerte e suspicaz, terminei por adentrar, invadir e conquistar esta Tróia que parecia inexpugnável, cruzando este oceano da alquimia doméstica. Esta é a história que pretendo contar em 2015.

Feliz Natal, Passagem de Ano, e até lá!    

14.12.17_Berlim até mais ver_Flávio Aguiar1

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Cultura inútil: Romanos comiam rabudos

14.12.17_Mouzar Benedito_Romanos comiam rabudosPor Mouzar Benedito.

Muita gente se horroriza com hábitos alimentares de certos povos. E quase todo mundo tem nojo ou medo de rato. Mas há exceções. No Sertão nordestino, nas grandes crises de fome, há muitas histórias de gente caçando rato para comer. Lá, chamam rato de “rabudo”. Na viagem de volta ao mundo, de Fernão de Magalhães, houve uma calmaria no Oceano Pacífico, não havia ventos e as caravelas não andavam, não chegavam a lugar nenhum, e a comida acabou. Não sobrou um rato nas caravelas, comeram todos, depois passaram a comer as botinas deixadas de molho um tempão na água pra amaciar. Em Roma, ratos silvestres eram comido não por necessidade, era uma comida muito apreciada. Um acepipe. Muitos romanos criavam ratos silvestres em casa, colocando-os em gaiola e alimentando com sementes, até chegar o ponto em que eram abatidos e traçados com muito prazer.

***

Comer lesma? Que nojo! Ora, a falta do que comer pode mudar esse conceito: numa crise no século XIX, na França, com a falta de comida, o povo apelou para os caracóis, e assim o escargô – nome do dito cujo em francês – passou a ser um prato requintado. Comeram tantos, e gostaram, que quase acabaram com eles. E começaram a criar para comer.

***

Quando o Padre Cícero morreu, em julho de 1934, houve luto por todo o Nordeste. Mas uma mulher moradora de Palmeira dos Índios, em Alagoas, disse que ia usar luto sim, mas não pelo padre e sim pela sua cachorra que morreu na mesma época. Daí, diz a lenda, virou cachorra e passou a latir e a assombrar a região, ficando conhecida como “A cachorra de Palmeira”.

***

O hábito de mastigar chiclete, quem diria, ajudou muito nas pesquisas sobre o povo maia. O chicle, matéria prima do chiclete, era obtido a partir da seiva do sapotizeiro. Trabalhadores que entravam nas selvas atrás de sapotizeiros para tirar a seiva acabavam encontrando ruínas maias cobertas pelo mato e passavam a informação aos arqueólogos.

***

As primeiras escolas de farmácia no Brasil foram criadas em 1832, na Bahia e no Rio de Janeiro. Depois, vieram a de Ouro Preto, em 1837; a de Porto Alegre, em 1896; e a de São Paulo, em 1898.

***

Até o fim do século XVII, as porcelanas legítimas só eram fabricadas pelos chineses. Havia imitações feitas na Itália, mas foi um saxão que conseguiu descobrir o “mistério” das porcelanas chinesas e fabricar peças verdadeiras pela primeira vez no Ocidente. É a porcelana de Dresden.

***

Se você perguntar a um legítimo caipira o nome dos três reis magos, ele responderá: “Bartazá, Gaspá e Brechó”. Belchior vira Brechó na pronúncia caipira. Mas no Rio de Janeiro também havia um Belchior que ficou conhecido como Brechó, no século XIX. Ele abriu a primeira loja de objetos usados (inclusive roupas) da cidade, e por isso essas lojas passaram a ser chamadas de brechó. Dois sinônimos de brechó são hoje praticamente desconhecidos: adelo (ou adeleiro), de origem árabe, e brique-a-braque (do francês bric-à-brac).

***

As tropas que depuseram Dom Pedro II e proclamaram a República levavam uma bandeira que era uma espécie de cópia da estadunidense, só que com as cores do Brasil, porque os republicanos não tinham ideia de uma bandeira republicana. Em seguida, Décio Villares desenhou uma bandeira de acordo com o que queriam os positivistas, incluindo o dístico “Ordem e Progresso”.

***

O silenciador de arma de fogo foi inventado em 1909, pelo estadunidense Hiran Percy Maxim. Outro gringo, Jaime Ritty, inventou a caixa registradora em 1879.

***

As sandálias havaianas foram lançadas em São Paulo, em 14 de junho de 1962. A empresa que a produzia deu esse nome porque, segundo informou, Havaí lembra sol, praia, calor e charme.

***

Muitos cangaceiros tinham como apelidos nomes de aves brasileiras. Aí vão alguns deles: Xexéu, Andorinha, Coruja, Asa Branca, Beija-flor, Azulão, Azulão Segundo, Pássaro Preto, Sabiá, Mergulhão, Paturi, Passarinho, Gavião, Bem-te-vi, Juriti, Bicudo e Marreca. Outros tinham apelidos que dão ideia de terem sido brabos pra chuchu: Cobra Preta, Jararaca, Fato de Cobra, Moita Braba, Tempestade, Trovão, Casca Grossa e Lasca-Bomba. Em compensação havia uns que deviam ser bem bonzinhos: Criança, Cuscuz, Pensamento, Pirulito, Paizinho, Pai Véio e Bom Devéra.

***

Basílio II de Constantinopla usava o cognome Bulgaroktonos, que significa “matador de búlgaros”. Em 1014, querendo acabar de vez com uma guerra iniciada havia quarenta anos, ele tinha quinze mil prisioneiros búlgaros e resolveu devolvê-los à Bulgária e avisou Samuel, o líder búlgaro, que seus soldados estavam sendo devolvidos. Mandou então cegar quase todos eles, deixando só 150 cegos de um olho só. Cada um desses tinha, então, que conduzir cem búlgaros cegos de volta à sua pátria. Samuel foi receber seus soldados de volta e teve um choque tão grande ao ver aquela cena que teve um derrame e dois dias depois morreu.

***

Assim falou Mark Twain: “Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que não mostra a ninguém”.

***

Em 1851, houve um surto de febre amarela na região de Belém, capital do Pará. Segundo alguns moradores, antes do surgimento desse surto, em várias tardes sucessivas baixou um nevoeiro escuro, com ar pesado, e mau cheiro. Esse nevoeiro ia de rua em rua, contavam. Como para os indígenas tudo na natureza tem uma mãe (Cy, em tupi), e a presença da cultura indígena era forte na região, acharam que esse nevoeiro é que trouxe o surto, diziam que ele era a “mãe da peste”. Daí, provavelmente, surgiu a expressão que foi muito utilizada. Quem não ouviu dizer que “Fulano é mais feio do que a mãe da peste”?

***

Segundo o censo de 1970, dos Estados Unidos, naquele ano havia 2.983 homens viúvos aos 14 anos de idade. E 289 mulheres com essa idade já eram viúvas ou divorciadas.

***

Para construir o Canal do Panamá, os Estados Unidos provocaram a divisão da Colômbia, que não concordava com os termos que os gringos queriam impor. Assim, surgiu o Panamá, uma secessão da Colômbia, que aceitou o acordo desproporcional favorecendo os Estados Unidos. Foi criada uma “Zona do Canal” dominada pelos gringos, e nela o governo panamenho não tinha nenhum poder. Mas pelo acordo, a bandeira dos Estados Unidos na Zona do Canal seria substituída pela do Panamá, no dia 1o de janeiro de 1964, cinquenta anos depois da conclusão das obras. Em janeiro daquele ano, estudantes panamenhos tentaram substituir a tal bandeira, mas os gringos não aceitaram. Reprimiram violentamente, matando um número de panamenhos que varia conforme a fonte, de 15 a 28, e ferindo centenas. Mas o comandante militar dos Estados Unidos minimizou a coisa: “Só foram usadas balas de caçar pombos”.

***

Em 30 de abril de 1912, foi assentado o último dormente da ferrovia Madeira-Mamoré, no atual estado de Rondônia. Cerca de 30 mil pessoas morreram na construção. Ela foi oficialmente inaugurada no dia 1o de agosto daquele ano. Em 10 de julho de 1972, locomotivas da estrada de ferro Madeira-Mamoré, em Rondônia, apitaram durante cinco minutos, despedindo da população: a ferrovia encerrava suas atividades.

***

A sirene foi inventada pelo francês Charles Caignard de la Tour, em 1822.

***

Algumas invenções que usamos no nosso dia a dia sem pensar que foram feitas por brasileiros: o escorredor de arroz, criado pela dentista Therezinha Beatriz Alves de Andrade; o bina (identificador de chamadas telefônicas), pelo mineiro Nélio José Nicolai… e quando fazemos ligações telefônicas a cobrar, nem pensamos que seu inventor é Adenor Martins de Araújo. Ah, o cartão telefônico usado no Brasil (é diferente do usado em outros países) foi criado na Unicamp, por Nelson Guilherme Bardini.

***

Um narcótico muito eficaz produzido na Alemanha tinha uma marca inspirada na palavra herói, por seu efeito extraordinário. A marca comercial, em alemão, era Heroin. O termo entrou na linguagem científica no final do século XIX, mas a heroína acabou sendo proibida no mundo todo.

***

A primeira vez que a seleção brasileira de futebol jogou com a camisa amarela foi em 1954, na Copa realizada na Suíça.

***

O maior goleador de uma Copa só foi o francês Fontaine, que em 1958, na Suécia, marcou 13 gols… Quer dizer, francês entre aspas: ele nasceu no Marrocos. Era filho de um funcionário francês.

***

O Olodum, bloco-afro do carnaval de Salvador, na Bahia, foi fundado em 25/04/1979, como opção de lazer aos moradores do Maciel-Pelourinho, garantindo-lhes o direito de brincar o carnaval em um bloco e de forma organizada. Depois da estréia, no carnaval de 1980, a banda conquistou quase dois mil associados e passou a abordar temas históricos relativos às culturas africana e brasileira. O primeiro LP da banda, chamado Egito, Madagascar, foi gravado em 1987 e estourou na Bahia, com a música Faraó.

***

Quem introduziu a marcação de gado na América foi Hernán Cortez, o conquistador do México. Vaca ou cavalo marcado com três cruzes, todos sabiam: era dele. O costume se estendeu pelas pradarias de onde viria a ser o oeste dos Estados Unidos, onde o gado era criado solto.

***

A América tem seu nome em homenagem ao navegador italiano Américo Vespúcio, que esteve por aqui a serviço da Espanha e de Portugal. Colombo, o “descobridor” da América, também era italiano, a serviço da Espanha. Cabot (cujo nome verdadeiro era Giovanni Caboto), comandou os primeiros navios ingleses que chegaram à América. Mas nenhuma embarcação italiana esteve na América na época.

***

Em Roma, quando alguém casava, espalhava-se gotas de mel na soleira da casa dos noivos. Daí, passaram a chamar de lua-de-mel a primeira fase do casamento.

***

Cada um dos cinco anéis entrelaçados que simbolizam os jogos olímpicos representa um continente. O azul representa a Europa, o preto a África, o amarelo a Ásia, o verde a Oceania e o vermelho a América.

***

De 1959 a 1964, a Guerra do Vietnã era mais ou menos restrita aos Vietnãs do Norte (comunista) e do Sul (capitalista), embora houvesse apoio indireto da União Soviética ao Norte e dos Estados Unidos ao Sul. Em 4 de agosto de 1964, os Estados Unidos alegaram que torpedeiros do Vietnã do Norte haviam atacado navios estadunidenses no Golfo de Tonquim e entrou com tudo na guerra. A informação era falsa, só uma desculpa para sua intromissão direta. A guerra acabou se alastrando para os países vizinhos.

***

Sempre que ia presidir reuniões oficiais em sua corte, a bela rainha Cleópatra, do Egito, usava barbas postiças.

***

Você conhece um esporte chamado mintonette? Esse é o nome que Willian G. Morgan deu ao esporte que inventou em 1895, quando era diretor de educação física da Associação Cristã de Moços da cidade de Holyoke, Massachusetts, Estados Unidos. Na época, era moda um esporte criado quatro anos antes, o basquete, muito bom para jovens, mas cansativo demais para pessoas um pouco mais velhas. Por sugestão de um pastor, Morgan criou um esporte mais adequado para essas pessoas. No ano seguinte, o mintonette mudou de nome, passou a se chamar volleybol, é o vôlei de hoje. Em 1910, o Peru foi o primeiro país sul-americano a praticar o vôlei. O primeiro campeonato sul-americano de vôlei aconteceu no Brasil, na quadra do Fluminense, Rio de Janeiro, em 1951. O Brasil foi campeão masculino e feminino.

***

O recorde de público do Pacaembu foi batido em 23 de maio de 1945, quando Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, estreou no São Paulo, contra o Corinthians, com 74.078 pagantes de ingressos. Leônidas, famoso pelos gols de bicicleta, tinha vindo de três temporadas de sucesso no Flamengo.

***

A primeira mulher a tornar-se senadora no Brasil não tinha nada de progressista. Eunice Michiles, da Arena do Amazonas, era suplente e assumiu o lugar do titular, em 11 de maio de 1979.

***

O nome do alfabeto cirílico, usado nos idiomas russo, bielorrusso, búlgaro, sérvio, cazaque e outros de países da antiga União Soviética, deve-se a São Cirilo, que viveu de 827 a 869. Ele e seu irmão, São Metódio, eram missionários e criaram esse alfabeto no século IX, usando caracteres de outras línguas, como o hebraico e o grego, para transcrever a Bíblia para línguas eslavas.

***

Artéria significa “condutor de ar”. Esse nome foi dado pelo médico grego Praxágoras, que pensou que as artérias transportassem ar. Nos cadáveres, geralmente elas estão vazias.

***

Rosário, poeta popular de Nova Resende, chamava seus poemas caboclos de “décimas”. Aí vai o trecho inicial de uma de suas décimas:

Cachaceiro entrô na venda,

Sentiu mágoa e chorô,

Quando o vendeiro disse

Que a cachaça cabô.

 

Ó, que notícia cruel,

Ó, que notícia tirana!

Num sei pra que tanto engenho,

Num sei pra que tanta cana!

***

Assim disse Leon Tolstoi, horrorizado ao ver uma execução pública em Paris: “Jamais, sob qualquer circunstância, servirei a nenhuma forma de governo, seja lá qual for”.

***

Ou clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Modernidade de Marx

10295282_960852500595792_4868578729640796248_oPor Miguel Urbano Rodrigues

No Rio de Janeiro, em casa de uma amiga, caiu-me nas mãos por acaso um daqueles livros raros que nos lançam em meditação inesperada.

O título da edição brasileira, A Armadilha da Globalização, não é esclarecedor. Foi editado em 1998 pela Globo. Os autores são dois jornalistas alemães, Hans Peter Martin e Harald Schumann.

Hans Peter foi um dos três jornalistas convidados a acompanhar um estranho evento internacional realizado num hotel de luxo em São Francisco, em 1995. O promotor do Encontro, que não mereceu atenção dos media estadunidenses, foi Mikhail Gorbatchov. O tema era muito ambicioso: O futuro da Humanidade.

Participaram 500 representantes da chamada elite mundial, entre os quais George Bush pai, Margaret Thatcher, Ted Turner, da CNN, eminentes professores de Harvard e Oxford e economistas e sociólogos vindos da Europa, de Tóquio e Pequim.

Os debates duraram três dias e as intervenções não podiam exceder 5 minutos, com os pedidos de apartes limitados a 2 minutos.

Houve consenso relativamente a uma “tese” de David Packard, o poderoso patrão da Hewlett Packard. Apoiado em previsões estatísticas, afirmou com convicção que em meados do século XXI 20% da população mundial será suficiente, graças aos progressos da ciência e da técnica, para garantir o bom funcionamento da economia. Ficou implícito que uns 40% das classes médias então existentes terão uma vida agradável, mais ou menos ociosa por serem supérfluos para a produção.

Não ficou, porém, claro qual seria a função dos restantes 40%.

Nenhum participante defendeu a necessidade de eliminar essa fração sobrante da humanidade. Mas de algumas intervenções, aplaudidas, transpareceu que guerras, secas, inundações e epidemias incontroláveis contribuiriam para que a população do planeta Terra fosse reduzida ao nível considerado adequado.

Interessado em conhecer a repercussão desse Seminário da elite da Finança mundial, soube por um amigo americano que Gorbatchov foi, no final, efusivamente felicitado.

A HISTÓRIA NÃO ACABOU

A previsão sobre o Fim da História foi  formulada pelo norte-americano Francis Fukuyama em l889. Esse funcionário do Departamento de Estado, hegeliano fora de tempo, festejou prematuramente a morte do comunismo, proclamando a eternidade do neoliberalismo. Transcorridas décadas, o seu exercício de futurologia é ridicularizado inclusive por acadêmicos de direita.

O “RENASCIMENTO” DO MARXISMO

A História continua e a crise mundial iniciada nos EUA desacreditou o neoliberalismo. Quanto ao marxismo, voltou a despertar um enorme interesse em escala mundial.

O Manifesto Comunista tem sido reeditado em dezenas de países. Congressos sobre Marx e a sua obra são promovidos na Europa, na América Latina, na Ásia. Em França, um Seminário sobre História do Marxismo, promovido por Jean Salem, é acompanhado na Internet por umas 30.000 pessoas. Nos últimos anos, Salem tem corrido o mundo para falar sobre Marx em universidades europeias, asiáticas, africanas e latino-americanas. Ensaios sobre o pensamento do autor de O Capital são editados em muitas línguas.

Marxistas como o húngaro István Mészáros, o italiano Domenico Losurdo, o inglês David Harvey, o alemão Michael Krakte, o argentino Claudio Katz, os franceses Georges Labica e Jean Salem adquiriram prestígio mundial com a publicação de trabalhos que confirmam a extraordinária atualidade da obra de Marx.

A ofensiva do capital contra as grandes conquistas dos trabalhadores posteriores à da II Guerra Mundial, desencadeada após 1973, acentuou-se depois do fim da URSS. A contrarrevolução neoliberal, liderada por Thatcher e Reagan, tirou da gaveta as teses ultramontanas de Hayek e em poucos anos desmantelou na União Europeia o  chamado “estado do bem-estar social”.

A DESIGUALDADE AUMENTOU

Os mais ricos enriqueceram prodigiosamente, as massas oprimidas empobreceram e uma percentagem considerável vegeta hoje na pobreza ou numa miséria absoluta.

Um relatório da ONU divulgado em 1990 informava que 358 bilionários concentravam na época  um patrimônio equivalente à renda total de 45% dos cidadãos mais pobres do mundo 2.300 milhões de pessoas. Os três primeiros da lista tinham fortunas superiores ao PIB de países com 600 milhões de habitantes. Desde então o fosso aprofundou-se e houve mudanças na pirâmide dos bilionários. Hoje o homem mais rico do mundo é o mexicano Slim, que ultrapassou o americano Bill Gates, da Microsoft. Essa troca de lugares é esclarecedora do nível da exploração a que são submetidos os trabalhadores do México.

As relações de poder alteraram-se profundamente no último quarto de século. A URSS desagregou-se, a Rússia e os países da Europa Oriental não são mais socialistas; a China, sob a direção de um partido comunista, é um gigante mundial que pratica um capitalismo atípico; e os EUA, incapazes de superar a crise estrutural do capitalismo, desencadeiam guerras de saque na Ásia e na África no âmbito de uma estratégia de dominação planetária.

Um sistema midiático perverso, que desinforma a Humanidade, tornou-se o instrumento de poder fundamental para o imperialismo. O desencadeamento das agressões contra países que os EUA pretendem ocupar e saquear é sempre precedido de campanhas que as justificam em defesa das liberdades, da democracia, dos direitos humanos…

Desmontar a falsificação da Historia é, portanto, hoje uma exigência na luta contra a alienação dos povos. Nunca foi tao necessário compreender o mundo e a estratégia da ideologia hegemônica, o capitalismo. Essa situação favoreceu o “renascimento” do marxismo. Daí a importância dos intelectuais que contribuem para a modernidade de Marx neste início do seculo XXI.

DAVID HARVEY

Em recente visita ao Brasil, Ivana Jinkings ofereceu-me parte da monumental obra de David Harvey, nomeadamente a segunda edição de Os Limites do Capital.

Publicado em 1982, esse livro não se desatualizou, pelo contrário. Ajuda-nos a compreender uma humanidade diferente, ameaçada de extinção por um sistema que, sob a máscara da democracia, é tao perigoso como o nazismo.

Harvey não é um revisionista. Em Os Limites do Capital  propõe-se a facilitar o entendimento dos textos do genial filósofo alemão, “adaptá-los de maneira que possam lidar com as complexidades da nossa época”.

O objetivo é compreender um tempo em que o capitalismo, como ele afirma, se consolidou em países como o México, a Africa do Sul e a India e conseguiu implantar-se na Rússia e na China.

Harvey nos lembra que “o significado do Estado mudou dramaticamente nos últimos 30 anos e que o principal agente de pressão nessa mudança foi algo chamado globalização”. Alinha com aqueles que “consideram o Estado como um momento vital no dialéctica e na função contraditória da acumulação do capital”.

Noutro dos seus livros, o geógrafo britânico define o novo imperialismo como “fusão contraditória da política do Estado e do império e dos processos moleculares da acumulação do capital no espaço e no tempo”.

Harvey, creio, cumpre hoje um papel que lembra o do francês Georges Politser no início do século XX quando tornou o marxismo acessível a milhões de operários. Harvey dirige-se a um público diferente, de intelectuais e jovens estudiosos do marxismo, mas isso não retira importância à sua obra.

Nestes dias de confusão ideológica em que partidos como o Syriza grego e o Podemos espanhol, semeiam a confusão em meios progressistas ao surgirem com máscara de esquerda, os livros de David Harvey representam uma valiosa contribuição para o regresso de Marx.

Verifiquei, sem surpresa, no Brasil que a intelectualidade burguesa promove ali com entusiasmo o livro O capital no século XXI, de Thomas Piketty. Tal como em Portugal, tentam apresentar o autor como um continuador de Marx quando, na realidade, o acadêmico francês é um reformador do capitalismo com uma mundividência antagônica à marxista.

Neste tempo de barbárie capitalista e de luta creio que a leitura da obra de David Harvey seria útil a dirigentes de partidos comunistas europeus que acreditam ingenuamente na possibilidade de contribuírem para a futura construção do socialismo utilizando em benefício próprio as instituições criadas pela burguesia.

 Vila Nova de Gaia, 5 de Dezembro de 2014

***

Miguel Urbano Rodrigues é um jornalista e historiador português. Nascido em Moura, em 1925, passou 20 anos exilado no Brasil entre as décadas de 50 e 70. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

O Relatório da Comissão da Verdade e a batalha das memórias

14.12.12_Edson Teles_CNV[Colegiado apresenta o relatório final da CNV à Presidente; da esquerda para a direita na imagem: Maria Rita Kehl, Dilma Rousseff, Pedro Dallari, Paulo Sergio Pinheiro e Rosa Maria Cardoso da Cunha]

Por Edson Teles.

Dia 10 de dezembro de 2014 é a data na qual pela primeira vez o Estado brasileiro corrobora um documento, ainda que tímido, com um quadro mais consistente das várias e graves violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura militar. Neste dia ocorreu a divulgação do Relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Foi preciso transcorrer três décadas entre o fim da ditadura e o Relatório para que as instituições do Estado de Direito fizessem o reconhecimento daqueles eventos históricos de violência do Estado. Com todas as suas dificuldades de trabalho e sofrendo de limitações institucionais congênitas e de sabotagem por parte das Forças Armadas e de outros setores do Estado, a CNV fez parte de um processo de lutas mais amplo do choque entre memórias antagônicas que se relacionam diretamente com a política do presente e da democracia.

Após estas décadas de retorno à democracia, consolidou-se no país uma democracia de segurança cujo projeto político é a manutenção de uma zona de conforto para determinada aristocracia política e econômica. A ideia de segurança na política democrática se expressa na manutenção de uma ordem na qual pobres, jovens, moradores da periferia, mulheres, negros, manifestantes são subjetividades construídas para serem as vítimas. Para estes, autoriza-se o uso da violência abusiva e discriminatória do Estado. O que vemos no atual Estado de Direito é a prática da tortura, do excesso e da agressão dos agentes das forças de segurança pública, os depósitos de pessoas encarceradas e um sistema judiciário viciado pela lógica de favorecimento aos proprietários. O Estado brasileiro de hoje, em termos de sua estrutura de vigilância e controle, é tão violento quanto o de ontem.

Diante deste quadro do presente, um relatório da CNV que aponte uma estrutura estatal de repressão e violência, com função clara de proteção da propriedade privada, dos acordos entre as aristocracias políticas e dos grandes grupos econômicos lança luz sobre os atuais conflitos da democracia.

As batalhas de memórias hoje evidenciadas, por um lado, com o esperneio dos militares (eles têm pedido na Justiça a suspensão da divulgação do Relatório) e de manifestantes exigindo uma intervenção militar (em número reduzido, mas com grande espaço na mídia e caminhando junto com os atos da oposição institucional tucana); e, por outro, com a mobilização de dezenas de comissões da verdade nos vários âmbitos da vida institucional e de manifestantes de movimentos sociais indicando a ligação da violência estatal de ontem com a de hoje, têm uma significação muito mais forte do que a dificultosa escrita da história dos anos 60 e 70.

Os atuais conflitos desenhados como uma disputa entre as vítimas da ditadura e uma direita militar e bestializada tem a marca de um simulacro da verdadeira batalha. O que de fato parece ocorrer neste momento de divulgação do Relatório da CNV é o registro da memória de lutas populares, de suas vitórias e derrotas na resistência a uma sociedade elitizada, discriminatória e violenta que tem no Estado um lugar de manutenção da desigualdade social.

Há uma disputa maior cuja batalha discursiva em torno do Relatório é somente a ponta mais evidente no momento. Como em qualquer processo de mudança a suspensão do percurso ordinário das coisas e fatos desperta condições para o acesso ao que até então se mostrava como impossível. O que se expõe no Relatório da CNV é a coordenação centralizada de um processo repressivo, mostrando um projeto político cujo executor é um Estado violento, estejamos em ditadura ou em um estado de direito.

Obviamente, o regime político do Estado de Direito difere profundamente da ditadura. Porém, esta grande diferença histórica, proporcionando uma série de direitos, nos permite escancarar esta luta entre projetos políticos antagônicos, neste caso colocada no campo da batalha de memórias.

As instituições tradicionais da política no país já naufragaram no processo de transição e no modelo de democracia de segurança acertada nos pactos entre esta tradição, o Estado e os proprietários do capital. O conflito de fato experimentado é entre as novas possibilidades de ação política de transformação e a necessidade de controle e eliminação delas.

***

Para aprofundar a discussão sobre a herança social, política e cultural da ditadura militar, recomendamos a leitura de O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), coletânea de ensaios organizada por Edson Teles e Vladimir Safatle. A versão eletrônica (ebook) está à venda pela metade do preço do livro impresso. Compre nas livrarias da TravessaSaraiva e Gato Sabido.

Edson Teles é autor de um dos artigos que compõe a coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, que tem sua versão impressa vendida por R$10 e a versão eletrônica por apenas R$5 (disponível na Gato Sabido, Livraria da Travessa e outras).

***

Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Ao vencedor, as batatas

14.12.08_Flávio Aguiar_Ao vencedor as batatasPor Flávio Aguiar.

A frase famosa do filósofo aloprado (melhor que “maluco”) Quincas Borba, amigo de Brás Cubas e de Rubião, serve até hoje para ironizar alguma disputa meio inútil. Ao invés de medalhas, batatas: é nisto que a vida dos simples se resume.

Mas a frase pode ter outros sentidos.

Quem visita Berlim, tem que visitar Potsdam, ao lado. Por várias razões, e uma delas é Sans-Souci, o mini-palácio erguido pelo rei da Prússia, Frederico II, o Grande (Friedrich II, der Grosse) para disfrutar do verão.

Mini-palácio em termos: os jardins são vastos, e peculiares. Disposto em plataformas ascendentes para quem chega por eles, espelham a alma do rei. Fascinado pela Itália (ainda futura Itália, à espera de Garibaldi), Frederico II quis criar em seu palácio de verão uma réplica da terra de Dante, Maquiavel, Petrarca e tantos outros.

Nas paredes das plataformas (umas vinte) plantou figueiras. Como estas não sobreviveriam ao rigoroso inverno prussiano, construiu galerias vidradas, com portas que se fecham, para protegê-las das intempéries. O resultado foi que as figueiras, alhures árvores robustas, de troncos amplos que necessitam de vários homens de braços dados para serem cingidas, se desenvolveram ali como trepadeiras de troncos finos e galhos frágeis – mas que resistem até hoje.

Porém é verdade que é um mini-palácio. Em comparação com os palácios de verão de outros reis europeus e mesmo príncipes e duques governantes de principados e ducados da futura Alemanha (ah, estes jovens países europeus, em comparação com o nosso Brasil, tão antigo…), Sans-Souci é minúsculo. O palácio de Queluz, residência de verão dos já falidos reis portugueses, de onde partiu para o Brasil D. João VI, levando sua mãe, D. Maria I, uma esposa aloprada (D. Carlota Joaquina), dois príncipes estróinas (D. Pedro, depois Primeiro do Brasil e Quarto de Portugal, e D. Miguel, o safado reacionário), e uma Corte desesperada e, convenhamos, algo corrupta, é dez vezes o de Sans-Souci, e muito mais requintado.

Em Sans-Souci impera a simplicidade algo austera: uma biblioteca pequena, mas riquíssima, uma dezena de quartos destinados aos convidados do rei: filósofos, músicos, artistas, letrados, mais do que cortesãos, os aposentos da rainha, com quem ele, misógino que era, se casou por conveniência, com entrada em separado, cozinha, adega, dependência de criados.

Claro: do lado de fora havia cavalariças, estrebarias, pavilhões para carruagens, um moinho para fornecer  pão, etc. Ah sim, e ruínas. Frederico II achava a Prússia um país bárbaro, porque não ostentava ruínas, como a Itália. Então mandou construir um conjunto delas, para poder descortiná-las da janela de seu quarto e da porta do palácio. Dizem também que era para lembrar a seus hóspedes de que tudo, nesta vida, é passageiro – exceto o cobrador e o motorneiro (êpa, aqui misturei tudo, esta segunda parte é deum ditado relativo aos bondes da minha Porto Alegre dos anos cinqüenta).

Entre os hóspedes frequentes do palácio figurou Voltaire, filósofo contemporâneo de Rousseau mas que, ao contrário deste, gostava de frequentar cortes ao invés de mulheres maduronas. Consta que, perguntado pelo rei se este deveria reduzir os custos da estrebaria para equilibrar as despesas, o filófosofo teria respondido, nada diplomaticamente, que o problema das despesas não eram os cavalos, mas sim os burros que frequentavam o palácio às custas da Coroa.

Pois bem, deixemos de delongas. Quem visita Sans-Souci depara, à direita do palácio para quem olha desde os jardins, com o túmulo do rei. Depor seus despojos ali foi uma saga que durou dois séculos: somente duzentos anos depois de sua morte, após a queda do muro de Berlim, eles ali foram depostos, na companhia próxima de seus cães de estimação, como era sua vontade.

Sobre o túmulo, o visitante vai deparar com uma fileira (ou mais) de batatas, sempre frescas e, portanto, renovadas. É uma singela homenagem da hoje Alemanha a seu rei, conhecido, além de como “o Grande”, “Der Grosse”, como o “Kartoffelkönig”, o “Rei das Batatas”.

Foi em meados do século XVIII que o previdente Frederico II estimulou enormemente a plantação de batatas – originárias da América e chegadas à Prússia através da Espanha – no território sob seu comando. Seu objetivo era fornecer a suas tropas um alimento barato, de fácil cultivo e resistente ao inverno, por serem os tubérculos subterrâneos. Frederico II, herdeiro do trono de seu pai, Guilherme I, conhecido este como “o Rei Soldado”, consolidou militarmente o poderio da Prússia, até então vista como um mero “país emergente”, se tanto.

O plantio das batatas se tornou uma febre nacional, porque Frederico, esperto, não se limitou a estimular e mesmo ordenar a plantação: fez propaganda. Batatas eram boas para tudo: cancro, sangue grosso, sangue fino, doenças da pele, queda de cabelo, falta de ar, taquicardia, azia, nó nas tripas, um universo corporal. Claro: numa população que se alimentava mal, inclusive na classe rica, que dispunha de pouca energia no inverno, a plebéia mas eficiente – e além do mais, sedutoramente exótica – batata fornecia o que o povo e a aristocracia precisavam: uma base de amido para o fortalecimento muscular e de fibras para aviar a digestão. Ainda mais, era de fácil armazenação e ótima para fazer sopas, caldos, acompanhar cozidos, etc.

Além disto, como nos séculos seguintes não houve guerra na Europa que não passasse de algum modo pela Prússia e depois pela Alemanha, no século XX, a batata é considerada como a heroína que evitou milhões de mortes, impedindo que a fome mortífera ceifasse mais vidas, além das milhões ceifadas pela estupidez humana à solta.

E mais: como se não bastassem as batatas, Frederico foi um rei sábio em outros campos: estimulou a escolaridade, a saúde pública, combateu o nepotismo e a corrupção, fez a Prússia progredir economicamente. Avançou em garantir direitos para seus súditos. Era meio autoritário, vá lá; mas quem não era? E até hoje…

Portanto, cara leitora, caro leitor, se fores a Potsdam, vai a Sans-Souci (o palácio Sem Preocupações, na expressão francesa). E se fores lá, leva tua batata e a depõe, como homenagem singela, sobre o túmulo de Frederico. Ele a merece: afinal, em seus termos, foi e é um vencedor.

14.12.08_Flávio Aguiar_Ao vencedor as batatas_final

Ilustração dos jardins do Palácio Sans-Souci em Potsdam (1750)

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O que acontece com os médicos brasileiros?

14.12.09_Emir Sader_MédicosPor Emir Sader.

Talvez nós todos nos tivéssemos deixado levar por uma imagem imaculada do médico. Afinal, essa pessoa que tem o poder de nos curar das doenças, de minimizar nossas dores, de estender vidas, deve ter um dom que está acima das contradições terrenas.

A própria imagem da figura com avental branco, que nos receita – de forma sempre ilegível, talvez para confirmar que são de outro planeta, de outra índole – remédios que só nos fazem bem, pode nos ter induzido ao erro. Quem se dedica – mesmo se muito bem remunerado – a cuidar de quem está doente, de quem sofre, só pode ter valores humanistas, ser um ser solidário. Aprendemos que a profissão de medico é sacrificada, que ele tem que estar disponível, a qualquer hora, a deixar tudo de lado, mesmo um almoço dominical com a família, para correr atender casos de emergência, ao simples toque de um telefone.

Uma profissão como essa só poderá ser exercida por seres generosos, solidários, humanistas, dispostos a todo tipo de sacrifício. Essa a imagem a que fomos acostumados.

De repente, quando o Brasil faz a lista dos lugares em que são necessários médicos e consulta que médicos brasileiros estão dispostos a ir onde mais são necessários, onde mais há doenças e carência de atendimento, poucos, muito poucos, se dispõem a aceitar. As razoes alegadas são muitas: falta de condições ótimas de atendimento nesses locais, salários insuficientes, entre outras.

Mas onde estão esses médicos, formados, em sua grande maioria, em universidades públicas, gratuitas, que oferecem os melhores cursos de medicina do Brasil? O mapa da localização desses médicos, formados com recursos públicos, é totalmente contrastante com onde estão as necessidades de atendimento da população. Eles estão situados onde há uma clientela de maior poder aquisitivo, que pode pagar caro, muito caro às vezes, pelas consultas, pelos remédios e pelos tratamentos recomendados.

Isto é, o Estado brasileiro forma médicos, com recursos públicos, arrecadados pelos impostos da população cuja maioria não consegue ver seus filhos chegar às universidades, para que eles não devolvam à sociedade, através de serviços públicos, pelo menos parte do que se gastou com sua formação. Esta é usada para que se acumule somas de recursos apropriados privadamente, sem correspondência, nem com o que a sociedade gastou com sua formação, nem com as necessidades da maioria da população.

Então o governo se viu obrigado a trazer médicos de fora do Brasil – a maioria, de Cuba – pelo programa Mais Médicos para assumirem os postos que os médicos brasileiros rejeitaram. Resultado da recusa da grande maioria dos médicos brasileiros de atender as necessidades da grande maioria dos brasileiros.

14.12.09_Emir Sader_Médicos_2

A situação incômoda para essa maioria de médicos brasileiros os levou a reações que desnudaram a verdadeira imagem da maioria dos médicos brasileiros. Numa atitude elitista, corporativa, tentaram, primeiro impedir que os médicos cubanos viessem. Depois, tentaram constrangê-los, para que não assumissem as funções que vieram.

Saíram às ruas para, vergonhosamente, reivindicar seu monopólio de exercer a profissão, a cuja dignidade demonstraram não estarem à altura. Houve afirmações indecentes dos que defenderam essas posições – como a de uma jornalista, que disse que: “As médicas cubanas se parecem a empregadas domesticas”, numa expressão de discriminação, de racismo e de elitismo indigna de um ser humano. A não ser que ele estivesse querendo dizer que uma pessoa que no Brasil seria empregada domestica, em Cuba consegue ser médica! Feliz o país em que os médicos têm a cara do povo e não a cara de elites desvinculadas do povo!

Esses médicos acharam que, como têm autoridade profissional sobre seus pacientes, iriam ter força para convencê-los a não votar na Dilma – não se sabe com que argumentos que pudessem ser aceitos por um brasileiro comum. Fracassaram. Não conseguiram esse efeito político e, derrotados, nunca mais tiveram coragem de fazer manifestações nas ruas. Enquanto que o apoio ao programa Mais Médicos foi rapidamente se aproximando a 90% da população, conforme o trabalho dos médicos em municípios que nunca tinham tido atendimento medico local, foi mostrando seus resultados. Os brasileiros foram se encantando cada vez mais com os médicos cubanos, tanto por sua experiência profissional para, mesmo em condições de precariedade de atendimento, cumprir suas funções, como também pelo espirito de solidariedade e de sacrifício com que atendem a todos.

As cenas escandalosas reveladas de Faculdades de Medicina da USP – que podem perfeitamente ocorrer em outras similares – vieram complementar a nova imagem que o Brasil descobriu como a verdadeira personalidade da grande maioria dos médicos. Estupros, violências de toda ordem contra mulheres, atitudes machistas vergonhosas das próprias autoridades das Faculdades, vieram revelar qual o lugar onde estão se formando a maioria dos médicos brasileiros, esses mesmos que tiveram essa atitude elitista contra os médicos cubanos.

14.12.09_Emir Sader_Médicos_3

O Brasil precisa mudar o tipo de ser humano que se dedica à medicina. Mesmo com dificuldades, a política de cotas começa a formar novas gerações de médicos, eles mesmos originários dos setores populares da sociedade, com compromisso com as necessidades dessa população. Que terão que fazer plantões nos SUS, que terão que se deslocar para onde a população brasileira precisa.

Ai estaremos formando médicos que correspondam àquela imagem que tínhamos dos médicos – de dedicação, sacrifício, solidariedade, humanismo – de atuar para diminuir a dor e as doenças dos outros.

***

A Boitempo acaba de reeditar o clássico Estado e política em Marx, de Emir Sader. Confira o depoimento abaixo, em que Sader relembra o contexto da defesa e publicação desta que foi a primeira tese sobre Marx defendida na USP:

***

Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.