Lula, o petróleo e a transição ecológica

Imagem: Daniel Leite Lacerda (via Wikimedia Commons)
Por Laura Luedy
O ano de 2026 mostrou bem cedo a que veio. Mal tivemos tempo de começar a desistir de nossas resoluções de ano novo e já fomos obrigados a assistir, no dia três de janeiro, ao espetáculo da captura de nosso vizinho Nicolás Maduro por forças do exército estadunidense. Não foi bem o desembaraço yankee em desrespeitar a soberania nacional alheia o que mais surpreendeu nessa ocasião, porém – já vimos muito disso nos últimos tempos, afinal, notavelmente no Afeganistão e no Iraque. O mais impressionante foi a tranquilidade com que seu chefe de Estado pôde desta vez relegar ao segundo plano tanto a conhecida retórica de salvaguarda de direitos e liberdades democráticas quanto sua mais recente fantasia original sobre ao narcoterrorismo e declarar abertamente sua motivação principal para intervir na Venezuela: o controle sobre as gigantescas reservas de petróleo e gás natural do país. Sem dúvida parte do que tornou possível esse lapso de sinceridade é a popularidade que o discurso de extrema direita tem garantido para si em tempos de hiperconectividade em ambientes digitais direcionados para auferir lucro a partir da intensidade do engajamento dos usuários. De todo modo, três semanas depois da operação de captura, os primeiros carregamentos de petróleo venezuelano oferecidos ao mercado mundial por comerciantes a pedido do governo Trump já partiram para a Europa.
Agora que corre a notícia de que outros recursos minerais são considerados centrais para a continuidade da acumulação capitalista nos termos desenhados pela Indústria 4.0, era de se esperar que a sanha pelo petróleo estivesse começando a arrefecer. Em seu último relatório, a Agência Internacional de Energia (AIE) aponta, no entanto, que não há sinais de que isso venha a acontecer qualquer momento antes da metade do século. Crescentes preocupações com segurança energética e a timidez das políticas climáticas até hoje adotadas estão entre os fatores que explicam esse cenário, o que nos sugere ser preciso prestar maior atenção a como nossas autoridades públicas têm encarado as possibilidades de desfazer a dependência estrutural que foi construída ao longo de todo o século XX com relação a tal recurso.
Tomemos por exemplo o discurso de nosso próprio presidente. Analisando as declarações feitas por Lula desde o início de seu presente mandato sobre, especificamente, o projeto de exploração de petróleo na margem equatorial do litoral brasileiro – e mais precisamente, na bacia da foz do rio Amazonas –, pude notar que, à medida que a realização da COP30 em Belém se aproximava, um novo tema começou a figurar nelas com maior frequência e destaque: a relação desse projeto com sua ideia de transição energética.
Ainda em meados de 2024, Lula já havia dito ser “amplamente favorável a que o mundo tenha uma transição energética muito poderosa que faça com que a gente possa abdicar do combustível fóssil”, apesar de acreditar que, no presente, “ainda não [se] pode prescindir do petróleo” (Lula, 23.07.2024 apud. Ansa Brasil, 2024).
Esse mesmo raciocínio seria recuperado por ele no começo de 2025 e passaria a servir de base para uma nova linha de argumentação em favor da exploração de petróleo e gás na foz do Amazonas. Em fevereiro, ao tanger o assunto durante uma entrevista, Lula comentaria:
“Vamos cumprir todos os ritos necessários para que a gente não cause estrago na natureza, mas a gente não pode saber que tem uma riqueza embaixo de nós e não explorar… Até porque é dessa riqueza que a gente vai ter dinheiro para construir a sonhada transição energética” (Lula, 12.02.2025 apud. Canal do YouTube Lula, transcrição e grifos nossos).
A abertura de uma nova frente de exploração de reservas de petróleo e gás natural não entraria, portanto, em contradição, a seu ver, com o compromisso com o projeto de descarbonização da economia. Longe disso: ela seria quase que uma condição para sua realização.
Essa ideia foi reiterada algumas vezes por Lula ao longo do ano passado. Ela reapareceu, por exemplo, na seguinte declaração dada seis dias antes da abertura da COP30:
“Não quero ser líder ambiental, nunca reivindiquei isso. (…) Temos autorização para fazer teste [para exploração na região]. Se [a gente] encontrar petróleo vai ter que ter nova licença. (…) Quero fazer o que os especialistas do meu governo e minha consciência dizem o que tenho que fazer. (…) Se eu fosse um líder falso e mentiroso, eu esperaria passar a COP para anunciar. Mas se eu fizesse isso, estaria sendo pequeno diante da importância do que significa você fazer o teste na Margem Equatorial. Se tiver que explorar, vamos fazer [isso] da forma mais cuidadosa que alguém pode fazer. (…) Tem gente que acha que não devemos explorar petróleo em lugar nenhum sem apresentar alternativa. Isso sim é incoerente. Todo mundo sabe que um dia o petróleo vai acabar. (…) [Mas] ninguém no mundo consegue sobreviver sem isso, combustível fóssil. Poderemos ser o primeiro que qualquer país do mundo a abrir mão disso. Mas como chefe de Estado, temos que ter responsabilidade” (Lula 04.11.2025 apud. Kaucz; Hirabahashi, 2025).
A consolidação da postura de Lula nesse sentido compôs o gradiente de disposições para o negacionismo sutil que, ao longo de novembro, foi responsável por varrer para fora das salas da COP30 as discussões mais consequentes sobre transição energética e por garantir que a conferência culminasse em um acordo para mitigação do aquecimento global que não faz qualquer menção a seu principal vetor de propulsão: os combustíveis fósseis.
Por que digo isso? Por uma série de razões. Para início de conversa, não parece haver muita seriedade na promessa de direcionar recursos advindos da exploração do petróleo brasileiro para a transição energética. No ano passado, a produção de petróleo e gás no Brasil cresceu 13,3% e bateu o recorde de maior volume já registrado. Enquanto isso, no plano de negócios apresentado pela Petrobras no final de novembro, os investimentos direcionados à transição energética caíram 20% (o equivalente a R$ 17,65 bilhões) em relação ao plano anterior.1
Em segundo lugar, essa realocação de recursos não precisa – e não deve – estar atrelada à abertura de novas fronteiras de exploração ou refinarias. Ela pode ser restrita aos blocos que hoje já estão em operação e que, em verdade, deveriam ter sua intensidade de exploração reduzida tão rapidamente quanto possível, se quisermos ter ainda alguma chance de evitar as piores consequências socioambientais do aquecimento global que já contratamos. O cálculo da produção mínima necessária para os próximos anos e a gradual redução da produção efetiva na direção de um patamar “residual” contam, inclusive, entras as recomendações que o Observatório do Clima entregou cerca de um mês atrás ao governo federal para subsidiar seu plano de transição energética.
Vale notar que essas recomendações, assim como o documento que tal rede de organizações publicou ainda em 2025 com sua detalhada proposta de como tornar, no futuro, a Petrobras uma gigante nacional da energia limpa, tem por horizonte mudanças compatíveis com a manutenção da dinâmica capitalista de valorização. Nós que somos marxistas podemos ser mais radicais – e um dos autores que nos tem convidado a isso é Kohei Saito.
Em obras de intervenção como O capital no Antropoceno e Slow Down: The Degrowth Manifesto, ele nos mostra como a elevada “taxa de balanço energético” do petróleo e dos combustíveis fósseis em geral – quer dizer, a quantidade de energia que pode ser obtida dessa fonte de energia – é funcional para uma vida social organizada em torno da autovalorização sem termo do capital e, inspirando-se no potencial que Marx também teria visto na maneira como sociedades pré-capitalistas organizaram sua produção, propõe que caminhemos em direção a um “comunismo de decrescimento”, que não se confunde com qualquer coisa como uma austeridade autoritariamente imposta. O central de sua proposta é a redefinição coletiva de prioridades e a reorientação da produção de acordo isso, de maneira a tornar possível uma “abundância qualitativa” que alcance verdadeiramente a todos.
O ponto sobre garantir benefícios que valham verdadeiramente para todos é, talvez, um bom gancho para abordar, finalmente, a questão dos retornos sociais imediatos associados à cadeia do petróleo no Brasil. Boa parte da popularidade de empreendimentos como o da Petrobras na bacia da foz do Amazonas tem a ver com as promessas de “desenvolvimento socioeconômico” que eles carregam. É justamente por isso, inclusive, que Lula tem enxergado na viabilização dessa nova frente de exploração um fator de peso na disputa eleitoral de 2026, e insistido: “ninguém pode proibir que a gente deixe o Amapá pobre se tiver petróleo aqui no Amapá”, pois isso seria “apenas uma questão de bom senso” (Lula, 13.02.2025 apud. Planalto, 2025), porque assim “vamos ter mais dinheiro para fazer educação, saúde, ciência e tecnologia, mais gente no Ibama, professor, médico…” se tiver petróleo, vamos ter mais dinheiro para fazer educação, saúde, ciência e tecnologia, mais gente no Ibama, professor, médico” (Lula, 14.02.2025 apud., Cravo; Lessa, 2025).
É perfeitamente compreensível que a perspectiva de contribuir para a melhoria das condições de vida da população do estado do Amapá, da região Norte e do Brasil em geral desperte simpatia, mas deixe-me elencar alguns fatos que põem em dúvida a relação entre isso e a abertura de uma nova plataforma de exploração de petróleo e gás. Mesmo deixando de lado o fato de que os principais beneficiários desse empreendimento serão, obviamente, os compradores de nosso petróleo bruto, os acionistas da Petrobrás e os empregadores da força de trabalho barata mobilizada para as atividades que essa cadeia de produção impulsiona direta ou indiretamente, e considerando apenas a parcela da arrecadação que adviria disso e que seria destinada a gastos sociais, os exemplos efetivos que temos no país de como isso impacta a vida da parcela da população pauperizada e socialmente vulnerável não são tão animadores. Muitas das cidades do Rio de Janeiro que concentram a maior parte dos recursos provenientes da produção brasileira de petróleo mantêm baixos índices de desenvolvimento humano.
Afora isso, já não se pode excluir dessa equação os prejuízos associados aos impactos graduais e abruptos – ambos crescentes – do aumento das temperaturas médias globais, e sua distribuição social altamente desigual, como o exemplo deixou bem claro para nós das enchentes do Rio Grande do Sul de 2024. No caso das proximidades da bacia da foz do Amazonas, há que se considerar também que se trata de uma região particularmente sensível do ponto de vista socioambiental, que abriga 80% dos manguezais do país, para além de grandes sistemas de recifes de corais recém descobertos e ainda pouco estudados pela ciência e variados coletivos humanos socioeconomicamente vulneráveis, cujos modos de vida dependem de sua dinâmica ecológica específica.2
Se estamos preocupados em melhorar as condições de vida da população mais pauperizada de nosso país, não podemos nos enganar por qualquer quick fix: a verdadeira raiz do problema é a dinâmica social de produção capitalista, e o enfrentamento dele não pode prescindir nem da ruptura com ela, nem da resposta à perturbação ecológica de proporções planetárias que ela desencadeou.
Notas
- Sobra a reação à vedida, cf. Observatório do Clima. ↩︎
- Antunes, Claudia. ‘Quando a maré dobrar, a mancha vai entrar’. Sumaúma, 3 fev. 2023. Disponível aqui. Acesso em: 11 dez. 2025. ↩︎
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Laura Luedy é doutora em sociologia pela Universidade de Campinas (Unicamp), com tese sobre a relação entre os estudos científico-naturais de Marx e o projeto de dialética da natureza de Engels. Nos últimos anos, seus interesses de pesquisa estão voltados especialmente para a ecologia marxista e os estudos críticos da ciência.
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO TEMA
Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico, organizado por Laura Luedy
Não é de hoje que a ciência faz previsões alarmantes em relação ao cenário ecológico desenhado pelo modo de produção dominante ao redor do mundo. Só mais recentemente, porém, as evidências disso têm se imposto à nossa experiência sensível mais cotidiana. Esta obra, organizada pela socióloga marxista Laura Luedy, traz ao público dez textos inéditos de diferentes pensadoras e pensadores que tratam da questão indo à sua raiz. Suas reflexões vão além das abordagens do ambientalismo mainstream e colocam o dedo na ferida do capitalismo. Afinal, é possível evitar o colapso ecológico planetário sem desmontar o arranjo social que governa nossa relação com a natureza?
Com perspectivas que se complementam e partem de experiências das lutas indígenas, negra, feminista e socialista, os textos que compõe Tempo fechado vão além do diagnóstico e nos apontam caminhos possíveis para atravessar a nebulosa questão da emergência climática. A liderança indígena Alessandra Korap Munduruku inicia o debate refletindo sobre a luta de sua comunidade contra as investidas de grandes empresas e do Estado sobre seus territórios. Michael Löwy nos apresenta o ecossocialismo como um movimento em construção, ao passo que a contribuição pioneira do feminismo socialista para esse movimento é representada pelo texto de Ariel Salleh. Na sequência, Sabrina Fernandes discorre sobre soberania alimentar e resiliência socioecológica, e Maikel da Silveira retrata uma da iniciativas que se aproximam desse paradigma no Brasil, a Teia dos Povos, a partir da perspectiva de uma de suas lideranças.
As continuidades entre as lavouras escravagistas do século XVII, a agroindústria contemporânea e os discursos e práticas nas áreas naturais de proteção integral são o objeto do texto de Guilherme Fagundes. Já João Telésforo escolhe tratar das armadilhas por trás dos chamados investimentos ESG, as finanças ambiental e socialmente sustentáveis, enquanto Jean Miguel se debruça sobre os sentidos do negacionismo climático hoje. Fechando as discussões com o retorno à contribuição de Marx no diagnóstico da relação entre capitalismo e colapso ecológico, Eduardo Sá Barreto defende que essa dinâmica econômica não se conterá ante limites ecológicos ou políticos, seguido pelo texto de Natan Oliveira, que nos apresenta os estudos que Marx fez das ciências naturais.



O capital no Antropoceno, de Kohei Saito
Qual é a relação entre capitalismo, sociedade e natureza? Em O capital no Antropoceno, o filósofo japonês Kohei Saito propõe uma interpretação dos estudos de Karl Marx frente aos problemas ambientais que enfrentamos no século XXI. A mensagem central da obra é que o sistema capitalista dominante, de alta financeirização e busca ilimitada do lucro, está destruindo o planeta, e só um novo sistema, pautado pelo decrescimento, com a produção social e a partilha da riqueza como objetivo central, é capaz de reparar os danos causados até aqui.
Enfrentando o antropoceno, de Ian Angus
Quando começou o Antropoceno? Apesar de o termo se popularizar apenas em meados dos anos 2000, a discussão sobre a presença do homem no mundo e sua intervenção na natureza não é nova. Lançado originalmente em 2016, Enfrentando o Antropoceno, do canadense Ian Angus, é um estudo sobre o impacto do homem na Terra.
Terra viva, de Vandana Shiva
Autora de importantes obras que discutem os ataques ao meio ambiente por grandes empresas e o efeito desastroso de um mau uso do solo, a doutora em física quântica e ativista ambiental Vandana Shiva faz nesse livro uma volta a suas raízes, revendo uma trajetória que acabaria por definir os movimentos em que se engajou. Assim, ela aborda fases como a infância rural vivida na Índia, sua criação na fazenda dos pais em meio às florestas, a educação libertária que recebeu deles, passando pela mudança de vida e de perspectiva que teve ao entrar na faculdade e viver em grandes centros urbanos na Índia e no exterior. Tudo isso culminando na descoberta dos movimentos de luta em defesa da natureza e dos povos nativos e de sua influência na política ambiental mundial.



O solo movediço da globalização, de Thiago Aguiar
Revelação das complexas relações entre a Vale S.A., seus trabalhadores e o meio ambiente. Analisa as operações da empresa no Brasil e no Canadá, explorando questões ambientais e trabalhistas. Um olhar sobre a interseção da destruição da natureza e da exploração do trabalho no setor de mineração.
Abundância e liberdade, de Pierre Charbonnier
Investigação filosófica sobre as raízes do pensamento político moderno e seu impacto na crise ecológica. O autor desafia o paradigma do progresso ilimitado e explora a relação entre a abundância material e a busca pela liberdade. Uma reflexão essencial para a compreensão do presente e do futuro.
Margem Esquerda #42 | Crise ecológica
As intersecções entre marxismo e ecologia estão no centro desta edição da Margem Esquerda. Abrindo o volume, John Bellamy Foster repassa sua trajetória intelectual e política e reflete sobre os desafios do presente em conversa com Michael Löwy, Maria Orlanda Pinassi e Fabio Mascaro Querido. Um dos mais importantes intelectuais marxistas em atividade, em especial por suas intervenções no debate ecológico, Foster avançou como poucos numa compreensão da obra de Marx que não apenas a coloca em diálogo com as abordagens ecológicas mais recentes, como também visualiza as chaves para uma explicação materialista da atual crise ecológica. O dossiê “Marxismo, capitalismo e ecologia”, esquadrinha o problema em quatro ensaios afiados que buscam articular a teoria e prática do ecossocialismo diante de um cenário cada vez mais urgente de crise climática e civilizatória. Organizado por Fabio Mascaro Querido, o dossiê conta com ensaios de Michael Löwy, Luiz Marques, Ana Paula Salviatti, Arlindo Rodrigues e Allan da Silva Coelho.
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