O Carnaval é a maior festa popular do Brasil
Leia um trecho de "Festas populares no Brasil"

Imagem: Ed Machado/Prefeitura da Cidade do Recife (via Wikimedia Commons)
Por Lélia Gonzalez
Quando observamos o modo de apresentação dos festejos carnavalescos, constatamos que sua forma predominante são os cortejos, os séquitos, as procissões. Na verdade, as origens do Carnaval estão nas dionisíacas, festas consagradas a Dionísio, deus grego do cultivo da uva; alegres procissões, com grupos dançantes de mascarados, eram a marca dessas celebrações. Lá em Roma, como bacanais (pois Dionísio é o Baco romano), elas se defrontam com o cristianismo. Não conseguindo suprimi-las de início, a Igreja no começo as tolerou para, depois, integrá-las a seu calendário, sobretudo após a Contrarreforma; por isso mesmo, não proibiu sua realização nos territórios coloniais. Ficaram famosas as procissões de flores, na Espanha, e os desfiles de máscaras, na França e na Itália, desse Carnaval cristão, que se estendia do Dia de Reis à Quarta-Feira de Cinzas. O calendário atual estabelece que o domingo de Carnaval deve acontecer sete domingos antes do Domingo de Páscoa. Por tudo isso, entende-se por que o Carnaval é uma festa universal do e no mundo católico. […]
De acordo com Alceu Maynard de Araújo, a forma atual do Carnaval brasileiro só se configurou a partir da Guerra do Paraguai. Na verdade, outras formas de folguedo, que vinham se desenvolvendo de modo paralelo ao entrudo, passaram a integrar os festejos carnavalescos, o que resultou na sua transfiguração. E foi das camadas populares que procederam essas contribuições, essa nova configuração que deu identidade própria ao Carnaval brasileiro. Sobretudo dos segmentos negros urbanos que, pressentindo as possibilidades de ritualização oferecidas pelo Carnaval, foram ocupando esse espaço de festa com seus ritmos, seus cantos e suas danças. E é justamente na perspectiva da procedência dessas contribuições que podemos entender o Carnaval como festa popular – a maior do país. Nesse sentido, não é difícil constatar, por exemplo, como folguedos vinculados ao ciclo natalino foram cada vez mais atraídos para sua área de influência.
Na riqueza das manifestações do Carnaval brasileiro, destaca-se o Carnaval carioca, cujo modelo se impõe a todo o país em função de suas escolas de samba. Estruturadas desde o fim dos anos 1920, elas constituem a extraordinária criação de grupos proletários negros que, desde o início do século passado, já faziam seu carnaval ao som do samba pelas ruas da cidade, que se urbanizava e mudava de cenário. A resposta da comunidade negra se deu pela fixação do samba como expressão musical urbana e pela criação das “escolas”. Descendo dos morros e dos subúrbios da cidade, elas acabaram por conquistar a hegemonia do Carnaval carioca.
Mas este último apresenta outra face que, nos subúrbios e na zona rural, revela a existência de folguedos que também resultam de toda uma criatividade popular: o Carnaval dos clóvis (também chamados bate-bolas), mascarados que trajam amplos pijamas de cetim colorido e percorrem as ruas batendo fortemente no chão com bexigas de ar; os blocos de sujos e de mascarados; os bailes de rua (que são fechadas ao tráfego para que os foliões do bairro possam brincar).
Se na capital paulista predominam as escolas de samba, no interior toda uma fauna de armação (tatus, camelos, tigres, leões etc.) vai às ruas passear ou dar alguns passos de dança, lembrando os cordões de bichos da Amazônia. Enquanto isso, em Santa Catarina, o boi de mamão também faz seu carnaval, ao passo que, no Rio Grande do Sul, são cavaleiros mascarados que desfilam.
Na Bahia, a mi-carême francesa só conseguiu se manter porque se transfigurou na micareta bem brasileira de Feira de Santana. Em Salvador, o “carnaval africano”, dos Africanos em Pândega, do Papai da Folia, dos Congos da África e de tantos outros afoxés que deixaram saudades continua presente nos famosos Filhos de Gandhy ou no jovem Badauê. Mas a grande renovação ocorreu em meados dos anos 1970, quando, numa superação dos blocos de índio, surgiram os blocos afro, como o Ilê Aiyê, o Olodum, o Malê Debalê e tantos outros; atraindo milhares de jovens para seu “Carnaval ijexá”, eles acrescentam uma nova forma de africanidade ao Carnaval baiano, influenciando-o de maneira decisiva. Os afoxés, no
passado, estenderam sua influência a outros estados, estimulando a criação de grupos similares; no Rio de Janeiro, por exemplo, foi criado o Afoxé Filhos de Gandhi (que, nos dias de hoje, participa da abertura oficial do Carnaval carioca) e, em Fortaleza, o Afoxé Olodumaré. Com os blocos afro acontece o mesmo na atualidade; São Paulo e Rio de Janeiro também têm organizações que se inspiram no modelo baiano, como é o caso do Grupo Afro Agbara Dudu, na capital carioca.
O Carnaval pernambucano é o que oferece mais alternativa, dada a variedade de suas formas: maracatus, caboclinhos, clubes de frevo, troças, bumba meu boi, cordões, turmas, cabeções etc. Os tradicionais maracatus africanos ou nações constituem sua manifestação mais atraente, em virtude da beleza e do caráter totêmico de seus cortejos. A Nação de Leão Coroado, uma das mais famosas do Recife, estendeu-se até Fortaleza e ali estabeleceu o mesmo tipo de cortejo, com a criação do Maracatu Dois de Paus. Quanto aos maracatus rurais ou de orquestra, sua beleza se configura na presença e na coreografia dos “caboclos de lança” e dos “caboclos de pena” (estes últimos aparecendo também nos cortejos das nações).
Os caboclinhos, ou cabocolinhos, são grupos de pessoas “escuras” vestidas de índio, que correm, pulam e dançam, dramatizando as lutas indígenas. Sua característica mais importante está no som ritmado das “preacas” (instrumentos de percussão que consistem num arco e numa flecha ligados por um cordel), que se sobressaem na orquestra de flautas, maracás e taróis. Canindés, carijós, tabajaras e tantos outros grupos de caboclinhos não devem ser confundidos com aqueles que pertencem a outra forma de Carnaval recifense: os tribos de índio. Os caboclinhos do Recife também têm seus similares em grupos que aparecem nos carnavais de Diamantina e Rio de Janeiro.
Outra forma característica do Carnaval pernambucano é o frevo: a música e o passo. A música do frevo é resultado da fusão de diversos gêneros musicais (maxixe, polca, quadrilha, modinha etc.), executados em andamento acelerado pelas bandas de música. Quanto ao passo, suas origens estão nas configurações das capoeiras à frente dos desfiles das bandas militares, na segunda metade do século XIX. Como havia conflito entre os grupos que se desafiavam, os capoeiras procuravam apurar-se nos passos do jogo-luta que acabaram por também nomear os da dança: tesoura, voo de andorinha, pernada, dobradiça, corrupio etc. O frevo (de “frevê”, forma popular do verbo “ferver”) ultrapassou os limites do Carnaval pernambucano; a visita de um dos seus mais famosos clubes a Salvador, o Vassourinhas, acabou por dar origem aos trios elétricos do Carnaval daquela cidade.
Pelo exposto, constatamos que é dessa extraordinária e dinâmica interação de anônimos segmentos populares que o Carnaval retira sua legitimidade de maior festa popular do Brasil. Pois é criando e recriando novos folguedos e abandonando outros, num acompanhar atento das mudanças na sociedade abrangente, que esses segmentos o sustentam e o mantêm como um complexo vivo e marcante de toda a nossa cultura.
CONHEÇA A OBRA
Após mais de três décadas de sua produção original, o livro Festas populares no Brasil, de Lélia Gonzalez, chega às livrarias de todo o país pela editora Boitempo. Trata-se do único livro que a pensadora, acadêmica e militante do movimento negro brasileiro, publicou em vida exclusivamente como autora. Escrita em 1987, a obra apresenta registros fotográficos de festas populares do Brasil de norte a sul com textos informativos que apresentam as marcas da herança africana na cultura brasileira, a integração entre o profano e o sagrado e a reinvenção das tradições religiosas na formação do imaginário cultural brasileiro.
Premiada internacionalmente na época de sua publicação, a obra continua pouco citada e pouco conhecida no Brasil, inclusive por nunca ter ido ao mercado livreiro. Como argumenta Raquel Barreto, no prefácio à nova edição da obra, esse esquecimento não é fortuito, mas sim um capítulo do violento apagamento da sua produção intelectual. Como forma de se contrapor a esse processo, a nova edição da Boitempo, em formato capa dura e brochura, apresenta o texto integral de Lélia e novas imagens, textos e documentos. São mais de cem imagens dos fotógrafos Walter Firmo, Januário Garcia, Maureen Bisilliat e Marcel Gautherot, entre outros, com posfácio de Leda Maria Martins, prefácio de Raquel Barreto, prólogo de Leci Brandão, texto de orelha de Sueli Carneiro, quarta capa de Angela Davis, Leci Brandão e Zezé Motta, e projeto gráfico de Casa Rex. A publicação de Festas populares no Brasil tem apoio do Instituto Memorial Lélia Gonzalez, do Instituto Ibirapitanga e do Instituto Moreira Salles (IMS).
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