Socialismo após a IA 

Cartão de Jean-Marc Côté (c. 1900) imaginando o ano 2000.. Imagem: Public Domain Review

Por Evgeny Morozov

A Inteligência Artificial produziu um tipo raro de curiosidade popular. Não apenas entre investidores e fundadores, mas também entre pessoas que abrem o navegador, digitam uma questão, e sentem – mesmo que de maneira imprecisa – que algo do outro lado está pensando com elas. Essa fenomenologia importa. Qualquer que seja nossos pensamentos sobre hype, alucinação ou a tabela de capitalização da Open AI, a IA surge como uma tecnologia cujos usos são descobertos após a implantação, cujos limites são porosos e cujos efeitos colaterais aparecem em lugares para os quais ninguém os projetou. “Generativa” não é apenas uma palavra de marketing; ela nomeia uma instabilidade genuína. 

Para os socialistas, essa instabilidade coloca um desafio específico. E seus reflexos são familiares: regular as plataformas, tributar ganhos excepcionais (windfalls), nacionalizar as empresas líderes, integrar seus modelos a um aparato de planejamento. Mas, se o socialismo pretende ser mais do que o capitalismo com painéis de controle mais bonitos – se ele é realmente um projeto de refazer coletivamente a vida material e não apenas de redistribuir seus resultados – ele precisa responder a uma questão mais difícil: pode ele oferecer uma maneira melhor de viver com essa tecnologia do que o capitalismo oferece? Pode ele proporcionar uma forma distinta de vida que valha a pena ser desejada, em vez de apenas uma parcela mais justa daquilo que o capital já produziu? 

Uma vez que se coloca o problema desta forma, algo embaraçoso aparece. Para uma tradição obcecada em maximizar as forças produtivas, o socialismo tem sido notavelmente rápido em isolar algumas delas da política. Ele trata a tecnologia como um kit neutro a ser inserido em instituições melhores, uma vez que estas existam. Tome-se as ferrovias, as usinas nucleares ou os modelos de linguagem: se o capitalismo os utiliza mal, o socialismo promete, finalmente, direcioná-los para o bem comum. A questão real, no entanto, é se mesmo a mais ambiciosa teoria socialista recente escapa dessa limitação – ou se ela reproduz a neutralidade em um nível mais elevado de sofisticação. 

I. 

A proposta de Aaron Benanav para uma “economia multicriterial”, desenvolvida em dois longos1 ensaios na New Left Review, oferece um caso teste. Seu diagnóstico é que tanto o capitalismo quanto o socialismo de estado clássico são organizados em torno de uma otimização de “critério único”: o capitalismo em torno do lucro e o socialismo de estado em torno do produto bruto. Isso funcionou, de forma brutal, enquanto o aumento do PIB pôde servir como justificativa. Em uma era de estagnação, colapso ecológico e crise do cuidado, isso não funciona mais, pelo menos no Norte Global (infelizmente, as peculiaridades do Sul Global não figuram muito na análise de Benanav). 

Benanav deseja uma democracia econômica que leve a sério, desde o início, múltiplos objetivos incomensuráveis. Sustentabilidade ecológica, qualidade do trabalho, tempo livre e cuidado são tratados como bens distintos que não podem ser esmagados em um único índice. O equilíbrio entre eles é composto e recomposto por meio de escolhas políticas explícitas, em vez de ser descoberto por um mercado ou um algoritmo central. 

Para esse fim, ele propõe um sistema monetário duplo. Os indivíduos receberiam créditos não negociáveis para consumo pessoal e uma renda básica; empresas e órgãos públicos transacionariam em “pontos” que só poderiam ser usados para investimento e produção. O investimento não viria mais de lucros retidos, mas de “Conselhos de Investimento” governados democraticamente, que alocariam pontos entre projetos de acordo com múltiplos critérios. 

Nesse modelo, a coordenação é feita por conselhos setoriais e regionais de trabalhadores, consumidores, representantes comunitários e especialistas técnicos. Eles são auxiliados por uma “Matriz de Dados”, um sistema estatístico e de modelagem aberto e governado democraticamente que rastreia fluxos, mapeia limites ecológicos e sociais e torna visíveis as contrapartidas (trade-offs): Se descarbonizarmos em tal ritmo, construímos tantas casas e encurtamos a semana de trabalho em tanto, eis a consequência. Os mercados persistem, mas perdem sua lógica de lucro. As empresas não podem acumular lucros nem decidir a direção de longo prazo da economia; elas competem por desempenho com base em métricas escolhidas democraticamente e não por retornos para acionistas privados. “Associações Técnicas” organizam o trabalho, o treinamento e a competência especializada entre os setores. 

Benanav insiste que os valores não são fixos. Baseando-se no polímata austríaco Otto Neurath, no filósofo pragmatista americano John Dewey e em outros, ele argumenta que as prioridades evoluem através do conflito, da aprendizagem e da experiência. Os planos devem ser revisados, os critérios ajustados e as instituições reconstruídas à luz do que acontece. O socialismo, em sua figura, é inerentemente experimental. Ele chega a delinear um “Setor Livre” publicamente financiado para artistas, movimentos e associações explorarem novas formas de vida e valor, realimentando suas inovações de volta aos critérios oficiais. 

Como visão de instituições pós-capitalistas, isso é incomumente detalhado. Mas, repousa sobre uma suposição: a de que os fracassos históricos do socialismo foram fracassos de procedimento – pouquíssima democracia, um critério muito grosseiro.E se o problema for mais profundo? Ao introduzir uma tecnologia instável como a IA na arquitetura cuidadosamente desenhada por Benanav, surgem fissuras que nenhuma dose de procedimento democrático é capaz de vedar.

II. 

A dificuldade não reside em nenhum esquema específico; ela é estrutural. O pensamento socialista organizou-se em torno de uma série de dicotomias – forças produtivas x relações de produção, base x superestrutura, meios x fins – e, em cada caso, colocou a tecnologia no lado neutro e instrumental: com a esteira rolante, a usina nuclear, o modelo de linguagem. Sob o capitalismo, a classe errada direciona essa maquinaria para seus propósitos; sob o socialismo, a mesma maquinaria é redirecionada para objetivos melhores. 

Uma rica tradição crítica, grande parte dela em campos adjacentes ao socialismo, rejeita essa tese da neutralidade. Marcuse mostrou a tecnologia incorporando a dominação, não meramente servindo-a2. Harry Braverman (mencionado por Benanav) mostrou como a maquinaria taylorista desqualifica os trabalhadores por meio do projeto3. David Noble foi além, demonstrando que a própria automação não era tecnicamente determinada: quando múltiplos caminhos existiam, o capital escolhia sistematicamente aqueles que transferiam o conhecimento do chão de fábrica para a gerência, mesmo ao custo da eficiência.4 De outro ângulo, Cornelius Castoriadis argumentou que a tecnologia capitalista materializa um imaginário capitalista – expansão ilimitada, domínio racional, quantificação – e não pode ser simplesmente reaproveitada (pelo menos não até que um imaginário diferente esteja em vigor).5 Andrew Feenberg sintetizou vários desses insights ao descrever a tecnologia como “ambivalente”, suspensa entre trajetórias que a intervenção democrática pode alterar.6

Porém, esses insights quase inevitavelmente se concretizam como teorias de reestruturação do local de trabalho ou de procedimento democrático – como reorganizar o trabalho, como abrir decisões técnicas à participação. Eles raramente convertem a imaginação macroinstitucional – que poderia fundamentar o socialismo como alternativa sistêmica e em larga escala ao capitalismo – em algo efetivo, permanecendo, em vez disso, no plano meliorista e processual. Quando socialistas projetam economias inteiras, a tecnologia se reverte em hardware que uma classe diferente usará melhor. Benanav, apesar de toda a sua sofisticação, trabalha dentro deste modelo: o “Demos” e os Conselhos de Investimento determinam critérios; empresas e Associações Técnicas os implementam; as tecnologias são instrumentos. 

A IA não se encaixa bem neste modelo. Ela torna mais difícil escapar impune do adiamento da “questão sobre a tecnologia”– para usar a frase de Heidegger num registro que ele não teria reconhecido. Um grande modelo de linguagem (LLM), treinado em texto raspado a baixo custo, ajustado para plausibilidade fluente e monetizado através de acesso medido, não é simplesmente estatística em escala. Ele é a expressão material de um mundo particular: prazos de capital de risco, mercados de publicidade, extração de dados, arbitragem de propriedade intelectual. A interface conversacional que faz o modelo parecer um interlocutor em vez de uma biblioteca foi uma decisão de produto projetada para encorajar formas específicas de uso e de apego. As camadas de segurança codificam um sentido particular do que é dizível, educado ou arriscado. 

Um sistema como esse não responde simplesmente às relações sociais existentes; ele as cristaliza e as realimenta, apresentando-as como senso comum. Mesmo a definição predominante de IA – como modelos fechados e de propósito geral em centros de dados distantes, acessados através de chat – condensa uma série de escolhas capitalistas sobre escala, propriedade, opacidade e dependência do usuário. 

Agora imagine um futuro em que um Conselho de Investimento multicriterial, sob pressão para evitar viés e desinformação, determine que os sistemas de IA sejam justos de acordo com métricas acordadas, respeitem a privacidade, minimizem o uso de energia e promovam o bem-estar. Chame isso de IA woke por mandato democrático – uma infraestrutura cujos resultados são corretos, diversos e equilibrados. No entanto, ela ainda parece ter sido projetada acima de nossas cabeças. Os ajustes canhestros de “equidade” nos geradores de imagem, que tentaram codificar artificialmente a diversidade, já nos deram uma amostra disso.7 Eles foram ridicularizados não porque a diversidade seja um mau objetivo, mas porque apareceram como um parâmetro estático a ser satisfeito, em vez de uma transformação emergindo de uma prática social alterada. Uma IA multicriterial governada por Conselhos de Investimento corre o risco de repetir esse padrão ao tratar valores como caixas de seleção a serem marcadas, em vez de significados elaborados no processo confuso de usar e remodelar as próprias ferramentas. 

É aqui que a evidente separação de Benanav entre uma economia que executa e esferas que decidem se torna custosa. Em seu esquema, os valores se originam fora da produção – na deliberação democrática ou no Setor Livre – e são então aplicados à tecnologia por meio de Conselhos de Investimento e órgãos de supervisão. Mas a IA expõe uma circularidade que nenhuma dose de procedimento democrático é capaz de resolver: os valores que usaríamos para governar esses sistemas estão eles próprios sendo formados por meio de nossos encontros com esses sistemas (sempre fluidos). Ninguém votou para tornar o bate-papo com robôs parte da vida cotidiana. Ninguém deliberou antecipadamente sobre o que isso significaria para a autoria, a pedagogia ou a intimidade quando as máquinas começaram a imitar a prosa humana. E os julgamentos sobre tudo isso estão sendo feitos agora – no interior de equipes de produto, nos termos de serviço e nas improvisações de milhões de usuários, e não em assembleias que poderiam, posteriormente, aplicá-los a uma tecnologia ainda por vir.

As soluções familiares não escapam deste círculo. Mais democracia no local de trabalho, mais avaliação participativa da tecnologia, mais conselhos de governança inclusivos – tudo isso pressupõe que já sabemos o que valorizamos e precisamos apenas de uma contribuição mais ampla sobre as contrapartidas (trade-offs). Porém, quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam, não há ponto de vista estável a partir do qual governar. Estamos perguntando: “Por quais critérios devemos moldar esta coisa?” mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural que qualquer socialismo sério sobre tecnologia terá que habitar, em vez de resolver. 

III. 

O modelo multicriterial de Benanav, com toda a sua pluralidade, ainda repousa sobre um único critério de ordem superior: o de que as decisões devem passar pelos procedimentos democráticos corretos. Subjacente a isso está uma imagem weberiana familiar da modernidade como um conjunto de esferas diferenciadas – a economia aqui, a ciência ali, a política em outro lugar – retocada por um pouco de Habermas, acrescentando que podemos coordenar entre elas por meio do discurso comunicativo. 

Os socialistas raramente questionaram essa imagem. Fredric Jameson, em seu celebrado relato sobre o pós-modernismo8, chegou perto. Escrevendo nos anos 1980, ele observou que o capitalismo tardio já havia desdiferenciado as esferas: a alta cultura e a baixa cultura se imiscuíram e a lógica da mercadoria saturou tudo, desde as exposições até a gastronomia molecular. Jameson passou décadas mapeando essa desdiferenciação através da cultura – cinema, literatura, arquitetura –, mas deixou a economia estranhamente intocada. No entanto, se o capitalismo tardio realmente embaralha as fronteiras entre os domínios – e de uma maneira que Jameson não desaprovava inteiramente – por que o planejamento socialista deveria operar como se essas fronteiras ainda se mantivessem? 

Para Jameson, o lúdico, a impureza e o pastiche estavam portoda parte – exceto na forma como os socialistas deveriam pensar sobre aquela dimensão nada trivial da vida (incluindo a tecnologia) que se situa para além da alta e da baixa cultura. Num ensaio de 1990,9 ele chegou a elogiar a “abordagem admiravelmente totalizante” do economista de Chicago Gary Becker,10 que trata todo comportamento humano como atividade econômica, e confessou compartilhar “virtualmente tudo” com os neoliberais – “exceto o essencial”. O que compartilhavam, argumentou, era a convicção de que a política é simplesmente “o cuidado e a alimentação do aparato econômico”; discordavam apenas sobre qual aparato. Para Jameson, isso transformava ambos os campos em aliados contra a vacuidade da filosofia política liberal. 

Mas essa simetria é uma projeção de Jameson. Ele imagina os neoliberais como administradores beckerianos e o mercado como um mecanismo de controle, “um policial destinado a manter Stalin longe dos portões”. O que nem ele, nem muitos de seus companheiros marxistas consideram, é uma política orientada para a descoberta da pluralidade de significados que as tecnologias, práticas e formas sociais podem atingir à medida que germinam, hibridizam e mutam – não apenas nos romances de Balzac ou nos edifícios de Koolhaas (terreno que a tradição jamesoniana explorou até a exaustão), mas no próprio curso da produção. Nesse quesito, como veremos, os neoliberais reais – do tipo do Vale do Silício, não do tipo de Chicago – são menos weberianos do que seus críticos marxistas. Eles não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers); eles se alimentam da contaminação cruzada de domínios e monetizam a impureza que Jameson só pode diagnosticar. 

Porém, e se a autorreflexão socialista começasse noutro lugar – nem restaurando esferas diferenciadas como Benanav, nem colapsando-as todas no reino econômico como Jameson, mas abandonando a premissa de que a política, o conhecimento especializado, a criatividade e a tecnologia alguma vez pertenceram a compartimentos distintos? 

Com a IA, tais separações são especialmente difíceis de defender. Essa tecnologia é simultaneamente uma ferramenta, um meio, uma forma cultural, um instrumento epistêmico e um local de formação de valor – muito como Raymond Williams certa vez descreveu a televisão11, mas com muito menos estabilidade. Não se pode encaixá-la numa única esfera e geri-la a partir do exterior. 

Assim, a questão se desloca. Em vez de perguntar “como coordenar melhor esse conjunto tecnológico sob múltiplos critérios democráticos?”, poderíamos perguntar: “que tipos de instituições tornam possível explorar, de forma sistemática, diferentes conjuntos tecnológicos e distintas formas de viver com eles?”. O problema deixa de ser a coordenação ótima e passa a ser a experimentação organizada.

Isso implica em ecologias de experimento, não em uma única Matriz de Dados alimentando um único conjunto de Conselhos de Investimento. Imagine, ao lado dos gigantes corporativos, uma densa camada de projetos municipais, cooperativos e baseados em movimentos sociais, cada um com suas próprias prioridades. Um governo municipal poderia manter modelos abertos treinados em documentos públicos e conhecimento local, integrados em escolas, clínicas e serviços de habitação sob regras definidas pelos residentes. Uma rede de artistas e arquivistas poderia construir modelos especializados em línguas ameaçadas e culturas regionais, ajustados para materiais com os quais suas comunidades realmente se importam. 

O ponto não é que estes exemplos sejam a resposta, mas que um socialismo digno da IA institucionalizaria a capacidade de tentar tais arranjos, habitá-los e modificá-los ou abandoná-los – e em escala, com recursos reais. Este tipo de socialismo trataria a IA como suficientemente plástica para acomodar usos, valores e formas sociais que emergem apenas à medida que é implantada. Veria a IA menos como um objeto a governar (ou com o qual governar) e mais como um campo de descoberta coletiva e autotransformação. 

Vista desta forma, a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados. Pessoas trabalhando com ferramentas particulares desenvolvem novas habilidades e sensibilidades, aprendendo que alguns usos parecem cuidado e outros vigilância, que algumas interfaces convidam à pedagogia e outras encorajam a trapaça – tudo isso enquanto reconsideram o que cuidado, vigilância, pedagogia e trapaça realmente significam. Esses julgamentos não podem ser produzidos antecipadamente por deliberação abstrata; eles emergem na prática. 

A arquitetura de Benanav aponta nessa direção ao enfatizar a evolução dos valores e ao financiar um Setor Livre de “criadores de valor”. Ainda assim, estruturalmente, pressupõe um fluxo unidirecional: o Demos e o Setor Livre definem as prioridades, que os Conselhos de Investimento e as instituições econômicas passam então a implementar. O que falta é uma explicação de como os valores emergem de dentro da própria produção e do próprio design – como, em torno de uma tecnologia como a IA, a distinção entre “economia funcional” e “criatividade livre” se torna porosa a ponto de colapsar. 

Gillian Rose, cujo trabalho inicial12 escavou como o pensamento pós-kantiano cindiu a “vida ética” de Hegel em dualismos sem vida – valores x fatos, normas x instituições – mais tarde nomeou este terreno como “o meio fragmentado” (“the broken middle”)13: a zona onde meios e fins, moralidade e legalidade são elaborados em contextos particulares em vez de aplicados a partir do exterior. O que ela chamou de “o meio santo” (”the holly middle”) era a fantasia de escapar dessa fragmentação para uma harmonia purificada, seja processual ou redentora. Em torno da IA, essa zona é politicamente decisiva. Tratar a tecnologia como uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior não é apenas ingênuo; cega-nos onde o poder agora se situa. 

IV. 

Neste ponto, surge uma preocupação legítima: qualquer alternativa a isso não implicaria apenas em caos? O socialismo não deveria nos libertar da agitação da inovação capitalista, com suas engenhocas e obsolescência programada? 

A resposta depende do tipo de impureza que abraçamos. Existe a violência tecnocrática da modernização de cima para baixo, que arrasa modos de vida existentes e chama os escombros de “progresso”. E existe o que o filósofo equatoriano-mexicano Bolívar Echeverría chama de ethos “barroco”14: aceitar que a modernidade veio para ficar, mas recusar-se a vivê-la na forma pura e higiênica que o capital prefere – distorcendo normas, obedecendo sem cumprir inteiramente, digerindo o código e cuspindo algo diferente. 

O capitalismo tem seu próprio barroco, claro. O empreendedor do Vale do Silício – diferentemente do administrador beckeriano que Jameson imaginou – cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo. Trata-se, porém, de um barroco a serviço da acumulação, a impureza sendo aproveitada para uma trajetória única. 

O argumento de Echeverría é mais profundo. É central em sua argumentação uma releitura de uma ideia marxista fundamental: o valor de uso. Cada tecnologia, ele insiste, contém uma infinidade de atualizações possíveis – as trajetórias plurais que poderia seguir, as várias formas de vida que poderia permitir. O capitalismo não elimina essa pluralidade; ele a re-funcionaliza, orientando o desenvolvimento para o caminho singular da valorização. As possibilidades suprimidas não desaparecem; elas persistem como potenciais latentes, disponíveis para redescoberta sob diferentes condições sociais. 

Aplicado à IA, isso significa que a tarefa não é simplesmente regular ou redistribuir tecnologias cuja forma básica é tomada como dada, mas explorar as trajetórias que o desenvolvimento capitalista bloqueou. O que os modelos de linguagem poderiam se tornar se não fossem projetados em torno de imperativos de monetização e de gestão de risco corporativo? Que formas de criatividade, memória ou colaboração poderiam permitir se os dados de treinamento fossem selecionados por comunidades em vez de raspados em escala, e se as interfaces convidassem à investigação em vez do apego? Não podemos saber de antemão. A estratégia barroca consiste em tratar cada encontro com esses sistemas como um teste para saber se outras atualizações permanecem possíveis. Tentar, falhar e tentar novamente. 

O arcabouço de Benanav puxa na direção oposta. Seguindo Robert Brenner,15 ele trata o dinamismo capitalista como real – empresas inovando por meio da competição e o mercado funcionando como um genuíno processo de descoberta. Porém, isso interpreta mal as fontes do poder do capitalismo. Tomemos o Google: sua ascensão é inseparável do controle americano sobre a infraestrutura de comunicações, do projeto político de liberalização da internet e de uma ordem de segurança que roteou o tráfego global por meio de sistemas dos EUA. A inovação capitalista está entrelaçada com o poder estatal, as hierarquias imperiais e a engenharia jurídica. Confundir isso com descoberta espontânea de mercado corre o risco de preservar, no socialismo, aquilo que jamais foi o verdadeiro motor da mudança técnica no capitalismo. 

Benanav espera que a composição multicriterial – a re-ponderação contínua de eficiência, ecologia, cuidado e tempo livre – gere o tipo de capacidade de resposta dinâmica que faltava às formas mais antigas de socialismo. Essa capacidade de resposta, no entanto, corre o risco de ser administrativa em vez de criativa: ela dirige (democraticamente) em vez de inventar. E aqui surge um problema mais profundo. Benanav oferece o socialismo como resposta a uma pergunta que o capitalismo nunca coloca: como devemos equilibrar democraticamente valores concorrentes? Porém, ele nunca responde à pergunta que o capitalismo realmente coloca: de onde, para além dos auditórios e das salas de concerto, vem a criatividade? O que impulsiona a contaminação cruzada de domínios, a invenção de novos desejos e capacidades, e a fusão da imaginação com a matéria? Qualquer um que tenha ouvido Steve Jobs, Peter Thiel ou Elon Musk sabe que o neoliberalismo não é a administração beckeriana de um aparato de mercado que Jameson imaginou. É um projeto de criação de mundo (worldmaking). E seu discurso é claro: o mercado é o veículo por meio do qual as capacidades humanas são ampliadas, à medida que os consumidores descobrem novos gostos e os empreendedores constroem novos mundos. 

Se o socialismo quer responder ao capitalismo em seu próprio terreno, precisa de um veículo rival de criação de mundo – não simplesmente a administração democratizada de uma economia cuja criatividade se produz noutro lugar. É aqui que a IA importa. A aposta de uma sociedade socialista de IA seria que as funções generativas que os neoliberais atribuem ao mercado – experimentação, descoberta, o poder de fazer mundos a partir de ideias – podem passar a operar por um meio diferente. Chame isso de barroco socialista: sistemas de IA governados coletivamente, incorporados em locais de trabalho, escolas, clínicas e cooperativas que permitem a mesma criação de mundos que o empreendedor reivindica para o capital, mas sem o imperativo de acumulação que distorce e obstrui os caminhos não percorridos. 

O imperativo impulsionador não seria o “crescimento” medido como cada vez mais mercadorias, mas a ampliação do que as pessoas são realmente capazes de fazer e ser, individual e coletivamente. 

Nessa perspectiva, a IA seria avaliada pela medida em que – e para quem – consegue ampliar novos espaços de competência, compreensão e cooperação. Uma ferramenta que permita a professores e alunos que trabalhem em seus próprios dialetos, interroguem a história a partir de seus pontos de vista e que compartilhem e refinem o conhecimento local, teria uma pontuação elevada. Uma que uniformiza as pessoas em consumidores passivos de porcaria autogerada ou concentra o poder interpretativo num punhado de sacerdotes da aprendizagem automática, teria uma pontuação baixa, qualquer que fosse a sua eficiência. 

Se um socialismo orientado à expansão de capacidades –  voltado à maximização das forças criativas, e não apenas das produtivas –  é possível, permanece uma questão em aberto. O que importa, aqui, é que arcabouços como o de Benanav mal nos permitem sequer formulá-la. Eles têm regras detalhadas para equilibrar critérios uma vez estabelecidos, mas dizem muito menos sobre de onde esses critérios vêm, como mudam e de que modo a própria tecnologia participa de seu surgimento. Mesmo quando reconhecem que as necessidades são historicamente moldadas, esquecem-se de que as capacidades também o são. 

V. 

A IA importa menos por ser a tecnologia mais importante, ou um caminho garantido para a emancipação ou para o desastre, do que por expor falhas no pensamento socialista que eram mais fáceis de ignorar quando o paradigma era a máquina a vapor ou a linha de montagem. Essas máquinas mais antigas podiam, pelo menos, ser descritas, por mais incorretamente que fosse, como ferramentas relativamente estáveis cujos usos eram em grande parte fixados no momento do projeto. Com a IA, a própria ferramenta continua mudando – e bem diante de nós. Seus usos são descobertos na prática. Seus limites se confundem com a cultura, a mídia, a cognição, o afeto. Sob essas condições, um socialismo que trata a tecnologia como um roteiro acabado e a política como a arte de dirigi-lo chegará sempre tarde demais. 

Um socialismo digno da IA não pode refugiar-se numa clara divisão de trabalho em que a política decide e a tecnologia fornece. Tem que reconhecer a tecnologia como um local primário de autoformação coletiva. O objetivo não é abandonar a composição democrática de critérios, nem romantizar o caos. É construir instituições que tratem a existência coletiva como um campo de luta e experimento – onde novos valores, novas habilidades e novas formas de vida estão constantemente tomando forma. 

Isso significa aceitar a impureza não apenas como um princípio de design, mas como uma condição existencial. Em vez de imaginar uma economia perfeitamente funcional suplementada por um Setor Livre isolado, precisamos de arranjos porosos nos quais os experimentos circulem entre as esferas, ora colidindo com as métricas oficiais, ora reconstruindo-as. As instituições não apenas equilibrariam critérios; elas deixariam espaço para projetos indisciplinados que ainda não se encaixam em qualquer métrica reconhecida e que talvez nunca venham a se encaixar. 

A questão não resolvida, então, não é se o socialismo pode socializar a IA mantendo sua maquinaria subjacente intacta. É se o socialismo pode se tornar um projeto de criação de mundos (worldmaking) – preocupado não apenas com quem possui as máquinas, mas com o que elas permitem que as pessoas façam e se tornem. Um socialismo que meramente redistribui os frutos das tecnologias capitalistas estará sempre perseguindo um mundo feito noutro lugar. Um que leve a sério o poder estranhamente generativo, mas instável, da IA, pode ajudar a fazer um mundo diferente – e um povo diferente – desde o início. 

Publicado originalmente em: https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/. Traduzido por Manoel Dourado Bastos.

Agradecemos ao autor, bem como a Leonard Benardo, editor do site The Ideias Letter, pela permissão da publicação.

Notas

  1. BENANAV, Aaron. Beyond Capitalism – 1. New Left Review. n° 153, mai.-jun. 2025 e
    https://newleftreview.org/issues/ii153/articles/aaron-benanav-beyond-capitalism-1
    BENANAV, Aaron. Beyond Capitalism – 2. New Left Review. n° 154, jul.-ago. 2025. https://newleftreview.org/issues/ii154/articles/aaron-benanav-beyond-capitalism-2
    ↩︎
  2. MARCUSE, Herbert. Algumas implicações sociais da tecnologia moderna. In: MARCUSE, Herbert. Tecnologia, guerra e fascismo. São Paulo: Unesp, 1999. ↩︎
  3. BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista. 3a. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. ↩︎
  4. NOBLE, David. Forces of production: A social history of industrial automation. Abingdon: Routledge, 2017.  ↩︎
  5. CASTORIADIS, Cornelius. As encruzilhadas do labirinto: vol. I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008. ↩︎
  6. FEENBERG, Andrew. Questioning technology. Abingdon: Routledge, 1999. ↩︎
  7. https://www.aljazeera.com/news/2024/3/9/why-google-gemini-wont-show-you-white-people ↩︎
  8. JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1997. ↩︎
  9.  JAMESON, Fredric. O pós-modernismo e o mercado. In: ZIZEK, Slavoj (org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.  ↩︎
  10. https://www.britannica.com/money/Gary-Becker ↩︎
  11. WILLIAMS, Raymond. Televisão: tecnologia e forma cultural. São Paulo/Belo Horizonte: Boitempo; Ed. PUC Minas, 2016. 
    https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/televisao-152344?srsltid=AfmBOop8ewLpFPH-f_y_Khy1JNec8CNsr7pQFJ0ocnyDkR-5cwiwg7gJ  ↩︎
  12. ROSE, Gillian. Hegel Contra Sociology. Londres: Verso Books,  2000. ↩︎
  13. ROSE, Gillian. The broken middle: Out of our ancient society. Cambridge (EUA): Brackwell, 1992. ↩︎
  14. https://lareviewofbooks.org/article/modernity-and-its-discontents-bolivar-echeverria-and-the-utopia-of-the-baroque/ ↩︎
  15.  BRENNER, R. The Origins of Capitalist Development: A Critique of Neo-Smithian Marxism. New Left Review, n. 104, p. 25-92, 1977. https://newleftreview.org/issues/i104/articles/robert-brenner-the-origins-of-capitalist-development-a-critique-of-neo-smithian-marxism  ↩︎

*** Evgeny Morozov é o fundador e editor do The Syllabus. É autor de The Net Delusion e To Save Everything, Click Here.


Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).


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