Albertina

14.10.22_Izaias Almada_Albertina

O colunista relata ter se emocionado com a reação da entrevistada ao ler o artigo para ela, que assim se expressou: “quer dizer que agora sou gente?”

Por Izaías Almada.

Albertina trabalha como diarista em algumas casas em São Paulo. “E com muito orgulho”, diz ela.

Albertina Rodrigues de Oliveira nasceu em Macaúba, interior do Piauí, próximo ao município de Floriano, em 1947, na fronteira com o Maranhão. Filha de Norberto José de Oliveira e de Maria Rodrigues de Oliveira.

Floriano, cidade às margens do rio Parnaíba, tem o nome em homenagem ao marechal Floriano Peixoto, militar nacionalista que governou o país em substituição a Deodoro da Fonseca dois anos após a Proclamação da República em 1889.

Albertina veio para São Paulo em 1978 depois de passar um ano em Fortaleza no Ceará. Seus pais, ainda vivos, o pai com 91 anos e a mãe com 88, tiveram nove filhos, dois já falecidos. Albertina é a filha mais velha.

Começou a trabalhar ainda novinha para ajudar os pais, mas ainda assim conseguiu estudar até o terceiro ano do Curso Normal. Alfabetizou-se no campo, na zona rural piauiense com a professora Maria Olívia, de quem nunca se esqueceu.

Sua infância foi difícil como a de qualquer criança nascida no interior do Piauí na primeira metade do século XX, trabalhando na roça e ajudando a criar os irmãos mais novos.

Quem já não ouviu histórias semelhantes?

Contudo, Albertina tem suas próprias histórias e suas particularidades. Tem histórias que só ela viveu, como cada um de nós.

Quando veio para São Paulo tomou um susto. Nos primeiros dias teve medo, vida extremamente penosa, agitada, quis voltar no primeiro ônibus, mas achou que seria covardia de sua parte. Resolveu ficar.

Católica, embora não acredite no inferno e nem no diabo. Para Albertina o inferno é aqui mesmo. E como disse o filósofo Jean-Paul Sartre, esse inferno são os outros.

Uma das histórias de Albertina aconteceu no ano de 1990 quando foi visitar os pais, após uns bons anos sem vê-los. Conheceu Luiz Inácio Lula da Silva em Floriano e ficou encantada e ao mesmo tempo assustada com todas aquelas bandeiras vermelhas. As coisas que ouvia dizer do PT assustavam-na e, naquela época, costumava votar no PMDB.

Na ocasião ouviu do pai, homem de poucas palavras, uma espécie de vaticínio sobre Lula: “nessa eleição ele não entrou, mas entrará em duas seguidas… Esse homem vai dar certo”.

Até hoje o pai de Albertina, com seus 91 anos de idade, não admite que se fale mal de Lula. Em época de eleições, pede para o levarem de Macaúba até Floriano para poder votar no PT.

Emotiva, Albertina diz que se encantou com Lula quando soube de sua atitude em pedir para ir ao enterro da mãe quando esteve preso.

Quando veio para São Paulo Albertina conheceu Bernadette Figueiredo com quem trabalha até hoje. Bernadette explicou-lhe muitas coisas sobre o Partido dos Trabalhadores e hoje vota no PT e defende com bastante convicção os governos de Lula e Dilma, sobretudo pelo que viu acontecer no nordeste e no seu Piauí.

É testemunha viva dessa mudança e cita os programas Luz para Todos e Bolsa Família, entre outros, como programas que estão redimindo o nordeste e boa parte do povo brasileiro.

“Dilma continuou o programa de Lula e fez ainda melhor”, diz Albertina.

E sobre as declarações do sociólogo FHC a respeito da votação de Dilma no nordeste?, perguntei a Albertina.

“Erro de avaliação”, respondeu… “Ele é que está desinformado sobre o nordeste e sobre o Brasil”

E arrematou: “Vou votar na Dilma domingo porque, além de tudo, é uma pessoa inteligente. Sabe explicar tudo direitinho para as pessoas mais simples. Com ela o país tem melhorado e vai melhorar ainda mais”.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Lições de Junho: culpa do PT e hipocrisia de FHC

14.10.22_Yuri_Culpa e hipocrisiaBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Yuri Martins Fontes.*

O cenário trágico eleitoral que se apresentou nas eleições deste ano, com reforço significativo das alas mais conservadoras, racistas, fundamentalistas e intolerantes do espectro político nacional, revela a “culpa do PT” – que a mídia tanto alardeia com argumentos vazios: o PT despolitizou os trabalhadores, despolitizou os sindicatos e despolitizou por fim a própria esquerda, que se perdeu desde a vitória de 2002.

Com a juventude rebelde que cresceu durante os 12 anos de lulismo, não seria diferente: sujeita a ambas as despolitizações, enquanto sujeitos críticos (por parte do PT) e enquanto progressistas (por parte da mídia conservadora). A  juventude de tendência anarquista, subversiva, que falou alto nas ruas do junho passado, agora se cala. Não consegue enxergar nenhum rumo. Diante da neblina, da visão curta, talvez cansada da mesmice, do freio de mão puxado do petismo-paz-e-amor que se equilibra entre reformas sociais e interesses empresariais, os jovens formadores de opinião da nossa tradicionalmente simplória “classe média” se apegam ao pouco conceito que ainda logram compreender: “mudança”. “Mudar” – é a palavra de ordem.

Entretanto, o petismo nada fez para mudar essa pecha trágica herdada do colonialismo: a elite “xucra” de que falava Caio Prado Júnior sobre sua classe, continua tendo por reflexo classes médias de pouca leitura, pouca profundidade de análise, que no afã de mostrar algum valor individual crítico, expõem sua maior ignorância: o desconhecimento completo de seu próprio “interesse de classe”, sua ambição tola por um “consumo” de elite (aliás insustentável – embora, como se vê, os Verdes se aliem a fascistas neste país improvável).

A culpa é do PT. O petismo aumentou a qualidade de vida material, mas se “esqueceu” de melhorar o ensino e de “civilizar” a imprensa. Investiu mais em emprego, consumo e diplomas, do que em consciência do trabalhador, cultura geral e conhecimento crítico.

E Fernando Henrique, a velha raposa, como “marxiano” que é (ou seja, aquele estudioso que percebe a genialidade do marxismo, porém o usa apenas em parte, de modo a não ameaçar o status quo), o professor tucano não pode ter se esquecido do que leu (ainda que o tenha do que escreveu) – sabendo pois o quanto está sendo hipócrita ao dizer que o eleitor de Dilma é ignorante ou desinformado. Pelo contrário, o povo mais humilde, com menos acesso à educação formal, ao ser desprovido de informação técnica, ainda consegue ter a sensibilidade de dar valor à sua intuição humana, única arma que lhes resta. Assim, talvez ao pensar na fome que passou, no futuro dos filhos que já trabalham, preserva a lembrança de que há muito pouco tempo ele e sua família se tornaram gente “humana” (às vistas do Estado) – e intuitivamente vota segundo seu “interesse de classe”. Portanto vota inteligentemente – no sentido de que age para si, pelos seus.

Já o semianalfabeto mediano que em geral compõe a burguesia brasileira tucana, desde a pequeno-burguesia ascendente, ao novo empresário que jamais leu um livro inteiro (nem mesmo um “tipo assim” Harry Potter), e mesmo a classe média mais alta e cultivada, que leu  Dostoiévski, ainda que sem compreender bem suas derivações psicológicas macabras: estes todos, os “bem informados” pela Universidade do Estado-Folha-Veja-Globo e seus manuais amorais em louvor da deusa “competitividade”, sendo educados pela metade, não alcançam a perceber, perdidos em meio a tanta informação inútil que lhe chega da imprensa parcial e sem conteúdo, este conceito tão simples (ainda presente intuitivamente naquele que tem medo da fome): o “interesse de classe”.

Como observa Nietzsche, amparado pela longa tradição da sabedoria oriental (ao criticar a “decadente civilização ocidental burguesa-cristã”): “É melhor não saber nada que saber muita coisa pela metade”. E o pior ocorre quando esta metade é o exato ponto de vista do grupo “opositor”, da gente “diferenciada”, a “metade” cujo grande pedaço de bolo, sendo maior ou menor, não caberá a quem trabalha. É esta metade tresloucada, atucanada por 5 séculos, quem vota contra seus interesses de classe – e não o eleitor de Dilma, como quer sugerir o decrépito marxiano.

Deste modo, o fenômeno surreal que ora se apresenta é este: a galinha vota com o lobo – a classe média recém-ascendente, ao lado de boa parte do povo, puxado pelo inflamado movimento anárquico de Junho de 2014, cansados da lentidão petista, percebendo o PT como mais um partido da ordem que de fato é (e portanto corrompido por interesses empresariais como todos os que se metem na política eleitoreira com chances de se eleger) – os tão ávidos por mudanças, gritando por transformações, querendo tudo mudar e sem demora, ao invés de promover pressão sobre o partido que de leve acena a uma política social, pelo contrário, votam a favor de sua classe antagônica, seus inimigos sociais naturais: votam pela mudança regressiva ao mais arcaico.

E para constatar o grau de estupidez desta atitude – esta sim uma “ignorância” como quer FHC –, não é preciso ir longe: basta observar com quem andam, diz a sabedoria popular. Vejamos: os tais arautos das “mudanças” estão hoje, ao lado dos militares (torturadores do Círculo Militar, oficiais da PM, etc) que os espezinham à porta de casa e assassinam seus filhos, dos felicianos e bolsonaros que pregam seu medieval integralismo ariano-hetero-cristão, dos especuladores das bolsas de valores e demais crápulas da jogatina financeira que jamais produziram um prego. Enfim, os “rebeldes” estão alinhados com os neoliberais que põem a “liberdade” dos lucros bancários, antes das migalhas dos programas sociais; da direita elitista mais mesquinha – e míope (pois que sequer enxerga as vantagens que lhe cabe em se diminuindo a desigualdade).

Os ignóbeis de FHC votam enfim no que lhes propõe a mídia, o “partido” da imprensa golpista, porta-vozes de uma classe que não é a sua – e votam (creem eles) “conscientemente” – pois essa é a pouca informação que lhes coube neste mar de lama da cultura geral. No pouco tempo que têm após o trabalho, o copo com os amigos e os games, tudo que sabem vem do jornal enlatado, da televisão infantil, dos fragmentos de notícias da mídia empresarial, das manchetes de revistas penduradas nas bancas.

E a culpa aqui também é do PT: pois não teve coragem de enfrentar uma mídia que mais do que suja, começa visivelmente a apodrecer (veja-se a Veja, que de discretamente fascista, passou a neonazista declarada; ou a Folha que propaga a “imparcial” publicação de opiniões divergentes, mas demite Xico Sá, permitindo espaço só aos rasos papagaios reinaldos-azevedos).

Que irônica essa contraditória conclusão das Revoltas de Junho: a tão rebelde e livre classe média, sem comando nem partido – anárquicos que queriam o céu, arrebanhados, ajoelham-se a candidatos que vão lhes tolher seus pequeninos direitos humanos (ao invés de “apenas” manter aquele partido lento, culpado é verdade, mas que sem avançar, preservava suas míseras melhorias).

E como todo Estado é a ditadura de uma classe – estamos próximos a entrar na ditadura dos Jardins, daquele grupo mais mesquinho que culpa pelo trânsito o trabalhador que agora tem automóvel, e que não tolera que o metrô chegue a Higienópolis ou que haja museu público na Avenida Europa ao lado das lojas de carros importados: o grupo social mais conservador, mais opressor, mais rígido frente ao apelo social, e mais permissivo com os lucros vergonhosos do 1% sobre o trabalho dos 99%. Não à toa Mariátegui ponderou que “o anarquismo é a extrema esquerda do liberalismo”.

A culpa é do PT, por durante mais de uma década ter valorizado somente o ter, à revelia do ser – por não ter sabido construir uma nova classe média formadora de opinião minimamente culta, que pudesse compreender que o aumento matemático do PIB não traz diretamente qualidade de vida, que o conhecimento não serve apenas para se ler gráficos econômico-estatísticos, mas antes de tudo deveria servir para resolver o problema humano de 99% da população – que em última análise será o dos 100%.

A situação ao que parece, em breve se agravará. Vê-se a Europa e Israel como exemplos da intolerância e ascensão nazifascista. Mas ao menos um ponto pode acalentar aos espíritos mais desapegados (ou menos prejudicados economicamente para sobreviverem e ver): também os 1% hão de sentir em curto prazo a fúria do declínio da civilização ocidental, já programada por tantos pensadores há mais de século, mas que agora se acentua.

O extremismo islâmico não é mais que o reflexo da intransigência ocidental. Como a mediocridade crítica, característica geral das classes médias tucanas, ao contrário da falácia de Fernando Henrique, não passa de reflexo do “baixo nível cultural e político” das elites brasileiras (o que Caio Prado ressalta nos anos 1970 com tanta propriedade, posto que ele nasceu, conheceu e traiu esta classe) –, o que tem por consequência uma “deficiente educação” que impregna a sociedade como um todo:

“A burguesia [...] isolada dos centros propulsores da moderna civilização e cultura”, “sem passado nem tradição”, mantém seus “baixos padrões culturais […], reduzidas aspirações e baixo nível ideológico” – e isto persiste por entre a “generalidade dos empresários”
(Caio Prado, A Revolução Brasileira, p.166, ed. 1966; Formação do Brasil Contemporâneo, p.355, ed. 2000).

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Yuri Martins Fontes é tradutor, jornalista (política internacional e cultura), fotógrafo e professor, atualmente é doutorando em História Econômica, com a tese Formação do Pensamento Latino-Americano Contemporâneo: Crítica do Conhecimento, Desenvolvimento e Economia Nacional em Caio Prado Jr. e J. C. Mariátegui, orientada por Lincoln Secco. Traduziu, entre outros, Defesa do marxismo (Boitempo, 2011), de Luiz Carlos Mariátegui e Revoluções (Boitempo, 2009), organizado por Michael Löwy.

O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

Dois Brasis?

14.10.22_Emir Sader_Dois Brasis_

Detalhe da capa de “Os dois Brasis”, de Jacques Lambert (Col. Brasiliana n° 335, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 5a. ed., 1969)

Por Emir Sader.

Era o titulo de um livro de muito apelo de um economista francês – Jacques Lambert. Era o resgate da modernidade do centro-sul e do sul contra o atraso e a miséria do nordeste. Era o Brasil europeu contra o Brasil africano.

Era uma foto, mas pretendia ser um diagnostico. A imigração nordestina para São Paulo era o resgate generoso da civilização em relação aos famintos, aos miseráveis, aos paus-de-arara.

A direita brasileira, ainda mais tendo São Paulo como sua cabeça, sempre agiu como se fosse a portadora da civilização contra a barbárie. Como uma espécie de Israel cercado de povos incultos, miseráveis, violentos, que se movem pelos instintos, enquanto eles personificariam a razão.

O futuro seria dado pela expansão do polo moderno, industrializado, urbanizado, que iria absorvendo, isolando, derrotando ao polo do atraso, do mundo rural, agrícola. A pujança de São Paulo e sua liderança nacional estaria dada por essa função dinamizadora e modernizadora do pais. “São Paulo é a cidade que mais cresce no mundo: 4 casas por hora.” “São Paulo não pode parar.” Esses lemas, correntes nos anos 1950, eram a atualização dos “ideais de 1932”. Da São Paulo vanguarda do Brasil, que trazia a modernidade do primeiro mundo para o terceiro.

Sabe-se no que deu essa São Paulo que construía 4 casas por hora: naquela que tem mil carros por dia entrando no trânsito, tornando a vida na cidade insustentável. Tornando São Paulo uma cidade desumana, desigual, cruel, que precisa, de forma urgente e prolongada, de políticas que a humanizem de novo.

Na campanha eleitoral atual, analistas levantam de novo a tese de que haveriam dois Brasis: um em torno da modernidade e do progresso, em torno da “rica” e “bem informada” São Paulo, o outro em torno da “atrasada”, pobre e “mal informada”, do nordeste. Se ganhar o primeiro Brasil, voltaríamos à integração subordinada ao centro do capitalismo, como periferia subordinada. Se continuasse a triunfar o segundo, continuaríamos a orbitar em torno do Sul do mundo e da América Latina.

O país estaria dividido, quem quer que ganhe. A diferença essencial é que se triunfar o candidato da elite paulista, promoveria um brutal processo de exclusão social como o Brasil nunca viu, porque com os governos do PT a massa pobre da população conquistou direitos que nunca tinha tido. Será necessário um gigantesco processo de exclusão social para despojá-la, pela força desses avanços. Seria a opressão de um dos Brasis sobre o outro. Seria o aprofundamento da fratura social que sempre caracterizou o nosso país.

Enquanto que o outro projeto vai na direção oposta, a da integração dos “dois Brasis”, pela diminuição das desigualdades sociais. Essa a grande disputa desta eleição: a continuidade do Brasil que integra contra o retorno do Brasil que desintegra.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

As eleições presidenciais e os cenários da política brasileira

14.10.21_Carlos Eduardo Martins_As eleições presidenciais e os cenários da política brasileiraPor Carlos Eduardo Martins.

O segundo turno da política presidencial no Brasil coloca frente a frente dois projetos: o neoliberal, liderado pelo PSDB e representado na candidatura de Aécio Neves; e o de uma centro-esquerda, a la terceira via, que ensaia as bases de um capitalismo de Estado, liderado pelo PT e pela candidatura de Dilma Rousseff. Se o caráter extremamente disputado desta eleição sinaliza para um esgotamento da hegemonia do projeto petista, tal como ele aqui foi elaborado, uma eventual vitória de Aécio Neves representará uma drástica regressão nas conquistas alcançadas nos últimos anos, entre elas, a projeção que o Brasil alcançou no cenário internacional.

O esgotamento da hegemonia petista está vinculado à presença que o capital financeiro continua a exercer sobre o Estado brasileiro, comprometendo com juros e amortizações mais de 40% do orçamento público federal. Ainda que os governos Lula e Dilma tenham reduzido dramaticamente as taxas de juros reais na economia frente às do período de Fernando Henrique Cardoso, elas permanecem acima das taxas de crescimento do PIB, mantendo o pagamento de juros na faixa de 5% do PIB. Tal comprometimento limita os recursos investidos em saúde, educação, transporte e infraestrutura pública – um dos motivos dos protestos de junho de 2013, que reivindicavam qualidade nos serviços públicos e que derrubaram a popularidade da Presidenta Dilma da faixa dos 70% para a dos 30-40%. Assim, as pesquisas para as eleições presidenciais apontam que enquanto Dilma vence com folga na faixa de renda familiar de 1 até 2 salários mínimos, onde os programas de renda mínima, como o Bolsa Família, atuam com força, na faixa de 2 a 5 salários mínimos perde a liderança para Aécio por 54% a 46%.

Embalando a candidatura de Aécio Neves está uma pretensa ofensiva ideológica midiática da direita contra a corrupção que se aproveita da queda de popularidade de Dilma, para atribuí-la aos governos petistas, propondo difusamente uma nova política que Marina se propôs a representar e que lança desconfiança aos partidos políticos tradicionais, pretendendo estabelecer uma reforma que viabilize candidaturas avulsas e independentes. O apoio de Marina a Aécio no segundo turno, candidato cuja carreira precoce associou-se aos laços familiares com velhos políticos tradicionais, enfatiza o caráter altamente retórico desta proposição. A ofensiva ideológica da direita conta com pouquíssima sustentação empírica, se compararmos as práticas políticas do PT com as dos partidos de direita. Ilustrativo a este respeito é o ranking de corrupção comprovada fornecido pelo MCCE, onde o PT ocupa a 9ª posição com 2,9% dos políticos cassados, enquanto o DEM e o PSDB ocupam a 1ª e 3ª posição, respectivamente, com 20,4% e 17,1% das cassações.

Dois caminhos para a direita

Uma eventual vitória de Aécio Neves colocaria duas possibilidades de projeto de governo para a direita neoliberal. A primeira e mais provável, uma versão de governo similar ao de Fernando Henrique Cardoso. Se deslancharia uma nova onda de privatizações cujo alvo principal é a Petrobrás. Durante a gestão de FHC se vendeu 30,7% das ações da empresa na bolsa de Nova York e 8% estão nas mãos de investidores estrangeiros no Brasil, o que leva a empresa remeter 40 % dos seus lucros para o exterior. Hoje a União possui apenas 55% do capital votante da Petrobrás. A perda do controle acionário da União implicaria a transferência ao exterior com fortes repercussões sobre o Pré-Sal, cuja alienação se completaria com o cancelamento do modelo de partilha, através do qual o Estado brasileiro exerce controle majoritário sobre as decisões de investimento. A onda de privatizações poderia se desdobrar dos bancos estaduais (privatizados na gestão de FHC) para os federais, e se reduziria drasticamente o papel do credito público através do BNDES. Estabelecer-se-ia uma política monetária de elevação das taxas de juros com fortes pressões fiscais, que implicariam na contenção salarial do funcionalismo público, das aposentadorias, do valor do salário mínimo e dos programas sociais. No plano da política externa se praticaria o alinhamento aos Estados Unidos, desmontando-se a política em bloco do Mercosul, principalmente com a entrada da Venezuela, baixando-se o perfil da UNASUL e dos BRICS. Os efeitos sobre o tabuleiro político da região seriam notórios, particularmente sobre a Venezuela que enfrenta grave situação de crise cambial e encontra no Brasil um aliado com poderosas reservas internacionais, respaldadas pela arquitetura financeira de um BRICS em construção. A aplicação deste receituário de políticas públicas provocaria uma forte explosão social no país, de impactos imprevisíveis.

Outra possibilidade para a direita, que é improvável – pelo perfil dos integrantes de uma futura equipe de um governo Aécio Neves, fortemente ligados ao rentismo (como Armínio Fraga) –, mas teoricamente possível, é uma política de redução das taxas de juros que se combine às demais anteriormente apresentadas. Da mesma forma que o PT usou a sua presença junto aos movimentos sociais para conter suas reivindicações, o PSDB poderia utilizar sua presença junto ao empresariado para fazer o mesmo, limitando o rentismo em troca de privatizações e da entrega da soberania brasileira sobre recursos estratégicos, em particular o Pré-sal. Neste caso, poder-se-ia manter os recursos para os programas sociais e até ampliá-los, colocando em risco a base política conquistada pelo PT entre os segmentos de 1 a 2 salários mínimos, que poderiam fluir para o PSDB, trazendo novamente o Nordeste para a direita. Tal cenário seria extremamente negativo para as esquerdas, que isoladas socialmente, ofereceriam pouca resistência à entrega de empresas e reservas estratégicas da economia brasileira. O Brasil se converteria num polo de atração conservadora na América do Sul, desestabilizando o equilíbrio de forças na região e isolando as experiências de capitalismo de Estado de base popular que prosperam em nosso continente.

Dois caminhos para a esquerda

Para o PT, a vitória de Dilma colocaria dois cenários. Caso se mantenham as políticas públicas vigentes, o cenário provável é de desgaste crescente, abrindo o espaço para a crise de governabilidade com a eleição de um congresso conservador e com o desprendimento de parte da base aliada, o que pode se aprofundar durante o mandato. Outra possibilidade é que o PT rompa com a hegemonia do capital financeiro sobre o Estado, baixando significativamente as taxas de juros reais, para um patamar inferior ao crescimento da economia. Tal alternativa permitiria ao governo Dilma impulsionar políticas sociais estruturais, elevando os investimentos em saúde e educação, transporte e infraestrutura, permitindo-lhe recuperar o apoio perdido nos segmentos de renda familiar de 2 a 5 salários mínimos e mesmo nos de 5 a 10 salários mínimos. Tal iniciativa permitiria retomar o dinamismo da economia em parte bloqueado pelos limites que a superexploração do trabalho – que constitui ainda a base da economia brasileira – coloca para o processo redistributivo. Ao reduzir o peso dos juros sobre os investimentos produtivos se poderia retomar um ciclo de acumulação com resultados políticos promissores a médio prazo, viabilizando uma forte elevação do nível de organização dos trabalhadores brasileiros.

Para fazer frente à hegemonia petista, a esquerda brasileira terá antes que superar seu enorme grau de atomismo, unificando candidaturas em torno de programas, mais que em torno de partidos, e fazer políticas defensivas anti-neoliberais, quando da impossibilidade de implementar uma agenda ofensiva. Do contrário continuará encastelada fora da história e da agenda de nosso povo

Nos próximos dias saberemos quais alternativas estão à frente no Brasil nos próximos anos.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Michael Löwy, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Um livro com o tupi nosso de cada dia

Mouzar ConvitePor Mouzar Benedito.

Por que você está na pindaíba?

Pode ser porque está desempregado, não? Ou porque tem emprego mas o salário é baixo. Ou porque estourou o cartão de crédito e paga juros muito altos, não sobra dinheiro pra nada. Ou porque o aluguel aumentou demais, o salário não acompanhou. Se é aposentado, então, pior ainda.

Mas os índios de língua tupi há séculos já podiam ficar na pindaíba, sem esses motivos.

É que pindá, em tupi, significa anzol. Iba, significa ruim. Então, pindaíba quer dizer anzol ruim. E nos povos que viviam em grande parte da pesca, anzol ruim é mesmo de deixar a pessoa sem ter o que comer.

Pindaíba é um dos mais de oitocentos e trinta verbetes do livro Paca, Tatu, Cutia! – Glossário ilustrado de Tupi, que escrevi em parceria com o Ohi (textos meus, ilustrações dele) e que acaba de ser publicado pela Editora Melhoramentos.

Não é um “dicionário”, pois não tem aquelas formalidades necessárias para isso, nem a estrutura de um dicionário. E em muitos dos verbetes conto alguma historinha relacionada a eles. Tem um pouco de informações históricas e humor.

Por exemplo: jabá. Não o jabá com sentido de propina que alguns artistas pagavam (ou pagam) para tocar suas músicas nos rádios. Esse tipo de jabá, índio não conhecia.

Mas também, originalmente, essa palavra não era sinônimo de carne seca. Jabá, em tupi, é fuga, fugir, fugitivo.

Antes de trazer escravos africanos para o Brasil (e depois também), os portugueses escravizaram índios. Mas quem é que gosta de ser escravo? Eles fugiam, e eram muito perseguidos para serem recapturados. Durante a fuga precisavam comer, mas não podiam parar para caçar, então levavam carne seca. Assim, a carne que se levava na fuga passou a ser chamada de jabá.

Deve ter alguém imaginando: então Jabaquara, nome de um bairro de São Paulo e outro de Santos, tem algo a ver com isso?

Tem. Quara é um sufixo tupi que significa refúgio, entre outras coisas. Então, Jabaquara significa “refúgio dos fugitivos”. É o mesmo que quilombo do idioma quimbundo. O Quilombo do Jabaquara (curioso, não? Falar quilombo do Jabaquara equivale a dizer “quilombo do quilombo”) de Santos era muito famoso, abrigou escravos fugitivos até à libertação dos escravos, em 1888.

Nomes que descrevem animais

Uma curiosidade da língua tupi é que os nomes que os seus falantes deram aos animais de certa forma falam de alguma característica deles. Por exemplo, jacaré significa “o que olha de lado”.

Você já viu uma cutia comendo uma espiga de milho? Ela pega a espiga com as patas dianteiras e fica de pé sobre as patas traseiras. Por isso, ganhou o nome cutia, que significa “o que come de pé”.

Paca significa esperta, ágil. Caçadores desse bichinho montavam armadilhas e tinham que ficar um tempão esperando escondidos, para pegar a danada. Daí surgiu o verbo paquerar, que hoje usamos para uma atividade mais agradável e mais ecológica, não é? Nada de matar animais silvestres.

Entre as aves, tem o jacu, que é desconfiado, cauteloso. Esse é o significado dessa palavra. E como roceiro, caipira, costuma ser também desconfiado e cauteloso, tem quem o chame de jacu, também.

Por falar em caipira, está aí outra palavra tupi. Tem quem a traduza por desconfiado ou tímido, mas seu significado literal é “morador do mato”. Mas que não se pense que caipira é imbecil. A palavra é usada de forma preconceituosa, mas o caipira tem uma cultura muito rica, e seu jeito de falar tem motivos históricos (ver embaixo: “Nheengatu e língua geral paulista”).

No Nordeste, em vez de caipira, falam – também preconceituosamente – tabaréu, que é “morador da taba”.

Cidades, rios, montanhas…

Em todos os estados brasileiros existem cidades com nomes de origem tupi, mesmo naqueles em que não se falava tupi. É que bandeirantes falavam tupi (ou melhor, a “língua geral paulista”) e jesuítas usavam esse idioma para se comunicar com os índios em geral e “criaram” uma língua a partir dos vários dialetos tupis. Então, tanto bandeirantes como os religiosos usavam o tupi para nomear rios, povoados etc.

No estado de São Paulo, base dos bandeirantes, há uma profusão de nomes tupis nas cidades. Alguns muito curiosos. Por exemplo: Pindamonhangaba e Itaquaquecetuba. Quem tem curiosidade por nomes deve saber que Pindamonhangaba é “lugar onde os homens fazem anzóis”, quer dizer, fábrica de anzol. Quicé é um tipo de taquara muito cortante, como faca. Tuba é coletivo, lugar que tem muito de alguma coisa. Taquaquicetuba, que depois virou Itaquaquecetuba, é lugar que tem muitas taquaras cortantes, do tipo quicé.

Bauru, ao contrário do que muita gente pensa, não tem nada a ver com sanduíche. É cesto de frutas. Poá é mão aberta. Itu é salto, cachoeira. Ituverava é cachoeira brilhante.

Alguns nomes de cidades podem até parecer “bíblicos”, mas são tupis. É o caso de Jacobina, na Bahia. Não parece algo relacionado a algum Jacó? Pois ele vem de já cuã apina, que quer dizer cascalho limpo, jazida de cascalho. O primeiro ouro que os portugueses garimparam no Brasil foi nessa jazida de cascalho, em 1718.

Os rios com nomes tupis são muitos. Paraguai, por exemplo, é rio dos papagaios, e Tocantins é nariz de tucano.

E as montanhas: quer nome mais bonito do que Mantiqueira (“chuva gotejante” ou “chuva contínua”)? No Nordeste tem a Chapada do Araripe, um lugar alto. Araripe é “sobre o mundo”.

Bom, há muita coisa que a gente fala pensando que está falando português, mas na verdade é tupi… ou português do Brasil. Pense em algumas palavras do nosso cotidiano: pereba, tapera, peteca, mingau, pamonha, guri, sapeca, carioca, maloca, pipoca…

Ah, quem é profissional do futebol sonha jogar no Morumbi, Itaquera, Pacaembu, Maracanã… tudo nome tupi.

E nome de gente? Moacir, Jaci, Moema… Vou contar o significado de apenas um: Araci é aurora, mãe do dia. Se uma mulher se chamar Aurora e outra Araci, elas são xarás. Epa! Por falar nisso, xará é uma palavra tupi, significa “o que tem o mesmo nome”.

Enfim, acho, modéstia à parte, que este é um livro que pode ser lido com prazer por adultos e por crianças. E está muito bem produzido, bonito. Convido a todos para o lançamento que será no dia 25 de outubro (sábado), das 16h às 19h, na Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena – São Paulo.

Quem preferir, pode acrescentar algo mais: vá à Festa do Saci, em São Luiz do Paraitinga. No sábado, dia 1o de novembro, haverá um seminário sobre cultura caipira a partir das 10h da manhã, e logo depois (a partir do meio-dia), no mesmo local faremos o lançamento. Vai ser no Centro Turístico e Cultural Nelsinho Rodrigues, na Rua Cel. Domingues de Castro, 33, no centro da cidade.

A vantagem de comprar no lançamento é que o Ohi vai além de dar um simples autógrafo: ele faz um desenho na hora.

Nheengatu e língua geral paulista

Os jesuítas queriam catequizar os povos indígenas e perceberam que quase todos os povos da faixa litorânea falavam dialetos de uma mesma língua, mas não tinham escrita, era uma língua exclusivamente oral. .

Resolveram então “unificar” esses dialetos e criar uma escrita para eles. Em São Paulo, chamaram de “língua geral paulista” e no norte “nheengatu”, que significa língua boa ou falar bem. Mas são línguas bem parecidas e costuma-se usar nheengatu também para o que se falava em São Paulo.

Em São Paulo e sua área de expansão só se falava a língua geral paulista. Depois da guerra em que os exércitos de Portugal e Espanha se uniram para combater os Guarani, apoiados pelos jesuítas, o Marquês de Pombal resolveu expulsar os jesuítas do Brasil e determinou que só se falasse português aqui. Isso foi em 1758. Mas não se muda de língua de um dia para o outro. As escolas passaram a usar só a língua portuguesa e todos os documentos tinham que ser escritos em português.

Demorou muito para assimilar o português, e muitos dos brasileiros do atual Sudeste preservaram o modo de falar nheengatu. No tupi não existe, por exemplo, a pronúncia L nem LH, que acabam virando R na pronúncia caipira (esse pessoal que resistiu ao “sotaque” português). Então, trabalho vira trabaio, por exemplo. Mulher é muié. E no tupi/nheengatu não existe R no final dos verbos, e isso foi mantido no “dialeto caipira”. Falamos fazê, trabaiá, coçá, brincá…

Mas não é só isso. Existem mais diferenças de pronúncia, presentes no nosso linguajar. Vale a pena estudar um pouco disso. Nosso livro é um começo, para os curiosos.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Leda Paulani: Terrorismo econômico

14.10.20_Leda Paulani_Terrorismo econômicoPor Leda Paulani.

Há exatamente 12 anos, o país vivia um clima muito semelhante ao de hoje, no que concerne às avaliações sobre o desempenho da economia e às suas perspectivas. Como é sabido, naquelas alturas colocava-se claramente a possibilidade de Lula chegar à presidência da República, na disputa com José Serra, do PSDB. Como isso não era do agrado das forças financeiras que protagonizaram e dominaram os dois mandatos de FHC, instalou-se um clima de terror que operava em todas as frentes, da mídia aos agentes do mercado, das análises “científicas” dos doutores das universidades às peripécias internas do próprio Banco Central. E tudo isso acontecia mesmo depois da Carta aos Brasileiros, em que Lula se rendia às pressões do mercado e prometia continuar ipsis litteris a política econômica em curso, garantindo a predominância do rentismo e os juros elevados que irrigavam os ativos dos credores. A ideia de que a economia iria se desfazer como gelatina, derreter como manteiga e sair do “controle” na hipótese de Lula vencer foi se disseminando despudoradamente e sendo “confirmada”, num claro movimento de profecia que se autorrealiza, pela queda das bolsas, subida do dólar e consequentes impactos sobre o nível de preços.

Nada disso encontrava muito respaldo nos dados, a não ser a marola provocada pelo próprio terrorismo. Apesar de um nível de reservas muitíssimo mais baixo que o de hoje e das três idas ao FMI em menos de quatro anos, os indicadores macroeconômicos usuais não estavam em colapso e não se verificava qualquer movimento parecido a uma fuga de capitais como a que ocorrera entre setembro de 1998 e janeiro de 1999 (esta sim, por sinal, indicadora de uma grave crise, pois ocorria mesmo com a garantia da permanência do capataz, reeleito em primeiro turno contra Lula nas eleições presidenciais de 1998).

A situação hoje é muito parecida. Basta girar o dial das rádios, virar as páginas da grande mídia impressa ou zapear pelos comentaristas econômicos da TV para ler e ouvir à exaustão que a inflação está fora de controle, que os gastos do governo passaram de todas as medidas, que o país perdeu sua credibilidade, que a economia brasileira, enfim, está à beira do abismo. Mas mais uma vez os dados desmentem esse coro histérico. Muito melhores do que em 2002, os parâmetros macroeconômicos estão absolutamente dentro do previsto, a inflação segue a trajetória de normalidade inaugurada em 2003 e não há vislumbre de fuga de capitais ou perda de investimentos externos. A desvalorização do dólar e queda das bolsas que acontecem em uníssono, se dão ao mero sabor da divulgação das pesquisas eleitorais.

Para não cansar o leitor vejamos apenas 3 desses parâmetros. Os investimentos externos diretos, a única parcela “saudável” dos fluxos internacionais de capital, apresentam-se, nos valores acumulados em 12 meses até junho, no mesmo nível histórico recorde dos últimos quatro anos, em torno de 64 bilhões de dólares anuais, muito mais elevado, por sinal, do que a média do quadriênio 2007-2010 (35,5 bilhões), é bem verdade que afetada pela crise internacional, mas igualmente bem mais elevada do que a média do quadriênio 2003-2006 (15,5 bilhões), ou 1999-2002 (25,1 bilhões), ou ainda 1994-1998 (18,7 bilhões), os dois últimos, além de tudo, beneficiados pela avalanche de privatizações executadas nos dois mandatos de FHC.  As reservas internacionais do país também se encontram em nível recorde, cerca de 380 bilhões de dólares. Como falar então de perda de credibilidade?

Consideremos agora a questão do déficit público. O atual governo é sistematicamente acusado de descontrole nas contas públicas, de estar gastando em demasia, sem preocupação com o resultado primário positivo que tem de produzir. Sem entrar no mérito de tal exigência, vejamos os dados. É verdade que o superávit primário vem apresentando uma trajetória de queda nos últimos quatro anos, mas, em média (2,2% do PIB), ele não é substantivamente inferior ao dos quatro anos anteriores (2,9% do PIB), ainda que relativamente menor do que os dos quadriênios 2002-2007 (4,3%) e 1999-2002 (3,5%). Mas, no que tange ao resultado nominal, que constitui de fato o resultado final das contas públicas, ainda que não valha nada para a ortodoxia econômica, pois o que interessa a ela é a sobra de recursos públicos (superávit primário) para o pagamento dos juros da dívida, os resultados são diferentes. Extrapolando dados de junho, chegamos a um déficit de 3% do PIB na média do quadriênio 2011-2014, um pouquinho maior do que o do quadriênio 2007-2010 (2,6%), mas bem menor do que os dos quadriênios 2003-2007 (3,6%) e 1999-2002 (5,7%). Só para efeitos de comparação, nos quatro anos findos em 2013, enquanto o déficit nominal brasileiro atingiu média de 2,7%, o déficit nominal da área do euro atingiu 4,1%, o dos Estados Unidos, 9,2%, o do Reino Unido, 8%, e o do Japão, 9,4% do PIB.  Não parece um tanto exagerado falar em total descontrole dos gastos públicos?

Finalmente a inflação. A histeria pelo fato de o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, calculado pelo IBGE) ter atingido o teto da meta (6,5% ao ano) e de poder vir a ultrapassá-lo em 0,25% encobre o fato de que mesmo com o valor de 6,75% para este ano, a média do quadriênio 2011-2014 será de 6,2%, pouco acima da média do quadriênio anterior (5,2%), mas abaixo da média do quadriênio 2002-2006 (6,5%), e muitíssimo menor que as médias dos dois quadriênios anteriores (8,7% em 1999-2002 e 9,4% em 1995-1998). Que outro nome encontrar senão terrorismo econômico para a reiterada acusação de que a inflação está fora de controle?

Qual a razão da histeria? A resposta não é difícil de adivinhar. A presidenta Dilma não conta com o apreço dos mercados financeiros. Ao longo de sua trajetória na cadeira de presidente, ela foi se afastando da cartilha ortodoxa que detinha ainda grande peso no governo (daí a inexistência de terrorismo econômico nas duas eleições seguintes) e tomando decisões pouco palatáveis para os interesses representados por esses mercados. A começar pela troca de comando do Banco Central, a presidenta teve a coragem de enfrentar o lobby bancário-financeiro, não só reduzindo a Selic, como utilizando os bancos públicos para forçar a queda dos vergonhosos spreads bancários, que ainda assim continuam muito altos. A heterodoxia econômica, que havia ficado completamente escanteada no início do período de 12 anos de gestão do governo federal sob o comando do PT, foi ganhando espaço no governo da presidenta, para horror dos mercados financeiros, que agora escutam estarrecidos pela voz do atual ministro chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante, que não será dada nenhuma guinada ortodoxa no segundo mandato da presidenta.

Sem saída, os mercados implantam o terror. Contam para isso com a preciosa ajuda da grande mídia impressa e rádio-televisiva e dos doutos pensadores da universidade, onde a cartilha ortodoxa tem domínio quase absoluto. Seu poder de influência é efetivo, pois, em parte, eles podem “produzir” os resultados mentirosos que alardeiam e difundem. Já vimos esse filme em 2002 e vimos também que consequências danosas ele teve, pois o terrorismo econômico foi funcional mesmo após as eleições, levando um governo supostamente de esquerda a ser mais realista que o rei e a “beijar a cruz” do neoliberalismo. Esperemos que agora esse trunfo ideológico a serviço do projeto conservador e reacionário encarnado na candidatura de Aécio Neves não seja suficiente para instalá-lo no poder e que, sendo vitoriosa a candidatura da presidenta, a política econômica se liberte de vez dos ditames da ortodoxia e retome o enfrentamento dos interesses financeiros, seguramente dos mais lesivos ao País.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Leda Paulani, economista e doutora em Economia pelo IPE-USP, é professora do Departamento de Economia da FEA-USP e da pós-graduação em Economia do IPE-USP. É autora de Modernidade e discurso econômico (2005) e Brasil delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico (2008), ambos publicados pela Boitempo. Em 2013, com a eleição do prefeito Fernando Haddad, em São Paulo, foi escolhida para comandar a Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão. Colabora esporadicamente para o Blog da Boitempo esporadicamente.

O apagão da era tucana

14.10.17_Paulo Arantes_O apagão da era tucanaPor Paulo Arantes.*

O Blog da Boitempo recupera em seu Especial Eleições 2014 este artigo de Paulo Arantes publicado originalmente no suplemento Mais! do jornal Folha de São Paulo em 27 de maio de 2001. Intitulado “Extinção” – título do livro que arantes publicaria seis anos depois pela Boitempo –, o texto parte de uma carta de um leitor da Folha ao “Painel do leitor” para refletir sobre o que chama da “bancarrota do modo paulista de pensar”. O contexto é o da crise do apagão, ocorrida no final do último mandato de Fernando Henrique Cardoso, pouco antes da eleição de Lula, que daria início ao ciclo petista no Governo Federal.  Hoje, às portas da crise hídrica de São Paulo que não obstante viu a reeleição, no primeiro turno, do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, e da disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, que já tem como pano de fundo a realidade de um congresso eleito mais conservador desde 1964, cabe repensar, através da releitura feita por Arantes da análise do pós-guerra empreendida por Adorno e Horkheimer, o que resta hoje das lições da era de Hitler, e da era de FHC.

[Aviso aos navegantes: O paralelo polêmico estabelecido por Arantes busca dar conta sobretudo da relação entre a autodestruição de certa tradição intelectual progressista uspiana consolidada nos anos 60 em torno do sociólogo tucano e o colapso do projeto de modernização conservadora do país posto em marcha por ele a partir da tomada do poder em 1995. Cabe ao leitor, enfim, julgar a atualidade deste "capítulo terminal" da inteligência crítica paulista, sua experiência no poder e a investida neoliberal no país.]

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“Tenho 65 anos e sempre estive com a situação, com o governo. Há uns três anos, comecei a questionar o meu posicionamento. Hoje não tenho mais dúvidas: sou oposição e tenho muita vergonha deste governo. O Brasil não merece este castigo”.
Benedito M. Andrade Neto (Taubaté, SP)
Folha de São Paulo, “Painel do Leitor”, 12/5/2001

“Uma das lições que a era Hitler nos ensinou”, escreviam há mais de meio século Adorno e Horkheimer, “é a de como é estúpido ser inteligente”. Pensavam nos bons europeus, modernos e civilizados, que durante uma década pavimentaram a ascensão do Terceiro Reich com argumentos de lógica impecável acerca da inviabilidade de tamanha aberração. Lembravam-se por exemplo de uma conversa com um brilhante economista que lhes demonstrara por a+b, com base nos interesses objetivos dos cervejeiros bávaros, que uma uniformização da Alemanha era impossível. “Depois os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são de fato estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: ‘Afinal de contas, disso eu entendo’, são os statements conclusivos e sólidos que são falsos.”1

Pois bem. Noves fora os calafrios de praxe – sem falar na modesta envergadura dos pigmeus envolvidos, tanto os bem-pensantes quanto os facinorosos – , estamos em casa. Falo é claro dos inteligentes de São Paulo e de suas ramificações nacionais e internacionais de alto nível. Digamos que a estupidez da inteligência foi se tornando nos últimos tempos uma original contradição paulista. Não ignoro que a transformação da inteligência em estupidez parece ser um traço tendencial da evolução histórica e que, assim sendo, não se poderia honestamente atribuir à índole singular de um agrupamento humano o que é puro efeito de relações sociais.

Pelo sim, pelo não, até por mero instinto de sobrevivência e na condição de criatura dessa elite bem-falante e escrevente, acharia prudente, nessa quadra turbulenta da nacionalidade, pelo menos um solene pedido formal de desculpa aos brasileiros e brasileiras que há sete anos aturam entre tantas outras delicadezas de atenção social o estribilho da referida pedantocleptocracia, entoado por impressionante massa coral: Afinal de contas, disso nós entendemos! E como!

Os hierarcas do império nazi eram bárbaros e naturalmente inimigos mortais da vida do espírito. Mas há também um outro tipo de espírito que é anti-humano, insistiam nossos dois filósofos fracassomaníacos. Podemos reconhecê-lo pela sua marca de origem: a “superioridade bem-informada”. Não há por certo termo de comparação entre os grandes chefes fascistas de ontem e os comparsas tropicais de agora, de sorte que acabamos nos conformando com o tamanho bem paulista a que se reduziram antigos sonhos de suprema elegância, alta cultura e poder – este último, “sans phrase“. Assim, no lugar da tremenda camarilha teutônica, ocupa a cena o cortejo mambembe que se está vendo: o fotogênico Eduardo Jorge, o lombrosiano Jader, o schumpeteriano Mendonção e seu ídolo, o beato Serjão (que Deus o tenha no Paraíso que escolheu), o galante Ricardo Sérgio, o majestoso ACM, o brejeiro delfim de Hanover etc. etc. 2

Mas e onde se lê “espírito”, ainda por cima em alemão? Aqui sim a transposição local nos favorece plenamente. Os senhores hão de convir que, pelo menos em matéria de superioridade bem-informada, a Escola Paulista de Pensamento na qual me formei e que não posso renegar praticamente não tem rival. Pois então é isso, vistas as coisas aqui da capital do FHnistão 3.

Ingratidão maior nunca se viu: como pode o Brasil totalmente esclarecido pelos “intelligenti” de nossa escola ousar resplandecer sob o signo de uma calamidade triunfal? Além do mais, às vésperas de um apagão. Só pode ser obscurantismo. Afinal de contas, disso vocês não entendem nada! Prova disso, o iminente colapso energético do país, o qual precisa entender de uma vez por todas que acabou a fase de energia farta e barata no Brasil, que vivemos um processo de pós-industrialização, pelo qual já passaram economias mais modernas, conforme anunciou o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, sem que ninguém tivesse chamado a polícia4. Alguma coisa no entanto estamos começando a entender. Estamos enfim reaprendendo com a era fernandina como de fato ficou brutalmente estúpido ser inteligente. Com uma diferença notável, como tudo nessa terra de varões sabedores e que vem a ser propriamente a contribuição original brasileira para o processo mundial de corrosão da inteligência. Na estupidez terminal do espírito superior com que se depararam a seu tempo Adorno e Horkheimer, quando redigiam com resignação filosófica a declaração de falência da civilização européia, explodia em todo seu esplendor a contradição inaugural da razão que comandara aquele processo em colapso, a inteligência liberal, a um tempo universal e particularista, numa palavra, “o instrumento do privilégio na igualdade”.

Dosagem homeopática

Na hora do apocalipse, era a ela que o fascismo estava apresentando a conta. Um ciclo histórico depois e a correspondente derrocada da era do crescimento, o pensamento que ora se extingue é de uma outra espécie. Digamos, para encurtar, da espécie que nos habituamos durante dois séculos a chamar de “progressista” ou, para ser mais específico, o lado oposto, o lado propriamente esquerdo daquela matriz original de evolução e reforma do mundo. Aqui entramos nós, o breve porém substancioso capítulo paulista do atual processo de autodestruição da inteligência brasileira, que vai assim arrematando o seu “ajuste” ao padrão global da estupidez bem-pensante. E por mais que a analogia nos repugne, é bom não esquecer a lição do apocalipse nazi, desta vez por uma autora insuspeita de fracassomania, Hannah Arendt: a descoberta da mais aterradora crueldade social germinando no processo aparentemente banal de corrupção da inteligência 5. É claro que a analogia é estritamente filosófica, apenas uma meditação acerca de um caso catastrófico de inibição da reflexão. De qualquer modo, embora a escala mundial do desastre em curso atualmente seja de meter medo, por aqui a dosagem ainda é homeopática, pelo menos do ângulo de um homem branco de classe média, constatação cujo simples enunciado já é uma ameaça. Voltando aos efeitos letais da inteligência paulista no poder, o fato intrigante é que deve ter saído de cena algo essencial que nos fazia pensar, se não for presumir demais. Seja como for, o fato é que toda uma tradição outrora crítica não só foi sugada pelo moinho satânico da estupidez inteligente, mas também passou a acionar-lhe a manivela, com o deslumbramento característico da supracitada superioridade bem-informada. Numa palavra, o que a era cardosista do esclarecimento está mostrando neste momento de glória da malandragem nacional é como se tornou apenas “bête et méchant” procurar ser inteligenterrimamente de esquerda, e isso depois de decretado pelos mesmos altos personagens o colapso da modernização, sem a qual, justamente, fica muito difícil distinguir uma explosão criativa de forças produtivas de meros serviços de corretagem. Cochilo grave para um crime ideológico quase perfeito, esse da lavagem de conceitos. Mas são derrapagens sem sujeito, diria algum espectro althusseriano, relançando a espiral do auto-engano.

Por exemplo, diante da piranhagem que foi o episódio Telebrás, algum incorruptível veterano do leninismo poderia muito bem replicar que mais vale um salto econômico arrancado a fórceps do que a grita moralista das camadas sociais sem futuro etc. Homens de ferro para os quais sou o primeiro a tirar o chapéu. (Muitos deles, com o peito coberto de medalhas, estão no governo. Continuo tirando o chapéu, desde que não me penhorem as antigas medalhas.) Nem por isso menos empulhados pela inércia de um raciocínio cujo nervo histórico se extinguiu, mas sobretudo mesmerizados pelo teatro de sombras dos operadores da nova classe que, justamente afiançados pela nobre estirpe da finada teoria crítica, vão tocando o violento trivial do “big business” como quem toma o Palácio de Inverno, agora sim, literalmente de assalto, acossados, é claro, pela guerrilha impatriótica dos atrasados. Assim se constituem os fundos secretos para uma eterna segunda rodada bolchevique, algo como foquismo na Sociedade Hípica. Aqui a matriz operacional de outra formidável invenção ideológica da era fernandina, a chamada “rebeldia a favor”. É assim que a mais crassa estupidez dos inteligentes vai fazendo a cama dos novos bárbaros, parceiros estratégicos que ingratamente caluniam em momentos de troca da guarda como agora. Nessas horas o sangue-frio materialista da velha-guarda costumava recomendar que se aprendesse com quem se vende, no que tinha toda razão. A nova hegemonia sempre anunciava a sua chegada arrematando cabeças, no geral inconformadas com o estado das artes. Pelas razões erradas, quem se vendia estava à frente dos obtusos e incorruptíveis. Estudando o caso, como numa cena brechtiana, os amigos de esquerda do progresso aprenderiam a encarar as coisas novas e ruins a partir das quais se deveria recomeçar. Estamos vendo nestes tempos cardosistas que já não é mais o caso. Não deve ser apenas por algum defeito de fabricação do personagem – o imortal inventor da rebeldia a favor – que não aprendemos nada com as suas genuflexões, embora não se possa negar a audácia de seu enorme passo adiante. Simplesmente não há mais chão para tal passo, quem nos compra não está mais desbravando nenhuma fronteira da valorização. Portanto já não faz mais diferença nenhuma distinguir, como exigia um clássico do materialismo paulista: vendeu-se, está criticando, ou vendeu-se criticando. No seu devido tempo, veremos por que a transformação histórica da inteligência em estupidez – esse o ponto, já que estaremos interessados em pesquisar a gênese paulista da “bêtise” na origem da atual derrocada da inteligência brasileira – diz respeito primordialmente ao toma lá, da cá das operações elementares de compra e venda. Mas não será preciso remontar à pré-história. Pode-se reconhecer a mesma lógica ancestral – girando como os ponteiros de um relógio no pulso de um morto – observando a espécie de reflexo condicionado daqueles que têm resposta para tudo. Amostragem relâmpago: 1) Política de terra arrasada com os petroleiros em greve? É claro, precisam aprender que estamos trocando capitalismo velho por capitalismo novo; 2) Previdência Social? Totalmente inviável, como um simples cálculo atuarial pode demonstrar, fulano traga os números; 3) Sim, nomeou um antigo torturador chefe da Polícia Federal: certamente precisou negociar coisa mais graúda. E por aí afora.

Física paulista dos interesses

E para trás também, caso recuemos até os primeiros sintomas dessa bancarrota do modo paulista de pensar. Vejamos por exemplo o que dizia um filósofo e colunável, enquanto transcorria em Brasília a CPI que desembocaria no impeachment do antecessor: “Ninguém é movido por interesses universais e não se pode pedir aos políticos que abdiquem do esforço pessoal de buscar o poder [...]. Em vez do discurso moralista, cabe aceitar que os políticos agem por interesse privado, mas, como só podem fazer em nome do bem comum, que ele calcule seus riscos de ser pilhado em público toda vez que atuar exclusivamente em nome de seu bem particular [...]. Desse modo constitui-se uma moralidade pública que comporta a infração nos seus interstícios” 6.

E ainda dizem que a coruja do filósofo só alça vôo ao fim do dia, pois esse mocho paulista madrugou com uma década de antecedência! O estudo da amostra requer entretanto o escrutínio objetivo do naturalista. Trata-se afinal de um processo sem sujeito, a rigor mecânico, como sugere o curioso símile que arremata o raciocínio: “Mesmo quando os indivíduos agem em nome do bem comum, a luta pela obtenção e manutenção do poder implica o exercício dum empuxe individual” 7. A fome de imanência que parece caracterizar esse singelo cálculo de custo/benefício parece fornecer uma excelente ilustração para aquilo que o iberista carioca Luís Werneck Vianna vem chamando de “física paulista dos interesses”, por oposição à irrazoável tendência metafísica do povo brasileiro a achar que é possível vida para além do mercado8. Além de ilustrar, é claro, no andar superior da cadeia alimentar dos bem-informados que têm resposta para tudo o vínculo arcaico entre a inteligência e as raciocinações do poder acerca das vantagens que consegue obter quando se resigna a seguir as regras do jogo. Na opinião descalibrada de Adorno e Horkheimer, que por certo andaram gazeteando os cursos de lógica.

Recordo a propósito, para voltar mais uma vez aos dois catastrofistas de Frankfurt, que talvez o sinal de alarme deles tenha começado a soar quando perceberam o que Chamberlain entendia por “ser razoável” ao reclamar das exigências de Hitler, a seu ver “unreasonables“. Numa palavra, parece que o Führer não respeitava muito a equivalência entre dar e tomar. Se oferecesse um preço justo para os territórios e populações que estava prestes a abocanhar, tudo bem. Essa a rota suicida da estupidez dos inteligentes e elegantes, cujo espírito se apaga “tão logo o poder deixa de obedecer à regra do jogo e passa à apropriação imediata”. De um ponto de vista histórico-mundial, como se dizia na esquerda hegeliana, tanto faz se se trata de um “Gauleiter”, um bicho solto de boca de fumo ou, enfim, um “investidor” atuando no ramo das privatizações. Assim sendo, se a fórmula “vendeu-se” choca e ofende, não seja por isso, troca-se por uma outra equivalente, “ajustou-se”. Por exemplo: ajustou-se gemendo (virou estadista) ou ajustou-se, está gemendo (virou existencialista).

Digamos então que a derrocada se consumou quando uma certa tradição crítica bem paulista se adaptou. Mas aí nossos incorrigíveis fracassomaníacos alemães completariam o raciocínio, lembrando que, na história natural da inteligência, sua extinção na estupidez vem a ser justamente “o dernier cri da adaptação”. E nada mais feroz que a predação dos adaptados (ainda mais quando procuram apenas sobreviver) 9. A violência pré-histórica da “globalização” em curso nada mais é do que a expressão, banalizada pelos notáveis do espírito, de mais uma rodada dessas “adaptações” próprias da derradeira civilização baseada na crueldade bem calculada do trabalho excedente 10.

Em tempo. Certamente o processo de extinção que está nos interessando identificar não é nem poderia ser unilateral. Ele também se espraiou pelo campo oposto, o mundo do trabalho, onde havia igualmente vida inteligente. A fundação absolutamente inédita de um recurso emancipatório inestimável como um Partido dos Trabalhadores que o diga. Juntamente com o “Solidarnosc” polonês, a única iniciativa anti-sistêmica em ascensão durante a década de 80, quando o império deflagrava sua contra-revolução mundial. O movimento polonês, como se há de recordar, foi o primeiro a sumir no ralo da nulidade social, e o nosso já vai apresentando sintomas alarmantes de decomposição dourada.

Com toda a razão o mesmo Luís Werneck Vianna costuma incluir na física paulista dos interesses o movimento browniano das grandes centrais sindicais aqui do pedaço – e, podemos agora acrescentar, o tipo de inteligência esperta das trocas simbólicas e materiais que lhe constitui a razão dominante. Enfim, quem não se lembrará, entre tantos outros, do lance mais do que meramente retórico de um líder sindical excluindo de uma “reforma” da Previdência, ainda por combinar com os de cima, os que nela nunca estiveram incluídos, e por isso mesmo. Faz sentido. Trata-se de uma simétrica opinião-espelho da convicção sociológica da alta tucanagem, segundo a qual o povo miúdo que descola uma aposentadoria na boca do caixa sem nunca ter integralmente contribuído durante as décadas em que se virou da mão para a boca é o primeiro fraudador da Previdência. Dialética da malandragem “oblige“? Como diria um grande lógico paulista, diante de um grafite no banheiro “todo lógico é idiota/ o professor X é lógico/ logo, o professor X é idiota”, pelo menos formalmente está correto. Seja dito em homenagem à neutralidade epistemológica que sempre distinguiu a Escola Paulista de Pensamento, o professor X era ele mesmo. Conosco é assim mesmo, os conceitos, quando são bons, como os nossos, são muito democráticos, não fazem distinção de classe.

Precarização do trabalho

Continuando. Numa tese recente, mostrou-se como a contribuição dos assalariados para os antigos IAPs da famigerada era Vargas financiaram as estatais originárias, torradas agora para fazer o caixa do populismo cambial do primeiro mandato11. Entre elas, a Vale do Rio Doce, arrematada a preço de banana nas condições que se sabe, como compete a um Estado-corretor de “big business12. Pois não é que também ouvi outro dia um líder sindical, com imponente folha de serviços prestados durante o auge do sindicalismo de combate do período anterior, saudar o “companheiro Benjamin” (Steinbruch mesmo) como “parceiro de primeira hora” num louvável empreendimento de “charity business“? Outro louvável “parceiro de primeira hora” (idem, ibidem) o companheiro BankBoston. Num ensaio recente, Francisco de Oliveira dá uma boa pista para rastrear, no chão material dessa outra metade da física paulista dos interesses, o correspondente processo de extinção mental, nesse caso, por motivo de extenuação na base social da espoliação 13. Com efeito, contrariando o besteirol corrente sobre a perda da centralidade do trabalho, Francisco de Oliveira não só também constata uma espantosa extensão do assalariamento, no sentido amplo do termo, sem paralelo mesmo considerando-se os anos dourados do fordismo, ampliação que se estende da mais cruenta extração de mais-valia absoluta até o trabalho não-pago do cliente de serviços que também labuta ao consumir, mas um igual aprofundamento da privatização do trabalho, entendendo-se com isso a privação de sua dimensão pública, tanto por motivo de precarização e informalização galopantes como de predação do tempo privado de “não-trabalho” pelo emprego on line da massa crescente de trabalhadores à disposição. A seu ver, esses dois movimentos tornam o velho conceito marxista de exército industrial mais atual do que nunca, desde que devidamente reinterpretado, na medida em que “praticamente todos os trabalhadores converteram-se em seus membros intermitentes/latentes pela permanente desqualificação e informalização”. Assim sendo, a fração propriamente ativa tornou-se minoritária, enquanto a fração estagnada ou lúmpen tende a crescer. Mais importante, o fundo público que se origina da relação contratual de compra e venda de força de trabalho e, quando se constitui, perde seu antigo poder de veto sobre o capital. Com isso, continua Oliveira, a mera “gestão” dos fundos públicos, tais como FAT, PIS, Pasep, FGTS, e não a sua “apropriação pública”, torna-se objetivo maior dessa fração ativa do exército industrial. Nessas condições, os membros desse núcleo preservado (e olhe lá!), convertidos em sujeitos monetários privatizados, não podem nem querem saber da massa sobrante do seu exército. Deve passar por aqui a base material dos dois lances de idiotia social referidos acima. Sobre tal base se ergue a mesma derrocada da inteligência no mundo do trabalho. É claro que Francisco de Oliveira empregou deliberadamente a expressão de Robert Kurz “sujeitos monetários”, fórmula que nesse meio tempo acabou ganhando novo conteúdo, à medida que seu autor foi reabrindo o dossiê do mundo do trabalho que precipitadamente julgara abolido. Pois, comentando o argumento bem conhecido de Richard Sennett sobre a corrosão do caráter dos indivíduos flexibilizados pela desqualificação do trabalho sob o novo capitalismo, Kurz também realça o impulso autodestrutivo que consome tais mônadas “universalmente exploradas e solitárias”, um novo universo da espoliação em que os empregados vão se tornando “manhosos e sem coesão social, que só sabem lograr seus superiores, os clientes e seus demais colegas” 14. Aqui o outro foco do ponto cego em questão. A anulação mental induzida pela privatização do trabalho atroz – como alguns autores franceses chamam a coisa – vem a ser o reverso de uma tolerância crescente com o intolerável – no caso, a injustiça abismal na sociedade polarizada de hoje. Algo como uma reação defensiva igualmente cruel ante o sofrimento que se é obrigado a infligir a si mesmo e aos outros, os que se vêem passar nas levas sucessivas de precarizados e enxotados, pelo sistema, é claro, como nos falsos juízos de atribuição que acompanham esse encasulamento no medo 15. É neste momento que se dá a esterilização da faculdade de pensar e prospera o cálculo dos experts em sobrevivência, deserto mental onde cresce apenas a crueldade social que caracteriza todo o eclipse da reflexão. Aqui voltamos ao topo dos esclarecidos. Ao niilismo da “viração” dos que embaixo moem no aspro corresponde o “saco de maldades” ou a “Wall Street quer sangue” de dois imortais mentecaptos da pedantocleptocracia fernandina.

O reino animal

Com uma diferença, seja dito, por assim dizer, em favor das vítimas. Como o nome indica, “bêtise” algo terá a ver com o reino animal. Refletindo sobre sua gênese, nossos dois fracassomaníacos frankfurtianos lembraram que o símbolo da inteligência é a antena do caracol.

“Diante de um obstáculo, a antena é imediatamente retirada para o abrigo protetor do corpo, ela se identifica com o todo e só muito hesitantemente ousará sair de novo como um órgão independente [...]. Em seus começos, a vida intelectual é infinitamente delicada [...]. O corpo é paralisado pelo ferimento físico, o espírito pelo medo. Na origem as duas coisas são inseparáveis [...]. Esse primeiro olhar tateante é sempre fácil de dobrar, ele tem por trás de si a boa vontade, a frágil esperança, mas nenhuma energia constante. Tendo sido definitivamente afugentado da direção que queria tomar, o animal torna-se tímido e burro. A estupidez é uma cicatriz [...]. Essas cicatrizes constituem deformações. Elas podem tornar as pessoas estúpidas no sentido de uma manifestação de deficiência, da cegueira e da impotência, quando ficam apenas estagnadas; no sentido da maldade, da teimosia e do fanatismo, quando desenvolvem um câncer em seu interior. A violência sofrida transforma a boa vontade em má” 16.

São esses os pontos cegos que no interior de um indivíduo justamente, como estamos vendo, “designam as etapas em que a esperança se imobilizou”. Porém o que se aplica aos condenados da terra – ao mesmo tempo em que reconhece a massa bestificada pela hipnose fascista na história das frustrações da espécie – não pode evidentemente valer para a indigência histórica do reino animal do espírito que se instalou na capital cultural do FHnistão. Para tal reino não haverá filosofia que encontre circunstâncias atenuantes.

Como o ser em Aristóteles, corrupção também se diz em muitos sentidos, inclusive na acepção brasileira do termo, como a seu tempo veremos, caso este folhetim continue. Ao falar em corrupção da inteligência brasileira, não me passa pela cabeça sugerir que até os maiorais de nosso falido espírito crítico estão criando rã no quintal. Primeiro porque acho que ainda não estou maluco a esse ponto, segundo, e principalmente, porque, sendo moralista, pelo menos com essas coisas não costumo brincar. Como não tive berço dialético, minha mãe estudou no “Des Oiseaux” e meu pai era udenista, peço que me relevem a estreiteza de espírito. Falha de formação, sem dúvida.

Mesmo tendo sido aluno aplicado da Escola Paulista de Pensamento, ainda não consigo encarar a corrupção com suficiente isenção sociológica. Azar, estou agora morrendo na praia. Vejam só, deixei escapar na undécima hora a Astúcia da Razão em pessoa, a manobra radical do genial estadista, na formulação não menos inspirada do filósofo Ortega y Nassif: “Utilizar as armas da fisiologia para derrotar a fisiologia!”. Aplicando esse teorema do materialismo histórico em reconstrução, o fotogênico E.J. definiu-se com toda razão um lobista ao contrário17. Mas também não é dessa corrupção literal – na verdade uma metáfora fóssil – que estou falando, embora não ignore que a dita cuja é antes de tudo um sistema sem sujeito, é claro, porém com cadastro na Receita Federal. A corrupção que me interessa – a extinção da inteligência pela estupidez “crítica” – é muito mais assustadora (afinal tenho interesses profissionais no assunto), pois concerne à decomposição de uma tradição que se vai desmoralizando conforme apodrece. (Avisei que sou moralista.) Sendo assim, o estrago não é nada trivial, de fato uma hecatombe que no limite independe de eventuais traficâncias nas altas paragens do pensamento e do poder. Ou melhor, por isso mesmo interessa investigar conceitualmente, é claro… o lugar do “broker” intelectual na hora pesada em que se encontram o dono do dinheiro e o dono do poder. Ali onde circulam, nas palavras famosas de Braudel, os grandes predadores e vigora a lei da selva, deve a inteligência se corromper na forma gloriosa da mais estupenda e cruel burrice.

Cada vez mais do mesmo

Dada a calculada irreversibilidade das políticas de ajuste permanente como fim em si mesmo e o correspondente dano social irreparável que produzem, tudo indica que teremos cada vez mais do mesmo. Diante de uma tal escalada autodestrutiva, a constatação de que a tradição crítica brasileira não tem mais futuro é uma catástrofe menor.

Não sei se estou me fazendo entender, afinal não sou nenhuma exceção e a minha própria capacidade de pensar já deve ter se apagado faz tempo. Os paulistas no poder não são quaisquer, tampouco a desgraça mental que patrocinam. À sua própria revelia, bem entendido, conforme aprofundavam o ponto final em que chafurdamos, iam avançando, com fins apologéticos os mais rasos, nos fundos críticos acumulados pela referida tradição e, por esse caminho de autodestruição do saber herdado, convertendo ponto por ponto o que antes esclarecia e prometia libertação, no seu exato oposto conformista, como se quisessem demonstrar numa derradeira pirueta, cínica ou asnática, vá lá saber, que de fato cedo ou tarde toda Aufklärung, central ou periférica, acaba se convertendo no seu contrário.

A nova mitologia dos fatos se expressa então no autodeslumbramento com que a feroz burrice dos inteligentes se congratula consigo mesma. Porém, o espírito crítico saqueado e barateado parece se vingar quando a antiga teoria crítica passa a funcionar como uma chinfrinzinha teoria tradicional de coisa nenhuma e ainda por cima mobilizada com a pompa e circunstância dos grandes acacianos para os fins da mais trivial dominação de classe.


NOTAS

1. Adorno e Horkheimer, Dialética do esclarecimento, trad. Guido Almeida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985, pág. 195;
2. Não ignoro que essa enumeração aleatória está confundindo duas ordens de fenômenos, as quais o renomado Dicionário do Almanaque Filosófico, da editora Vozes, na sua edição de 1997, manda distinguir, a saber, a corrupção de tipo b, inferior, corrupção atrasada e ainda tributária do paradigma desenvolvimentista; e a superior, de tipo a, a de agência, dita de acumulação flexível (pág. 26). Antevendo a atual apoteose, já naquela edição do referido almanaque (ainda disponível à rua Frei Luís, nº 100, em Petrópolis) se anunciava o fim próximo da era Vargas, no entender do dicionarista, um modo de produção asiático, em vigor durante meio século no Brasil, destinado entretanto a um fatal desaparecimento desde o momento em que o atual regime retomara o processo de ocidentalização do país, interrompido em 1930 (cf. ibidem, pág. 35);
3. Copyright José Simão;
4. Folha, 10/5/01, pág. B 3. Na ocasião, o mesmo cunhado do príncipe de Hanover deu como exemplo o Japão dos anos 70, que, devido ao alto custo de energia, transferiu para o Brasil sua produção de alumínio. Porém nada mais disse nem lhe foi indagado;
5. Cf. Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, SP, Companhia das Letras, 1999;
6. José Arthur Giannotti, Folha, 7/6/92. Ao leitor interessado em apreender o conceito de “infração intersticial”, recomendo a consulta ao mencionado dicionário publicado pelos bons frades de Petrópolis, onde encontrará na pág. 27 a seguinte definição: “Manobra radical pilhada em flagrante desvio semântico. Equívoco categorial afiançável”.
Na última edição do referido almanaque, encontrará o leitor interessante aplicação atualizada do conceito: “Exemplo de infração intersticial: na recente violação do painel do Senado – “estelário cívico”, conforme a última produção poética do bacharel de Cananéia, “Senatus Populusque Brasiliensis”, todavia um caso paulista atípico de extinção de nascença – dir-se-á que a infração, sendo intersticial, não fere a regra do decoro parlamentar, uma vez que se deu seguindo uma outra regra, cuja gramática deve ser procurada numa outra lógica, a da intimidade, para ser exato”;
7. Como se trata de complexo termo técnico de mecânica celeste, poderá o leitor recorrer novamente ao providencial dicionário, ao que parece compilado na intenção dos prováveis sobreviventes do apagão da inteligência nacional. “Empuxe individual – golpe de manivela que coloca o ego em movimento. Acionar o mecanismo com precaução: perigo de fissura e escapamento (v. fissura e escapamento)”. Págs. 37-38;
8. Cf. Luís Werneck Vianna, “A Revolução Passiva – Iberismo e Americanismo”, Rio de Janeiro, ed. Revan, 1997;
9. P.: “Qual a prioridade do presidente para o fim do governo?” R.: “Bom, do jeito que está, será sobreviver”. Entrevista de José Arthur Giannotti a Luís Henrique Amaral: “Moral e Política Não Se Misturam”, em O Globo, 13/5/01;
10. Na extraordinária formulação de Marx, reativada recentemente por Fernando Haddad em “Sindicalismo, Cooperativismo e Socialismo”, São Paulo, Fundação Perseu Abramo (no prelo);
11. Eli Gurgel Andrade, “(Des)Equilíbrio da Previdência Social Brasileira (1945-1997)”, UFMG, 1999;
12. Para um bom enquadramento da atual parolagem acerca da transição modernérrima do Estado-produtor (Brasil 1) para o Estado-regulador (Brasil 2), ver José Carlos Miranda e Maria da Conceição Tavares, “Brasil – Estratégias da Conglomeração”, in José Luis Fiori (org.), “Estados e Moedas no Desenvolvimento das Nações”, Petrópolis, Vozes, 1999.
Exemplo: “A Agência Nacional de Petróleo está obrigando a Petrobras a ceder o uso do gasoduto Brasil-Bolívia [cuja construção ela mesma bancou] à British Gas, arbitrando uma tarifa muito inferior à que a própria estatal vai pagar. Essa benesse da ANP dará à BG condições de vender mais barato o gás à custa da empresa brasileira. Isso se chama livre mercado ou facilitação do poder público?” (Fernando Siqueira, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás. Folha, “Painel do Leitor”, 11/ 05/01, pág. A 3). O rapaz não sabe lógica, não entendeu a gramática do capital;
13. Cf. Francisco de Oliveira, “Classes Sociais em Mudança e a Luta pelo Socialismo”, São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2000, págs.14-21;
14. Robert Kurz, “Descartável e Degradado”, Folha, caderno Mais!, 11/07/99;
15. Cf. Cristophe Dejours, “La Souffrance en France” [O Sofrimento na França], Paris, Seuil, 1998;
16. Idem, ibidem, págs. 239-240;
17. Para outras contribuições do pensador de Poços de Salamanca, ver ainda o citado dicionário da editora Vozes, em especial a pág. 35: “O estadista é um intuitivo genial, que define um modelo de país na cabeça e centra todas as suas energias para concretizar o objetivo. Ele trapaceia, mente, engana, alia-se ao diabo.” “Escrúpulo é coisa de intelectual”, arremata o diretor-presidente da agência Dinheiro Vivo, noutro lance premonitório acerca do destino da vida inteligente no país. “Obviamente não basta a falta de escrúpulos”, continua. O primeiro Fernando que o diga. No entanto, não sei se querendo demonstrar que tampouco é necessária muita sociologia, Ortega y Nassif, segundo registro do mesmo dicionário (pág. 36), relembra que Fernando, o Breve, também mudou o país: “Collor teve a visão genial de entender que não implodiria esse edifício getulista pedindo licença [...]. Collor intuiu com uma clareza admirável o papel que caberia a cada agente político e econômico no novo país que estava sendo moldado. Essa visão genial foi sua grande virtude [...]. O manual encontrado no PC de PC Farias demonstra a visão extraordinária dos novos tempos”. Pela recorrência do fenômeno, é bem possível que no próximo reinado estejam operando uma terceira liquidação da era Vargas e assim sucessivamente, como, na finada União Soviética, a famosa herança asiática, quer dizer, ibérica, que nunca terminava de acabar, “et pour cause“.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Paulo Eduardo Arantes é filósofo, professor aposentado do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou entre 1968 e 1998. Publicou, entre outros, Hegel: a ordem do tempo (1981), Ressentimento da dialética (1996), Extinção (2007) e O novo tempo do mundo (2014).  Coordenador da coleção Estado de Sítio da Boitempo, colaborou com O que resta da ditadura: a exceção brasileira, organizado por Vladimir Safatle e Edson Teles, com o ensaio “1964, o ano que não terminou”.

Maria Rita Kehl: Voto contra o retrocesso

14.10.16_Maria Rita Kehl_Voto contra o retrocessoPor Maria Rita Kehl*.

A presidenta Dilma Rousseff criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Em maio de 2012, a primeira presidenta do Brasil, ex-presa política torturada, conseguiu aprovar no Congresso a criação da CNV. Entre os países latino-americanos que sofreram ditaduras, fomos o último a criar uma comissão da verdade.

Antes tarde do que nunca. Ainda que os militares remanescentes do estado de exceção não cooperem com nossas investigações. Ainda que adeptos da linha-dura, hoje na reserva, recusem “colaborar com o inimigo” (todos nós) –e não revelem o paradeiro dos cerca de 150 desaparecidos políticos (sem contar indígenas e camponeses).

Ainda assim, o trabalho da CNV representa um avanço efetivo na consolidação da nossa democracia.

Avanço que exige, ainda, a erradicação da continuada prática de violência de agentes do Estado contra cidadãos detidos. A presidenta criou o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que começará a atuar para coibir os maus tratos a pessoas detidas em presídios, delegacias e hospitais psiquiátricos.

Nosso atraso em termos de direitos humanos, além de envergonhar o país, multiplica a insegurança na sociedade inteira. Já se comprovou que a violência da criminalidade no Brasil é diretamente proporcional à violência das PMs e de outros agentes de segurança contra os cidadãos.

Voto em Dilma Rousseff porque tenho vergonha de nossa desigualdade social. Nunca compreendi como se podia viver com tranquilidade em um país rico onde parte da população passava fome. Problema que, aliás, foi reconhecido como extinto em função dos programas sociais dos governos Lula e Dilma. Iniciados por FHC, sim, mas por que, então, eleitores do PSDB ainda desqualificam o programa Bolsa Família como “Bolsa Esmola”?

Não faltam notícias sobre municípios onde a entrada dessa renda mínima impulsionou a economia local nem sobre cidadãos que cancelaram sua inscrição para recebimento da bolsa tão logo conseguiram ganhar o suficiente para seu sustento.

Depois das gestões Lula e Dilma, a vulnerabilidade dos mais pobres diminuiu em função da expansão de seus direitos. Voto pela continuação do Bolsa Família, do programa Luz para Todos, do Minha Casa, Minha Vida, maior programa de habitação popular já criado no Brasil. Voto também por uma política econômica que, em tempo de crise do capitalismo internacional, preservou o valor dos salários e o pleno emprego.

Os governos de Lula e de Dilma impulsionaram o acesso dos jovens às universidades no país e no exterior. Proporcionaram atendimento médico gratuito em cidades afastadas dos grandes centros.

Suponho que a maioria da classe médica tenha se envergonhado das vaias contra os cubanos contratados com transparência pelo Ministério da Saúde. Afinal, os brasileiros sempre acharam chique a importação de tecnologia. Ninguém vaiou a participação da Alstom, hoje suspeita de corrupção, nas obras de ampliação do Metrô de São Paulo.

Por fim, voto em Dilma pela continuação do combate à corrupção em todos os níveis, inclusive os que atingem setores de seu governo. Desde o governo Lula, a Polícia Federal investiga com transparência crimes de colarinho branco, sem poupar autoridades, empresários e ministros. Melhor o risco de penas injustas, como no caso de alguns mensaleiros, do que a impunidade.

Do outro lado: onde foram parar as investigações de corrupção no Metrô paulista, no mensalão mineiro, as denúncias sobre o aeroporto de Cláudio e o helicóptero da família Perrella que transportava cocaína?

Por que os paulistas não foram informados, até a reeleição do governador Alckmin, da calamidade pública na gestão da água que, desde 2012, era mantida em segredo entre governo e acionistas da Sabesp?

Sei que a erradicação da corrupção depende da independência dos meios de comunicação. Voto na candidata que não tem a grande mídia a seu favor.

* Publicado originalmente na Folha de S.Paulo de 16/10/2014.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora esporadicamente para o Blog da Boitempo esporadicamente.

O Brasil visto de Berlim

14.10.16_Flávio Aguiar_O Brasil visto de BerlimPor Flávio Aguiar.

É difícil, é difícil, é difícil.

Há uma esquerda no Brasil – uma, porque há várias, e um dos problemas das esquerdas no Brasil e no mundo é o de que cada facção acha que só ela é a “autêntica” – que teima em dizer que o PT e seu governo não são “esquerda”, são “direita disfarçada”.

Há quem diga até que o PT e seu governo (Dilma) cooptam os mais pobres para neutralizar os “verdadeiros interesses” da classe trabalhadora. Quem fala por estes “verdadeiros interesses”? A vanguarda, claro. Jamais “a classe trabalhadora”, para aquela uma abstração subsumida ao seu discurso.

No momento, há uma disputa real sim no Brasil. Não é só entre um projeto e outro, embora seja claro que isto exista. É entre voltar a achincalhar os miseráveis e os ex-miseráveis que conseguiram melhorar um pouco seu nível de vida, ou melhorá-lo ainda mais.

É entre melhorar o salário das pessoas ou piorá-lo. Entre possibilitar o acesso à educação a mais ou a menos pessoas.

Entre manter os vínculos do Brasil com a política de aproximação Sul – Sul ou retocá-lo para o aprisco Ocidental da reedição da Guerra Fria que está em curso.

É disto que se trata, não de provar esta ou aquela teoria. Ou de aquele grupinho tem razão sobre o outro.

Leio muita coisa sobre o Brasil escrita no Brasil, e fora dele. Às vêzes me espanta como ambos os lados da escrita ignoram o que se passa no mundo.

A direita faz um carnaval na Europa. Deita e rola, seja na extrema, na médio ou na centro-direita. As esquerdas estão prostradas. Os partidos social-democratas e socialistas rendidos. As escolas de economia só ensinam a ortodoxia. Aqui na Europa só impera o pensamento único, que é o do PSDB no Brasil. A débâcle das esquerdas é mundial. As esquerdas ainda não se recuperaram das pedras do Muro de Berlim que lhes caíram pelas cabeças. Com exceção, vagarosa, mas exceção, da América Latina. E do Brasil.

Mas tem gente que quer que o Brasil seja uma ilha neste oceano de desventuras. Ou seja, que sobrenade por si só, realizando o socialismo de imediato – amanhã já seria depois demais. É o mesmo pensamento, com outros signos, de quem quer que o Brasil se transforme numa ilha verde – na verdade um parque de diversões para ongues ecológicas – em meio à turbulência das emissões de carbono em escala global. O verde é desimportante? Claro que não. O Brasil precisa de um Partido Verde de Verdade. Não estes puxadinhos biocapitalistas em que o PV e a candidatura malograda de Marina se transformaram.

Mal comparando, penso em mim se eu estivesse na Batalha de Stalingrado. Eu poderia me levantar na trincheira e gritar: sou um pacifista, proponho que deponhamos todos as armas e instalemos um soviete internacional entre russos e alemães. Ou ainda eu poderia propor: não, façamos um seminário acadêmico na trincheira 17 sobre a traição mútua à luta de classes representada pela falácia nazista e a cooptação stalinista. Sou um pacifista? Sim, e entusiasmado. Mas…

Tudo bem: eu não estava na batalha de Stalingrado.

Mas estou na do Brasil, de 2014.

E lá como aqui, há o momento de deixar as dúvidas de lado e partir para – agora – o voto.

Não se trata de esquecer as dúvidas, nem as críticas. Pelo contrário. Elas voltarão ao proscênio.

A seu tempo.

O momento agora é de votar.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O sexto turno

14.10.15_Mauro Iasi_O sexto turnoPor Mauro Iasi. 

“Os presidentes são eleitos pela televisão, como sabonetes,
e os poetas cumprem função decorativa. Não há maior magia
que a magia do mercado, nem heróis maiores que os banqueiros.
A democracia é um luxo do Norte. Ao Sul é permitido o espetáculo”.
Eduardo Galeano, O livro dos abraços

Uma vez mais o jogo previsível encontra seu desfecho esperado. Circunscrita pelo poder econômico e midiático, as candidaturas da ordem se encontrarão, mais uma vez, em um segundo turno. Um dos elementos de garantia da ordem pode ser encontrado nos mecanismos de segurança que limita as alternativas e depois as apresenta como liberdade de escolha.

No campo político isso foi descrito por Gramsci como “americanismo” e se expressa classicamente na alternância entre um Partido Democrático e outro Republicano nos EUA, num jogo de imagens no qual nem um é democrático, nem o outro é de fato republicano. Ao sul do equador tal fenômeno pode ser visto historicamente na suposta alternância entre liberais e conservadores, na maldição já descrita na expressão “nada mais conservador que um liberal no poder”, ou na famosa ironia de que no ato de posse o programa conservador é transferido para o partido de oposição, que entrega o programa liberal para quem sai do governo.

Carlos Nelson Coutinho costuma chamar a versão brasileira desta “democracia” de americanalhamento. A expressão parece pertinente.

A instituição do segundo turno no Brasil tem servido a este propósito. No sistema norte americano todo mundo pode ser candidato, mas os filtros vão se dando nas eleições dos convencionais (que de fato elegem o presidente numa eleição indireta e absurdamente antidemocrática), até que só chegam à disputa de fato os dois partidos oficiais citados. No Brasil não é necessário tal engenharia política. Os filtros de segurança começam pelas clausulas de barreira que impedem a organização partidária, depois a legislação eleitoral absolutamente desigual e inconstitucional (mas isso nunca foi problema em nosso país segundo o TSE), passa pelo financiamento privado de campanha e chega na cobertura desigual da imprensa monopólica.

Não podemos esquecer o mecanismo que decide o voto antes da eleição pelo controle dos cofres públicos, dos governos estaduais, prefeituras e cabos eleitorais numa verdadeira chantagem de verbas, financiamentos e facilidades que controlam regiões inteiras sem a necessidade de uma único debate de programas ou ideias.

Como diz Galeano no texto que nos serve de epígrafe, a democracia é um luxo reservado ao Norte, ao Sul cabe o espetáculo que não é negado a ninguém, afinal, diz o autor uruguaio, “ninguém se incomoda muito, que a política seja democrática, desde que a economia não o seja”. Quando as urnas se fecham, prevalece a lei do mais forte, a lei do dinheiro.

Mas, é essencial ao espetáculo que você sinta a sensação de estar decidindo. É neste campo que se inscreve o chamado voto útil.

A máquina eleitoral burguesa não pode impedir movimentos de opinião, que se expressam no primeiro turno e, mesmo, no segundo. É perfeitamente compreensível que muitas pessoas pensem na lógica do mal menor, numa análise comparativa entre as alternativas que restaram. Como sempre há diferenças entre elas, convencionou-se que a esquerda deve votar no mais progressista e evitar o risco da direita.

Analisemos mais detidamente as alternativas que o poder econômico, a legislação restritiva e os meios de comunicação monopolizados selecionaram.

De um lado Aécio Neves do PSDB, legenda conhecida pelos mandatos de FHC e do próprio político mineiro em seu estado, assim como a longa dinastia paulista. Neste caso não há dúvida sobre seu programa conservador, seu compromisso com o mercado e os grandes grupos monopolistas, sua lógica privatista e sua subserviência ao imperialismo. Trata-se de uma legenda que nada tem de social democrata e tornou-se o centro aglutinador da direita representada na aliança com o DEM, o PPS e outras que compuseram sua base de governabilidade quando no governo, como o sempre presente PMDB, PTB e outros.

De outro, o PT, partido que tem sua origem nos movimentos sociais e sindicais dos anos 1970 e 1980, e que chegou à presidência em 2002 com a eleição de Lula para aderir ao pacto e ao presidencialismo de coalizão tornando-se o centro de um bloco do qual participam o PCdoB e o PSB, garantindo sua governabilidade com o PMDB, o PTB, PP, PSC, e outras siglas no mercado do fisiologismo político próprio do americanalhamento citado. Difere do PSDB na medida em que defende uma maior presença do Estado para garantir a economia de mercado, sustentando seu pacto de classes através de medidas de cooptação e apassivamento, tais como a garantia do nível de emprego e políticas sociais focalizadas e compensatórias de combate aos efeitos mais agudos da miséria absoluta.

A mera comparação justifica a tendência do voto em Dilma de grande parte dos que temem um governo do PSDB como expressão mais clara da política conservadora.

Coloquemos, entretanto, as coisas numa perspectiva histórica. Este não é um mero segundo turno, é o sexto turno. É a terceira vez que tal situação se apresenta. Nas duas primeiras, em 2006 e 2010, o PCB, por exemplo, indicou o voto crítico no candidato do PT, ou priorizou o combate à direita no momento eleitoral, ainda que sempre se mantendo na oposição. Não seria o caso agora?

Lembremos quais os discursos que acompanharam este processo. Quando da passagem para o segundo mandato do Lula o discurso é que o primeiro mandato havia sido para acertar a casa, mas agora viria uma guinada em favor das demandas populares, o governo Lula estaria em disputa. Quando da passagem para o mandato de Dilma o discurso é que, agora viria a guinada na forma de uma opção pelo mítico “neodesenvolvimentismo”.

No entanto, o que vimos nas duas oportunidades não foi uma reversão do rumo do pacto social e das medidas conservadoras, pelo contrário. O fato é que cada governo subsequente foi sendo mais à direita que o anterior. Os governos eleitos para “evitar a volta da direita”, a perda de direitos para os trabalhadores, o aprofundamento das privatizações, a criminalização dos movimentos sociais, o abandono da reforma agrária, acabaram por impor um crescimento das privatizações, uma precarização do trabalho, o ataque aos direitos dos trabalhadores (eufemisticamente chamado de “flexibilização”) e o aprofundamento da criminalização dos movimentos sociais. Reforma da previdência, privatização do campo de Libra, imposição da EBSERH, rendição do Plano Nacional de Educação à lógica dos empresários e do sistema S, prioridade para o agronegócio, a farra da Copa, as remoções, o aumento da violência urbana e a política genocida das polícias militares contra a população jovem, pobre e negra, a não demarcação das terras indígenas, as concessões ao fundamentalismo religioso que impede a legalização do aborto, a criminalização da homofobia…

Talvez a área mais emblemática seja a luta pela terra. Não apenas reduz-se a cada mandato o número de famílias assentadas, como cada vez mais assentamentos são abandonados à sua própria sorte, e os pequenos produtores considerados “economicamente irrelevantes” (nas palavras de um representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário em resposta às demandas do MPA). Ao mesmo tempo dirige-se toda a política agrária para a prioridade ao agronegócio, tornando aliado central na governabilidade e na direção da política econômica, como mostram os apoios, ainda no primeiro turno, de Kátia Abreu e Eraí Maggi (o rei da soja).

Algo estranho ocorre por aqui. Primeiro, trata-se de fazer reformas possíveis no lugar da revolução necessária. Para tanto, um pacto social que leva o governo, que deveria ser reformista de esquerda, para um perfil de centro-esquerda – ou nos termos de André Singer, de um reformismo de alta intensidade apoiado na classe trabalhadora para um reformismo de baixa intensidade apoiado nas camadas mais pobres. Em seguida trata-se de tomar medidas de um governo de centro-direita para enfrentar a crise do capital com massivas doses de apoio ao capital por parte do Estado para garantir a manutenção de um crescimento com emprego e geração de renda. E agora uma clara composição de direita apoiada nos grandes bancos, nos setores monopolistas, nas empreiteiras, no agronegócio, numa situação parlamentar ainda mais conservadora que empurrará qualquer governo eleito para posição ainda mais conservadoras para realizar os “ajustes necessários” para enfrentar a crise que já se apresenta no horizonte.

O que é forçoso constatar é que a política do acumulo de forças não acumulou forças. Pelo contrario, desarmou a classe trabalhadora e abriu espaço para o crescimento da direita. O que era uma estratégia para evitar a direita pode ter se tornado o caminho pelo qual pôde se garantir sua “volta”. De fato, ela nunca teve seus interesses ameaçados – porque nos referimos a interesses de classe e não das legendas políticas que representam seguimentos e facções das classes dominantes. A classe dominante apoia as duas alternativas, fato que fica evidente na distribuição dos financiamentos de campanha.

O tão falado crescimento da direita, ou a “onda conservadora”, não se dá por acidente, mas é o resultado previsível dos governos de pacto social e da profunda despolitização que resulta de doze anos de governos petistas. Como disse Ruy Braga em artigo recente, que a burguesia e a classe média sejam conservadoras é perfeitamente compreensível, mas o que precisa ser explicado é porque o conservadorismo tomou a consciência de setores da classe trabalhadora. A candidata do PT perdeu no ABC paulista, somando os votos de Aécio e Marina, perdeu em São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul.

Parte da classe trabalhadora, equivocadamente, aposta em candidaturas conservadoras que são contra seus interesses de classe. Veja, ao invés de infantilmente culpar a esquerda, os governistas deviam se perguntar por que isso ocorreu. Parte da classe quer o fim do ciclo do PT e não há discurso da esquerda que possa convencer este segmento que o governo atual é que lhe representa, pelo simples fato que a sequência de medidas que descrevemos indicam claramente outra coisa.

O que está acontecendo é que os meios de apassivamento e cooptação são insuficientes para continuar mantendo o governo do PT com a aparência de esquerda enquanto opera uma política de direita. Mantêm-se o nível de emprego, mas os precariza, garante acesso ao crédito para manter o consumo, mas gera endividamento das famílias, garante acesso precário às universidades privadas ou através de uma expansão que não garante a permanência e a qualidade necessária no setor público, tira-se as pessoas da miséria absoluta para colocá-las na miséria.

A explosão do ano passado foi didaticamente um alerta, mas as forças políticas, governistas ou de oposição no campo da ordem, literalmente ignoraram as demandas que ali surgiram. Nenhuma demanda foi considerada, desde a questão do transporte urbano, os gastos do Estado priorizando as empreiteiras e bancos e não educação e saúde, a violência policial e os limites da democracia de representação. Silencio total.

A esquerda – aquela que resistiu a este caminho suicida, foi estigmatizada, atacada, criminalizada e excluída do centro do jogo político – no seu conjunto não chegou aos 2% dos votos, e mesmo o voto nulo e a abstenção ficaram nos níveis históricos das últimas eleições. Não pode, portanto ser culpabilizada por uma eventual derrota do PT. A insatisfação de 2013 se apresenta nas eleições como caldo de cultura da necessidade de uma mudança e é atraída pelo canto da sereia da direita que numa eventual vitória governará com a mesma base de sustentação do governo atual.

Alguns afirmam que o que há de diverso agora é que o PT terá que vencer o PSDB enfrentando-o pela esquerda. Não é o que parece, nem o que o cenário político anuncia com a composição do novo Congresso Nacional. Ao que parece, Dilma investe em se apresentar como ainda mais confiável ao grande capital e seus atuais aliados prioritários, ignorando solenemente as demandas populares para recompor seu governo à esquerda. Respondam rapidamente: quantas vezes, nos últimos debates, a presidente tocou no tema da Reforma Agrária?

Mais uma vez, compreendo e respeito aqueles que votarão em Dilma para evitar o governo do PSDB. Apenas preocupa-me que pouco se analisa do que consiste o conteúdo desta suposta alternativa. Talvez algumas perguntas, na linha da nota do PCB, ajudem na reflexão:

  1. O eventual segundo mandato de Dilma reverterá a prioridade do agronegócio e avançará na linha de uma reforma agrária popular tal como proposta pelo MST e uma política agrícola que considere os interesses dos pequenos camponeses como preconiza o documento do MPA?
  2. Romperá com a política de superávits primários, de responsabilidade fiscal e de reforma do Estado que tem imposto a prioridade ao pagamento da dívida que consome cerca de 42% do orçamento?
  3. Demarcará as terras indígenas se chocando com os interesses do agronegócio e dos madeireiros?
  4. Romperá com a dependência em relação à bancada evangélica avançando nas questões relativas ao aborto, ao combate à homofobia e a política retrograda de combate às drogas?
  5. Alterará o rumo da política de segurança fincada no tripé: endurecimento penal, repressão e encarceramento?
  6. Vai administrar a crise do capital revertendo a tendência à precarização das condições de trabalho e ataque aos direitos dos trabalhadores?
  7. Vai mudar a lógica de criminalização dos movimentos sociais na linha da Portaria Normativa do Ministério da Defesa que iguala manifestante a membro de quadrilha e traficante, ou estenderá o fundamento desta política de garantia da Lei e da Ordem na forma de uma Lei de Segurança Nacional que torna permanente a presença das Forças Armadas como instrumento de garantia da ordem?
  8. Vai alterar a linha geral do Plano Nacional de Educação que institucionaliza a transferência do recurso público para educação privada, se entrega à concepção empresarial de ONGs e outras instituições empresariais e adia por vinte anos a meta dos 10% para educação?
  9. Vai fazer uma reforma política nos termos indicados pelo plebiscito que reuniu 7 milhões de assinaturas, ou aplicará o acordo com o PMDB que produziu um texto conservador e ainda mais concentrador de poder nas atuais siglas do Congresso Nacional tornando mais eficiente o presidencialismo de coalizão?

Nós que podemos interferir pouco no resultado eleitoral só podemos alertar que quem votar em Dilma não estará apenas evitando a vitória de uma opção mais conservadora – objetivo louvável – mas, também, referendando os atos que vierem a ser aplicados. O próximo governo Dilma, se ganhar, não responderá positivamente, na perspectiva da classe trabalhadora, a nenhuma destas nove questões. Por isso o PCB não pode empenhar seu apoio, mais uma vez, nem que seja crítico, pois os governos petistas já responderam a estas questões com doze anos de governo.

E se perder? Neste cenário, que não depende de nós e nem pode ser atribuído à esquerda, que não é desejável, mas possível, o PT teria que voltar à oposição. Neste caso temos a dizer que aqui a situação está muito difícil. A criminalização se intensifica, a polícia militar e as UPPs matam pobre todo dia. O Estado Burguês se armou, graças aos últimos governos, de todo um arcabouço jurídico e repressivo para nos combater, os assentamentos da reforma agrária estão abandonados, os serviços públicos foram direta ou indiretamente precarizados através de parcerias públicos privadas, as Universidades estão sendo mercantilizadas e sucateadas, o governo prefere negociar com sindicatos domesticados do que com as organizações de classe, os meios de comunicação reinam incontestes e impõem um real que nos torna invisíveis, reina o preconceito, a violência, a homofobia e a transfobia, parte da classe trabalhadora vivencia uma inflexão conservadora na sua consciência de classe e ataca o marxismo e o pensamento de esquerda como seu inimigo, imperando a ofensiva irracional da pós-modernidade que se revela cada vez mais fascista nos levando para a barbárie.

Bom, mas isso vocês sabem, não é? Talvez só não saibam de onde veio este retrocesso. Bom, procurem nos seis turnos, naquilo que foi anunciado e no que foi posto em prática… é uma boa pista.

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Eleições630p

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.