O papel da biblioteca escolar na formação de crianças e jovens

Biblioteca do Colégio Santa Cruz. Imagem: divulgação

Por Thais Caramico

O início do ano letivo costuma reorganizar a escola. É nesse momento de planejamento, quando as rotinas ainda estão sendo construídas, que algumas perguntas fundamentais podem reaparecer com mais nitidez – entre elas, a de que papel a biblioteca escolar ocupa na formação de crianças e jovens. Falar de biblioteca na volta às aulas é falar de estrutura, do modo como a escola escolhe ler o mundo, organizar seus saberes e criar espaços de encontro com a leitura, a escrita e a cultura.

Discutir a biblioteca escolar, portanto, é discutir escolhas que atravessam muito mais que a definição de um acervo. Envolve pensar a organização do espaço, os tempos destinados à leitura, os modos de mediação, os projetos que se desenvolvem ao longo do ano, os encontros planejados e as conversas que se sustentam no cotidiano. Cada uma dessas decisões carrega uma concepção de formação, ainda que nem sempre explicitada. Quando esse entendimento se consolida, a biblioteca passa a atuar como parte constitutiva do projeto pedagógico.

A biblioteca escolar pode ser compreendida como um espaço de pensamento em funcionamento, ou seja, um ambiente onde se aprende a ler textos, imagens, contextos e discursos, mas também onde a escolha é uma forma de aprendizagem e o encontro com a literatura, com a pesquisa e com a cultura digital se dá em diálogo com o mundo. Trata-se de reconhecer que leitura e escrita não são práticas isoladas nem neutras, mas experiências culturais que se constroem na relação entre sujeitos, textos e contextos. No Colégio Santa Cruz, essa compreensão orienta o trabalho da Biblioteca Padre Charbonneau e ajuda a entender por que ela se tornou um ambiente central na vida escolar dos diferentes segmentos, desde a educação infantil, até o ensino médio, incluindo a modalidade de educação de jovens e adultos.

Para Sandra Medrano, coordenadora da biblioteca do colégio, essa visão não surgiu de maneira imediata. Foi sendo construída ao longo do tempo, em diálogo com a equipe pedagógica e a comunidade escolar e a partir de muitas discussões internas. “Quando pensamos em uma biblioteca escolar, o primeiro passo é entender que ela é a biblioteca de uma determinada escola”, afirma. A frase desloca o olhar para o contexto institucional e para as responsabilidades formativas específicas que ele impõe. Não se trata de reproduzir modelos ou buscar soluções genéricas, mas de pensar a biblioteca em relação direta com o projeto educativo, com o público atendido e com a cultura escolar que se deseja construir.

Esse princípio orienta decisões diversas, especialmente na construção do acervo. No Santa Cruz, a política de acervo se organiza a partir de critérios consistentes, discutidos no âmbito coletivo. As compras de livros são realizadas a cada mês, com base em uma planilha alimentada pela equipe da biblioteca, incluindo sugestões de alunos e professores, sempre acompanhadas de justificativas. Essa planilha funciona como um instrumento de reflexão contínua, na qual entram lançamentos, reposições, demandas específicas de projetos e indicações que são avaliados à luz do percurso formativo que se deseja garantir.

As perguntas que atravessam esse trabalho não são deslocadas do projeto. “O que uma biblioteca escolar precisa garantir? O que uma biblioteca escolar de escola privada precisa garantir?”, provoca Sandra. No Santa Cruz, isso implica reconhecer que determinados livros, embora amplamente difundidos, não cumprem ali uma função formativa específica. Alguns porque já fazem parte do circuito de consumo habitual das famílias, outros porque não oferecem a experiência estética que a equipe considera central. A pergunta sobre o que faz diferença um aluno encontrar na biblioteca – algo que ele não teria sem uma mediação qualificada – sustenta escolhas que nem sempre são evidentes, mas que se apoiam nos critérios assumidos coletivamente.

A discussão sobre representatividade se insere nesse mesmo campo de responsabilidade. A presença de personagens, temáticas, autoras e autores negros e indígenas é acompanhada de forma sistemática nas listas de compra, e a equipe se compromete a reparar essas listas e buscar obras que aliem representatividade, qualidade literária e consistência estética. Esse trabalho envolve pesquisa, formação da equipe, ampliação de repertório e revisão permanente dos próprios critérios, reconhecendo que pensar a biblioteca é também submeter suas escolhas a um olhar crítico e atento, capaz de rever pressupostos e ampliar horizontes.

A organização do acervo expressa essa concepção pedagógica. A biblioteca mantém a classificação técnica padrão, mas organiza também o acervo para infâncias e para jovens por gêneros literários e temas, que dialogam com o currículo da escola. Há subdivisões específicas, como livro-imagem, poema, brincadeiras com palavras, mitos e lendas organizados por matrizes culturais, além do uso de cores que ajudam as crianças menores a se orientar e a ganhar autonomia na escolha e na localização dos livros. As estantes são abertas, pensadas para a circulação, para a descoberta e para o encontro inesperado com livros, entendendo que o acaso também é parte da formação leitora.

O acervo, no entanto, só se realiza plenamente no encontro com os leitores, o que faz da mediação um eixo central do trabalho da biblioteca. No Colégio Santa Cruz, as aulas na biblioteca integram o currículo da educação infantil e do ensino fundamental 1, com aulas semanais com a professora da biblioteca e as professoras de sala. Cada encontro é pensado como parte de um percurso contínuo, o que exige clareza de intenção e escolhas cuidadosas desde a educação infantil, evitando que a leitura se torne um gesto automático ou meramente funcional.

Esse currículo da biblioteca se estrutura a partir de propostas de trabalho bem definidas: a leitura em voz alta feita pela professora, a roda de compartilhamento do que as crianças leram, o comentário sobre a leitura do colega, a preparação para leituras em voz alta para outras turmas, o empréstimo entendido como prática formativa (em que os critérios de escolha vão sendo refinados ao longo do tempo para ampliação do repertório) e a leitura compartilhada, quando todos têm acesso ao mesmo livro em mãos. Essas frentes não existem para capturar leitores, mas para produzir sentido, criando condições para que a leitura se estabeleça como prática social, relacional e significativa.

O percurso leitor é pensado como um conjunto de experiências que se articulam ao longo dos anos. Livro-álbum, poemas, narrativas mais longas e leituras compartilhadas aparecem em intensidades diferentes ao longo das séries, de forma intencional. O trabalho se assemelha a um quebra-cabeça que exige imaginar a trajetória de uma criança ao longo de sua vida escolar, considerando o que já foi oferecido e o que ainda precisa aparecer para que o repertório se amplie de forma consistente e plural.

Nesse processo, a mediação envolve escuta atenta, planejamento e reflexão contínua sobre a própria prática. Hoje, a mediação de leitura vem sendo cada vez mais debatida, entendida como um espaço de revisão e aprendizagem também para os adultos, em que o planejamento busca equilibrar as chaves de leitura necessárias com a abertura para o que as crianças trazem da conversa que se estabelece de leitor para leitor nas aulas da biblioteca. Esse cuidado se desdobra em práticas concretas: as minirrodas dividem a turma em grupos menores, garantindo que todas as crianças tenham espaço de fala; há acompanhamento individual de leitores, registros sistemáticos feitos pelas professoras da biblioteca e observação atenta de escolhas recorrentes, silêncios e deslocamentos. É um trabalho sustenta a biblioteca como espaço de escuta e reflexão, onde a prática pedagógica é constantemente observada e ajustada.

A biblioteca também se articula de maneira constante com o trabalho desenvolvido em sala de aula e em outros núcleos da escola. Projetos interdisciplinares, sequências de escrita, estudos do meio e pesquisas fazem parte desse diálogo. Na pesquisa, em especial, a biblioteca atua em parceria com o Núcleo de Educação Digital, colocando em relação o impresso e o digital. As crianças aprendem a buscar informações em livros de referência, a compreender a lógica do acervo físico e, ao mesmo tempo, a desenvolver critérios de confiabilidade e leitura crítica em ambientes digitais, ampliando sua relação com o conhecimento.

Outro eixo estruturante é a construção da comunidade leitora. A biblioteca organiza encontros com autores, noites literárias abertas à comunidade, estantes de novidades, estantes temáticas que se renovam ao longo do ano e exposições que tornam públicas as produções dos alunos. Há também iniciativas de registro e circulação de leituras, como marcadores com QR codes e conteúdos produzidos por leitores da comunidade, reforçando a biblioteca como espaço de circulação cultural e social.

Mas se engana quem pensa que esse trabalho está livre de tensões. A partir da compreensão de que toda escolha implica responsabilidade, a biblioteca construiu critérios claros para análise de livros, formulários para acolher questionamentos de famílias e cartas-modelo para as devolutivas. Alguns livros considerados datados ou sensíveis permanecem no acervo com mediação orientada; outros ganham textos explicativos, contextos históricos ou sugestões de leitura crítica. A biblioteca não se coloca fora do conflito nem o simplifica, mas assume isso como parte do trabalho educativo e da formação de leitores capazes de lidar com a complexidade do mundo.

Ao acompanhar de perto o trabalho da Biblioteca Padre Charbonneau, por meio da escuta atenta de Sandra Medrano, fica evidente que uma biblioteca escolar se constrói no entrelaçamento entre critérios, práticas, formação de equipe, mediação cotidiana e disposição para revisar continuamente o próprio fazer. É assim que a leitura deixa de ser apenas incentivada e passa a ser pensada, acompanhada e compartilhada como experiência formativa e prática social. No início de um ano letivo, convidamos todos os educadores a recolocar a biblioteca no centro do projeto educativo não como espaço silencioso ou neutro, mas como território de decisões, escuta e responsabilidade pedagógica. Um espaço que promove o estudo em grupo ou individual. Um ambiente que convida, acolhe e favorece descobertas. Um lugar onde se aprende a ler livros, contextos e conflitos, e onde a escola pode tornar visível, no cotidiano, a formação que escolhe sustentar.

Sandra Medrano é pedagoga, mestra em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em literatura para crianças e jovens pela Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente é coordenadora pedagógica da biblioteca do Colégio Santa Cruz e professora do curso de pós-graduação no Instituto Vera Cruz.

* Este texto foi originalmente publicado no boletim Papo para Boitatá. Assine e fique por dentro de todas as novidades da editora Boitatá, a irmãzinha mais nova da Boitempo.


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Thais Caramico é mãe, jornalista, especialista em livros para crianças e jovens pela Universidade Autônoma de Barcelona e mestra em Artes pela USP, onde pesquisou a relação entre literatura de infância e meio ambiente na perspectiva ecocrítica. É sócia-fundadora do Estúdio Voador, idealizadora da @bibliotecadefora e, desde 2025, integra a equipe da Boitatá como editora de educação. 


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