As lições da derrota

Ainda não tiramos as lições da derrota sofrida na última Copa. Vivemos até agora no Brasil uma imensa quarta-feira de cinzas. Uma quarta-feira sem fim. No silêncio das ruas, na quarta-feira 9 de julho, não se ouvia nem um carro acelerado. Só os celerados de sempre, a reação mais à direita, acompanhada pela esquerda que todo fascista deseja ter, que comemorava a derrota da seleção brasileira como se fosse uma derrota da presidenta Dilma. A estupidez é infinita, amigos.

Levantemos voo do chão mais básico: quantas Copas nós perdemos? Teria sido melhor uma derrota final no Maracanã, como em 1950? Sim, digo perder porque a nossa sorte estava selada, antes do jogo contra a Alemanha. Mas não víamos, crentes que estávamos na fé, em palavras de fé, de sentimento da fé no hexa. Mas a fé ganha só no cacófato: fe-ganha.

A parte boa da derrota é aprender com ela. Aliás, deve ser a única parte boa. As pessoas inteligentes, quando sábias, passam os olhos de volta pelo caminho que andaram. Elas crescem com a derrota. O pensamento vulgar, mesquinho, o pensamento de anúncio de televisão (supondo que ali exista pensamento) divulga a máxima de que o sucesso é a vitória. Ou a vitória é o sucesso. Mas esquecem, ou não veem, que na vida real o sucesso, a vitória, só se alcança com a derrota. E não é a derrota do adversário. É a própria derrota de quem um dia poderá ter o sucesso. Mas como? Será isso verdade? Sim, somente o exame maduro sobre o amargo poderá um dia ter a doçura. Somente o trabalho sem trégua, sem descanso, alcançará o fruto, a maçã do paraíso.

Se isso é verdade para a pessoa, é mais clara ainda no progresso e no desenvolvimento da ciência, do conhecimento humano. Reflitam: quantos fracassos tivemos antes de um acerto? Quantos alquimistas foram necessários para que um dia houvesse a Química? Quantos homens de pensamento foram torturados, queimados na fogueira da Inquisição, antes que se tornasse universal que a terra é apenas um insignificante planeta entre as galáxias e estrelas? Quantas vezes Thomas Edison fracassou antes da invenção da lâmpada? Quantos cadáveres, ruínas houve antes da Teoria da Evolução das Espécies e da Teoria da Relatividade? Quanta inumanidade, quanta exploração, inconsciência houve antes que se escrevesse O capital?

Então eu digo que não há crescimento individual, nem coletivo, nem humano, enfim, que se faça sem a derrota. Mas para que haja crescimento, é preciso que se reflita sobre os erros cometidos. Que se retire deles o sumo de toda amargura, que se revejam passos, que se tornem pontos de discussão para o mais impiedoso exame, e só então poderá ter começo uma vitória firme, segura, mas jamais arrogante. Porque na própria vitória há um germe de derrota, no próprio sucesso há um momento de fracasso, no passado ou no futuro.

Mas nada disso nos virá daquela entrevista do técnico Felipão, depois do desastre dos 7 a 1 contra a Alemanha. Estas foram as declarações dele nos jornais:

“Um dia após ver sua equipe passar o maior vexame da história da seleção, Luiz Felipe Scolari deu entrevista coletiva e afirmou que não tem como explicar a goleada por 7 a 1 para a Alemanha. Disse, porém, que o time nacional está no caminho certo.”

Felipão usou a entrevista para defender seu trabalho. Apontou estatísticas da sua segunda passagem pelo time (19 vitórias, 6 empates e 3 derrotas) e lembrou que foi a primeira vez que o Brasil chegou à semifinal da Copa desde 2002, quando comandou a equipe do pentacampeonato.

Felipão classificou que houve uma “pane geral” na seleção durante os seis minutos em que a Alemanha fez quatro gols seguidos.

À primeira vista, ele falou suas razões como quem monta um currículo para um emprego. Omitiu informações, ressaltou outras. Pior: justificou os erros. Se devemos supor que Felipão se encontra no pleno exercício das faculdades mentais, ele mentiu, porque não mostrou, além da retórica “a culpa foi minha”, onde foi que ele errou.

A entrevista de Felipão, depois da humilhante derrota, poderia assim ser resumida: foi uma derrota sem erros. Mas Felipão faria melhor se dissesse: perdemos porque o adversário ganhou. Não explicava, é claro, mas em lugar da burrice e arrogância, teríamos pelo menos uma frase irônica, que é sempre é um brinde à inteligência.

Felipão, que gosta tanto de livro de autoajuda, que faz um sarapatel, uma mistura de escritores diversos e momentos deslocados e prega frases nas portas dos apartamentos dos jogadores – ele não é um intelectual, está visto, ele pesca no Google o que lhe pode servir como um pescador no mar sem rumo e sem bússola – em resumo: Felipão, que gosta tanto de autoajuda, depois da derrota frente à Alemanha bem que poderia refletir nas palavras de Goethe, o clássico alemão acima da arrogância e da barbárie.

Então vejamos o que Goethe escreveu em uma obra madura, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister.

“— Não é obrigação do educador de homens preservá-los do erro, mas sim orientar o errado; e mais, a sabedoria dos mestres está em deixar que o errado sorva de taças repletas seu erro. Quem só saboreia pouco o seu erro, nele se mantém por muito tempo, e dele se alegra como se fosse uma felicidade rara. Mas quem o esgota por completo, deve reconhecê-lo como erro, se não for demente”.

Aí está, Felipão, esta luz de Goethe, que parece ter sido escrita pra você, depois dos 7 a 1 sofridos:

“A sabedoria dos mestres está em deixar que o errado beba a taças completa do seu erro. Quem só saboreia pouco o seu erro, nele se mantém por muito tempo”.

Se assim o técnico brasileiro pudesse refletir, só então poderá dizer, como Goethe, quando concluiu o Livro VII do seu romance com estas linhas luminosas:

“Chegaram ao fim teus anos de aprendizado: a Natureza te absolveu”. 

E nós, quem sabe se na próxima Copa, ou em outra, voltaremos a vencer, depois desse amargo aprendizado. Mas não agora. Por enquanto, é só uma imensa quarta-feira de cinzas.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A ocupação é a atrocidade

14.07.21_Edward Said_A ocupação é a atrocidade[Cartaz em memória de Edward W. Said sobre muro israelense erguido na Margem Oeste. Foto tirada em agosto de 2004 por Justin McIntosh]

Por Edward Said.

Em um contexto de acirramento do conflito no oriente médio, Blog da Boitempo recupera um artigo de Edward Said, escrito em agosto de 2001, pouco antes do atentado às torres gêmeas em Nova York, para o periódico Al-Ahram, n. 547. O texto integra o livro de ensaios Cultura e política, organizado por Emir Sader, e publicado poucos meses antes da morte do autor. A tradução é do historiador e colunista do Blog da Boitempo, Luiz Bernardo Pericás.

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Nos Estados Unidos, onde Israel tem sua principal base política, e de quem recebeu mais de 92 bilhões de dólares em ajuda desde 1967, o atentado a bomba de quinta-feira num restaurante de Jerusalém e o desastre de segunda-feira em Haifa, ambos acontecimentos que tiveram um terrível custo humano, são rapidamente explicados dentro de um quadro já familiar: Arafat não fez o suficiente para controlar seus terroristas; extremistas suicidas islâmicos estão em toda a parte, fazendo mal a “nós” e aos nossos principais aliados, impulsionados por puro ódio; Israel, portanto, deve defender sua segurança.

Um indivíduo ponderado poderá acrescentar: essas pessoas têm lutado incansavelmente por milhares de anos, de qualquer forma; a violência deve parar; os dois lados têm sofrido demais, embora a maneira como os palestinos mandam seus filhos para a batalha seja outro sinal do quanto Israel tem tido de aguentar. E então, exasperado, mas ainda assim moderado, Israel invade Jenin, cidade sem fortificações nem defesas, com tratores e tanques, destruindo vários edifícios, entre os quais os da polícia da Autoridade Palestina. Depois manda seus propagandistas dizerem que era uma mensagem para Arafat controlar seus terroristas. Enquanto isso, Arafat e seu círculo estão suplicando pela proteção norte-americana, sem dúvida se esquecendo de que Israel é o aliado que goza da maior proteção dos Estados Unidos e que tudo que vai conseguir, pela enésima vez, é apenas uma ordem para parar a violência.

O fato é que Israel praticamente já ganhou a guerra de propaganda nos Estados Unidos, país onde está para colocar vários milhões de dólares numa campanha de relações públicas (usando astros como Zubin Mehta, Yitzhak Pearlman e Amos Oz) para melhorar ainda mais sua imagem. Mas consideremos o que Israel conseguiu com sua guerra implacável contra o indefeso, basicamente desarmado e mal conduzido povo palestino. A disparidade de poder é tão grande que dá vontade de chorar. Equipados com o poder aéreo mais moderno, não só produzido como presenteado gratuitamente pelos Estados Unidos, os israelenses possuem helicópteros com canhoneiras, mísseis, incontáveis tanques e uma marinha excelente, assim como um serviço de inteligência extremamente eficiente. Ou seja, Israel é uma potência nuclear abusando de um povo sem tanques, artilharia, força aérea (sua única e patética pista de decolagem em Gaza é controlada por Israel), marinha ou exército: nenhuma das instituições de um Estado moderno.

A contínua e estarrecedora história dos trinta e quatro anos [hoje, 46 anos] de ocupação militar de terra palestina ilegalmente conquistada (a segunda mais longa da história moderna) tem se apagado da memória pública quase em toda a parte, assim como a destruição da sociedade palestina em 1948 e a expulsão de 68% da população local, da qual 4,5 milhões de pessoas continuam vivendo como refugiados nos dias de hoje. Por trás das resmas de propaganda, as características evidentes da pressão diária de Israel, por várias décadas, sobre um povo que tem como maior pecado por acaso estar vivendo lá, no meio de seu caminho, são chocantemente perceptíveis em seu sadismo desumano. O confinamento fantasticamente cruel de 1,3 milhão de pessoas, apertadas como sardinhas humanas na Faixa de Gaza, além dos quase 2 milhões de residentes palestinos da Cisjordânia, não tem paralelos nos anais do apartheid ou do colonialismo. Caças F-16 nunca foram usados para bombardear lares sul-africanos. Mas são usados contra as cidades e vilarejos palestinos.

Todas as entradas e saídas são controladas por Israel (Gaza está completamente cercada por uma cerca de arame farpado), que também detém todo o fornecimento de água. Dividida em aproximadamente sessenta e três cantões não contíguos, completamente cercada e sitiada por tropas israelenses, pontuada por cento e quarenta assentamentos (muitos deles construídos durante o governo Barak), com uma rede de estradas própria, de acesso proibido aos “não judeus”, como são chamados os árabes, juntamente com outros epítetos depreciativos, como ladrões, cobras, baratas e gafanhotos, os palestinos sob ocupação, agora, foram reduzidos a 60% de desemprego e uma taxa de pobreza de 50% (metade das pessoas de Gaza e da Cisjordânia vive com menos de dois dólares por dia); eles não podem viajar de um lugar para outro; são obrigados a esperar em longas filas em postos de controle israelenses, que detêm e humilham os idosos, os doentes, os estudantes e os religiosos por horas a fio; cento e cinquenta mil de suas oliveiras e árvores cítricas foram arrancadas como punição; duas mil de suas casas, demolidas; muitos hectares de suas terras foram destruídos ou expropriados para servirem de assentamentos militares.

Desde que a Intifada da Al-Aqsa começou, no final do último setembro [de 2000], 609 palestinos foram assassinados (quatro vezes mais que as mortes de israelenses) e 15 mil feridos (doze vezes mais que do outro lado). Os assassinatos regulares realizados pelo exército israelense foram de supostos terroristas escolhidos indiscriminadamente. Na maior parte das vezes, mataram civis inocentes como moscas. Na última semana [agosto de 2001], 14 palestinos foram assassinados pelas forças israelenses que usavam mísseis e canhoneiras de helicópteros; os palestinos assassinados, portanto, foram “impedidos” de matar israelenses no futuro, apesar de, nessa ocasião, pelo menos duas crianças e cinco inocentes também terem perdido a vida, para não dizer nada sobre outros tantos civis feridos e diversos edifícios destruídos – parte do efeito colateral, de alguma forma aceitável para os israelenses. Sem nome nem rosto, as vítimas palestinas diárias de Israel raramente são mencionadas nos noticiários americanos, apesar de – por razões que eu simplesmente não consigo entender – Arafat ainda estar esperando que os americanos resgatem a si e ao seu regime em desintegração.

E isso não é tudo. O plano de Israel não é apenas manter a terra e povoá-la com colonos armados assassinos que, protegidos pelo exército, levam a destruição aos pomares, às crianças em idade escolar e aos lares palestinos; o projeto israelense é, como afirmou a pesquisadora americana Sara Roy, fazer regredir a sociedade palestina, tornar a vida impossível para a população local, com o objetivo de obrigar os palestinos a sair, a desistir de sua terra de alguma forma ou a fazer algo insano, como explodir a si mesmos.

Desde 1967, líderes foram presos e deportados pelo regime de ocupação de Israel, pequenos negócios e fazendas tornaram-se inviáveis, ao serem confiscadas e simplesmente destruídas, estudantes foram impedidos de estudar, universidades foram fechadas (em meados dos anos 1980, as universidades palestinas na Cisjordânia foram fechadas por quatro anos). Nenhum agricultor ou empresário palestino pode exportar diretamente a um país árabe; seus produtos devem passar por Israel.

Impostos também são pagos ao Estado israelense. Depois que o processo de paz de Oslo começou, em 1993, a ocupação foi simplesmente remodelada: apenas 18% da terra foi entregue à Autoridade Palestina liderada por Arafat, uma organização corrupta e similar ao governo Vichy, já que sua função parece ter sido somente a de policiar e cobrar impostos de seu povo para o agrado de Israel. Após oito infrutíferos e miseráveis anos desde as negociações de Oslo, arquitetadas por uma equipe americana de antigos lobistas israelenses, como Martin Indyk e Dennis Ross, Israel continua a controlar as terras, a ocupação apresentada mais eficientemente e a frase “processo de paz” criou uma aura de consagração que permite mais abusos, mais assentamentos, mais prisões e mais sofrimento palestino que antes. Incluindo um leste de Jerusalém “judaizado”, com a Orient House ocupada e seu conteúdo saqueado (como havia feito com os arquivos da OLP em Beirute, em 1982, Israel roubou os registros, títulos de terra, mapas valiosos do local), o governo israelense implantou não menos de 400 mil colonos em solo palestino. Chamá-los de espreitadores e bandidos não é um exagero.

Vale a pena lembrar que duas semanas após a visita desnecessariamente arrogante de Sharon a Haram Al-Sharif, em Jerusalém, em 28 de setembro, acompanhado de mil soldados e seguranças fornecidos pelo primeiro-ministro Barak, Israel foi condenado unanimemente por essa ação pelo Conselho de Segurança da ONU. Depois, como até mesmo uma criança poderia ter previsto, a rebelião anticolonial irrompeu, tendo como suas primeiras vítimas oito palestinos assassinados. Sharon foi levado ao poder essencialmente para “subjugar” os palestinos, dar-lhes uma lição, livrar-se deles. Seu histórico como matador de árabes data de trinta anos, antes dos massacres de Sabra e Shatila, supervisionados por suas forças em 1982 e pelos quais foi indiciado numa corte belga. Ainda assim, Arafat quer negociar com ele e chegar, talvez, a um arranjo cômodo para salvaguardar a própria Autoridade sob seu comando, que Sharon sistematicamente está desmantelando, destruindo, arrasando.

Mas ele tampouco é um bobo. A cada ato de resistência palestina, suas forças aumentavam a pressão um pouco mais, apertando cada vez mais o cerco; tomando mais terra; tornando um hábito incursões mais profundas e em maior número, em cidades palestinas como Jenin e Ramallah; cortando mais suprimentos; abertamente assassinando líderes palestinos; tornando a vida mais intolerável; redefinindo os termos das ações do seu governo, que certa vez fez “concessões generosas” enquanto “defendia” a si mesmo; que “previne” o terrorismo; que dá “segurança” a certas áreas; que “restabelece” o controle; e assim por diante. Ao mesmo tempo, ele e seus lacaios atacam e desumanizam Arafat, chegando a ponto de dizer que ele é um “arquiterrorista” (apesar de ele literalmente não poder se mover sem a permissão de Israel), e que “nós” não estamos em nenhuma guerra contra o povo palestino. Que dádiva para aquele povo! Com tal “comedimento”, por que uma invasão maciça, cuidadosamente divulgada para aterrorizar os palestinos ainda mais sadicamente, seria necessária? Israel sabe que pode retomar seus edifícios à vontade (como mostram o roubo em grande escala da Orient House de Jerusalém, assim como o de mais nove outros edifícios, escritórios, bibliotecas e arquivos, lá e em Abu Dis), da mesma maneira pela qual quase já eliminou os palestinos como povo.

Essa é a verdadeira história da pretensa “vitimização” de Israel, construída há vários meses com cuidado premeditado e má intenção. A linguagem foi separada da realidade. Não tenham pena dos inaptos governos árabes que não podem e não farão nada para deter Israel: tenham pena do povo que carrega as feridas na pele e no corpo descarnado de seus filhos, alguns dos quais acreditam no martírio como a única saída. E Israel, presa numa campanha sem futuro, agredindo a torto e a direito, sem piedade? Como disse, em 1925, James Cousins, o poeta e crítico irlandês, o colonizador está nas garras de “preocupações falsas e egoístas, que impedem que dê atenção à evolução natural de seu próprio gênio nacional, e o desvia do caminho de aberta retidão para tortuosos atalhos do pensamento, discurso e ação desonestos, na defesa artificial de uma falsa posição”. Todos os colonizadores seguiram esse caminho, sem nada aprender e sem nada que os detenha. No final, quando os israelenses deram as costas a vinte e dois anos de ocupação do Líbano, saíram de seu território, deixando para trás um povo exausto e mutilado. Se o objetivo era atender às aspirações dos judeus, por que exigiu tantas vítimas de outro povo que não tinha absolutamente nada a ver com a perseguição e o exílio judeu?

Com Arafat e companhia no comando, não há esperança. O que faz esse homem, grotescamente se refugiando no Vaticano, em Lagos e em outros lugares distintos, pleiteando, sem dignidade nem inteligência, por observadores imaginários, por ajuda árabe, por apoio internacional, em vez de ficar com seu povo, tentando ajudá-lo com suprimentos médicos, medidas para levantar seu moral e agindo como uma verdadeira liderança? O que precisamos é de uma liderança unificada, com pessoas que estejam na região, que estejam de fato resistindo, que estejam realmente com o povo e que façam parte do povo e não de burocratas gordos, que fumam charutos, que querem seus acordos de negócios preservados, que seus passes VIP sejam renovados e que perderam todo traço de decência ou credibilidade. Uma liderança unificada que tome posição e planeje ações destinadas não a promover um retorno a Oslo (pode-se imaginar a loucura dessa ideia?), mas a ir em frente com a resistência e a libertação, em vez de confundir as pessoas com conversas sobre negociações e o estúpido Plano Mitchell.

Arafat está acabado: por que não admitimos que ele não pode nem liderar, nem planejar, nem fazer nada que faça diferença, exceto para ele próprio e seus amigos de Oslo, que se beneficiaram materialmente da miséria de seu povo? Todas as pesquisas mostram que sua presença impede que qualquer avanço se torne possível. Precisamos de uma liderança unificada para tomar decisões e não simplesmente para se humilhar diante do papa e do estúpido George W. Bush, mesmo que os israelenses estejam matando nosso heroico povo impunemente.

Um líder deve liderar a resistência, refletir as realidades na área, responder às necessidades de seu povo, planejar, pensar, se expor aos mesmos perigos e dificuldades que todos vivenciam. Lutar pela libertação da ocupação israelense é a posição de todo palestino que tem algum valor: Oslo não pode ser reconstituído ou reelaborado, como Arafat e companhia poderiam querer. O tempo acabou para eles, e o quanto antes fizerem as malas e se forem, melhor será para todos.

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Amanhã, dia 22 de julho a Reitoria da Unifesp e o ICArabe, inauguram, no dia 22 de julho, a Cátedra Edward Said de Estudos Pós-Coloniais. A cerimônia ocorrerá no anfiteatro da Reitoria da Unifesp, e contará com a presença da viúva do pensador, Mariam Said. Confira a programação completa do evento aqui.

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Para aprofundar a reflexão sobre opressão, emancipação, marxismo e judaismo, recomendamos também a aula da historiadora e diretora do Centro de Estudos Árabes Arlene Clemesha, autora de Marxismo e judaismo e tradutora de Edward Said, em torno do livro Sobre a questão judaica de Karl Marx:

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Edward Wadie Said, nascido em Jerusalém em 1935, foi um dos principais intelectuais palestinos de nosso tempo. Exilado em Nova York, foi professor de literatura comparada na Universidade de Colúmbia e crítico musical da revista The Nation. Faleceu em 24 de setembro de 2003. Pela Boitempo, publicou Freud e os não-europeusCultura e política.

A Copa e a desnacionalização do futebol brasileiro

14.07.18_Carlos Eduardo Martins_A desnacionalização do futebol brasileiroPor Carlos Eduardo Martins.

A Copa do Mundo de 2014 no Brasil chegou ao final e, como grande evento de massas, traz várias questões para a reflexão do pensamento social e a ação comprometida com a democracia, soberania e a cultura popular.

1. O “Não vai ter Copa” foi um erro de parte das esquerdas

O futebol, como expressão do lazer, é item importante da cultura popular brasileira e tentar desprezá-lo como uma atividade menor diante das mazelas históricas que permanecem no Brasil (saúde, educação, saneamento, dependência e subdesenvolvimento em setores chaves da economia brasileira) é um erro estratégico de orientação política, que levou ao isolamento da direção dos movimentos sociais das grandes massas populares. Não foi o “Não vai ter Copa” a razão dos movimentos de junho de 2013 e sim um conjunto de desigualdades econômicas, políticas, sociais e culturais que dela independem e permanecem no Brasil gerando profundas assimetrias e frustrações. Tentar extrapolar uma palavra de ordem que surgiu durante a radicalização dos protestos, fora deste contexto, gerou uma desconexão entre a sensibilidade popular e a direção dos movimentos sociais.

O correto seria defender uma Copa sustentável, soberana e democrática questionando a exclusão das massas dos estádios, as remoções de populações pobres, as violações de direitos humanos, a ingerência imperialista da Fifa sobre o Estado brasileiro (retirando-nos parte da soberania sobre a organização do evento), e o comprometimento de recursos públicos em favor de lucros privados.

2. O futebol deve ser tratado como patrimônio imaterial da cultura brasileira

O futebol brasileiro é um evento cultural de massas nacional e mundial destacando o país em competições internacionais, auferindo 5 copas do mundo, sendo delas 11 vezes semifinalista, e 4 Copas das Confederações. Todavia está sendo fortemente ameaçado pela ofensiva neoliberal sobre este esporte no Brasil por meio: da destruição dos clubes como centros de formação e criação de um mercado mundial oligopólico de circulação de jogadores, articulado pelo capital financeiro internacional; do aprofundamento do caráter autocrático das instituições desportivas brasileiras e sua vinculação aos principais atores deste mercado; e da adoção neocolonial de paradigmas eurocêntricos.

O fim do passe, as precárias compensações estabelecidas pela Fifa e as pressões competitivas do mercado internacional elevaram os custos e colocaram os clubes em situação de brutal endividamento. A desregulamentação abriu o espaço para ampla atuação de empresários e de fundos de investimento no setor levando à criação de clubes fictícios voltados para a valorização de jogadores com o objetivo de destiná-los a transferências internacionais. Estes clubes fictícios controlados por grandes fundos de investimento capturam os direitos de formação das novas gerações transferindo-as ao exterior ou contratam jogadores emprestando-os aos grandes clubes nacionais para valorização e venda ao exterior, apropriando-se de somas fantásticas através de multas rescisórias. A indenização pela formação do atleta incide sobre cada transferência que se realize em sua carreira, podendo acompanha-la até o final.

Estabelecem-se engrenagens subterrâneas envolvendo os grandes dirigentes esportivos e o capital financeiro internacional. A seleção brasileira torna-se vitrine e instrumento para valorização de ativos empresariais, leia-se por isto, jogadores controlados por fundos que pagam comissões a altos dirigentes esportivos ou dos quais estes são sócios. Usam-se bens públicos, o nome do Brasil e o futebol que o representa, para impulsionar lucros privados extraordinários em detrimento das condições de produção que permitem a preservação e desenvolvimento da qualidade do futebol brasileiro. Todo este espetáculo não se faz sem o manejo de vultuosas somas do Estado brasileiro através de isenções fiscais, patrocínios, renegociação de dívidas, créditos bancários, destinação de verbas de loterias, sem o que não se viabilizaria a infraestrutura mínima para o funcionamento do espaço desportivo nacional.

Entrevistado sobre o êxito do futebol alemão, Franz Beckenbauer afirmou que copiou-se o exemplo francês da Copa de 1998, criando-se escolas de futebol nos clubes dedicadas à formação de jogadores. A geração alemã campeã mundial em 2014 foi formada nestas condições. Nosso futebol está tomando o caminho contrário. Desnacionalizando-se, destruindo seus centros históricos e comunitários de formação para impor os interesses do grande capital financeiro internacional e seus sócios locais. Trata-se de um amplo processo de mercantilização que gera desvios de função e corrupção na estrutura administrativa dos clubes nacionais em diversos níveis.

Tal esquema articula-se na cúpula com o poder autocrático e corrupto representado pela CBF. A gestão de Ricardo Teixeira, ex-genro de João Havelange, foi interrompida abruptamente em meio a denúncias pela justiça suíça, que investigava a quebra da empresa de marketing ISL, de que ambos teriam recebido R$ 40 milhões em subornos. Todavia as mudanças foram aparentes e o seu vice, Jose Maria Marin, que vinculou-se no passado à ala radical da ditadura civil-militar iniciada em 1964, assumiu seu lugar em 2012, elegendo antes da copa do Mundo de 2014, o novo Presidente da CBF a tomar posse apenas em abril de 2015, em estratégia articulada ainda por Teixeira. O escolhido em chapa única é Marco Polo del Nero, alvo da Policia Federal, na Operação Durkheim, por suspeita de envolvimento em quadrilhas dedicadas à quebra ilegal de sigilos bancários, fiscais e telefônicos para chantagear políticos, desembargadores e juízes, e também à evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Torna-se urgente estabelecer uma regulação pública sobre o futebol brasileiro e suas principais instâncias administrativas integrantes do sistema nacional de desportos. A reforma da Lei Pelé que qualificou as verbas das loterias como de origem pública, a MP 620 – já aprovada no Senado e em vias de ser sancionada pela Presidenta Dilma – que cria exigências de democratização, transparência e eficiência da gestão para o recebimento de recursos estatais são passos importantes que devem articular-se com a CPI da CBF para restabelecer os níveis mínimos de controle nacional e público sobre o futebol brasileiro.

3. Torna-se necessário romper com o paradigma eurocêntrico e neoliberal

A autocracia gerencial e a configuração da seleção brasileira numa expressão de ativos do capital financeiro e interesses particulares se manifestam na adoção de um paradigma eurocêntrico de futebol, na ruptura da relação com o critério de desempenho para participação na comissão técnica ou no elenco de convocados, e na ampla desqualificação do campeonato brasileiro de futebol.

Desde a chegada de Ricardo Teixeira a CBF inaugura-se a era Dunga e substitui-se o futebol ofensivo e técnico por outro que prioriza a marcação e o estilo europeu. Neste sentido, são contratados treinadores que representam este novo enfoque: Lazaroni, Parreira, Zagallo, Dunga e Felipão representam uma monótona repetição de personagens que dominaram a comissão técnicas nos últimos 24 anos, alguns cuja ascensão remonta ao período ditatorial, nos anos 1970 (Zagallo e Parreira).

A indicação de Felipão e Parreira para a campanha de 2014 não teve qualquer relação com o desempenho esportivo recente de ambos. Felipão foi o responsável pelo rebaixamento do Palmeiras em 2012 e, desde 2002, seu único título havia sido o campeonato Uzbeque de 2009 até assumir a seleção brasileira. Parreira havia fracassado na Copa de 2010 com a desclassificação da seleção anfitriã já na primeira fase, situação inédita nas Copas do Mundo.

A relação de convocados para a Copa de 2014 foi fechada na Copa das Confederações de 2013, impulsionando o marketing e a valorização de determinados jogadores, quase na sua totalidade transacionados no mercado mundial. Desconsiderou as mudanças físicas e técnicas individuais dos últimos 12 meses e o campeonato brasileiro de 2013 e 14, ignorando-se o desempenho das principais equipes e seus jogadores. O Cruzeiro, campeão brasileiro com ampla vantagem, não teve nenhum jogador convocado ou testado. Dos 3 convocados que atuam no Brasil, Fred e Jô, centroavantes chamados por Felipão, tiveram desempenho pífio no campeonato brasileiro 2013, fazendo 3 e 6 gols, respectivamente. Jogadores que se destacaram como Ricardo Goulart, Everton Ribeiro, Dedé, Ganso, Hernani e Vitinho jamais foram testados e veteranos como Ronaldinho Gaúcho, sem perspectivas, pela idade, de valorização no mercado mundial, excluídos. Optou-se por uma seleção de jogadores bastante jovens e inexperientes, transacionados no mercado mundial, muitos dos quais reservas em seus clubes de atuação, apostando-se, como numa bolsa de valores, no forte potencial de valorização de alguns de seus ativos. Mas há fortes riscos em toda aposta que busca lucros extraordinários num mercado altamente competitivo, onde o Estado não pode intervir para neutralizar seus resultados.

Que o resultado chocante da Copa de 2014 contribua para impulsionar as reformas institucionais urgentes que o futebol brasileiro necessita para retomar seu vigor. Isto implica na democratização, fortalecimento e desenvolvimento da eficiência gerencial dos clubes para retomar as condições de produção da escola brasileira de futebol. Isso não será possível sem o controle público e democrático sobre a CBF. Avançar nestas tarefas são desafios que o Estado brasileiro tem no campo desportivo nos próximos anos.

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BRASIL EM JOGO500

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Lançamento Boitempo: Altíssima pobreza, de Giorgio Agamben

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A Boitempo acaba de lançar Altíssima pobreza: regras monásticas e forma de vida, de Giorgio Agamben. Neste novo título do ambicioso projeto Homo Sacer, o filósofo italiano mergulha numa pesquisa rigorosa das regras monásticas, e reconstrói a genealogia  de uma forma-de-vida, “uma vida que se vincule tão estreitamente a sua forma a ponto de ser inseparável dela”. Pensar a vida como aquilo de que nunca se dá propriedade, mas apenas um uso comum, é, para o filósofo, o legado mais precioso do franciscanismo com o qual, tantas vezes, o Ocidente voltará a confrontar-se como se fosse sua tarefa indeferível.

Leia abaixo a orelha do livro, assinada por Edson Teles

Seria possível imaginar um modo de vida em que o agir coincidisse com o ser? Como conceber uma vida não determinada pelo direito e pelas leis? Qual o limiar entre a vida e a regra?

Aprofundando reflexões sobre o contemporâneo já iniciadas nas outras obras de Homo sacer, Giorgio Agamben se lança em uma pesquisa sobre as regras monásticas, nas quais se encontra uma série de regulações da vida, do comportamento, dos hábitos cotidianos que vão desde a marcação do tempo – dividido entre noite, dia, hora de cuidar do ser, do trabalho – até as relações hierárquicas e de obediência e comando, passando pelas incidências de danos às quebras de procedimento.

As “formas de vida” nascem de um ideal monástico, centrado na fuga do indivíduo para uma vida solitária e de entrega espiritual, e parecem dar origem a um modo de vida em comunidade.

Distinto do modelo contemporâneo, no qual se adéqua o cotidiano à lei e às regras, o dispositivo monástico não aplica a norma à vida, mas busca construir uma formulação em que se vive de acordo com a norma. Com os franciscanos elabora-se uma vivência em comum pela indiferenciação entre vida e regra. Uma forma de vida que não é conselho, nem moral, nem ciência, nem lei, mas funciona como o cânone de uma comunidade do bom uso da vida.

“Altíssima pobreza” é menos uma prática ascética de perfeição do que a possibilidade de uma vida fora do direito e da propriedade, como se ela a ninguém pertencesse e pudéssemos apenas dela fazer um uso comum. A vida franciscana não se situa no plano da doutrina ou da lei, mas na experiência de um modo de vida e de relação com o mundo.

Agamben propõe uma rigorosa genealogia das formas monásticas, relacionando-as às liturgias, à vida comum, às instituições de poder, para construir um duplo caminho: através de um profundo mergulho na figura histórica do pensamento religioso, o autor nos remete diretamente aos dilemas do contemporâneo.

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Adverte-se aos curiosos: esta edição de Altíssima pobreza foi publicada 50 anos depois do lançamento de O evangelho segundo são Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini. No filme, o jovem Giorgio Agamben (22 anos), então estudante de Direito, trabalha como ator no papel do apóstolo Felipe. Confira:

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

A comemoração

14.07.17_Flávio Aguiar_A comemoração[Charge de Ziraldo publicada na revista Visão durante a Copa de 1970]

Por Flávio Aguiar.

Dois municípios se digladiavam no interior do Rio Grande do Sul: Xurumela e Novo Säugling. A rixa era antiga. Novo Säugling, como diz o nome, era predominantemente germânico. Já Xurumela tinha mais de tudo: até alguns dissidentes de Novo Säugling que preferiram se misturar, em priscas eras, aos xurumélios. O contrário também era verdade: muitos xurumenses, sabe-se lá por que, tinham preferido passar para o lado dos säuglinguenses.

A rixa, porém, era antiga. Por exemplo: no tempo da Guerra, alguns säuglingos aderiram ao Terceiro Reich. Não eram a maioria: mas pelo barulho, deram o seu perfil ao município. Marchavam pelas ruas imitando a Wehrmacht, a passo de ganso.

Depois, quando perceberam que isto podia pegar mal, aderiram aos integralistas, camisa verde e tudo o mais. Gritavam Anauê com a mão levantada, no melhor estilo então dominante em Berlim. Isto valeu o apelido a todos os säuglingóis, de “boches” – nome herdado, na verdade, dos filmes americanos sobre a guerra, em que os alemães sempre pareciam gorilas perfilados que falavam um inglês estropiado e gutural.

Já em Novo Säugling os xurumeses tinham fama de vagabundos, que detestavam trabalhar, só pensavam em ir se deitar nas praias do rio Taquari e ficar vadiando. Tudo isto porque muitos xurumelianos adoravam fazer exatamente isto, embora trabalhassem pacas o dia e o mês inteiros. Daí se criou em Novo Säugling a expressão “xurumico” – que servia para designar os vira-latas, os cães vadios, que, aliás, a prefeitura local expulsava sempre para o município vizinho.

Mas havia entre ambas uma sociedade secreta, que se auto-chamava “Os Condestáveis”. Eram grandes empresários de um lado e do outro, que governavam as duas cidades, pois financiavam sempre os candidatos a prefeito e a maioria dos vereadores que eram eleitos. Na verdade, eles, os “Condestáveis”, se julgavam “os eleitos”. Mas preferiam governar na sombra.

Eram sempre muito racionais, embora às vezes surgissem propostas abstrusas entre eles. Por exemplo, um condestável do lado “sing”, preocupado com o excesso de xurumeios que procuravam os bordéis de Säugling”, sugeriu que se construísse um muro na divisa entre as duas cidades, para controlar a passagem. O presidente do Conselho dos Condestáveis se opôs: “logo agora que o muro lá em Berlim caiu?”. Ao que o proponente retrucou: “pois é, a gente podia aproveitar as pedras do de lá pra construir o de cá; sairia barato”.

Mas felizmente a ideia não prosperou. Porque entre as duas cidades havia uma troca intensa, por debaixo da rivalidade. Os condestáveis de Xurumela produziam muito couro e cadarços. Já os de Säugling produziam sapatos. Muitos xurumicos trabalhavam nas fábricas dos boches. E todos – os condestáveis, naturalmente – ganhavam muuuito dinheiro com isto.

Mas aí veio o grande dia do futebol. Alguém teve a ideia de promover um campeonato entre as seleções das duas cidades, em melhor de três. Era para promover a integração, mas logo começaram a surgir as piadas, de que os “boches” jogariam que nem postes e, do outro lado, que os “xurumicos” derreteriam ao sofrer o primeiro gol.

Veio o grande dia. Bandeiras agitadas, feito asas num pombal. Camisetas distendidas em corpos, como num varal. E no campo – cujas arquibancadas estavam lotadas, até com o governador do estado presente – foi um vareio: Xurumela 7 x Singóilingue 1. Uma vergonha. O povo siringóide clamava por vingança. Mas veio a segunda partida, mais sofrida. Mas depois de pênaltis não marcados, expulsões, muito sangue, suor e lágrimas, acabou com a vitória Xuru por 1 x 0.

Daí alguém xurumelo teve a ideia. Vamos fazer uma comemoração.

E fizeram. Era um desfile. Ruas cheias, povo com bandeirinhas xurumélicas na rua. E aí na frente vinha uma linha de jogadores do time xurúquico, de botas, capacete nazi, uniforme, em passo de ganso, cantando: “assim caminham os boches”. A seguir, num passe de mágica, despiam os uniformes, os capacetes, as botas, ficavam de bermuda e chinelo de dedo, entrava uma batucada, e eles a sambar gritavam: “assim caminham os xurumelos!”.

Em Zingoriunga foi um desmanche. “Racismo”, gritavam os mais exaltados. “Desrespeito pelos vencidos”, os menos. “Vergonha”, gritavam todos. “Vingança”, rugiam as ruas.

Alguém teve a ideia: vamos organizar uma dança contrária! A gente começa caminhando de cócoras, cabeça meio baixa, gritando: “assim caminham os xurumicos!”. Depois se alevanta, caminha de pé, e grita: “assim caminha a humanidade!”. Continuava a argumentação: “é o nome de um filme famoso. A gente pode dizer que é um velho costume germânico, de origem medieval – coisa que aliás estes xurumicos não têm – e assim ninguém poderá nos acusar de racismo”. Mas a ideia foi descartada pelo presidente sirigóide dos Condestáveis, temendo que o caso atraísse a atenção das autoridades do estado e até de Brasília. “Ainda mais nestes tempos que lá em Brasília e aqui no estado reinam estes comunas”, ele contou depois à mulher, no jantar.

Mas o caso deflagrou debates candentes de ambos os lados da divisa. Gente contra e a favor, gente que escrevia artigos candentes de um lado exigindo – de ambos os lados – o sangue e a cabeça dos que escreviam pelo outro lado. Grandes confusões de aprontavam no horizonte. Um dos xurumicos, que era amigo de um dos boches, observou para este: “a coisa é feia e vem se debruçando”.

Mas daí alguém – um outro alguém – teve uma ideia – uma outra ideia. Não se sabe muito bem como foi, mas o fato é que num domingo, na praça que marcava a divisa entre as duas cidades, apareceu uma banda. É, uma bandinha, destas do interior. Metade xurumicos, metade boches. Só que os xurumicos vestiam aqueles calçõezinhos de couro da Baviera, com o chapeuzinho verde de peninha em riste. E os boches vestiam de tudo: camiseta listada com sandália de dedo, bombacha de gaúcho, tinha um até vestido de baiana. Por que não?

E desandaram a tocar na manhã ensolarada. Tocavam de tudo. Rancheira, xote, baião, polca, Heimatlandmusik, yodeldideldum suíço, valsa de Viena, rocão, funk, punk, pós-jazz, tudo de tudo. Mas foi na hora do sambão que a coisa começou. Um xurumelo – que tinha uma paixão secreta – não aguentou e tirou-a pra dançar. Só que ela era do lado boche. Mas topou e caiu no samba. Daí subiu a locura. Todo mundo começou a dançar e sambaram até a Kleinenachtmusik do Mozart.

Começou assim a verdadeira comemoração. Diz que durou um mês. Ninguém trabalhou neste tempo. Todo mundo compartilhava tudo: Wurst, picanha, acarajé, cerveja, vinho, refri, água. E caía no samba. Um mês depois, foram dormir, que ninguém é de ferro.

A vida voltou ao normal. Mas nunca mais o normal foi normal. Toda a semana, tem uma festa em algum local, com a bandinha dos aloprados. Tem gente que fala até em fundir os dois municípios. E há uma nova expressão no pedaço, dirigida às novas gerações, capitaneadas por aquele casal que começou a dança: “xuruboche”, e dita com muita honra.

Por seu turno, a Associação Secreta dos Condestáveis registrou aquele mês como perdas e danos. E pediu mais isenção de impostos.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros! Para aprofundar o debate sobre o legado da Copa e das Olimpíadas para o Brasil, a Boitempo lança às vésperas da Copa o livro de intervenção Brasil em jogo, em debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Moral da Copa: a fantasia clama pela racionalidade

14.07.17_Jorge Luiz Souto Maior_Moral da CopaPor Jorge Luiz Souto Maior.

Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas a complexidade do contexto em que vivemos exige que as ideias sejam apresentadas por inteiro, ainda que de forma resumida.

O que pretendo com este ensaio, que nesta visão mostra-se até bastante pequeno, é, sobretudo, advertir sobre os problemas que decorrem da perda da racionalidade, o que não significa dizer que as posições aqui assumidas sejam as corretas. Penso que o único erro que se pode cometer é o de evitar as análises sob o pressuposto de que qualquer tipo de problematização seja uma forma de derrotismo ou de conspiração.

A ocorrência da Copa e o advento das eleições estão obstando a realização de análises comprometidas apenas com os fatos, tais como se apresentam, e isso tem gerado um definhamento na capacidade crítica e reflexiva. As pessoas não querem ouvir e têm medo de falar.

O que proponho, portanto, é apenas que retomemos o diálogo franco e aberto sobre os problemas sociais do país, passando por cima de interesses estritamente eleitorais, estabelecidos em lógica maniqueísta, e de propósitos comerciais.

Nessa perspectiva é que lhes convido a perder parte do valioso tempo de suas vidas com a presente leitura.

1. “Toca de tatu”1

Em entrevista após o 7 a 1 contra Alemanha, Neymar, refutando algumas críticas à seleção brasileira, falou que “é muito fácil falar depois que as coisas acontecem”…

Entendo o que o craque e cidadão Neymar disse. Pretendeu explicitar que antes da partida ninguém diria que aquele resultado ocorreria e mesmo os críticos não manifestariam uma visão tão negativa da seleção quanto a que os gols da Alemanha lhes permitiram expressar. Além disso, após um resultado acachapante como aquele passou a ser muito fácil para os críticos apontarem problemas e mais problemas sem receio de objeções, em razão do dado objetivo, irrespondível, da goleada sofrida pela seleção.

Mas se há alguma verdade na justa observação de Neymar, não é possível deixar de reconhecer que também fica muito fácil recusar as críticas a partir desse argumento, incorrendo-se em erro ainda mais grave que é o de fingir que o resultado não ocorreu, como se verificou, posteriormente, na postura da comissão técnica da seleção brasileira.

Claro que diante de um 7 a 1 é preciso mesmo muito cuidado para fazer a crítica, como adverte Juca Kfouri, para não perder a mão e sair por aí destruindo moralmente as pessoas.

Creio que os jogadores fizeram a sua parte. Jogaram o que podiam, sobretudo diante da carga emocional que indevidamente recaiu sobre suas cabeças. A comissão técnica trabalhou de forma intensa e, por óbvio, fez o trabalho que considerava ser o melhor que podia fazer. Em suma, é preciso respeitar os profissionais que atuaram na seleção, vendo-os como trabalhadores, ainda que muitos deles não se vejam como tal.

Muito menos se pode dizer, a partir do 7 a 1, que a Copa em si não teve muitos pontos positivos tanto no aspecto da qualidade dos jogos quanto no que tange à organização.

Mas daí a dizer, como disseram os membros da comissão técnica, que o 7 a 1 foi fruto de um apagão de 6 minutos e que não tem uma explicação, tendo sido meramente obra da magia do futebol, negando-se a reconhecer algum erro na formação e no treinamento da seleção, vai uma distância muito grande, que alimenta uma atitude dissimulada, em desprezo pleno da realidade.

Essa atitude, ademais, de negar as evidências, foi a que proporcionou que a seleção cometesse os mesmos erros no jogo contra a Holanda, promovendo novo resultado negativo, nem tanto pelo número de gols, mas pela própria forma equivocada de atuação.

Portanto, bem ao contrário do que a frase do Neymar, literalmente interpretada, sugere, não é nada fácil falar sobre a performance da seleção brasileira na Copa depois dos fatos ocorridos, até porque há vários riscos envolvidos ao se entrar no pêndulo impreciso entre a dramatização e a banalização.

2. “Diz um diz que viu”

Sei que, em tese, é só futebol. Sei também que se trata de um esporte cuja dinâmica permite que os resultados possam não ser aqueles que se imaginava devessem racionalmente ocorrer. Mas quem transformou a Copa em algo mais representativo que o próprio jogo não fui eu. De fato, criou-se uma fantasia em torno da Copa, que fora tomada como instrumento para abafar a contestação política ao governo. E agora que o time dentro de campo não funcionou não é mais possível vir a público para dizer que é “só futebol”.

Vale lembrar que a influência política, apoiada no apelo de uma comoção midiática, proporcionou uma preparação da seleção para a Copa completamente alheia a uma avaliação crítica mais contundente. A seleção se formou a partir de uma espécie de consenso, sem ser de fato testada, tudo a partir do argumento objetivo de ter se sagrado campeã da Copa das Confederações, evento que se realizou no olho do furacão das manifestações de junho de 2013 e cujo título serviu para criar o artifício de uma coesa contraposição patriótica à contestação política.

E lá foi a seleção, “que nem marquês de Pombal”, blindada com a marca de salvadora da pátria. Isso já ia mal!

Envolvida na própria fantasia criada, que se alimentava da comoção de entoar o “hino a capella”, que rapidamente foi assimilada como uma marca da seleção, a comissão técnica se viu na contingência de ter que manter os jogadores que participaram daquele torneio, um torneio que, todos sabem, não tem um valor efetivo. Mas, enfim, a fantasia já estava arraigada aos corações e mentes de todos. Resultado: chegou-se à Copa do Mundo com uma seleção com deficiência técnica no conjunto, sem estrutura de jogo e sem opções para reagir diante de adversidades criadas por rivais preparados sem esse fardo.

Com raras exceções, como, por exemplo, a do craque Neto, que reiteradamente insistia em dizer que o Luis Fabiano deveria ser o reserva do Fred, foram pouquíssimas as vozes dissonantes com relação à convocação.

Sem a influência da fantasia seria óbvio perceber que o Neymar não poderia ser o líder da equipe e que faltava alguém – um menos “bom moço” – que assumisse a responsabilidade em campo de arrumar o time e outros que pudessem dividir com o Neymar o peso de decidir os jogos. Não se está dizendo que jogadores com essas características existiam e cobrando nomes. Mas a mera ausência já exigia uma preparação diferente.

Claro que neste aspecto a crítica de Neymar, inicialmente reproduzida, toma corpo, exatamente no sentido de que agora fica fácil falar isso… Mas o que estou pontuando não é qual a convocação deveria ter sido feita e sim que a fantasia criada em torno da Copa das Confederações impediu que se pudesse ter visto as deficiências, no conjunto, do time, indo, aliás, muito além disso, pois a conquista chegou a conferir aos jogadores o excessivo patamar de “pop stars”, o que, claro, foi incentivado por patrocinadores, como forma de alavancar negócios.

3. “Um pega lá no toma-lá-dá-cá”

Consciente de que tinha nas mãos a equipe talhada para ser campeã, na perspectiva do governo o que restava era apenas garantir que a Copa ocorresse sem transtornos, pois o título viria como a cereja do bolo que anularia qualquer crítica à realização do evento.

As manifestações de junho foram violentamente rechaçadas em nome da Copa das Confederações e o sucesso atingido conferiu o direcionamento: impedir que as contestações populares ao evento tivessem lugar. E se visualizou a “Copa das tropas”.

A fantasia já criada em torno da seleção foi transportada para o campo administrativo e político. A Lei Geral da Copa estabeleceu um Estado de Exceção na ordem constitucional brasileira, mas a população foi levada a crer que isso de fato não ocorria e que todos os que apresentavam argumentos com alguma racionalidade objetiva estavam apenas tentando inviabilizar o evento e querendo abalar a estabilidade política do governo.

Por mais que estivessem claros os absurdos jurídicos cometidos na preparação para a Copa com: a) as remoções de famílias; b) a criação de um “local oficial de competição” reservado à FIFA e suas parceiras para comercialização exclusiva; c) a institucionalização do trabalho voluntário na realização de serviços ligados a um empreendimento econômico; d) o permissivo da exploração do trabalho infantil nas atividades ligadas aos jogos, incluindo a de gandula; e) a liberdade conferida à FIFA para atuar no mercado, sem qualquer intervenção do Estado, podendo, inclusive, fixar o preço dos ingressos como bem lhe aprouvesse e mesmo assim a entidade ainda se viu envolvida na formação de um mercado paralelo de ingressos; f) a eliminação do direito à meia-entrada; g) o afastamento da aplicação do Código de Defesa do Consumidor; h) a ausência de fiscalização efetiva das condições de trabalho nas obras dos estádios, das quais decorreram oito mortes e inúmeros acidentes (não contabilizados); i) a isenção tributária à FIFA; j) a restrição à atividade dos ambulantes; l) o incentivo à formação de relações de trabalho por intermédio da terceirização; a fantasia falava cada vez mais alto.

Assim, para atender o compromisso de realizar aquela que se passou a anunciar como a “Copa das Copas” e permitir a curtição do futebol nos estádios, no Fan Fest, em bares, no sofá da sala ou no churrasco com amigos, regado a muita “birita”, era preciso difundir a ideia de que nenhum problema de fato estava ocorrendo, fazendo acreditar que ser brasileiro era necessariamente torcer para a seleção e que tudo o mais não importava naquele momento, impulsionando, desse modo, um espírito de massa, próprio aos regimes totalitários, que se legitimam no Estado de Exceção.

A fantasia em favor da comoção e do ópio tinha, ainda, que desqualificar todos que falavam dos problemas da Copa, mesmo que apenas quisessem, como ocorria a muitos, firmar sua posição quanto à impropriedade de se ter destinado dinheiro público para realizar a Copa exatamente no momento em que a população tinha ido às ruas para pleitear melhorias nos serviços públicos ligados aos direitos sociais e no que se refere aos riscos a que se submetia toda a população com a abertura às práticas policialescas e de supressão de direitos democráticos, notabilizando-se o prejuízo histórico à classe trabalhadora.

Na perspectiva das manifestações populares, essa “derrota” foi imposta pelo uso da força policial, promovendo-se um grave retrocesso na forma democrática de encarar as mobilizações, isso se tomarmos como referência o padrão atingido em junho de 2013. Chegou-se mesmo a estabelecer uma associação entre a União e os diversos Estados da Federação, independente de filiação partidária, para instituição de uma “política federativa de segurança”, conforme assumiu a Presidenta Dilma2. Tudo para abafar as mobilizações populares, tendo se chegado ao ponto da total supressão do direito de manifestação e de reunião, como se deu no primeiro dia da Copa em São Paulo, quando uma manifestação foi impedida de iniciar, e no dia 1º. de julho, em ato realizado, também em São Paulo, na Praça Roosevelt, que restou sitiada por um contingente de policiais no mínimo três vezes superior ao número de participantes. A repressão foi acompanhada da tática de criminalização, que vitimou em São Paulo, os estudantes Murilo Magalhães e Fábio Hideki Harano e o professor Rafael Marques, estes últimos dois presos desde o dia 23 de junho, e instigou, no Rio de Janeiro, a prisão preventiva de 19 ativistas, um dia antes do último jogo da Copa, diante da iminência da ocorrência de manifestações.

A associação política foi acompanhada de um ajuste tácito em torno dos potenciais benefícios econômicos da Copa, fazendo com que vários meios de comunicação, que antes davam destaque aos problemas na preparação para a Copa, com a proximidade do evento, passassem a retirar esses questionamentos do noticiário como se nunca tivessem ocorrido.

4. “Rola a bola”

E quando rolou a bola a fantasia rolou solta. A cada chute, a cada drible, a cada gol, a cada virada, mídia e governo exaltavam a beleza da “Copa das Copas”… E como os estádios ficaram prontos, os aeroportos não ficaram entulhados, as manifestações foram abafadas e se esqueceram os problemas que envolveram a preparação para o evento, foi o momento de atacar os “pessimistas”, afirmando-se que os críticos que tinham feito apostas contra a capacidade do Brasil de organizar um evento dessa envergadura tinham perdido.

Verdade que muitas das premonições contra a Copa, como as que diziam respeito às deficiências de infra-estrutura, eram mesmo exageradas, embora não de todo despropositadas, vez que muitas obras foram concluídas no último instante e tantas outras sequer foram acabadas. De todo modo, problemas na preparação para a Copa existiram e mesmo que ainda estivessem produzindo efeitos concretos, sobretudo no que tange à exceção do Estado Constitucional, a fantasia criada em torno do evento buscava fazer com que os problemas fossem transformados em abstrações de conspiradores, vez que, em concreto, o que se via – como se queria ver – eram torcedores, de várias nacionalidades, entrando e saindo felizes dos estádios, deliciando-se com jogos emocionantes.

5. “Água de benzê, linha de passe e chimarrão”

E a seleção brasileira? Bem, a seleção brasileira foi a representação perfeita dos perigos de tentar viver no mundo da fantasia e dos efeitos deletérios da perda da racionalidade humana.

Transportando para a Copa do Mundo a fantasia da Copa das Confederações, os jogadores da seleção brasileira entraram em campo no primeiro jogo assumindo o papel de “salvadores da pátria”, da pátria com chuteiras. E dá-lhe hino a capella!

Convencidos pela força midiática de que eram super heróis, super craques e símbolos máximos do sucesso econômico do futebol, entoados por uma forte emoção social e carregados do peso insuportável de sufocar os problemas do país, os jogadores se viram na contingência de se encontrarem com seus limites humanos e viram abaladas as suas próprias forças e habilidades.

A seleção, que já possuía, no conjunto, limitações técnicas e deficiência tática, experimentou ainda maiores dificuldades e jogou mal o primeiro jogo, embora tenha vencido.

Mas, claro, a fantasia continuou imperando e foi como se o jogo não tivesse ocorrido. “Tocou Neymar é gol!”

A empolgação com a seleção continuou sendo fortemente incentivada pela grande mídia, exceção feita – nos limites do que tive a possibilidade de ver e ouvir – aos profissionais da ESPN.

No segundo jogo, outro susto. Empate com o México e a seleção novamente não se viu bem. No entanto, comissão técnica e jogadores pareciam estar em um universo paralelo. Para eles, tudo estava sob controle…

Depois, vitória sobre Camarões!!! E na visão fantasiada a seleção tinha encontrado o rumo definitivo dos bons resultados.

Os três jogos já demonstravam claramente que a seleção não estava bem e que corria muitos riscos no jogo contra o Chile. Mas os prognósticos eram: o Brasil passa, com certeza.

Passou, mas por muita, muita sorte, além, é claro, por conta da incompetência dos atacantes do Chile e bastante em razão da habilidade do goleiro Júlio César em pegar pênaltis.

Naquele instante já era possível vislumbrar a situação da seleção brasileira como a daquele time que no campeonato brasileiro fica quase todas as rodadas na zona de rebaixamento e que, faltando poucas rodadas para o término da competição, ainda tem chances matemáticas de não ser rebaixado, bastando para tanto que conquiste 12 nos últimos 15 pontos em disputa. Ora, ainda que matematicamente isso seja possível, não é muito razoável supor que um time que tem, por exemplo, cinco vitórias em todo o campeonato possa vencer quatro adversários nos últimos cinco jogos.

Os analistas profissionais da ESPN, por isso mesmo, continuavam fazendo suas advertências quanto à fragilidade coletiva e tática da seleção brasileira, mas no império do mundo da fantasia eram tachados de negativistas. O Brasil estava jogando mal e não era razoável supor que passasse a jogar bem de uma hora para outra, ainda mais porque entre os convocados não havia quem pudesse ser utilizado para mudar, radicalmente, a forma de jogar, que continuava sendo, “tocou Neymar é gol”.

Foi então que a fantasia da Copa se aliou à realidade totalitária e alguns jornalistas críticos da seleção foram chamados para uma conversa privada, na qual se tentou convencê-los de que não era conveniente que continuassem expressando suas compreensões. A reunião, segundo se relatou, foi amistosa e, em concreto, não repercutiu na postura dos jornalistas. De todo modo, ocorreu e só isso demonstra o quanto o mundo da fantasia se incomoda com racionalidades.

O jogo contra o Chile foi o fundo do poço e a forma como os jogadores desabaram ao final da partida impunha que a comissão técnica reconhecesse o exagero de todo o artificialismo em que a seleção estava envolvida.

Quando se esperava que um pouco de racionalidade fosse produzida, nova fantasia foi criada para manter a euforia em torno da seleção e blindar a comissão técnica: tudo não passava de problemas emocionais; nada que um trabalho psicológico de dois dias não resolvesse.

Com a vitória sobre a Colômbia por 2 a 1 a fantasia se consagrou de vez. A euforia não permitiu que se percebesse, no entanto, o quanto a Colômbia, naquele jogo específico, deixou a desejar.

Mesmo a perda trágica do Neymar, por contusão, do ponto de vista do efeito na seleção, foi minimizada, sendo transformada, por nova fantasia, em alimento para uma comoção social e para a extração de mais energia dos demais jogadores.

Em paralelo, a morte de duas pessoas e o ferimento de outras vinte e três no dia 03 de julho, um dia antes do jogo contra a Colômbia, em Belo Horizonte, decorrentes do desabamento de um viaduto, obra inacabada que seria destinada à mobilidade para a Copa, financiada pelo PAC da Copa, sob a responsabilidade do governo municipal e realizada por grandes empreiteiras, algumas já envolvidas em questões ligadas à falta de segurança dos trabalhadores, como atesta ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho na Bahia (Vara do Trabalho de Ipiaú)3, foram igualmente conduzidos ao plano da abstração, não atingindo a comoção social devida (bem ao contrário do que se deu com a contusão do Neymar, que foi, por certo, muito triste), até porque não era o momento de expor questionamentos que pudessem abalar a performance da seleção em campo. A realidade dos problemas da preparação para a Copa se fazia presente, mas em nome da fantasia era desconsiderada.

6. “Não tem, vai pão com pão”

No plano do futebol, até então, concretamente, a seleção brasileira não havida jogado nenhuma partida de forma convincente e sem Neymar findou-se a única tática existente do “tocou Neymar é gol”. Além disso, sem Thiago Silva a “melhor defesa do mundo” já não seria igual. Era fácil saber, portanto, que o jogo contra a Alemanha seria uma parada duríssima e que o prognóstico mais próximo da realidade era o da derrota da seleção brasileira. Claro que no futebol tudo é possível, mas mesmo o imponderável tem limites e o jogo, de fato, se resolve em campo pela somatória de atuações e a estratégia utilizada. Não basta empolgação, raça ou força de vontade. Mas na fantasia alimentada a seleção era a melhor do mundo e seria ainda melhor sem o Neymar porque os demais jogadores, mesmo extenuados por terem tido que jogar carregando 200 milhões de brasileiros nas costas e por terem tido que fazer valer os compromissos comerciais assumidos pela CBF, jogariam pelo Neymar…

A comissão técnica não apenas foi envolvida neste clima como o incentivou. Ora, na qualidade de uma “comissão técnica” cumpria-lhe ter tido a percepção de que a situação punha a seleção brasileira em uma condição de inferioridade frente à seleção alemã. Mas não, mesmo tendo colocado em campo um “catado” que nunca havia atuado junto, armou a seleção indo para cima dos alemães, que jogam juntos há vários anos não só na seleção mas no próprio campeonato alemão, e mesmo levando um gol aos dez minutos, quando já era possível prever uma goleada, manteve a mesma forma de jogar: desesperada no ataque e atabalhoada na defesa.

Dir-se-á: agora é fácil falar! A questão é que a fantasia em que todos estavam envolvidos não permitia que a totalidade da situação fosse examinada, até porque naquela altura os interesses políticos e econômicos já se davam por satisfeitos e mesmo a derrota poderia ser alimento para novas fantasias…

Aliás, antes da partida contra a Alemanha foi sentenciado: independente do resultado do jogo, “o Brasil já se sente vitorioso!”

7. “Rabada com angu”

Só que a fantasia do futebol de tanto ser utilizada se vingou e resolveu trazer a realidade à tona: Alemanha 7, Brasil 1.

Em concreto, a soberba, a deficiência técnica, a falta de organização e o excessivo envolvimento do futebol com política e relações comerciais acabaram por expor a seleção brasileira a um vexame histórico, mas que acabou sendo necessário, pois somente uma hecatombe poderia extrair o Brasil do local mais profundo da irracionalidade em que se encontrava.

A goleada de 7 a 1 traduziu, exatamente, a distância na preparação que separava as duas seleções.

Na preparação, enquanto a seleção brasileira sofreu das conseqüências do artificialismo, incluindo a infantilização a que foram submetidos os jogadores, que serviram, também, todo o tempo, como garotos-propaganda de algumas marcas e de uma rede de televisão, a Alemanha se postou como uma seleção focada a um objetivo específico: jogar bola.

Naquele instante a análise já seria bastante óbvia, sem possibilidades de digressões. A fragilidade da seleção brasileira ficou à mostra, assim como a superioridade técnica da Alemanha.

8. “Um som bordão bordando o som, dedão, violação”

Era hora, pois, de trazer os problemas à tona, assumi-los e pensar sobre eles. Mas após tanto tempo no mundo da fantasia não apenas ficou definhada a capacidade de raciocinar, como se perdeu mesmo a vergonha de ofender a inteligência alheia.

Depois do jogo cheguei a rascunhar um artigo com o título, “enfim a razão”, supondo que diante das obviedades extraídas da partida não se teria mais lugar para fantasias.

Qual não foi a surpresa quando a comissão técnica veio a público para dizer que a preparação da seleção não teve nenhum erro e que no jogo com a Alemanha o que aconteceu foi apenas um apagão de 06 minutos, tendo sido o resultado final fruto do inexplicável e do acaso…

Neste instante fui invadido de extrema perplexidade e me lembrei de uma conversa que tive no começo desse ano com alguns alunos na Faculdade, quando falávamos sobre o quanto 2014 submeteria a nossa condição humana a testes extremos, isso porque já se podia verificar uma escalada da irracionalidade sobre diversos assuntos e diante da Copa e das eleições tal situação tenderia a se aprofundar.

Mas não foi só. Também o governo que se valeu da seleção e da Copa para abafar as mobilizações populares, passou a adotar uma postura de se desvincular do futebol, destacando apenas o seu papel de organizador do evento. Mas, para não perder a oportunidade de criar nova fantasia, exaltou a capacidade do povo brasileiro de superar a derrota: “Ser capaz de superar a derrota, eu acho que é a característica e marca de uma grande seleção e de um grande país”, disse a Presidenta, deixando a entender que as ausências de Neymar e Thiago Silva foram os fatores determinantes da derrota4.

E, deslocando-se, plenamente, do resultado, preconizou que a Copa foi uma “das melhores” já realizadas, “e isso é em grande parte devido à capacidade do povo brasileiro para oferecer hospitalidade e receber bem torcedores  de todo o mundo”5.

Ou seja, mesmo com o histórico 7 a 1, o que se verificou foi a produção de novas irracionalidades, desenvolvidas no mundo da fantasia, para gerar a sensação de que a goleada simplesmente não havia ocorrido ou que não estivesse ligada a algum problema na formação, preparação e treinamento da seleção.

9. “Naco de peru”

Convencida da própria versão e com o alimento retórico de “Dona Lúcia”, a comissão técnica, que não viu nenhum erro na atuação do Brasil e que foi prestigiada pela CBF, muito rapidamente recuperou o “alto astral”. Foi para o jogo contra a Holanda como se estivesse indo para uma festa cívica, alimentada por novas fantasias, como a de reintegrar o Neymar à delegação e até conduzi-lo ao banco de reservas, para atrair a simpatia do público.

Assim, a seleção brasileira entrou em campo contra a Holanda como se nada tivesse ocorrido e mesmo a torcida foi induzida a acreditar que as coisas voltariam à normalidade artificialmente construída, recuperando a esperança em torno da realização de uma partida técnica e plasticamente perfeita da seleção.

No entanto, conforme já denunciava o 7 a 1, a realidade era a de que seleção brasileira, independente da qualidade individual e da dedicação dos jogadores, no conjunto estava mal.

E a fantasia do futebol se rebelou novamente: 3 a 0.

10. “Sereno e pé no chão”

Com 10 a 1 na conta (somados os dois jogos) não é mais possível deixar de reconhecer que a própria fantasia está exigindo que se recobre a razão a partir de postulados da realidade e é preciso que isso se faça urgentemente, ainda que de forma serena, com pé no chão.

Por conta da derrota no futebol, não me parece devido fazer divagações acerca do caráter nacional, ou coisa que o valha, fazendo alusões a um suposto “complexo de vira-lata”. Talvez o mais apropriado seja tentar identificar os problemas das entidades responsáveis pela organização do futebol, que atingem outras instituições brasileiras, e para tanto cumpre dar destaque à leitura sociológica que aponta os efeitos negativos da ausência de uma revolução social. Lembre-se que sequer uma revolução burguesa em sua forma clássica se produziu entre nós, conferindo-nos um capitalismo dependente, que nega a existência da sociedade de classes e que está envolto em formas de conciliação com o passado6, gerando um legado de preservação e acúmulo de lógicas escravistas, oligárquicas e anti-democráticas, além de práticas de corolenismo, clientelismo e fisiologismo. Essa situação, aliás, teria conferido um caráter autocrático à burguesia brasileira e o apego a um liberalismo dissimulado, que se vale da estrutura repressiva de poder para manter as desigualdades e impor submissão e acomodamento diante das adversidades à classe dominada, à qual se apresenta apenas o refúgio e a retórica de identidade, assim como a “liberdade”, nos eventos festivas7, também como forma de abafar as tragédias cotidianas.

Isso não quer dizer que o povo tenha assistido a tudo bestializado8 ou também que não tenham havido no Brasil inúmeras lutas sociais, sobretudo no âmbito da classe trabalhadora, o que é suficiente, inclusive, para negar a suposta apatia do povo brasileiro, mas não a alienação, obviamente, que é típica no capitalismo. Essas lutas, ademais, têm se intensificado nos últimos anos, sobretudo a partir de junho do ano passado, fazendo com que, neste aspecto, o Brasil esteja bem melhor que a seleção.

Fato é que não dá para continuar vivendo na fantasia. Mas mesmo com o 10 a 1 sair dela não é um passo muito simples, como se possa supor. Após o 10 a 1, o indignado Mauro Cezar Pereira desabafou: “agora só falta alguém dizer que a campanha do Brasil foi a melhor desde 2002”. E como ressaltou o próprio jornalista em questão: “e não é que o Felipão disse isso!”

Essa forma de análise, que nega os fatos, é uma agressão à inteligência de todos e serve para, mais uma vez, mascarar a realidade, fazendo pouco caso da vida em si. Ora, a seleção brasileira, seguramente, embora tenha passado por Chile e Colômbia, teve uma das piores performances entre todas as equipes do campeonato, tendo batido várias marcas negativas…

E cabe aqui uma advertência, que considero muito importante: tratar do assunto Copa e da performance da seleção brasileira exige o cuidado de não se deixar reconduzir ao mundo da fantasia, ainda que se esteja buscando uma racionalidade interna.

Assim, o primeiro passo que se deve dar para sair das amarras da fantasia é devolver o futebol ao limite de sua importância. Não é mais possível sustentar uma nação sobre a fantasia do futebol. Futebol é bom e a gente gosta, como se dá, ademais, em diversos outros países, não sendo, pois, um privilégio, para o bem e para o mal, do Brasil. Mas essa história de que o Brasil é o país do futebol é um estereótipo que nega a sua própria razão de ser como nação. Aliás, a diversidade de nações, visualizadas em posições contrapostas, é um elemento cultural, político e econômico a ser superado.

É importante perceber, também, o quanto o futebol se tornou uma fonte de sustento do modelo capitalista, produzindo riquezas para alguns poucos e entretenimento entorpecente para tantos outros.

Claro que não se pode desprezar a força do futebol, até porque o resultado positivo em campo acaba sendo utilizado para reforçar fetiches e mascarar os problemas sociais, assim como o resultado negativo na Copa pode servir como alimento para superar os obstáculos ao raciocínio, somando-se, ainda, o quanto a postura política dos jogadores pode auxiliar nas mobilizações sociais, como se deu com o jogador Sócrates na campanha pela democratização do país.

11. “É sola, esfola, cola, é pau a pau”

No presente momento é de suma importância ter a capacidade de se afastar da fantasia da Copa. Temos, agora, a grande oportunidade de voltar à realidade na busca de, enfim, construir uma sociedade efetivamente justa.

Claro que o péssimo resultado futebolístico na Copa, que reflete problemas estruturais, impõe que se pense nas necessárias mudanças no futebol, que envolvem, também, o reconhecimento dos direitos dos atletas, a superação da lógica autoritária dos clubes, a fixação de uma concreta responsabilidade fiscal no setor, o respeito aos direitos dos consumidores etc. Mas o assunto principal que nos deve impulsionar neste momento não é este. Principalmente, não devemos nos limitar a esse debate, vez que isso apenas nos condenaria a viver na fantasia, alastrando-a até a outra Copa daqui a quatro anos.

Reitero: são importantes as reivindicações do Bom Senso Futebol Clube quanto aos direitos dos jogadores e à democratização da administração do futebol e é mesmo relevante a postura do Estado em estimular as práticas atléticas, tanto no futebol quanto em outros esportes. Mas essa não pode ser a prioridade brasileira neste instante. Ou, pelo menos não deve ser a única preocupação.

Ultrapassado o grande risco da supressão plena da racionalidade que o período da Copa representou, a prioridade agora só pode ser a do esforço concentrado – que o país tem condições de assumir, como se viu, afinal, no momento de preparação para a Copa – em torno da efetivação dos direitos sociais, sobretudo no que se refere à moradia, à educação pública e gratuita de qualidade, à saúde pública, ao transporte gratuito para todos, ao trabalho digno, ao acesso à cultura, acompanhada de uma política concreta de melhor distribuição da riqueza produzida e da ampliação e concretização das práticas democráticas, notadamente no que se refere à participação nos entes deliberativos e às formas públicas de reivindicação.

É preciso, além disso, ficar muito atento, pois neste período pós Copa há também o grande risco de se tentar manter a sociedade envolvida com as artificialidades da Copa, que podem até gerar novos gastos para a promoção de outros grandes eventos nos estádios que foram construídos exatamente para não incorrer na crítica da ausência de um legado com os estádios, dificultando e atrasando ainda mais a obra em torno daquilo que prioritariamente deve interessar à sociedade brasileira.

É emergencial, sobretudo, retomar a vigência do Estado Democrático de Direito, a começar pela libertação de todos os presos políticos, que foram conduzidos a tal situação durante o Estado de Exceção da Copa, valendo lembrar que o legado autoritário de 21 anos de ditadura ainda está estruturado em muitas de nossas instituições.

É essencial, também, reparar os danos já gerados a vários cidadãos brasileiros no período da preparação para a Copa, especialmente no que se refere às famílias removidas; às vítimas dos acidentes do trabalho e da pressão na execução das obras; aos trabalhadores ambulantes etc.

Aos trabalhadores em geral, enfim, cumpre que não permitir que se promova um aprofundamento dos erros já iniciados no momento de preparação para a Copa, sobretudo no que tange às deteriorações das condições de trabalho (com pressão para a realização dos serviços e intensificação do trabalho em horas extras), à negação ao direito de greve e ao incentivo à terceirização.

Nunca é demais lembrar que o governo federal, ao se ver envolvido com o desafio de organizar a Copa, acabou por se associar à FIFA (e suas parceiras econômicas) e como condição para a realização do evento se viu na contingência de patrocinar uma excepcionalidade na ordem jurídica constitucional, sobretudo em favor de alguns segmentos do setor econômico, do que se originou, inclusive, a malfadada “Lei Geral da Copa”.

Para a construção dos estádios em tempo recorde fez-se vista grossa à forma de atuação de empreiteiras no processo produtivo. Essa situação provocou um retrocesso na luta que vinha sendo travada contra a terceirização na construção civil, sendo bastante oportuno lembrar que as empreiteiras são grandes financiadoras de campanhas eleitorais, de diversos partidos políticos9.

Essa aproximação do governo com o setor econômico gerou uma conta, que está sendo paga com a adoção de uma política repressiva, institucional e midiaticamente organizada, contra o direito de greve, sendo seguida do anúncio de medidas de precarização das relações de trabalho, como forma de favorecer ao novo ciclo da “competitividade produtiva”, conforme anunciou a Presidenta Dilma10.

Na linha das iniciativas precarizantes projetam-se a ampliação da terceirização e o incentivo à negociação coletiva, além da instituição de formas não estatais de solução dos conflitos trabalhistas. É possível verificar esse direcionamento no Projeto de Lei recentemente apresentado pelo governo, que visa à criação do SUT – Sistema Único do Trabalho, no qual as figuras em questão ganham destaque.

No que tange à terceirização especificamente, o governo, diante da pressão sofrida pelo meio sindical, deixou de lado a defesa que vinha fazendo abertamente do Projeto de Lei. 4.330, que ampliava a terceirização, tendo sido a questão encampada pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu, no Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) 713211, a repercussão geral de um julgamento que envolve a definição acerca da amplitude jurídica do fenômeno econômico da terceirização.

Os trabalhadores, a Justiça do Trabalho e os defensores dos direitos dos trabalhadores em geral devem perceber o contexto de retração de direitos que foi iniciado no período de preparação para a Copa, que se reforçou durante o evento e que tende a se consolidar e até a se ampliar no momento posterior, que, ademais, está atrelado à preparação para as Olimpíadas de 2016. E já adiantando um debate necessário a respeito das Olimpíadas, cumpre registrar que após vários anos da definição de que o Brasil sediaria o evento, não se implementou uma política efetiva de formação de atletas, sendo os jovens brasileiros ainda conduzidos ao triste dilema entre estudar ou treinar, pois o esporte não está atrelado à educação, como se dá, por exemplo, nos Estados Unidos.

Voltando ao aspecto dos direitos trabalhistas, cumpre reconhecer que a triste realidade dos trabalhadores no Brasil não é uma novidade ou mesmo uma exclusividade determinada pela Copa, até porque o histórico brasileiro é o do desrespeito reiterado aos direitos trabalhistas e do massacre cultural à relevância desses direitos. Mas as circunstâncias atuais são preocupantes, visto que o entorpecimento favorecido pela Copa e pela proximidade das eleições tende a dificultar as compreensões sobre o fenômeno da precarização, obstando as ações de resistência.

Cumpre destacar que em infeliz coincidência, a precariedade das relações de trabalho conduziu o Brasil a outro quarto lugar. Esse quarto lugar, no entanto, envergonha muito mais do que o da Copa. De fato, o Brasil tornou-se o quarto país do mundo em número de acidentes fatais no trabalho11.

Interessante que os trabalhadores mais suscetíveis a acidentes são os motoristas, os agentes de segurança, os trabalhadores da construção civil e os trabalhadores rurais e as reformas jurídicas que estão sendo preconizadas direcionam-se, exatamente, para reforçar a precariedade nestes setores.

A terceirização é utilizada em larga escala nos serviços de segurança, na construção civil e no transporte e “segundo dados do Dieese, o risco de um empregado terceirizado morrer em decorrência de um acidente de trabalho é cinco vezes maior do que nos demais segmentos produtivos”12. A ampliação vislumbrada, ademais, faz supor que também o meio rural será atingido por uma terceirização mais intensa, valendo acrescentar que no meio rural a atuação da fiscalização do trabalho é bem menos efetiva.

Por oportuno, lembre-se que também tramita no Congresso Nacional um projeto de lei para revogar a lei que limitou a jornada de trabalho dos motoristas.

Outra conta cobrada pelo setor econômico foi a suspensão, já autorizada pelo Ministério do Trabalho, da aplicação da NR12, que regulamenta a forma das atividades produtivas com máquinas. Só que em 2013, “apenas 11 tipos de máquinas e equipamentos (como serras, prensas, tornos, frezadoras, laminadoras, calandras, máquina de embalar) provocaram 55.118 infortúnios, o que representa mais de 10% do total de 546.014 acidentes típicos comunicados pelas empresas no Brasil”13.

Essa tendência de precarização não é fantasia e caso se consolide anula por completo qualquer efeito benéfico que se queira vislumbrar com a realização da Copa, ainda mais quando se lembra de todos os problemas havidos na preparação para o evento. A situação é concreta e sem o entorpecente da Copa não se a pode eliminar com artificialismos retóricos. Assim, a única forma concreta para que o governo do Partido dos Trabalhadores não se veja relacionado a ela é vir a público rechaçá-la, assumindo uma política de rejeição a todas as formas de redução dos direitos trabalhistas e de repressão à mobilização de classe dos trabalhadores, indo, aliás, em sentido inverso, implementando as condições materiais necessárias para uma atuação efetiva da fiscalização do trabalho e impulsionando a adoção de novas formas jurídicas de proteção aos trabalhadores, notabilizando-se a co-gestão de empresas por seus empregados e a proibição de dispensas socialmente injustificadas, para falar de dois exemplos extraídos da realidade alemã.

O que não dá é que:

“…fique na banheira, ou jogue pra torcida
Feliz da vida!”

Notas

[1]. Os subtítulos foram extraídos da belíssima música, Linha de Passe, de João Bosco e Aldir Blanc, de 1979, como forma de prestar uma homenagem aos protagonistas do programa Linha de Passe da ESPN Brasil, por terem trazido racionalidade ao obscurantismo da Copa, e também para lembrar que o Brasil é bem mais que futebol.

[2]. http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1484968-dilma-diz-que-seu-governo-sera-marcado-pelo-investimento-em-infraestrutura.shtml

[3]. http://www.bahianoticias.com.br/noticia/157170-empresas-responsaveis-por-viaduto-que-desabou-em-bh-participam-de-obras-de-ferrovia-na-bahia.html

[4]. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/07/dilma-diz-que-brasil-vai-superar-dor-relata-jornalista-da-cnn-no-twitter.html

[5]. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/07/dilma-diz-que-brasil-vai-superar-dor-relata-jornalista-da-cnn-no-twitter.html

[6]. FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaios de interpretação sociológica. São Paulo: Ed. Globo, 2006.

[7]. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[8]. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[9]. A empresa envolvida no desabamento do viaduto em Belo Horizonte, Construtora Cowan S/A, repassou R$ 2,8 milhões para campanhas eleições em 2012, ocupando a 73ª posição em relação às empresas que mais doaram para campanhas eleitorais naquele ano. A lista de doações é liderada pela Andrade Gutierrez (R$ 81,2 milhões), Queiroz Galvão (R$ 52,1 milhões) e OAS S.A. (R$ 44,1 milhões). http://www.contasabertas.com.br/website/arquivos/8943#sthash.qpqYf2fw.dpuf.

[10]. http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1484968-dilma-diz-que-seu-governo-sera-marcado-pelo-investimento-em-infraestrutura.shtml

[11]. http://www.conjur.com.br/2014-jul-04/brasil-quarto-pais-numero-acidentes-fatais-trabalho

[12]. http://www.conjur.com.br/2014-jul-04/brasil-quarto-pais-numero-acidentes-fatais-trabalho

[13]. Cf. Alessandro da Silva e Vitor Araújo Filgueiras, in: http://reporterbrasil.org.br/2014/07/mais-de-55-mil-trabalhadores-sofreram-acidentes-com-maquinas-em-2013/

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Capa site_altaJorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, junto com Andrew Jennings, Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Antonio Lassance, MTST, Jose Sérgio Leite Lopes, Luis Fernandes, Nelma Gusmão de Oliveira, João Sette Whitaker Ferreira, Gilberto Maringoni e Juca Kfouri! Confira, abaixo, o debate de lançamento em São Paulo, do qual Souto Maior participou:

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Onde o rato sumiu? Músicas com letras que me marcaram

15.07.14_Mouzar Benedito_LupcínioPor Mouzar Benedito.

Quando o governo Costa e Silva resolveu baixar o Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5, só um membro do governo teve reação contrária: o vice-presidente Pedro Aleixo disse temer o resultado dele.

Alguém, acho que o próprio ministro da Justiça, Gama e Silva, autor do texto, ficou bravo e perguntou: “Você não confia nos nossos generais?”.

Pedro Aleixo respondeu: “Nos generais, eu confio. O que eu não confio é no guarda da esquina”. Bom, eu não confiaria nem nos generais nem nos guardas da esquina, mas realmente, com o endurecimento da ditadura, tudo quanto é “guarda da esquina” passou a se sentir uma grande “otoridade” e cometer abusos de todos os tipos. Porteiro de prédio, por exemplo, se julgava imperador do condomínio, se sentia com poderes para ameaçar quem quer fosse, de visitas a moradores.

Um exemplo que me lembro bem dessas “otoridades” é de um motorista de ônibus. Eu estudava Geografia na USP e muitos dos meus colegas gostavam muito de cantar. No ônibus da Cidade Universitária para o centro, no final das aulas, lá pelas onze da noite, o pessoal já entrava cantando, mas não era coisa barulhenta. Eram músicas bonitas, cantadas baixinho. Não chegava nem a incomodar quem estivesse conversando com outro passageiro.

Um dia, quando o pessoal foi entrando no ônibus, o motorista gritou: “Se cantar eu levo direto pra delegacia”.

Um dos meus colegas perguntou: “E falar, pode?”. O motorista ameaçou ficar bravo: “Tá me gozando?”. “Pode ou não pode?” “Claro que pode”. Aí esse colega começou a falar: “Meu coração, quando te vê, bate feliz, não sei porquê…”, e foi acompanhado por todo mundo “falando” a letra da música Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro.

A mais admirada do poeta

Lembrando dessa história e da música Carinhoso, vieram ao meu pensamento algumas letras maravilhosas da música popular brasileira. O poeta Manuel Bandeira disse certa vez que, se se fizesse um concurso para escolher “o verso mais bonito da nossa língua”, provavelmente votaria naquele que diz: “Tu pisavas nos astros distraída”, referindo-se à música Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. É uma música com letra inteira muito bonita, e esse verso faz parte da estrofe que diz:

A porta do barraco era sem trinco
e a lua furando nosso zinco
salpicava de estrelas o nosso chão .

E tu pisavas nos astros distraída,
sem saber que a ventura desta vida
é a cabrocha, o luar e o violão…

Acho bonito também. É uma letra muito poética. Fico admirado pensando não só nas maravilhas feitas por compositores bem formados, mas também por pessoas que tiveram uma vida dura e pouca formação escolar, como Cartola e Nelson Cavaquinho. Eles e muitos outros faziam letras muito elaboradas, até sofisticadas.

Mas gosto também de lembrar de outros estilos, do humor aos xingamentos.

Pobre, mas estiloso

De humor, nem vale lembrar Noel Rosa, um mestre. Cito João da Baiana, no samba Cabide de Molambo, que tem um trecho assim:

Meu Deus, meu Deus eu ando com sapato furado,
tenho a mania de andar engravatado.
A minha cama é um pedaço de esteira
e uma lata velha que me serve de cadeira.

Minha camisa foi encontrada na praia,
a gravata foi achada na ilha da Sapucaia;
meu terno branco parece casca de alho,
foi a deixa de um cadáver num acidente de trabalho…

Agora vejam uma sacada genial de Adoniran Barbosa, na música Tocar na Banda:

Num relógio é quatro e vinte,
no outro é quatro e meia;
é que de um relógio pra outro
as horas vareia.

Mestres das imprecações

Lupicínio Rodrigues, autor de músicas belíssimas, é mais lembrado por algumas no estilo dor de cotovelo e outras cheias de imprecações. Tinha cada samba-canção que deixava a gente com sensação de quase pavor. A música Vingança, por exemplo, diz no início:

Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar…

No fim dela mesma, tem esses versos: 

Mas, enquanto houver força em meu peito
eu não quero mais nada:

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
que rolam na estrada,
sem ter nunca um cantinho de seu
pra poder descansar.

Falando de imprecações, não poderia deixar o tango de lado. Certo, tango é argentino, não é brasileiro. Mas houve uma época em que era comum aqui, tinha inclusive bons compositores brasileiros dedicados ao gênero. E, para o meu gosto, um dos maiores cantores de tango de todos os tempos era o brasileiro Nelson Gonçalves, mais conhecido como intérprete de sambas-canções, mas que não deixava nada a desejar interpretando tangos, compostos aqui mesmo ou traduzidos.

Preciso lembrar aqui que tango, no início, na Argentina, não era música de tragédias. Foi criado por negros e suas letras eram alegres, até que foi assumido pelos brancos de classe média, aí sim virou uma coisa tão trágica que quando alguém tinha uma vida cheia de sofrimentos, aqui no Brasil, dizia: “Minha vida dá um tango”.

Embora lembrando de alguns tangos brasileiros, vou citar aqui um argentino que, acredito, foi o maior mestre das letras arrebatadoras e arrebentadoras. Seu nome é Enrique Santos Discépolo. Basta lembrar a letra de Cambalache, tango proibido na Argentina na época da ditadura. Aqui, ele foi cantado (em castelhano mesmo) por Caetano Veloso e fez o maior sucesso. Mas na linha das imprecações, um tango arrasador, de autoria de Discépolo, é Esta noche me emborracho, traduzido para o português (Esta noite me embriago) e cantado por Nelson Gonçalves. Falando de uma ex-amada, ele começa assim:

Triste, sozinha desprezada
a vi de madrugada sair de um cabaré.
Fraca, mostrando que a sorte
destruiu todo seu porte
sem lhe dar vez.

Magra, vestida sem aprumo
a exibir sem rumo sua nudez
fez de si um quadro sem valor
mostrando sem pudor
seu corpo sem calor…

Ex-namorada, por sinal, é tema de muitas letras malvadas, e não é só em tango que Nelson Gonçalves desanca uma. O samba-canção Revolta, dele e Raul Sampaio, tem um trecho assim:

É meu consolo acreditar que estás sofrendo
e em sua vida de prazeres vives louca…

Nessas imprecações, às vezes era preciso encontrar formas elaboradas para descrever a decadência de uma pessoa. Não valia dizer que “minha ‘ex’ virou puta e foi pra zona. Paguei pra transar com ela”. Vejam uma forma Adelino Moreira encontrou pra dizer isso, no samba-canção A flor do meu bairro, cantado por Nelson Gonçalves:

Hoje, depois de alguns anos,
Eu encontrei-me com ela
Na rua dos desenganos,
Menos ingênua e mais bela.

Ela fingindo desejo,
a boca me ofereceu.

E eu paguei por um beijo
que no passado foi meu.

Bronca e tristeza

Nestes tempos em que é “politicamente correto” tentar controlar a vida alheia, com um “bom-mocismo” esquisito, como o que tenta proibir as pessoas de fumarem (“é para o bem delas”, dizem os cínicos), se eu tivesse bom ritmo e boa voz, sairia cantando bem alto:

Se eu quiser fumar eu fumo,
se eu quiser beber eu bebo,
não interessa a ninguém.

Ah, o fim dessa estrofe é assim:

Se o meu passado foi lama
hoje quem me difama
viveu na lama também.

Noel Rosa, em seu samba Último Desejo, também falando de uma “ex”, dá seu recado aos desafetos:

Às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é um botequim.

Que eu arruinei sua vida,
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

Agora, um estilo que acho muito bonito é o de Batatinha, compositor baiano que quase caiu no ostracismo, e uma das pessoas que não deixaram acontecer isso, cantando suas músicas maravilhosas, é Maria Bethânia. Batatinha compunha músicas alegres, mas algumas com letras tristes, que pareciam não combinar com elas. Mas combinava, de maneira provocante e bonita. É o caso de O Circo, que começa assim:

Todo mundo vai ao circo,
menos eu, menos eu.

Por não poder pagar ingresso
fico de fora escutando as gargalhadas…

Para terminar, safadezas

Ah, as músicas com letras safadas… Escutei muitas por aí. E lembro de uma ouvida em Minas. Mas antes de falar dela, aí vai o motivo por que me lembrei da dita cuja: uma vez, numa véspera de Natal com a família quase toda reunida na chácara de um dos meus irmãos, os três filhos dele, meninos que, se me lembro bem, tinham respectivamente 8, 6 e 4 anos de idade, estavam numa fase de cantar e de vez em quando pediam a todos que os ouvissem interpretando musiquinhas infantis.

Chamei os três de lado e falei que ia ensinar uma música a eles. O mais velho falou: “Não, a mamãe falou que você só ensina bobagem pra gente”. Pensei: “Ah, é? Eu ia ensinar uma música bonitinha, mas agora vou mudar”. E falei: “É a música do Lelê. Pergunte pra sua mãe se lelê é palavrão ou bobagem”.

Ele foi e perguntou: “Mamãe, lelê é palavrão?”. Ela disse que não e ele falou: “Então o Mouzar vai ensinar pra nós a música do lelê”. Ela permitiu.

Eu ensinei, eles puseram todo mundo a postos para ouvi-los e cantaram pomposos, deixando a mãe furiosa:

Subiu um rato na perna da comadre,
veio o compadre pra ver o que aconteceu.
Tirou a roupa da comadre e sacudiu,
mas ninguém sabe, ninguém viu
onde o rato se escondeu.
Foi no lelê que o rato sumiu,
foi no lelê que o rato sumiu.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Juca Kfouri: o que fica pro futebol brasileiro?

Juca_blogPor Juca Kfouri.*

O que é pior, o vira-latismo ou o puxa-saquismo? Se o primeiro se confundir com espírito crítico certamente o segundo é pior, porque mera bajulação. Comecemos pelo começo: a imagem do Brasil depois da Copa é muito melhor do que, com carradas de motivos, se imaginava antes dela. Fez-se, em resumo, um bom anúncio do país. Porque houve a festa que se imaginava que haveria nos estádios e não houve a tensão prevista fora dele.

Por incrível que possa parecer, Joseph Blatter, o poderoso chefão da Fifa, tinha razão: a sedução do futebol falou mais alto, ainda mais porque, paradoxalmente, se a Copa não apresentou nenhuma seleção inesquecível, mostrou jogos formidáveis, como uma homenagem ao país que já foi o do jogo bonito. Repita-se para suavizar o que virá a seguir: o Brasil ganhou a 20a Copa do Mundo da Fifa e ainda por cima prendeu gente dela que há décadas atenta contra a economia popular, um legado inestimável, exemplar, digno de ser aplaudido de pé assim como a hospitalidade nacional.

Tamanhas vitórias não escondem as derrotas e aqui não se fará nenhuma menção, além desta, à goleada alemã. Por falar nisso, em alemães, nossa Copa foi muito melhor que a da África do Sul, mas não foi, como organização, melhor que a de 2006. Claro, da Alemanha se espera perfeição e a Alemanha esteve perto disso. Do Brasil esperava-se uma catástrofe e o Brasil ficou longe disso. Contudo, na Alemanha não foram construídos elefantes brancos como os de Manaus, Cuiabá, Natal e Brasília, cujas contas jamais serão pagas a não ser que ocorra mais um milagre brasileiro.

Lá não morreram tantos trabalhadores, nem caiu viaduto com duas mortes, nem se desalojou tantas famílias, nem nada custou tanto a ponto de a nossa Copa ter superado o custo dos três últimos torneios e nenhum estádio foi invadido por torcedores como o Maracanã pelos chilenos. Tampouco faltou luz no jogo de abertura. Esquecer tais fatos em nome da imagem externa é que é o verdadeiro vira-latismo, como se a aprovação estrangeira nos bastasse.

É verdade sim que o governo federal, um mês antes de a Copa começar, partiu em busca de empatar um jogo que perdia por 4 a 0 e que conseguiu vencer, digamos,por 6 a 5 — o que exige elogios ao ataque assim como críticas à defesa. Ocorre que há quem queira fazer apenas elogios e outros que só desejam criticar, todos movidos ou por cegueira partidária ou por outros interesses.

Não se trata de negar o sucesso da Copa, mas de dizer que poderia ser melhor. Tudo, aliás, sempre pode ser melhor, por melhor que tenha sido. Trata-se de não esquecer o quanto custou em vidas e dinheiro, em desalojamentos e atrasos, em remendos de última hora, uma porção de coisas para as quais os estrangeiros não estão nem aí, mas que devem preocupar os que estão aqui e que, enfim, pagarão a conta. Porque outro legado da Copa é a consciência de que megaeventos são muito bons para quem os promove e para as celebridades que gravitam em torno,mas não são necessariamente bons para quem os recebe, razão pela qual será excelente se os próximos forem submetidos à consulta popular.

O turista que veio não se hospedou nos melhores hotéis nem comeu nos melhores restaurantes, preferiu albergues ou sambódromos, lanchonetes ou churrasquinhos de gato. Até mesmo os aeroportos inconclusos (o de Brasília é simplesmente espetacular, registre-se) suportaram bem a carga,entre outras razões porque o movimento foi menor que o normal neste período.

Em resumo: o Brasil ganhou a Copa de virada e o resultado pode ser considerado excepcional, digno de comemoração para irritação dos vira-latistas. Mas não foi de goleada como bimbalham os puxa-sacos. Além do mais, se o jogo acabou para o mundo, segue correndo no nosso campo. A um custo que ainda será mais bem apurado.

Democratizar o futebol brasileiro

O resultado em campo e a eliminação do Brasil não alteram, em nada, a minha opinião sobre a crise existencial que arrasa o futebol brasileiro há mais de uma década. O buraco é muito mais embaixo. Os que dirigem o futebol nacional não deram as caras, se esconderam em ambas oportunidades. Como de costume, evitaram e evitarão ao máximo falar sobre as propostas para o futuro pois não entendem bulhufas do que deve ser feito. Entendem de política, de se manter no poder, de explorar o futebol, de mamar nas tetas da vaca. E como disse o senhor José Maria Marin na primeira reunião do Bom Senso na CBF: “Posso afirmar que não temos nada a aprender com ninguém de fora, principalmente no futebol. Sempre tivemos os melhores do mundo no Brasil. Já vencemos cinco vezes a Copa”.

Ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. “Coitado”, ele e seus pares achavam que tudo ia muito bem e que o talento bruto resolveria a questão. Não fazem ideia de que a Seleção Brasileira é o menor, apenas a ponta do iceberg (incrível dizer isso depois de tomar de 7), dos problemas do nosso futebol. Devemos aceitar esta derrota como mais uma das muitas importantes lições que a Copa nos trouxe até aqui. Se a procura por um legado era apenas para justificar o excesso dos gastos públicos, agora passou a ser o último lampejo de dignidade. Então proponho uma solução ao caos, DEMOCRATIZEM A CBF e salvem o futebol brasileiro.

Campeões, Bicampeões, Tricampeões, Tetracampeões, Pentacampeões, vocês que construíram o futebol brasileiro dentro de campo, estão convocados. Precisamos de vocês, precisamos ainda mais dos que já provaram sua capacidade fora de campo, gerindo, planejando, vivenciando o que há de melhor no futebol contemporâneo mundial.

Leonardo, Raí, Cafu, Juninho Pernambucano, Kaká, Ricardo Gomes, Roque Junior, Edmilson, Juninho Paulista, Vagner Mancini, Tite, Paulo Autuori e tantos outros, venham, passou da hora de discutirmos um plano de desenvolvimento nacional do futebol, de criarmos regras e licenças para capacitar os novos treinadores, de formar melhor as nossas jovens promessas, de desenvolver ou resgatar o estilo de jogo brasileiro, de proteger as boas práticas de gestão, de punir os infratores, de trazer a família de volta aos estádios de futebol, etc…

Se a CBF não promove esse debate, montemos a nossa Seleção fora dos gramados para desbancar a paralisia da entidade e desatar os nós das amarras políticas que impedem o desenvolvimento, a transparência e a democracia do nosso futebol.

Não os queremos apenas para que deem a cara e tenham a imagem explorada como aconteceu com alguns de nossos companheiros nos últimos anos. Queremos sua experiência, sua paixão pelo esporte, sua alma vencedora e incansável para concretizar mudanças significativas a longo prazo. Acadêmicos, cientistas, estudiosos também são bem vindos, o conhecimento de vocês é fundamental na construção de um novo rumo.

À imprensa e ao torcedor, digo: Não esperem milagres, não acreditem em soluções mágicas como uma simples troca de comissão técnica ou o aparecimento de um novo Neymar. Se o planejamento e o trabalho forem executados por pessoas competentes, apaixonadas e com conhecimento técnico em cada uma das diversas dimensões do futebol, ainda assim, levaremos pelo menos 10 anos para chegar lá. Uma caminhada de mil milhas começa com um simples primeiro passo.

Dilma e Aécio

A presidenta Dilma Rousseff está convocando o Bom Senso FC para uma reunião na sexta-feira da semana que vem para dar prosseguimento à conversa iniciada no último dia 26 de maio, quando se manifestou solidária com o movimento e convencida de que o legado da Copa do Mundo para o futebol brasileiro deve ser a urgente reforma de seus métodos de gestão e a correspondente democratização de suas práticas.

“Agora que temos os estádios, como fazer para mantê-los lotados?”, pergunta a presidenta ao mesmo tempo em que responde: “A grande lição da Copa é a necessidade de reformar o futebol brasileiro”.

Aécio Neves é amigo de José Maria Marin e o homenageou, escondido, no Mineirão. Deu-se mal porque o que escondeu em sua página na internet, Marin mandou publicar na da CBF. Aécio também é velho amigo de baladas de Ricardo Teixeira e acaba de dizer que o país não precisa de uma “Futebras”, coisa que ninguém propôs e que passa ao largo, por exemplo, das propostas do Bom Senso FC.

Uma agência reguladora do Esporte seria bem-vinda e é uma das questões que devem surgir neste momento em que se impõe um amplo debate sobre o futuro de nosso humilhado, depauperado e corrompido futebol. Mas Aécio é amigo de quem o mantém do jeito que está. Não está nem aí para os que reduziram nosso futebol a pó.

* Este artigo é uma compilação de textos extraídos do Blog do Juca Kfouri.

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Juca Kfouri assina a quarta-capa do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Novo título da coleção Tinta Vermelha da Boitempo, o livro está à venda por apenas R$ 10,00, em versão impressa, e R$ 5,00, em versão eletrônica (ebook). Baixe uma amostra grátis do livro clicando aqui.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Bernardo Buarque de Hollanda, Mike Davis, Ricardo Gozzi, Pier Paolo Pasolini, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Juca Kfouri é formado em ciências sociais pela USP, colunista da Folha de S.Paulo e apresentador na rede CBN de rádio e no canal televisivo ESPN-Brasil. Com extensa carreira no jornalismo esportivo, foi diretor das revistas Placar e comentarista esportivo do SBT, da Rede Globo e da TV Cultura. Assina a quarta-capa do livro Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?  (Boitempo, 2014) e o prefácio do livro Democracia corintiana: a utopia em jogo (Boitempo, 2002), de Sócrates Brasileiro e Ricardo Gozzi.

Žižek: Liberdade, democracia e TISA

14.07.14_Slavoj Zizek_Liberdade democracia e TISAPor Slavoj Žižek.*

No dia 19 de junho, segundo aniversário do confinamento de Julian Assange na embaixada equatoriana em Londres, o WikiLeaks tornou pública a minuta secreta do anexo sobre serviços financeiros do Acordo sobre Comércio de Serviços (TISA). Esta minuta, resultado da última rodada de discussões do TISA realizada entre 28 de abril e 2 de maio em Genebra, abrange cinquenta países e boa parte do comércio de serviços do mundo. Ela estabelece regras que auxiliariam a expansão de multinacionais financeiras no interior de outras nações através da prevenção de barreiras regulatórias. Ela proíbe, enfim, que haja mais regulação de serviços financeiros apesar do fato do colapso financeiro de 2007-8 ser geralmente tido como resultado justamente da falta de regulação. Ademais, o documento ainda revela que os EUA estão particularmente interessados em impulsionar o fluxo de dados transfronteiriço – tanto dados financeiros quanto pessoais.

Este documento teria sido mantido na confidencialidade não apenas durante as negociações do TISA, mas por mais outros cinco anos depois de sua implementação efetiva. Apesar das negociações do TISA não terem sido francamente censuradas, elas praticamente não foram mencionadas em nossa mídia – uma marginalização e um sigilo que estão em gritante descompasso com a histórica importância mundial de um acordo como o TISA: se implementado, ele terá consequências globais, servindo efetivamente como uma espécie de espinha dorsal jurídica para a reestruturação de todo o mercado mundial. O TISA irá atar governos futuros, independemente de quem ganhar as eleições e do que os tribunais disserem. Ele irá impor um quadro restritivo aos serviços públicos, tanto ao promover o desenvolvimento de novos serviços, quanto protegendo outros já existentes.

Mas essa conexão entre importância político-econômica e sigilo é realmente algo que deveria nos surpreender? Não seria mais uma indicação, triste porém precisa, de nosso lugar – nós que vivemos em países ocidentais ditos democrático-liberais – em relação à democracia? Um século e meio atrás, em seu O capital, Karl Marx caracterizou a troca, na esfera mercantil, entre trabalhador e capitalista como “um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem, [...] o reino exclusivo da liberdade, da igualdade, da propriedade e de Bentham.” (O capital, Livro I, p.250). Ao incluir ironicamente o nome de Jeremy Bentham, o filósofo do utilitarismo egotista, Marx fornece a chave para o que liberdade e igualdade efetivamente significam no interior da sociedade capitalista – para citar o Manifesto comunista: “Por liberdade, nas atuais relações burguesas de produção, compreende-se a liberdade de comércio, a liberdade de comprar e vender.” (p.53) E por igualdade, compreende-se a igualdade legal formal entre comprador e vendedor, mesmo que um dos dois seja forçado a vender sua força de trabalho sob quaisquer condições (como os trabalhadores precários de hoje). Hoje, podemos dizer que temos liberdade, democracia e TISA. Nesta fórmula, liberdade significa o livre fluxo de capital, bem como de dados financeiros e pessoais (ambos os fluxos garantidos pelo TISA). Mas e democracia?

Os principais responsáveis pelo colapso financeiro de 2008 agora se impõem como os experts que poderão nos guiar pelo doloroso caminho da recuperação financeira, e cujos conselhos devem portanto falar mais alto que a política parlamentar, ou, como Mario Monti colocou: “Aqueles que governam não devem se ater aos parlamentares”. Qual é, então, essa força mais alta cuja autoridade pode suspender as decisões dos representantes democraticamente eleitos pelo povo? A resposta foi dada já em 1998 por Hans Tietmeyer, então presidente do Deutsches Bundesbank, quando elogiou os governos nacionais por preferirem “o plebiscito permanente de mercados globais” ao “plebiscito das urnas”. Note a retórica desta declaração obscena: os mercados globais são mais democráticos que as eleições parlamentares pois neles o processo de votação é permanente (e está permanentemente refletido nas flutuações do mercado) e se realiza em nível global, não apenas a cada quatro anos e dentro dos limites de um estado-nação. A ideia por trás disso é de que, desprovidas desse controle mais alto dos mercados (e de seus experts), as decisões parlamentares-democráticas são “irresponsáveis”. A democracia é portanto a democracia dos mercados, o plebiscito permanente das flutuações do mercado.

Esse é o nosso lugar no que diz respeito à democracia, e o acordo do TISA é um exemplo perfeito desse estado de coisas. As decisões chave da nossa economia são negociadas e implementadas sigilosamente, fora de nossa vista, sem debate público, e elas determinam as coordenadas para a livre dominação do capital. Dessa forma, o espaço para as decisões dos agentes políticos democraticamente eleitos fica severamente limitado, e o processo político passa a lidar predominantemente com questões para as quais o capital é indiferente (como guerras culturais). É por isso que a publicação da minuta do TISA marca um novo estágio na estratégia do WikiLeaks: até agora, sua atividade se focava em tornar público como nossas vidas são monitoradas e reguladas por agências de inteligência do Estado – o tema liberal básico dos indivíduos ameaçados por aparatos estatais opressivos. Agora, outra força controladora aparece – o capital – que ameaça nossa liberdade de uma forma muito mais elaborada: pervertendo nossa própria sensação de liberdade.

Com a livre escolha elevada, em nossa sociedade, a um valor supremo, o controle e a dominação social não podem aparecer como infringências à liberdade dos sujeitos – eles têm de aparecer na forma da própria auto-experiência dos indivíduos como livre. Há várias maneiras pelas quais essa falta de liberdade aparece disfarçada de seu oposto: quando somos privados de planos de saúde universais, nos dizem que na verdade fomos dotados de uma nova liberdade de escolha (a de escolher nosso fornecedor de plano de saúde); quando não podemos mais depender de um emprego formal de longo-prazo e somos obrigados a buscar uma nova forma de trabalho precário a cada um ou dois anos, nos dizem que fomos concedidos a oportunidade de nos re-inventar e de descobrir novos e inesperados potenciais criativos que se encontravam escondidos em nossa personalidade; quando somos obrigados a pagar pela educação de nossas crianças, nos dizem que agora nos tornamos “empreendedores do self”, agindo como capitalistas que têm de escolher livremente como investir os recursos que possuem (ou que pegaram emprestado) – em educação, cultura, turismo… Constantemente bombardeados pela imposição dessas “livres escolhas”, forçados a tomarmos decisões para as quais geralmente nem somos adequadamente qualificados (ou informados), cada vez mais vivenciamos nossa liberdade como ela efetivamente é: um fardo que nos priva da verdadeira escolha de mudança.

Quem sabe esse paradoxo também não nos permite jogar nova luz sobre nossa obsessão com os atuais acontecimentos na Ucrânia e mesmo com a emergência do ISIS no Iraque, ambos extensamente cobertos pela mídia (em evidente contraste com o silêncio sobre o TISA). O que nos fascina, nós do ocidente, não é o fato de que pessoas em Kiev se ergueram pela miragem do modo de vida europeu, mas que eles (ao que parecia, pelo menos) simplesmente se ergueram e tentaram tomar seu destino nas próprias mãos. Desempenharam um papel de agentes políticos impondo uma mudança radical – algo que, como as negociações do TISA demonstram, nós no ocidente não temos mais a escolha para fazer.

* Tradução de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

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17.02.14_SZizek_O que é um autêntico evento políticoLeia também, de Slavoj Žižek, no Blog da Boitempo: “2 anos de prisão de Assange: Como o Wikileaks abriu nossos olhos para a ilusão da liberdade“, “O que é um autêntico evento político” (sobre a visita do esloveno a Assange na embaixada equatoriana em Londres) e “A contradição principal da Nova Ordem Mundial“.

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violencia_capa_site_altaA Boitempo acaba de lançar Violência: seis reflexões laterais, o novo livro de Slavoj Žižek sobre o fenômeno moderno da violência, entre as explosões contraditórias das ruas e a opressão silenciosa de nosso sistema político e econômico. A edição conta ainda com um prefácio inédito, de Žižek, e um posfácio, de Mauro Iasi, situando a discussão no contexto das manifestações que tomaram as ruas do Brasil em junho de 2013!

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Alguém disse totalitarismo? Cincon intervenções no (mau) uso de uma noção * ePub (Amazon | Gato Sabido) 

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Amazon |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub  (Amazon | Gato Sabido)

Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético * ePub (Amazon | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Amazon | Gato Sabido)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Plínio… presente!

14.07.10_Mauro Iasi_Plínio PresentePor Mauro Iasi. 

Sob uma chuva fina e um frio ameno, o corpo do companheiro Plínio de Arruda Sampaio encontrou a terra que tanto defendeu. Seus companheiros cantaram a Internacional para que a música o acompanhasse enquanto gritávamos seu nome para que ficasse para sempre conosco.

Por um momento o mundo congelou como em uma foto em branco e preto. Os rostos de seus companheiros de luta, inevitavelmente tristes, estavam calmos. Aquele que partia tinha uma estranha capacidade de aglutinar, virtude que se destaca em tempos de fragmentação e serialidade. Sua família, seus amigos, seus colegas de partido, seus companheiros de luta. Querido pelos seus, respeitado por seus adversários. São poucos aqueles que podemos descrever desta forma.

Nas palavras de Valdemar Rossi, um de seus mais antigos amigos, Plínio era um semeador e talvez isso o descreva de forma mais cabal. Já em 1962 quando foi eleito deputado pelo PDC e participou da Comissão de Política Agrícola do Congresso, elaborando o plano de reforma Agrária que comporia as Reformas de Base do presidente Goulart. Quando trabalhou para a FAO em exílio no Chile depois de cassado, quando apresentou a ideia de núcleos de base ao recém criado Partido dos Trabalhadores ao qual viria a aderir e ajudar a construir, Plínio estava semeando.

No entanto, o que semeava de melhor eram ideias. Militante cristão, partilhava seu pão e seu vinho, vivificando sonhos de emancipação e solidariedade. Cativava com sua forma simples, seu humor, sua convicção profunda, suas dúvidas criativas, sementes das respostas que abriam caminhos novos, novos frutos, novas sementes.

Contava-nos uma história de quando estava em um avião com Lula e lhe disse que, talvez, o maior legado de uma campanha era plantar a ideia do socialismo. Como todo agricultor sabe, nem toda semente vinga. O que nos leva a outra característica de nosso companheiro: a persistência.

São raros aqueles que persistem tanto e por tanto tempo. Plínio nasceu na elite, com família tradicional, nome grande, propriedade. Jovem talhado para a política tradicional das classes dominantes, advogado, subchefe da Casa Civil do governo de Carvalho Pinto em São Paulo no final dos anos 50, e deputado com a benção da Igreja Católica que a esta época queria salvar os pobres da ameaça comunista.

14.07.10_Mauro Iasi_Plínio Presente_2

Sua trajetória é algo singular. Primeiro, sai do PDC para uma versão radical da democracia cristã no Chile. Em seu retorno do exílio tenta formar um Partido Social Democrático Popular junto com Francisco Weffort, Almino Afonso, Fernando Henrique e outros, para depois participar da construção do PT. Para seu espanto, como ele mesmo gostava de dizer, ele, um moderado, vai ficando à esquerda no PT que pegava o caminho da conciliação. Por fim, rompe com o PT e participa da construção do PSOL.

Plínio era surpreendente, mas sua trajetória desenha uma clara e coerente linha de princípios que o acompanhou por toda a vida e se expressa ao final como um militante cristão e socialista. Uma coisa fica clara: enquanto a maioria tende a se acomodar e assumir posições mais moderadas, nosso amigo originalmente moderado ia cada vez mais para a esquerda.

Uma vez, na campanha ao governo do Estado de São Paulo em 2006 quando o acompanhei como seu vice (e não era nada fácil acompanhar seu ritmo e vitalidade), Plínio nos convidou à sua casa para um jantar que receberia o então candidato humanista à presidência do Chile, Tomás Hirsch. Fui eu e o Didi do PSTU, assim um pouco deslocados. Em determinado momento, nos chamam para nos acercarmos do chileno e Plínio lhe pergunta diretamente: “queria entender uma coisa desse humanismo que você propõe, como fica a questão da violência?” Didi e eu nos entreolhamos como que dizendo “vai sobrar para nós”. Logo em seguida arremata: “porque sou cristão, comigo é na espada!”

14.07.10_Mauro Iasi_Plínio Presente_1

São poucos nossos prazeres nesta vida, são raras as chances de vitória contra esta elite política asquerosa, poderosa e arrogante. Vendo as pessoas que acompanhavam Plínio em seu último adeus, principalmente as pessoas simples, trabalhadores, jovens e velhos, companheiros, camaradas, me veio uma súbita sensação de regozijo… Plínio nos escolheu, ele é nosso, dos fodidos, dos proletários, dos camponeses, dos pobres, ele poderia ter escolhido ser um deles com tudo que isso lhe renderia de poder e prestígio, e decidiu ser mais um dos nossos. Comer nosso pão, beber de nosso sofrimento, nos abraçar em nossas derrotas, sorver o sal de nossas lágrimas.

Plínio é nosso. Morram de inveja. Não é pouco. Pequenas são nossas diferenças e discordâncias colocadas diante desta perspectiva. O generoso coração de nossa classe lhe recebeu com um abraço fraterno e terá nosso reconhecimento eterno.

Seu corpo agora foi semeado. O céu cinza chora calmo e nós seguimos por nossos diferentes caminhos. Atrás de uma árvore posso ouvir Brecht dizer, como disse uma vez sobre Rosa, em um sussurro: “aqui jaz Plínio… enterrai vossas desavenças!”

Vai aqui, deste amigo ateu, o poema que fiz para meus irmãos da pastoral metropolitana de São Paulo, não como uma forma de despedida, mas como um convite a todos que continuam esta caminhada. Companheiro Plínio de Arruda Sampaio… presente. Agora… e sempre!

Transcendências
(para os camaradas e irmãos da PO metropolitana de São Paulo)

Na massa universal
da matéria de nossos corpos
seja luz etérea de estrelas,
carne mineral de planetas,

ou fogo, ou água
ou planta, ou bicho
não vejo alma além daquela
que no movimento
se apresenta a vida.

Aprendi que a religião
é o sol em torno do qual
gira o ser humano
antes de ver em si mesmo
o sol de sua existência.

Ordem do tempo
inimiga do novo
dona da culpa
ópio do povo
organização racional da tristeza
carrasco do meu desejo
árbitro dos castigos aplicados por nós
contra nós mesmos.

Assim, feuerbachianamente,
me tornei ateu.

Mas, quando os vejo…
com seu amor aos pobres,

com seu compromisso com a vida
na teia indissolúvel da solidariedade…

Quando os vejo
subindo as “sierras” de nossa América
com seus terços e fuzis
com sua fé e bravura…

Quando os vejo
na madrugadas fabris
nas estradas acampados
repartindo o pouco pão…

Quando os vejo
reinventando a comunhão
renascendo a cada dia
fazendo da morte ressurreição… 

Quando nos abraçamos
sobre nossa bandeira vermelha

chorando lágrimas de raiva,
alegria ou emoção…

Da inexistência de minha alma
chego a desejar
que esta vida se supere em outra
para abraçar mais uma vez
os nossos mortos.

E no calor vivo de nossas batalhas
onde construímos a cada dia
a aurora contra a noite que persiste 

consigo ver, nitidamente,
entre a sombra e o escuro,

o rosto sereno de um deus
que não existe.

(Mauro Iasi)

14.07.10_Mauro Iasi_Plínio Presente_3

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.