Corrupção no condomínio

muro_1[Muro de Berlim (em frente à exposição Topographie des Terrors), tirada em 2014 por Christian Dunker. A imagem ilustra a capa de seu novo livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015)]

Blog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Pedro Veríssimo. 

Tudo parece ir bem quando estamos num condomínio. Os jardins impecáveis anunciam as casas ou prédios bem conservados. O asfalto sempre novo, as calçadas sem buracos e as ruas vazias. Tudo sinalizado. Limpo. A polícia presente dá o clima de segurança. Para entrar você será fichado e filmado. Está no sistema. Essa é a lógica do condomínio de Christian Dunker. Toda ordem depende do síndico e, se por acaso a felicidade não vier, é porque tem alguém “furtando nosso gozo”.

Em Violência: seis reflexões laterais, Žižek falará que no capitalismo o que possibilita nosso convívio (supostamente) harmonioso é o pressuposto de que ele “não é justo”. Pois só assim, justificando nosso fracasso ao acaso, conseguiremos manter nossa vivência. Diz ele:

“A exigência de justiça é assim, em última análise, a exigência de que o gozo excessivo do Outro seja limitado, de maneira que toda a gente tenha acesso a uma jouissance igual. […] Uma vez que não é possível uma jouissance igual, o que é imposto, em vez de uma igual partilha, é a proibição”. (Violência, p.79)

O síndico, no nosso caso, é aquele que normaliza o gozo, que gere a vida. O problema é que a política foi reduzida à mesma “lógica do condomínio”, elegemos cada vez mais síndicos e menos políticos. A tal da “governabilidade”, dos governos de conciliação, refletem justamente esse esvaziamento. Segundo Dunker:

“Quando a forma como se deve controlar a distribuição da renda mínima torna-se mais importante que a própria renda mínima, ou quando decisões técnico-regulativas, tais como a taxa referencial de juros torna-se o termômetro ideológico da economia, ou ainda quando o programa de transformação social aparece, prioritariamente, como um programa de reformas legais e constitucionais, e ademais quando a vida política do país parece depender de Comissões Parlamentares de Inquérito, não deveríamos perguntar se não estamos esperando demasiado de nossas ilusões normativas, e se afinal estas não seriam um efeito de nossa aderência, inconsciente, à lógica do condomínio?”

Acontece que a lógica capitalista é a de incorporação permanente. Não há espaço para a crítica. Maurizio Lazzarato dirá a respeito da sociedade disciplinar, que “a docilização dos corpos tem a função de impedir qualquer bifurcação, roubando dos atos, das condutas, dos comportamentos qualquer possibilidade de variação, toda a sua imprevisibilidade” (p.69), e mais a frente que “a sensação de impotência e de aborrecimento que todo capitalismo contemporâneo nos causa foi criada pelo afastamento da dinâmica do acontecimento” (p.102). Aqui podemos entender como acontecimento aquilo que rompe uma narrativa e cria um novo processo de verdade. Em Para uma nova teoria do sujeito, Alain Badiou falará em interrupção de uma repetição e citará como exemplo “a aparição, com Ésquilo, da tragédia teatral; o surgimento, com Galileu, da física matemática; um encontro amoroso que transforma toda uma vida; ou a Revolução Francesa” (p.45). É cada dia mais difícil encontrar algo que fuja da “gestão especializada” do capitalismo e interrompa sua lógica.

Em sua caracterização da “hegemonia às avessas”, Francisco de Oliveira dirá, a respeito da gestão especializada, que é preciso tratar da despolitização do combate à pobreza e à desigualdade no governo Lula. Para ele, “[Lula] as transforma em problemas de administração, derrota o suposto representante das burguesias – o PSDB, o que é inteiramente falso – e funcionaliza a pobreza. A pobreza, assim, poderia ser trabalhada no capitalismo contemporâneo como uma questão administrativa.”

Por isso, dentro da lógica neoliberal, é constante a tentativa de reduzir qualquer problema político, sistêmico, a problemas de gestão. É o apelo à tal “classe especializada”que fala Chomsky.*

Ou seja, problemas que sempre foram tratados dentro da lógica da grande política passam a ser incorporados na lógica neoliberal e encarados como um mero (e simples) problema de gestão. Se há pobreza é porque o “síndico” não é competente o suficiente, nunca o sistema que põe em pé o condomínio é questionado. Esvazia-se a política e só fala-se em gestão. É a “política como arte da administração especializada” que fala Žižek. Pois se hoje já falamos de café sem cafeína, de cerveja sem álcool ou sexo sem contato, por que não falar em política sem políticos?

A corrupção, por exemplo e sobretudo em tempos incertos como o nosso, parece ser problema recente que apareceu depois que tal gestor assumiu a sala do síndico. Não há discussão, salvo raras exceções, da corrupção a nível macro, dentro da lógica da grande política. Tudo parece ser problema de política de gabinete, do partido x ou y, dele ou daquele político, ou seja, parece ser problema restrito, e por isso corrigido, dentro da pequena política.

O debate sobre financiamento público de campanha, tão importante no combate à corrupção, é algo que felizmente começa a entrar de forma mais concisa no cenário político. Resta saber até onde haverá pressão dos condôminos e se essa será suficiente para elevar o debate para além do nível da “gestão especializada”.

Por isso, tratar a corrupção como um problema desse ou daquele partido ou político é seguir trocando as gramas do jardim sem se dar conta de que o problema, na verdade, é o próprio condomínio. Aqui vale lembrar a metáfora de Žižek de que às vezes não adianta jogar a água fora, pois pode ser que “toda sujeira que está nela veio do bebê” (Em defesa das causas perdidas, p.25).

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Acaba de sair do forno o novo livro de Christian Dunker, Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, em que o autor desenvolve sua caracterização da “lógica do condomínio” na análise da experiência social brasileira. Amanhã, dia 27 de março de 2015, Dunker fará sua primeira conferência de lançamento do livro no Seminário O ódio como afeto político. Saiba mais abaixo!

BIBLOGRAFIA

BADIOU, Alain. Para uma nova teoria do sujeito. Relume-Dumara, 1994
DUNKER,  Christian Ingo Lenz.  “A Lógica do Condomínio ou: o Síndico e seus Descontentes“. Revista Leitura Flutuante, V.1, 2009
LAZZARATO, Maurizio. NEGRI, Antonio. Trabalho imaterial, formas de vida e produção de subjetividade. Lamparina, Rio de Janeiro, 2013
OLIVEIRA, Francisco de. Hegemonia às avessas.
ŽIŽEK, Slavoj. “Política anti-imigração: Barbarismo com aparência humana“, Blog da Boitempo, 2011
________. Violência: seis reflexões laterais. Boitempo, São Paulo, 2014
________. Em defesa das causas perdidas. Boitempo, São Paulo, 2012

* “Ora, existem duas “funções” numa democracia: a classe especializada, os homens responsáveis, assume a função executiva, o que significa que eles pensam, planejam e compreendem os interesses de todos. Depois, temos o rebanho desorientado, e ele também tem uma função na democracia, dizia ele, é a de “espectador”, e não de participante da ação”. (Noam Chomsky, Mídia: Propaganda política e manipulação. Martins Fontes, São Paulo, 2013., 2013, p.17).

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Pedro Veríssimo é Mestrando em Comunicação e Semiótica na PUC-SP e membro do grupo de pesquisa “1 dia, 7 dias” pela mesma instituição. Pesquisa, principalmente, a cobertura de escândalos políticos na mídia semanal.

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O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

Quem irá nos livrar do fascismo?

Protesto 02[Ilustração de André Almada, sobre fotografia de 15 de março de 2015 na Av. Paulista em SP]

Por Izaías Almada.

O sambódromo em que foi transformada a Avenida Paulista no último dia 15 de março, na patética, mas não menos significativa marcha contra o governo, nos remete a algumas reflexões, algumas delas novas em matéria de política brasileira, pois a realidade muda a cada segundo, muito embora com algumas imagens que nos parecem velhas conhecidas.

Há um governo acuado, apesar de vencer legitimamente as últimas eleições presidenciais; uma mídia agressiva e tendenciosa contra a atual presidente e seu antecessor; uma justiça policialesca; um ar impregnado de partículas fascistas, ainda invisíveis para muitos, mas que podem se transformar em epidemia de intolerância e violência em maior escala.

E se assim for, quem nos livrará do fascismo? Jô Soares e suas meninas? O grande filósofo Pondé? Maitê Proença? As irmãs Marinho? Não confundir com os milionários irmãos brasileiros da revista Forbes… O inglês arrevesado de algumas faixas exibidas pelos ilustrados elitistas dominicais? Pode não parecer para muitos, mas a situação é séria. E temos que tratá-la com seriedade.

Em seu mais recente livro, “Militares e Militância: uma relação dialética conflituosa”, o professor e cientista político Paulo Ribeiro da Cunha conta à página 19 um fato curioso e ao mesmo tempo sintomático sobre as modernas Forças Armadas brasileiras, envolvendo respostas de comandantes militares e grupos de militares da reserva que se manifestaram contra um documento do Clube Militar intitulado “O Alerta a Nação” e escrito por um grupo de militares de direita egressos de 1964. Diz o texto:

“… logo em seguida à divulgação de “O Alerta à Nação”, houve contundentes manifestações democráticas e legalistas bem dissonantes desse posicionamento do Clube Militar. Uma delas, de certa forma “indireta”, foi propiciada pelo general Adhemar da Costa Machado, comandante militar do Sudeste, em palestra sobre “O papel e os desafios do Exército na atual conjuntura”, a convite do Instituto Plínio Correa de Oliveira, vinculado à ultraconservadora Tradição, Família e Propriedade (TFP). Em meio à tensões entre militares da reserva e o governo sobre a polêmica advinda da formação da Comissão da Verdade, a expectativa da vasta plateia era de escutar desse oficial da ativa que estaria em curso uma reação, ou mesmo articulações golpistas, pelas Forças Armadas”.

“O que se ouviu do oficial foi que os militares não voltariam ao governo nunca mais1, bem como uma ponderação sobre a vocação democrática do Exército brasileiro. Complementou o general ao final, com um argumento que já seria uma leitura corrente nas Forças Armadas para o desgosto do público ali presente, que os militares são um instrumento do Estado e a serviço de um governo eleito democraticamente.” [grifo do articulista]

O livro acima citado2, a quem recomendo aos leitores, traça o histórico da presença dos militares de esquerda em muitos dos embates políticos brasileiros e contribui, na minha modesta opinião, para desfazer de parte a parte o preconceito entre civis e militares e, particularmente, entre boa parte da esquerda brasileira e do próprio estamento militar.

Já ouvi em várias ocasiões, dentro ou fora de alguma militância política de esquerda, um discurso, sob certos aspectos tornado enfadonho e repetitivo, de que não se pode confiar nos militares. Nada mais distante de um pensamento que se queira dialético, em particular nas atuais circunstancias históricas e políticas do país.

Desde a última eleição presidencial, que reelegeu a presidente Dilma Rousseff, grupos conservadores e antinacionais tentam chamar as Forças Armadas a intervir no atual quadro político brasileiro através de uma ruptura institucional, o que – na verdade – é um incentivo irresponsável ao golpe de estado, atitude que nos remeteria à velha política de subserviência a interesses estrangeiros e de repressão aos movimentos e conquistas populares dos últimos anos. Nas manifestações do último dia 15 de março isso ficou muito bem caracterizado

O filme já foi visto em outras ocasiões, mas na nova versão que se pretende impor ao país diante do trabalho diário de uma mídia que não mede esforços para tumultuar o Brasil, os atores são outros. Com uma agravante: ao contrário do que pensam manifestantes de direita mais exaltados e seus incentivadores na internet, pedir “intervenção militar” em faixas onde aparecem até suásticas nazistas é – além de ignorância histórica – um grande desrespeito não só aos integrantes da FEB que lutaram bravamente contra o nazifascismo ao lado das forças aliadas em terras italianas, mas também um insulto às atuais FFAA constitucionalistas e democráticas, como se depreende da palestra do general Adhemar da Costa Machado acima citada.

Vivemos o início do século XXI e é outra a situação do país no cenário internacional, com seu território de dimensões continentais mais valorizado e cobiçado, subsolo rico em diversos produtos que integram a fabricação de sofisticados armamentos, notável agricultura exportadora. Somos cada vez mais ricos e independentes em energias, a petrolífera em particular; somos um dos cinco integrantes dos BRICS em alianças e projetos estratégicos com a China, a Rússia, a Índia e a África do Sul. Além de não sermos mais devedores de organismos financeiros internacionais. Nos últimos dez anos foram criados programas sociais elogiados e copiados internacionalmente.

Oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados de solo fértil, tendo a Amazônia e o pré sal como riquezas incalculáveis, água potável em abundância, o Brasil precisa defender cada vez mais suas fronteiras terrestres e marítimas. São missões, entre outras, que precisam de FFAA modernas e bem preparadas, que se recuperaram nos últimos anos após os desastrosos anos dos senhores Sarney, Collor e, sobretudo, Fernando Henrique Cardoso que, com seu pendor subserviente e entreguista sucateou essas mesmas FFAA, ao que chamou hipocritamente de “profissionalização”.

Repito: ao contrário daquilo que imaginam alguns espíritos conservadores e preconceituosos, para dizer o menos, e que procuram materializar suas ações estendendo faixas em manifestações de rua “convocando” os militares para rasgarem a Constituição, essa atitude representa não só uma violência contra a democracia, mas – sobretudo – um enorme desrespeito às atuais Forças Armadas que têm missões mais nobres e importantes para realizar.

E que estão definidas em nossa Constituição no Capítulo II, Título V, Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, DAS FORÇAS ARMADAS:

Art. 142: As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.3

E defender a Constituição significa defender os seus princípios fundamentais que são a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o pluralismo político [grifo do articulista].

Os militares de 2014 não são os militares de 1964 vistas as coisas em seus aspectos negativos ou positivos. Eram, em sua maioria, adolescentes ou pouco mais que isso, pois cinquenta anos se passaram, meio século. A Internet era impensável, para ficarmos num exemplo comezinho, mas significativo. A guerra fria influenciava mentes e corações.

O também cientista social e escritor José Murilo de Carvalho, estudioso das Forças Armadas brasileiras, no capítulo de conclusão de sua obra Forças Armadas e Política no Brasil4 escreve o seguinte sobre o papel que deve ser atribuídos a elas (pág. 197):

“… Devem ser preparadas para a guerra externa? Contra quem? Contra vizinhos? Contra o Império? Devem tornar-se forças auxiliares das Nações Unidas na tarefa de policiamento do mundo? Devem dedicar-se a tarefas policiais de combate ao narcotráfico nas fronteiras e nas rotas internas? Devem preparar-se para substituir as polícias nacionais em eventuais explosões de violência nas grandes cidades? Ou devem dedicar-se a tarefas sociais, como combate à pobreza, ao analfabetismo, às desigualdades?”

O diálogo entre a sociedade civil e suas FFAA deve se dar em nível de frontalidade e respeito, de reciprocidade democrática e na busca de soluções que beneficiem o país como um todo e que procure o fortalecimento das instituições brasileiras e não através de incitações ao ódio, a intolerância, a quebra da legalidade democrática e ao desrespeito entre concidadãos.

NOTAS

1. Matéria Caserna longe da crise com o governo. O Estado de São Paulo,17 de março de 2012;
2. Ribeiro da Cunha, Paulo – Militares e Militância, uma relação dialeticamente conflituosa, UNESP, 2013;
3. Constituição da República Federativa do Brasil.
4. Carvalho, José Murilo, Forças Armadas e Política no Brasil. Jorge Zahar Editor, 2005, Rio de Janeiro

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Brasil: sonhos e pesadelos em 2015

15 03 25 Flávio Aguiar[Manchetes da Tribuna da imprensa em 1954, pouco antes do suicídio de Getúlio Vargas]

Por Flávio Aguiar.

Caras leitoras, caros leitores

Após incursão ao Brasil, diante das circunstâncias, faço breve pausa em minhas crônicas sobre o mundo da cozinha e, embora falando ainda de panelas, introduzo esta variação:

* * *

Ora – direis – ouvir panelas!  Certo
Ficaste louco. E eu vos direi, no entanto,
Que muitas vezes paro, boquiaberto,
Para escutá-las pálido de espanto!

Direis agora: – Mas meu louco amigo,
Que poderão dizer umas panelas?
O que é que dizem quando estão contigo
E que sentido têm as frases delas?

E direi mais: – Isso quanto ao sentido,
Só quem tem fome pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender panelaas.

Aparício Torelly, Barão de Itararé, 1926. 

Em visita ao Brasil neste março, pude observar de perto, a partir de São Paulo, as manifestações dos dias 13 e 15, além dos panelaços, buzinaços, palavrões e outras demonstrações similares.

Tenho lido muitas interpretações a respeito, algumas aproximando a situação atual à de março de 1964. Uma das fontes de tal aproximação é a quase coincidência de datas entre a manifestação conservadora de 15 de março deste ano e a Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade, em 19 de março de 1964. Também pude ler comentários apocalípticos sobre o fim do governo Dilma (alguns desesperados, outros céticos e ainda outros esperançosos), as possibilidades de um golpe militar, o fim do ciclo petista no Brasil e até sobre o fim do ciclo das esquerdas na América Latina, tanto em observações reservadas quanto abertas na mídia nacional e na internacional.

Entretanto uma coincidência feliz me despertou para a possibilidade de outra comparação histórica relevante, da qual se pode retirar alguma lição para o presente e talvez o futuro. Durante a estada li o terceiro volume da excelente biografia de Vargas escrita por Lira Neto (Getúlio, 1945 – 1954: da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Cia das Letras, 2014). Esta leitura, somada a outras do passado, mais recordações pessoais daquele momento, me convenceu da pertinência de comparar 2014/2015 com 1950/1954.

Uma eleição difícil.

A aparente facilidade com que Getúlio venceu seu principal oponente em 1950, o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, por uma diferença de mais de um milhão e meio de votos (então significativa), não deve ocultar as dificuldades da vitória, que rimam, de certo modo, com a apertada decisão de 2015, com uma diferença de apenas 3,5 milhões de votos num universo total de mais de 120 milhões de eleitores.

O caminho de Getúlio até a candidatura foi tortuoso, cheio de negaças, desconversas e só resolvida no final com o concurso do governador de S. Paulo, Ademar de Barros, e seu PSP, o que levou a uma coligação informal (as eleições de presidente e vice eram separadas), ainda que efetiva, com o obtuso Café Filho, suspeito de esquerdismo, mas na verdade já um político conservador.

Getúlio obteve quase 3,85 milhões de votos, contra 2,34 do Brigadeiro, quase 1,7 de Cristiano Machado, o candidato do PSD e oficial do governo Dutra e 9.500 votos do socialista João Mangabeira. Houve ainda 211,5 mil votos em branco e 145,5 mil nulos. Feitas as contas, isto significava que Vargas não obtivera a maioria absoluta, o que provocou uma reação imediata da oposição, liderada pela UDN, pedindo a anulação do pleito, apesar de não haver exigência constitucional a respeito. O pedido foi negado na justiça, mas sinalizou a força da famosa declaração de Carlos Lacerda a respeito de Getúlio: este não deveria ser candidato, se candidato, não deveria se eleger, se eleito, não deveria ser empossado e se empossado, não deveria governar, sendo, no limite, derrubado por alguma “revolução”, termo que no Brasil de então e ainda no de hoje designa simplesmente um levante armado.

As oposições de hoje, as das ruas, das panelas e buzinas, as midiáticas (também ativas em 1950) e a parlamentar, demonstraram ter belicosidade semelhante em relação à presidenta Dilma Rousseff, consubstanciada logo de saída pelo pedido de recontagem dos votos e auditoria da eleição, baseado na pequena diferença no segundo turno. Do mesmo modo como em 50, o pedido não progrediu na justiça, mas ficou a marca da disposição intolerante e antidemocrática, não aceitando o resultado das urnas.

O Congresso, o governo e outras circunstâncias.

Como em 2015, ao tomar posse em 1951, Getúlio se viu às voltas com um Congresso hostil, em que seu partido, o PTB, ainda relativamente pequeno e desorganizado, era minoritário, dependendo o governo de alianças e conchavos para poder governar. Se Dilma Rousseff chamou para o governo políticos e economistas considerados conservadores, Getúlio se viu na contingência de chamar par seu ministério figuras da oposição, até da UDN. Inicialmente entregou o Ministério do Trabalho a um empresário seguramente hostil às leis trabalhistas que foram promulgadas anteriormente. Só depois é que o entregaria a João Goulart, o que provocou enorme reação por parte da direita.

Tais composições de governo desagradaram a gregos e troianos – em termos da época, petebistas e comunistas (nesta altura os anarquistas já eram história) – no movimento sindical. Depois da nomeação de João Goulart, as bases trabalhistas se acalmaram, mas as comunistas continuaram hostis ao governo, transformando manifestações a seu alcance em protestos hostis a Vargas.

A economia patinava, a inflação subia, em 1953 eclodiu uma das maiores greves da história brasileira, a dos 300 mil em São Paulo. Para completar este quadro assustador, os investimentos escasseavam. No plano interno, a burguesia brasileira olhava com desconfiança o que considerava ser a “esquerdização” pessoal do presidente (em que pese a nomeação de seus ministérios conservadores), retraindo investimentos. No externo, inicialmente Vargas conseguiu contornar a preferência dos EUA pelos investimentos na Europa, no Plano Marshall, em época de Guerra Fria, acertando-se com o presidente Truman. Entretanto a eleição do republicano Eisenhower levou ao não cumprimento dos acordos feitos por seu antecessor, secando as fontes externas de investimento. Por seu lado, a Europa ainda estava prostrada pela ressaca da Segunda Guerra. Em suma, o aperto era semelhante ao enfrentado pelo governo brasileiro hoje: bloqueio interno, recessão e arrocho externos, ainda que as razões possam ser outras, tudo isso aliado a uma economia lenta e a uma relativa alta da inflação, ainda que nem de longe ela se compare a séries históricas anteriores.

Os insultos, as acusações e os agravos

O comportamento da mídia dominante então não diferia em nada daquele da velha mídia de hoje. Na campanha de desestabilização do governo apresentavam-se a corrupção e o mandonismo – em qualquer de suas manifestações – como tendo origem exclusivamente no governo e na família Vargas. O quadro é semelhante ao de hoje, onde a esta mídia martela a impressão de que a corrupção foi fundada pelo PT, ou pelo menos, a de que este partido a levou a níveis nunca dantes navegados na história brasileira.

Os insultos hoje ouvidos nas manifestações conservadoras – atestados mais de machismo e de falta de educação de quem os têm lançado – pelo menos desde o episódio do Itaquerão, tinham na década de 50 seu equivalente no calão político difundido na mídia conservadora, de “ladrão” para baixo. Também houve vaias de corpo presente. A certa altura, depois de prolongada ausência de aparições em público devido a fraturas decorrentes de uma queda no Palácio, Getúlio decidiu fazer sua rentrée no Grande Prêmio Brasil, no Jockey Clube do Rio de Janeiro. A “élite” presente, do alto de seus casacos e estolas de pele, além de casacas em pleno calor carioca, o recebeu com sonora vaia, além de insultos, como hoje, pois já hostilizava seus acenos de aumento no salário mínimo, concretizado este em 1954, com um reajuste de 100%.

Esta política de valorização do salário mínimo foi um dos estopins do famoso ou famigerado Manifesto dos Coronéis. Dizia este, iracundo, entre outras coisas, que com estes aumentos do mínimo logo “um operário estaria ganhando tanto quanto um graduado”. Explique-se algo a este respeito. Diz-se de Vargas que ele “trouxe” a classe operária urbana para o cenário político brasileiro. Mas deve-se creditar a suas políticas a partir de 1930 também a emergência de uma classe média – mais ou menos organizada e desorganizada – no país, coisa que não havia até então, embora houvesse “setores médios” que não eram nem abastados, nem pobres ou miseráveis, como grande parte dos então chamados profissionais liberais, como médicos, advogados, engenheiros e parte do funcionalismo público.

Dentre a classe média emergente, o estamento militar despontava, por sua coesão, seu espírito corporativo e também por sua relevância política num clima polarizado de pós-Segunda Guerra e Guerra Fria. Deste modo não surpreendia que o Manifesto dos Coronéis desse voz ao que hoje também transparece nos reclamos de uma “meritocracia” por parte dos que se julgam prejudicados em poder aquisitivo, acesso a serviços baratos e status, pela política de transferência de renda operada pelos governos petistas.

Entre as semelhanças, algumas diferenças, e entre as diferenças, algumas semelhanças.

Além dos fatores ideológicos, a ojeriza da mídia conservadora por Vargas teve duas poderosas razões. A primeira foi, ainda durante o Estado Novo, a extensão dos direitos trabalhistas aos jornalistas. A segunda foi a ajuda à criação da Última Hora, de Samuel Wayner, um jornal que modernizou a imprensa no Brasil e mostrou cabalmente o provincianismo e anacronismo das práticas dos barões assinalados de nossa mídia de então. Aqui há uma diferença gritante entre a situação de Vargas e a dos governos petistas de hoje. Aquele desde sempre compreendeu o valor da mídia, valendo-se do rádio e depois da criação de um jornal favorável ao governo. Já os governos petistas patinaram e ainda patinam neste aspecto. Mostram-se mais prisioneiros do cerco midiático do que Getúlio.

Há ainda outras diferenças importantes: por exemplo, até o momento, pelo menos, a situação e a disposição das Forças Armadas. Não se veem, seja qual for o horizonte para onde se olhem, disposições golpistas nelas de qualquer espécie. Algum golpe, se vier, virá através dos setores do Parlamento ou do Judiciário. Mas nesta diferença, esconde-se uma semelhança. Nos últimos tempos, o “sangramento” (as oposições gostam deste termo, como verbalizou, numa tirada deselegante, o senador Aloysio Nunes, assim como vários líderes da oposição de 50 o usaram em relação a Vargas) do governo teve origem no conluio da ação do juiz Sérgio Moro, no Paraná, de fragmentos selecionados da Operação Lava Jato, e de seus vazamentos também seletivos para a mídia conservadora. Esta “operação conjunta” lembra, mutatis mutandis, a também famigerada “República do Galeão”, o inquérito promovido de forma “ independente” por oficiais da Aeronáutica em sua base naquele aeroporto, depois do atentado contra Carlos Lacerda e a morte do major Rubens Vaz, num episódio até hoje não de todo esclarecido. Naquele inquérito também houve um amálgama de procedimentos escusos, que envolveram, segundo denúncias dos acusados, até a prática de tortura, além de negociações que lembram as “delações premiadas” de hoje. Houve então até mesmo uma aplicação ainda que tosca mas igualmente imprópria da “teoria do domínio do fato”: não importando provas, conhecendo ou não as conspirações, a culpa pelo atentado era do presidente. Carlos Lacerda chegou a imprimir um exemplar fake de seu jornal, a Tribuna da Imprensa, para ser lido por Gregório Fortunato, então preso incomunicável, “noticiando” que Benjamin Vargas, o irmão caçula de Getúlio, muito ligado àquele, tinha fugido para o Uruguai.

Outra diferença: o clima internacional de Guerra Fria era favorável à deposição de Vargas. Hoje a situação é outra. Pode-se até dizer que ao consenso ortodoxo da União Europeia ou a WallStreet agradasse mais a vitória de Aécio Neves (não a de Marina Silva). Mas daí a dizer que haja preferência por mergulhar o Brasil na incerteza de uma virada golpista, mesmo que através dos devidos mecanismos legais e judiciais, e na conturbação que seguiria, vai uma certa distância.

Outro paralelo interessante está nas intenções governistas, embora os estilos sejam muito diferentes. Apesar dos vaivéns ministeriais, Getúlio criou uma espécie de “Círculo Próximo”, que o alimentava com propostas e ideias sobre a reforma ou criação da infraestrutura brasileira. O efeito mais retumbante desta condição foi a criação da Petrobrás (que, aliás, assim como nos anos 50, está em questão hoje). Porém, além disto, criou-se o BNDES e lançaram-se as bases da Eletrobrás; além disto, “tramou-se” a extensão dos direitos trabalhistas urbanos á zona rural. De forma semelhante, a presidenta Dilma Rousseff, com seu estilo muitas vezes injustamente criticado de “gerentona” (este é o termo desgracioso usado), tem o projeto de atualização da infraestrutura brasileira, dependendo vitalmente de investimentos externos e internos nesta área. Se ela vai conseguir, vejamos. Mas dele depende o relançamento da economia brasileira.

Conclusões provisórias

O intertítulo é paradoxal. Mas corresponde à situação real: é cedo demais para conclusões, mas se não tivermos algumas, poderá ser tarde demais.

A primeira, nem tão provisória, é a de que o governo precisa aprender com a disposição comunicativa de Vargas, em todos os seus aspectos e em suas consequências. Deve ter mais arrojo em favorecer a diversificação da mídia brasileira, seguindo, aliás, recomendação da UNESCO a respeito.

Além disto, pode-se ver, ou ler, na situação, que se a do governo é precária, a das oposições também é. A começar por um fator nada desprezível, que é o de sua composição. Samuel Wayner cunhou o famoso apelido de Lacerda, o Corvo. Mas corvos – pelo menos desde La Fontaine e Poe – têm alguma estatura intelectual. Lacerda era um orador brilhante, um político de formação sólida. As hostes oposicionistas contavam com gente do calibre de Afonso Arinos e Gustavo Corção. O brigadeiro Eduardo Gomes podia não ter brilho, mas era elegante, derrubava corações e provocava suspiros apaixonados. Já hoje… sequer vemos uma geração de corvos na mídia conservadora ou mesmo nas oposições parlamentares e próximas. No máximo lembram micuins, aquela praga de ácaros que prolifera nos arbustos rasteiros e provocam uma coceira infernal. Nos anos 50, a oposição tinha um objetivo unitário: derrubar Getúlio. Hoje a situação é diversa. Há os saudosos do regime ditatorial, os adeptos do impeachment (que também foi tentado, sem sucesso, contra Getúlio), os defensores do já mencionado “sangramento”, os descrentes na política, estamentos de classe média e da burguesia que sonham em vão com a ideia de que “tudo voltará a ser como antes”, isto é, que os aeroportos se esvaziarão como num passe de mágica, que emergentes do povão não terão mais acesso ao ensino superior, que as empregadas domésticas venderão seu trabalho em troca de migalhas e voltarão a usar apenas as entradas de serviço, etc. Em suma, sonham com o pesadelo do impossível retorno. O desenho social do país mudou, e isto sim, ao contrário do regime de 64, é “irreversível”.

Outro fator: nos anos 50, Peron acenava com uma “união aduaneira”, ou “frente comum”, entre Argentina, Brasil e Chile. A proposta, que pode ser considerada um embrião do Mercosul, provocava arrepios nos nossos americanófilos de plantão e também nos militares, convencidos da inevitabilidade da futura guerra entre Brasil e Argentina pela supremacia regional. Hoje a música é outra, embora haja saudosistas que detestem as vinculações sul-sul desenvolvidas pelos últimos governos e que sonhem com nossa reintegração subalterna á ordem da falimentar Europa e ás incertezas da política norte-americana. Apesar de seus problemas, o Mercosul é uma realidade, bem como o protagonismo internacional do Brasil, e não há como voltar atrás nisto.

Por fim, uma última observação. Certo dia, no metrô de S. Paulo, ouvi a seguinte observação, de um executivo para outro:

“ – O problema, meu caro, é que não há provas contra ela. E ela também não vai renunciar”.

“É verdade”, pensei. Também pensei: “mas não havia provas contra Getúlio em 54, e ele se recusou a renunciar”. Mas a seguir considerei que, talvez para desespero daqueles executivos, a presidenta Dilma não parece nem um pouco disposta a qualquer tipo de suicídio, nem mesmo algum simbólico, do ponto de vista político.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Lançamento Boitempo: A política externa norte-americana e seus teóricos, de Perry Anderson

A politica externa norte-americana_capa_alta

A política externa estadunidense e seus teóricos é uma das mais importantes análises que temos sobre os EUA” — Emir Sader, no Blog da Boitempo.

A Boitempo acaba de lançar o novo livro de Perry Anderson. Em A política externa norte-americana e seus teóricos, o historiador inglês reconstitui os principais acontecimentos e inflexões da política externa dos EUA desde o fim da Segunda Guerra até os dias atuais, fazendo uma análise crítica desse período e de como foram tecidas as bases ideológicas, políticas, militares e institucionais em que se sustenta, atualmente, o poder imperial do país.

A edição vem acrescida de um apêndice sobre Francis Fukuyama e de um posfácio que analisa acontecimentos ainda em curso no Oriente Médio estendido, na antiga União Soviética e no Extremo Oriente, responsáveis por renovar o debate sobre a condição do poder norte-americano no cenário internacional.

Leia abaixo a orelha do livro escrita por José Luis Fiori:

O “poder imperial” dos EUA cresceu de forma quase contínua a partir da sua independência e durante os séculos XIX e XX. Mas não há duvida de que foi só após a Segunda Guerra Mundial que o país conseguiu impor sua supremacia política, militar e econômica dentro do mundo capitalista, até o fim da URSS e da Guerra Fria, quando se transformou numa superpotência mundial. Neste livro, sobre geopolítica e relações internacionais, o historiador inglês Perry Anderson reconstitui, de forma impecável, os principais acontecimentos e inflexões da politica externa dos EUA, no período que vai do fim da Segunda Guerra até os dias atuais. Anderson faz uma análise crítica desse período e de como a política externa norte-americana teceu as bases políticas, militares e institucionais em que se sustenta, atualmente, o poder imperial dos EUA – percorrendo simultaneamente os principais argumentos do debate acadêmico e geopolítico que orientou e ajudou a formular as bases ideológicas dessa estratégia vitoriosa.

A política externa norte-americana e seus teóricos é uma obra sucinta e excepcional, que se inscreve na literatura crítica do imperialismo, mas não repete seus argumentos clássicos nem acredita, como a maioria dos analistas de esquerda, que os EUA estejam vivendo um “declínio inevitável” ou algum tipo de “crise terminal”. Para Perry Anderson, a oposição radical ao império norte-americano não “exige garantias de seu recuo ou colapso iminentes”. Mais do que isso, ele considera que, apesar das grandes mudanças geopolíticas em pleno curso nesta segunda década do século XXI, os EUA mantêm sua hegemonia no sistema político e econômico mundial. Por isso, dedica a segunda parte do livro a uma leitura preciosa do debate contemporâneo, abrangendo os grandes analistas estratégicos do establishment norte-americano, a fim de desvendar os possíveis caminhos futuros do poder norte-americano. E conclui com a certeza de que, apesar das suas divergências, todos esses analistas seguem convencidos da excepcionalidade dos EUA e da sua missão quase divina de ordenar o mundo e desregular/privatizar os mercados. Mas quase nenhum deles acredita ainda na validez universal da democracia, nem na possibilidade de os EUA exercerem, no futuro, uma liderança mundial “hegemônica e benevolente”. Uma notícia ruim para quem ainda sonha com o papel exercido pelo país no pós-guerra, com as finanças reguladas, o desenvolvimentismo e as democracias de bem-estar social.

Cultura Inútil: Profeta do caos

15 03 24 Mouzar Benedito Cultura Inutil Profeta do caosPor Mouzar Benedito.

Jeron Criswell Konig (1907-1982), um “vidente” dos Estados Unidos que se autotintitulou “The Amazing Criswell” (O Incrível Criswell), previu que John Kennedy não se candidataria à reeleição para presidente em 1964 porque seria assassinado antes disso. Acertou. Kennedy foi assassinado em 22 de novembro de 1963. Mas foi um dos poucos acertos dele. Fez um monte de “profecias” totalmente fajutas. Por exemplo: entre 11 de fevereiro e 11 de maio de 1983 as mulheres da cidade de St. Louis iriam ficar carecas. Seus cabelos só voltariam a crescer depois de um período em que aconteceriam muitos assassinatos, divórcios, suicídios e massacres, principalmente de cabeleireiros. Ele tinha previsto também que na década de 1970 os EUA e a URSS fariam 200 estações espaciais que seriam a salvação da humanidade, pois o mundo acabaria em 18 de agosto de 1999 (um “arco-íris preto” roubaria todo o oxigênio da atmosfera terrestre e a Terra sairia de órbita, indo em direção ao sol) e só os colonos dessas 200 estações espaciais sobreviveriam.

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O remo, como esporte, teve início na Inglaterra, em 1829.

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Marco Polo, o primeiro europeu a viajar até a China, quando chegou de volta e começou a contar certas “maravilhas” que viu por lá, ganhou o apelido de Marco Mentira.

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A data 7 de janeiro deve ficar para sempre marcada pelo atentado que matou várias pessoas na redação do Charlie Hebdo, em Paris, cometido por dois fanáticos religiosos. Mas aqui no Brasil, ela pode ser lembrada num sentido contrário: em 7 de janeiro de 1890, Ruy Barbosa apresentou ao Marechal Deodoro o texto do projeto de separação da Igreja do Estado.

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Rachel de Queiroz foi uma apoiadora entusiasmada do golpe de 1964. Quando moça, ela chegou a ser presa sob a acusação de ser comunista.

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A atriz Sarah Bernhard esteve algumas vezes no Brasil e não teve sorte aqui. Em 1886, apresentou Fedra e A Dama das Camélias, sem grande sucesso, e ainda teve briga na plateia. Seu filho foi espancado. Para completar, havia um surto de febre amarela. Ela se mandou. Em 1893, ladrões levaram suas joias e seu dinheiro, e quando ia voltar para a Europa o navio em que estava foi bombardeado na Baia de Guanabara, durante a Revolta da Armada contra o governo de Floriano Peixoto. Em 1906, apresentava a Tosca, em que numa cena teria que “cometer” suicido, se atirando num abismo. Fora do palco, pilhas de colchões deveriam amortecer sua queda, mas um funcionário do teatro, mal informado, tirou os colchões do lugar. Resultado: aos 61 anos, ela se esborrachou no chão fraturou feio um joelho e acabou tendo que amputar a perna.

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Assim falou Getúlio Vargas, quando lhe perguntaram sobre a qualidade dos ministros de seu governo: “Uns não são capazes de nada. Outros são capazes de tudo”.

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Santa Genoveva é Padroeira de Paris. No ano 451, ela organizou o povo da cidade para enfrentar os hunos liderados por Átila. Seu dia é 3 de janeiro.

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Potiguar, denominação para quem nasce no Rio Grande do Norte, significa em tupi “comedor de camarão”. Um dos povos indígenas que moravam lá era o Potiguara, que ainda sobrevive na Baía da Traição, na Paraíba, divisa com o Rio Grande do Norte. Mas os norte-rio-grandenses já foram chamados também de papa-jerimum, porque um presidente da então província do Rio Grande do Norte, sem dinheiro, certa vez pagou funcionários públicos com abóboras.

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Kublai Khan, que liderou o Império Mongol entre 1260 e 1294 foi quem transferiu a capital chinesa de Karakorum para a atual Pequim (ou Beijing, como escrevem hoje em dia – que feiúra de nome ficou!), que na época se chamava Khanbalik. Ele era um político muito habilidoso. Podia não agradar gregos e troianos, mas procurava agradar os seguidores das três maiores religiões do Ocidente: além dos feriados mongóis guardava também o Natal e a Páscoa (dos cristãos), o Pessah e o Dia do Perdão (judeus) e o Ramadã (muçulmano).

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Carmo de Minas, Carmo da Mata, Carmo do Rio Claro, Carmópolis… Mas o que significa esse Carmo que dá nome a várias cidades mineiras? É Nossa Senhora do Carmo, que ganhou esse nome por causa da invocação a Virgem por eremitas que viviam no Monte Carmelo, na Palestina, e pediam  que ela protegesse sua tentativa de viver em contemplação, no século XII. Daí surgiu a Ordem dos Carmelitas.

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A Bolívia tornou-se independente em 1825. Nos cem anos que se seguiram, até 1925, teve 40 presidentes (6 deles assassinados enquanto ocupavam o cargo) e 187 revoltas armadas.

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Em São Paulo, há anos, quando se fala em pasteleiro já se sabe que é “japonês”, quer dizer, descendente de japoneses. Principalmente os que vendem pastéis em barracas de feiras-livres. Mas nem sempre pasteleiro foi “sinônimo” de japonês. Pelo menos até os anos 1970, pastelarias pertenciam invariavelmente a chineses. E não eram em feiras-livres. E também havia na cidade, na época, muitas tinturarias. Provavelmente muitos jovens nem sabem o que é isso, e se for procurar nos dicionários vai achar um outro sentido: nos dicionários atuais, é estabelecimento em que se tinge tecidos. Antes era sinônimo de lavanderia, mas só de roupas, principalmente masculinas. E, ao contrário das lavanderias atuais, não era lugar de se lavar roupa de cama e peças íntimas. Essas tinturarias eram quase que invariavelmente de japoneses. Havia até uma brincadeira dos paulistanos sobre como diferenciar chinês de japonês: chinês é pasteleiro, japonês é tintureiro.

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Aristóteles considerou que os golfinhos eram mamíferos, e não peixes, no ano 340 a.C., ao observar que os filhotes nasciam ligados à mãe por um cordão umbilical. Mas os biólogos só concordaram com ele no século XX.

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Depois da Guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1973, quase 700 mil minas terrestres foram desenterradas das margens do Canal de Suez, por egípcios e israelenses.

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Em 1968 o aborto foi legalizado na Inglaterra.

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André Maginot, que foi ministro da Defesa da França depois da Primeira Guerra, planejou com seus generais a construção de uma muralha fortificada de 314 quilômetros ao longa da fronteira nordeste do país, da Suíça até a Bélgica, para evitar ataques de surpresa da Alemanha. A chamada Linha Maginot era uma linha contínua de casamatas de concreto e tinha fortes auto-suficientes feitos no subsolo, com profundidade equivalente à altura de um prédio de sete andares. Mas não adiantou. Na Segunda Guerra, a tal linha não serviu para conter os alemães, que invadiram o país. Mas Maginot não viu o trágico fracasso de sua obra: ele havia morrido em 1932. O irônico é que esse herói que sobreviveu a ferimentos graves durante a Primeira Guerra morreu por ter comido ostras estragadas, que lhe causaram tifo.

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O passarinho chamado bicudo pode viver até os 26 anos, na gaiola. Mas no Rio de Janeiro um deles viveu 41 anos.

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A “Revolução Cultural” na China começou em 1966. Mao Tse-tung tentava se fortalecer, radicalizando principalmente a juventude chinesa, contra valores ocidentais. E pregava-se um igualitarismo radical. Em alguns momentos, as fardas dos generais passou a ser igual à de soldados rasos e professores se transformavam em faxineiros da escola um dia por semana. Houve muitos excessos, como a destruição de discos de rock e de objetos de arte. Líderes políticos, de repente, passavam a ser vistos como traidores e eram humilhados publicamente. Mao morreu em 1976 e a viúva dele, Jiang Qing, liderou um grupo apelidado “Camarilha dos Quatro”, para tentar tomar o poder. Os quatro foram presos e condenados à morte, pena reduzida depois a prisão perpétua. Jiang Quing se suicidou em 1991.

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O início da Previdência Social no Brasil se deu com a criação da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários, em 24 de janeiro de 1923.

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Quando o Marechal Deodoro era presidente da República, um amigo dele queria a concessão de uma estrada de ferro e praticamente todos os dias ia ao palácio reforçar seu pedido. Um dia, Deodoro perdeu a paciência e, antes que ele pedisse mais uma vez, disse a um auxiliar, para o amigo ouvir, como se estivesse continuando uma conversa: “Estou resolvido a não conceder mais honras de coronel do Exército a ninguém. E quanto a estradas de ferro, só darei uma única concessão: será a que partir do inferno e for terminar na casa da mãe de quem pedir!”.

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Os santos e as datas comemorativas: 28 de agosto é Dia do Filósofo, e também dia de Santo Agostinho, que era filósofo; 22 de novembro é Dia da Música e Dia do Músico, e também dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos (ela tocava lira e morreu cantando, condenada à morte por ser cristã); 24 de maio é, entre outras coisas, Dia do Detento e de Nossa Senhora Auxiliadora: trata-se de uma festa para venerar Nossa Senhora como intercessora do povo junto a Jesus, seu filho – o Papa Pio VII foi feito prisioneiro pelo imperador Napoleão I em Savona e Paris e atribuiu sua libertação ao auxílio de Nossa Senhora; e 27 de abril é Dia da Empregada Doméstica e também dia de Santa Zita, que viveu de 1218 a 1278 e foi empregada doméstica em Lucca, na Itália.

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A coca é nativa da região andina, na América do Sul. Há na região um costume antigo de mascar as folhas e um mais recente de fazer um chá com elas. Isso ajuda a combater os efeitos da altitudes extremas e também entorpece um pouco o estômago, diminuindo a necessidade de comida. A cocaína, extraída da coca, não era conhecida aqui. Foi isolada pela primeira vez em 1859 ou 1860, na Alemanha, por Albert Niemann, que aplicou a droga na veia e sentiu seus efeitos. Em seguida, Freud experimentou a droga nele mesmo e no tratamento de pacientes, mas como ela causou dependência em muitos deles, abandonou seu uso. Ele apresentou a cocaína ao oftalmologista Carl Köller, que em 1884 a usou pela primeira vez como anestésico em cirurgias. A planta era utilizada também para fazer vinhos, e um deles, de marca Mariani, produzido a partir de 1863, era o preferido do Papa Leão XIII, que até deu uma medalha de honra ao produtor da bebida.

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A primeira transmissão pública da TV em cores no Brasil foi feita em 19/02/1972, A Festa da Uva, evento popular no Rio Grande do Sul. O então Presidente Médici inaugurou o evento, cuja transmissão foi comandada pela TV Difusora de Porto Alegre, e difundida pela Embratel para todo o país. A visita do presidente Médici à Festa da Uva durou uma hora, o tempo de exibição do evento a cores.

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A mosca fêmea vive, em média, 20 dias. A mosca macho, 12 dias.

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Ah, as tradicionais famílias quatrocentonas… Em 1555, o jesuíta Manuel da Nóbrega escreveu uma carta para a Corte, reclamando do tipo de gente que mandavam para cá: “A mais vil e perversa gente do reino”.

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Nabucodonosor, imperador da Babilônia, bebia muita cerveja. Mas usava essa bebida também para fins menos nobres: quando se enjoava de alguma amante, ele mandava colocá-la com todas as joias numa tina de cerveja, para morrer afogada.

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No Rio de Janeiro, no bairro de Copacabana, existe uma rua que os gozadores chamam de “Rua Quase-Quase”… E têm motivo: o nome oficial da rua é Bulhões de Carvalho.

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Uma amiga de Stalin foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz, em 1946… mas não ganhou. Alexandra Kilontoy, de 77 anos, primeira mulher que atuou como embaixadora no mundo, era russa e foi indicada para o prêmio pela Finlândia. Autora de “Amor Livre”, ela atuou como mediadora para o fim da guerra entre a URSS e a Finlândia. Os russos ficaram furiosos quando souberam que em vez dela foram premiadas dias pessoas religiosas dos Estados Unidos: John R. Mott (metodista) e Emily Balch (quaker).

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A Bienal do Livro de São Paulo, uma das maiores do mundo, é resultado de uma série de experiências. A primeira foi a Feira Popular do Livro, montada pela CBL (Câmara Brasileira do Livro), em 1951, na da praça da República, inspirada em feiras do livro europeias. Em 1961 foi promovida, em parceria com o Museu de Arte de São Paulo, a 1a Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas, que se repetiu em 1963 e 65. A 1a Bienal Internacional do Livro, bancada exclusivamente pela CBL, foi realizada entre 15 e 30 de agosto de 1970 reunindo algumas centenas de editoras nacionais e estrangeiras e atraiu milhares de pessoas.

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Beethoven começou a ficar surdo aos 32 anos de idade. Aos 46 já não ouvia mais nada, mas continuou compondo até morrer, aos 56 anos.

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Assim falou Mário Quintana: “O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família”.

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Assim falei eu: “Nem só o peido é prenúncio de uma cagada. Eleição também pode ser”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

O suicídio da mídia brasileira

15 03 23 Emir Sader Suicídio da mídia

Por Emir Sader.

A mídia tradicional brasileira é um cadáver. Um cadáver moral, um cadáver de bom jornalismo, um cadáver de boa informação, um cadáver de pluralismo, um cadáver de honestidade e de dignidade.

Como essa mídia chegou a esse ponto? Como rifou a credibilidade e o papel importante que (ao menos alguns de seus órgãos) já teve na democratização do pais?

É certo que vários fatores contam para a decadência irreversível da mídia. Entre eles a internet, sem dúvida, e com ela toda a mudança de hábitos em relação a veículos impressos – tanto jornais quanto revistas encontram-se em processo acelerado de extinção –, mas também ao peso decrescente da televisão (considerando tanto uma redução de sua audiência quanto da credibilidade do seu jornalismo).

Mas a débacle acelerada da mídia no Brasil tem outros fatores que aceleraram e decretaram sua morte. No essencial, o desencontro entre a mídia e o país, os destinos escolhidos e reiterados pelo povo brasileiro e as posições conservadoras de mídia brasileira.

A mídia já tinha se desencontrado da democracia, quando apoiou as mobilizações desestabilizadoras que levaram ao golpe de 1964, que essa mesma mídia saudou como a salvação da democracia, embora se tratasse da instalação da mais brutal e duradoura ditadura que o Brasil já conheceu. Foi, até ali, o pior momento vivido pela mídia, comprometendo-a com o que de pior tinha o país, que iria infelicitá-lo por muito tempo, com consequências até hoje.

Todos os jornais que ainda andam por aí – Folha, Estadão, Globo, entre outros – se comprometeram com o fim da democracia e a instauração da ditadura. A Abril se incorporaria depois, com relações umbilicais com a ditadura também.

Esses órgãos nunca conseguiram se livrar dessa pecha. O Globo tentou uma autocritica, inverossímil, a tal ponto que recém fez um editorial similar àquele com que saudava “a salvação da democracia” em abril de 1964. A Folha passou por uma desastrada operação de tentar enfraquecer o caráter repressivo da ditadura – chamando-a de “ditabranda” – como que para justificar suas relações carnais com a ditadura, a ponto de emprestar carros da empresa para disfarçar operações repressivas dos órgãos da ditadura. Teve que recuar, quando se deu conta do desastrado da operação que tentava.

No fim da ditadura toda a mídia acreditou que, apoiando a transição democrática, virava a pagina da ditadura e do seu passado nela. Todos éramos democratas a partir dali. O próprio caráter conciliador e ecumênico da transição parecia passar diploma de liberal a todos os que se distanciassem minimamente da ditadura – até o ACM e o seu PFL.

A eleição de Fernando Collor serviu para que a mídia – em sua quase totalidade – tratasse de se localizar do lado da nova modernidade, contra a velha esquerda, esclerosada, jurássica, estatista. Se distanciava da incomoda polarização democracia/ditadura, para situar-se no marco das dicotomias que o neoliberalismo colocava – estatal/privado.

A euforia voltava a tomar conta de boa parte da mídia, que erigia em Collor seu novo herói, que salvava a direita brasileira tanto do Lula, quanto do Brizola. Com a queda do Collor a euforia se transferiu para o FHC. Consolidava-se o cenário neoliberal, longe daquele da ditadura e da transição democrática.

O fracasso de FHC foi fatal para o destino futuro da mídia. Porque além de perder seu ídolo maior, teve que encarar o desafio que ela não soube enfrentar: o governo Lula. Quando acreditava que tinha se livrado desse desafio, com as duas vitorias sucessivas do FHC, veio o fantasma do Lula – que consolidou o desencontro da mídia com o país.

Não é um problema de compreensão, mas de interesses e de ideologia. A grande mídia, como conjunto de empresas que vivem de publicidade, tem o rabo preso com estas, que mantem essas empresas. Além disso, foi sempre o órgão das elites dominantes ao longo da historia do país.

Saiu da ditadura abraçando a versão liberal da transição, aquela que militava na democratização pelo restabelecimento do Estado de Direito sem qualquer transformação mais profunda das estruturas de poder herdadas da ditadura. E, com Collor e FHC, aderiu à versão neoliberal do liberalismo.

Lula representava exatamente o oposto. Passou a revalorizar o Estado em detrimento da centralidade do mercado pregada pelo neoliberalismo e pela mídia. Colocava o acento nas politicas sociais e não nos ajustes fiscais. Deslocou a prioridade das alianças do Brasil do Estados Unidos, da Europa e do Japão, para a América Latina e para o Sul do mundo.

A incapacidade de assimilar Lula – o que significaria uma impossível autocrítica por parte da mídia – levou-a a se assumir como força opositora frontal, ao mesmo tempo que negava as transformações positivas que o Brasil viveu desde 2003 e se dissociou do povo e do país. Essa atitude acabou sendo decisiva para o suicídio da grande mídia brasileira.

Sacrificaram qualquer objetividade informativa, qualquer possibilidade de ser um espaço de debate pluralista, reservando suas posições apenas para os editorias. Ao contrario, editorializaram tudo, negaram a realidade, atuaram como mídia partidária do bloco opositor. Foram assim não apenas perdendo audiência, mas perdendo credibilidade também.

Hoje concentram sua atuação como força partidária da oposição tentando inviabilizar a continuidade dos governos do PT – seu maior objetivo. Concentram campanhas de terrorismo econômico, de denuncismo de escândalos, de tentativa de desestabilização política, convocando manifestações contra o governo Dilma. O que acelera ainda mais a crise final da mídia impressa e a perda de credibilidade da radial e televisiva.

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A Boitempo acaba de reeditar o clássico Estado e política em Marx, de Emir Sader. Confira o depoimento abaixo, em que Sader relembra o contexto da defesa e publicação desta que foi a primeira tese sobre Marx defendida na USP:

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Publicou, entre outros, Estado e política em MarxA nova toupeira e A vingança da históriaColabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

Lançamento Boitempo: Quando o Google encontrou o WikiLeaks, de Julian Assange

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“Ninguém quer admitir que o Google se transformou num monstro. Mas foi o que aconteceu.”

A Boitempo acaba de lançar o explosivo novo livro de Julian Assange Quando o Google encontrou o WikiLeaks.

O que está por trás do Google e do sistema operacional Android, tão presentes em nossa vida? Quais os interesses das ferramentas de livre acesso da internet e das tecnologias de comunicação? A quem pertencem as informações geradas por cada passo que damos na era tecnológica?

Em junho de 2011, Julian Assange recebeu a visita inesperada do presidente do Google, Eric Schmidt, na casa de campo onde residia sob prisão domiciliar, em Norfolk, na Inglaterra. Durante horas, o líder sitiado da organização editorial insurgente mais famosa do mundo travou um embate de ideias com o bilionário responsável pelo maior império da informação que já existiu, em uma discussão voltada para os problemas políticos enfrentados pela sociedade e as soluções tecnológicas criadas pela rede global – da Primavera Árabe ao Bitcoin.

Os dois representam perspectivas radicalmente opostas: para Assange, o poder libertador da internet baseia-se em sua natureza livre e sua falta de vínculos com países, enquanto para Schmidt a emancipação está em harmonia com os objetivos da política externa dos Estados Unidos, motivada pelo estabelecimento de comunicações entre países não ocidentais e empresas e mercados norte-americanos. Pontos de vista distintos em um cabo de guerra acirrado sobre o futuro da internet.

Este livro relata o encontro entre Assange e Schmidt. Entre o fascínio e a alarmante revelação de um nada admirável mundo novo, contém a íntegra da conversa e um material inédito escrito por Assange, delineando ponto a ponto sua visão sobre o futuro da internet.

Leia abaixo a orelha do livro escrita por Slavoj Žižek:

As realizações do WikiLeaks podem ser resumidas pela autodesignação irônica de Assange como um “espião para o povo”. “Espionar para o povo” não é uma negação direta da espionagem (o que equivaleria a agir como um agente duplo, vendendo os nossos segredos ao inimigo), mas sim sua autonegação, ou seja, o questionamento do próprio princípio da espionagem, o princípio do sigilo, uma vez que seu objetivo é levar os segredos a público. Assim, o WikiLeaks atua de forma semelhante a como a “ditadura do proletariado” marxista deveria atuar (o que, é claro, raramente foi o caso): como uma autonegação imanente do próprio princípio da ditadura. Para aqueles que acham que o comunismo é uma espécie de espantalho, deve-se dizer que o WikiLeaks está praticando o comunismo ao tratar a informação como um recurso comum da humanidade.

Recentemente, nossos recursos comuns informativos se exteriorizaram como um dos principais domínios da luta de classes em dois aspectos: econômico, no sentido estrito, e sociopolítico. Por um lado, as novas mídias digitais nos confrontam com o impasse da “propriedade intelectual”. A própria natureza da World Wide Web parece ser comunista, tendendo ao livre fluxo de dados. Essa livre circulação, é claro, vem acompanhada dos próprios perigos: tal abertura levou ao surgimento de provedores não criativos (Google, Facebook) que exercem um poder quase monopolista para regular o fluxo de dados, enquanto as pessoas que criam o conteúdo se perdem no anonimato da rede.

Alguns defendem um retorno em massa à propriedade privada como solução: tudo o que circula na web, incluindo dados pessoais, deveria ser tratado como uma mercadoria valiosa e remunerada e tudo deveria ser atribuído com clareza a uma fonte humana individual. Embora seja verdade que a livre circulação anárquica e anônima gere as próprias redes de poder, é preciso questionar a solução proposta: será que a privatização global é realmente a única maneira de regulação?

Por outro lado, a mídia digital abriu novos caminhos para milhões de pessoas comuns criarem uma rede e coordenarem suas atividades coletivas, além de oferecer a órgãos do governo e empresas possibilidades até então jamais sonhadas de rastrear os nossos atos públicos e privados. Foi nessa luta que o WikiLeaks interveio de maneira tão explosiva.

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A construção em abismo da história

15 03 18 Edson Teles A construção em abismo da história[Carlos Alberto Augusto, ex-agente do Dops, posa para fotos em manifestação de 15.03.2015]
[Em depoimento à TV Trip, o delegado apelidado de “Carlinhos Metralha” afirmou que conheceu pessoalmente “muitos dos delinquentes que estão aí hoje… não metralhei porque não tive essa oportunidade. Se tivesse, o faria com o maior prazer.”

Por Edson Teles.

Cinco décadas após o Golpe Militar de 1964, duas de ditadura e três de democracia, o país vive a publicização dos trabalhos de apuração do período ditatorial. São os relatórios das comissões da verdade em suas várias instâncias. No último dia 12 de março foi lançado o Relatório da Comissão da Verdade Rubens Paiva, do Estado de São Paulo. Em pouco mais de dois anos de trabalhos, especialmente focados nos casos de mortos e desaparecidos, a Comissão teve como método principal de reconstituição da história a audição das pessoas que viveram o período.

No material publicado constam narrativas de sobreviventes, testemunhas, militantes, ex-presos políticos, familiares de vítimas, pessoas que eram crianças e adolescentes na época. Centenas de documentos, publicação aberta de livros e a biografia dos mortos e desaparecidos na ditadura estão entre os principais conteúdos do Relatório. O primeiro capítulo se dedica a elencar recomendações para as instituições do Estado de Direito, seja para as políticas de memória, seja para cobrar a ausência de atos de justiça, com a reinterpretação da Lei de Anistia e a punição dos torturadores.

Uma característica forte deste documento é a relação feita entre a repressão e a violência do período ditatorial e a repetição de certa estrutura autoritária na democracia. Os mecanismos de repressão policial, de acobertamento destas ações por parte de outras instituições e a presença de um discurso legitimador da violência do Estado são identificados como estruturas que permanecem em democracia, tendo como alvo principal a população pobre da periferia. No ato de lançamento do Relatório estavam lado a lado familiares das vítimas da ditadura e familiares das vítimas do estado democrático. À Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos juntou-se o movimento Mães de Maio para denunciar a presença de um projeto político autoritário presente e forte no país.

Apesar do tom de vitória, afinal são estes os anos em que apuramos minimamente o que foi a ditadura militar, percebe-se naquilo que não foi dito a ausência do alívio e da conclusão da elaboração de um luto.

Constata-se que o Estado brasileiro não abriu seus arquivos e que as informações das Forças Armadas continuam sonegadas no debate público. Navegando pelas biografias das vítimas fatais da ditadura percebe-se que há versões diferentes para um mesmo indivíduo, ou mesmo dúvidas sobre as circunstâncias de suas mortes. No caso dos desaparecidos políticos, muito continua ainda em aberto em função da ausência de seus corpos, de suas histórias… Os poucos que foram resgatados das valas clandestinas nas quais a ditadura os lançou tiveram esta sorte única e exclusivamente por conta do esforço e da ação individual dos seus familiares. O Estado até agora não localizou ou identificou um único desaparecido. Em 2015, não temos um único torturador condenado em juízo penal. Poucos são os processos. A história contada hoje é aquela sem vida, sem presença no fluxo de nossas existências. Correm o sério risco de ficarem empoeiradas nos museus e nas teses acadêmicas.

Os trabalhos das comissões da verdade, as várias instaladas no país desde 2012, configuram-se como construções em abismo. É como se todo o esforço de apuração tivesse chegado à constatação do vazio da experimentação deste passado recente. Abismo porque quanto mais se lança em direção à chamada verdade, mais se confirma que nada será desvelado. A memória que se constrói é a do irrealizável acesso às informações determinantes dos acontecimentos. É aquela que a “correlação de forças permitiu”. A avaliação que se extrai é a de que certo projeto político autoritário permanece atuante e segue ainda mais fortalecido. Aos familiares de vítimas da ditadura a construção em abismo vem a corroborar a sensação de que vivem a impossibilidade do luto e de que sua luta terminará apenas com a própria morte de suas existências.

Quanto mais se deslocam no tempo, menos potência temos para fazer daqueles eventos uma experiência. O abismo seria a cena do anjo de Paul Klee, como observou Walter Benjamin, que sofre o sopro do progresso impedindo a compreensão das ruínas da história.

Este vazio da experiência torna-se ainda mais concreto nas manifestações alienadas e conservadores dos últimos dias. Assistir à encenação do discurso de polarização da luta política é, de certo modo, a vitória dos golpes contra a democracia. Não há golpismo a caminho, nós já fomos atingidos. Quando a história se apresenta fria, sintetizada pelos pactos políticos, sem a pulsação das ruas é porque a potência da ação política de criar novos caminhos foi golpeada. Assistir jovens serem espancados e presos pela polícia em manifestações contra aumento da tarifa do transporte, neste contexto de ocultação da experiência vivida pela geração desaparecida na ditadura, é o sinal de que não há o que comemorar. Estes relatórios servem como ferramentas para a repetição de velhos questionamentos, para os quais mesmo que não se tenha respostas, precisam ser feitos e refeitos:

Onde está André Grabois?*

Onde está Amarildo?

Onde estão?

Neste abismo entre o passado e o futuro é sempre bom lembrar de Hannah Arendt, para quem os “tempos sombrios” podem ser a abertura para processos criativos.

André Grabois é meu tio, desaparecido na Guerrilha do Araguaia, provavelmente no final do ano de 1973. Conferir a parte conhecida de sua história no portal desaparecidospoliticos.org.br.

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

A adaga dos covardes, ou, O limite da imbecilidade direitista

15 03 17 Mauro Iasi LimitesPor Mauro Luis Iasi. 

Um amigo libanês, pintor de primeira e bruxo militante, mostrou-me certa vez uma adaga em uma bainha de prata ricamente trabalhada com uma inscrição em árabe que ele traduziu. A frase alertava ao portador da arma que seria sábio quem não a desembainhasse, mas aquele que o fizesse não usando a arma seria um covarde.

A delicada conjuntura em que nos encontramos está cheia de blefes, o que torna difícil a análise. A direita ameaça com o impedimento da presidente, um ex-presidente ameaça colocar o “exercito” de outros para defender o seu governo, outro ex-presidente tece pendores democráticos e de respeito a legalidade enquanto seu partido conspira na direção oposta.

Como sempre, para superar a borbulha enganosa da aparência, é necessário descer às determinações de classe e aos interesses em jogo.

[TRÊS BLEFES]

O equilíbrio do governo de pacto social sempre foi difícil uma vez que supõe poder conciliar o que é inconciliável, isto é, os interesses de classe opostos de trabalhadores e burgueses. A engenharia possível pressupõe uma certa estabilidade econômica e uma governabilidade negociada por meio de cargos no governo, favorecimentos eleitorais e emendas ao orçamento para responder aos lobbies por trás (pela frente e por todos os lados) dos digníssimos parlamentares eleitos e se completa com a ação de governo que garante as condições para a acumulação de capitais em proporções adequadas. Enquanto isso acena aos trabalhadores com a miragem da inserção na sociedade de mercado via garantia dos níveis de emprego e salário, acesso ao crédito e programas compensatórios de combate às manifestações mais agudas da miséria absoluta.

O mais importante é que funciona enquanto a burguesia deseje que funcione.

Por um tempo funcionou e reconduziu os governos petistas em três mandatos consecutivos. O quarto mandato chegou de raspão com o país dividido praticamente ao meio. Um congresso nacional ainda mais conservador, uma oposição fortalecida e um PMDB como fiel da balança e representando a condição, mais que nunca, para a governabilidade. Uma receita para a instabilidade, toda a negociação anterior e durante a campanha eleitoral se torna insuficiente. O PMDB exige mais espaço (Lula se apressa em afirmar que concorda com o pleito), mas também mais protagonismo e mais independência. Ganha a presidência da Câmara com Cunha e endurece a negociação sobre a composição do governo e o orçamento abrindo margem para chantagear a presidência.

Aqui o primeiro blefe. O PMDB tem a vice presidência e vários ministérios chaves. Controla um quinhão invejável no segundo e terceiro escalões, governos de estado que por sua vez dependem de projetos e verbas federais, assim como de favores eleitorais dos mais diversos. Tem pouca chances de um vôo solo como alternativa e suas chances estão ligadas ao sucesso do governo que enfraquece para negociar melhor.

O PSDB, histrionicamente bradando contra o governo com o cacife de uma oposição que garfou mais de 48% dos votos no último pleito, também se encontra em posição problemática. Não pode atacar o governo pelas medidas impopulares assumidas, pois as defendeu abertamente na campanha. Da mesma forma tampouco pode se dar ao luxo de se contrapor à linha geral da condução da economia e do Estado, pois no essencial respeita os compromissos macro econômicos, a premissa sacrossanta do superávit primário, a lógica privatista e mercantilizadora da vida… Escolheu a centralidade dos escândalos e da corrupção, mas convenhamos, é um terreno em que o PSDB não tem só o telhado de vidro, mas uma casa todinha de vidro. Basta lembrar a forma como foi feita a privatização das tele-comunicações sob a batuta do falecido Serjão, a entrega da Vale do Rio Doce, as contas não tão secretas em paraísos fiscais, para não falar do metrô de São Paulo e outras aventuras conhecidas.

Eis o segundo blefe. Alardeia-se o combate à corrupção, torcendo para que a apuração rigorosa e profunda, “doa a quem doer”, não chegue muito perto da mão que acusa, como o caso do HSBC parece indicar. Se o caos interromper o mandato da presidente e gerar dividendos eleitorais ao PSDB, ótimo para eles, mas não se pode fritar muito de modo que a fumaça não sufoque a todos na cozinha do Estado burguês. Qualquer alternativa de governo do PSDB passa pela negociação com o PMDB, daí o dilema: como queimar a gordura do PT sem tostar o bife do PMDB?

Por isso o escudeiro do caos, Aloysio Nunes e outros asseclas, vão às ruas pelo “sangue” de Dilma Rousseff, enquanto FHC e Aécio Neves, pedem um pouco mais de calma. Afinal, somos todos civilizados, não é?

[A APOSTA PETISTA]

O governo, um tanto quanto desorientado, pois julgava que bastava a mera repetição do mesmo procedimento anteriormente exercitado e uma base sólida no Congresso para escapar do pior da crise, tateia erraticamente. Antes das eleições sua prioridade era recompor uma base e compensar as defecções, como as PSB e PTB, mas, prioritariamente mostrar-se confiável aos financiadores de campanha: as empreiteiras, os bancos, os industriais, o agronegócio, em suma, os donos do governo. As alianças, o programa e o perfil da campanha não deixaram margem à dúvida desta prioridade.

No entanto, a polarização da campanha contra o PSDB (Marina foi um episódio inflado que não se manteve) obrigou os petistas a desenterrar o discurso da luta entre ricos e pobres, do fantasma do passado e, na reta final, produzir um factóide diversionista segundo o qual trata-se de um embate de projetos que contrapunha de um lado uma direta privatista, que atacaria os direitos dos trabalhadores e reverteria as “conquistas” alcançadas, e de outro uma proposta progressista que enfrentaria a crise com crescimento (o que implicava, por sua vez, a manutenção da generosa ajuda aos capitalistas) e não realizasse ataques aos direitos dos trabalhadores.

Vejam que o governo agiu com uma certa sinceridade. Precisava atrair os setores sociais (por isso o discurso), mas não podia romper com suas alianças e com as exigências de seus patrões (por isso a manutenção do rumo geral conservador). Não é esse o blefe do governo. É que tem gente que quer tanto uma coisa que a projeta na realidade como se realidade fosse…

O problema é que passada as eleições, os setores sociais e movimentos populares que generosamente se dispuseram a votar na candidata “mais progressista” para evitar a direita, se viram diante do constrangimento de um governo que moveu-se rapidamente para implementar tudo aquilo que a direita perversa propôs. Os movimentos sociais e populares já tinham cumprido sua função, agora era o momento da incrível arte do pragmatismo político no qual o governo do PT tinha que gerar as condições para manter-se no governo até o final e, quem sabe, um próximo mandato. Nesta direção era necessário recompor a base, acertar a vida com o Congresso e tomar as medidas amargas contra os trabalhadores para garantir a continuidade da política de superávits primários e a sangria de recursos do fundo público para o capital financeiro.

Evidente que isso gerou um descontentamento muito grande, mas aqui fico na incômoda posição de defender a presidente Dilma. Ela falou que ia fazer isso, era evidente que faria. Os setores sociais que apostaram, com razões louváveis e algumas até justificadas, nesta opção estão descontentes com a imagem que criaram e não com o real efetivo. Acontece com torcidas de futebol, com relacionamentos amorosos… acontece também com projetos políticos. Já cantava Chico com as palavras de Ruy Guerra:

“Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto”.

…e até o Chico acreditou!

Certos movimentos sociais, setores populares e segmentos de esquerda literalmente não negociaram nada. Daí o qualificativo “generosamente” ao tratar do apoio oferecido. O Governo não se comprometeu formalmente com nenhum dos pontos que constituem a fantasia imaginada de uma inflexão à esquerda. Pelo contrario, deu o tempo inteiro mostras que não alteraria o rumo da política que enterrou a reforma agrária em benefício do agronegócio, os direitos trabalhistas em nome das condições favoráveis ao crescimento da economia capitalista, a privatização contra as políticas públicas, o acordo com os fundamentalistas religiosos descartando a luta contra a homofobia e outras pautas, a conivência com velhas formas políticas contra uma verdadeira mudança das regras do fazer política na direção dos interesses populares.

[A VELHA DIREITA]

Aqui é que começa o problema. Apesar de ter cedido em tudo… tudo mesmo, ao que a ordem burguesa exigiu, o governo de pacto social do PT continua ameaçado. Ocorre é que a metáfora da adaga aqui se torna limitada. Não estamos diante de um instrumento nas mãos de um sujeito, mas de uma dinâmica política que uma vez desencadeada ganha certa autonomia. Os sujeitos políticos são compósitos, formados por fragmentos, facções segmentos que reproduzem em ponto menor o dilema da sociabilidade burguesa: a contradição entre interesses individuais particulares e interesse geral.

Nenhum ator particular que desembainhou a adaga parece de fato querer o impeachment, mas parece que a adaga quer. Em tempos de fetichismo absoluto, um fenômeno desses não devia nos espantar. É verdade que a burguesia monopolista em suas diferentes facções (industrial, bancária, agrária, comercial, etc.) nunca ganhou tanto e prescreveu o remédio que seus funcionários no governo estão zelosamente administrando. Precisa de estabilidade institucional, teme reviravoltas que possam colocar em risco, real ou potencial, a ordem. Mas adorariam encerrar este ciclo de governos petistas. E se houver possibilidade, porque não?

O mesmo pode ser dito do imperialismo. Alguns governistas afoitos e seu exercito de dedos nervosos nas redes sociais, desenterraram o imperialismo como o sujeito oculto da desestabilização. Ora o imperialismo sempre pensa em cenários e a desestabilização nunca ficou fora da pauta. A pergunta é: como se pensou nestes doze anos enfrentar esta evidência? Armando o povo, preparando as forças armadas e buscando aliados, como na Venezuela? Ou se mostrando confiável e evitando se apresentar como responsável, como nos governos Lula e Dilma, e fazendo um acordo militar com os EUA, mobilizando e dirigindo tropas de intervenção no Haiti?

Impedimentos e interrupções institucionais não são utilizados apenas contra governos de “esquerda” ou de um reformismo potencialmente perigoso à ordem capitalista (duas coisas que o governo do PT não representa nem remotamente) mas também contra governos que já cumpriram sua função e passaram a se tornar incômodos. É o que aconteceu quando surgiu a necessidade de interromper o Estado Novo getulista ou a autocracia burguesa no final dos anos 1970.

A grande burguesia e o imperialismo lucraram com o ciclo petista, mas não lutarão para defendê-lo se ele ameaçar ir para o ralo. A burguesia não é fiel, nem monogâmica. Nunca foi. Não será agora que irá mudar sua natureza.

A expressão política da burguesia tem, no entanto, outros problemas. A ocupação do espaço político central pelo PT lhe rouba sua essencialíssima função na vida. Ela precisa encontrar um meio de se livrar do PT porque este ocupa o lugar que por coerência seria o seu, por isso quer aproveitar toda chance possível. Sua responsabilidade com os interesses de classe da grande burguesia monopolista faz com que ela hesite, assim como o medo de, no chumbo trocado das acusações, colocar em risco a ordem instituída. Mas ela tem a obrigação de tentar, porque disso depende sua sobrevivência.

[A EXTREMA DIREITA]

Isso é diferente quando se trata da extrema direita. Ela é o cachorro louco da burguesia. É incômoda e caricatural, mas útil. Não pede licença para pôr fogo no circo. Em épocas normais a burguesia a mantém presa na jaula do Estado de Direito, mas a crise é seu habitat natural. Isolada ela é só pitoresca, como nas marchas que andou ensaiando pelo país. Mas, num certo caldo de cultura, se alimenta do irracionalismo e do conservadorismo, cresce e pode se tornar uma ameaça, mesmo um incômodo para seus donos.

A extrema direita foi às ruas e ganhou dimensão massiva nos últimos protestos pelo impeachment. A extrema direita quer o impedimento da presidente, se possível seu fuzilamento e a exumação do corpo de Marx para ser fuzilado também. Parece que descobriram o motivo do desmonte da educação no Brasil, é um perigoso terrorista de barbas longas (sem turbante) chamado Paulo Freire.

[O BLEFE PETISTA]

Diante deste cenário intricado o PT mantém-se fiel à sua ação aparentemente errática. Faz todos os esforços para garantir a credibilidade diante do grande capital e de seus aliados de direita, que constituem a base operacional de seu governo; ao mesmo tempo em que precisa mobilizar suas “bases sociais” (de fato eleitorais) para não virar presa fácil contra aqueles que querem sua queda.

Neste ponto a coisa fica ridícula. O governo impõe as chamadas medidas de austeridade e ataca diretamente os direitos dos trabalhadores. O principal partido do governo (talvez o segundo na linha hierárquica depois do PMDB) – o PT – aprova por maioria as medidas de austeridade propostas, e o ex-presidente Lula conclama que elas são necessárias e não atacam os direitos dos trabalhadores. Ao mesmo tempo conclama suas “bases sociais” (na verdade, em parte aparelhos burocráticos que um dia foram organizações independentes da classe trabalhadora) para atos em defesa do governo, mas contra as medidas de austeridade… do mesmo governo… que implementa as medidas… Estão acompanhando?

Ora, aqui também não se deve culpar o PT. Ele não pode fazer outra coisa. Os setores que, com razões honestas, queriam uma guinada à esquerda estão trabalhando com o desejo, não com a realidade. Este seria o caminho mais rápido para o impeachment. O governo jamais fará isso. Todos sabem. Desde os que sinceramente gostariam que o governo fosse mais à esquerda, até os governistas mais renitentes que acham que tudo está certo e não há nada a ser corrigido.

Este é o blefe.

Mobilizam as massas, mas para apassivá-las. As mobiliza para usá-las como instrumento em seu jogo e não como força própria em busca de seus próprios interesses de classe. É para ameaçar seus aliados e adversários. Desembainha uma adaga que não pretende usar.

A direita chama um ato pelo impeachment. Lógico que a extrema direita se anima. Mas as lideranças estão preocupadas, seus nomes andam sendo divulgados pelas listas dos envolvidos nos atos de corrupção. FHC pede calma, não é hora de impeachment. Michel Temer sorri ao lado dos presidentes do Senado e da Câmara (os dois na lista) na arte de fazer de conta que ele não tem nada a ver com isso.

Na mais alta temperatura do acirramento, escuto a notícia que Dilma propôs um pacto… com o PSDB… que não aceitou… mas, está pensando. Depois do domingo amarelo… duvido.

No meio disso uma população tentando entender o que está acontecendo. De um lado, um cara com uma adaga bradando – “vou te meter um impeachment no bucho!” – (lógico, com muita calma para não prejudicar os negócios), de outro um senhor que pregava a paz e o amor e que adora dizer que banqueiros nunca ganharam tanto em seu governo ameaçando chamar as massas para uma rebelião (lógico, desde que não atrapalhe o bom relacionamento da ministra do agronegócio com a presidente e as medidas de austeridade, que na verdade são necessárias… não é?).

De um lado os governistas chamam um ato contra as medidas de austeridade que atacam os trabalhadores e em defesa do governo que as aplica, de outro a direita que quer derrubar o governo “esquerdista”, mas aprova as medidas.

E vocês querem que os trabalhadores entendam isso? Lá na consciência imediata da classe trabalhadora uma faxineira explica ao repórter de um jornal paulista porque aderiu as vaias contra a presidente diante de seu pronunciamento (no qual disse que era preciso coragem para aplicar as medidas contra os trabalhadores propostas por seu ministro Levy) e diz:

“Querem saber o motivo da vaia? É simples: estou cansada de trabalhar e não ter nada”.

Outro trabalhador é ainda mais direto:

“Ela mexeu nos direitos do trabalhador. Falou a campanha inteira que não ia e fez”.

(“Após manifestação de ‘peões’, empresária defende petista“, Folha de S. Paulo, 11/03/2015, por Juliana Sayuri e Daniela Lima)

[A PERGUNTA QUE NÃO SE CALA]

Que a direita e a extrema direita se comportem como tal é compreensível e esperado. A pergunta que precisa ser respondida é por que ela ganha apoio de amplos setores de massa. A resposta cômoda para o governismo defensor do pacto social é simplista, trata-se de quem votou e quem não votou na Dilma. Típico de quem abandonou o referencial de classe para pensar em eleitores. Trata-se perigosamente de um momento onde os anseios e inquietações de setores dos trabalhadores estão sendo capturados pelo ideário conservador e de direita.

E que ideário é esse? A rede Globo em mais uma demonstração de miséria jornalística tenta enquadrar a realidade no molde de seu jornalismo de desinformação, transformando o circo de horrores da direita na rua no dia 15 em uma “festa da democracia” e perguntando aos inquietos e perdidos ministros Rosseto e Cardoso como o governo responderia às “demandas da ruas”, a “voz das ruas”, o “grito das ruas”. Apesar da emissora (que recebeu auxílio governo petista para não quebrar) tentar reapresentar o samba de uma nota só da corrupção, as “ruas” gritavam coisas como: “pela intervenção militar”, “morte aos comunistas”, “em defesa do feminicídio”, “pela maioridade penal”, “contra as doutrinações marxistas nas escolas”. Algumas demandas, para facilitar o entendimento, escritas em inglês e francês.

Vejam, com todos os problemas das Jornadas de 2013 podíamos ver ali como central um conjunto de demandas como a defesa do transporte público, contra os gastos com os eventos esportivos, contra a violência da política militar, a denúncia dos limites desta pobre democracia representativa. Ainda que houvesse por um tempo, a tentativa de contrabando das bandeiras direitistas elas foram sendo isoladas das manifestações. Agora elas dão o tom e organizam grandes manifestações em defesa da barbárie.

Interessante notar que as Jornadas de 2013 forma violentamente reprimidas e o senhor Cardoso, Ministro da (in)Justiça, se apressou a cercar de garantias legais a ilegalidade da repressão e criminalização dos movimentos. Já no festival da extrema direita anti-comunista a policia militar tirava fotos e selfies com os animados participantes vestidos com a camisa da CBF, enquanto à noite o Ministro dizia que precisamos respeitar as manifestações porque são democráticas.

15 03 17 Mauro Iasi Selfie Choque[Oficial da tropa de choque tira foto com família verde a amarela. A imagem foi capturada pelas lentes da TV Trip na cobertura que fez da manifestação em São Paulo]

Meu barbeiro, filho de operário eletricitário, que se animou com a campanha das diretas porque queria votar para presidente, diz que este governo precisa acabar porque senão vai implementar aqui um regime parecido com o da Venezuela e sugere duas alternativas: entregar o Brasil para ser administrado pelos EUA ou devolver aos índios (eu sugeri que ele insistisse na segunda alternativa).

O mais surpreendente, no entanto, foi sua conclusão diante das minhas ponderações. Com o olhar sério e aquela autoridade que só possui quem segura uma navalha afiada em sua garganta, ele concluiu: “Sabe, eu acho que ninguém quer o impeachment, o que eles querem é deixar este governa sangrar por quatro anos para depois derrotá-lo de uma vez por todas nas próximas eleições”.

Sabe do que mais, acho que meu barbeiro está certo. Feito isso, pegou a navalha e aparou o que restava de cabelo na minha nuca, limpando a espuma em um pano. Lá na rua ainda se ouvem os gritos de combatentes segurando suas adagas cegas que não pretendem usar… “olha que eu te furo”… “não se eu te furar primeiro”… enquanto se prepara o acordo.

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Dilma, o Recife mandou te chamar

Em 12 de março, foi o aniversário de duas meninas quase gêmeas, duas cidades quase em uma só, de tão próximas e parecidas, o Recife e Olinda. Eu gostaria de pedir uma suspensão do noticiário político, como se fosse possível haver uma trégua breve na guerra. Devo? É possível? Façamos de conta que sim, num intervalo ligeiro, para falar de passagem da cidade que na semana passada fez 478 anos.

Do Recife posso dizer que, para onde vou, sinto sempre em todas as ruas de outros lugares uma falta, ora do cheiro de mar, ora do Capibaribe, ora do suco de graviola, de cajá, de feijão com charque e jerimum, das coisas mais caras que fazem uma identidade. Se estou em João Pessoa, cidade bonita e acolhedora, na praia de Tambaú descubro com exclamações o restaurante Gambrinus, mesmo nome do bar que existia na Marquês de Olinda, em nossa juventude. O Recife traz para mim a situação daquela música de Herivelto Martins, Pensando em ti: “eu amanheço, eu anoiteço, pensando em ti”, cidade. Nos livros que tento ler em cada frase o Recife está. Santa cidade, não deixa nem espaço para eu pensar em Deus. Aliás, se existe, Ele é o Recife.

De tantos locais recifenses, poderia falar do Mercado da Boa Vista, onde todos os dias são de sol, pois não consigo imaginar um minuto sequer de tempo sombrio, de inverno pesado, de toró brabo ou de noite soturna, lá no Mercado da Boa Vista. Ou do Mercado de Água Fria, onde se apresentavam mamulengos, na pracinha em frente, ou espetáculos de fantoches, como a eles se referem os dicionários do sudeste. E para a frente do mercado descia também, lá do Alto do Pascoal, um dos maiores artistas de teatro de bonecos que já vi: Ginu, o criador do personagem Professor Tiridá. Ele era um encanto para adultos e crianças. Mas além de Ginu, que ficou conhecido como O Professor Tiridá, assim como Chaplin se transformara em Carlitos, além de Ginu havia uma excelência da arte da ilusão que era um senhor ventríloquo. Não sei o nome dele, mas sei que era ótimo em dar vida a um boneco negro, do tamanho de um menino, a quem ele chamava de Benedito. Hoje compreendo que veio dele a minha primeira e inesquecível lição de romancista. Os personagens têm vida, se tornam pessoas pela verdade que falam.

Era bom continuar a falar sobre a excelência do Recife. Mas acho que não devo pedir a trégua para um lado só, quando contra o nosso lado aumentam os tiros. Assim, eu volto, sem sair do tema do Recife, para falar da política na cidade.

Lembro que no livro A vida quer é coragem, de Ricardo Batista, assim se fala:

“[…] a uruguaia Maria Cristina Uslendi conta que em outubro de 1971, toda vez que voltava das sessões de tortura encontrava Dilma de braços abertos ‘me amparando, me ajudando a usar a latrina quando não tinha forças, me dando sopinhas de colher na boca, me cedendo a parte de baixo do beliche e pondo na vitrolinha de pilhas as melhores músicas da MPB. Cristina conta que Dilma sempre pedia a ela que prestasse muita atenção à letra de ‘Para um amor no Recife’, uma canção de Paulinho.”

Na época, diziam que Paulinho fez “Para um amor no Recife” para a secretária de Dom Hélder Câmara. As boas e as más línguas (principalmente) acrescentavam que a dedicada senhora vinha a ser a namorada secreta do arcebispo. Entre o sussurro e a maledicência, entre a repressão da ditadura Médici e a resistência serena erguia-se um poema belo, quase autônomo da melodia: “A razão por que mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você ”. Esta é uma canção que só fez melhorar ao longo de todos esses anos. A ditadura não existe mais, o seu motivo imediato não mais existe, mas a composição só vem crescendo, apesar da degradação do Recife, que entra quase incidentalmente no título.

E agora falo mais perto do dia seguinte, da sexta-feira 13 de março. O Recife já deu provas, quando tudo era incerteza e o céu era nuvens anunciando trovões e o mais brabo toró, o Recife já deu prova de que não falta à luta. Assim foi aqui em outubro de 2014, quando a militância e todo o povo anunciaram o que seriam as urnas, quando a cidade se tornou vermelha:

Com um convite à militância de Dilma para que comparecesse à saída do bloco de carnaval Eu Acho é Pouco, naquele dia houve um comparecimento em massa de todas as tribos de esquerda e de centro e indecisos no Marco Zero e na Rua do Apolo. Olhem, a cor dominante era a vermelha. E com alegria e com orgulho.

Todas as tribos, quero dizer, velhos, crianças, jovens, idosos, bebês carregados no colo e em carrinhos, mas nada de escadaria Odessa no Encouraçado Potemkin, apenas uma formação de militância. Essas crianças vão ser socialistas e de esquerda no futuro, eu não tenho nem dúvida. E quando eu digo todas as tribos, quero dizer também: classe média, trabalhadores, estudantes, negros, brancos, mulatos, caboclos, intelectuais, artistas e analfabetos. E moças e moças e moças de todas as cores, evangelhos e credos, num autêntico creio em deus pai todo poderoso criador da esquerda e da terra do Recife.

Aquela ideia de não-lugar, de estranhamento, de virar estrangeiro em minha própria cidade, que senti com o resultado das eleições para governador, foi embora. O Recife ontem voltou a ser o abrigo primordial do útero coletivo. A terra que nos faz crescer com novas forças, como aquele deus grego que no contato com o chão virava imortal… Mas com tanta gente de todas as cores e raças e idades, dos bebês que não estavam em Odessa, mas cujos pais iriam à escadaria se estivessem na Rússia do czar, debaixo da estátua de Chico Science na Rua da Moeda, eu soube então que ontem o Recife foi o lugar. Do Brasil.

Assim foi, na mais recente sexta-feira. E continua o mesmo ardor de antes, até mesmo depois do último domingo, presidenta, quando desejam destruir o voto das urnas. Saiba mais uma vez, Dilma, que o Recife mandou te chamar.

* Ouça aqui o comentário de Urariano Mota sobre o aniversário do Recife na Rádio Vermelho.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.