Guia de leitura | Crônicas anticapitalistas | ADC#43

Crônicas anticapitalistas
David Harvey

Guia de leitura / Armas da crítica #43

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Inspirado nas Crônicas anticapitalistas, podcast quinzenal em que David Harvey analisa as atuais conjunturas política, social e econômica global, a obra homônima apresenta ao leitor um sobrevoo acessível e aprofundado de assuntos variados como o neoliberalismo pós-crise de 2008, a ascensão da extrema-direita no mundo, o papel da China na economia, as mudanças climáticas, o mundo pós-covid e, claro, o futuro do socialismo.

Sem deixar de lado a análise marxista, que é parte fundamental de sua obra, Harvey perpassa conceitos essenciais como alienação, acumulação primitiva, financeirização, etc. Com uma linguagem acessível, própria da oralidade, o autor apresenta novas maneiras de entender a crise do capitalismo global e as lutas por um futuro melhor.

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Quem é David Harvey?

“O trabalho de Harvey contribui com a renovação da tradição marxista que, por mais de um século, vem servindo de farol para revolucionários em todo o mundo. Este livro busca reacender essa tradição de modo a iluminar nosso caminho à medida que enfrentamos as lutas urgentes de vida e morte do nosso tempo.”

JORDAN T. CAMP

O papel do revolucionário do século XXI

Estas Crônicas anticapitalistas derivam de um projeto de podcast em que o professor emérito de antropologia e ciências ambientais e da Terra utiliza de sua projeção para se debruçar sobre o mundo contemporâneo a partir das lentes do marxismo. Dirigido a jovens e veteranos, acadêmicos e militantes, iniciantes e iniciados, o livro traz uma abordagem ampla e contundente sobre a dinâmica de reprodução do capital e sua sanha de crescimento infinito. Colocando a natureza do capitalismo como insustentável e causadora do atual esgotamento climático e político, Harvey demonstra a necessidade de uma interpretação mais robusta das diversas frentes da luta anticapitalista hoje.

Harvey sintetiza avaliações de conjuntura e debates teóricos muito avançados em linguagem fluida e acessível. Realizando uma nova interpretação de antigos conhecimentos do campo marxista, este livro traz um balanço fundamental do que sabemos e do que precisamos aprender para construir um futuro de superação do capitalismo. Atual e imponente, é obra imperdível para quem se interessa por marxismo e geopolítica. Acessível e original, é leitura indispensável para compreender o papel do revolucionário do século XXI.

Humberto Matos

Professor de história, educador popular e militante do Coletivo Soberana; comunicador socialista no YouTube desde 2016.

“Os movimentos políticos ameaçadores de direita precisam ser cortados na raiz. Mas isso requer a criação de uma outra economia política que combine uma compreensão das causas basilares desse mal-estar. Sem uma transformação revolucionária, contudo, e se permanecerem desimpedidos, o processo social hegemônico e suas concepções mentais dominantes nos afundarão ainda mais nas entranhas do autoritarismo fascista.”

DAVID HARVEY

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.182]

Capitalismo e neofascismo

Estas Crônicas anticapitalistas argumentam que, embora a legitimidade do Estado neoliberal esteja corroída, seu projeto político segue muito vivo. Atualizando sua análise de 2005, Harvey defende que hoje o neoliberalismo não tem como sobreviver sem uma aliança com o neofascismo.

Para sustentar seu argumento, ele examina como o governo do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro se valeu de violência e apelos racistas, sexistas e reacionários ao senso comum como forma de promover um modelo neoliberal no Brasil. Ele destaca as semelhanças com o regime de Augusto Pinochet, alçado ao poder no Chile por meio de um golpe militar apoiado pela CIA. Como sugere Harvey, Bolsonaro explora narrativas de senso comum para restaurar o poder de classe no país e na região.

Jordan T. Camp no prefácio de Crônicas anticapitalistas

“A tarefa é identificar aquilo que se encontra latente na nossa sociedade existente a fim de encontrar uma transição pacífica a uma alternativa mais socialista. Revolução é um processo longo, não um acontecimento.

DAVID HARVEY

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.32]

Mundo em turbulência

Na época de Marx, se houvesse um colapso repentino do capitalismo a maior parte das pessoas do mundo ainda seria capaz de se alimentar e se reproduzir. As pessoas eram razoavelmente autossuficientes nas suas áreas locais, obtendo as coisas que precisavam para viver e reproduzir. De uma forma ou de outra as pessoas conseguiam colocar um prato de comida sobre as suas mesas, sem depender do que estava acontecendo na economia global e nos mercados globais.

Hoje, isso já não vale mais para muitas partes do mundo. A maioria das pessoas nos Estados Unidos, em boa parte da Europa, do Japão e agora cada vez mais da China, da Índia, da Indonésia e da América Latina estão dependendo cada vez mais da entrega de alimentos pela circulação do capital. […]

Hoje, é possível que o próprio capital esteja implicado com tanta profundidade na reprodução da vida cotidiana que não podemos nos dar ao luxo de vê-lo quebrar. As consequências econômicas e os impactos e custos sociais de uma quebra massiva e prolongada na continuidade da circulação do capital serão catastróficas e potencialmente letais para uma parcela significativa da população mundial.

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.31-32]

“Será necessário um movimento oposicional de massas para se contrapor a essa aliança neofascista que ameaça dominar o cenário mundial. Para que isso ocorra, contudo, todos precisam ter ciência da profunda natureza dos problemas que estamos enfrentando, bem como do leque de respostas plausíveis à nossa disposição.”

DAVID HARVEY

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.65]

A financeirização do poder

A financeirização é uma cobrança sobre o trabalho futuro. Os estudantes endividados entendem bem isso. Eles carregam dívidas da ordem de 100 mil dólares e precisam passar de dez a quinze anos trabalhando para conseguir quitá-las antes que possam ter uma vida que possam chamar de sua.

Trata-se do trabalho futuro deles. É também o nosso futuro coletivo. Estamos mergulhando em uma situação de servidão por dívida, de peonagem, em que muitos de nós estamos atolados em dívidas. Isso se conecta a algo que mencionei anteriormente. Uma vez que os salários vêm caindo em termos relativos, foi preciso recorrer cada vez mais ao crédito a fim de manter a demanda efetiva.

O sistema capitalista sobrevive por meio da extensão e ampliação do sistema de crédito. Crescimento de crédito é crescimento de capital. Esse é o nosso dilema atual. Dito de modo simples: isso não tem como continuar para sempre e, todavia, precisa continuar para que o capital sobreviva.

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.56]

“Em vez de entregar à direita o monopólio da noção de liberdade individual, precisamos reivindicar a ideia de liberdade para o socialismo.

DAVID HARVEY

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.68]

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Socialismo e liberdade

A direita sequestrou o conceito de liberdade; apropriou-se dele, como se este fosse seu, e passou a utilizá-lo como arma na luta de classes contra os socialistas, que supostamente representariam a “ausência de liberdade”. Esse fenômeno é bastante visível nos Estados Unidos, mas está longe de ser exclusivo do país.

Marx tinha algumas coisas interessantes a dizer sobre essa questão. Uma delas é que “o reino da liberdade só começa onde cessa o trabalho determinado pela necessidade e pela adequação a finalidades externas”. Liberdade não significa nada se você não tem o que comer. Liberdade é uma palavra oca se lhe é negado o acesso a saúde, moradia, transporte e educação decentes. A função do socialismo é fornecer essas necessidades básicas, satisfazer essas necessidades humanas básicas para que as pessoas fiquem livres para fazerem exatamente o que quiserem.

O ponto de chegada de uma transição socialista, e o ponto de chegada da construção de uma sociedade comunista, é um mundo em que as capacidades e poderes individuais estão inteiramente libertos de vontades, necessidades e outras amarras políticas e sociais.

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.67-68]

“Se a verdadeira liberdade
é um mundo em que temos tempo livre para fazer o que quisermos, então o projeto
emancipatório socialista propõe que esse seja um eixo central da sua missão política
.”

DAVID HARVEY

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.75]

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A China e a economia mundial

Em 2008 pensávamos na China como o chão de fábrica do mundo: um país e uma economia baseados fundamentalmente em mão de obra barata. A China continua sendo uma economia industrial de baixos salários muito importante. Porém desde 2008 o país de repente entrou para valer nessa outra área, e em um período de cerca de oito anos se posicionou como um concorrente maior nos setores de tecnologia de ponta. Hoje, quatro das dez maiores empresas de tecnologia do mundo são chinesas.

As coisas não eram assim em 2008. Esse é o modelo chinês em ação. Ele é muito rápido, muito ligeiro, tem o respaldo de um governo e a vantagem de uma escala maciça. É uma mistura de fortes intervenções governamentais, mas também de um alto grau de descentralização, de modo que uma cultura de empreendedorismo se tornou absolutamente central para aquilo que se poderia chamar do “capitalismo gladiador” que está emergindo no contexto chinês.

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.88]

“Passei a reconhecer a necessidade de uma transformação radical de todas as nossas formas de pensar, todos os nossos modos de fazer e viver, não só em termos de reduzir o nosso consumo de combustíveis fósseis e nossa taxa de emissões de carbono, mas também buscando seriamente encontrar maneiras de retirar o dióxido de carbono da atmosfera e devolvê-lo a debaixo da terra.”

DAVID HARVEY

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.160]

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A mudança climática

Precisamos levar mais a sério o problema das mudanças climáticas – e elaborar formas de controlar e conter o aumento contínuo das emissões de dióxido de carbono, em especial na China e nos mercados emergentes de todo o mundo. É certo que quando os governos dos Estados Unidos, da Inglaterra ou da Europa repreendem a industrialização da China e dos países emergentes de modo geral, tais países têm toda razão de se queixar de certa hipocrisia. Afinal, os países desenvolvidos promoveram esse tipo de industrialização por um século até atingirem seu atual patamar de desenvolvimento. No entanto, é fato que as emissões de carbono provenientes da Índia, da China, do Brasil e da Turquia têm aumentado bastante.

Precisamos, portanto, encontrar uma forma de promover um desenvolvimento econômico que não seja baseado na intensificação de carbono e no uso crescente de combustíveis fósseis. Há uma emergência que nossa reflexão e nossas práticas econômicas e políticas precisam abordar. Repare, no entanto, que o grande problema de fundo em tudo isso é a acumulação de capital.

[CRÔNICAS ANTICAPITALISTAS, p.160]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos um capítulo de Como ser anticapitalista no século XXI?, de Erik Olin Wright, além de um capítulo de 17 contradições e o fim do capitalismo, de David Harvey e um artigo do autor da caixa do mês sobre a guerra na Ucrânia na Margem Esquerda #39.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Erik Olin Wright

Por que ser anticapitalista?


David Harvey

A promessa do humanismo revolucionário


David Harvey

Dependência de trajetória, Ucrânia e guerra nuclear

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Ariel Machado e Humberto Matos, além de uma série de vídeos com David Harvey e quatro aulas sobre o pensamento do autor da caixa do mês, ministradas por Raquel Rolnik, Leda Paulani, Mariana Fix, Ermínia Maricato e Marcio Pochmann.

Para aprofundar…

Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Anti-Capitalist’s Chronicles: Housing in a broken system, com David Harvey, abril 2023.

Anti-Capitalist’s Chronicles: The impact of war on civilians, com David Harvey, fev. 2023.

Anti-Capitalist’s Chronicles: Applying Marx’s theories to contemporary struggles, com David Harvey, fev. 2023.

Anti-Capitalist’s Chronicles: CO2 emitions and climate change, com David Harvey, jul. 2019..

Anti-Capitalist’s Chronicles: The financialization of power, com David Harvey, nov. 2018.

A classe trabalhadora hoje, com David Harvey, TV Boitempo.

Marx e o capital no século XXI , com David Harvey, TV Boitempo.

17 contradições e o fim do capitalismo, de David Harvey, com Ruy Braga, TV Boitempo.

A economia política da urbanização, com David Harvey, TV Boitempo.

O direito à cidade, com David Harvey, Lúcio Gregori e Amélia Damiani, TV Boitempo.

Direito à cidade e resistências urbanas, com David Harvey, TV Boitempo.

A direita sequestrou o conceito de liberdade“, por David Harvey, Blog da Boitempo, maio 2024.

David Harvey e o papel do revolucionário do século XXI“, por Humberto Matos, Blog da Boitempo, abril 2024.

O neoliberalismo e a atualidade de Marx: entrevista com David Harvey“, por Mathieu Dejean e Romaric Godin, Blog da Boitempo, maio 2023.

As cartografias anticapitalistas de David Harvey“, por Raquel Rolnik, Blog da Boitempo, abril 2020.

O capitalismo da servidão por dívida“, por David Harvey, Blog da Boitempo, ago. 2018.

A edição de conteúdo deste guia é de Isabella Meucci e as artes são de Mateus Rodrigues.