A literatura negroafetiva no pensamento de Sonia Rosa

Por Thais Caramico

Entre palavras e imagens, uma criança começa a construir a si mesma. O que se diz, o que se mostra e o que se repete participa diretamente dessa construção – e a arte, nesse processo, não é um território neutro. Em um país marcado por profundas desigualdades raciais, pensar a literatura para crianças e jovens é também pensar quem é visto, como é visto e em que condições pode existir dentro das histórias.

É nesse campo que se inscreve o trabalho de Sonia Rosa,1 professora, escritora, pesquisadora e uma voz importante da literatura de infância brasileira contemporânea. Ao longo de décadas, sua obra vem construindo a presença de personagens negros com família, memória, afeto e humanidade, inseridos em narrativas que recusam o perigo da “história única”, como proferiu Chimamanda Ngozi Adichie.

Em conversa com a Boitatá para esta matéria, escrita no mês em que se celebra o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial (21 de março), Sonia retomou o conceito que organiza sua produção e sua reflexão crítica: a literatura negroafetiva para crianças e jovens.

“O conceito pode parecer simples – personagens negros e muito amor –, mas ele nasce de um enfrentamento. O racismo não consegue identificar humanidade na pessoa negra. E quando eu falo de amor, eu estou falando da base da vida. A gente fala com facilidade das dores, das raivas, dos ódios, mas o amor fica guardado. Acontece que o amor deveria ser o nosso guia, a pauta da nossa vida, porque tudo o que fazemos tem, ou deveria ter, o amor como fundamento”, afirma Sonia.

O termo foi criado por ela em 2019, após a defesa de sua dissertação de mestrado em relações étnico-raciais no Cefet, Rio de Janeiro. Ao revisitar sua trajetória como professora e escritora, percebeu que o campo “literatura afro-brasileira”, embora fundamental, não dava conta de nomear plenamente sua escrita. Faltava ali um elemento estruturante, ou seja, o modo como o afeto e o amor atravessam suas histórias.

Foi dessa necessidade que nasceu uma sistematização de sua obra e a fundamentação do conceito. Como ela escreve em artigo publicado no portal do Geledés, a literatura negroafetiva busca nomear obras em que o protagonismo negro aparece atravessado por dignidade, ternura, humanidade e representatividade positiva, contribuindo para uma convivência inter-racial mais respeitosa e para a construção de uma sociedade não racista. Trata-se de uma formulação crítica, ancorada em pesquisa, que não apenas organiza sua obra, mas abre caminho para a leitura de outras produções com características semelhantes.

Entre as referências que sustentam esse pensamento estão autores como Cuti e Eliane Debus. De Cuti, especialmente do livro Literatura negro-brasileira, Sonia recolhe uma crítica decisiva: a tradição literária brasileira frequentemente relegou personagens negros a posições secundárias, sem história, sem família, sem subjetividade. Ao tensionar esse legado, a literatura negroafetiva afirma o contrário, contemplando personagens negros com vida própria, vínculos, memória, desejo e complexidade, fazendo da escrita não somente um gesto estético, mas uma prática de transformação.

“Quando escrevo, eu não me proponho apenas a organizar palavras. Eu me proponho a fazer uma desconstrução nesse olhar racista. Porque, se alguém se encanta com a minha obra, ele pode repensar o modo como olha para o outro. Essa experiência pode ser compartilhada, pode chegar a uma criança, a uma família. E eu costumo dizer que só um ser desumanizado não consegue identificar a humanidade na outra pessoa”, explica.

De Eliane Debus, Sonia dialoga com os estudos sobre literatura infantil e relações étnico- raciais, especialmente no contexto posterior à Lei n. 10.639/2003. A legislação, como ela própria destaca, marcou uma inflexão importante ao instituir a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, modificando a experiência de leitura nas escolas e contribuindo também para o fortalecimento de um campo editorial mais atento à representatividade e ao letramento racial.

Essa dimensão da experiência aparece com força em sua fala, especialmente quando trata da infância: “Uma criança negra precisa se sentir contemplada, bem representada. E uma criança não negra também pode se encantar com a história e desenvolver empatia pela diversidade. É uma experiência, e é por isso que essas histórias precisam estar dentro de casa e da escola”.

A reflexão de Sonia atravessa diretamente sua obra. O menino Nito, escrito em 1988 e publicado em 1995, é reconhecido pela autora como a pedra inaugural da literatura negroafetiva. O livro apresenta um menino negro protagonista, bonito, amado, inserido em um ambiente familiar estruturado. “Quando Nito nasceu, foi uma alegria só. Todo mundo ficou contente, de tão gracinha que era. Logo, logo começou a ser chamado de bonito”, escreve Sonia, instaurando desde o início uma imagem que rompe com estereótipos historicamente atribuídos à infância negra.

Outros títulos, como Palmas e vaias e Dona Brígida, também exemplificam esse percurso. No primeiro, de caráter autobiográfico, uma menina atravessa a experiência dolorosa da humilhação pública, mas escolhe guardar consigo o gesto amoroso da mãe. No segundo, memória, fé e infância se entrelaçam na figura de uma rezadeira negra, símbolo de cuidado, sabedoria e afeto comunitário. Em ambos, o conflito existe, mas não anula a humanidade das personagens.

Na entrevista à Boitatá, Sonia foi precisa ao sintetizar esse eixo: “Uma literatura negroafetiva pauta a humanidade das pessoas negras”. E fica evidente, para quem a escuta, compreender como isso está diretamente ligado à sua própria trajetória. “Na minha casa não tinha livros, mas tinha histórias e afeto. Minha formação literária foi pela oralidade. Eu me apaixonei pela palavra falada, cantada, pelos versos, pelas prosas, pelas trovas. Hoje eu tenho alegria de dizer que fui formada por esses valores civilizatórios afro-brasileiros, princípios éticos, existenciais e culturais, como a oralidade, a musicalidade, o ritmo, a cadência, a ancestralidade, a memória, essa forma tão africana de falar, de contar, de existir”, revela a autora se referindo ao valores compilados por Azoilda Trindade, que fundamentam a identidade da comunidade negra e a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva, e incluem circularidade, religiosidade, corporeidade, cooperativismo, ludicidade e energia vital, ou axé.

Em um áudio enviado posteriormente à nossa conversa, reforçou que o racismo opera justamente pela negação dessa humanidade: ao desumanizar, legitima o desrespeito e a violência. E reforçou que sua literatura responde a esse processo mostrando o cotidiano negro em sua complexidade, com crianças, famílias, escola, vínculos, sonhos e experiências compartilhadas, em um contexto no qual o afeto aparece como estrutura. Está na presença da família, nas relações intergeracionais, na memória e na ancestralidade. Está na forma como uma criança é sustentada por outras presenças, por outras histórias, por gestos de cuidado.

Sonia relata que aprendeu que contar histórias, em casa ou na escola, é uma forma de abraçar. “Foi assim que eu fui alfabetizando, com a palavra mediando o afeto entre ensinar e aprender.” Ao falar da infância, Sonia chama atenção para o peso da palavra. Para ela, o que se diz a uma criança não se perde, mas se instala, orienta, molda a forma como ela se vê. A criança escuta, tenta corresponder, cria estratégias para existir dentro daquilo que lhe foi dito. Dessa forma, em sua escrita, é o amor que reorganiza a realidade, sem romantizar questões profundas, mas oferecendo aos personagens e, portanto, aos leitores, outras possibilidades de representatividade. Por isso, há uma responsabilidade profunda na linguagem, um compromisso em contribuir para que todas as crianças desenvolvam uma autoimagem positiva, sem dúvida sobre o amor que recebem, as palavras que escutam, para que não cresçam atravessadas pelo desamor.

Esse campo de reflexão dialoga diretamente com livros contemporâneos que ampliam o repertório da literatura de infância brasileira, como Crias do Titanzim, de Cláudio Rodrigues, recentemente publicado pela Boitatá. Ambientado no Titanzinho, território marcado pela resistência e pela força do surfe como modo de vida, em Fortaleza, o livro afirma a periferia como espaço de saber, invenção e futuro. Entre a praia e a sala de aula, o menino Quim inicia um percurso de letramento múltiplo, no qual leitura e identidade se entrelaçam. Acompanhado de seu novo amigo, caranguejo e rapper, ele se aproxima da palavra com coragem e sensibilidade, até que consegue ler as velas das jangadas que colorem a praia durante a Regata da Rainha do Mar.

Com linguagem atravessada pela oralidade, pelo rap e pela poesia, além de ilustrações que nascem da observação do território, o livro convida o leitor a escutar a cidade e a reconhecer outras formas de aprender e existir. Quando lido à luz da formulação de Sonia Rosa, evidencia que não basta a presença de personagens negros: é preciso atenção à forma como essas vidas são narradas, aos vínculos que as sustentam e ao imaginário que produzem. E nos alegra saber que este é o segundo título selecionado no edital da Boitatá (iniciativa que integrou as comemorações de dez anos da editora em 2025 e reuniu o recebimento de 487 originais), pois ele se inscreve nesse movimento de ampliação do campo literário em diálogo com a contemporaneidade.

Ao longo da entrevista, Sonia voltou a uma convicção que atravessa sua obra: diante da infância, não é possível renunciar à esperança. A literatura negroafetiva, nesse sentido, oferece matéria simbólica para outras formas de formação que não se fixam na escassez. Não se trata de ignorar as violências do mundo, mas de oferecer às crianças linguagem, repertório e reconhecimento suficientes para que possam existir com dignidade. “A gente não precisa falar só da dor. A gente pode falar da alegria, do tambor, do batuque. O amor é profundamente humano. Então, quando ele está na literatura, ele também é antirracista”, afirma.

Talvez seja esse o gesto mais poderoso da literatura negroafetiva: validar, com rigor e delicadeza, outras possibilidades de mundo em que crianças negras se sintam representadas em suas memórias, afetos e pertencimentos, para que todas as crianças vejam ali o que muitas vezes se confunde. “Meus livros são com personagens negros, mas escrevo para todas as crianças. Escrever, para mim, é afirmar a humanidade e convidar o outro a reconhecê-la também.”

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Thais Caramico é mãe, jornalista, especialista em livros para crianças e jovens pela Universidade Autônoma de Barcelona e mestra em Artes pela USP, onde pesquisou a relação entre literatura de infância e meio ambiente na perspectiva ecocrítica. É sócia-fundadora do Estúdio Voador, idealizadora da @bibliotecadefora e, desde 2025, integra a equipe da Boitatá como editora de educação. 

Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).

Notas

  1. Sonia Rosa é carioca, escritora, mestre em relações étnico-raciais pelo Cefet/RJ, pedagoga, professora da rede pública aposentada, contadora de histórias e consultora em letramento racial em escolas da rede privada do Rio de Janeiro. Possui trinta anos de carreira como escritora e mais de cinquenta títulos publicados. Muitos de seus livros receberam o selo de “Altamente Recomendado” da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil). Alguns de seus títulos integram a série Livros animados: a cor da cultura, do canal Futura. Sonia Rosa também tem doze bibliotecas escolares batizadas com seu nome ↩︎


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