A Revolução dos Cravos segundo José Cardoso Pires

14.04.24_Flávio Aguiar_José Cardoso PiresPor Flávio Aguiar.

Esta é a primeira vez em que ponho este relato no papel, quer dizer, na tela do computador. Em 1975 o governo português – formado logo depois do 25 de abril de 1974 – enviou uma missão de escritores do país às universidades e outras instituições afins brasileiras para explicar o movimento.

Então eu era um jovem professor de Literatura Brasileira da Universidade de S. Paulo. Houve um encontro com os escritores nas ditas Colméias do CRUSP, pois os cursos de Letras da Universidade ainda estavam lá sediados, como uma “força de ocupação” para impedir o retorno dos estudantes, condição que só deixaríamos em 1983.

O encontro foi muito interessante, até porque os escritores, todos comprometidos com a democratização do país e com a movimentação decorrente do 25 de abril, tinham perspectivas e relatos muito diferentes entre si sobre o que estava acontecendo em Portugal.

Por apresentação de amigos comuns, marquei um encontro com o escritor José Cardoso Pires num bar do centro da cidade. Passamos uma tarde memorável juntos, tomando conhaque, quando ele me contou a sua participação nos acontecimentos do 25 de abril.

Cardoso Pires, autor, dentro outros, do romance O Delfim (1968) é reconhecidamente um dos maiores escritores do país no século XX, coisa de ombrear com Saramago e Fernando Pessoa, dentre outros. Infelizmente faleceria em 1998, vítima de um derrame cerebral.

Mas naquela tarde de talvez agosto de 1975 ele brindou-me com uma narrativa inteiramente pessoal, temperada por seu bom humor e ironia. Desconheço se ele mesmo a pôs por escrito.

Começou contando que na noite de 24 de abril recebeu um telefonema de uma amiga que estava na clandestinidade fazia tempo. Ela lhe disse simplesmente: “José, chegou a hora”, e desligou. Cardoso Pires contou a conversa à mulher, que lhe perguntou o que aquilo podia significar.

“Certamente que vou ser preso”, disse ele, que já andara às turras com DGS, sucessora da famigerada PIDE, a polícia política do país. Pediu que a esposa lhe preparasse uma maleta com um “kit-prisão” (escova de entes, muda de roupa, etc.) e dispôs-se a esperar pelos acontecimentos. Mais tarde, já bem noite adentro, bateram na porta. Surpreso, ele abriu, e mais surpreso ainda, deparou com dois militares, um oficial e um soldado, ambos armados.

Disse-me ele então: “pensei: chegou a hora!”. Qual não foi o espanto quando o oficial entrou, abraçou-o (!) e disse: “camarada, chegou a hora!”. “Esta é uma revolução democrática”, continuou no oficial, “e viemos convocá-lo para fazer um pronunciamento na televisão”. Ele que estava proibido de aparecer na tevê, voltou-se para a esposa e disse “chegou a hora”, e saiu.

Na rua, deparou com um caminhão onde estavam vários conhecidos, todos escritores e intelectuais anti-salazaristas. Entrou no caminhão, e perguntou o que estava acontecendo. Ninguém soube lhe explicar direito: tinham sido arrepanhados pelos militares, e estavam indo – como foram – à estação de televisão.

Lá chegando, foram levados a uma sala, onde ficaram ao redor de uma mesa, onde havia uma garrafa de uísque que, ao que parece, ninguém tocou. Passaram-se as horas. Já amanhecendo, ele pretextou ir ao banheiro, e conseguiu escapulir do prédio. Telefonou à esposa, que ainda estava acordada, sem nada saber, e disse que ia dar uma volta pela cidade, para descobrir o que estava acontecendo. “Chego por volta das dez”, disse, e desligou.

Daí, disse-me ele, deparou com a torrente humana que saía às ruas para festejar a queda do regime salazarista, confraternizar com os soldados dando-lhes cravos vermelhos que estes colocavam nos fuzis, transformando o golpe militar numa revolução democrática. Contou-me que, entre outras coisas, acompanhou, lado a lado, Otelo Saraiva de Carvalho, um dos líderes militares do levante, quando este invadiu a prisão da PIDE, libertando os prisioneiros e aprisionando os esbirros e carcereiros.

“Voltei para casa somente três dias depois. E a minha filha não voltou até hoje”, arrematou ele, naquela tarde de 1975, em São Paulo, no centro da cidade, deixando-me a centelha de esperança que o Brasil também poderia tornar-se uma democracia.

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Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Gérard Duménil no Brasil | Lançamento Boitempo: “A crise do neoliberalismo”

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Acaba de chegar às livrarias A crise do neoliberalismo, de Gérard Duménil e Dominique Lévy. No livro, os autores, dois dos mais influentes pesquisadores sobre o neoliberalismo na atualidade, recontam a história desse novo estágio do capitalismo: do colapso dos subprimes à dita “Grande Contração”. Ao discutir a financeirização econômica, a reestruturação produtiva, as lutas de classes e as relações internacionais às portas de uma nova ordem global multipolar, a obra propõe uma reflexão fundamental à compreensão da história e dos rumos da economia.

Gérard Duménil está no Brasil para debater o lançamento e participa de eventos em São Paulo, Foz do Iguaçu e Porto Alegre a partir de amanhã, dia 24 de abril! Mais informações ao final deste post.

Leia abaixo a orelha do livro assinada por Armando Boito Jr.

Gérard Duménil e Dominique Lévy pesquisam o capitalismo neoliberal há cerca de vinte anos. Publicaram diversos livros e artigos sobre esse tema e influenciaram grande parte da bibliografia internacional. Em A crise do neoliberalismoelesmobilizam o amplo conhecimento que acumularam sobre a matéria para analisar a crise econômica iniciada nos Estados Unidos em 2007 e cujos impactos no capitalismo mundial fazem-se sentir até os dias de hoje.No livro, essa crise é analisada em profundidade e em detalhes – considerada na sua especificidade – masé inserida, também, na história das reviravoltasestruturais do capitalismo:as crises dos anos 1890, dos anos 1930 e dos anos 1970.Defendem que o caráter estrutural da crise deve obrigar a substituição do capitalismo neoliberal por outro modelo econômico e que a natureza desse novo modelo dependerá da luta de classes e da correlação política de forças nos diferentes países e em escala internacional.

Duménil e Lévy polemizam com diversas interpretações da crise econômica atual. Contestam a ideia de que essa conjuntura perigosa proviria da queda da taxa de lucro, de erros da política econômica ou da contração do mercado de consumo– ainda que seja incontestável, segundo os autores, que o capitalismo neoliberal promoveu uma forte reconcentração da renda. A tese dos autores é que a crise atual, à semelhança da crise de 1929, é uma crise da hegemonia financeira.

Diferentemente da maioria dos economistas, e inclusive de boa parte dos economistas críticos, os autoresarticulam a análise econômica com a análise sociológica e política. No livro que o leitor tem em mãos, a fase atual do capitalismo está vinculada a conflitos e a compromissos de classe que sãoconsagradospelo Estado capitalista.Estamos longe da visão ingênua segundo a qual o modelo econômico atual teria se originado de um “projeto” de organização da economia e distantes também da concepção tecnocrática segundo a qual a política econômica decorreria de avaliações, ora “equivocadas” ora “corretas”, dessa ou daquela equipe governamental.

Duménil e Lévy dedicam-se também a uma análise prospectiva sobre a saída da crise que vivemos. Consideram os limites do atual modelo econômico e os conflitos de classe para conjecturarem sobre os prováveis desenlaces da situação presente. Como não poderia deixar de ser, essa é uma das partes polêmicas do livro. É também a parte que torna a obra ainda mais importante de ser lida. 

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Duménil estará no Brasil entre abril e maio para um ciclo de conferências de lançamento de A crise do neoliberalismoA primeira conferência de Duménil será amanhã em São Paulo, no dia 24 de abril, na Biblioteca Mário de Andrade e integra os seminários “A democracia na história”. Em seguida, o economista passa por Porto Alegre e Foz do Iguaçu. Confira a programação completa:

SÃO PAULO

Palestra no ciclo “Democracia na história”
24 de abril | Quinta-feira | 19h
Biblioteca Mário de Andrade | Auditório
Rua da Consolação, 94 | Centro
Próximo da estação Anhangabaú do metrô
3256-5270 e 3241-4384
Confira a página oficial do evento no Facebook.

FOZ DO IGUAÇU

A crise do neoliberalismo: da crise dos subprime à grande contração
6 de maio | Terça-feira
Gratuito
Mai detalhes em breve, agurade…

PORTO ALEGRE

A crise do neoliberalismo: origens, desenvolvimento e perspectivas
8 de maio de 2014 | 14h30
Fundação de Economia e Estatística | Auditório
Rua Duque de Caxias, 1691
Confira a página oficial do evento no Facebook.

Saiba mais aqui.

Os 50 (e tantos) anos do(s) golpe(s) contra a classe trabalhadora

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Especial de Jorge Luiz Souto Maior, para o Blog da Boitempo.

Neste ano de 2014 muitas têm sido as manifestações sobre o golpe de 1964 e o regime ditatorial que lhe foi consequente. Há uma grande relevância nessas análises, sobretudo para que momento tão trágico da nossa história não seja esquecido e para que não se repita, sob nenhum pretexto.

Penso, no entanto, que um aspecto para o advento do golpe, e que explica muito da atuação do regime militar, tem sido deixado um pouco de lado e é importante trazê-lo à tona, pois é central na própria compreensão da realidade vivida. Refiro-me ao ataque à legislação trabalhista e ao trabalhador, por conseqüência, que desferido na realidade brasileira, que pode ser classificado historicamente.

A tese aqui defendida é a de que a resistência cultural aos direitos trabalhistas no Brasil é tão forte que foi o risco da aplicação em concreto da legislação trabalhista que impulsionou o golpe de 64, com a intenção, ainda, de reprimir a ação sindical e as greves.

SUMÁRIO

1. O legado da escravidão

2. Trabalho na República Velha: a resistência da classe dominante

3. O advento da legislação trabalhista (1930-1933): a posição dos industriais

4. A Constituição de 34 e a mobilização dos trabalhadores

5. A reação contra os trabalhadores: 1935-1942

6. O trabalhismo: 1942 a 1945

7. A repressão militar aos trabalhadores no governo Dutra: 1946-1950

8. Nova mobilização trabalhista: 1950-1952

9. João Goulart entra em cena

10. Anti-comunismo é anti-trabalhismo

11. A primeira reação militar: origem do golpe de 64

12. Efeitos negativos do golpe de 64 nos direitos trabalhistas

13. O legado da ditadura para a classe trabalhadora

i. A relevância política dos trabalhadores na redemocratizaçao

ii. O neoliberalismo: novos ataques aos direitos trabalhistas

iii. O PT no governo e os trabalhadores à deriva

14. Mais ataques aos trabalhadores

15. A difícil construção do novo cenário (favorável aos trabalhadores)

Cultura inútil: Bolívar não perdeu tempo!

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Por Mouzar Benedito
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Lenda ou verdade? Simón Bolívar, que comandou os exércitos que libertaram a Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia e Panamá, e teve papel importante também da libertação do Peru, participou de 200 batalhas e teve 200 amantes. Ele morreu de tuberculose, aos 47 anos, em 1830. Foi no Monte Sagrado, em Roma, que, quando tinha 22 anos, Bolívar jurou libertar a sua pátria.

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Ausente do noticiário durante muito tempo, a Crimeia agora é foco das atenções. Uma guerra lá, pode influenciar muita coisa no mundo. E isso não seria novidade para os gaúchos. A bombacha, aquelas calças largas que parecem vestimenta de turcos (seu nome vem do espanhol, bombacho, que significa justamente calças largas) se tornaram vestimenta dos gaúchos do campo, acredita-se, por causa da Guerra da Crimeia, ocorrida de 1853 a 1856. O czar Nicolau I tentava expandir o Império Russo e foi combatido pela Inglaterra, França, Império Otomano (atual Turquia) e Sardenha (a Itália ainda não estava unificada). Segundo consta, aquelas calças largas dos turcos eram produzidas na Inglaterra e, com a guerra, não foi possível exportar para seus compradores normais. Capitalista perder dinheiro? Jamais! Então foram atrás de nova freguesia. Introduziram a “moda” na América do Sul, especialmente na região do Prata, os gaúchos acharam as bombachas confortáveis e aderiram a elas. O chapéu típico das “cholas” bolivianas tem história semelhante.

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Logo depois de se candidatar a sede da Copa do Mundo de Futebol de 1962, o Chile sofreu um dos mais terríveis terremotos. Havia dúvida se o país seria capaz de realizar a Copa, e o presidente da Federação Chilena de Futebol fez um apelo: “A Copa do Mundo tem que ser realizada no Chile, porque não temos mais nada”. Dois estádios novos foram construídos rapidamente, e o Brasil foi bicampeão, com Garrincha mostrando sua genialidade.

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A imperatriz Leopoldina achava que os lavradores brasileiros eram indolentes e que eles poderiam mudar de comportamento se trouxessem alemães para cá, para servir de exemplo, e começou a recrutar famílias de lá pra vir para o Brasil. Em 1824, ela escreveu a um recrutador de jovens alemães interessados em vir para o Brasil: “Mande mais 3 mil homens, solteiros e moços, sem descontar o número que lhe escrevi da outra vez”.

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Em 1817, na Revolução Pernambucana, o governo revolucionário revogou o tratamento de “vosmicê” e “senhor”, usados para pessoas importantes, instituindo no lugar deles “vós” (hoje equivalente a “você”), e “patriota” (equivalente a “companheiro”).

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O ouro é considerado um protetor contra mau-olhado, e muita gente usa anel, brinco ou qualquer outro objeto de ouro para se proteger. Mas se quiser ter sorte pra valer, tem que usar uma pedra preciosa (ou semipreciosa) em cada mês: janeiro: granada; fevereiro: ametista; março: água marinha; abril: brilhante; maio: esmeralda; junho: pérola; julho: rubi; agosto: sardônica (acredite: essa pedra existe); setembro: safira; outubro: opala; novembro: topázio; dezembro: turqueza. Haja dinheiro pra ter uma joia pra cada mês!

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A Batalha de Waterloo, em que Napoleão Bonaparte foi definitivamente derrotado, aconteceu em 18 de junho de 1815.

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Bárbara, nascida na atual Turquia, no século III, era filha de Dióscoro, um nobre e rico cidadão do Império Romano, que perseguia os cristãos. Só que ela se tornou cristã, secretamente. Quando Dióscoro descobriu, ficou tão injuriado que denunciou a filha e ela foi condenada a ser decapitada. Ele mesmo se encarregaria de cortar a cabeça da moça. Na hora da execução da pena, quando Dióscoro levantou a espada afiada para a decapitação, caiu um raio na espada e o matou. Esta é uma história que se conta de Santa Bárbara, protetora contra raios e tempestades.

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Segundo a mitologia chinesa, não há apenas uma lua, são doze luas, uma para cada mês.

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Na mitologia persa, há um ponte entre a terra e o céu, chamada Chinvat. Nela, os mortos eram julgados. Os puros passavam, os pecadores eram jogados no inferno.

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Na mitologia hindu existem vários mundos e as leis dos outros mundos não são as mesmas deste em que vivemos. Não há um consenso sobre quantos são esses mundos, o número varia conforme o autor, mas quase sempre em torno de 14.

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Os Estados Unidos compraram o Alasca da Rússia em 1867, e cada hectare custou menos de um centavo de dólar. O Canadá, então colônia da Inglaterra, faz divisa com o Alasca e havia interesse inglês de comprar aquele território, mas a Rússia tinha a Inglaterra como inimiga.

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O primeiro desenho animado de longa-metragem de Walt Disney foi “Branca de Neve e os Sete Anões”, finalizado em 17 de julho de 1937.

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Pelé tinha 16 anos quando jogou pela primeira vez na seleção brasileira de futebol. O jogo foi contra a Argentina, em 7 de julho de 1957. Ele marcou o único gol brasileiro, na derrota por 2 x 1.

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Em livros sobre plantas afrodisíacas, pode-se encontrar entre os estimulantes sexuais o capim barba-de-bode. A parte empregada é a raiz, que deve ser preparada em tintura (infusão em álcool). Recomendam tomar 20 a 80 ml por dia da infusão a 10% em cachaça ou álcool ou 50 a 150 ml por dia de infusão a 20% em vinho branco seco. Quem quiser que arrisque!

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Em dezembro de 1872 tripulantes do navio britânico Dei Gratia, que ia de Nova York para Gibraltar, avistaram um outro navio se deslocando de maneira estranha, irregular. Fizeram uma saudação e não obtiveram resposta. Alguns marinheiros foram de bote até esse navio, que era o Mary Celeste, subiram a bordo e não encontraram ninguém. Nenhuma pessoa! Nunca foi descoberto o que aconteceu com a tripulação.

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Em 1o de janeiro de 1915 foi inaugurada a linha de telégrafo de 1280 quilômetros ligando Cuiabá a Rondônia, na bacia Amazônica, construída pela expedição Rondon. O início da construção foi em 1907.

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Em 25 de janeiro de 1975, mais um piloto brasileiro se destaca na Fórmula 1: José Carlos Pace venceu a corrida em Interlagos. Algum tempo depois ele morreu de acidente de avião, e o governador Paulo Egídio, de São Paulo, nomeado pela ditadura, deu um baita fora: “Eu esperava que ele morresse de acidente de carro, não de avião”.

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No início da ocupação de Pernambuco por engenhos de açúcar, um obstáculo foi o povo Caeté, muito valente, formado por guerreiros excelentes. Uma época, Jerônimo de Albuquerque (que por sinal era filho de um português e uma índia) cobiçou as terras dos Caeté e decidiu expulsá-los. Recrutou quantos brancos pôde e 10 mil índios inimigos dos Caeté e partiu para o ataque, esperando uma vitória fácil, já que os Caeté eram apenas 600. Mas a resistência foi brava. Protegidos por uma paliçada, os Caeté mataram uma porrada de inimigos, e ao amanhecer recebeu o reforço de 200 flecheiros de outras aldeias. Em vez de ficar na defensiva, partiram para o ataque e puseram pra correr os portugueses e seus aliados. Em 1560, o governo português reuniu 22 mil homens muito bem armados, entre índios e brancos, para atacar os Caeté e houve combates com perdas de lado a lado, mas o bravo povo indígena viu que era uma coisa desproporcional e se retirou para o interior.

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Sabe-se que o PCB foi fundado em 25 de abril de 1922, mas antes houve uma tentativa de criação do Partido Comunista do Brasil, em 21 de junho de 1919. Era um partido meio anarquista e teve vida curta.

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Em 1o de março de 1858, termina em Salvador a “Revolta dos Chinelos”, iniciada no dia anterior, 28 de fevereiro. O povo, com apoio da Câmara Municipal, se revoltou contra a alta dos preços da farinha de mandioca e da carne, usando o lema “carne sem osso, farinha sem caroço”. O presidente da Província ficou a favor dos atacadistas e monopolistas de gêneros de primeira necessidade e mandou tropas invadirem a Câmara. O povo reagiu atacando o palácio, a Guarda Nacional foi chamada para dispersar os revoltosos e a praça ficou coberta de chinelos, pois os revoltosos eram pobres e esse era o calçado deles.

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Um ditado: “O anão, quanto mais alto sobe, menor parece”.

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A música popular brasileira estava meio em baixa (será que tanto quanto na época atual?), em meados dos anos 1960, mas aí começou uma era de festivais que mudou tudo. O primeiro festival, realizado pela TV Excelsior, teve sua final em 6 de abril de 1965, e revelou Elis Regina, intérprete da música vencedora, Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Nos anos seguintes a TV Record e a Globo entraram na onda e foi um tempo de músicas maravilhosas, como Domingo no Parque (Gilberto Gil), Sem lenço e sem documento (Caetano Veloso), Roda Viva (Chico Buarque), Disparada (Geraldo Vandré), Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brandt), São Paulo, meu amor (Tom Zé), Pra não dizer que não falei de flores (Vandré) e Sabiá (Chico Buarque e Tom Jobim).

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A data tida como a do primeiro jogo de futebol no Brasil é 14 de abril de 1895, com ingleses residentes em São Paulo. O jogo entre São Paulo Railwai e Companhia de gás, promovido por Charles Miller, na Várzea do Carmo, terminou com a vitória do São Paulo Railway (em que Charles Miller jogava) por 4 x 2.

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Jean-François Champolion, que decifrou a “Pedra da Rosetta” (Rosetta era o nome que os europeus deram a Rashid, no Egito) já era um egiptólogo aos 17 anos de idade, tendo estudado as línguas árabe, caldeu, chinês, copta, pahlavi, parsi e zend. A Pedra da Rosetta foi levada para a França em 1799, e, depois da derrota de Napoleão, para a Inglaterra.

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Em 1507 foi publicado na Europa o livro As quatro navegações de Américo Vespúcio, obra fantasiosa, em que o dito cujo aparece como “grande descobridor”, segundo o cosmógrafo Martin Waldesemüller, que foi quem propôs que o continente levasse o seu nome. Em 1513, o próprio Waldesemüller reviu isso e propôs que o continente se chamasse Colômbia, mas o nome América já tinha pegado, não teve jeito.

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Oataque japonês a Pear Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, tem uma história que começa anos antes. Em 1935, os japoneses queriam começar a espionar a base de Pear Harbor, mas achavam que se mandassem espiões orientais logo suspeitariam deles, então pediram à Alemanha nazista que cedesse espiões a eles. Joseph Goebbels indicou o médico Bernard Kühn, ele aceitou a proposta e se mudou para o Havaí com a família, que se tornou toda espiã: ele, a mulher, uma filha então com 17 anos, e um filho com 5 anos. Era um pessoal muito simpático e ninguém suspeitava deles. Em 1939 a família foi orientada a espionar toda a marinha norte-americana que atuava na área. A filha Susie, bonita, teve papel chave. Namorava oficiais norte-americanos e depois montou um salão de beleza frequentado por mulheres dos oficiais, que fofocavam direto e contavam segredos revelados pelos maridos.

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Ditados sobre cachorros

Cachorro bom de tatu, morre de cobra
Cachorro velho não late à toa
Cachorro velho não se acostuma com coleira
Cão que muito lambe, tira sangue

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Assim falou Camilo Castelo Branco: “Enquanto houver rapazes de quarenta anos, é justo que se desculpem as leviandades dos velhos de dezessete”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV, VI, VII, VIII, IX, X e XI na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Lançamento Boitempo: “Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados”, de Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco (orgs.)

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Acaba de chegar às livrarias a obra coletiva Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado pelos historiadores Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco. Reunindo 27 ensaios inéditos escritos por alguns dos mais reconhecidos especialistas e acadêmicos brasileiros e internacionais, o livro tem a rara qualidade de contemplar os intérpretes da história e da cultura no Brasil marginalizados pela historiografia dominante como Rui Facó, Octávio Brandão, Astrojildo Pereira, Leôncio Basbaum, José Honório Rodrigues, além de contemplar também clássicos indispensáveis como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Milton Santos, entre outros, reavaliados sob o veio crítico da leitura da história a contrapelo.

Para o historiador Herbert S. Klein, professor emérito das universidades de Columbia e Stanford, o volume constitui um manual básico para os estudos de história intelectual e da história moderna do Brasil: “A coleção de ensaios Intérpretes do Brasil representa um guia fundamental para o entendimento dos mais influentes pensadores brasileiros do século XX”.

Confira o sumário completo e mais informações sobre o livro aqui.

Não perca a noite de autógrafos do livro em São Paulo hoje, dia 22 de abril de 2014! Mais informações ao final deste post.

Leia abaixo a orelha do livro assinada por Carlos Guilherme Mota

Nesta obra, organizada pelos historiadores Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco, reúnem-se estudos e ensaios sobre alguns dos principais intérpretes da história e da cultura no Brasil, escritos por reconhecidos especialistas acadêmicos. O leitor poderá notar que os organizadores, tanto na seleção dos autores quanto na dos comentaristas críticos, fugiram bastante das linhas de publicações que vêm se dedicando ao estudo dos “explicadores” deste País. Nada obstante, consideram relevantes, é claro, a contribuição decisiva de escritores e pensadores já clássicos, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Florestan Fernandes, Celso Furtado e Antonio Candido, responsáveis por obras seminais e aqui revisitados em abordagens inovadoras.

A novidade desta publicação é que os coordenadores trouxeram para o centro do debate figuras que estavam um tanto à sombra, como, a despeito de seu papel histórico, o venerando Astrojildo Pereira, ou o crítico da Conciliação José Honório Rodrigues (neste ano, aliás, comemora-se o centenário de seu nascimento), Heitor Ferreira Lima, Octávio Brandão, Luís da Câmara Cascudo, Leôncio Basbaum e os inquietos Mário Pedrosa e Darcy Ribeiro, além de Everardo Dias, Rômulo Almeida, Nelson Werneck Sodré e Rui Facó. Também são contemplado autores mais “novos” e menos compendiados, como os heterodoxos e brilhantes Maurício Tragtenberg (“no Brasil não há cidadãos, mas súditos-contribuintes”, ironizava), Jacob Gorender, Ruy Mauro Marini e Milton Santos (que alertava: “não se deve confundir a moda com o modo”), o laborioso Edgard Carone e ainda personalidades da importância histórica de Paulo Freire e Ignácio Rangel.

Verifica-se nesta obra uma significativa abertura de foco dos estudos sobre o pensamento brasileiro, não apenas em termos geracionais como também na variedade de visões teóricas e abordagens pronunciadamente ideológicas. Câmara Cascudo e Werneck Sodré não estão, é evidente, na mesma chave ideológico-cultural, assim como Rômulo Almeida e Maurício Tragtenberg produziram ensaios em diferentes searas.

Sabe-se que cada geração analisa e “redescobre” o Brasil, interpretando o processo de nossa formação dentro das condições e debates de sua época. Poucos vão além. É necessário lembrar, entretanto, que desde o século XIX já assistimos a diversas tentativas de interpretação de nossos caminhos enquanto sociedade e cultura, considerando inclusive as conjunturas político-ideológicas específicas em que surgiram – claro que anacronismos sempre existiram, mas as dificuldades em se “pensar o pensamento”, como alertara Machado de Assis, estiveram presentes em todas as tentativas, até hoje. E que Mário de Andrade sempre se inquietou com a dificuldade em saber o que somos e valemos enquanto povo…

Esta obra, portanto, vem ampliar de modo crítico e significativo os horizontes e o debate histórico-historiográfico nesta quadra difícil de nossa história, tão marcada por ambiguidades, desacertos e, já agora, também por profundas revisões para uma retomada rumo a um futuro melhor. 

AUTÓGRAFOS CORTEZ

A Boitempo Editorial e a Livraria Cortez convidam para o bate bapo e noite de autógrafos de lançamento dos livros Ditadura: o que resta da transição, organizado pelo cientista político Milton Pinheiro, e Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado pelos historiadores Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco. O evento ocorre no dia 22 de abril, terça-feira, às 19h30, na Livraria Cortez em Perdizes (Rua Bartira, 317). Saiba mais aqui.

Lembranças tropicais: Gabriel García Márquez

14.04.17_Perry Anderson_Lembranças tropicaisPor Perry Anderson.

Como formas de escrever sobre o passado, memórias e autobiografias são empreitadas diferentes, apesar de na prática não se sobreporem. No limite, um livro de memórias pode recriar um mundo ricamente povoado por pessoas, sem contudo falar muito sobre o próprio autor. Uma autobiografia, em compensação, pode assumir a forma de um retrato puro de si, no qual o mundo e os outros aparecem apenas como uma mise-en-scène para a aventura íntima do narrador. Ao recontar sua vida, romancistas já produziram atos de bravura em ambos os gêneros. Entre as obras modernas, To Keep the Ball Rolling [Para Manter a Bola Rolando], de Anthony Powell – quatro volumes agradáveis, embora lacônicos –, é uma obra-prima do primeiro gênero. O breve As Palavras, de Sartre, é talvez o maior exemplo do segundo. Viver para Contar, de Gabriel García Márquez, é classificado como livro de memórias por seus editores, mas há certa dúvida de que, no conjunto, se enquadre nessa categoria. Márquez é, obviamente, um lendário contador de histórias. Além disso, possui uma aguda inteligência autorreflexiva, como podemos observar emCheiro de Goiaba, em que reproduz suas conversas biográficas com Plinio Apuleyo Mendoza.

Em Viver para Contar, Márquez exerce com comedimento esse outro lado de seus dons. Por opção artística, construiu um livro de memórias mais próximo, na forma, de um romance do que jamais se tenha escrito. Começa com a chegada de sua mãe a Barranquilla, a fim de levar o filho – então com 22 anos – para vender a casa da família em Aracataca, viagem que fez com que se tornasse o escritor que é hoje; e termina com o ultimato escrito por ele durante um voo para Genebra, cinco anos depois, e que transformou uma paixão esquiva de adolescência em sua futura esposa. Entre esses dois coups de théâtre paralelos, o autor rememora sua vida até o momento em que deixou a Colômbia, em 1955, numa narrativa que obedece não aos padrões desordenados da experiência ou da memória, com toda a sua irregularidade, mas às regras de uma composição perfeitamente simétrica. O livro é dividido em oito capítulos de tamanhos praticamente idênticos – um arranjo que corresponde menos ainda à maneira como qualquer vida poderia ser de fato vivida, como que para sublinhar o fato de estarmos diante de outro artifício supremo.

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Desde o início de sua carreira, Márquez vem praticando dois estilos de escrita relativamente distintos: a prosa figurativamente carregada, já visível de maneira brilhante em seu primeiro livro de ficção, A Revoada: O Enterro do Diabo, que teve sua publicação rejeitada na época, com a concessão de que era “poética”; e a concisão objetiva de histórias como Ninguém Escreve ao Coronel ou reportagens como Notícia de um SequestroSe, tecnicamente, o registro de Viver para Contar fica entre os dois, o tom e o efeito do conjunto – e isso decorre da concepção das memórias – têm a grandeza viva e suntuosa de seus grandes romances. Estamos ali no mundo de Cem Anos de Solidão ou de O General em seu Labirinto, com sua densidade metafórica e seus diálogos típicos: sentenças curtas e sublimes, que funcionam quase como epigramas, de pungência inimitável e ironia bem-humorada.

O que o livro conta é a história da juventude de Márquez na Colômbia. Retratos vívidos de seus pais e avós criam um ambiente familiar dos mais estranhos. Então é mostrada sua infância, até os 8 anos, com o avô na zona bananeira da costa do Caribe; os primeiros dias de escola e a pobreza em Barranquilla, as férias num interior paradisíaco; a subida do rio Magdalena até um liceu nos Andes; o ingresso na universidade em Bogotá; uma descrição em primeira mão dos tumultos apocalípticos na capital após o assassinato do principal político populista do país, Jorge Eliécer Gaitán; o retorno à costa para fugir dos distúrbios; os primeiros anos como jornalista em Cartagena; o entusiasmo literário e a dissipação boêmia em Barranquilla; e, por fim, o trabalho regular como repórter em Bogotá e a ida ao exterior para cobrir a conferência de Genebra, em 1955. Tudo isso com uma grande variedade de incidentes impressionantes, detalhes intrigantes e uma sorte extravagante que poucas obras de ficção seriam capazes de igualar.

No entanto, o resultado não é um Bildungsroman [romance de formação] do autor, cuja personalidade raramente está em foco, mas a recriação de um universo assombroso, a costa caribenha da Colômbia na primeira metade do século XX. Quem acha que a contraparte factual da ficção de Márquez é, na melhor das hipóteses, uma pálida cópia dela pode ficar tranquilo. Uma cena impressionante atrás da outra, um personagem inesquecível atrás do outro, cascatas de gestos que vão além da lógica e coincidências que vão além da razão fazem de Viver para Contar um primo dos grandes romances. Esse primeiro volume é um grande e bem planejado edifício de imaginação literária. É tentador, assim, lê-lo apenas como uma obra de arte, independentemente de seu status de documento biográfico.

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Isso, contudo, seria diminuir seu interesse. Para entender o porquê, pode-se compará-lo com as memórias do escritor latino-americano ao qual é mais comumente associado, e que perde somente para ele em fama. Peixe na Água, de Mario Vargas Llosa, publicado há mais de uma década, tem uma estrutura menos convencional. Escrito após a derrota de sua candidatura à Presidência do Peru, em 1990, alterna capítulos sobre a sua infância e a adolescência, e a campanha para liderar o país quando tinha mais de 50 anos – um recurso de contraponto que ele usou mais de uma vez em seus livros de ficção, de Tia Julia e o Escrevinhador até O Paraíso na Outra Esquina. Nesse formato, os três anos de campanha presidencial ocupam mais espaço do que os 22 anos até a idade adulta. Só isso já faz desse um livro de memórias muito diferente do de Márquez. Ainda mais impressionantes, então, são as semelhanças entre suas primeiras experiências, misteriosamente próximas em muitos aspectos.

Ambos os escritores passaram os primeiros anos cruciais da meninice sob o teto de um avô que os adorava, o patriarca da família – um deles um veterano da guerra civil na Colômbia, o outro um fazendeiro e prefeito na Bolívia e no Peru. Os pais, que tinham empregos semelhantes (um era operador de telégrafo, o outro era operador de rádio) e fizeram casamentos semelhantes (contra a vontade da família da noiva, de classe social superior), eram ausentes: um vazio na estrutura emocional da infância, em que mesmo as mães desempenhavam papel secundário. A iniciação sexual veio cedo, em bordéis sobre os quais escrevem com afeição maliciosa. Mais tarde, casaram-se ambos com moças de sua cidade natal. Quando adolescentes, foram enviados contra a vontade para colégios internos pelos pais. Formaram-se com alegria nas províncias e experimentaram a chegada à capital como um infortúnio.

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Na universidade, mergulharam numa vida paralela de jornalismo e farras noturnas. Os dois mostraram habilidade para novelas de rádio, inspirados pelo mesmo dramalhão – El Derecho de Nacerde Félix B. Caignet (sem conotações anacrônicas antiaborto) [No Brasil, exibida no formato de radionovela e telenovela, em diferentes versões, com o título O Direito de Nascer]. Em ambos os casos, a grande descoberta literária da juventude foiFaulkner, cujos romances eles dizem que os marcaram mais fundo do que qualquer outro. Cada um encerra suas memórias no mesmo ponto decisivo, quando o escritor – logo depois de descobrir alguma coisa sobre o interior desconhecido de sua terra (El Chocó e Amazonas) – deixa o país natal em direção à Europa, para nunca mais voltar a fixar residência ali.

Uma série de paralelos desse tipo é um convite para algum futuro Plutarco das letras latino-americanas. Mas o que eles evidenciam, afinal, são os contrastes dos dois romancistas e de suas memórias. Apesar de todas as semelhanças entre as constelações familiares, Vargas Llosa tem – pelo lado materno – uma herança social mais privilegiada, um clã da elite de Arequipa que produziu o primeiro presidente peruano do pós-guerra, Bustamante y Rivero. Classe e cor o situavam mais alto na escala social, naquela que era uma sociedade rigidamente racista, do que um menino mestiço da Colômbia poderia chegar. A educação formal também os separou. Márquez explica quão desafeiçoado era dos estudos na universidade, onde seu pai insistira que cursasse direito e a qual acabou por abandonar. Vargas Llosa, ao contrário, teve um brilhante cursus estudantil e tornou-se assistente do maior historiador de Lima antes mesmo de se formar. A universidade foi uma experiência central para ele, enquanto para Márquez não significou nada. Essa diferença explica por que ele foi para a Europa muito mais cedo, com uma bolsa de estudos em Madri. E também por que, uma vez na Europa, nunca mais a deixou, tendo vivido essencialmente em Paris, Londres e Madri, viajando a passeio para Lima. Márquez, ao contrário, logo retornou à América Latina, terminando por se estabelecer no México.

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As trajetórias divergentes têm seus correlatos atmosféricos no trabalho de cada um. Na vida dos autores, a história de seu país – medida em termos de matança, repressão, frustração, corrupção – dificilmente poderia ser mais sinistra, e isso, é claro, encontra expressão em seus romances. Mas os retratos que Márquez faz de sua terra natal, mesmo em seus piores momentos, são repletos de um afeto lírico, um amor imutável, que não têm equivalentes no mundo de Vargas Llosa, no qual a relação do escritor com sua terra de origem é sempre tensa e ambígua.

A razão dessa diferença pode ser encontrada em parte em suas situações individuais. Se, por um lado, a configuração das famílias de origem era de uma similaridade impressionante, a voltagem emocional era oposta. A mãe de Márquez, retratada de forma adorável por ele, era claramente uma mulher de grande força de caráter, capaz de administrar um marido determinado, ainda que inconstante, e onze crianças, tanto na prosperidade como na penúria. O pai de Vargas Llosa, que sem uma palavra abandonou a esposa no quinto mês de gestação e, dez anos depois, apareceu inesperadamente para retomá-la e cooptá-lo, foi, em contraste, um pesadelo traumático: temido pela esposa e odiado pelo filho. Sem nenhum apego por sua terra natal, acabou por emigrar para os Estados Unidos e morreu como faxineiro em Pasadena.

Mesmo o melodrama da primeira experiência sexual dos dois escritores, com roteiros conhecidos de honra e ultraje latinos, reflete esse contraste. Quando Vargas Llosa se casou com a tia – naquela família semidesenraizada, não por coincidência uma boliviana –, seu pai sacou um revólver, denunciou-o à polícia em Lima e ameaçou matá-lo com cinco tiros, como um cão raivoso. García Márquez, apanhado in flagrante com a esposa negra de um policial do interior, também teve de encarar uma pistola, assim como as palavras: “Traição na cama se resolve na bala.” Mas o sargento que sofreu a afronta deixou o menino apavorado escapar com a humilhação – em gratidão a um serviço médico prestado pelo pai de Márquez, e quando vistos pela última vez, bebiam juntos.

As duas cenas, composições de um machismo teatral, ilustram duas sociedades diferentes. A poesia e a humanidade do episódio colombiano capturam o espírito geral de Viver para Contar, assim como os laços de seu autor com a comunidade em que cresceu. Já o título de Peixe na Água inverte a história que na verdade conta. Isso é expresso de maneira mais precisa na primeira edição, intitulada Um Peixe Fora d’Água – uma inversão que não é a menos importante das estranhezas das memórias de Vargas Llosa como um todo. Embora escrito num momento de aguda decepção política, e inevitavelmente um tanto descolorido por ela, o livro é atravessado pelo horror a boa parte da vida peruana – social e cultural, bem como política –, que expressa de modo claro sentimentos havia muito existentes.

As consequências literárias dessa diferença não são as que se esperam. O rótulo de “realismo fantástico” – hoje desgastado pelo uso – é habitualmente atribuído aos romances de Márquez. Nunca se ajustou bem a Vargas Llosa, que não reconhece o adjetivo. “Tenho uma fraqueza invencível pelo assim chamado realismo”, observa ele em Peixe na Água. Um dos contrastes mais significativos da ficção de ambos decorre dessas opções distintas – ou talvez as dite. O grosso do trabalho de Vargas Llosa situa-se no presente peruano, contemporâneo à sua própria experiência. A principal exceção são os deslocamentos, não apenas no tempo, como também no espaço – o Brasil de A Guerra do Fim do Mundo ou a França e os mares do sul de O Paraíso na Outra Esquina.

Em compensação, nenhum dos grandes romances de García Márquez representa a época em que ele próprio se tornou escritor. Macondo desaparece na Grande Depressão. O patriarca pertence ao mundo rústico de Juan Vicente Gómez. Os tempos do cólera são vitorianos. O general expira com o fim da Restauração. A modernidade é alérgica à mágica. Os poderes de Márquez sempre necessitaram de uma volta ao passado para serem exercidos com plena liberdade.

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É claro que, na mente do público, o que provavelmente distingue os dois escritores é a imagem convencional de suas posições políticas – García Márquez como amigo de Fidel Castro, Vargas Llosa como devoto de Margaret Thatcher, figuras respectivamente da esquerda ecumênica e da direita liberal. Tal polaridade existe, é claro. Mas, ao olhar para a escrita em vez de para as filiações, percebemos um contraste mais impressionante. Vargas Llosa foi desde cedo, e assim permanece, um animal político. Como estudante em Lima durante a ditadura de Odría, foi um ativo militante comunista, levado para o partido por Héctor Béjar, que mais tarde, nos anos 60, comandaria a primeira guerrilha peruana; ao chegar à Europa, mergulhou na teoria marxista na qualidade de entusiasta da Revolução Cubana. No começo dos anos 70, quando rompeu com a esquerda por causa de Cuba, não se recolheu à literatura simplesmente, como outros, mas tornou-se um admirador apaixonado de Hayek e Friedman, e um dos principais defensores do capitalismo de livre mercado na América Latina. Sua candidatura à Presidência do Peru, com o apoio da direita tradicional, não foi um capricho repentino, mas consequência de uma década de atividade pública consistente. Logicamente, sua ficção – desde o primeiro retrato da academia militar em A Cidade e os Cachorros, passando pelas conspirações revolucionárias em Conversa na Catedral e História de Mayta, até A Festa do Bode – usa os conflitos políticos contemporâneos diretamente como tema organizador.

Esse nunca foi o caso de García Márquez, e Viver para Contar ajuda a explicar o porquê, apesar de permanecer algum mistério. Ele retrata um jovem, vindo da costa para o altiplano durante a adolescência, tão absorvido pelos temas literários – primeiro e acima de tudo pela poesia – a ponto de não ter praticamente nenhum interesse pelos assuntos públicos. A Colômbia já se encontrava num estado de grande tensão política em seus últimos anos de escola e, assim que chegou à universidade, o país sucumbiu à guerra civil. Em seu capítulo mais poderoso, Viver para Contarpinta um panoramaao estilo de Goya do terremoto social que engolfou Bogotá quando Gaitán, seu político mais popular, foi assassinado, em 1948. De sua pensión a três quarteirões de distância, García Márquez correu para a cena, chegando a tempo de presenciar o linchamento do assassino e a irrupção de uma maré de tumultos e saques que varreu a cidade. Mas sua reação, tal como se recorda, foi simplesmente voltar à pensão para terminar o almoço. Encontrando-o na rua, um parente mais velho – o qual se tornou um dos líderes da junta revolucionária que tentou direcionar os tumultos para um levante contra o governo conservador – instigou-o a participar dos protestos estudantis contra o assassinato. Em vão. Aterrorizado com a destruição e as mortes em massa nos dias seguintes, quando o Exército entrou na cidade para restaurar a ordem, seu único desejo era fugir.

A violênciaque devastou a Colômbia na década seguinte, opondo os liberais aos conservadores que se mantinham no poder, ceifou 300 mil vidas – uma catástrofe pior do que qualquer outra que o Peru tenha sofrido. Esse foi o pano de fundo histórico do início da carreira de Márquez como jornalista e escritor. Mas ele parece ter continuado misteriosamente intacto. Apesar de ser colunista regular de um diário de Cartagena, escreve que “no meu ofuscamento político da época, eu nem sabia que a lei marcial havia sido imposta de novo no país”. Em Barranquilla, pouco depois, “a verdade de minha alma era que o drama da Colômbia me atingia como um eco remoto, e me comoveu apenas quando transbordou em rios de sangue”. Essa confissão nos desarma, mas a distinção não se sustenta: o drama da Colômbia era o derramamento de sangue. Parece que a realidade foi que o jovem literato, inteiramente envolvido em descobertas e experimentos da imaginação, de fato ignorava o destino de seu país naqueles anos.

Era mais fácil agir assim nas cidades costeiras, já que o litoral do Caribe, embora não estivesse imune às chacinas sectárias, foi poupado do pior da violência que grassava nas fronteiras cafeeiras das terras altas. A identificação de Márquez com sua região – “o único lugar em que realmente me sinto em casa” – conferiu à sua escrita uma intensidade luminosa, mas parece também tê-lo protegido, ou cegado, dos padrões e forças mais amplos da nação. “A Colômbia sempre foi um país com uma identidade caribenha que se abria para o mundo pelo cordão umbilical do Panamá”, escreve. “Sua amputação forçada nos condenou ao que somos hoje: uma nação com uma mentalidade andina, cujas circunstâncias favorecem que o canal entre os dois oceanos pertença não a nós, mas aos Estados Unidos.”

O lamento é palpável e significativo. Não é exagero dizer que as terras elevadas dos Andes, que formam o cerne da sociedade colombiana, permanecem uma espécie de livro fechado para Márquez. Não há dúvida de que vem daí, em parte, o silêncio em Viver para Contar a respeito da guerra civil durante a qual se passa boa parte da história.

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A única aventura de Márquez na história contemporânea, Notícia de um Sequestro, humana e cativante como relato do episódio final da carreira de Pablo Escobar, confirma certo mal de altitude intelectual. Falta-lhe a compreensão do contexto social da guerra da droga na Colômbia ou mesmo uma visão crítica da oligarquia que a comandava. Lendo o livro, ficamos tentados a achar que, no fundo, Márquez permanece tão apolítico quanto era no início.

Isso é um erro, como mostra a sequência de Viver para Contar. Mas tanto suas memórias quanto sua ficção sugerem uma mente com uma maravilhosa sensibilidade intuitiva para o temperamento, as cores e os detalhes do mundo em que cresceu, sem muita consideração pela definição de suas relações ou estruturas. Por esse relato, é difícil situar com precisão a família de Márquez na escala social. Seu avô, apesar de ser representado como um patriarca com alguma substância, parece não ter sido originalmente mais do que um artesão, ainda que ourives; a base econômica da lendária casa de Aracataca – o pai é descrito como alguém que pediu a mão de uma “filha de família rica” – é obscura. Os altos e baixos das venturas do pai, da extrema pobreza ao conforto modesto – aparentemente sem relação com a proliferação dos onze filhos –, são apenas um pouco menos incompreensíveis. Com o passar do tempo, as conexões entre o clã se revelam: um tio na polícia de Cartagena, capaz de arranjar empregos; um professor em Bogotá, dono de uma grande livraria. Cabe a nós tentar adivinhar como se encaixava o jovem Gabito nessa hierarquia complicada de classe e cor.

O que dizer, finalmente, do autorretrato que emerge dessas memórias? Ele é curiosamente oblíquo. Márquez oferece um relato abrangente do desenvolvimento de sua vocação literária, do tempo de escola até mais ou menos seus 20 anos, e muitos incidentes cativantes ou encontros arrebatadores em sua jornada rumo à maturidade. Mas não está tão claro como ele era enquanto menino ou jovem. A autoconfiança que seu avô lhe deu na infância parece nunca tê-lo abandonado, salvo nas brevíssimas turbulências da adolescência. Mas há poucos sinais de ambição deliberada. Ele se fecha em sua timidez, mas obviamente era companhia animada, já que nunca lhe faltaram amigos. Mas não revela o quanto se empenhou em procurá-los ou até que ponto era visto apenas como um boêmio inconsequente.

Nas transações com o sexo oposto, as iniciativas de sedução partem na maioria das vezes das mulheres. Apesar de dizer que quando voltou a Barranquilla “tinha a timidez de uma codorna, que eu tentei contrabalançar com arrogância insuportável e franqueza brutal”, ele parece ter se dado bem em geral com parentes mais velhos e amigos, em todos os lugares por que passou. Com exceção de um conflito com o pai sobre a escolha de sua carreira, nenhuma grande discussão marca esse progresso. Ele cita apenas ocasionalmente os lados mais vulcânicos de sua personalidade – “acessos de raiva sem nenhum motivo”, “birras pueris” –, mas não oferece mais detalhes.

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Em vez de fazer uma autoanálise detida, Márquez oferece um espelho generoso aos seus contemporâneos. Viver para Contar contém uma abundante galeria de parentes, amantes, colegas, mentores e aliados, capturados num parágrafo ou em uma ou duas páginas. Isso basta para deixar impacientes os leitores anglo-saxões, mas é uma lealdade atraente, que distingue suas memórias das de Vargas Llosa. Um Peixe na Água, pensado desde o início para um público internacional, é mais tênue nesse sentido. As memórias de Márquez são destinadas aos leitores colombianos antes de tudo.

Elas anunciam seu princípio de construção no início, num manifesto gravado como epígrafe na abertura do livro: “A vida não é o que se viveu, mas o que se lembra, e como isso é lembrado para ser contado.” Tomado literalmente, é um convite à memória seletiva, com todas as facilidades de uma amnésia conveniente. Não há motivo para supor que Márquez tenha abusado de sua máxima. Mas é sempre legítimo perguntar em que medida as memórias correspondem aos fatos. Independentemente de quanta licença concedamos a um artista em sua reconstrução do passado, não valorizaríamos do mesmo modo o resultado se tudo se revelasse imaginário.

Nesse caso, a narrativa dá ensejo a alguns pontos de interrogação na margem. Sexo, política, literatura: cada um deixa uma penumbra de incerteza em seu entorno. Comentando “os modos de caçador furtivo” de seu pai, Márquez diz que houve um período em que ficou tentado a imitá-lo, mas logo descobriu que se tratava da “mais árida forma de solidão”. Nada em seu relato corresponde a essa breve afirmação. Em Cheiro de Goiaba, ele diz que, quando estava na universidade, pertenceu a uma célula do Partido Comunista Colombiano. Não há vestígio disso emViver para Contar.

Entre os autores que o formaram, ele enfatiza Faulkner. Mas a afirmação de que “cada sentença deve ser responsável pela estrutura toda” e o uso celestial do adjetivo (ele diz ter aversão a advérbios), que é a marca de sua prosa, derivam de Borges, que ele pouco menciona. A saída do grupo de Barranquilla que produzia a revista literária Crónica, cadinho de seu primeiro florescimento como escritor, é apresentada como uma partida amigável, sem dificuldades ou ressentimentos. No entanto, entrega que renunciou ao cargo de editor num acesso de raiva algum tempo antes, por razões não especificadas. A ruptura pode ter sido mais dolorosa do que ele sugere.

Tais discrepâncias têm importância? A epígrafe as absolve. Mas uma vida e uma história nunca são a mesma coisa, e os interstícios entre elas – mais largos ou mais estreitos – são inevitavelmente parte do interesse de cada uma. Na luz resplandecente dessas memórias, há um brilho tênue à distância, próprio da latitude.

* Ensaio publicado originalmente em
Espectro: da direita à esquerda no mundo das ideias, de Perry Anderson.

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Leia também, no Blog da Boitempo, O outono de Gabriel García Márquez e O escritor Mario Vargas Llosa e sua tia Júlia, na coluna de Urariano Mota, e O último livro de Vargas Llosa: radiografia sem diagnóstico, na coluna de Emir Sader.

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Perry Anderson é um historiador inglês nascido em 1938. Professor da UCLA, Estados Unidos, foi editor da New Left Review, a principal revista de esquerda do mundo anglófono. Ensaista político, Anderson é conhecido por seu trabalho em história intelectual, e filia-se à tradição do Marxismo Ocidental do pós-1956. É autor, entre outros, de Espectro e Afinidades seletivas, ambos publicados pela Boitempo.

Carro fantasma

14.04.17_Roniwalter Jatobá_Carro fantasmaPor Roniwalter Jatobá.

O funileiro aposentado Amarildo Figueiredo, morador no Jardim Maia, na Zona Leste de São Paulo, só foi descobrir o problema mais grave do seu Fusca 1200, ano 1967, três meses depois de comprado de um primo distante. A princípio julgou uma “galinha morta”, pois o automóvel foi oferecido pela metade do preço de mercado. Mesmo com um pára-lama amassado, valia. Para ele, conceituado profissional do ramo, o serviço de funilaria era como uma brincadeira num final de semana. Com o equipamento que guardava em casa, usado para consertar carros alheios, era fácil, fácil.

Pagou à vista. Pegou o carro num domingo e seguiu para casa. Numa travessa da antiga São Paulo-Rio, resolveu comemorar num bar a recente aquisição. Estacionou com cuidado. Quando voltou, o carro tinha andado cerca de 50 metros e notava-se um amassado bem grande no pára-choque traseiro.

Verificou o freio de mão. Funcionava direitinho. Tentou empurrar o carro para ver se rodava mais alguns metros, mas ele nem se mexeu do lugar. Amarildo ficou encafifado.

– Quem arruma um pára-lama arruma também um pára-choque – pensou.

Já em casa, fez questão de mostrar à mulher todos os detalhes do carro.

– Fiz um grande negócio – disse. – No próximo domingo, com ele todo arrumado, vamos descer a Serra e beber uma cerveja e comer um peixe assado numa barraca da Praia Grande.

Era o que ele pensava. Na segunda-feira, misteriosamente todo o óleo do cárter havia vazado. Na terça, ao tirar o carro da garagem, viu pelo retrovisor a figura de seu velho sogro, falecido logo depois de seu casamento.

Outro dia, Amarildo me contou esses e outros problemas fantasmagóricos. Agora, não tinha coragem de sair nem mesmo na sua rua com o automóvel tanto desejado.

– Será que tem jeito? – indagou.

Conto para ele que um motorista britânico foi obrigado a fazer uma coisa que só tinha visto em ser humano. Morador em Londres, pediu ao padre de Sussex para exorcizar seu carro.

Era o empresário Keith Tagliaferro, de 42 anos. Segundo ele, o veículo era responsável por todas as desgraças que sofreu desde que foi comprado. Tagliaferro culpava seu velho Ford Capri vermelho pela descarga de um raio, da morte de sua cadela de estimação, do surgimento de ferrugem no teto da capota do veículo e do aparecimento de fantasmas no porta-malas. Num jornal, o empresário afirmou que a placa do carro, ARK 666Y, pode ter relação com ARK – sigla da Arca da Aliança bíblica –, enquanto 666 é o número do diabo.

– Comprei o carro porque negocio placas e esta é bem procurada – relatou o empresário. – Mas o homem que me vendeu parecia ansioso para se livrar do veículo. Não sei se o proprietário anterior passou pelos mesmos apuros, mas desde que o comprei começaram a acontecer coisas estranhas.

A cerimônia de exorcismo foi feita realmente pelo sacerdote Kevin Carylon, de Sussex. Para dizer a verdade, não sei se deu certo. Mas, ando pesquisando para saber o resultado. Qualquer hora dessas, levo a fórmula para o desesperado e assustado Amarildo, que até hoje não usufruiu nadinha do primeiro – e último – carro próprio.

14.04.17_Roniwalter Jatobá_Carro fantasma_2

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

A versão e os fatos: lágrimas que alimentam meu ódio

14.04.16_Mauro Iasi_A versão e os fatosPor Mauro Iasi. 

Ao jovem Jefferson

O jovem Jefferson Rodrigues da Silva, de dezoito anos, foi morto a tiros por fuzileiros navais no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Na versão oficial, trocou tiros com os soldados que responderam ao fogo causando a baixa.

A Polícia Militar e o Exército ficam sempre muito bravos quando se coloca em dúvida as versões oficiais. Mas, vejam bem, outras versões oficiais que nos foram apresentadas: Amarildo, pedreiro sequestrado, torturado e assassinado por policiais militares da UPP da Rocinha, teria, na versão oficial, sido morto por traficantes; Claudia, atingida por dois disparos da polícia e que foi jogada na parte de trás de uma viatura e acabou sendo arrastada pelas ruas do Rio, teria sido apenas socorrida pela polícia; Giovanni, jovem que foi atingido por tiros pelas costas ao sair de casa de bermuda e boné quando a Polícia Militar entrava em seu bairro, e que, já caído, ao seu lado foi deixada uma quantidade de drogas e um revolver que não lhe pertencia, na versão das autoridades é um traficante que trocou tiros e tentou fugir; Herzog se enforcou em sua cela, mesmo que de uma altura na qual seria impossível tal ato; o golpe burguês e militar de 1964, que rompeu a Constituição e abriu décadas de terror e arbítrio, teria sido, na versão oficial, a reação das forças democráticas contra a provocação de comunistas que queriam fazer reformas de base, que ameaçavam a família, a religião e os bons costumes.

Há uma perversidade extra na guerra das versões. Jefferson tinha 18 anos, morava em uma enorme área abandonada desde sempre pelos poderes públicos, sem condições mínimas de saneamento, tampouco acesso a serviços essenciais, esquecida pelas verbas de infraestrutura, na qual impera o medo permanente, seja do crime organizado, seja do aparato policial corrupto e violento que vive em simbiose com a criminalidade e dela se alimenta.

O fato de Jefferson ser um trabalhador – alvejado como um efeito colateral (como tantos já foram) e agora tornado criminoso para ocultar sua morte – ou um jovem que naquela situação descrita vivia dos rendimentos da lucrativa atividade do tráfico e estava armado defendendo-se da invasão militar, não muda a tragédia do caso. Para boa parte da juventude estas são as opções: sobreviver em precárias condições e morrer de “bala perdida”, ou resistir armado e morrer em conflito com o aparato repressivo. Muitos decidem viver menos e viver melhor com os ganhos do tráfico, o prestígio e poder de, pelo menos, estar armado.

O BOPE quando subia os morros com o malfadado “caveirão” tocava em seus alto-falantes uma mensagem que dizia: “em bandido a gente atira com fuzil, em trabalhador é tapa na cara”. É compreensível que alguns decidam por estar, pelo menos armados, ao invés de tomar tapa na cara, levantar as mãos e virar para o muro enquanto são revistados.

Ali mesmo, no Complexo da Maré, que margeia a Linha Vermelha que leva os turistas do Galeão privatizado até a cidade maravilhosa, o poder público tomou uma iniciativa paradigmática. Não foram obras de infraestrutura, de implantação de serviços, ou mesmo de segurança pública (de uma verdadeira segurança… pública), do desenvolvimento dos serviços básicos como saneamento, educação ou saúde; foi, ao invés disso, o levantamento de anteparas sobre a murada da via que cobriam a visão das favelas e nestes painéis foram colocadas reproduções de desenhos, muitos feitos por crianças, com uma imagem idealizada e idílica do Rio e da própria favela.

Parece que esta iniciativa representa bem uma concepção. Esconder o real com uma representação idealizada que oculta e inverte a realidade. Nós, marxistas, chamamos isso de ideologia.

Ocorre que o real oculto segue existindo e suas contradições um dia explodem, fica impossível escondê-las. Já tiramos do centro e jogamos para a periferia, já ocultamos por painéis, já amenizamos com políticas pontuais, fragmentárias e insuficientes, já tentamos calar as vozes dissidentes a golpes de balcão de projetos e ONGs, bem ou mal intencionadas, mas simplesmente cresce o trafico, a repressão policial, as mortes, os autos de resistência… Como nada parece dar certo, então, eles mandam o exército, seus tanques de guerra e seus soldados, treinados no Haiti – que, Caetano já alertava, é aqui.

Na Portaria Normativa n. 3.461 do Ministério da Defesa, que estabelece as chamadas Operações de garantia da Lei e da Ordem (OpGLOs), encontramos uma espécie de confissão quando afirma que tais operações “tem por objetivo a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio em situações de esgotamento dos instrumentos para isso previstos no art. 144 da Constituição ou em outras em que se presuma ser possível a perturbação da ordem” [grifos meus].

Ocorre que o “esgotamento” não é dos instrumentos previstos, é de toda a concepção de sociedade sobre a qual eles se assentam. Como é difícil encarar esta verdade, vamos nos enganando que um intensificação da mesma lógica pode um resolver nosso problema. É como se nós tivéssemos um grande vazamento de água em nossa casa, causado pelo rompimento de uma tubulação, e acreditássemos que o problema é o tamanho do balde e a qualidade do pano que usamos para enxugar o chão.

O arremedo de política social e gotas de empreendedorismo, assim como a presença repressiva militar não deu certo, ora, mandamos o BOPE, não deu certo, ora mandamos as Forças Armadas. E se não der certo? Vamos fazer campos de concentração e fornos crematórios? Para que nenhum cidadão de bem seja confundido com um “marginal” vamos cortar seus cabelos, obrigá-los a usar pijamas listrados e pregar estrelas amarelas em seus peitos?

A ordem capitalista já resolveu este dilema. A segregação espacial de classes já criou os guetos modernos, a herança escravista colonial já pintou de preto as classes perigosas facilitando o trabalho da polícia e das forças armadas. Às vezes se mata uma dona de casa, uma criança, um jovem trabalhador, mas são efeitos colaterais na sagrada “guerra” contra o crime em defesa da lei e da ordem. Ninguém mandou eles parecerem tanto com as “forças oponentes”, são pobres, pretos, andam provocativamente de bermuda e chinelo, moram nas favelas, olham para a polícia com medo ou, pior, com o que lhes sobra de dignidade.

Certo, nos sabemos que tem gente rica no comando, organizando e lucrando muito com o tráfico de drogas e armas. Quando aparece na televisão o “grande chefe” do tráfico, morando na favela, mesmo os mais convictos em sua ingenuidade não acreditam que por trás dele não tem algum figurão com conexões em altos escalões, contatos com a própria polícia e políticos influentes. Bom, então, porque não vemos os tanques cercando a Vieira Souto, os condomínios de luxo na Barra, o caveirão entrando no Congresso Nacional e aqueles deputados e senadores com a mão na parede e pernas abertas sendo revistados sob a mira de um fuzil?

É que eles andam de terno, parecem gente de bem, da nossa “melhor sociedade”. Guardamos a forma repressiva, violenta e arbitrária para nossa “pior sociedade”. Enquanto o lixo humano, os dejetos incômodos de uma sociedade de riquezas e ostentação de luxo, estiverem escondidos e em ordem, tudo bem. Mas, se quiserem ocupar um terreno no centro, abandonado por uma pirata (ou corsária, já que pratica pirataria oficialmente… Oi?) das telecomunicações, aí não, enfeia a cidade maravilhosa. Aí chama a guarda pretoriana, chama a SS, chama os camisas pretas, chama a Gestapo e tira esse povo feio, preto e mau vestido, sem senso arquitetônico adequado, sem licitação e, pior, sem caixinha ou financiamento de campanha para as autoridades constituídas.

No fundo é o mesmo princípio da reforma do prefeito Pereira Passos que eliminou os cortiços no início do século e tentou imitar Paris e seus belos jardins, ou de outros que jogavam mendigos no mar, ou de Clinton que mandou tirar os pobres desempregados que dormiam sob a marquise do local no qual os democratas queriam fazer sua convenção e anunciar medidas importantes para combater a pobreza.

Para realizar estas medidas de ocultamento da pobreza estruturalmente determinada, até pela violência explicita que envolve tal ato, é preciso, assim como na Maré, um tapume ideológico. A mesma portaria normativa citada prevê isso naquilo que denomina de “Batalhão de Operações Psicológicas” (B Op Psico) que teria, entre seus objetivos “obter a cooperação da população diretamente envolvida na área de operações, desenvolvendo uma atitude contrária às F Opn [Forças Oponentes] e outra favorável às forças empregadas”.

Um enorme tapume entorno da pobreza e das áreas de conflito, cercas protegendo os lugares nos quais se darão os grandes eventos esportivos, placas que impedem a visão da favela por toda a rota que leva os turistas até os hotéis e ruas cercadas até os estádios. O problema é que vai ser difícil esconder todas as contradições embaixo do tapete ideológico, mesmo com as Forças Armadas no comando da vassoura repressiva. Os pobres insistem em estar por todos os lados, como disse certa vez a rainha Elizabeth da Inglaterra “Pauper ubique jacet” (o pobre está prostrado em toda parte). Que fazer, então? [ver: Karl Marx, O capital, livro I, p. 793]

Bom, sugerimos óculos com telas de cristal líquido e imagens editadas e transmitidas diretamente do centro de operações da Policia Militar e da central Globo de jornalismo, que seriam distribuídos a cada um que chegasse ao Brasil. Melhor seria distribuí-los antes do desembarque para já operarem vendo aeroportos com as reformas concluídas e funcionando perfeitamente.

No país da Copa não pode ter pobre sendo espancado pela polícia. Não pode um representante da Lei e da Ordem chamar uma menina de “macaca favelada” e desferir um murro em sua boca quebrando seus dentes, não pode um policial atirar e deixar uma pessoa cega ou mutilada, como na desocupação do terreno da Oi. Não pode ter greves, manifestações e ônibus incendiados. Não pode uma filha chorando com sua mãe baleada nos braços e perguntado ao policial que ria “por que… minha mãe não era bandida… por que?” Não pode o exército assassinar a tiros um jovem de 18 anos, seja ele ou não um infrator.

Não sei se o jovem Jefferson era ou não um criminoso. Recolho seu corpo e sinto em mim mesmo sua dor, é meu sangue que se esvai no chão da Maré. Sinto o tiro do fuzil assassino varando seu peito e abrindo um abismo de dor no coração de seu pai. Posso, em um relance, ver os filhos que não irão buscar seu abraço fantasma, as bocas que nunca sentirão o calor de seus lábios. Recolho mais este sacrifício no interminável martírio de nossa classe e o engulo com as lágrimas que alimentam meu ódio profundo. Eu os acuso!

Não apenas o infeliz soldado que puxou o gatilho e seu comandante, engrenagens da máquina de morte, mas também aqueles que se escondem atrás de seus cargos: Senhor Ministro da Defesa que pediu aos militares que escrevessem a portaria, senhor Ministro da Justiça de um pais injusto que permite que a Constituição seja suspensa e desfigurada, senhora Presidente Dilma Rousseff que assinou os atos que tornou legal o massacre, senhor governador (o ex e o atual) escondido covardes em seus escritórios: eu os acuso! A vergonha os acompanhará para sempre. Suas mãos estão sujas de sangue… jamais conseguirão lavá-las desta ignomínia.

14.04.16_Mauro Iasi_A versão e os fatos_passeata

Manifestantes fecham a pista central da Av.Brasil por alguns minutos depois de morte de Jefferson Rodrigues da Silva (Foto: Carlos Moraes / Agência O Dia)

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Mauro Iasi assina o posfácio do novo livro de Slavoj Žižek, Violência: seis reflexões laterais. A edição brasileira, que chega às livrarias em maio, vem acrescida ainda de um prefácio inédito do filósofo esloveno, escrito especialmente para o momento sombrio em que vivemos no país.

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Mauro Luis Iasi é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato entre outros. Confira, abaixo, o debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, com os autores Carlos Vainer, Mauro Iasi, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira:

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Eutanasinha

A imagem da menina do último carnaval, eu pensei tê-la esquecido. Dizem que uma imagem vale mil palavras. Bobagem, diz não. Entre tantas imagens que cometi no carnaval que passou, do porta-estandarte de Banhistas do Pina, orgulhoso da sua tradição, ao desfile do Bloco da Saudade, com suas mulheres bonitas mais um imenso galo ao fundo sobre a ponte, a mais bela é a de uma negra princesinha. Ela ficou na memória, acredito, porque não era uma imagem. É uma pessoa. É uma linda menina, passado e futuro do carnaval. A princesinha da memória era a filha da cozinheira de um boxe do Mercado da Boa Vista. Ela, a menina, tão feliz estava, que nem comeu todo o seu almoço no prato. Talvez a mãe, generosa como todas, tenha posto mais comida do que a menina queria. Mas não, penso mais é que a princesinha estava tão feliz, que perdeu a vontade de comer, assim como ocorre a todos nós em raras ocasiões. Quando o peito está contente, para que melhor alimento?

A princesinha, informa a memória, portava uma coroinha de lata, um vestidinho verde, umas trancinhas crespas que caíam em graça pelos lados da coroinha. O que a lembrança também diz é que as trancinhas elegantes davam na gente uma vontade de cheirar os cabelos da princesinha. Vontades assim dão na gente, de vez em quando, mas o adulto, escolado, sabe que a beleza, se tocada, pode reagir mal. Assim como um cão amarrado em corrente, que na infância enfiou os dentes na mão deste escritor. Não que a princesinha fosse morder. Pelo contrário, ela ainda mais sorriria encabulada, penso. Mas morderiam este escrevinhador outros homens na multidão do mercado, porque deviam achar descabido um beijo em trança rebelde de uma criança negra. Coisa de pedófilo se aproveitando do carnaval, assim podia pensar a maldade do vulgo em forma de julgamento. Por isso eu a toquei com os olhos, que estavam encantados e úmidos de álcool e emoção, nessa mistura que vem no rosto e nem a disciplina mais férrea consegue esconder. Então pedi à minha mulher, “tire por favor uma foto da princesinha”. E o celular registrou.

Eu não lembro agora o seu nome. É claro, eu lhe perguntei tudo, o nome, idade, bairro, quem eram os pais, essas perguntas idiotas de repórteres que primam pela objetividade. Ou seja, aqueles clássicos 5 burros Ws: Who, What, Why, Where, When, que traduzidos se mostram mais límpidos ainda na sua burrice: Quem, O quê, Por quê, Onde e Quando. Meu Deus dos ateus, só não perguntei à princesinha, para minha salvação, se ela gostava de carnaval. Se gostava!… ela era um sorriso amplo, guardado, de menininha cuja beleza não é um esplendor, mas que faz a alegria e ternura da mãe. Isso, sim. Mas isso, sim, também, transmite felicidade e amor a quase toda a gente.

Eu queria falar tudo o que manda o coração para essa menina. Eu bem queria ser um homem feliz por dizer tudo o que ela inspira em um espaço tão breve, que será lido de passagem, entre um instante e outro da última notícia, entre a passagem de um bloco, de um maracatu, de um clube ou outro nas ruas. Por isso digo apenas, antes que esqueça, que o sorriso da princesinha era triste e feliz em um só movimento. O triste vinha do seu modo de ser, ou da pequena experiência que ela já possuía da crueldade do mundo. E feliz, ainda assim, porque tão poucas vezes ela foi ou será princesa, uma princesinha, ainda que de mentirinha, sorrindo para alguém que a descobriu no meio da multidão. E feliz também ela era porque crianças não gostam de ser tristes, crianças retiram do maior golpe um instante para sorrir. Como agora, nesta lembrança do carnaval que passou e permanece.

Então eu a vou chamar de Mariinha, quem sabe, princesinha Maricota, quando mais próprio seria chamá-la de Eutanasinha. Sim, uma pequenina eutanásia, porque no seu sorriso há um quê de matar sem dor a gente, ou de matar suave, que é uma forma de matar no coração que fala baixinho agora, enquanto o som dos clarins não toca mais alto: olha, a humanidade está na infância e ninguém vê. É toda uma gente muito bárbara, princesinha, tão bárbara, que pensou tê-la esquecido no carnaval do ano passado.

Dizem sempre e repetem até o cansaço que uma imagem vale mil palavras. Bobagem, princesinha. Difícil é encontrar uma foto que expresse as mil palavras que o afeto dos mais bárbaros quer dizer. Assim, façamos um acordo de paz provisória entre o que pretendia tudo falar e a tua imagem no mercado: feliz carnaval, Eutanasinha. O cheiro que não te dei vai nestas linhas.

*Do Dicionário amoroso do Recife, publicado pela Casarão do Verbo.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O amor em tempos das almas puras

Resenha de Do amor louco e outros amores, de Ricardo Goldenberg

14.04.09_Christian Dunker_O amor nos tempos das almas puras[Fotografia de Chema Madoz, que ilustra a capa de Do amor louco e outros amores, de Ricardo Goldenberg]

Por Christian Ingo Lenz Dunker.*

O novo livro de Ricardo Goldenberg, Do amor louco e outros amores (Editora Instituto Langage, São Paulo, 2013), é uma grata surpresa no cenário de publicações psicanalíticas sobre o amor. Há algum tempo este tema vem sendo parasitado por uma glosa, mais ou menos repetitiva, sempre em tom sapiental, sobre como Lacan ou Freud, podem nos alumiar nas trevas líquidas e desencontradas que tomaram conta de nossa época em matéria de amor. A coisa caminha de tal forma que quando conseguimos dizer alguma coisa a mais, e ademais interessante, geralmente é para nos reconhecermos como parte da grande narrativa moderna, que é o romance. Os romances nos ensinam a amar, um pouco mais do que os manuais de arserotica e os guias de sexologia, e um tanto menos do que as palavras íntimas, cada vez mais raras, entre amigos, amantes e quejandos.

A novidade no livro é que ele resolve colocar as coisas pelo lado mais difícil, ou seja, pelo lado do amor, do desejo ou do gozo que o analista experimenta em sua aventura reversa que são as análises que ele conduz. Há pouquíssimos precedentes nesta matéria: Ferenczi de Diário Clínico, Theodore Reik de Escutando com o terceiro ouvido e mais recentemente Stephen Mitchell e a psicanálise relacional. A raridade se explica, em parte, pelo fato de que a tarefa exige altas doses de franqueza e honestidade para falar da experiência tal como ela se dá, para aquele que a narra e problematiza, mais do que de como ela deveria se dar, segundo aqueles que nos precederam e em acordo com ideias que cultivamos. Goldenberg tem esta vocação para a pahresia, a fala franca que os latinos exigiam daqueles que se dedicavam a cuidar da alma. Isso se combina com as oscilações entre alta e a baixa cultura, entre exegese talmúdica e Janis Joplin. Quiçá esta atitude tenha sido formada nos tempos dourados em que foi hold da legendária banda de rock Emerson, Lake and Palmer, ou então nos anos de chumbo da psicanálise argentina engajada.

No famoso axioma lacaniano de que “a impossibilidade de sustentar autenticamente uma práxis se transforma no exercício de um poder, como é comum na história dos homens”, o termo que me parece mais problemático é este “autenticamente”. A autenticidade não é apenas um problema de boa vontade e disposição moral à transparência. A autenticidade é um problema formal de alta dignidade literária. Ou seja, Ricardo se coloca a questão de como falar de amor desta posição na qual faltam palavras. Posição difícil, pois se deixamos as palavras virem, espontaneamente, como na análise, faremos romance, conto ou autobiografia e se as levamos a sério demais entramos na prosa deontológica, moral ou universitária. Resta a carta. A carta como tensão entre forma e conteúdo, entre ato e discurso. Restância. Por isso, coerentemente, o livro é composto por uma série de quase-cartas: de um homem para as mulheres, de analista para analisante, de analisante para analista, de um homem para uma mulher.

A solução encontrada para imiscuir desequilíbrios formais com desenvolvimento de teses, envolve uma inteligente combinação entre certos experimentos formais e elevada agilidade frasística e aforismática que vão compondo a casuística das cartas. O livro é um verdadeiro experimento diagramático conduzido por este, antes chamado de enfant terrible da psicanálise paulista. Senão vejamos. A introdução é impressa em páginas negras com letras em branco. Seguem-se dois intrólitos: um em alinhamento poemático, preto no branco, sobre o sultão Xeriar e Sherazade. Depois disso, em páginas azuis com tipos em branco, encontramos o pequeno e erudito excurso sobre a deserotização calculada pelo cristianismo do pequeno tratado bíblico sobre o amor, o “O cântico dos cânticos”.

O primeiro introduz, em estilo ligeiro, a oposição entre a obrigação de cumprir a masculinidade e o gozo contínuo, ilimitado e indiscreto do lado feminino. Aqui somos introduzidos à ideia de que os amores loucos são também os vividos pelas almas impuras, as únicas realmente dotadas de existência. O segundo ensaio recoloca no centro da interpretação do texto sagrado, a mulher e a carne como um tema político. Lido em nada menos do que 11 traduções, verifica-se que entre Salomão e Sulamita não se trata de sedução, o soberano “não foi enganado senão loucamente vencido pelo encanto de uma mulher”. Aqui começa a fazer comichão a ideia de que assim como a morte é o mestre absoluto, o amor produz o escravo absoluto.

Se o volume se abre com a paginação em preto no branco, seguido pelo branco no azul, ele se fecha, de forma quase simétrica, com outros dois pequenos estudos sobre Lolita, de Nabocov e sobre A hora e a vez de Augusto Matraga. Os quatro pequenos estudos sobre a literatura de amor, mais as duas cartas, que abrem e fecham o livro, incursionam por um modo de apropriação da literatura que não a coloca em situação subalterna. Essa inversão, quase simétrica, da forma impressa e concreta do texto, combina-se com titulações dispostas de modo contra-intuitivo, alterações do tipo de letra usada para grafar cartas, citações, diálogos interpostos e conceitos. Sem falar nas desafiadoramente longas notas de rodapé, em minúsculas letras incomiseráveis, onde encontramos, à custa de infinita perseverança ocular, a chave inesperada do texto, ou aquela enunciação fundamental que o esclarece. Justa lembrança de que o tão badalado conceito lacaniano de letra (lettre, l´etre), ou de carta de amor (lettre d´amour) se antecipa nos experimentos formais de Mallarmé e Pound antes de se consagrar na caligrafia oriental. Ponto para a renovação concretista da psicanálise brasileira. O formalismo de Lacan seria, neste ponto, mais propedêutico do que propriamente substancial. Dele Ricardo relembra preceitos de método, há muito esquecidos, sempre em nome do último Lacan: textos não são casos, personagens não são pacientes, analistas não são críticos literários e o romance, escrito e fixado como um “eterno já acontecido”, não é “a vida ela mesma”.

A oposição entre as bordas feitas de branco no preto e o miolo do livro onde o amor é trabalhado preto no branco, é suplementada pela incrível carta de despedida ao analista, sensível e corajosa, e que fará qualquer analista tremer no juízo mais íntimo de seu ser quando pensa na ultima sessão de sua própria análise. A graça final: ela vem diagramada de modo quase ilegível, na forma preto no preto. A forma e a cor das cartas de amor não são indiferentes ao seu conteúdo.

Entre a abertura e o fechamento temos o cerne do livro. No inquieto e irreverente ensaio “Uma carta de amor”, o autor prescreve que sua leitura será intensificada, se nos fizermos acompanhar da audição de Miles Davis, Leonard Cohen e Winton Marsalis (segui à risca, sem arrependimento). O conteúdo é uma anatomia crítica da moral psicanalítica. Uma renovação impiedosa do Freud de Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna, mas agora incluindo a psicanálise como parte do problema e sem o final otimista. Parafraseando o problema central: “análise boa é análise que continua”, fora disso é o fracasso. É como se estivéssemos em uma nova forma de patologia que concede ao amor infinito todas as forças. E na beatitude do final de análise, bem questionada pela experiência, o antídoto para este mal, bem ilustrado pelo caso deste paciente cuja única dedicação na vida é amar sua Dama. Contra essa espécie de doença incurável a psicanálise acabou acreditando demais em sua própria mitologia maquínica, de que o amor é uma repetição, e que uma boa análise acrescentaria a isso um: “Edição revisada pelo autor”.

Conveniência teórica ou álibi para o amor que causamos em transferência? Onde estariam então os amores não regressivos, mais além da neurose, que dariam corpo à promessa lacaniana de um Novo amor?

Neste clima de “inversão completa de valores” Ricardo escava os meandros dos impasses transferenciais que levaram à teoria da transferência como forma de amar. Ele mostra como o imbróglio de Freud com Ferenczi, Jung, Jones e Abraham exigia uma conceitualização que, de certa maneira, devia estar à frente da própria experiência. Disso avançamos para a situação real de amor erotizado sob transferência. Amor que apavorou Breuer. Amor que deu luz ao mito fundador da transferência. Amor que teria levado à formulação da regra da abstinência e o seu corolário psicanalítico das almas penadas, errante e puras. Abstinência paradoxal se cotejamos o que seria a suposta falsa satisfação com o metro de platina, guardado em algum recanto suíço, onde estaria o verdadeiro padrão ouro da satisfação da pulsão do amor. Nem falso no sentido de contrário ao verdadeiro, nem ideal na acepção de contrário ao real, seria preciso pensar o novo amor lacaniano, como novo e inédito. Isso significa ir bem mais além de sua forja corrente no molde da indiferença, na decepção, na frustração hipócrita ou empobrecida imposta pela moral dietética de nossa época em matéria de amor (não falamos em gozo). Responda o analista à demanda ou não, se é que isso é possível.

Exemplo perfeito: Elfriede Hirschfeld, o sexto, e até pouco tempo inédito, caso clínico escrito por Freud, abandona a análise justamente quando ele “está pronto a lhe dizer a última palavra sobre a sua doença”. Uma palavra que seria “o substituto do amor que ela espera dele”. Só assim poderíamos saber se a psicanálise é de fato uma erótica, uma ars amatória, e não apenas uma ars consolatória, para nossos pacientes.

“Até Lacan fazer do analista um desejante na década de setenta, ele era tido um homem sem desejo. Mais tarde o anátema caiu sobre seu gozo, e este último não seria levantado. [...] Defendo então um psicanalista qualificado e profissional, que também seja um diletante e um amador da psicanálise.” (p.88)

Concordo amplamente. Sempre desconfiei dos psicanalistas profissionais, prefiro os amadores. Aqueles cuja única promessa é a de que um dia poderemos nos separar deste amor que virá. No contexto destas ligações perigosas aparece então uma psicanálise com menos ideais de pureza e purificação. Para ela, um analista que tenha por condição de autenticação sua capacidade de amar. Afinal, este era o único critério decente de normalidade que encontramos em Freud (além de trabalhar). Aqui reencontramos a tese destilada nos ensaios mais literários do livro. O amor nos rende. Aquele que quer ser o soberano e supremo senhor do amor, que jamais se deixa cair e que imagina-se imune à queda (fall in love, tomberamoureux) no fundo é alguém que perdeu sua capacidade de amar, alguém que está curado de sua transferência, mas também de sua loucura, e com ela de sua humanidade. Esse tipo de psicanalista não corresponde à bela alma hegeliana, mas à alma pura que jamais se deixa cair como objeto, nem cair em luto, com a última sessão de um analisante.

O livro-carta enviado por Ricardo é um mergulho nas águas profundas cheias de moreias e corais, um livro no qual está o fôlego e o sangue frio, necessário para as grandes perguntas, e para os grandes amores, não sem uma pitada de histeria.

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Confira a aula Žižek e a psicanálise de Christian Dunker ministrada no “Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek” do Seminário Internacional Marx: a criação destruidora, que trouxe, entre outros, David Harvey e o filósofo esloveno ao Brasil:

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.