Escritas da diáspora: como acompanhar a destruição do Líbano à distância?

Imagem de um prédio que guarda marcas recentes de ataques e explosões no Dahieh. Arquivo pessoal, 2026.

Por Rima Awada e Ana Gebrim

Em um verão da infância, fiz uma viagem para o sul do Líbano para rever familiares. No turismo histórico clássico entre ruínas, paisagens e o mar, houve um passeio que, embora eu fosse pequena, me atravessou de um jeito que até hoje mistura o trágico e o absurdo: a visita à Prisão de Khiam que, depois da retirada israelense da região, se tornou um museu da tortura. A prisão de Khiam foi um dos símbolos mais brutais da ocupação israelense no sul do país. Ali funcionavam ao menos três centros de tortura. Libaneses da resistência ficavam presos por até quinze anos sem acusação formal, sem direito a julgamento e submetidos a torturas sistemáticas, como denunciaram posteriormente a Anistia Internacional e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. A prisão caiu em 2000. Eu tinha 9 anos quando entrei naquele lugar.

Antes de caminhar pelas celas, nos mostravam um filme contando a história da região. Me lembro especialmente do relato das mães que ouviam, dos vilarejos vizinhos, os gritos dos filhos ecoando pelos morros. A ideia de que o som da tortura atravessava a paisagem cotidiana me marcou de um jeito físico. Não era uma abstração política, era um som que podia ser ouvido na hora do almoço, na hora de dormir. Depois disso, podíamos visitar a prisão. Lembro também dos objetos preservados como estavam no dia da libertação: o último prato sobre a mesa, utensílios, marcas, instrumentos de tortura, escritas nas paredes. Havia algo de museu e algo de ferida aberta. Eu caminhava por ali tentando entender o que significava aquele espaço. Era verão. Eu era criança. E estava de férias.

Na diáspora, diante da iminência de destruição do mundo comum, o que temos para reunir são nossos fragmentos de memória. À distância, assistimos aos que perante a ordem sionista de evacuação da própria vida (da casa, do bairro, da cidade, do espaço, do mundo comum, de qualquer vida vivível), reúnem em pouco tempo alguns pertences, seus animais ou documentos imprescindíveis. O que levar consigo quando é preciso evacuar o próprio mundo? Na diáspora, o deslocamento é só interno, mas reunimos os pedaços de memória como o bem mais inseparável. Assistir a destruição do próprio mundo de longe é uma experiência dilacerante. 

Há dois meses, em Beirute, era possível ouvir em uníssono a frase: “sabemos que a guerra vai voltar”. E voltou. Para muitos, ela nunca cessou. Mas não desse jeito como nos últimos dias. Nunca parou em Gaza e sabíamos disso. Bezalel Smotrich, o Ministro das Finanças de Israel, em um vídeo, diz que Dahieh se tornará Khan Younis, a ameaça é de aniquilação total. Já fizeram uma vez e também muitas vezes ao longo de 78 anos, nunca houve responsabilização e o mundo nunca parou a entidade sionista em seu projeto de destruição do mundo comum.

O Dahieh, região sul de Beirute que teve ordem de evacuação total no dia 5 de março, condensa mais de meio milhão de pessoas em um espaço efervescente de encontros, vida cotidiana e reconstrução. Quase um quarto da população total da capital do Líbano vive ali. Entre ruínas, crateras e marcas de explosão das invasões e ataques israelenses, trata-se de uma região imensa que abarca tanto campos históricos de refugiados palestinos como Burj al Barajneh quanto partes mais abastadas de uma classe média em apartamentos confortáveis. No Dahieh, a vida comum pulsa no comércio e nas residências, nos prédios, feiras, restaurantes, escolas, mesquitas, igrejas, universidades, praças, clubes, academias, bibliotecas, centros culturais, lojas, marcenarias, cemitérios, padarias. Escrevo também para não esquecer cada rua ou lugar onde já passei. Diante da ideia de que tudo possa desaparecer, de longe, agarramos cada fragmento de memória como garantia de sobrevivência de um mundo não imperial. Também de longe, escrevemos para não enlouquecer à destruição desse mundo comum. É como se fosse preciso registrar cada perda, cada derrota, cada mártir, cada pedaço de terra roubada, cada casa demolida. 

Há alguns dias (ou seriam anos?) estamos sem poder respirar normalmente. O que mais pode vir pela frente? A cada dia, mais destruição. A violência imperial é Relentless, implacável. A máquina mortífera do poder colonial destrói vidas, paisagem e qualquer futuro. Vejo o terror nos olhos dos bichos que se delocam junto aos moradores: são mais de duas semanas dessa guerra e quantas décadas de colonização sionista? Não podemos perder a conta de tudo o que foi roubado. 

Também há dois meses, no Dahieh, em uma tarde, pude passar algum tempo em silêncio olhando para imensos buracos no chão. Qual a marca na paisagem que uma bomba israelense que derruba seis prédios de uma vez produz? Parada olhando para uma cratera como marca de memória, era possível ver entre os entulhos e fragmentos de ruína, também pedaços de roupa, tecidos, fragmentos de brinquedos, enfeites de casa e pedaços de madeira da explosão de seis prédios. Cada bomba imperialista que destrói a vida comum produz marcas indeléveis no solo, no ecossistema e em toda uma geração. As ruas do Dahieh são cobertas de fotos de mártires. As imagens dos rostos firmes e vivos de todos que foram mortos são a paisagem da vida cotidiana. Não se trata apenas do imperativo de não esquecer, é a vida comum na reconstrução que só se faz através das perdas. É porque foi perdido que é preciso ser reconstruído e isso se faz junto à memória dos mártires. O luto, nesse sentido, é precisamente a dimensão afetiva que orienta a ação de resistência e reconstrução.

Na manhã do dia 3 de janeiro de 2026, em um mercado gentrificado de uma área rica de Beirute, junto ao som de um drone israelense que sobrevoava nossas cabeças, paro para ver notícias no celular e fico sabendo do sequestro estadunidense de Nicolás Maduro e Cilia Flores na Venezuela. O que eu ainda não podia imaginar é que aquele fato criaria as condições de possibilidade para novos crimes que se sucederam em pouco tempo: a morte do governante iraniano Ali Khamenei e o alastramento de uma guerra de destruição total do mundo comum. 

Estados Unidos e Israel lançam bombas, multiplicam ataques aéreos e experimentam novas armas. Atiram, matam e espalham destruição. Devastam aldeias, matam animais, atingem mesquitas e igrejas, profanam o mundo sagrado. Da diáspora, acompanhamos cada ofensiva com o coração aflito, guardando com cuidado as fotos de nossos jidos e sitos. Em meio às conversas saudosas, às vezes a ligação se perde por alguns instantes: é a hora de desligar a eletricidade. Ainda assim, entre interrupções e silêncios, as memórias continuam a circular, como uma forma de manter todos vivos e presentes.

Os drones zunem sobre as cabeças e, a cada duas horas, o porta-voz em árabe de Israel transmite novas ordens de deslocamento para as áreas que serão bombardeadas em seguida. É uma cena distópica. Tudo se deteriora tão rapidamente que mal conseguimos acompanhar, ao mesmo tempo, a escalada da guerra alastrada para toda a região. Autoridades israelenses afirmam ter avançado ainda mais no sul do Líbano para ampliar a chamada “zona tampão” que, na prática, não passa de uma ocupação com outro nome. Novas ordens de deslocamento são emitidas para dezenas de aldeias em toda a região sul, enquanto a ofensiva terrestre se expande. Estima-se que centenas de milhares de libaneses já tenham sido forçados a deixar suas casas.

O calçadão à beira-mar e o centro de Beirute estão tomados por famílias deslocadas, visivelmente exaustas. Os abrigos começam a lotar rapidamente. Entre malas improvisadas, crianças cansadas e rostos marcados pela incerteza, uma pergunta paira no ar: ninguém sabe quanto tempo isso vai durar. Mais uma vez, o Líbano em destruição. Os avisos de deslocamento que vêm sendo emitidos parecem ter um objetivo claro: esvaziar o sul de sua população, na expectativa de que esse afastamento se torne permanente. Na prática, trata-se de um processo de expulsão que abre caminho para a apropriação do território. Para analistas e observadores da região, essa tática de ataques e evacuação se insere no projeto mais amplo de expansão territorial associado à ideia da chamada “Grande Israel”, no qual a ocupação e o controle da terra tornam-se política central de expansão.

Para quem cresce entre relatos de guerra, deslocamento, resistência e reconstruções permanentes, a escuta nunca é neutra. Ela carrega uma espécie de responsabilidade do comum. Aprendemos cedo que todo sofrimento tem uma história, uma geografia, uma política e uma memória que precisa ser compreendida para que não se repita indiscriminadamente. A prisão de Khiam me ensinou, ainda criança, que a violência não desaparece simplesmente quando termina. Ela permanece nos ecos, nas paredes e nas narrativas de transmissão transgeracional. Cada rincão de espaço no Líbano, na Palestina e em toda a região do Levante carrega as cicatrizes de uma história de luta implacável contra a dominação imperial. Hoje, da diáspora, dispomos de nossas memórias como arma de resistência à aniquilação do mundo comum e como semente para as possibilidades de reconstrução. 

Brasil, Março de 2026

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Rima Awada é libanesa brasileira, psicóloga, escritora, e coordenadora da pós-graduação do curso de Psicologia e Migração da PUC MG.

Ana Gebrim é psicanalista, pesquisadora sobre deslocamentos humanos e regiões em conflito, de origem libanesa. 


Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil, de Arlene Clemesha
A chamada “questão judaica” esteve e está no centro da história contemporânea. Não é de se estranhar que o judaísmo tenha lançado ao marxismo os maiores desafios à sua capacidade explicativa e transformativa. Neste livro, a professora e historiadora Arlene Clemesha passa em revista as metamorfoses dessa controvertida trajetória, desde o ensaio Sobre a questão judaica, de Karl Marx, até o clássico trabalho de Abraham Léon, escrito em pleno desenvolvimento do Holocausto, que ceifaria a vida do seu autor. Republicado em um momento de extrema gravidade para o povo palestino e para o judaísmo mundial, submetido a uma crise de consciência sem precedentes na era contemporânea, o livro busca, nas palavras da autora, “resgatar a história que a vitória do movimento sionista buscou ocultar, quando, em meados da década de 1950, tentou ressignificar o sionismo como a realização da luta histórica do povo judeu, relegando outras correntes e outros movimentos, de fato majoritários até o entreguerras, a meras notas de rodapé da história judaica”.


Margem Esquerda | #43 abre com densa entrevista concedida pelo historiador palestino-americano Rashid Khalidi a Tariq Ali, artigos de Arlene ClemeshaSamah JabrTithi BhattacharyaBruno Huberman e Ilan Pappe, ensaio visual do artista plástico palestino Yazan Khalili e poema de Rafaat Alareer, assassinado em dezembro de 2023 por um bombardeio aéreo israelense. 


Caminhos divergentes, de Judith Butler
A partir das ideias de Edward Said e de posições filosóficas judaicas, Butler articula uma crítica do sionismo político e suas práticas de violência estatal ilegítima, nacionalismo e racismo patrocinado pelo Estado. Além de Said, reflete sobre o pensamento de Levinas, Arendt, Primo Levi, Buber, Benjamin e Mahmoud Darwish para articular uma nova ética política, que transcenda a judaicidade exclusiva e dê conta dos ideais de convivência democrática radical, considerando os direitos dos despossuídos e a necessidade de coabitação plural.

Ideologia e propaganda na educação, de Nurit Peled-Elhanan
A professora de linguagem da educação investiga os recursos visuais e verbais utilizados em livros didáticos de Israel para representar a população palestina. Mobilizando o arcabouço teórico e metodológico da análise crítica do discurso e da análise multimodal, Nurit Peled-Elhanan detalhada os mecanismos pelos quais esses materiais escolares moldam um imaginário de marginalização: o discurso aparentemente científico e neutro é, em realidade, carregado de signos de violência, desprezo e intolerância que oculta a população palestina.

Cultura e política, de Edward W. Said
Edward Said imprime uma visão universalista em suas análises sobre a questão palestina, inserindo-a no conjunto das grandes lutas pelo reconhecimento de todos os povos a afirmar sua identidade e ter sua expressão política. Sua obra denuncia o racismo ocidentalista, que tenta se legitimar como visão hegemônica do mundo, opõe-se à criminalização da luta do povo palestino e de todos aqueles considerados fora dos padrões da chamada civilização ocidental.

A liberdade é uma luta constante, de Angela Davis
Esta ampla seleção de artigos traz reflexões sobre como as lutas históricas do movimento negro e do feminismo negro nos Estados Unidos e a luta contra o apartheid na África do Sul se relacionam com os movimentos atuais pelo abolicionismo prisional e com a luta anticolonial na Palestina. A obra da intelectual e ativista Angela Davis ensina também a pensar a nossa luta em relação a todos os “condenados da terra”, como escreveu Frantz Fanon.



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