DeBÍ TiRAR MáS FOToS: a valorização contemporânea da cultura latina no álbum de Bad Bunny 

Capa de DtMF. Imagem: Divulgação

Por Gabriela Reboredo Evora

Desde o último Super Bowl, o assunto das redes sociais foi o show do intervalo do cantor Bad Bunny. A apresentação encantou os fãs, mas surpreendeu mais ainda aqueles que desconheciam a potência artística do jovem porto-riquenho, que fez questão de realizar um show que exaltasse não somente sua cultura, mas de toda a América — principalmente, a América Latina. A magnitude do show é fruto de seu último álbum, que recentemente ganhou o prêmio de Álbum do Ano no Grammy. Em um momento musical em que todos soam tão parecidos, Bad Bunny toca uma verdadeira revolução no cenário.  

Lançado em 5 de janeiro de 2025 o sexto álbum de estúdio de Benito Antonio Martinez Ocasio — ou Bad Bunny —, intitulado DeBÍ TiRAR MáS FOToS (DtMF), é um potente lembrete de que, ainda nos dias de hoje, é necessário dar a voz e valorizar a herança latina, seja na música ou fora dela. Toda a composição do álbum, desde a capa até as faixas e o anúncio de que a turnê não passaria pelos Estados Unidos, demonstra que Benito calculou cuidadosamente a obra em questão para que se tornasse um grito, dizendo ao mundo que a América Latina continua produzindo arte e cultura da melhor qualidade. Nesta crítica, buscarei analisar os aspectos culturais e sociais inerentes ao álbum e à persona do artista, que sempre se autodeclarou um ativista político, título que performa com excelência nessa última produção. Como o artista é de origem porto-riquenha, o álbum gira, em grande parte, em torno da herança cultural e familiar que ele possui do país, além de denunciar o apagão cultural que Porto Rico sofre. Entretanto, sabe-se que em diversos aspectos a América Latina de maneira geral sofre com problemas similares, dessa forma, não me limitarei a discorrer somente sobre Porto Rico, fazendo uma análise geral de como a arte e a música podem denunciar problemas de todo um continente. 

Já à primeira vista, uma das coisas que mais impressionam no álbum-manifesto de Benito foi a estética da capa: com elementos cotidianos e a princípio bastante simples, além da vegetação nativa da ilha, a imagem representa um típico quintal porto-riquenho. No entanto, seu grande feito é de imediato provocar a identificação do público com a fotografia, que evoca lembranças familiares e culturais. Nas redes sociais, os ouvintes – majoritariamente latinos – compartilham suas próprias fotos de infância com fundos similares; conectam a capa do álbum a lembranças e memórias pessoais, fazendo jus ao título do álbum, que convida o espectador a um sentimento de nostalgia e reflexão sobre as histórias que nossos registros antigos contam.  

Segundo Walter Benjamin (1987, p. 194), “a memória é a mais épica de todas as faculdades. Somente uma memória abrangente permite à poesia épica apropriar-se do curso das coisas, por um lado, e resignar-se, por outro lado, com o desaparecimento dessas coisas, com o poder da morte”. Essa dialética entre a vida presente e o que já passou (ou o que já “morreu”) é tema recorrente ao longo das 16 faixas de DtMF, comprovando a versatilidade do artista que, além de discorrer sobre questões específicas de uma parte do globo, também consegue transitar por questões comuns a todos os seus espectadores, causando forte identificação. O resultado é a criação de um dos álbuns mais escutados no mundo em 2025 — e um dos álbuns latinos mais escutados em toda a história. 

Começando a falar propriamente das faixas, o álbum se inicia com “NUEVAYoL”. Sendo assim, a primeira coisa com a qual o ouvinte se depara ao escutar o álbum é um grito para Nova York, que parece ter a intenção de retratar as experiências migratórias dos porto-riquenhos para a cidade. A música é um sample de Un Verano en Nueva York do conjunto El Gran Combo de Puerto Rico, datada de 1975. No visualizer — imagem que acompanha o áudio, disponível no canal oficial do cantor no YouTube —, a canção é apresentada junto a um texto escrito pelo historiador Jorell Meléndez-Badillo, professor da Universidade de Wisconsin-Madison, que explica a bandeira porto-riquenha criada por exilados em Nova York — e que representa o movimento pela independência de Porto Rico. Cada faixa do álbum conta com um visualizer, uma forma de unir a música a materiais educativos, com o intuito de aprofundar o contexto político e social com que Bad Bunny lida no álbum. A iniciativa inovadora surpreende e torna-se um meio de divulgação em massa da história do país de origem do artista, afinal, ao escutar as letras, o público é instigado a se questionar pelos seus significados, encontrando a resposta através do próprio artista. Muitos músicos, ou artistas em geral, possuem certa aversão a explicar sua arte, mas Benito cria um movimento contrário, explicitando o significado político que sua música carrega e deixando claro que não se importa de expor suas motivações: importa muito mais para o artista que sua história finalmente seja entendida.  

Após a primeira faixa, que focaliza as relações históricas entre os Estados Unidos e Porto Rico, o álbum segue por um caminho inteiramente latino, principalmente no que diz respeito ao instrumental. Já a segunda faixa, “Voy a Llevarte pa PR”, anuncia essa virada do álbum envolvendo o ouvinte com o reggaeton e, na sequência, “Baile Inolvidable” chega com a salsa.  

Além da parte musical, não podemos deixar de notar a preocupação de Bad Bunny com a parte visual do álbum, como se percebe no videoclipe de “Baile Inolvidable”. A narrativa visual da faixa começa com a entrada em cena do cineasta porto-riquenho Jacobo Morales, que também é protagonista do curta-metragem produzido para divulgação do álbum. Logo em seguida, Benito incorpora seu lugar, como se fosse a representação do mesmo homem, mais novo, o que mais uma vez reafirma o compromisso do álbum com o sentimento de nostalgia e rememoração cultural. O videoclipe é predominantemente feito com o uso de cores quentes, tendo como planos uma aula de salsa e um show do mesmo estilo musical. É uma faixa essencialmente romântica, então ao longo do clipe observamos o desenvolvimento de um amor jovial, que surge na tela como uma lembrança que Jacobo tem durante a aula de dança. Bad Bunny também inclui no clipe jovens músicos da Escuela Libre de Música de Porto Rico, com a intenção de divulgar novos nomes da música latina.  

Ainda falando em novos nomes da música, a quarta, quinta e sexta faixas do álbum trazem participações de artistas ainda pouco conhecidos em Porto Rico, como RaiNao, Chuwi e Omar Courtz. O destaque é que, geralmente, os convidados ficam em segundo plano nas canções. Entretanto, Benito segue uma lógica diferente, colocando seus convidados em evidência e dando a eles uma verdadeira oportunidade de se mostrar para o imenso público do cantor, além de engrandecer o repertório do álbum.  

Após o momento das participações, o álbum apresenta algumas faixas melancólicas e com versos bastante confessionais, pegaremos como exemplos as faixas “KETU TeCRÉ” e “TURiSTA”, nas quais há versos como “Como foi que acabamos virando inimigos?” e “Na minha vida, você foi turista, só viu o melhor de mim e não o que eu sofria”. Além de dar um ar pessoal, nessas canções Benito também envolve e instiga o ouvinte a refletir sobre a dor de ver alguém que amamos se transformar em uma pessoa diferente ou simplesmente partir da nossa vida. No videoclipe de “TURiSTA”, contudo, para além do cunho romântico, o artista sugere pelas imagens uma analogia ao modo como estrangeiros visitam determinados lugares históricos sem se preocupar em explorar sua história, estabelecendo apenas uma relação superficial com o local onde se encontram. 

Finalmente, já se encaminhando para o fim do álbum, encontramos uma das faixas mais potentes da carreira de Bad Bunny: “LO QUE LE PASÓ A HAWAii” retrata a luta do povo porto-riquenho frente à exploração da ilha pelos Estados Unidos, traçando paralelos com o que também fizeram no Havaí. Em 1893, fuzileiros navais norte-americanos derrubaram à força a monarquia havaiana, estabelecendo um governo provisório e posteriormente anexando o território, no ano de 1898. Desde então, é de conhecimento geral o controle econômico e cultural que os Estados Unidos exercem sobre o Havaí, e mesmo com a grande resistência dos povos de lá, os impactos culturais são inegáveis. Voltando para Porto Rico, foco do álbum de Benito, há quem diga que o território é a colônia mais antiga do mundo, pois pertenceu à Espanha por quase quatro séculos até que, no fim do século XIX, passou a ser associado aos Estados Unidos, embora possua constituição própria e um governo com poderes limitados. Assim, mesmo que as principais decisões sejam tomadas em Washington, a ilha não é oficialmente um estado norte-americano. Nessa faixa do álbum, o cantor mostra como, há alguns anos, Porto Rico também sofre com o deslocamento de nativos decorrente da especulação imobiliária e da privatização de terras para aumento do turismo de luxo, algo muito parecido com o que ocorre no Havaí. Sendo assim, ele afirma: 

Quieren quitarme el río y también la playa 
Quieren el barrio mío y que tus hijos se vayan 
No, no suelte’ la bandera ni olvide’ el lelolai 
Que no quiero que hagan contigo lo que le pasó a Hawái1 

Em outras obras Bad Bunny já apontava o mesmo problema, falando também da resistência porto-riquenha frente às ameaças sofridas. Em 2022 ele lançou um documentário chamado El Apagón – Aquí Vive Gente, que denuncia, além dos aspectos mencionados anteriormente, os constantes apagões elétricos que a ilha sofre ainda hoje e a negligência das empresas privadas que operam no local. O ponto de grande autenticidade nas músicas e nos produtos audiovisuais do cantor é que, mesmo denunciando graves problemas e histórias de sofrimento, Benito nunca deixa de explicitar o outro lado da moeda, ou seja, faz questão de mostrar grupos e pessoas que resistiram e continuam resistindo ainda hoje para a permanência da história e da cultura do local. 

Nas duas últimas faixas do álbum, torna-se ainda mais potente essa exaltação da memória e resistência cultural porto-riquenha, em “DtMF”, música que dá título ao álbum, Bad Bunny evoca uma experiência pessoal que causou muita identificação nos ouvintes. A faixa se tornou uma espécie de reflexão coletiva sobre o tempo perdido e as memórias de momentos que não voltam mais, com uma melodia propositalmente suave que nos causa um sentimento de nostalgia. O autor diz no refrão “Debí tirar más fotos de cuando te tuve, debí darte más beso’ y abrazo’ las veces que pude2. Além de tocar em um ponto muito comum entre seus ouvintes, a saber, a saudade, a faixa tem um potencial reflexivo sobre a ontologia da fotografia, que é uma problemática discutida desde a criação da técnica. Em toda fotografia há uma espécie de interrupção do tempo e, por conseguinte, da vida. Barthes, por exemplo, acreditava que “uma foto, de um modo diferente de outros signos e suportes, consegue repetir ao infinito aquilo que se deu apenas uma vez em sua existência material” (Batista Jr., 2023, p. 9). Além disso, a fotografia possui uma forte relação com nossa cultura, como se pudéssemos, através dela, perceber todo o caminho que moldou nossos costumes e tradições até então. Ao fazer um desabafo pessoal, Benito sensibilizou os espectadores a valorizarem os momentos vividos ao lado de quem amamos, trazendo novamente à tona a enxurrada de sentimentos que temos ao escutar a obra.  

De forma muito bem pensada para finalizar essa viagem ao mundo pessoal e coletivo do cantor, Benito nos apresenta a faixa “LA MuDANZA”, que se inicia com um trecho falado, no qual o cantor narra a história de como seus pais se conheceram e, eventualmente, tiveram Benito. Novamente utilizando-se da fotografia como recurso visual, Bad Bunny expõe no clipe uma sequência de fotos das pessoas mencionadas, até que os instrumentos começam a tocar. Depois de narrar o começo de sua vida, a música tem uma virada política forte, na qual tanto a letra quanto o videoclipe se enchem de referências explícitas aos movimentos de resistência históricos dos porto-riquenhos, a começar pela exibição da bandeira azul clara: 

Imagem: Reprodução/YouTube 

Em 1948 foi aprovada no legislativo de Porto Rico a “lei da mordaça”, que tornava crime a exibição da bandeira porto-riquenha, a escrita de textos sobre a independência de Porto Rico e até mesmo a ligação com simpatizantes do movimento pela independência da ilha. A lei foi revogada apenas 9 anos depois, deixando um legado de forte repressão, violência e até mesmo mortes. Sobre isso, Bad Bunny escreve na canção: “Aquí mataron gente por sacar la bandera, por eso es que ahora yo la llevo donde quiera.”3 É interessante analisar que as escolhas políticas do cantor são muito bem definidas e propositais em sua obra audiovisual, pois no clipe Benito opta por levantar a versão não oficial da bandeira, a saber, a azul clara, que remete diretamente aos movimentos pró-independência porto-riquenhos da época. Outro ponto alto do clipe são as fotografias em preto e branco de manifestantes enfrentando militares norte-americanos ou documentando os protestos contra a ocupação militar da ilha de Vieques. Todos esses momentos do produto audiovisual de Bad Bunny deixam uma mensagem muito clara: podemos dizer que o cantor se tornou a voz mais popular da contemporaneidade a apoiar diretamente a independência de Porto Rico. O estribilho final de “LA MuDANZA” representa quase que uma carta de amor à ilha: 

De aquí nadie me saca, de aquí yo no me muevo 
Dile que esta es mi casa, donde nació mi abuelo 
De aquí nadie me saca, de aquí yo no me muevo 
Dile que esta es mi casa, donde nació mi abuelo 
Yo soy de P fuckin’ R (…)4 

A escolha dessa faixa para finalizar o álbum é ideal para que Bad Bunny deixe de lado sua persona artista e mostre o verdadeiro desejo de Benito: conexão com sua cultura e justiça por todos que lutaram até hoje para que ela permanecesse viva. Ao dedicar esse álbum a Porto Rico, o cantor leva ao mundo pautas sérias e até mesmo desconhecidas por boa parte do globo. Todavia, também possui uma pitada de que não é “para inglês ver”, pois o que também importa para o cantor é que os próprios porto-riquenhos se conectem novamente com a ilha, visto que muitos são afastados pelo colonialismo norte-americano. Por fim, uma coisa é certa, ao lançar sua carta de amor ao país, o cantor fez todos se apaixonarem também.  

Notas:

  1. “Querem tirar o meu rio e também a minha praia. Querem meu bairro e que seus filhos se vão. Não, não solte a bandeira nem esqueça o lelolai. Não quero que façam contigo o que aconteceu ao Havaí.” Tradução própria. ↩︎
  2. “Devia ter tirado mais fotos quando te tinha, devia ter te dado mais beijos e abraços nas vezes que pude” Tradução própria. ↩︎
  3. “Aqui mataram pessoas por erguer a bandeira, por isso agora eu a levo para onde quer que vá.” Tradução própria. ↩︎
  4. “Daqui ninguém me tira, daqui eu não saio, diga a ele que esta é a minha casa, onde meu avô nasceu. Daqui ninguém me tira, daqui eu não saio, diga a ele que esta é a minha casa, onde meu avô nasceu. Eu sou de Porto Rico, porra.” Tradução própria. ↩︎

Referências: 

BATISTA JR, N. Fotografia e memória: Contra a ação do tempo, a foto fortalece a tradição das técnicas de memorização. Revista Belas Artes, [S. l.], v. 1, n. 1, 2023. 

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I: Magia e Técnica, Arte e Política. Trad. de Sergio Paulo Rouanet, São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 194. 

COSTA E SILVA, Gustavo. Porto Rico e a formação do pacto colonial americano [parte 2]. Revista Opera, 2021. Acesso em: 04/06/2025.  

GEORGI, Maya. Bad Bunny Makes a Triumphant Homecoming on ‘Debí Tirar Más Fotos’. RollingStones, 2025. Acesso em: 29/05/2025.  

OLMO, Guillermo D. Como os EUA tomaram o Havaí para torná-lo um posto avançado de segurança nacional. BBC News Brasil, 2025. Acesso em: 29/05/20025.  

***
Gabriela Reboredo Evora é doutoranda em Filosofia na UNICAMP e atualmente realiza o doutorado-sanduíche na Universidade Paris 8, na França. Suas pesquisas estão ligadas principalmente às áreas de Estética, Artes Visuais e Cultura Contemporânea.



Imediatez: ou o estilo do capitalismo tardio demais, de Anna Kornbluh
O que a autobiografia de Michelle Obama, a onda de exposições artísticas imersivas e a série Fleabag têm em comum com a catástrofe climática, o sucateamento das universidades e a uberização do trabalho? Imediatez parte do gesto audacioso – e fora de moda – de propor uma chave mestra para diagnosticar o capitalismo contemporâneo.

Dez lições sobre estudos culturais, de Maria Elisa Cevasco
Mapeando a trajetória dos estudos culturais desde a Inglaterra dos anos 1950 até sua globalização, a autora reconfigura o entendimento da cultura na sociedade midiática. Redefine o que e por que estudamos cultura, buscando compreender e transformar a produção cultural para um mundo mais democrático.



Descubra mais sobre Blog da Boitempo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário