A nova política reimagina a erradicação da miséria

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No contexto do Especial Eleições 2014 do Blog da Boitempo, adiantamos com exclusividade uma das histórias do aguardado Cânone gráfico, a fantástica antologia da literatura universal em quadrinhos.

Cânone gráfico

O livro, que inaugura o selo de quadrinhos da Boitempo, o Barricada, reúne alguns dos maiores nomes da arte gráfica, como Robert Crumb, Will Eisner, Hunt Emerson e Peter Kuper, e traz releituras de clássicos como A divina comédia, de Dante Alighieri, Sonhos de uma noite de verão, de William Shakespeare, e As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Organizada pelo escritor Russ Kick e lançada originalmente nos Estados Unidos em 2012, a obra se consagrou como uma bíblia para aqueles que se interessam por quadrinhos.

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Primeiro exemplar de Cânone gráfico, chegando na Boitempo da gráfica (Instagram).

A história

Em tempos de achatamento do humor e da ironia, e em que se faz crer que o descontentamento generalizado do país parece pedir a modalidade de inovação política que só a eficiência e a flexibilidade da dinâmica dos mercados pode oferecer, o Blog da Boitempo oferece esta pérola da ironia ilustrada, elaborada por Jonathan Swift, autor de As viagens de Guliver (obra que aliás também é contemplada em Cânone gráfico no traço do artista gráfico Gareth Hinds), no século XVIII. Intitulado “Uma proposta modesta”, o quadrinho ironiza a suposta neutralidade matemática da mentalidade “inovadora” de enxugamento de custos e maximização de rentabilidade, ao estendê-la a todas as áreas da vida social.

Contexto

Em 1729, entre os muitos panfletos à venda nas bancas de Londres e de toda parte, havia um intitulado “Uma proposta modesta para evitar que os filhos dos pobres da Irlanda sejam um fardo para seus pais ou para o país, assim como para torná-los úteis ao público”. O autor anônimo sugeria que os pobres da Irlanda vendessem seus bebês como comida para os ricos da Grã-Bretanha.

Houve poucos indícios, se é que houve algum, de que o panfleto fosse uma brincadeira. Ele dava detalhes culinários, financeiros e morais do projeto. O governo britânico havia submetido o povo irlandês a uma privação econômica e uma opressão política desumanas. O panfleto simplesmente levou a situação à sua lógica extrema.

Como hoje se sabe, o autor do panfleto foi o talentoso iluminista Jonathan Swift, o mestre da sátira. Atualmente, esse pequeno ensaio é elemento básico dos cursos de
graduação de literatura que tratam de ironia. Como muitos dos escritos mordazes de Swift, “Uma proposta modesta” ainda hoje é comovente. Ele pode ter focado a Irlanda e a Grã-Bretanha do início do século XVIII, mas a mensagem se aplica aos Estados Unidos e a muitos outros países do século XXI. Na verdade, Peter Kuper – ele próprio um especialista em usar a sua arte para fazer comentários sociopolíticos contundentes – trouxe a proposta para o presente.

“Uma proposta modesta”
de Jonathan Swift; Adaptação e arte de Peter Kuper

Clique nas imagens para ampliar, ou clique aqui para baixar gratuitamente o PDF, em alta resolução!

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Gostou? Saiba mais sobre o livro, que chega às livrarias no começo de novembro. “Como boa parte das grandes ideias, a do editor americano Russ Kick era simples (e trabalhosa): convidar algumas dezenas dos maiores artistas gráficos contemporâneos para interpretarem, só com ilustrações, cenas de clássicos da literatura universal. Funcionou.” – Cassiano Elek Machado

Cânone gráfico: clássicos da literatura universal em quadrinhos
Volume 1: desde a Epopéia de Gilgamesh a Shakespeare e
As ligações perigosas

Russ Kick (org.)
Arte gráfica de Will Eisner, Robert Crumb, Hunt Emerson, Peter Kuper, entre outros.

Selo Barricada (quadrinhos da Boitempo)

O lulismo, a nova política e o libertador

14.10.22_Daniel Bin_O lulismo_a nova pol[itica e o libertadorBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Daniel Bin.*

O Brasil entra na última semana de campanha da eleição presidencial com indefinição tal que não encoraja muitos a arriscar um prognóstico. Nos primeiros momentos do segundo turno, parecia haver uma tendência de Aécio rumo à liderança. Agora, parece que os ventos começaram soprar a favor de Dilma. Claro que até o dia da decisão o quadro pode novamente mudar, o que não surpreenderia.

Independente de confirmar-se ou não, a possibilidade­­ de Aécio vencer ajuda a corroborar hipóteses sobre os limites do lulismo. Retroceder o ponto de partida desta análise em algumas semanas, quando Marina aparecia como favorita à segunda vaga no turno decisivo, pode ajudar na compreensão do fenômeno. Naquele momento, o que se via era a escalda das intenções de voto em uma candidata que, em palavras outrora ditas pela coordenadora de sua campanha, “entra no senso comum da sociedade, do ponto de vista de negar a política, de negar partido.” O desfecho já é conhecido; aquela “nova” política desabou quase tão rapidamente quanto ascendeu.

O PSB, a considerar os passos inicias que dera junto do PSDB nas críticas à execução da política econômica e nas promessas de resgate da ortodoxia neoliberal, não surpreendeu ao aderir a Aécio. Tampouco surpreendeu o igual gesto de Marina. Era o que apontava a sua defesa de uma política econômica que lhe valera, assim como a Aécio e Campos, a simpatia por parte das classes dominantes – destacadamente a finança. Simpatia, diga-se, bem superior à experimentada por Dilma, cujo partido, é bom lembrar, não assusta mais nenhum capitalista tanto quanto fazia antigamente.

Derrotada Marina, que procurou se distinguir das duas principais forças partidárias, Aécio, mesmo liderando uma dessas forças, herdou o sentimento de parte significativa do eleitorado da terceira colocada no primeiro turno. Aécio foi rápido em incorporar ao seu discurso a retórica mais eloquente de Marina. Diz ele que sua candidatura representa não um partido ou grupo político, mas um projeto. A mimetização se completa com o tom messiânico propagado por meio da figura do libertador. O projeto, enfim, é apresentado como aquele que busca desalojar o PT do poder formal; que visa a libertar o país das mãos desse partido. Isso parece soar como música aos ouvidos de quem nutre sentimentos antipetistas.

Mas como a retórica da negação – em si uma contradição, pois negar a política é tática política – outrora ensaiada por Marina e agora apropriada por Aécio conseguiu angariar tamanho apoio?

Não acredito que a resposta possa ser encontrada naquilo que era apresentado sob o signo do “novo,” pois este padece de falta de substância. No caso de Marina, aquela retórica se esvaiu assim que pautas conservadoras despontaram para adequar os objetivos eleitorais às estruturas política e econômica já constituídas. Para Aécio, o “novo” é ainda mais difícil de emplacar, afinal ele é um daqueles que Marina outrora classificava como representante da velha política. Em termos concretos, o conteúdo neoconservador de seu projeto faz este tão socialdemocrata quanto (não) foi a prática do PSDB em sua passagem pelo executivo federal. Também soa como música, agora aos ouvidos das classes dominantes, quando Aécio se diz “preparado para decisões impopulares.”

Em termos de conciliação de classes, os governos petistas, em especial no período Lula, foram mais competentes que seus antecessores. Talvez parte da explicação sobre como a negação da política angariou apoio esteja na forma como o PT mediou as relações entre classes e as relações destas com o estado. Governos que ampliaram políticas favoráveis a demandas materiais das classes subalternas foram ainda mais generosos com as classes dominantes. O paradoxo é bem descrito por Chico de Oliveira ao perceber que no primeiro governo Lula inverteu-se o segundo termo da velha equação gramsciana ‘coerção + consentimento = hegemonia’: “não é mais o dominado quem consente com a sua própria subordinação; agora é o dominante que consente ser aparentemente ‘liderado’ por representantes dos dominados” (New Left Review, n. 42, p. 22).

Ou seja, a “negação” da política começou bem antes, não com discursos, como agora, mas por meio de práticas de cooptações e coalizões tanto à esquerda como à direita. A experiência oposicionista do PT lhe ensinou que se quisesse governar com mais tranquilidade do que desfrutaram governos que o antecederam precisaria ter ao seu lado lideranças capazes de mobilizar as massas. Assim, observou-se ao longo dos últimos anos, junto do preenchimento de posições nos gabinetes da Esplanada, nas diretorias de empresas estatais e de seus fundos de pensão, um afastamento do próprio partido em relação aos segmentos sociais que lhe deram origem. Conforme apontou André Singer, “[o] lulismo, ao contrário do que fazia o PT até 2002, não acentu[ou] a necessidade da organização e mobilização da classe trabalhadora.”

Outros movimentos do PT serviram ainda para nivelar antagonismos sobre projetos. Citando apenas um exemplo, lembro que a primeira reforma sobre a qual Lula jogou boa parte do seu prestígio de presidente recém empossado foi a da previdência dos servidores públicos. O ataque sobre os trabalhadores iniciado por FHC nesse campo, que, contudo, só foi capaz de atingir aposentadorias na iniciativa privada, foi completado por Lula. Sobre as classes dominantes, nenhuma investida capaz de reduzir de forma substantiva as desigualdades materiais, o que poderia advir, por exemplo, de uma estrutura fiscal menos regressiva. Para os dominados, lembra Giovanni Alves, “[a] ideia de cidadania reduziu-se à ideia de acesso ao mercado de consumo de massa.”

Marina disputava um espaço aberto ao longo da mais de uma década de hegemonia petista, e certamente conquistou uma parcela importante nesse espaço. Aécio agora busca atrair para o seu lado essa mesma parcela, o que também parece estar conseguindo em alguma medida. Se será suficiente para vencer, como já disse, pouco importa para os objetivos desta análise. O que importa é que a retórica da negação da política encontrou eco junto a parcelas significativas do eleitorado. Uma delas é a que entrou na cena política tendo crescido em um contexto marcado justamente pelo empobrecimento do debate.

Tal empobrecimento político tem como sinal importante a negação da luta de classes tentada pelo lulismo. Mas como a história se move a partir de contradições, eis que Dilma recorre à suspensão da conciliação como tática eleitoral, apresentando a si como representante das classes subalternas e Aécio como representante das classes dominantes. Se Dilma vencer as eleições, é provável que retome a estratégia conciliadora. Se for Aécio, tal estratégia deverá encontrar maior dificuldade, afinal, parafraseando André Singer, é possível que acentue-se a necessidade de organização e mobilização da classe trabalhadora.

Meu prognóstico é que a estratégia conciliadora será retomada em breve. Ocorre que os seus limites já foram expostos, como salientaram as Jornadas de Junho de 2013.

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Daniel Bin é doutor em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) com estágio na Universidade de Wisconsin-Madison, é professor de políticas públicas na Universidade de Brasília e pesquisador e pesquisador visitante da Universidade Yale, EUA. Email: danielbin@unb.br Dele, leia também A financeirização da democracia brasileira, A (in)visibilidade da luta de classes nas Jornadas de Junho,  e “Uma pessoa, um voto”, ou “um real, um voto”?, no Blog da Boitempo.

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O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

O que ainda resta de verdade nestas eleições?

14.10.22_Daniel BinBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Alessandra Affortunati Martins Parente.

Eis uma questão que vale ser levantada. Difícil respondê-la. Chuvas e mais chuvas – e não há qualquer ironia aqui, a água é drama na triste terra da garoa – de informações, textos, propagandas invadem o “feed de notícias” daquele que é membro do Facebook. O GloboNews noticia praticamente 24 horas por dia os detalhes das campanhas. A programação normal da televisão é invadida pelas notícias urgentes sobre os candidatos. Jornais, debates, comícios. A oferta é infindável. A quem está no Twitter e quer se manter informado, também não faltam tempestades de notícias sobre o assunto. Depois há muitos amigos que se tornam “militantes” da noite para o dia e, quando menos percebe, até você está lá, loucamente “militando”. Tudo se passa como se fossemos de fato protagonistas de nossa história. Compartilhamos textos e mais textos na esperança de que o outro olhe pelo mesmo prisma que o nosso. Lemos outros e ficamos abalados, mas não há tempo a perder. A data das urnas está chegando e é preciso agir. E agir significa compartilhar.

Depois de ficar completamente tomada por esta prática insana a ponto de colocar minha vida diária – na qual existe filhos, marido, trabalho e pesquisa acadêmica – em suspenso, resolvi desativar temporariamente a conta do meu Facebook. Aberta para novas janelas, que não aquelas de meu “feed de notícias” e da Folha que chega diariamente na minha casa, quis continuar atenta aos acontecimentos. Abro hoje, pela primeira vez, a página do Estado de S. Paulo na internet.

Impacto. É uma propaganda tão descarada que não vale o desperdício de tempo para comprová-la. Quem entende de publicidade sabe que aquilo que se elege, o que se edita, a foto, a luz e o ângulo escolhidos, as palavras selecionadas fazem toda a diferença. Os poucos aspectos destoantes – ou opiniões divergentes – servem, sobretudo, para exaltar a perfeição daquilo que se destaca. E está tudo lá, evidente o tempo todo. Duas fotos lado a lado. Em uma, Dilma, como se estivesse partindo para a briga, dizendo “Quando nos desafiam a gente encara”. A foto? Puxa, quem visse a foto… Aécio, na foto ao lado, é o galanteador, típico de novelas globais, que beija as mãos de Marina Silva, pela primeira vez com seus cabelos ao vento e o sorriso aberto. A manchete logo abaixo da foto mudou ao longo do dia. Na primeira havia: “Estou vivendo um dos momentos mais importantes de minha vida”. Na que veio mais tarde estava escrito: “Aécio defende que denuncia feita a tucano seja investigada” – uma resposta rápida à manchete da Folha sobre o envolvimento do PSDB nos desvios da Petrobrás. Perfeito. Sem conflitos e na base da paz e do amor (antigo slogan da eleição de Lula) é possível que a “mudança”  caminhe rumo ao comando do Brasil.

O que há de verdade nisso tudo? O massacre diário contra o PT é um massacre contra o que se construiu em anos de trabalho, com todos os terríveis defeitos, mas com infinitos méritos – é preciso reconhecer. Massacre fantasiado de notícia policialesca e moldado pela estética jornalística. Mas atenção: nada disso retrata o ódio ao PT, que teria tido sua “chance” no palácio sem saber aproveitá-la – o velho e preconceituoso discurso. Os petistas se enganam com seu ódio aos tucanos, assim como estes também se iludem ao combater o suposto inimigo “de esquerda”. Se Lula enalteceu durante anos o discurso da “herança maldita” foi porque ele também ganhou um grande respaldo para isso no noticiário dessa imprensa, que agora ataca o governo do PT. Mesmo com muito receio, os donos do Grande Capital estavam desanimados com os estreitos rumos da economia do país na época FHC e, embora com muita desconfiança, voltaram seus olhos para Lula. Certo entusiasmo com os compromissos assumidos, pelo ex-presidente Lula, de dar a todos os brasileiros uma vida melhor, sem prejudicar em nada os de cima, foi um sinal de que a vitória do PT talvez não fosse tão ruim.

Podia ser bom negócio, na medida em que faria girar a economia, travada pelas velhas receitas de baixos salários e, portanto, baixo consumo – tudo para conter a inflação. Chegamos agora ao limite desse modelo conciliatório oferecido por Lula e continuado por Dilma. “Hora de retroceder”, pensam esses mesmos setores, alinhados ao mercado, “ou vamos experimentar abalos inexoráveis” – não esqueçamos que no topo da pirâmide estão, por exemplo, irmãos Marinho e família Civita. Se o esquema previsto pela grande imprensa (Globo, dos Marinho e Veja, dos Civita, entre outros), alimentada pelo terrorismo do mercado, não furar, isto é, se Dilma perder, teremos anos de governo tucano relativamente harmônico, com notícias predominantemente favoráveis ao governo, e futuros escândalos como os que temos assistido agora – a corrupção já está anunciada, como se sabe, na hora do financiamento das campanhas. Será sinal, mais uma vez, de que o mercado está insatisfeito. Sem a distribuição de renda realizada pelo PT e com a tradicional política econômica que já conhecemos – e não se iludam, a visão tucana é exatamente a mesma ainda hoje – o capital deixará de girar, já que não haverá, mais uma vez, consumo desejável. Ou seja, se no começo tudo caminha às mil maravilhas, depois a economia passará a emperrar sem compra e venda da produção.  Será a hora de mudar justamente para manter tudo exatamente igual na velha pirâmide do país. O valorizado discurso da “alternância de poder” é enfatizado principalmente neste momento, sem levar em conta a história brasileira de dominação pela direita. Teremos mais tempestades de “notícias” contra a corrupção tucana e o teatro da democracia mais uma vez dirigido pela grande imprensa. Os protagonistas afagados serão muito provavelmente os petistas, colocados agora em lugar vexatório por ela.

Nunca sairemos disso, a não ser que se passe a furar scripts. O furo do momento é a vitória do PT. No primeiro turno a ousadia do improviso poderia ter sido maior, mas gostamos de seguir aquilo que já estava no receituário. E nesse mundo pronto, lotado de maquiagem e belos passos de valsa ensaiada, um grotesco “feed de notícias”, saturado de selvagerias, é o melhor dos mundos. Se for possível desviar da rota larga e fácil, bem asfaltada pela grande imprensa, poderemos realmente imprimir um traço nosso nesta história. Para isso é necessário resistir aos encantos da facilidade ofertada diariamente e improvisar em estreitas trilhas a serem desbravadas. É na miséria transbordante dos embates entre eleitores que ainda se concentra uma centelha de esperança – sempre com riscos pela árdua realidade que ela escancara. Se a miséria não se tornar repulsiva para muitos e o caminho pronto puder ser abandonado, teremos a vitória de Dilma. E aí esperamos que a vaidade do PT não se deixe acariciar pelos enganosos sorrisos dos grandes, voltando seus olhos para os setores de esquerda que não estão sob os iluminados holofotes. A vitória seria apenas um pequeno começo. Se acontecesse, porém, ela imporia de saída, aos doutos de plantão, um diálogo mais amplo, aberto e verdadeiro sobre os rumos da economia no Brasil. Esses alardes diários não nos levarão muito longe.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Edson Teles: Eu voto Dilma!

14.10.23_Edson Teles_Eu voto Dilma[Márcia Belarmina da Paixão, na ocupação Copa do Povo]

Por Edson Teles.

No dia 26 de outubro, mais de 130 milhões de brasileiros terão a obrigação de escolher o próximo governo do país. Ainda que seja obrigatório o voto no sistema político brasileiro, cerca de 40 milhões dos que são lançados neste passo formal da democracia simplesmente não escolheram nenhuma das opções em jogo no primeiro turno. Muitos desses votos são considerados inválidos, apesar de registrarem, no mínimo, um descompasso entre boa parte dos brasileiros e o sistema político partidário.

Dentre eles, foram quase 6% dos eleitores brasileiros que anularam seus votos. Estive neste grupo no primeiro turno. Não localizei entre as candidaturas programa partidário com proposição de transformação radical da desigualdade social e da posse fraudulenta das riquezas do país, de discussão das formas de decisão política e da lógica de governo reinante no Estado de Direito brasileiro e nenhuma contestação contundente da militarização da política e da construção de uma democracia de segurança, violenta e repressiva, como vista nos últimos dois anos.

Votei nulo não para me colocar fora da luta política enfrentada dentro das instituições do Estado e do âmbito da democracia representativa. Foi a tentativa de registrar um protesto não ao jogo político que está sendo disputado, mas à ausência de um projeto de transformação profunda da realidade brasileira. Se este jogo está em aberto é necessário agir também dentro de sua lógica de conflito. O governo do sofrimento social e a abertura de possibilidades outras de ação política são questões fundamentais das atuais eleições.

E hoje, às vésperas da votação do segundo turno, o jogo em andamento apresenta-se com outras regras, nas quais se coloca a opção entre dois campos de forças da luta política institucional extremamente opostos.

É por esta razão que declaro meu voto em Dilma Rousseff.

Deixar de tomar uma posição frente ao candidato da direita brasileira, simulacro de uma política liberal e de mudança, significaria para esta minha leitura do jogo em disputa deixar vencer a opção do completo bloqueio de qualquer possibilidade criativa ao agir político, via a institucionalização de um governo fascista.

Para ser breve nesta declaração, atentemos para suas proposições sobre a reforma do Código Penal e de defesa do aprofundamento da política de encarceramento em massa, já vigentes desde anos 70 e cujo alvo é a juventude negra e pobre das periferias, indicando um modelo violento e racista da candidatura tucana.

Esta forma de governo das populações pobres não é projeto exclusivo deste candidato, nem mesmo pertence a um partido ou outro, mas à uma lógica de governo da elite econômica e política cujo projeto é o de uma democracia de roupagem liberal, mas de ação de controle da política e das formas de vida que resistem ao modelo capitalista de sociedade. Contudo, a candidatura tucana seria a estratégia mais aberta de repressão aos movimentos sociais e de controle dos processos de produção de subjetividades, como registrados nas manifestações de junho de 2013, ou nas ocupações de espaços e imóveis abandonados ou sem uso social.

Só para ficar em um exemplo, quando o MTST ocupou o terreno batizado de Copa do Povo em São Paulo, no primeiro semestre de 2014, iniciou-se o processo político que terminaria com uma grande vitória dos movimentos sociais, por meio da negociação entre governo federal e ocupantes concordando com a construção de moradias populares naquele espaço. O modelo tucano, visto poucos anos antes, foi o da desocupação de Pinheirinho, com a violência desmedida da Polícia Militar mesmo diante de liminares da Justiça adiando a operação de despejo.

A aliança heterogênea da candidata Dilma apresenta contradições que abrem maiores campos e possibilidades de conflitos políticos dentro de uma lógica menos agressiva aos movimentos sociais e às reivindicações das minorias. Para combater o projeto autoritário de democracia que ganha terreno em nosso país, a candidatura do PT à presidência apresenta aos movimentos sociais e em luta uma brecha maior de construção de ações criativas de resistência e combate à militarização da política.

Voto em Dilma Rousseff não por acreditar que seu segundo governo resolverá os principais problemas nacionais. Voto em Dilma por uma estratégia de resistência em favor de uma democracia efetiva e radical. Derrotar o projeto fascista tucano é saber que o dia seguinte às urnas será mais um dia de luta.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Edson Teles é autor de um dos artigos que compõe a coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, que tem sua versão impressa vendida por R$10 e a versão eletrônica por apenas R$5 (disponível na Gato Sabido, Livraria da Travessa e outras).

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Albertina

14.10.22_Izaias Almada_Albertina

O colunista relata ter se emocionado com a reação da entrevistada ao ler o artigo para ela, que assim se expressou: “quer dizer que agora sou gente?”

Por Izaías Almada.

Albertina trabalha como diarista em algumas casas em São Paulo. “E com muito orgulho”, diz ela.

Albertina Rodrigues de Oliveira nasceu em Macaúba, interior do Piauí, próximo ao município de Floriano, em 1947, na fronteira com o Maranhão. Filha de Norberto José de Oliveira e de Maria Rodrigues de Oliveira.

Floriano, cidade às margens do rio Parnaíba, tem o nome em homenagem ao marechal Floriano Peixoto, militar nacionalista que governou o país em substituição a Deodoro da Fonseca dois anos após a Proclamação da República em 1889.

Albertina veio para São Paulo em 1978 depois de passar um ano em Fortaleza no Ceará. Seus pais, ainda vivos, o pai com 91 anos e a mãe com 88, tiveram nove filhos, dois já falecidos. Albertina é a filha mais velha.

Começou a trabalhar ainda novinha para ajudar os pais, mas ainda assim conseguiu estudar até o terceiro ano do Curso Normal. Alfabetizou-se no campo, na zona rural piauiense com a professora Maria Olívia, de quem nunca se esqueceu.

Sua infância foi difícil como a de qualquer criança nascida no interior do Piauí na primeira metade do século XX, trabalhando na roça e ajudando a criar os irmãos mais novos.

Quem já não ouviu histórias semelhantes?

Contudo, Albertina tem suas próprias histórias e suas particularidades. Tem histórias que só ela viveu, como cada um de nós.

Quando veio para São Paulo tomou um susto. Nos primeiros dias teve medo, vida extremamente penosa, agitada, quis voltar no primeiro ônibus, mas achou que seria covardia de sua parte. Resolveu ficar.

Católica, embora não acredite no inferno e nem no diabo. Para Albertina o inferno é aqui mesmo. E como disse o filósofo Jean-Paul Sartre, esse inferno são os outros.

Uma das histórias de Albertina aconteceu no ano de 1990 quando foi visitar os pais, após uns bons anos sem vê-los. Conheceu Luiz Inácio Lula da Silva em Floriano e ficou encantada e ao mesmo tempo assustada com todas aquelas bandeiras vermelhas. As coisas que ouvia dizer do PT assustavam-na e, naquela época, costumava votar no PMDB.

Na ocasião ouviu do pai, homem de poucas palavras, uma espécie de vaticínio sobre Lula: “nessa eleição ele não entrou, mas entrará em duas seguidas… Esse homem vai dar certo”.

Até hoje o pai de Albertina, com seus 91 anos de idade, não admite que se fale mal de Lula. Em época de eleições, pede para o levarem de Macaúba até Floriano para poder votar no PT.

Emotiva, Albertina diz que se encantou com Lula quando soube de sua atitude em pedir para ir ao enterro da mãe quando esteve preso.

Quando veio para São Paulo Albertina conheceu Bernadette Figueiredo com quem trabalha até hoje. Bernadette explicou-lhe muitas coisas sobre o Partido dos Trabalhadores e hoje vota no PT e defende com bastante convicção os governos de Lula e Dilma, sobretudo pelo que viu acontecer no nordeste e no seu Piauí.

É testemunha viva dessa mudança e cita os programas Luz para Todos e Bolsa Família, entre outros, como programas que estão redimindo o nordeste e boa parte do povo brasileiro.

“Dilma continuou o programa de Lula e fez ainda melhor”, diz Albertina.

E sobre as declarações do sociólogo FHC a respeito da votação de Dilma no nordeste?, perguntei a Albertina.

“Erro de avaliação”, respondeu… “Ele é que está desinformado sobre o nordeste e sobre o Brasil”

E arrematou: “Vou votar na Dilma domingo porque, além de tudo, é uma pessoa inteligente. Sabe explicar tudo direitinho para as pessoas mais simples. Com ela o país tem melhorado e vai melhorar ainda mais”.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Lições de Junho: culpa do PT e hipocrisia de FHC

14.10.22_Yuri_Culpa e hipocrisiaBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Yuri Martins Fontes.*

O cenário trágico eleitoral que se apresentou nas eleições deste ano, com reforço significativo das alas mais conservadoras, racistas, fundamentalistas e intolerantes do espectro político nacional, revela a “culpa do PT” – que a mídia tanto alardeia com argumentos vazios: o PT despolitizou os trabalhadores, despolitizou os sindicatos e despolitizou por fim a própria esquerda, que se perdeu desde a vitória de 2002.

Com a juventude rebelde que cresceu durante os 12 anos de lulismo, não seria diferente: sujeita a ambas as despolitizações, enquanto sujeitos críticos (por parte do PT) e enquanto progressistas (por parte da mídia conservadora). A  juventude de tendência anarquista, subversiva, que falou alto nas ruas do junho passado, agora se cala. Não consegue enxergar nenhum rumo. Diante da neblina, da visão curta, talvez cansada da mesmice, do freio de mão puxado do petismo-paz-e-amor que se equilibra entre reformas sociais e interesses empresariais, os jovens formadores de opinião da nossa tradicionalmente simplória “classe média” se apegam ao pouco conceito que ainda logram compreender: “mudança”. “Mudar” – é a palavra de ordem.

Entretanto, o petismo nada fez para mudar essa pecha trágica herdada do colonialismo: a elite “xucra” de que falava Caio Prado Júnior sobre sua classe, continua tendo por reflexo classes médias de pouca leitura, pouca profundidade de análise, que no afã de mostrar algum valor individual crítico, expõem sua maior ignorância: o desconhecimento completo de seu próprio “interesse de classe”, sua ambição tola por um “consumo” de elite (aliás insustentável – embora, como se vê, os Verdes se aliem a fascistas neste país improvável).

A culpa é do PT. O petismo aumentou a qualidade de vida material, mas se “esqueceu” de melhorar o ensino e de “civilizar” a imprensa. Investiu mais em emprego, consumo e diplomas, do que em consciência do trabalhador, cultura geral e conhecimento crítico.

E Fernando Henrique, a velha raposa, como “marxiano” que é (ou seja, aquele estudioso que percebe a genialidade do marxismo, porém o usa apenas em parte, de modo a não ameaçar o status quo), o professor tucano não pode ter se esquecido do que leu (ainda que o tenha do que escreveu) – sabendo pois o quanto está sendo hipócrita ao dizer que o eleitor de Dilma é ignorante ou desinformado. Pelo contrário, o povo mais humilde, com menos acesso à educação formal, ao ser desprovido de informação técnica, ainda consegue ter a sensibilidade de dar valor à sua intuição humana, única arma que lhes resta. Assim, talvez ao pensar na fome que passou, no futuro dos filhos que já trabalham, preserva a lembrança de que há muito pouco tempo ele e sua família se tornaram gente “humana” (às vistas do Estado) – e intuitivamente vota segundo seu “interesse de classe”. Portanto vota inteligentemente – no sentido de que age para si, pelos seus.

Já o semianalfabeto mediano que em geral compõe a burguesia brasileira tucana, desde a pequeno-burguesia ascendente, ao novo empresário que jamais leu um livro inteiro (nem mesmo um “tipo assim” Harry Potter), e mesmo a classe média mais alta e cultivada, que leu  Dostoiévski, ainda que sem compreender bem suas derivações psicológicas macabras: estes todos, os “bem informados” pela Universidade do Estado-Folha-Veja-Globo e seus manuais amorais em louvor da deusa “competitividade”, sendo educados pela metade, não alcançam a perceber, perdidos em meio a tanta informação inútil que lhe chega da imprensa parcial e sem conteúdo, este conceito tão simples (ainda presente intuitivamente naquele que tem medo da fome): o “interesse de classe”.

Como observa Nietzsche, amparado pela longa tradição da sabedoria oriental (ao criticar a “decadente civilização ocidental burguesa-cristã”): “É melhor não saber nada que saber muita coisa pela metade”. E o pior ocorre quando esta metade é o exato ponto de vista do grupo “opositor”, da gente “diferenciada”, a “metade” cujo grande pedaço de bolo, sendo maior ou menor, não caberá a quem trabalha. É esta metade tresloucada, atucanada por 5 séculos, quem vota contra seus interesses de classe – e não o eleitor de Dilma, como quer sugerir o decrépito marxiano.

Deste modo, o fenômeno surreal que ora se apresenta é este: a galinha vota com o lobo – a classe média recém-ascendente, ao lado de boa parte do povo, puxado pelo inflamado movimento anárquico de Junho de 2014, cansados da lentidão petista, percebendo o PT como mais um partido da ordem que de fato é (e portanto corrompido por interesses empresariais como todos os que se metem na política eleitoreira com chances de se eleger) – os tão ávidos por mudanças, gritando por transformações, querendo tudo mudar e sem demora, ao invés de promover pressão sobre o partido que de leve acena a uma política social, pelo contrário, votam a favor de sua classe antagônica, seus inimigos sociais naturais: votam pela mudança regressiva ao mais arcaico.

E para constatar o grau de estupidez desta atitude – esta sim uma “ignorância” como quer FHC –, não é preciso ir longe: basta observar com quem andam, diz a sabedoria popular. Vejamos: os tais arautos das “mudanças” estão hoje, ao lado dos militares (torturadores do Círculo Militar, oficiais da PM, etc) que os espezinham à porta de casa e assassinam seus filhos, dos felicianos e bolsonaros que pregam seu medieval integralismo ariano-hetero-cristão, dos especuladores das bolsas de valores e demais crápulas da jogatina financeira que jamais produziram um prego. Enfim, os “rebeldes” estão alinhados com os neoliberais que põem a “liberdade” dos lucros bancários, antes das migalhas dos programas sociais; da direita elitista mais mesquinha – e míope (pois que sequer enxerga as vantagens que lhe cabe em se diminuindo a desigualdade).

Os ignóbeis de FHC votam enfim no que lhes propõe a mídia, o “partido” da imprensa golpista, porta-vozes de uma classe que não é a sua – e votam (creem eles) “conscientemente” – pois essa é a pouca informação que lhes coube neste mar de lama da cultura geral. No pouco tempo que têm após o trabalho, o copo com os amigos e os games, tudo que sabem vem do jornal enlatado, da televisão infantil, dos fragmentos de notícias da mídia empresarial, das manchetes de revistas penduradas nas bancas.

E a culpa aqui também é do PT: pois não teve coragem de enfrentar uma mídia que mais do que suja, começa visivelmente a apodrecer (veja-se a Veja, que de discretamente fascista, passou a neonazista declarada; ou a Folha que propaga a “imparcial” publicação de opiniões divergentes, mas demite Xico Sá, permitindo espaço só aos rasos papagaios reinaldos-azevedos).

Que irônica essa contraditória conclusão das Revoltas de Junho: a tão rebelde e livre classe média, sem comando nem partido – anárquicos que queriam o céu, arrebanhados, ajoelham-se a candidatos que vão lhes tolher seus pequeninos direitos humanos (ao invés de “apenas” manter aquele partido lento, culpado é verdade, mas que sem avançar, preservava suas míseras melhorias).

E como todo Estado é a ditadura de uma classe – estamos próximos a entrar na ditadura dos Jardins, daquele grupo mais mesquinho que culpa pelo trânsito o trabalhador que agora tem automóvel, e que não tolera que o metrô chegue a Higienópolis ou que haja museu público na Avenida Europa ao lado das lojas de carros importados: o grupo social mais conservador, mais opressor, mais rígido frente ao apelo social, e mais permissivo com os lucros vergonhosos do 1% sobre o trabalho dos 99%. Não à toa Mariátegui ponderou que “o anarquismo é a extrema esquerda do liberalismo”.

A culpa é do PT, por durante mais de uma década ter valorizado somente o ter, à revelia do ser – por não ter sabido construir uma nova classe média formadora de opinião minimamente culta, que pudesse compreender que o aumento matemático do PIB não traz diretamente qualidade de vida, que o conhecimento não serve apenas para se ler gráficos econômico-estatísticos, mas antes de tudo deveria servir para resolver o problema humano de 99% da população – que em última análise será o dos 100%.

A situação ao que parece, em breve se agravará. Vê-se a Europa e Israel como exemplos da intolerância e ascensão nazifascista. Mas ao menos um ponto pode acalentar aos espíritos mais desapegados (ou menos prejudicados economicamente para sobreviverem e ver): também os 1% hão de sentir em curto prazo a fúria do declínio da civilização ocidental, já programada por tantos pensadores há mais de século, mas que agora se acentua.

O extremismo islâmico não é mais que o reflexo da intransigência ocidental. Como a mediocridade crítica, característica geral das classes médias tucanas, ao contrário da falácia de Fernando Henrique, não passa de reflexo do “baixo nível cultural e político” das elites brasileiras (o que Caio Prado ressalta nos anos 1970 com tanta propriedade, posto que ele nasceu, conheceu e traiu esta classe) –, o que tem por consequência uma “deficiente educação” que impregna a sociedade como um todo:

“A burguesia [...] isolada dos centros propulsores da moderna civilização e cultura”, “sem passado nem tradição”, mantém seus “baixos padrões culturais […], reduzidas aspirações e baixo nível ideológico” – e isto persiste por entre a “generalidade dos empresários”
(Caio Prado, A Revolução Brasileira, p.166, ed. 1966; Formação do Brasil Contemporâneo, p.355, ed. 2000).

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Yuri Martins Fontes é tradutor, jornalista (política internacional e cultura), fotógrafo e professor, atualmente é doutorando em História Econômica, com a tese Formação do Pensamento Latino-Americano Contemporâneo: Crítica do Conhecimento, Desenvolvimento e Economia Nacional em Caio Prado Jr. e J. C. Mariátegui, orientada por Lincoln Secco. Traduziu, entre outros, Defesa do marxismo (Boitempo, 2011), de Luiz Carlos Mariátegui e Revoluções (Boitempo, 2009), organizado por Michael Löwy.

O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

Dois Brasis?

14.10.22_Emir Sader_Dois Brasis_

Detalhe da capa de “Os dois Brasis”, de Jacques Lambert (Col. Brasiliana n° 335, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 5a. ed., 1969)

Por Emir Sader.

Era o titulo de um livro de muito apelo de um economista francês – Jacques Lambert. Era o resgate da modernidade do centro-sul e do sul contra o atraso e a miséria do nordeste. Era o Brasil europeu contra o Brasil africano.

Era uma foto, mas pretendia ser um diagnostico. A imigração nordestina para São Paulo era o resgate generoso da civilização em relação aos famintos, aos miseráveis, aos paus-de-arara.

A direita brasileira, ainda mais tendo São Paulo como sua cabeça, sempre agiu como se fosse a portadora da civilização contra a barbárie. Como uma espécie de Israel cercado de povos incultos, miseráveis, violentos, que se movem pelos instintos, enquanto eles personificariam a razão.

O futuro seria dado pela expansão do polo moderno, industrializado, urbanizado, que iria absorvendo, isolando, derrotando ao polo do atraso, do mundo rural, agrícola. A pujança de São Paulo e sua liderança nacional estaria dada por essa função dinamizadora e modernizadora do pais. “São Paulo é a cidade que mais cresce no mundo: 4 casas por hora.” “São Paulo não pode parar.” Esses lemas, correntes nos anos 1950, eram a atualização dos “ideais de 1932”. Da São Paulo vanguarda do Brasil, que trazia a modernidade do primeiro mundo para o terceiro.

Sabe-se no que deu essa São Paulo que construía 4 casas por hora: naquela que tem mil carros por dia entrando no trânsito, tornando a vida na cidade insustentável. Tornando São Paulo uma cidade desumana, desigual, cruel, que precisa, de forma urgente e prolongada, de políticas que a humanizem de novo.

Na campanha eleitoral atual, analistas levantam de novo a tese de que haveriam dois Brasis: um em torno da modernidade e do progresso, em torno da “rica” e “bem informada” São Paulo, o outro em torno da “atrasada”, pobre e “mal informada”, do nordeste. Se ganhar o primeiro Brasil, voltaríamos à integração subordinada ao centro do capitalismo, como periferia subordinada. Se continuasse a triunfar o segundo, continuaríamos a orbitar em torno do Sul do mundo e da América Latina.

O país estaria dividido, quem quer que ganhe. A diferença essencial é que se triunfar o candidato da elite paulista, promoveria um brutal processo de exclusão social como o Brasil nunca viu, porque com os governos do PT a massa pobre da população conquistou direitos que nunca tinha tido. Será necessário um gigantesco processo de exclusão social para despojá-la, pela força desses avanços. Seria a opressão de um dos Brasis sobre o outro. Seria o aprofundamento da fratura social que sempre caracterizou o nosso país.

Enquanto que o outro projeto vai na direção oposta, a da integração dos “dois Brasis”, pela diminuição das desigualdades sociais. Essa a grande disputa desta eleição: a continuidade do Brasil que integra contra o retorno do Brasil que desintegra.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

As eleições presidenciais e os cenários da política brasileira

14.10.21_Carlos Eduardo Martins_As eleições presidenciais e os cenários da política brasileiraPor Carlos Eduardo Martins.

O segundo turno da política presidencial no Brasil coloca frente a frente dois projetos: o neoliberal, liderado pelo PSDB e representado na candidatura de Aécio Neves; e o de uma centro-esquerda, a la terceira via, que ensaia as bases de um capitalismo de Estado, liderado pelo PT e pela candidatura de Dilma Rousseff. Se o caráter extremamente disputado desta eleição sinaliza para um esgotamento da hegemonia do projeto petista, tal como ele aqui foi elaborado, uma eventual vitória de Aécio Neves representará uma drástica regressão nas conquistas alcançadas nos últimos anos, entre elas, a projeção que o Brasil alcançou no cenário internacional.

O esgotamento da hegemonia petista está vinculado à presença que o capital financeiro continua a exercer sobre o Estado brasileiro, comprometendo com juros e amortizações mais de 40% do orçamento público federal. Ainda que os governos Lula e Dilma tenham reduzido dramaticamente as taxas de juros reais na economia frente às do período de Fernando Henrique Cardoso, elas permanecem acima das taxas de crescimento do PIB, mantendo o pagamento de juros na faixa de 5% do PIB. Tal comprometimento limita os recursos investidos em saúde, educação, transporte e infraestrutura pública – um dos motivos dos protestos de junho de 2013, que reivindicavam qualidade nos serviços públicos e que derrubaram a popularidade da Presidenta Dilma da faixa dos 70% para a dos 30-40%. Assim, as pesquisas para as eleições presidenciais apontam que enquanto Dilma vence com folga na faixa de renda familiar de 1 até 2 salários mínimos, onde os programas de renda mínima, como o Bolsa Família, atuam com força, na faixa de 2 a 5 salários mínimos perde a liderança para Aécio por 54% a 46%.

Embalando a candidatura de Aécio Neves está uma pretensa ofensiva ideológica midiática da direita contra a corrupção que se aproveita da queda de popularidade de Dilma, para atribuí-la aos governos petistas, propondo difusamente uma nova política que Marina se propôs a representar e que lança desconfiança aos partidos políticos tradicionais, pretendendo estabelecer uma reforma que viabilize candidaturas avulsas e independentes. O apoio de Marina a Aécio no segundo turno, candidato cuja carreira precoce associou-se aos laços familiares com velhos políticos tradicionais, enfatiza o caráter altamente retórico desta proposição. A ofensiva ideológica da direita conta com pouquíssima sustentação empírica, se compararmos as práticas políticas do PT com as dos partidos de direita. Ilustrativo a este respeito é o ranking de corrupção comprovada fornecido pelo MCCE, onde o PT ocupa a 9ª posição com 2,9% dos políticos cassados, enquanto o DEM e o PSDB ocupam a 1ª e 3ª posição, respectivamente, com 20,4% e 17,1% das cassações.

Dois caminhos para a direita

Uma eventual vitória de Aécio Neves colocaria duas possibilidades de projeto de governo para a direita neoliberal. A primeira e mais provável, uma versão de governo similar ao de Fernando Henrique Cardoso. Se deslancharia uma nova onda de privatizações cujo alvo principal é a Petrobrás. Durante a gestão de FHC se vendeu 30,7% das ações da empresa na bolsa de Nova York e 8% estão nas mãos de investidores estrangeiros no Brasil, o que leva a empresa remeter 40 % dos seus lucros para o exterior. Hoje a União possui apenas 55% do capital votante da Petrobrás. A perda do controle acionário da União implicaria a transferência ao exterior com fortes repercussões sobre o Pré-Sal, cuja alienação se completaria com o cancelamento do modelo de partilha, através do qual o Estado brasileiro exerce controle majoritário sobre as decisões de investimento. A onda de privatizações poderia se desdobrar dos bancos estaduais (privatizados na gestão de FHC) para os federais, e se reduziria drasticamente o papel do credito público através do BNDES. Estabelecer-se-ia uma política monetária de elevação das taxas de juros com fortes pressões fiscais, que implicariam na contenção salarial do funcionalismo público, das aposentadorias, do valor do salário mínimo e dos programas sociais. No plano da política externa se praticaria o alinhamento aos Estados Unidos, desmontando-se a política em bloco do Mercosul, principalmente com a entrada da Venezuela, baixando-se o perfil da UNASUL e dos BRICS. Os efeitos sobre o tabuleiro político da região seriam notórios, particularmente sobre a Venezuela que enfrenta grave situação de crise cambial e encontra no Brasil um aliado com poderosas reservas internacionais, respaldadas pela arquitetura financeira de um BRICS em construção. A aplicação deste receituário de políticas públicas provocaria uma forte explosão social no país, de impactos imprevisíveis.

Outra possibilidade para a direita, que é improvável – pelo perfil dos integrantes de uma futura equipe de um governo Aécio Neves, fortemente ligados ao rentismo (como Armínio Fraga) –, mas teoricamente possível, é uma política de redução das taxas de juros que se combine às demais anteriormente apresentadas. Da mesma forma que o PT usou a sua presença junto aos movimentos sociais para conter suas reivindicações, o PSDB poderia utilizar sua presença junto ao empresariado para fazer o mesmo, limitando o rentismo em troca de privatizações e da entrega da soberania brasileira sobre recursos estratégicos, em particular o Pré-sal. Neste caso, poder-se-ia manter os recursos para os programas sociais e até ampliá-los, colocando em risco a base política conquistada pelo PT entre os segmentos de 1 a 2 salários mínimos, que poderiam fluir para o PSDB, trazendo novamente o Nordeste para a direita. Tal cenário seria extremamente negativo para as esquerdas, que isoladas socialmente, ofereceriam pouca resistência à entrega de empresas e reservas estratégicas da economia brasileira. O Brasil se converteria num polo de atração conservadora na América do Sul, desestabilizando o equilíbrio de forças na região e isolando as experiências de capitalismo de Estado de base popular que prosperam em nosso continente.

Dois caminhos para a esquerda

Para o PT, a vitória de Dilma colocaria dois cenários. Caso se mantenham as políticas públicas vigentes, o cenário provável é de desgaste crescente, abrindo o espaço para a crise de governabilidade com a eleição de um congresso conservador e com o desprendimento de parte da base aliada, o que pode se aprofundar durante o mandato. Outra possibilidade é que o PT rompa com a hegemonia do capital financeiro sobre o Estado, baixando significativamente as taxas de juros reais, para um patamar inferior ao crescimento da economia. Tal alternativa permitiria ao governo Dilma impulsionar políticas sociais estruturais, elevando os investimentos em saúde e educação, transporte e infraestrutura, permitindo-lhe recuperar o apoio perdido nos segmentos de renda familiar de 2 a 5 salários mínimos e mesmo nos de 5 a 10 salários mínimos. Tal iniciativa permitiria retomar o dinamismo da economia em parte bloqueado pelos limites que a superexploração do trabalho – que constitui ainda a base da economia brasileira – coloca para o processo redistributivo. Ao reduzir o peso dos juros sobre os investimentos produtivos se poderia retomar um ciclo de acumulação com resultados políticos promissores a médio prazo, viabilizando uma forte elevação do nível de organização dos trabalhadores brasileiros.

Para fazer frente à hegemonia petista, a esquerda brasileira terá antes que superar seu enorme grau de atomismo, unificando candidaturas em torno de programas, mais que em torno de partidos, e fazer políticas defensivas anti-neoliberais, quando da impossibilidade de implementar uma agenda ofensiva. Do contrário continuará encastelada fora da história e da agenda de nosso povo

Nos próximos dias saberemos quais alternativas estão à frente no Brasil nos próximos anos.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Michael Löwy, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Um livro com o tupi nosso de cada dia

Mouzar ConvitePor Mouzar Benedito.

Por que você está na pindaíba?

Pode ser porque está desempregado, não? Ou porque tem emprego mas o salário é baixo. Ou porque estourou o cartão de crédito e paga juros muito altos, não sobra dinheiro pra nada. Ou porque o aluguel aumentou demais, o salário não acompanhou. Se é aposentado, então, pior ainda.

Mas os índios de língua tupi há séculos já podiam ficar na pindaíba, sem esses motivos.

É que pindá, em tupi, significa anzol. Iba, significa ruim. Então, pindaíba quer dizer anzol ruim. E nos povos que viviam em grande parte da pesca, anzol ruim é mesmo de deixar a pessoa sem ter o que comer.

Pindaíba é um dos mais de oitocentos e trinta verbetes do livro Paca, Tatu, Cutia! – Glossário ilustrado de Tupi, que escrevi em parceria com o Ohi (textos meus, ilustrações dele) e que acaba de ser publicado pela Editora Melhoramentos.

Não é um “dicionário”, pois não tem aquelas formalidades necessárias para isso, nem a estrutura de um dicionário. E em muitos dos verbetes conto alguma historinha relacionada a eles. Tem um pouco de informações históricas e humor.

Por exemplo: jabá. Não o jabá com sentido de propina que alguns artistas pagavam (ou pagam) para tocar suas músicas nos rádios. Esse tipo de jabá, índio não conhecia.

Mas também, originalmente, essa palavra não era sinônimo de carne seca. Jabá, em tupi, é fuga, fugir, fugitivo.

Antes de trazer escravos africanos para o Brasil (e depois também), os portugueses escravizaram índios. Mas quem é que gosta de ser escravo? Eles fugiam, e eram muito perseguidos para serem recapturados. Durante a fuga precisavam comer, mas não podiam parar para caçar, então levavam carne seca. Assim, a carne que se levava na fuga passou a ser chamada de jabá.

Deve ter alguém imaginando: então Jabaquara, nome de um bairro de São Paulo e outro de Santos, tem algo a ver com isso?

Tem. Quara é um sufixo tupi que significa refúgio, entre outras coisas. Então, Jabaquara significa “refúgio dos fugitivos”. É o mesmo que quilombo do idioma quimbundo. O Quilombo do Jabaquara (curioso, não? Falar quilombo do Jabaquara equivale a dizer “quilombo do quilombo”) de Santos era muito famoso, abrigou escravos fugitivos até à libertação dos escravos, em 1888.

Nomes que descrevem animais

Uma curiosidade da língua tupi é que os nomes que os seus falantes deram aos animais de certa forma falam de alguma característica deles. Por exemplo, jacaré significa “o que olha de lado”.

Você já viu uma cutia comendo uma espiga de milho? Ela pega a espiga com as patas dianteiras e fica de pé sobre as patas traseiras. Por isso, ganhou o nome cutia, que significa “o que come de pé”.

Paca significa esperta, ágil. Caçadores desse bichinho montavam armadilhas e tinham que ficar um tempão esperando escondidos, para pegar a danada. Daí surgiu o verbo paquerar, que hoje usamos para uma atividade mais agradável e mais ecológica, não é? Nada de matar animais silvestres.

Entre as aves, tem o jacu, que é desconfiado, cauteloso. Esse é o significado dessa palavra. E como roceiro, caipira, costuma ser também desconfiado e cauteloso, tem quem o chame de jacu, também.

Por falar em caipira, está aí outra palavra tupi. Tem quem a traduza por desconfiado ou tímido, mas seu significado literal é “morador do mato”. Mas que não se pense que caipira é imbecil. A palavra é usada de forma preconceituosa, mas o caipira tem uma cultura muito rica, e seu jeito de falar tem motivos históricos (ver embaixo: “Nheengatu e língua geral paulista”).

No Nordeste, em vez de caipira, falam – também preconceituosamente – tabaréu, que é “morador da taba”.

Cidades, rios, montanhas…

Em todos os estados brasileiros existem cidades com nomes de origem tupi, mesmo naqueles em que não se falava tupi. É que bandeirantes falavam tupi (ou melhor, a “língua geral paulista”) e jesuítas usavam esse idioma para se comunicar com os índios em geral e “criaram” uma língua a partir dos vários dialetos tupis. Então, tanto bandeirantes como os religiosos usavam o tupi para nomear rios, povoados etc.

No estado de São Paulo, base dos bandeirantes, há uma profusão de nomes tupis nas cidades. Alguns muito curiosos. Por exemplo: Pindamonhangaba e Itaquaquecetuba. Quem tem curiosidade por nomes deve saber que Pindamonhangaba é “lugar onde os homens fazem anzóis”, quer dizer, fábrica de anzol. Quicé é um tipo de taquara muito cortante, como faca. Tuba é coletivo, lugar que tem muito de alguma coisa. Taquaquicetuba, que depois virou Itaquaquecetuba, é lugar que tem muitas taquaras cortantes, do tipo quicé.

Bauru, ao contrário do que muita gente pensa, não tem nada a ver com sanduíche. É cesto de frutas. Poá é mão aberta. Itu é salto, cachoeira. Ituverava é cachoeira brilhante.

Alguns nomes de cidades podem até parecer “bíblicos”, mas são tupis. É o caso de Jacobina, na Bahia. Não parece algo relacionado a algum Jacó? Pois ele vem de já cuã apina, que quer dizer cascalho limpo, jazida de cascalho. O primeiro ouro que os portugueses garimparam no Brasil foi nessa jazida de cascalho, em 1718.

Os rios com nomes tupis são muitos. Paraguai, por exemplo, é rio dos papagaios, e Tocantins é nariz de tucano.

E as montanhas: quer nome mais bonito do que Mantiqueira (“chuva gotejante” ou “chuva contínua”)? No Nordeste tem a Chapada do Araripe, um lugar alto. Araripe é “sobre o mundo”.

Bom, há muita coisa que a gente fala pensando que está falando português, mas na verdade é tupi… ou português do Brasil. Pense em algumas palavras do nosso cotidiano: pereba, tapera, peteca, mingau, pamonha, guri, sapeca, carioca, maloca, pipoca…

Ah, quem é profissional do futebol sonha jogar no Morumbi, Itaquera, Pacaembu, Maracanã… tudo nome tupi.

E nome de gente? Moacir, Jaci, Moema… Vou contar o significado de apenas um: Araci é aurora, mãe do dia. Se uma mulher se chamar Aurora e outra Araci, elas são xarás. Epa! Por falar nisso, xará é uma palavra tupi, significa “o que tem o mesmo nome”.

Enfim, acho, modéstia à parte, que este é um livro que pode ser lido com prazer por adultos e por crianças. E está muito bem produzido, bonito. Convido a todos para o lançamento que será no dia 25 de outubro (sábado), das 16h às 19h, na Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena – São Paulo.

Quem preferir, pode acrescentar algo mais: vá à Festa do Saci, em São Luiz do Paraitinga. No sábado, dia 1o de novembro, haverá um seminário sobre cultura caipira a partir das 10h da manhã, e logo depois (a partir do meio-dia), no mesmo local faremos o lançamento. Vai ser no Centro Turístico e Cultural Nelsinho Rodrigues, na Rua Cel. Domingues de Castro, 33, no centro da cidade.

A vantagem de comprar no lançamento é que o Ohi vai além de dar um simples autógrafo: ele faz um desenho na hora.

Nheengatu e língua geral paulista

Os jesuítas queriam catequizar os povos indígenas e perceberam que quase todos os povos da faixa litorânea falavam dialetos de uma mesma língua, mas não tinham escrita, era uma língua exclusivamente oral. .

Resolveram então “unificar” esses dialetos e criar uma escrita para eles. Em São Paulo, chamaram de “língua geral paulista” e no norte “nheengatu”, que significa língua boa ou falar bem. Mas são línguas bem parecidas e costuma-se usar nheengatu também para o que se falava em São Paulo.

Em São Paulo e sua área de expansão só se falava a língua geral paulista. Depois da guerra em que os exércitos de Portugal e Espanha se uniram para combater os Guarani, apoiados pelos jesuítas, o Marquês de Pombal resolveu expulsar os jesuítas do Brasil e determinou que só se falasse português aqui. Isso foi em 1758. Mas não se muda de língua de um dia para o outro. As escolas passaram a usar só a língua portuguesa e todos os documentos tinham que ser escritos em português.

Demorou muito para assimilar o português, e muitos dos brasileiros do atual Sudeste preservaram o modo de falar nheengatu. No tupi não existe, por exemplo, a pronúncia L nem LH, que acabam virando R na pronúncia caipira (esse pessoal que resistiu ao “sotaque” português). Então, trabalho vira trabaio, por exemplo. Mulher é muié. E no tupi/nheengatu não existe R no final dos verbos, e isso foi mantido no “dialeto caipira”. Falamos fazê, trabaiá, coçá, brincá…

Mas não é só isso. Existem mais diferenças de pronúncia, presentes no nosso linguajar. Vale a pena estudar um pouco disso. Nosso livro é um começo, para os curiosos.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Leda Paulani: Terrorismo econômico

14.10.20_Leda Paulani_Terrorismo econômicoPor Leda Paulani.

Há exatamente 12 anos, o país vivia um clima muito semelhante ao de hoje, no que concerne às avaliações sobre o desempenho da economia e às suas perspectivas. Como é sabido, naquelas alturas colocava-se claramente a possibilidade de Lula chegar à presidência da República, na disputa com José Serra, do PSDB. Como isso não era do agrado das forças financeiras que protagonizaram e dominaram os dois mandatos de FHC, instalou-se um clima de terror que operava em todas as frentes, da mídia aos agentes do mercado, das análises “científicas” dos doutores das universidades às peripécias internas do próprio Banco Central. E tudo isso acontecia mesmo depois da Carta aos Brasileiros, em que Lula se rendia às pressões do mercado e prometia continuar ipsis litteris a política econômica em curso, garantindo a predominância do rentismo e os juros elevados que irrigavam os ativos dos credores. A ideia de que a economia iria se desfazer como gelatina, derreter como manteiga e sair do “controle” na hipótese de Lula vencer foi se disseminando despudoradamente e sendo “confirmada”, num claro movimento de profecia que se autorrealiza, pela queda das bolsas, subida do dólar e consequentes impactos sobre o nível de preços.

Nada disso encontrava muito respaldo nos dados, a não ser a marola provocada pelo próprio terrorismo. Apesar de um nível de reservas muitíssimo mais baixo que o de hoje e das três idas ao FMI em menos de quatro anos, os indicadores macroeconômicos usuais não estavam em colapso e não se verificava qualquer movimento parecido a uma fuga de capitais como a que ocorrera entre setembro de 1998 e janeiro de 1999 (esta sim, por sinal, indicadora de uma grave crise, pois ocorria mesmo com a garantia da permanência do capataz, reeleito em primeiro turno contra Lula nas eleições presidenciais de 1998).

A situação hoje é muito parecida. Basta girar o dial das rádios, virar as páginas da grande mídia impressa ou zapear pelos comentaristas econômicos da TV para ler e ouvir à exaustão que a inflação está fora de controle, que os gastos do governo passaram de todas as medidas, que o país perdeu sua credibilidade, que a economia brasileira, enfim, está à beira do abismo. Mas mais uma vez os dados desmentem esse coro histérico. Muito melhores do que em 2002, os parâmetros macroeconômicos estão absolutamente dentro do previsto, a inflação segue a trajetória de normalidade inaugurada em 2003 e não há vislumbre de fuga de capitais ou perda de investimentos externos. A desvalorização do dólar e queda das bolsas que acontecem em uníssono, se dão ao mero sabor da divulgação das pesquisas eleitorais.

Para não cansar o leitor vejamos apenas 3 desses parâmetros. Os investimentos externos diretos, a única parcela “saudável” dos fluxos internacionais de capital, apresentam-se, nos valores acumulados em 12 meses até junho, no mesmo nível histórico recorde dos últimos quatro anos, em torno de 64 bilhões de dólares anuais, muito mais elevado, por sinal, do que a média do quadriênio 2007-2010 (35,5 bilhões), é bem verdade que afetada pela crise internacional, mas igualmente bem mais elevada do que a média do quadriênio 2003-2006 (15,5 bilhões), ou 1999-2002 (25,1 bilhões), ou ainda 1994-1998 (18,7 bilhões), os dois últimos, além de tudo, beneficiados pela avalanche de privatizações executadas nos dois mandatos de FHC.  As reservas internacionais do país também se encontram em nível recorde, cerca de 380 bilhões de dólares. Como falar então de perda de credibilidade?

Consideremos agora a questão do déficit público. O atual governo é sistematicamente acusado de descontrole nas contas públicas, de estar gastando em demasia, sem preocupação com o resultado primário positivo que tem de produzir. Sem entrar no mérito de tal exigência, vejamos os dados. É verdade que o superávit primário vem apresentando uma trajetória de queda nos últimos quatro anos, mas, em média (2,2% do PIB), ele não é substantivamente inferior ao dos quatro anos anteriores (2,9% do PIB), ainda que relativamente menor do que os dos quadriênios 2002-2007 (4,3%) e 1999-2002 (3,5%). Mas, no que tange ao resultado nominal, que constitui de fato o resultado final das contas públicas, ainda que não valha nada para a ortodoxia econômica, pois o que interessa a ela é a sobra de recursos públicos (superávit primário) para o pagamento dos juros da dívida, os resultados são diferentes. Extrapolando dados de junho, chegamos a um déficit de 3% do PIB na média do quadriênio 2011-2014, um pouquinho maior do que o do quadriênio 2007-2010 (2,6%), mas bem menor do que os dos quadriênios 2003-2007 (3,6%) e 1999-2002 (5,7%). Só para efeitos de comparação, nos quatro anos findos em 2013, enquanto o déficit nominal brasileiro atingiu média de 2,7%, o déficit nominal da área do euro atingiu 4,1%, o dos Estados Unidos, 9,2%, o do Reino Unido, 8%, e o do Japão, 9,4% do PIB.  Não parece um tanto exagerado falar em total descontrole dos gastos públicos?

Finalmente a inflação. A histeria pelo fato de o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, calculado pelo IBGE) ter atingido o teto da meta (6,5% ao ano) e de poder vir a ultrapassá-lo em 0,25% encobre o fato de que mesmo com o valor de 6,75% para este ano, a média do quadriênio 2011-2014 será de 6,2%, pouco acima da média do quadriênio anterior (5,2%), mas abaixo da média do quadriênio 2002-2006 (6,5%), e muitíssimo menor que as médias dos dois quadriênios anteriores (8,7% em 1999-2002 e 9,4% em 1995-1998). Que outro nome encontrar senão terrorismo econômico para a reiterada acusação de que a inflação está fora de controle?

Qual a razão da histeria? A resposta não é difícil de adivinhar. A presidenta Dilma não conta com o apreço dos mercados financeiros. Ao longo de sua trajetória na cadeira de presidente, ela foi se afastando da cartilha ortodoxa que detinha ainda grande peso no governo (daí a inexistência de terrorismo econômico nas duas eleições seguintes) e tomando decisões pouco palatáveis para os interesses representados por esses mercados. A começar pela troca de comando do Banco Central, a presidenta teve a coragem de enfrentar o lobby bancário-financeiro, não só reduzindo a Selic, como utilizando os bancos públicos para forçar a queda dos vergonhosos spreads bancários, que ainda assim continuam muito altos. A heterodoxia econômica, que havia ficado completamente escanteada no início do período de 12 anos de gestão do governo federal sob o comando do PT, foi ganhando espaço no governo da presidenta, para horror dos mercados financeiros, que agora escutam estarrecidos pela voz do atual ministro chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante, que não será dada nenhuma guinada ortodoxa no segundo mandato da presidenta.

Sem saída, os mercados implantam o terror. Contam para isso com a preciosa ajuda da grande mídia impressa e rádio-televisiva e dos doutos pensadores da universidade, onde a cartilha ortodoxa tem domínio quase absoluto. Seu poder de influência é efetivo, pois, em parte, eles podem “produzir” os resultados mentirosos que alardeiam e difundem. Já vimos esse filme em 2002 e vimos também que consequências danosas ele teve, pois o terrorismo econômico foi funcional mesmo após as eleições, levando um governo supostamente de esquerda a ser mais realista que o rei e a “beijar a cruz” do neoliberalismo. Esperemos que agora esse trunfo ideológico a serviço do projeto conservador e reacionário encarnado na candidatura de Aécio Neves não seja suficiente para instalá-lo no poder e que, sendo vitoriosa a candidatura da presidenta, a política econômica se liberte de vez dos ditames da ortodoxia e retome o enfrentamento dos interesses financeiros, seguramente dos mais lesivos ao País.

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Leda Paulani, economista e doutora em Economia pelo IPE-USP, é professora do Departamento de Economia da FEA-USP e da pós-graduação em Economia do IPE-USP. É autora de Modernidade e discurso econômico (2005) e Brasil delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico (2008), ambos publicados pela Boitempo. Em 2013, com a eleição do prefeito Fernando Haddad, em São Paulo, foi escolhida para comandar a Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão. Colabora esporadicamente para o Blog da Boitempo esporadicamente.