O encanto da vida

14.10.31_Roniwalter Jatobá_EncantoPor Roniwalter Jatobá.

Quem nunca sonhou com uma vida de aventuras no estilo Indiana Jones? Acho que muitos, principalmente aqueles nascidos na selva de São Paulo. Quando criança sonhei em ser aventureiro, quando me via atravessando savanas cheias de animais no continente africano, matas com imensas jibóias e rios cheios de peixes, na Amazônia. Talvez essas imagens infantis tenham vindo das incríveis histórias de meu pai, que durante mais de um ano viveu no Pará. O velho João contava que morou num lugar distante “dois dias de barco de Belém”, num improvisado rancho à beira de um rio, onde nas noites ouvia do quintal rugidos de onças famintas e pescava piranhas usando apenas um pano vermelho.

Nos fundos de casa, copiava as aventuras paternas. Outro dia, era mocinho e à tarde bandido. Com amigos rolava no capinzal macio e morada de formiga se transformava em montanha e despenhadeiro. Balas de revólver zuniam na imaginação. Porcos, galinhas, perus viravam manadas de elefantes ou zebras e cabo de vassoura cavalo veloz. Na manhã seguinte já virava corajoso caçador. Adorava os perigos e abominava a vida calma e serena da vidinha de sempre.

Hoje, adulto, ao contrário sonho com vivências de tranquilas calmarias. Mais perto de todos nós, homens comuns. Quando penso nisso, logo vem à memória a figura de Orestes Nesti, e seu livro, Da Fenícia à Paulicéia, de ensaios sobre a história da cidade de São Paulo.

Conheci bem a vida desse paulistano. Nasceu em 1913. Foi criado na Aclimação. A sua primeira casa foi na Rua Espírito Santo, naquele tempo calçada com pedras irregulares e iluminada a gás. Perto dali, na Rua Pires da Mota, havia um vale profundo com uma bica que fornecia água potável para todas as casas da vizinhança.

– Um vizinho, Aristodemo Gazzotti, morava numa vila da minha rua – ele me disse um dia. – Aos domingos, costumava transformar a janela de sua casa em um teatro que encantava adultos e crianças, contando histórias inventadas ao sabor de nossas reações.

Em 1920, seus pais mudaram para a Alameda Tupi, no bairro de Caaguaçu, atual Rua José Maria Lisboa, no hoje Jardim Paulista. Entrou na antiga Light em abril de 1928, como auxiliar de escrita. O escritório da empresa canadense era na Praça Antonio Prado, num edifício que serviu mais tarde ao Citibank e à Bolsa de Cereais. Ele dizia:

– Houve um tempo em que a Praça Antonio Prado passou por uma reforma e a gente ficava vendo das janelas os trabalhos de escavação, frequentemente interrompidos pelo achado de ossadas humanas, remanescentes do cemitério da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que havia existido no local.

Em 1929, foi inaugurado o novo prédio da Light e Orestes foi transferido para a Rua Xavier de Toledo, esquina com o Viaduto do Chá. Trabalhou ali por mais três anos e pediu demissão. Foi pressionado por seus pais, que se preocupavam com o seu crescimento muito rápido. Voltou, depois, em 1935.

– Casei-me em abril de 1940 com Beti Luters, uma união que durou cinquenta anos.

Deixou netos e bisnetos. Sempre gostou de música. Ainda menino, quando estudava no ginásio, foi convidado a integrar o coro que acompanhava as cerimônias religiosas da igreja do Carmo. Quando o escritor Mário de Andrade criou, em 1938, o Coral Popular, juntamente com o Coral Paulistano e o Coral Lírico, lá estava ele como cantor. No Coral Lírico ficou até a idade limite de 70 anos, quando foi obrigado a se aposentar.

– Eu ainda estava no Teatro Municipal, trabalhando paralelamente na Light, quando propus a formação de um coral com os funcionários. A ideia logo se transformou em realidade: fundado em 14 de outubro de 1947, o Coral Lightiano atuou brilhantemente em espetáculos e nas solenidades oficiais da empresa. Permaneci como regente até a minha aposentadoria em 1968. Mas não pense que abandonei a música, pois continuo atuando em corais. Ainda escrevo. Além disso, tenho as minhas composições musicais. De vez em quando faço alguma coisa: um motete, uma missa, geralmente música sacra.

Toda trajetória nesse “vale de lágrimas” tem o seu encantamento. Outra vida que admiro é a de meu irmão mais moço. Veio para São Paulo cheio de garra, onde trabalhou alguns anos. Foi operário na Goodyear, nas proximidades da Avenida Celso Garcia. Saía de manhã, tarde ou noite, conforme o horário, cuspindo a borracha preta dos pneus. Não se acostumou. Vivia triste, saudoso. Foi embora. Vive na roça. Planta e colhe ao sabor do tempo. Longe da metrópole, tem cinco filhos e uma vivência sem aventuras, mas sempre sem se abater como Orestes Nesti. A rotina é tão tranquila como o lento escorrer das águas puras do rio Aipim, onde toda tarde, ao pôr do sol, toma frios e revigorantes banhos. Um dia me disse:

– O mundo é grande visto de qualquer lugar.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Um cangaceiro contra a ditadura militar

14.10.30_Pericás_O cangaceiroPor Luiz Bernardo Pericás.

Durante os anos de chumbo, vários artistas alçaram a voz contra a ditadura militar, através de livros, canções, peças de teatro e filmes. No cinema, talvez o exemplo mais inusitado desta vertente seja O’ cangaceiro (isso mesmo, com apóstrofe), de Giovanni Fago, um “faroeste italiano” ambientado na Bahia! Lançada em dezembro de 1969, essa co-produção ítalo-espanhola passou despercebida por muitos amantes da sétima arte. E mesmo pelos apreciadores dos Spaghetti Westerns. Ainda que relativamente pouco conhecida, a fita, contudo, é um caso clássico de crítica contundente ao poder autoritário dos generais e ao imperialismo.

Fago, o diretor da película, começou sua carreira como assistente de lendas como Mario Monicelli, Vittorio De Sica, Renato Castellani e Lucio Fulci e a partir de 1967, se tornou regente de “bangue-bangues” como Per 100. 000 dollari ti amazzo e Uno di più all’inferno. E, é claro, de O’ cangaceiro. Em vez do norte do México ou do “Velho Oeste” dos Estados Unidos, a obra tem como cenário o sertão nordestino. E no lugar de revolucionários, caubóis e caçadores de recompensas, os personagens tradicionais do hinterland brasileiro: padres, beatos e coronéis.

Para o papel principal foi chamado o ator cubano-americano Tomas Milian. Em 1958, ele se mudou para a Itália, onde participou de filmes de Mauro Bolognini e Luchino Visconti. Seu primeiro western foi The Bounty Killer (1966), de Eugenio Martín. Também estrelou, dentro do gênero, trabalhos de Sergio Solima e o clássico Vamos a matar, compañeros (1970), de Sergio Corbucci, ocasião em que contracenou com Franco Nero, Jack Palance e Eduardo Fajardo. Ao longo da carreira, Milian ainda participaria de filmes de Franco Brusati, Dennis Hopper, Michelangelo Antonioni, Tony Scott, Oliver Stone, John Frankenheimer, Steven Spielberg, Steven Soderbergh, Andy Garcia e Bernardo Bertolucci. Em O’ cangaceiro, ele teria um desempenho memorável.

É fácil perceber os ecos de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, e de O cangaceiro, de Lima Barreto, ao longo da narrativa. Vale destacar aqui a fotografia magnífica e original de Alessandro Ulloa, a música de Riz Ortolani e a montagem de Eugenio Alabiso.

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O filme começa com um ataque de tropas comandadas pelo coronel Minas (Leo Anchóriz) contra o cangaceiro Firmino e seu grupo, num vilarejo baiano. O oficial garante a integridade dos cidadãos caso o bandoleiro se entregue. Mas mente. Os soldados massacram, sem piedade, todos os bandidos e chacinam a população local, por esta ter supostamente ajudado os facínoras. O jovem Expedito, o protagonista da história, será ferido na ocasião. Além disso, seu pai (que durante o tiroteio apenas olhava, resignado, para uma gaiola, onde um passarinho preso simbolizava a vida limitada e sem possibilidades de mudança do homem do campo; por sinal, todos os moradores tinham cáveas com aves enclausuradas), é assassinado, e sua vaca (o sustento do sertanejo), também eliminada a bala. O ato violento mostra claramente que o “povo” aparentemente não tem como escapar deste mundo “oficial” de injustiça e opressão. Não se pode confiar no Estado. Ele acabará com tudo que estiver à sua frente; os homens, portanto, são “dispensáveis”…

Expedito, entretanto, vivenciará uma mudança brusca e radical em seu destino. Tratado com ervas medicinais pelo eremita Julian, um “homem santo”, ele se restabelece em pouco tempo. O beato, em seu discurso de fanático religioso, diz que Jesus era forte e levava um chicote nas mãos, para expulsar os mercadores do templo; ao mesmo, porém, era bondoso e ajudava os pobres. Também afirma ao interlocutor em recuperação que havia estado pessoalmente com Deus, o qual lhe ordenara anunciar ao mundo que a “Justiça” prevaleceria. Estranhamente, segundo ele, Nosso Senhor se parecia muito com… Expedito! “Virá um homem que se parecerá comigo, e tu o enviarás para lutar pela Justiça e o chamarás de Redentor”, completa o velho barbudo.

Há, a partir daí, uma conversão radical. Expedito se torna um andarilho (supostamente enviado pelos Céus) que tentará convencer o povo miserável de uma vila de choças a segui-lo. Naquele momento, porém, é confrontado por “Diabo negro”, um criminoso que procura arregimentá-lo para seu bando. O “redentor” não aceita: afinal, “ele” é o escolhido, o “rei dos cangaceiros”, aquele que levará consigo a cruz e o facão. “Um machete é mais longo que a mão, mas um fuzil é mais longo que um machete”, pontifica o bandoleiro afrodescendente, que acaba permitindo que o rapaz siga seu caminho (algo de que se arrependerá no futuro). Depois disso, o jovem joga longe o objeto do cristianismo que levava como um cajado. Sua decisão está tomada…

O próximo passo de Expedito é se dirigir a um forte na capital (uma mistura de quartel e prisão), onde ocorreria uma grande festa popular organizada pelo coronel Minas em homenagem ao bispo Pedreira Souza. O aprendiz de cangaceiro chega ao local sentado num carrinho de rolamentos, se fingindo de mendigo paralítico. Sua atitude insultuosa, porém, incomoda o oficial, que manda prendê-lo. “Fascista!” , grita Expedito. Por certo, um sertanejo pobre, inculto e isolado do mundo nunca proferiria essa palavra e sequer saberia de sua existência ou significado. Na verdade, esse é o grito de toda a oposição progressista contra os militares no poder no Brasil, desde 1964. O termo forte, é claro, foi colocado propositadamente na boca daquele personagem, um homem simples e explorado… Desprezando o suposto deficiente, os soldados o empurram numa rampa que o leva direto a uma cela repleta de detentos: é sua visita simbólica ao inferno. A disposição física dos desanimados inmates, por sinal, é interessantíssima e remete à cenografia do teatro experimental.

Os prisioneiros ganharão uma injeção de ânimo deste elemento externo (talvez a “vanguarda” armada) e se tornarão seus discípulos (um deles, por sinal, tem o nome de Pedro). Enquanto isso, o bispo, com toda sua pompa e riqueza, dá o tom de artificialidade e poder, participando das celebrações para benzer os canhões do quartel! Durante toda a história, o que se vê é uma constante aproximação e aliança entre o Estado, a Igreja, os coronéis e o exército. Expedito, neste ínterim, lidera uma fuga coletiva, explode os armamentos (matando, nesse processo, Minas e o representante da Santa Sé) e começa sua trajetória como bandoleiro.

Em pé, no meio de um cemitério, cercado por seus asseclas (seus “apóstolos”, sentados ou deitados no chão, próximos às lápides e cruzes), Expedito, com cartucheiras cruzando o peito, confirmará sua metamorfose: “o redentor veio libertar o povo dos grilhões… o país tem fome de Justiça e os oprimidos clamam por sua liberdade… benditos… aqueles que sabem manejar armas!” Um dos homens ainda tenta fugir, quer abandonar o grupo. Mas é alvejado pelo cangaceiro. Agora, não se pode mais dar às costas à luta popular: quem está nela, terá de permanecer… ou será eliminado. A responsabilidade histórica está colocada. “Lutaremos pela Justiça e pela vingança”. É a exortação à guerrilha…

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O holandês Vincenzo Helfen (Ugo Pagliai) chega a um vilarejo e estaciona seu carro no meio da praça. A miserável cidadezinha, em peso, corre em direção ao veículo, uma novidade para todos de lá: o arcaico e o moderno se deparam, se defrontam. Em pouco tempo, o automóvel é totalmente depenado, mostrando a incompreensão (e ao mesmo tempo, fascínio) com o mundo contemporâneo, opulento e próspero, que nunca chegara tão longe, naqueles ermos. Nem a carcaça escapa… Do veículo, só restam os eixos e… um livro! A representação da cultura sofisticada não tem valor para aqueles trabalhadores rurais, imersos na ignorância e na pobreza…

O estrangeiro, enviado de uma companhia europeia, fora até ali em busca de petróleo. O objetivo é explorar (ou melhor, roubar) as riquezas do país e enviar todos os lucros para o exterior. Expedito, sem saber disso, contudo, adentra o lugarejo e se depara com o neerlandês. Agora, é um homem transformado. A maquiagem de Milian, neste momento, lembra vagamente aquela de Solomon “Beauregard” Bennet, o icônico personagem de Face a face, o filme de Sergio Solima no qual contracenara com Gian Maria Volonté. O “redentor” exige que Helfen leia o livro inteiro para ele, uma narrativa sobre o mar (tradicionalmente, a representação da utopia sertaneja, um lugar idílico e quase inatingível, onde ele poderá escapar e encontrar a felicidade). Ao final, porém, Expedito acha tudo uma bobagem. A história não lhe diz nada: sua escolha é o mundo real em seu entorno. E atuar nele, a partir de um viés messiânico. “Prefiro a vida do menino Jesus”, comenta.

Depois de liberado, Helfen terá uma reunião com o alto clero da Igreja, políticos e o governador Branco (interpretado por Eduardo Fajardo; o nome do personagem, por sinal, bastante sugestivo, especialmente se considerarmos que tratava-se de um poderoso membro da elite num estado majoritariamente negro), sobre as melhores formas de explorar o petróleo no “território de Água Branca até Palmeiras”. O holandês, talvez ingenuamente, acredita que as jazidas trarão benefícios e prosperidade à região, já que o povo terá trabalho, o dinheiro irá circular e será preciso construir estradas e outras obras de infraestrutura na área. Mas o governador é incisivo: “Temos de evacuar a população da zona, por bem ou por mal… Água Branca terá de ser borrada do mapa… As leis são muito úteis, nos permitem agir legalmente em nosso próprio interesse”. Afinal, como diria o novo bispo: “Existe o perigo de uma explosão do materialismo”. Em outras palavras, os trabalhadores poderiam se organizar em sindicatos ou em partidos (provavelmente, de caráter marxista) e enfrentar os poderosos; isso não deveria ser permitido.

Com o triunfo de Expedito sobre tropas do governo (enviadas para destruí-lo), dizimadas por seus sequazes, o redentor mostra que há possibilidade de vitória contra o Estado autoritário. Uma nova forma de neutralizar o bandido, assim, deve ser colocada em prática, para que os planos do governador e da multinacional não sejam obstaculizados. Helfen, o elemento-chave neste caso, tem uma ideia: tentará seduzir o bandoleiro, oferecendo inicialmente armas modernas. De acordo com o europeu, Branco admirava o “redentor” e estava disposto a dar uma festa em sua homenagem para selar o acordo. Fica nítida a tentativa de cooptação da liderança popular: se Expedito acabasse com os outros bandos de cangaceiros que atuavam na região, as autoridades lhe concederiam algumas demandas. “O simples fato de ter sido convidado já é uma grande vitória, depois de todo o mal que [Branco] nos fez, tanto a mim como à minha gente… e à minha vaca”, comentaria o fora da lei.

E então, Expedito e seus companheiros penetram na festa no Palácio do governo, retratada de maneira felliniana. Os convidados da elite local são caricaturas: ridículos, arrogantes e desconectados da realidade, vivem num mundo paralelo, cercados de serviçais, conversando sobre temas sem qualquer vínculo com a vida da população (a mulher do governador, por exemplo, fala sobre a primavera, muito úmida naquele ano). A incompatibilidade entre os interesses do “povo” e dos ricos é patente.

A função prossegue, e o hiato entre os bandoleiros e os “poderosos” só parece aumentar. Para o “redentor”, a sopa é horrível. “Água suja”, diria. A cena é quase uma homenagem subliminar à menina Mafalda, a personagem dos quadrinhos criada pelo argentino Quino. Vale lembrar que a garota detestava tomar sopa, o alimento insosso que representava a ditadura militar de seu país.

O acordo será confirmado: Branco concorda com as exigências de seu adversário, uma fazenda e o cancelamento do preço por sua cabeça, dando um salvo-conduto para que pudesse viver sem ser perseguido pelas autoridades. Enquanto as comemorações continuam, um dos brigands rouba o anel do bispo e os outros, dançam insanamente no meio dos endinheirados.

O próprio Expedito irá bailar com uma das criadas. A cultura popular mostra sua força; ela é a vitoriosa, penetrando no ambiente quase impermeável da burguesia e tomando conta do lugar.

A partir daí, o líder dos bandoleiros começará uma perseguição implacável às outras quadrilhas que atuavam no sertão. Sem se dar conta, estará fazendo o trabalho sujo que tanto queria o governador. Até se enfrentar com “Diabo negro”. A cena antológica do duelo nas dunas é talvez uma das mais interessantes e memoráveis dos Spaghetti Westerns e rivaliza com a de Três homens e um destino, de Sergio Leone, e a de Os violentos vão para o inferno, de Sergio Corbucci. Desta vez, porém, o embate insano é feito com machetes, enquanto ao fundo, não para de tocar um samba nervoso, fazendo com que as imagens ganhem uma dimensão de loucura. É quase um delírio glauberiano transformado em faroeste italiano. Como se pode imaginar, o “redentor” mata o seu adversário. E então irá se comportar como uma autoridade, dando presentes ao populacho (objetos roubados), chegando a convidar padres a visitar a fazenda que ganhara e que dera o nome de “Paraíso terrestre”, onde acreditava poder construir uma sociedade mais justa.

Enquanto isso, os estrangeiros começam a retirar o petróleo. O capitalismo não se importaria com os arroubos de Expedito, e poderia conviver com ele, desde que não interferisse em suas atividades e em seus lucros.

“Os poços são nossos, os brasileiros não custaram muito”, diz um dos funcionários da empresa europeia. Ainda assim, comenta em tom de desabafo e desprezo, que “a mão de obra barata produz escasso rendimento”.

Helfen, indignado, retruca:

“O povo não tem o que comer!”

“É verdade. Mas o obrigaremos a comer para incrementar a produção!”

“Eles se recusarão. Sabem que não durarão para sempre. É melhor não se acostumarem…”

O jogo das enganações se opera ao longo de toda a fita. As autoridades enganam o povo, enquanto os estrangeiros enganam o governo e a Igreja. Até Expedito, que combate todos eles, acaba enganado por Branco, por Helfen e quem sabe, até mesmo, pelo eremita Julian.

Branco ainda chega a contratar Frank Binaccio e seu grupo de gângsteres americanos para acabar de vez com o “redentor”. São os imperialistas, aliados do poder instituído, vendilhão da pátria, os parceiros do Estado autoritário na luta contra os mais pobres. Avisado por Helfen (agora arrependido de tudo que fizera), contudo, Expedito elimina os criminosos ianques e ao final, assassina o governador. É a vingança do “guerrilheiro”. E também, simbolicamente, do Terceiro Mundo contra os interesses coloniais.

Mas a partir daí, não se sabe qual será o destino e a função daqueles combatentes. “Começo a achar que não sou o redentor”, confessa Expedito. O próprio Fago parece não saber se o caminho das armas é viável. Fica a dúvida naquele momento. O cangaceiro e seus homens apenas partem, juntos, sem objetivo definido, para um destino incerto. Temos aqui um belo filme, em grande medida, subvalorizado e esquecido pelo grande público. Ainda assim, mesmo com possíveis falhas, imprecisões históricas e certo grau de ingenuidade, esta é uma fita com muitas qualidades, que deve ser resgatada. E vista por todos aqueles que apreciam este gênero do cinema.

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Recomendamos a leitura do aclamado Os cangaceiros – ensaio de interpretação histórica, de Luiz Bernardo Pericás, uma análise cultural, política e sócio-histórica da figura mítica do cangaceiro, referência obrigatória para o estudo banditismo rural nordestino e seus desdobramentos na atualidade.

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Chega às livrarias este mês a coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizada por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco! 27 ensaios sobre Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Paulo Freire, Milton Santos, Astrojildo Pereira, Câmara Cascudo, Jacob Gorender, Ruy Mauro Marini, Maurício Tragtenberg, entre outros pensadores críticos do Brasil.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Para um retrato de Dilma, a presidenta do Brasil

Há uma foto de Dilma em que a imagem é bela porque é verdadeira. Para falar dessa foto seriam necessários muitos artigos definidos em textos, poemas e palavras de ardor e reflexão. Na imagem de óculos pesados, em preto e branco, Dilma se une a outras mulheres que vimos nos malditos tempos de 1970. Mas eram mulheres de tal altura, que ficamos à beira de cair em novo paradoxo: o de querer que voltem suas pessoas daqueles anos, mas sem a infâmia das circunstâncias e pesadelo daquele tempo.

Em lugar da pura orquídea pura pétala, de cor fresca e fugaz, a Dilma na sua foto real remete mais à pessoa mesma, de carne e luta, determinada em alcançar um mundo além do interesse de mocinhas bonitas de sua classe, aquele que se podia resumir em três cês, como o velho CCC: Carro, Casa e Carreira. Em preto e branco, como um filme de roteiro de Semprum, vemos uma Dilma que vislumbramos em 1970, multiplicada em outras à sua semelhança, que cresciam como guerreiras, e por isso se tornavam mais fêmeas. Como uma, a quem disfarcei com o nome de Cíntia no romance Os corações futuristas. No Recife, em plena censura e terror ela gritava aos companheiros que a cercavam:

“Eu sou subversiva! Falem, podem dizer, não me importo: eu sou subversiva! Eu quero é virar esse sistema de cabeça para baixo”.

E lembro que ouvíamos isso, e tal ordem mais alta calava fundo no peito de todos, pois também não encontrávamos lugar naquela ordem/desordem da ditadura. Aquele “Eu sou subversiva” se transformava em um sentimento, que nos dizíamos em voz silenciosa e perfurante: “ela tem a coragem de avançar contra a injustiça que nos sufoca. Que mulher!”

Assim como ela, assim como o seu gênero, pessoa e qualidade, foi Soledad Barrett, que escreveu para a mãe um último poema, como uma predestinação:

“Mãe, não sofras se não volto
Me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
Talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, mãe, eu te asseguro
que, sim, me encontrarás!”

Naquele momento em que víamos mulheres à imagem e semelhança de Dilma, nós não podíamos prever, sequer sonhar com o Brasil em que uma delas subiria para a presidência. E menos ainda, delírio do sonho dos sonhos, que ela fosse reeleita. Pois como podíamos prever o pássaro que canta agora, neste 2014 no jardim, em 1970? Sentíamos apenas os abalos que nos davam pessoas desse fogo, e não sabíamos interpretá-las, porque em nós se misturavam admiração, amor e força além dos limites da própria covardia.

Essa Dilma em preto e branco, de óculos pesados, em resumo, é a pessoa/mulher com quem todos crescemos. Ela é uma sobrevivente, como todos nós, como, enfim, todo o povo brasileiro. Como não salvá-la de todos os assaltos das múmias da ditadura? Como não guardá-la, como um bem precioso, contra os velhos de todos os preconceitos de classe? Fazemos isso não por dever, mas por uma defesa da cidadania de nosso sonho. Estamos vivos, bulindo e loucos de emoção. Quem diria? Há um gozo imenso em sobreviver tendo posto em risco a sobrevivência. E sobreviver na sua reeleição ah, isso vai além dos números das urnas. Como não saudá-la?

Lembro que ao ver Dilma discursar em Brasília Teimosa, no primeiro turno, no Recife, eu a vi como a superação daquele terrível ano de 1973, quando ali eu morava, e 6 militantes contra a ditadura foram assassinados, e uma delas foi Soledad Barrett. E sobre Soledad Barrett escrevi o livro Soledad no Recife. 

Dilma é a mulher mais bonita da República. Quando digo que Dilma é a mulher mais bonita da República, quero dizer: vem dela uma história política, uma memória, um bem-querer que é consequência dos valores mais altos pelos quais valem a pena estar vivo. Então eu falo que Dilma é a mulher mais bonita da República, pois a memória recupera o Brasil daquele tempo como uma superação. Dilma confirma a sua beleza quando afirma com voz embargada no palanque:

“Não desisti do Brasil nem quando fui presa e torturada, porque este País é muito maior que um bando de ditadores. Não mudamos de lado, nem de compromisso.”

No segundo turno, em pleno centro do Recife,na terça-feira 21 de outubro, as pessoas gritavam, cantavam “Dilma, eu te amo”. Não digo que tiravam a roupa, mas fizeram coisas mais impulsivas, desbragadas e delirantes.

Na Avenida Conde da Boa Vista, contente com o engarrafamento de carros que se formava em razão da caminhada com Dilma, o motorista de um ônibus largou o volante e subiu para o teto. Para quê? De lá de cima, com uma bandeira vermelha, ele dançou ao som de “Dilma, coração valente”.

A massa delirou. Achando pouco, o louco e sincero motorista fazia passos e voltas sobre o teto do ônibus, agarrado à bandeira, como se ela fosse a própria presidenta. Um crítico de música ao meu lado observou que ele estava em seu momento Michael Jackson. Mas para a massa da multidão, o motorista era, depois de Lula e Dilma, o cara. E nós sorríamos, e acenávamos, e ele posava e pousava para as fotos dos celulares.

A multidão mostrava que Dilma é amada pelo povo do Recife. O povo lhe dedica uma afeição que já deixou de ser política, virou um caso pessoal. Ela virou o nosso caso na República. O povo, no centro do Recife, em pleno comício se comportava como se falasse para ela: “Dá licença, presidenta, o povo pede a sua mão”. E ela respondeu e correspondeu:

– Eu amo vocês, esta é a primeira coisa que eu queria falar. A segunda coisa é que eu nunca vi na minha vida um ato tão bonito, tão alegre, tão carinhoso como este.

Dilma poderia falar o que quisesse. Poderia cantar “o cravo brigou com a rosa”, e todos aplaudiriam. Poderia ficar diante do microfone repetindo “sapo-sapo-sapo-sapo”, e o povo iria ao delírio. Diriam, “como ela fala bem sapo-sapo-sapo!”. Sabem aquele afeição conquistada, que vê em tudo quanto vem da pessoa amada a coisa mais linda?

Lembro que na semana passada uma senhora do povo me falou com a voz rouca, atravessada: “quando Dilma passou mal, depois daquele debate na televisão, eu fiquei… olhe, eu fiquei…” e não conseguia completar a frase, porque a lembrança lhe voltava em forte emoção.

E porque eu a compreendia eu pensava em lhe falar na língua de imbu, mangaba, graviola, cajá, azeitona, pitomba, abacaxi, goiaba, maracujá, manga, cana doce, numa fala de salada do Nordeste. Mistura de tudo, porque o povo mais misturado que já vi numa eleição estava presente.

No final, depois do comício, corremos feito loucos para flagrar a passagem da presidenta, que sairia por trás do palanque. Eu não era mais um cidadão de cabelos brancos, barrigudo, de fôlego curto, a léguas de distância de atleta de qualquer condição.

Eu era, todos éramos, voltávamos a ser mais uma vez meninos. Éramos a infância do que manda o coração. A presidenta entendeu a nossa meninice. Na passagem, ela nos enviou 2 beijos. Naqueles 2 beijos fugazes estava escrito: “Como prova de carinho, amor e amizade”. Assim era a frase no verso das fotos 3 x 4, com que os namorados prometiam uma afeição duradoura no Recife.

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Dilma Vana Rousseff e Soledad Barrett Videma

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Lançamento Boitempo: “Trabalhadores, uni-vos!”

Trabalhadores, uni-vos_capa_final_dois

Frente e verso da capa de Trabalhadores, uni-vos: antologia política da I Internacional, de Marcello Musto (org.), com intervenções inéditas de Marx, Engels, Bakunin e outros.

A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) se tornou símbolo da luta de classes e influenciou as ideias de milhões de trabalhadores ao redor do planeta. O aniversário de 150 de sua fundação, em 1864, oferece uma importante oportunidade de reler suas resoluções e aprender com as experiências de seus protagonistas, para repensar os problemas do presente. Com textos inéditos, cuidadosamente selecionados e traduzidos, Trabalhadores uni-vos configura um arquivo de valor inestimável para a história e a teoria do movimento dos trabalhadores, bem como para a crítica do capitalismo.

O livro conta ainda com uma extensa introdução crítica do organizador Marcello Musto, apresentando e contextualizando as diverentes vertentes e resoluções em jogo. O filósofo político italiano está no Brasil para participar do monumental encontro “A Internacional, 150 anos depois“, que anima debates em oito cidades brasileiras, com alguns dos maiores estudiosos de comunismo e da classe trabalhadora no Brasil e no mundo. Mais informações ao final deste post!

Leia, abaixo o texto de orelha, assinada por Paulo Barsotti

Esta preciosa antologia política organizada por Marcello Musto, de manifestos, documentos e intervenções da AIT – Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1872), a “primeira” Internacional –, é uma excelente maneira de brindar aos seus 150 anos de fundação.

É bem-vinda e oportuna porque repõe um dos episódios de maior vitalidade da práxis histórica dos trabalhadores do século XIX nestes dias de profunda desorganização, depressão ideológica e submissão do trabalho ao capital.

Reproduzindo o debate das diversas correntes ideológicas do movimento dos trabalhadores, esta publicação desintoxica, oxigena e municia corações e mentes para a compreensão e o enfrentamento das mazelas do presente e dos desafios futuros do mundo do trabalho.

A escolha dos textos – grande parte inédita no Brasil – que compõem o volume apresenta pelo menos três eixos fundamentais.

O primeiro recai no desenho econômico e político organizativo da futura sociedade projetado pelos protagonistas da AIT. O segundo trata das questões internacionais no conturbado contexto europeu das décadas de 1860 e 1870 do século XIX, marcado por guerras de libertação nacional e movimentos insurrecionais (Irlanda e Polônia), de guerra civil (Estados Unidos), de guerra entre nações (franco-prussiana) e da primeira revolução proletária (Comuna de Paris). E, finalmente, o terceiro eixo, a questão política, das suas formas, do debate entre a luta política versus abstencionismo, do fim do Estado.

Surgem ainda outros temas de relevância, como as questões de organização e forma da luta sindical, crédito, cooperativismo, propriedade coletiva, a questão fundiária, sobre o direito ou abolição de herança, internacionalismo e nacionalismo.

Diante dessa extensa pauta, expressando seu caráter de federações de organizações e movimentos, tomam postos na tribuna da AIT e animam o debate tradeunionistas, owenistas, marxistas, bakuninistas, blanquistas, mazzinistas, proudhonianos, entre outros.

Nesse ponto, expondo as manifestações de um leque amplo de militantes, esta antologia se diferencia daquelas vinculadas a uma certa ortodoxia, que viam a AIT não como trabalho coletivo, mas como exclusivamente restrita à figura e à participação de Marx, interrompida em 1872.

Ainda que o Doutor Vermelho – como os jornais burgueses da época se referiam a Marx após a Comuna de Paris – tenha escrito os documentos mais importantes de seu Conselho Geral e tenha sido sua alma, obviamente a AIT, um dos mais importantes feitos da humanidade, não pode ser reduzida à sua personalidade ou à de qualquer outro protagonista.

Um destaque final à competente introdução de Marcello Musto, que muito contribui para tornar esta antologia política leitura indispensável para estudiosos, militantes do movimento dos trabalhadores e para todos aqueles que se interessam pela ciência da história.

Paulo Douglas Barsotti

Crítica sobre o livro

“Uma extraordinária coletânea”
Noam Chomsky

Trabalhadores, uni-vos! talvez contenha a lição mais importante para nossa época. Neste livro, a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores recebe, por ocasião de seu 150º aniversário, uma saudação à altura de um dos maiores, ainda que nem tão conhecido, feitos da humanidade. Uma coletânea excepcional, muitas vezes surpreendente, jamais tediosa, e repleta de insights e discussões, em grande parte – infelizmente – ainda relevantes. Altamente recomendável para todos aqueles que mantêm a mente jovem o suficiente para aprender algo verdadeiramente novo com o que parece velho e ultrapassado.”
– Bertell Ollman

“O conhecimento da história e da experiência da Internacional, tão bem apropriado por Marcello Musto nesta obra, é absolutamente indispensável para todos os que, diante da barbárie capitalista contemporânea, querem travar a luta – democrática, unitária e sem fronteiras – por um mundo livre da exploração, da opressão e da alienação.”
– José Paulo Netto

Trabalhadores, uni-vos! ajuda-nos na assimilação crítica da luta e dos saberes plurais que expressaram o amadurecimento da classe operária desde a época da Primeira Internacional. Eis aqui um livro que deve ser lido por todos os socialistas.”
– Leandro Konder

“Esta formidável coleção de documentos, publicada por ocasião do 150º aniversário de fundação da Primeira Internacional, é importantíssima para nós não só pela riqueza do material reunido, mas pela lição que ela nos dá: uma Associação Internacional de Trabalhadores unitária, plural, combativa, aglutinando partidários de Marx, Proudhon, Blanqui, Bakunin, comunistas, socialistas e anarquistas que, apesar de suas divergências, souberam se unir em torno da primeira grande revolução proletária, a Comuna de Paris de 1871. A história não se repete, mas a AIT é um belo exemplo para os internacionalistas do século XXI!”
– Michael Löwy

“Este livro maravilhoso organizado por Musto responde à pergunta: o que significa construir uma revolução? Naqueles dez anos em torno da Comuna de Paris, os comunistas responderam a essa pergunta propondo uma distopia: não tentaram o impossível, mas mostraram ser possível realizá-lo. Com a fundação da Internacional, a classe operária reivindicou seu realismo político.”
– Toni Negri

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A próxima edição da Margem Esquerda contará com um especial 150 anos da AIT, coordenado por Ricardo Antunes com artigos de Michael Löwy e Marcello Musto. Os três participam do encontro internacional “AIT, 150 anos depois”, realizado em oito cidades brasileiras. O evento reúne alguns dos mais importantes estudiosos do comunismo e da classe trabalhadora no Brasil e afora. Confira a programação completa do evento aqui.

Assédio eleitoral

14.10.27_Jorge Luiz Souto Maior_Assédio eleitoral_Por Jorge Luiz Souto Maior.

Os trabalhadores têm sofrido os males do denominado “choque de gestão empresarial”, que, baseado no argumento da necessidade competitiva, procura extrair maior produtividade no trabalho por meio da imposição de metas, quase sempre impossíveis de serem cumpridas. Tudo se faz ligado a uma estratégia que é de fato a de não permitir que os trabalhadores percebam que se trata na verdade da continuação da mesma lógica extrativa de mais valor relativo de sua “força de trabalho”, trazendo como benefícios paralelos, e talvez de forma ainda mais importante, o reforço da alienação e da reificação.

Ao se transferir para o trabalhador a responsabilidade plena pelo seu destino na empresa, visualizado a partir de sua aptidão para entregar a quantidade de serviço esperado, estimula-se uma atitude individualista e ao mesmo tempo concorrencial, vez que sua produção é posta em comparação com outros empregados submetidos às mesmas metas.

Para criar a aparência de um trabalho coletivo, os empregados são divididos em equipes, que também são comparadas a outras. Assim, cada membro se vê responsável pelo futuro de seu colega de equipe e sobre todos se debruça o peso do sucesso do empreendimento.

Ou seja, os trabalhadores são fragilizados e assim são mais facilmente explorados porque têm menor possibilidade de compreender o contexto do processo de trabalho, sobretudo depois que, historicamente, lhes foi retirado o poder do conhecimento tecnológico.

Na realidade atual do processo de produção operou-se a transferência para os trabalhadores do risco que é próprio do empreendedor.

Além de uma postura individual, os trabalhadores assumem a posição do capital, cobrando produção uns dos outros, o que facilita, sobremaneira, a tarefa dos chefes de equipe, do capitalista e do sistema produtivo como um todo.

Dentro da estratégia de gestão incluem-se táticas de dissimulação, como a difusão de que a empresa se preocupa com os Direitos Humanos e o bem-estar de seus empregados, que passam a ser chamados de “colaboradores”, para que não se vejam como explorados. Em contrapartida pelo cumprimento das metas oferece-se aos trabalhadores a promessa do recebimento de prêmios, sempre acompanhados de planos de saúde, notadamente para tratamentos psicológicos.

Tática importante neste contexto é a de vez por outra elogiar o trabalho do empregado, sem deixar de fazer menção à necessidade de que aquele resultado continue sendo alcançado, fazendo com que a “conquista” nunca tenha, de fato, um efeito conclusivo.

Tudo isso vem acompanhado do terrorismo da eterna crise econômica do capital, que deixa todos os trabalhadores sob constante ameaça do desemprego. “Mostrar a porta da rua” aos trabalhadores e, sobretudo falar da realidade daqueles que lá estão, é uma tática relevante para manter o rebaixamento moral dos trabalhadores, facilitando a submissão, que, sendo economicamente necessária, pode atingir padrões de maior perversidade, que permite ao empregador exigir metas mediante a mera promessa de preservação do emprego, que pode, até, se desenvolver com o desrespeito abertamente assumido dos direitos trabalhistas, vistos, despudoradamente, como encargos que dificultam a vida da “coitada” da empresa, que se apresenta como uma entidade que tem “responsabilidade social” porque cuida do meio-ambiente e que faz um grande bem para a “sociedade” – este ente abstratamente concebido e que quase sempre é referido para justificar repressões à classe trabalhadora – ao “dar empregos” e estimular o desenvolvimento econômico, ainda que sua lógica seja sempre a de privatizar os lucros e compartilhar os prejuízos.

Neste contexto, o sistema produtivo capitalista se apresenta como benfeitor, sem defeitos, dissimulando-se por completo a origem da reprodução do capital.

A conseqüência de tudo isso é que as análises em torno dos problemas sociais e econômicos são transferidas para os organismos produtivos e destes para os trabalhadores, onde, de fato, estaria a causa das patologias, tanto pessoais quanto sociais, sendo que apenas nesse momento e para essa finalidade, de serem culpabilizados, os trabalhadores são humanizados.

Esse é contexto no qual os ambientes de trabalho produzem, de fato, relações baseadas em assédio moral, que se apresenta como a pressão psicológica dissimulada, organizada estruturalmente, para dificultar a compreensão do processo produtivo e destruir toda forma de resistência dos trabalhadores, que restam fragilizados e desprovidos de auto-estima, sendo que quanto mais eficientes forem os métodos utilizados menor será a possibilidade de percepção do processo, que chega a atingir o ponto de o próprio trabalhador se declarar culpado pela situação, que não raramente se completa com a aquisição de doenças graves e, no extremo, pelo suicídio.

O que isso tem a ver com a recente eleição presidencial? Tudo!

Comecemos pelo fim. Qual o resultado concreto do processo eleitoral? O que se viu ao final foi uma distensão muito grande entre as pessoas, chegando mesmo a dividir famílias. Neste sentido pode-se perceber que foi eficiente a tática de transferir para os eleitores a responsabilidade pelos problemas do país, como se votar em um candidato ou outro tivesse o efeito de avalizar tudo que estes, ou seus Partidos, fizeram ou prometem fazer.

Para que as pessoas assumissem tal postura foi desenvolvida uma campanha midiática sem precedentes de um convencimento tal que na verdade cumpriu o papel de tornar cada eleitor uma espécie de cúmplice dos erros cometidos pelos governantes – já que os dois candidatos já assumiram essa posição e representam Partidos que estão no poder.

Foi assim, por exemplo, que os eleitores, dependendo do lado adotado, foram forçados a assumir para si lógicas das propagandas eleitorais, como as de que corrupção não é tão importante se algo de bom se fez; que corrupção não é grave, pois sempre existiu; que só é condenável a corrupção que os outros fazem; que o que se fez no passado não importa; que os erros do presente são irrelevantes diante das promessas para o futuro; que o desemprego é um problema de gestão (e não de estagnação do capitalismo); que o assistencialismo social é solução para o capitalismo (ou que o assistencialismo é a causa dos problemas do capitalismo); que o desenvolvimento econômico é uma questão de ajuste fiscal; que a troca dos governantes é essencial para a realização de mudanças (ou que a manutenção dos governantes é primordial para dar continuidade ao processo de mudanças que o país precisa) etc…

 Discussões desenvolvidas na órbita da aparência, sem adentrar temas cruciais do debate para compreensão do modelo de sociedade, como, por exemplo, os que dizem respeito ao processo de produção (tratando, sobretudo, da questão da terceirização); à participação dos trabalhadores na renda produzida; à distribuição da riqueza; e, sobretudo, à titularidade dos meios de produção…

Os debates, desenvolvidos na linha da aparência, serviram, portanto, para dissimular a concretude dos problemas do capitalismo – que é, queiramos, ou não, gostemos, ou não, o modo de sociedade em que nos inserimos. A atuação política, que seria essencial para a produção do conhecimento e para a formação de convicções, ainda que relativas, serviu só para gerar preconceitos, ódios cegos e divisões fundamentalistas, baseadas não em argumentos, mas em factóides, em montagens e em versões parciais dos fatos e da história, que chegaram ao ponto de táticas de terrorismo bestializadas, tais como, “se o PT ganhar o Brasil vai virar Cuba”; “se o PSDB ganhar vai voltar o neoliberalismo da década de 90”; “que o PT está promovendo uma revolução socialista” (encarando-se isto de forma positiva por alguns e negativa por outros) etc.

A produção intelectual foi trocada pela arte do disfarce, conforme revelavam, a cada dia, de forma extremamente pertinente, as crônicas de José Simão na Folha de S. Paulo.

Dentro do contexto da dissimulação eleitoral, muitos eleitores se viram obrigados a assumir posições sem consciência e sem convicção. Viram-se, ainda, na contingência de expressar, publicamente, apoio a um ou a outro candidato, com desprezo da racionalidade, pautando-se unicamente pela lógica do mal menor, fingindo irrelevantes aspectos negativos que, em outro contexto, seriam muito graves, isto quando não, incorporando a lógica da dissimulação, aderiram a um lado, sem revelar os verdadeiros motivos. E, perceba-se, a expressão é esta mesma, “adesão”, vez que falidos os processos de construção democrática, participativa e coletiva, das diretrizes partidárias.

No geral, o processo eleitoral pretendeu nos tornar mais desinformados e mais distantes de análises imanentes, o que, no fundo, talvez seja mesmo a função da democracia burguesa.

Lembre-se, a propósito, o quanto os candidatos fizeram questão de pontuar suas falas na primeira pessoa, “eu”, vangloriando-se do que fizeram e destacando o que farão, se eleitos fossem, mas sempre em questões periféricas e com certo desprezo até mesmo à própria democracia, vez que se referiam a instituições que não criaram sozinhos e que não poderão criar sem as vias democráticas formalmente institucionalizadas, ao mesmo tempo em que, nas questões relevantes, despessoalizavam o discurso, dizendo que promoveriam um “amplo debate” com a “sociedade” a respeito.

Essa forma de diálogo serviu também para potencializar a fragilização da cidadania, que se viu reduzida a uma participação indireta no ato simbólico do voto, posto eletronicamente no contexto de um processo dissimulatório, correspondendo, no campo das relações de trabalho, que é central nesse modelo de sociedade, a um roubo do protagonismo da classe trabalhadora, ou, mais propriamente, da luta de classes, e pretendendo, por consequencia, o esvaziamento da relevância da ação política direta, como se verificou nas mobilizações de junho de 2013 e como sempre se vê nas greves dos trabalhadores.

Pois bem, passado o massacre da eleição, que neste sentido pode ser identificado mesmo como um assédio eleitoral, é hora de retomar o processo de construção da consciência em torno da lógica supressiva da condição humana a que todos estão submetidos no modo de produção capitalista, que se impulsiona pelo consumismo, pela concorrência, pela aparência (física e cultural), pela padronização, pelo individualismo, pela submissão, pela fragilização subjetiva, pela inviabilização da ação coletiva, pela desinformação, pela dissimulação, pela banalização da injustiça e pela repressão…

Ao contrário do que o assédio eleitoral tentou induzir, a racionalidade humana não deve ser conduzida pelo mal menor e os problemas da realidade social não decorrem de “defeitos intrínsecos” pessoais, situando-se, isto sim, em um modelo de sociedade que precisa ser questionado abertamente, com honestidade intelectual e coragem, dada a inafastável angústia que o processo de desalienação resulta.

Não se trata, aqui, de falar da relevância dos laços familiares, do amor ao próximo, ou coisa que o valha. Aponta-se, isto sim, para a emergência de, curado o trauma da eleição, superar, de uma vez por todas, o momento histórico dessa aparente dicotomia entre o PT e o PSDB e das cargas dissimulatórias que trazem, para passarmos a discussões concretas do modo de produção da sociedade capitalista, pois este é, afinal, o método necessário que a classe trabalhadora possui para se identificar enquanto tal e, assim, lutar contra o assédio estrutural a que está submetida.

São Paulo, 25 de outubro de 2014.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

26 de outubro: É a hora…

14.10.22_Fl[avio Aguiar_Agora [e horaPor Flávio Aguiar.

Tem vários “É a hora” na minha vida.

Minha avó tinha um ditado, para quando as coisas ficavam feias para a gente pobre: “esta é a hora em que o patrão ri e o peão chora”.

Depois tem a do Fernando Pessoa: “Portugal, hoje és nevoeiro. É a hora”, ao final da Mensagem. (Estou citando de memória, não garanto o 100% de fidelidade).

Meu amigo Cardoso Pires, infelizmente já partido para os eternos campos de caça, contando do sargento que lhe entrou casa a dentro no 25 de abril de 1974, em Lisboa: “Camarada, chegou a hora!”.

E assim por diante.

E o diante tem o 26 de outubro por diante.

Não adianta fechar os olhos com a venda (aliás o termo é bom) do voto nulo, do voto em branco, da abstenção. As escolhas são cristalinas. Vou dar alguns exemplos.

Trata-se de escolher entre mais médicos ou menos médicos para a população.

Melhores salários ou menores.

Mais empregos ou menos.

Mais especulação ou menos. (Não adianta dizer que a especulação vai continuar. Que me atire a primeira pedra quem me aponte um lugar no mundo onde não haja especulação em algum grau, incluindo a ínclita Cuba e a opaca Coreia do Norte). China, Rússia e Moldávia não valem. Talvez o único lugar sem especulação hoje seja a valorosa Kobani, resistindo aos proto-fascistas do ISIS, contra tudo e contra todos.

Mais abastecimento ou mais carestia.

Mais soberania ou mais subserviência.

Mais Sul ou mais Norte.

Mais América Latina ou a Alca de volta.

Mais Mercosul ou mais Aliança do Pacífico.

Mais aeroporto = rodoviária ou mais aeroporto = spa só para rico e abonado.

Mais futuro ou mais passado (do ruim).

Mais direitos ou mais privilégios.

Mais República ou mais oligarquia.

Mais luta contra a homofobia ou menos.

E por aí se vai.

Agora, se a companheira ou o companheiro preferir o silêncio obsequioso consentido… Vá lá e vote nulo. Ou branco. Ou não compareça. Ou melhor ainda, vote logo no Aécio e peça pra entrar no camarote do Itaú no Itaquerão.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A nova política reimagina a erradicação da miséria

14.25.14_Uma proposta modesta

No contexto do Especial Eleições 2014 do Blog da Boitempo, adiantamos com exclusividade uma das histórias do aguardado Cânone gráfico, a fantástica antologia da literatura universal em quadrinhos.

Cânone gráfico

O livro, que inaugura o selo de quadrinhos da Boitempo, o Barricada, reúne alguns dos maiores nomes da arte gráfica, como Robert Crumb, Will Eisner, Hunt Emerson e Peter Kuper, e traz releituras de clássicos como A divina comédia, de Dante Alighieri, Sonhos de uma noite de verão, de William Shakespeare, e As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Organizada pelo escritor Russ Kick e lançada originalmente nos Estados Unidos em 2012, a obra se consagrou como uma bíblia para aqueles que se interessam por quadrinhos.

14.25.14_Canone_2

Primeiro exemplar de Cânone gráfico, chegando na Boitempo da gráfica (Instagram).

A história

Em tempos de achatamento do humor e da ironia, e em que se faz crer que o descontentamento generalizado do país parece pedir a modalidade de inovação política que só a eficiência e a flexibilidade da dinâmica dos mercados pode oferecer, o Blog da Boitempo oferece esta pérola da ironia ilustrada, elaborada por Jonathan Swift, autor de As viagens de Guliver (obra que aliás também é contemplada em Cânone gráfico no traço do artista gráfico Gareth Hinds), no século XVIII. Intitulado “Uma proposta modesta”, o quadrinho ironiza a suposta neutralidade matemática da mentalidade “inovadora” de enxugamento de custos e maximização de rentabilidade, ao estendê-la a todas as áreas da vida social.

Contexto

Em 1729, entre os muitos panfletos à venda nas bancas de Londres e de toda parte, havia um intitulado “Uma proposta modesta para evitar que os filhos dos pobres da Irlanda sejam um fardo para seus pais ou para o país, assim como para torná-los úteis ao público”. O autor anônimo sugeria que os pobres da Irlanda vendessem seus bebês como comida para os ricos da Grã-Bretanha.

Houve poucos indícios, se é que houve algum, de que o panfleto fosse uma brincadeira. Ele dava detalhes culinários, financeiros e morais do projeto. O governo britânico havia submetido o povo irlandês a uma privação econômica e uma opressão política desumanas. O panfleto simplesmente levou a situação à sua lógica extrema.

Como hoje se sabe, o autor do panfleto foi o talentoso iluminista Jonathan Swift, o mestre da sátira. Atualmente, esse pequeno ensaio é elemento básico dos cursos de
graduação de literatura que tratam de ironia. Como muitos dos escritos mordazes de Swift, “Uma proposta modesta” ainda hoje é comovente. Ele pode ter focado a Irlanda e a Grã-Bretanha do início do século XVIII, mas a mensagem se aplica aos Estados Unidos e a muitos outros países do século XXI. Na verdade, Peter Kuper – ele próprio um especialista em usar a sua arte para fazer comentários sociopolíticos contundentes – trouxe a proposta para o presente.

“Uma proposta modesta”
de Jonathan Swift; Adaptação e arte de Peter Kuper

Clique nas imagens para ampliar, ou clique aqui para baixar gratuitamente o PDF, em alta resolução!

Uma proposta modesta1Uma proposta modesta2

Gostou? Saiba mais sobre o livro, que chega às livrarias no começo de novembro. “Como boa parte das grandes ideias, a do editor americano Russ Kick era simples (e trabalhosa): convidar algumas dezenas dos maiores artistas gráficos contemporâneos para interpretarem, só com ilustrações, cenas de clássicos da literatura universal. Funcionou.” – Cassiano Elek Machado

Cânone gráfico: clássicos da literatura universal em quadrinhos
Volume 1: desde a Epopéia de Gilgamesh a Shakespeare e
As ligações perigosas

Russ Kick (org.)
Arte gráfica de Will Eisner, Robert Crumb, Hunt Emerson, Peter Kuper, entre outros.

Selo Barricada (quadrinhos da Boitempo)

O lulismo, a nova política e o libertador

14.10.22_Daniel Bin_O lulismo_a nova pol[itica e o libertadorBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Daniel Bin.*

O Brasil entra na última semana de campanha da eleição presidencial com indefinição tal que não encoraja muitos a arriscar um prognóstico. Nos primeiros momentos do segundo turno, parecia haver uma tendência de Aécio rumo à liderança. Agora, parece que os ventos começaram soprar a favor de Dilma. Claro que até o dia da decisão o quadro pode novamente mudar, o que não surpreenderia.

Independente de confirmar-se ou não, a possibilidade­­ de Aécio vencer ajuda a corroborar hipóteses sobre os limites do lulismo. Retroceder o ponto de partida desta análise em algumas semanas, quando Marina aparecia como favorita à segunda vaga no turno decisivo, pode ajudar na compreensão do fenômeno. Naquele momento, o que se via era a escalda das intenções de voto em uma candidata que, em palavras outrora ditas pela coordenadora de sua campanha, “entra no senso comum da sociedade, do ponto de vista de negar a política, de negar partido.” O desfecho já é conhecido; aquela “nova” política desabou quase tão rapidamente quanto ascendeu.

O PSB, a considerar os passos inicias que dera junto do PSDB nas críticas à execução da política econômica e nas promessas de resgate da ortodoxia neoliberal, não surpreendeu ao aderir a Aécio. Tampouco surpreendeu o igual gesto de Marina. Era o que apontava a sua defesa de uma política econômica que lhe valera, assim como a Aécio e Campos, a simpatia por parte das classes dominantes – destacadamente a finança. Simpatia, diga-se, bem superior à experimentada por Dilma, cujo partido, é bom lembrar, não assusta mais nenhum capitalista tanto quanto fazia antigamente.

Derrotada Marina, que procurou se distinguir das duas principais forças partidárias, Aécio, mesmo liderando uma dessas forças, herdou o sentimento de parte significativa do eleitorado da terceira colocada no primeiro turno. Aécio foi rápido em incorporar ao seu discurso a retórica mais eloquente de Marina. Diz ele que sua candidatura representa não um partido ou grupo político, mas um projeto. A mimetização se completa com o tom messiânico propagado por meio da figura do libertador. O projeto, enfim, é apresentado como aquele que busca desalojar o PT do poder formal; que visa a libertar o país das mãos desse partido. Isso parece soar como música aos ouvidos de quem nutre sentimentos antipetistas.

Mas como a retórica da negação – em si uma contradição, pois negar a política é tática política – outrora ensaiada por Marina e agora apropriada por Aécio conseguiu angariar tamanho apoio?

Não acredito que a resposta possa ser encontrada naquilo que era apresentado sob o signo do “novo,” pois este padece de falta de substância. No caso de Marina, aquela retórica se esvaiu assim que pautas conservadoras despontaram para adequar os objetivos eleitorais às estruturas política e econômica já constituídas. Para Aécio, o “novo” é ainda mais difícil de emplacar, afinal ele é um daqueles que Marina outrora classificava como representante da velha política. Em termos concretos, o conteúdo neoconservador de seu projeto faz este tão socialdemocrata quanto (não) foi a prática do PSDB em sua passagem pelo executivo federal. Também soa como música, agora aos ouvidos das classes dominantes, quando Aécio se diz “preparado para decisões impopulares.”

Em termos de conciliação de classes, os governos petistas, em especial no período Lula, foram mais competentes que seus antecessores. Talvez parte da explicação sobre como a negação da política angariou apoio esteja na forma como o PT mediou as relações entre classes e as relações destas com o estado. Governos que ampliaram políticas favoráveis a demandas materiais das classes subalternas foram ainda mais generosos com as classes dominantes. O paradoxo é bem descrito por Chico de Oliveira ao perceber que no primeiro governo Lula inverteu-se o segundo termo da velha equação gramsciana ‘coerção + consentimento = hegemonia’: “não é mais o dominado quem consente com a sua própria subordinação; agora é o dominante que consente ser aparentemente ‘liderado’ por representantes dos dominados” (New Left Review, n. 42, p. 22).

Ou seja, a “negação” da política começou bem antes, não com discursos, como agora, mas por meio de práticas de cooptações e coalizões tanto à esquerda como à direita. A experiência oposicionista do PT lhe ensinou que se quisesse governar com mais tranquilidade do que desfrutaram governos que o antecederam precisaria ter ao seu lado lideranças capazes de mobilizar as massas. Assim, observou-se ao longo dos últimos anos, junto do preenchimento de posições nos gabinetes da Esplanada, nas diretorias de empresas estatais e de seus fundos de pensão, um afastamento do próprio partido em relação aos segmentos sociais que lhe deram origem. Conforme apontou André Singer, “[o] lulismo, ao contrário do que fazia o PT até 2002, não acentu[ou] a necessidade da organização e mobilização da classe trabalhadora.”

Outros movimentos do PT serviram ainda para nivelar antagonismos sobre projetos. Citando apenas um exemplo, lembro que a primeira reforma sobre a qual Lula jogou boa parte do seu prestígio de presidente recém empossado foi a da previdência dos servidores públicos. O ataque sobre os trabalhadores iniciado por FHC nesse campo, que, contudo, só foi capaz de atingir aposentadorias na iniciativa privada, foi completado por Lula. Sobre as classes dominantes, nenhuma investida capaz de reduzir de forma substantiva as desigualdades materiais, o que poderia advir, por exemplo, de uma estrutura fiscal menos regressiva. Para os dominados, lembra Giovanni Alves, “[a] ideia de cidadania reduziu-se à ideia de acesso ao mercado de consumo de massa.”

Marina disputava um espaço aberto ao longo da mais de uma década de hegemonia petista, e certamente conquistou uma parcela importante nesse espaço. Aécio agora busca atrair para o seu lado essa mesma parcela, o que também parece estar conseguindo em alguma medida. Se será suficiente para vencer, como já disse, pouco importa para os objetivos desta análise. O que importa é que a retórica da negação da política encontrou eco junto a parcelas significativas do eleitorado. Uma delas é a que entrou na cena política tendo crescido em um contexto marcado justamente pelo empobrecimento do debate.

Tal empobrecimento político tem como sinal importante a negação da luta de classes tentada pelo lulismo. Mas como a história se move a partir de contradições, eis que Dilma recorre à suspensão da conciliação como tática eleitoral, apresentando a si como representante das classes subalternas e Aécio como representante das classes dominantes. Se Dilma vencer as eleições, é provável que retome a estratégia conciliadora. Se for Aécio, tal estratégia deverá encontrar maior dificuldade, afinal, parafraseando André Singer, é possível que acentue-se a necessidade de organização e mobilização da classe trabalhadora.

Meu prognóstico é que a estratégia conciliadora será retomada em breve. Ocorre que os seus limites já foram expostos, como salientaram as Jornadas de Junho de 2013.

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Daniel Bin é doutor em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) com estágio na Universidade de Wisconsin-Madison, é professor de políticas públicas na Universidade de Brasília e pesquisador e pesquisador visitante da Universidade Yale, EUA. Email: danielbin@unb.br Dele, leia também A financeirização da democracia brasileira, A (in)visibilidade da luta de classes nas Jornadas de Junho,  e “Uma pessoa, um voto”, ou “um real, um voto”?, no Blog da Boitempo.

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O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

O que ainda resta de verdade nestas eleições?

14.10.22_Daniel BinBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Alessandra Affortunati Martins Parente.

Eis uma questão que vale ser levantada. Difícil respondê-la. Chuvas e mais chuvas – e não há qualquer ironia aqui, a água é drama na triste terra da garoa – de informações, textos, propagandas invadem o “feed de notícias” daquele que é membro do Facebook. O GloboNews noticia praticamente 24 horas por dia os detalhes das campanhas. A programação normal da televisão é invadida pelas notícias urgentes sobre os candidatos. Jornais, debates, comícios. A oferta é infindável. A quem está no Twitter e quer se manter informado, também não faltam tempestades de notícias sobre o assunto. Depois há muitos amigos que se tornam “militantes” da noite para o dia e, quando menos percebe, até você está lá, loucamente “militando”. Tudo se passa como se fossemos de fato protagonistas de nossa história. Compartilhamos textos e mais textos na esperança de que o outro olhe pelo mesmo prisma que o nosso. Lemos outros e ficamos abalados, mas não há tempo a perder. A data das urnas está chegando e é preciso agir. E agir significa compartilhar.

Depois de ficar completamente tomada por esta prática insana a ponto de colocar minha vida diária – na qual existe filhos, marido, trabalho e pesquisa acadêmica – em suspenso, resolvi desativar temporariamente a conta do meu Facebook. Aberta para novas janelas, que não aquelas de meu “feed de notícias” e da Folha que chega diariamente na minha casa, quis continuar atenta aos acontecimentos. Abro hoje, pela primeira vez, a página do Estado de S. Paulo na internet.

Impacto. É uma propaganda tão descarada que não vale o desperdício de tempo para comprová-la. Quem entende de publicidade sabe que aquilo que se elege, o que se edita, a foto, a luz e o ângulo escolhidos, as palavras selecionadas fazem toda a diferença. Os poucos aspectos destoantes – ou opiniões divergentes – servem, sobretudo, para exaltar a perfeição daquilo que se destaca. E está tudo lá, evidente o tempo todo. Duas fotos lado a lado. Em uma, Dilma, como se estivesse partindo para a briga, dizendo “Quando nos desafiam a gente encara”. A foto? Puxa, quem visse a foto… Aécio, na foto ao lado, é o galanteador, típico de novelas globais, que beija as mãos de Marina Silva, pela primeira vez com seus cabelos ao vento e o sorriso aberto. A manchete logo abaixo da foto mudou ao longo do dia. Na primeira havia: “Estou vivendo um dos momentos mais importantes de minha vida”. Na que veio mais tarde estava escrito: “Aécio defende que denuncia feita a tucano seja investigada” – uma resposta rápida à manchete da Folha sobre o envolvimento do PSDB nos desvios da Petrobrás. Perfeito. Sem conflitos e na base da paz e do amor (antigo slogan da eleição de Lula) é possível que a “mudança”  caminhe rumo ao comando do Brasil.

O que há de verdade nisso tudo? O massacre diário contra o PT é um massacre contra o que se construiu em anos de trabalho, com todos os terríveis defeitos, mas com infinitos méritos – é preciso reconhecer. Massacre fantasiado de notícia policialesca e moldado pela estética jornalística. Mas atenção: nada disso retrata o ódio ao PT, que teria tido sua “chance” no palácio sem saber aproveitá-la – o velho e preconceituoso discurso. Os petistas se enganam com seu ódio aos tucanos, assim como estes também se iludem ao combater o suposto inimigo “de esquerda”. Se Lula enalteceu durante anos o discurso da “herança maldita” foi porque ele também ganhou um grande respaldo para isso no noticiário dessa imprensa, que agora ataca o governo do PT. Mesmo com muito receio, os donos do Grande Capital estavam desanimados com os estreitos rumos da economia do país na época FHC e, embora com muita desconfiança, voltaram seus olhos para Lula. Certo entusiasmo com os compromissos assumidos, pelo ex-presidente Lula, de dar a todos os brasileiros uma vida melhor, sem prejudicar em nada os de cima, foi um sinal de que a vitória do PT talvez não fosse tão ruim.

Podia ser bom negócio, na medida em que faria girar a economia, travada pelas velhas receitas de baixos salários e, portanto, baixo consumo – tudo para conter a inflação. Chegamos agora ao limite desse modelo conciliatório oferecido por Lula e continuado por Dilma. “Hora de retroceder”, pensam esses mesmos setores, alinhados ao mercado, “ou vamos experimentar abalos inexoráveis” – não esqueçamos que no topo da pirâmide estão, por exemplo, irmãos Marinho e família Civita. Se o esquema previsto pela grande imprensa (Globo, dos Marinho e Veja, dos Civita, entre outros), alimentada pelo terrorismo do mercado, não furar, isto é, se Dilma perder, teremos anos de governo tucano relativamente harmônico, com notícias predominantemente favoráveis ao governo, e futuros escândalos como os que temos assistido agora – a corrupção já está anunciada, como se sabe, na hora do financiamento das campanhas. Será sinal, mais uma vez, de que o mercado está insatisfeito. Sem a distribuição de renda realizada pelo PT e com a tradicional política econômica que já conhecemos – e não se iludam, a visão tucana é exatamente a mesma ainda hoje – o capital deixará de girar, já que não haverá, mais uma vez, consumo desejável. Ou seja, se no começo tudo caminha às mil maravilhas, depois a economia passará a emperrar sem compra e venda da produção.  Será a hora de mudar justamente para manter tudo exatamente igual na velha pirâmide do país. O valorizado discurso da “alternância de poder” é enfatizado principalmente neste momento, sem levar em conta a história brasileira de dominação pela direita. Teremos mais tempestades de “notícias” contra a corrupção tucana e o teatro da democracia mais uma vez dirigido pela grande imprensa. Os protagonistas afagados serão muito provavelmente os petistas, colocados agora em lugar vexatório por ela.

Nunca sairemos disso, a não ser que se passe a furar scripts. O furo do momento é a vitória do PT. No primeiro turno a ousadia do improviso poderia ter sido maior, mas gostamos de seguir aquilo que já estava no receituário. E nesse mundo pronto, lotado de maquiagem e belos passos de valsa ensaiada, um grotesco “feed de notícias”, saturado de selvagerias, é o melhor dos mundos. Se for possível desviar da rota larga e fácil, bem asfaltada pela grande imprensa, poderemos realmente imprimir um traço nosso nesta história. Para isso é necessário resistir aos encantos da facilidade ofertada diariamente e improvisar em estreitas trilhas a serem desbravadas. É na miséria transbordante dos embates entre eleitores que ainda se concentra uma centelha de esperança – sempre com riscos pela árdua realidade que ela escancara. Se a miséria não se tornar repulsiva para muitos e o caminho pronto puder ser abandonado, teremos a vitória de Dilma. E aí esperamos que a vaidade do PT não se deixe acariciar pelos enganosos sorrisos dos grandes, voltando seus olhos para os setores de esquerda que não estão sob os iluminados holofotes. A vitória seria apenas um pequeno começo. Se acontecesse, porém, ela imporia de saída, aos doutos de plantão, um diálogo mais amplo, aberto e verdadeiro sobre os rumos da economia no Brasil. Esses alardes diários não nos levarão muito longe.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Edson Teles: Eu voto Dilma!

14.10.23_Edson Teles_Eu voto Dilma[Márcia Belarmina da Paixão, na ocupação Copa do Povo]

Por Edson Teles.

No dia 26 de outubro, mais de 130 milhões de brasileiros terão a obrigação de escolher o próximo governo do país. Ainda que seja obrigatório o voto no sistema político brasileiro, cerca de 40 milhões dos que são lançados neste passo formal da democracia simplesmente não escolheram nenhuma das opções em jogo no primeiro turno. Muitos desses votos são considerados inválidos, apesar de registrarem, no mínimo, um descompasso entre boa parte dos brasileiros e o sistema político partidário.

Dentre eles, foram quase 6% dos eleitores brasileiros que anularam seus votos. Estive neste grupo no primeiro turno. Não localizei entre as candidaturas programa partidário com proposição de transformação radical da desigualdade social e da posse fraudulenta das riquezas do país, de discussão das formas de decisão política e da lógica de governo reinante no Estado de Direito brasileiro e nenhuma contestação contundente da militarização da política e da construção de uma democracia de segurança, violenta e repressiva, como vista nos últimos dois anos.

Votei nulo não para me colocar fora da luta política enfrentada dentro das instituições do Estado e do âmbito da democracia representativa. Foi a tentativa de registrar um protesto não ao jogo político que está sendo disputado, mas à ausência de um projeto de transformação profunda da realidade brasileira. Se este jogo está em aberto é necessário agir também dentro de sua lógica de conflito. O governo do sofrimento social e a abertura de possibilidades outras de ação política são questões fundamentais das atuais eleições.

E hoje, às vésperas da votação do segundo turno, o jogo em andamento apresenta-se com outras regras, nas quais se coloca a opção entre dois campos de forças da luta política institucional extremamente opostos.

É por esta razão que declaro meu voto em Dilma Rousseff.

Deixar de tomar uma posição frente ao candidato da direita brasileira, simulacro de uma política liberal e de mudança, significaria para esta minha leitura do jogo em disputa deixar vencer a opção do completo bloqueio de qualquer possibilidade criativa ao agir político, via a institucionalização de um governo fascista.

Para ser breve nesta declaração, atentemos para suas proposições sobre a reforma do Código Penal e de defesa do aprofundamento da política de encarceramento em massa, já vigentes desde anos 70 e cujo alvo é a juventude negra e pobre das periferias, indicando um modelo violento e racista da candidatura tucana.

Esta forma de governo das populações pobres não é projeto exclusivo deste candidato, nem mesmo pertence a um partido ou outro, mas à uma lógica de governo da elite econômica e política cujo projeto é o de uma democracia de roupagem liberal, mas de ação de controle da política e das formas de vida que resistem ao modelo capitalista de sociedade. Contudo, a candidatura tucana seria a estratégia mais aberta de repressão aos movimentos sociais e de controle dos processos de produção de subjetividades, como registrados nas manifestações de junho de 2013, ou nas ocupações de espaços e imóveis abandonados ou sem uso social.

Só para ficar em um exemplo, quando o MTST ocupou o terreno batizado de Copa do Povo em São Paulo, no primeiro semestre de 2014, iniciou-se o processo político que terminaria com uma grande vitória dos movimentos sociais, por meio da negociação entre governo federal e ocupantes concordando com a construção de moradias populares naquele espaço. O modelo tucano, visto poucos anos antes, foi o da desocupação de Pinheirinho, com a violência desmedida da Polícia Militar mesmo diante de liminares da Justiça adiando a operação de despejo.

A aliança heterogênea da candidata Dilma apresenta contradições que abrem maiores campos e possibilidades de conflitos políticos dentro de uma lógica menos agressiva aos movimentos sociais e às reivindicações das minorias. Para combater o projeto autoritário de democracia que ganha terreno em nosso país, a candidatura do PT à presidência apresenta aos movimentos sociais e em luta uma brecha maior de construção de ações criativas de resistência e combate à militarização da política.

Voto em Dilma Rousseff não por acreditar que seu segundo governo resolverá os principais problemas nacionais. Voto em Dilma por uma estratégia de resistência em favor de uma democracia efetiva e radical. Derrotar o projeto fascista tucano é saber que o dia seguinte às urnas será mais um dia de luta.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Edson Teles é autor de um dos artigos que compõe a coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, que tem sua versão impressa vendida por R$10 e a versão eletrônica por apenas R$5 (disponível na Gato Sabido, Livraria da Travessa e outras).

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.