Sobre ver no escuro, ou o que Cuba precisa de nós

Imagem: Wikimedia Commons
Por Rafael Domingos Oliveira
Quando o trem de pouso do avião da Copa Airlines tocou a pista do aeroporto internacional José Martí, em Havana, eu mantinha os olhos fechados. Estava concentrado naquela sensação inaugural, o primeiro contato com terras cubanas, para mim, simultaneamente um sonho e uma necessidade. Há pouco mais de um mês resido em Havana, onde permanecerei até julho de 2026 desenvolvendo parte da minha pesquisa de doutorado sobre a circulação do pensamento antiescravista no Caribe oitocentista. A consulta aos arquivos e instituições de pesquisa cubanas configura-se, portanto, como etapa incontornável da investigação. O sonho, contudo, sobrepunha-se à necessidade: a história singular de Cuba, as conquistas da Revolução, a solidez dos sistemas públicos de saúde e educação, os Comitês de Defesa da Revolução, o Malecón, Habana Vieja, o son cubano, a presença afro-cubana na vida política e cultural… todo esse repertório alimenta o imaginário de jovens de esquerda como eu. Ainda assim, nada me preparara para o que encontraria.
Desde o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa Cilia Flores, em janeiro de 2026, os Estados Unidos intensificaram drasticamente os ataques permanentes contra Cuba, impedindo que petróleo de qualquer origem chegasse à ilha. Um estrangulamento energético já estava em curso antes mesmo da minha chegada, e uma sucessão de apagões já havia se repetido (o último, em 16 de março, deixou mais de 10 milhões de pessoas no escuro). Sem dúvida, ter ciência desse cenário é uma coisa; testemunhá-lo e vivê-lo é algo inteiramente distinto. O cotidiano dos cubanos encontra-se integralmente marcado pela crise energética promovida pelo governo estadunidense e pelo bloqueio, que perdura há mais de seis décadas.
À primeira vista, o transporte parece o setor mais duramente atingido. Há tempos a mobilidade urbana em Cuba, particularmente em Havana, padece de ineficiência crônica. Nos últimos meses, contudo, observa-se uma deterioração substancial, com o quase desaparecimento das guagas (ônibus público), o aumento de demanda das gacelas (vans) e o encarecimento generalizado de todas as outras modalidades de transporte (como as máquinas e aplicativos), decorrente do acesso cada vez mais restrito aos combustíveis. Esse quadro afeta também outros serviços: trabalhadores encerram expedientes mais cedo, adotam regimes de turnos e enfrentam longas esperas nas vias públicas para conseguir regressar ao lar.
Todavia, o transporte constitui apenas a ponta do iceberg. A escassez de combustível impede que alimentos e insumos médicos cheguem a todas as regiões do país, incluindo a distribuição de água potável, impactando sobremaneira as cidades e pueblos de outras províncias. Muitas dessas localidades dispõem de energia elétrica apenas por duas ou três horas diárias. Alimentos perecíveis perdem-se com frequência devido à falta de refrigeração adequada. Hospitais, escolas e universidades sofrem duramente as consequências – embora, nesses casos, haja um esforço nacional para manter os serviços em funcionamento. Recorre-se a plantas geradoras de energia e a toda sorte de estratégias para minimizar os danos possíveis, como o TransMed, transporte criado especificamente para garantir que as equipes médicas cheguem aos centros de saúde. Ainda assim, a carência de insumos, especialmente medicamentos, é determinante. Sem as condições apropriadas, o muito que essas equipes realizam – com dedicação e compromisso admiráveis – acaba por mostrar-se insuficiente.
O acúmulo de resíduos sólidos nas vias públicas, decorrente da falta de combustível para os caminhões de coleta, acarreta impactos sanitários tremendos, com a proliferação de doenças e arboviroses como dengue e chikungunya, sobrecarregando ainda mais o já debilitado sistema de saúde. Dados do Ministério da Saúde Pública de Cuba indicam que, apenas em 2024, foram notificados mais de 45 mil casos de dengue na ilha, com incidência particularmente elevada nas províncias orientais. A situação agravou-se nos primeiros meses de 2025, com surtos simultâneos em Havana, Santiago de Cuba e Camagüey, exigindo a mobilização de brigadas sanitárias e campanhas de fumigação que esbarram justamente na escassez de combustível e insumos. Em 2026, devido ao atual estrangulamento energético, a situação está ainda mais grave, embora seja ainda muito difícil saber o quanto.
Já as universidades operam em regime híbrido, combinando atividades presenciais e aulas remotas. Apesar do esforço hercúleo das equipes técnico-administrativas e do corpo docente, essa situação impacta negativamente os estudantes, uma vez que as atividades virtuais dependem de equipamentos eletrônicos alimentados por energia elétrica, cujo fornecimento é intermitente, além de conexão à internet, notoriamente limitada e lenta. Devido a anos de sistemático bloqueio, aproximadamente 28,7% da população cubana permanece offline, segundo o relatório Digital 2025 da Datareportal e a velocidade média de download no país é de cerca de 3 Mbps, uma das mais baixas do mundo. Estudantes relatam dificuldades para acompanhar aulas, acessar materiais bibliográficos e entregar trabalhos nos prazos estipulados, o que pode contribuir para a evasão em diversos cursos superiores.
Percebo que esse estado de coisas engendra nos cubanos dois tipos de reação, frequentemente simultâneas. De um lado, um cansaço profundo, um “ir vivendo um dia de cada vez”, postura necessária para sobreviver ao limite que já se incorporou à rotina. Essa atitude compreende, paradoxalmente, uma criatividade verdadeiramente impressionante na busca de soluções e estratégias inéditas para fazer a vida acontecer em meio à crise permanente. A segunda reação, embora presente em diferentes setores, manifesta-se com maior intensidade entre os mais jovens: trata-se do ódio ao regime castrista, da negação da Revolução e de suas conquistas e do desejo de mudança a qualquer custo. A qualquer custo, mesmo. Nesse aspecto, o bloqueio estadunidense tem alcançado parte de seus objetivos.
Desde que Lester D. Mallory, secretário de Estado Adjunto para Assuntos Interamericanos dos EUA, declarou em 1960 ser necessário “empreender todos os meios possíveis prontamente para enfraquecer a vida econômica de Cuba”, acrescentando que era preciso “negar dinheiro e suprimentos a Cuba, para diminuir os salários monetários e reais, provocar fome, desespero e a derrubada do governo”, deveria ser evidente para todos a responsabilidade estadunidense no subdesenvolvimento cubano e no impedimento à ampliação das conquistas revolucionárias. Após dezenas de tentativas de assassinato de Fidel Castro e sucessivos ataques terroristas contra o povo cubano, o memorando de Mallory finalmente materializou-se em 1962, com a oficialização do embargo: o mais longo já imposto a um país na história contemporânea.
Os dados comprovam o impacto devastador do bloqueio ao longo do tempo. Relatórios anuais apresentados à Assembleia Geral das Nações Unidas estimam que os prejuízos acumulados ultrapassam os 164 bilhões de dólares, considerando a depreciação da moeda estadunidense frente ao ouro no mercado internacional. A cada ano, o país deixa de arrecadar aproximadamente 5 bilhões de dólares com exportações, turismo e investimentos inviabilizados ou dificultados pelas restrições. O setor de saúde é particularmente afetado: durante a pandemia, respiradores e vacinas foram proibidos de chegar à ilha; entre abril de 2023 e fevereiro de 2024, o bloqueio impediu a aquisição de medicamentos, equipamentos e insumos no valor de 142 milhões de dólares, afetando o tratamento de doenças oncológicas, cardíacas e infecciosas. Especialistas e estudos, como os da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) apontam que, não fosse o embargo, o PIB cubano poderia ser significativamente maior, com alguns analistas mencionando a possibilidade de um crescimento adicional expressivo, embora seja difícil precisar um número exato. Com isso, é completamente possível dizer que Cuba foi (e é) subdesenvolvida pelos Estados Unidos, a exemplo da análise de Walter Rodney sobre como a Europa subdesenvolveu a África.
A cada ano, a Assembleia Geral da ONU aprova, por maioria esmagadora – com votos contrários apenas de EUA e Israel –, resoluções condenando o bloqueio, sistematicamente ignoradas pelo governo estadunidense, que impõe extraterritorialmente suas sanções, penalizando empresas e nações que ousam comerciar com Cuba. Apesar de todo esse contexto, a força do cotidiano mostra-se implacável. Para uma parcela crescente dos cubanos, os problemas que afligem a ilha são reflexos do “sistema”, palavra muito utilizada para designar a administração socialista. Em parte, isso ocorre porque o bloqueio, com o tempo, tornou-se algo “abstrato”: como a origem do problema não se apresenta concretamente no dia a dia, apenas os seus efeitos, acaba sendo mais fácil associar as dificuldades ao governo, constituído por pessoas com nome, sobrenome e um rosto que personifica tais adversidades.
Além disso, a presença massiva de turistas, convertida na principal fonte de divisas do país (embora cada vez mais prejudicada), alimenta nos jovens cubanos a ilusão de que o mundo exterior é necessariamente melhor. Os signos do consumo, ostentados por visitantes procedentes das mais diversas latitudes, passam a compor o imaginário desses jovens, que acreditam vislumbrar, através dessa janela efêmera, um fragmento autêntico da realidade extracubana. Ignoram, contudo, a pobreza e a miséria que assolam as vítimas do capital no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, realidades invisibilizadas pelo brilho superficial do turismo e pela maquinaria propagandística que vende o capitalismo como paraíso inalcançável.
Todavia, não se deve negar o peso das reformas malsucedidas, da percepção do caráter repressivo e da dificuldade do regime em conduzir mudanças necessárias, bem como em reconhecer erros, questões que, no entanto, não têm a dimensão que a mídia liberal lhes atribui e que exigem devida contextualização histórica. O fato, porém, é que as pessoas sentem essa realidade na pele, carregam nas costas o fardo de fazer a vida acontecer em meio a constantes adversidades. Estão cansadas e necessitam de mudança.
Ainda assim, penso que um governo não deveria ser avaliado e julgado a partir de critérios estabelecidos em meio a um embargo de décadas; ou seja, se o bloqueio não é fonte exclusiva de todos os problemas, tampouco se reduz a uma variável secundária que deva ser sublimada no exercício de avaliação da administração.
Ocorre que muitas pessoas, sobretudo os jovens cubanos, têm sido impelidas por esse contexto a enxergar a realidade de modo turvo. Este é precisamente o objetivo do bloqueio: não apenas deixar o país às escuras, interrompendo seu fornecimento energético, mas também minar sua energia política, criando uma espécie de escuridão metafórica que impede a percepção precisa do entorno e desestabiliza politicamente a nação. Uma estratégia deliberada de asfixia que opera em múltiplas dimensões, econômica, psicológica e simbólica, conduzindo parcelas significativas da população a interiorizar a ideia de que o problema reside exclusivamente no modelo socialista, obscurecendo o papel estrutural da agressão externa. Nessa penumbra induzida, as conquistas históricas da Revolução esmaecem na memória das novas gerações, enquanto as dificuldades imediatas ganham contornos hiperbólicos, alimentando discursos que responsabilizam o Estado cubano por condições cujas causas profundas remontam à política imperialista.
Essas contradições e outras são exploradas com mais profundidade em duas obras coletivas, cuja leitura considero fundamental: Cuba no século XXI: dilemas da revolução (2019), organizada por Fábio Luís Barbosa dos Santos, Joana Salém Vasconcelos e Fabiana Rita Desotti; e Entre a utopia e o cansaço: pensar Cuba na atualidade (2024), organizada por Aline Miglioli, Vanessa Oliveira e novamente por Fábio Luís. Ambos os livros, editados pela Elefante, trazem perspectivas de dezenas de pesquisadores, escritoras, militantes e pensadoras que fogem tanto da visão anticomunista que difama a Revolução, quanto da romantização de parte da esquerda.
O mais importante, necessário e fundamental agora, a meu ver, é continuarmos vendo, apesar do apagão imposto pelo Império. Mas o que significaria isso? O que tenho aprendido com os cubanos nesse sentido é jamais perder de vista a dimensão histórica, o processo que revolucionou a trajetória desse país e viabilizou conquistas inegáveis que, não obstante, encontram-se sob permanente ameaça. De minha parte, surpreendo-me diariamente com o altíssimo nível de instrução do povo cubano, com a solidez do princípio de que saúde e educação constituem direitos inalienáveis, e com a coragem demonstrada no enfrentamento ao ideário imperialista que busca corromper, a cada dia, a generosidade e a solidariedade, elementos basilares da cubanía. Essa tenacidade manifesta-se em gestos cotidianos: na vizinha que divide o pouco que tem, no professor que leciona sob luz precária, no médico que atende mesmo sem todos os insumos necessários, no jovem que estuda à luz de velas, nos comerciantes que reinventam diariamente o seu ganha pão. É uma resistência silenciosa e obstinada que, apesar do cansaço, recusa a derrota e afirma, nas pequenas coisas, a dignidade de um povo que aprendeu, historicamente, a sobreviver e a criar beleza nas condições mais adversas.
Para nós, que não somos cubanos nem vivemos em Cuba, ver no escuro significa recordar diariamente que o totalitarismo capitalista, produtor de morte, desigualdade, depressão, não é nem pode ser a saída para a ilha. Por isso, devemos fazer frente às manipulações das corporações midiáticas, defender a verdade histórica e desconstruir o mito do “conforto e bem-estar” capitalista, cuja falácia se evidencia na crescente precarização da vida nas sociedades ditas desenvolvidas. O capitalismo tardio, em sua fase neoliberal, tem demonstrado exaustivamente sua incapacidade de oferecer respostas às necessidades humanas fundamentais, subordinando a vida à lógica do lucro e aprofundando assimetrias sociais. As crises sanitária, climática e alimentar que assolam o planeta são expressões dessa racionalidade predatória que, sob o pretexto da liberdade individual, consagra a desigualdade estrutural. Defender Cuba, nesse sentido, é também afirmar a possibilidade de um outro mundo, fundado na cooperação e não na competição, na solidariedade e não no egoísmo.
Há um crime em curso há mais seis décadas. Um crime cometido por um país que, neste momento, realiza uma guerra ilegítima no Irã, patrocina um genocídio em Gaza e mantem um Chefe de Estado e sua esposa sequestrados. Apesar dos ataques incessantes, Cuba acumula conquistas fundamentais no campo dos valores emancipatórios, da solidariedade internacional e da dignidade. Para ser honesto, nenhum dos problemas que testemunho em Havana, por exemplo, são exclusivos da ilha. Isto é, as dificuldades cubanas encontram paralelos em todos os lugares do mundo, frequentemente em proporções muito mais graves e ampliadas do que em Cuba. Mas as coisas boas de Cuba só existem aqui. O que esta nação construiu possui uma beleza indescritível e única, em múltiplos sentidos: na preservação do patrimônio histórico, na excelência de seus centros de pesquisa, na pujança de sua produção artística, na resistência cotidiana de seu povo e no mais belo pôr-do-sol que já vi em toda a vida. Não podemos permitir que isso se perca. Em meio ao apagão provocado pelo imperialismo, devemos continuar vendo no escuro e apoiando nossos camaradas cubanos para que façam o mesmo. Recordar as palavras de Martí: “Para ir delante de los demás, se necesita ver más que ellos“.
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Rafael Domingos Oliveira é Historiador e educador, doutorando em História pela UNIFESP e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas das Afro-Américas (NEPAFRO). É autor de Vozes Afro-Atlânticas: autobiografias e memórias da escravidão e da liberdade (Elefante, 2022) e organizador de Gaza no coração: história, resistência e solidariedade na Palestina (Elefante, 2024) e Diários de Gaza, volume 1: a memória é uma casa indestrutível (Tabla, 2024). Atua nas áreas de história da escravidão e abolição nas Américas, história pública e memória palestina.
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