Guia de leitura | O capital no Antropoceno | ADC#48

O capital no Antropoceno
Kohei Saito

Guia de leitura / Armas da crítica #48

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Quem é Kohei Saito?

Kohei Saito é professor associado de economia política na Universidade de Osaka, no Japão. É também membro do conselho editorial internacional do projeto Marx-Engels-Gesamtausgabe.

Em 2018, venceu o Deutscher Memorial Prize com a obra O ecossocialismo de Karl Marx: capitalismo, natureza e a crítica inacabada à economia política, lançada no Brasil pela Boitempo em 2021.

O capital no Antropoceno vendeu mais de 500 mil exemplares no Japão e teve seus direitos vendidos a países como Espanha, China, Coreia do Sul, Alemanha, França, Taiwan, Reino Unido e Estados Unidos.

“Este livro analisa o entrelaçamento do capital, da sociedade e da natureza no Antropoceno, com base em O capital de Marx. É claro que não tenho a menor intenção de relembrar o marxismo do passado. Pretendo escavar e desenvolver novos pensamentos marxianos que estiveram adormecidos durante cerca de 150 anos.

KOHEI SAITO

Só o decrescimento pode conter a crise climática

O ponto de partida de O capital no Antropoceno é nosso apocalipse cotidiano, o “novo normal” de secas, inundações, ventanias, fogos, derretimentos de geleiras e recordes a todo momento batidos de altas temperaturas – emergências que persistem, apesar dos variados negacionismos.

O que propõem os donos do poder? Dobrar a aposta, mantendo o rumo suicidário e desafiando os limites do planeta, apelando para geoengenharia e soluções tecnológicas. Tais respostas, no entanto, não passam de miragens de uma transição falaciosa, pois uma maior eficiência energética e novas fontes são canalizadas pela cruel dinâmica do lucro econômico, o que acaba aumentando os dispêndios e a destruição da vida humana e da natureza. “A chave da sobrevivência é a igualdade”, diz Kohei Saito, que clama por uma virada: decrescer!

Jean Tible

Professor de Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP).

Uma leitura fundamental para as vidas-lutas no Brasil, país que vive quase ininterruptamente os nítidos sinais da tragédia ambiental produzida pelo capital, mas também ostenta o exuberante manancial dos povos da terra e sua riqueza cooperativa multiespécies.

JEAN TIBLE

O imperialismo ecológico

Saito expõe, como poucos críticos do mundo privilegiado, a questão socioambiental desde a incorrigível desigualdade substantiva que preside tal forma societária para a qual hierarquia e dominação são imperativas.

Para Saito, a crise é a própria expressão da produção e da reprodução de riquezas para o capital; não é episódica, mas condição imanente ao sistema, condição essa que se agrava no acúmulo de contradições e de fenômenos decorrentes de uma economia que se agiganta sem qualquer preocupação com os estragos causados por esse crescimento. 

Desse modo, nosso autor não só con­firma a atualidade do universo conceitual de Marx, que por inúmeras vezes alertou para a onipotência do capitalismo, como abre mais janelas ao dar ênfase à última fase do revolucionário alemão.

Maria Orlanda Pinassi

Professora aposentada de sociologia da Unesp. Autora, entre outros, de Da miséria ideológica à crise do capital (Boitempo, 2009).

Podemos discordar por vezes das proposições analíticas de Kohei Saito acerca das suas afirmações sobre a ecologia e o decrescionismo contidos na obra marxiana, mas temos que admitir que esse jovem marxista é criativo e ousado. Faz-nos pensar, nos provoca e nos desafia a romper a bolha interpre­tativa e anti-histórica que se formou em torno de Marx.

MARIA ORLANDA PINASSI


Marx e a crise ambiental

Olhando para a história do capitalismo, há poucas chances de que as nações ou as grandes empresas tomem medidas numa escala suficiente para combater as mudanças climáticas. Em vez de soluções, o que o capitalismo ofereceu foi apenas expropriação, externalização e transferência de danos. Repetiram o adiamento da resolução de problemas e transferiram as contradições para algum lugar distante.

Na verdade, foi Karl Marx quem preconizou os problemas da externalização através da transferência em meados do século XIX. Marx enfatizou isso: o capitalismo transfere suas contradições para outros lugares e as invisibiliza. Mas, ao transferir, ocorrerá uma situação terrível em que essas contradições naturalmente se aprofundariam e se transformariam em um atoleiro.

As tentativas de transferência do capitalismo acabarão por falhar. Marx pensava que este seria o limite intransponível para o capital.

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.33]

Os esforços dos países desenvolvidos para alcançar o ‘crescimento econômico verde’ apenas transferem os custos sociais e ambientais para a
periferia
.”

KOHEI SAITO

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.60]

Os limites do keynesianismo climático

É questionável até se os proponentes do Green New Deal realmente querem parar as mudanças climáticas. Isso porque poderia também existir um Green New Deal que, em vez de parar ou abrandar as mudanças climáticas, poderia se propor a alcançar o crescimento econômico e adaptar-se ao mundo 3 °C mais quente.

O que se diz por vezes é sobre a redução do padrão de vida para o nível de vida dos anos 1970. É claro que todos sabemos que é pouco provável que essa visão de um futuro com padrões de vida mais baixos seja uma opção política atrativa. No entanto, fechar os olhos aos fatos e se agarrar a um projeto político mais bem aceito de “crescimento econômico verde” pode até ser baseado em boas intenções, mas não merece outra designação além de que é greenwashing maquiada de preocupação ambiental.

Esse tipo de escapismo fortalecerá ainda mais o estilo de vida imperialista e criará mais exploração e opressão nas periferias. E, se continuarmos fazendo isso, também enfrentaremos as consequências em um futuro próximo.

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.67-68]

Se quisermos deixar o escapismo do ‘crescimento econômico verde’, muitas escolhas difíceis nos aguardam. Até que ponto levaremos a sério a redução de CO2? Quem pagará pelo custo? Como os países desenvolvidos farão reparações ao Sul global por seu estilo de vida imperialista? O que faremos com a destruição ambiental causada no processo de transição para o modelo de economia sustentável?”

KOHEI SAITO

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.68]

Apostar no decrescimento

Por que o decrescimento é uma opção essencial para superar a crise ambiental? O motivo pode ser compreendido a partir da discussão feita até agora. Aprendemos que o caminho para o “crescimento econômico verde” não consegue manter o meio ambiente global no qual a humanidade possa sobreviver.

O decoupling absoluto é uma ilusão e o crescimento econômico, quer tenha ou não a coroa “verde”, aumenta inevitavelmente o impacto ambiental. As políticas que visam ao crescimento econômico não nos permitirão escapar à crise ambiental global representada pelas mudanças climáticas.

Portanto, é necessária uma nova racionalidade, diferente do keynesianismo climático. Ou seja, o decrescimento, um sistema econômico que não depende do crescimento econômico, é uma poderosa opção.

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.77]

Se as coisas continuarem como estão, o capitalismo mudará completamente a superfície da Terra, criando um ambiente inabitável aos seres humanos. Esse será o ponto final da era conhecida como Antropoceno. Por isso, temos de confrontar seriamente o capitalismo, que visa a um crescimento econômico infinito. Se não o pararmos, será o fim da história humana.”

KOHEI SAITO

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.78]

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Marxismo e decrescimento

Realmente, pensava-se, até agora, que o marxismo e o decrescimento tinham uma relação de óleo e água. O marxismo tradicional imaginava o comunismo como uma sociedade em que os trabalhadores retomavam o controle dos meios de produção, controlando livremente as forças produtivas e a tecnologia e melhoravam a própria vida.

Essa sociedade era vista como incompatível com o decrescimento. Embora a existência das pesquisas em ecologia e das pesquisas sobre as comunidades de Marx fossem conhecidas, nunca foi feita uma tentativa de combiná-las. Isso porque os pesquisadores de Marx não conseguiram aceitar o decrescimento.

A enorme herança negativa do produtivismo marxista pesa fortemente aqui. O marxismo não podia aceitar o fato de que o aumento das forças produtivas era destrutivo e considerava o decrescimento como um inimigo.

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.125]

“Se quisermos defender o decrescimento, só acordos com o capitalismo não são suficientes, teremos que enfrentar questões teóricas e práticas muito mais difíceis. Nesse ponto de bifurcação da história, devemos enfrentar resolutamente o próprio capitalismo. Transformar fundamentalmente o trabalho, superar os conflitos de classe, de exploração e dominação e estabelecer uma sociedade livre, igualitária, justa e sustentável. Esta é a teoria do decrescimento da nova geração.”

KOHEI SAITO

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.90]

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Para evitar que a história acabe

Marx e decrescimento? Ficou maluco? Comecei a escrever este livro sabendo que essas críticas viriam de todos os lados. De acordo com o senso comum da esquerda, Marx não defendia o decrescimento. E a direita zomba questionando se vamos repetir os erros da União Soviética. Além disso, a antipatia pelo termo “decrescimento” está profundamente enraizada entre os liberais.

Mesmo assim, não pude deixar de escrever sobre isso. Ao analisar a relação entre a crise climática e o capitalismo com base nos últimos resultados das pesquisas de Marx, descobri que o objetivo dele nos seus últimos anos era o comunismo de decrescimento, e tive a certeza de que é a única forma de superar a crise do Antropoceno.

Espero ter conseguido convencê-lo de que o “comunismo de decrescimento” é a única opção para a humanidade superar a crise ambiental e concretizar uma “sociedade sustentável e justa”.

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.221]

“O capitalismo, que gera escassez ao mesmo tempo que obtém lucros, é o que traz escassez para as nossas vidas. O comunismo de decrescimento, que reconstrói o ‘comum’ que foi desmantelado pelo capitalismo, deve tornar possível viver uma vida mais humana e abundante.”

KOHEI SAITO

[O CAPITAL NO ANTROPOCENO, p.222]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos a apresentação de John Bellamy Foster a Enfrentando o Antropoceno, de Ian Angus, um artigo de Slavoj Žižek sobre Kohei Saito publicado na revista Margem Esquerda #42 e um capítulo de Terra viva, de Vandana Shiva.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

John Bellamy Foster

O Antropoceno


Slavoj Žižek 

Mobilizar para realmente desacelerar: progresso e decrescimento no
ecomarxismo de Kohei Saito


Vandana Shiva

Permanecendo vivo: caos climático/ação climática

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Ana Paula Salviatti, Bruno Araújo e Jean Tible, debate sobre ecossocialismo com Kohei Saito e Sabrina Fernandes, entrevista do autor da caixa do mês a Breno Altman e uma playlist completa sobre ecossocialismo com diversos vídeos para se aprofundar no tema.

Para aprofundar…

Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Intelligence Squared: Why we need to slow down to save the planet?, com Kohei Saito [em inglês], abril 2024.

Rádio Boitempo: Conversas camaradas #13: Enfrentando a crise climática, com Thiago Torres e Ingrid Sateré Mawé, dez. 2023.

Jones Manoel: O que fazer frente à destruição ambiental e emergência climática?, com Jones Manoel, out. 2024.

Opera Mundi: Capitalismo verde ou ecossocialismo?, com Michael Löwy, dez. 2022.

Em Movimento: O que é ecossocialismo?, com Michael Löwy, set. 2022.

Podcast Anpof: Antropoceno e colapso ecológico, com Alyne Costa e Susan de Castro, set. 2021.

Tese Onze: Dicas de leitura em ecossocialismo, com Sabrina Fernandes, jun. 2021.

Filosofia Pop: #054 Ecossocialismo, com Sabrina Fernandes, dez. 2017.

A questão política
decisiva do século XXI,
com Michael Löwy,TV Boitempo.

Feminismo, comuns e ecossocialismo, com Silvia Federici e Sonia Guajajara, TV Boitempo.

Marx e o ecossocialismo, com Kohei Saito e Sabrina Fernandes, TV Boitempo.

Catástrofe ambiental e a lógica capitalista, com Virginia Fontes, TV Boitempo.

O que é ecossocialismo?, com Michael Löwy, TV Boitempo.

Marx se preocupou com a ecologia?, com Michael Löwy, TV Boitempo.

Marxismo, capitalismo e ecologia, com Ana Paula Salviatti, Arlindo Rodrigues, Luiz Marques e Michael Löwy, TV Boitempo.

Marx e o meio ambiente, com Michael Heinrich, TV Boitempo.

Como unir marxismo e ecologia?, com Silvia Federici, TV Boitempo.

De quem é realmente a culpa da crise climática?“, por Kohei Saito, Blog da Boitempo, set. 2024.

O que é imperialismo ecológico?“, por Maria Orlanda Pinassi, Blog da Boitempo, set. 2024.

Só o decrescimento pode conter a crise climática“, por Jean Tible, Blog da Boitempo, out. 2024.

O fim do capitalismo como alternativa ao fim do mundo“, por Alexandre Araújo Costa, Blog da Boitempo, out. 2023.

Ecodecálogo: dez mandamentos para salvar a vida neste planeta“, por Michael Löwy, Blog da Boitempo, jun. 2023.

Por um decrescimento ecossocialista“, por Michael Löwy, Bengi Akbulut, Sabrina Fernandes e Giorgos Kallis, Blog da Boitempo, maio 2022.

A preocupação ecológica de Marx para a superação da ordem capitalista destrutiva“, por Murillo van der Laan, Blog da Boitempo, maio 2021.

A edição de conteúdo deste guia é de Isabella Meucci e as artes são de Mateus Rodrigues.