Financeirização, trabalho precário e a dominação meritocrática da vida social
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Por Ederson Duda
A persistência da meritocracia como princípio organizador da vida social na atualidade do capitalismo não pode ser explicada como simples discurso ideológico. Ao contrário, o que se observa é uma transformação profunda em sua determinação sócio-histórica. Sob o neoliberalismo, a meritocracia passa a estruturar um modo de vida ajustado à precarização generalizada do trabalho e à financeirização ampliada da reprodução social.
Nas últimas décadas, essa reprodução tem assumido cada vez mais contornos específicos com a centralidade crescente da financeirização na organização da economia1. Longe de representar uma distorção externa ou uma anomalia do capitalismo produtivo, a financeirização deve ser compreendida como uma forma histórica da acumulação capitalista na contemporaneidade2. Não se trata, portanto, de um desvio em relação à lógica da produção, mas de uma reconfiguração interna das formas de valorização do capital3. Desse modo, a expansão do crédito, o endividamento das famílias e a mercantilização ampliada de esferas fundamentais da vida social — como moradia, saúde e educação — expressam a incorporação direta da reprodução social aos circuitos da valorização financeira, e não apenas seus efeitos colaterais4.
No Brasil, a financeirização da reprodução social não assume um caráter marginal ou derivado, mas se consolida como eixo estruturante do acesso às condições de vida. Desde os anos 2000, e com maior intensidade a partir de 2010, observa-se uma expansão contínua do crédito às famílias, acompanhada de um crescimento persistente do comprometimento da renda com o serviço da dívida5. Os dados do Banco Central indicam que, ao final de 2023, o estoque da dívida das famílias junto ao sistema financeiro alcançou cerca de R$ 3,5 trilhões, o equivalente a aproximadamente 32% do PIB, ao passo que o comprometimento da renda das famílias se manteve em patamares históricos elevados (aproximadamente 49-50% da renda anual). Em 2023, mais de 78% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento do Consumidor (CNC), enquanto o número de inadimplentes superava 70 milhões de pessoas, conforme dados do Serasa. A sociedade brasileira, assim, combina altos níveis de desigualdade socioeconômica com uma profunda financeirização da vida social, fazendo com que o acesso aos bens básicos de existência e sobrevivência passe a depender cada vez mais do recurso ao crédito6.
O que os dados evidenciam é a substituição progressiva de mecanismos coletivos de proteção social por soluções individualizadas e financeirizadas7. A expansão do crédito consignado, do financiamento habitacional, do crédito estudantil e dos cartões de crédito opera como resposta funcional à insuficiência estrutural das políticas públicas universais. Nesse sentido, em vez de garantir direitos sociais, o Estado passa a atuar ativamente na conversão de direitos sociais em ativos mercadológicos, garantindo o acesso a bens essenciais por meio de instrumentos financeiros, deslocando os riscos sociais para indivíduos e suas famílias. Como sublinha Leda Paulani em Brasil delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico, trata-se de uma transformação qualitativa do papel do Estado, que deixa de atuar prioritariamente como provedor direto de proteção social e passa a atuar como indutor e garantidor da valorização financeira por meio da implementação da austeridade fiscal.
O crescimento do endividamento das famílias ocorre em paralelo à consolidação de políticas de austeridade fiscal, a compressão do gasto social e a focalização das políticas públicas. Como argumenta Ben Fine, a lógica da financeirização exige que o Estado seja ativo, capaz de criar mercados, garantir contratos e assegurar a rentabilidade do capital financeiro, ainda que isso implique a precarização das condições de vida da maioria da população. No Brasil, essa dinâmica se expressa de forma particularmente aguda na combinação entre desigualdade estrutural, precarização do trabalho e endividamento massivo.
Assim, a financeirização, enquanto forma dominante de acumulação na atualidade do capitalismo, não se limita a reorganizar os circuitos econômicos da valorização do capital. Antes, ela reestrutura, de maneira profunda, as condições materiais e simbólicas da vida social. Ao subordinar a produção, os investimentos e as políticas sociais à lógica da rentabilidade financeira, o capital não apenas redefine seus próprios mecanismos de reprodução, mas impõe uma transformação duradoura nas formas pelas quais os indivíduos se relacionam com o trabalho, com o tempo e com a própria vida social. É nesse sentido que a meritocracia não pode ser compreendida como simples ideologia justificadora das desigualdades sociais, passando a operar como um modo da vida historicamente adequado à financeirização da reprodução social, na medida em que o endividamento das famílias se consolida e se naturaliza como mediação estrutural dessa reprodução.
A retração das políticas públicas universais e a mercantilização de bens essenciais empurram os trabalhadores para o mercado financeiro como forma de financiamento e acesso à moradia, à educação, à saúde e à própria sobrevivência. Como demonstram diversos autores (como os supracitados Lavinas; Lavinas, Araújo & Bruno e Fine), a financeirização das políticas sociais transforma direitos em produtos financeiros e converte a proteção social em endividamento privado. Essa transformação material exige, simultaneamente, uma forma específica de subjetivação. O modo de vida meritocrático emerge, assim, como uma racionalidade prática compatível com a vida endividada. Isso acontece na medida em que a responsabilidade individual, o investimento em si mesmo e a gestão permanente da própria empregabilidade tornam-se imperativos objetivos em um contexto no qual os riscos sociais foram sistematicamente transferidos para os indivíduos.
Diante desse contexto, a meritocracia deixa de operar como uma promessa de mobilidade social e passa a atuar como uma forma social de gestão da insegurança, do desemprego e da própria sobrevivência. Em outras palavras, o discurso do mérito organiza comportamentos, orienta escolhas e naturaliza a precariedade ao traduzi-la em desafio individual. O sucesso deixa de significar ascensão social e passa a significar, cada vez mais, a capacidade de manter seus compromissos de dívida em dia e permanecer funcional às exigências de um mercado estruturalmente precário e instável. A instabilidade do trabalho, longe de ser percebida como produto das transformações da acumulação, é internalizada como fracasso pessoal. Dessa forma, a articulação entre modo de vida meritocrático e financeirização revela uma transformação profunda da dominação social no capitalismo contemporâneo.
Crise estrutural do trabalho e a subjetivação meritocrática
Ao mesmo tempo, essa articulação só se completa quando situada no interior da crise estrutural do capital e do processo de desindustrialização global da força de trabalho. Ou seja, o endividamento das famílias não pode ser compreendido apenas como uma resposta a insuficiência das políticas sociais ou a mercantilização dos serviços públicos, mas como uma mediação necessária em um contexto no qual o próprio trabalho assalariado formal deixa de funcionar como base relativamente estável da reprodução social8. É nesse ponto que a análise de Aaron Benanav em Automação e o futuro do trabalho se torna decisiva, uma vez que demonstra que o capitalismo das últimas décadas tem enfrentado uma dificuldade estrutural de absorção produtiva da força de trabalho, resultante da desaceleração industrial e da incapacidade dos setores de serviços de compensar, em termos de produtividade e emprego, essa perda de dinamismo.
Assim, a persistência de elevados níveis de desemprego, subemprego ou informalidade, longe de expressar desajustes conjunturais ou déficits de qualificação individual, constitui uma característica estrutural do regime de acumulação contemporâneo9. A produção sistemática de uma superpopulação relativa de trabalhadores, resultante do próprio movimento de acumulação capitalista, não apenas reduz o poder de barganha dos trabalhadores e suas formas de organização política coletiva, como também corrói materialmente as bases sobre as quais se sustentava a promessa meritocrática clássica.
Diante de um mercado de trabalho estruturalmente incapaz de absorver a força de trabalho disponível de forma estável e socialmente protegida, o discurso do empreendedorismo e do investimento em si passa a operar como forma de administração da frustração produzida pela escassez de trabalho assalariado. Apresentando-se ideologicamente como uma alternativa à rigidez e à hierarquia dos sistemas tradicionais de trabalho, essa narrativa não expressa uma ruptura com a lógica da exploração, mas sua reconfiguração sob novas bases sociais. Ao deslocar para o indivíduo a responsabilidade pela própria reprodução social, o empreendedorismo converte a instabilidade estrutural do trabalho assalariado em problema de gestão pessoal.
Como demonstram os estudos de Ricardo Antunes e Aaron Benanav, a expressão dessas formas de trabalho autônomo não decorre, necessariamente, de uma suposta emancipação em relação ao trabalho assalariado, mas da incapacidade do capitalismo contemporâneo de gerar empregos suficientes e de qualidade. A reestruturação produtiva, marcada pela flexibilização de contratos, pela fragmentação das jornadas e pela difusão do trabalho intermitente e informal, não elimina a centralidade do trabalho, mas redefine suas formas de subordinação. Nesse contexto, o empreendedorismo surge como uma ilusão necessária, compatível com a precarização estrutural, oferecendo uma gramática moral que legitima a adaptação individual à instabilidade.
Na medida em que a reestruturação produtiva impõe a flexibilidade produtiva como princípio organizador de acumulação, constitui-se também uma subjetividade ajustada a essa lógica. A jornada de trabalho deixa de ser delimitada e passa a se expandir ou contrair conforme as exigências do mercado, dissolvendo a separação entre tempo de trabalho e tempo de vida. Como aponta Ricardo Antunes, a flexibilização da jornada de trabalho não representa maior autonomia, mas, antes, representa a intensificação da exploração, uma vez que tende a ampliar o controle do capital sobre o tempo social do trabalhador.
A análise de Benanav, por sua vez, permite compreender por que essa subjetivação se generaliza. Em um contexto de baixo crescimento do trabalho assalariado formal e de produção sistêmica de uma superpopulação relativa, a intensificação da concorrência entre os trabalhadores transforma a qualificação permanente em estratégia defensiva. Nesse sentido, a meritocracia reorganiza essa concorrência sob a forma de empreendedorismo e da retórica do “trabalho por conta própria”, transferindo a responsabilidade da reprodução social para os indivíduos, ao mesmo tempo em que oculta suas determinações estruturais e naturaliza a escassez de trabalho como falha pessoal.
A financeirização aprofunda essa dinâmica ao capturar o futuro do trabalho por meio da dívida. A promessa de inserção futura — sempre condicionada à melhoria individual do desempenho — passa a operar como justificativa para o endividamento presente. Esse processo se expressa de forma particularmente nítida no caso dos trabalhadores plataformizados, que frequentemente ingressam no trabalho já endividados, seja para adquirir os meios de produção – veículos, equipamentos, conectividade -, seja para sustentar períodos de renda instável. Estudar mais, trabalhar mais, aceitar piores condições de trabalho e assumir dívidas aparecem como escolhas racionais em um contexto no qual o acesso ao trabalho está estruturalmente limitado e precarizado. O modo de vida meritocrático converte, assim, a crise estrutural do trabalho assalariado em uma narrativa do esforço individual contínuo, deslocando a contradição sistêmica do modo de produção capitalista para o plano da subjetividade individual.
Essa articulação entre crise do trabalho assalariado e endividamento massivo reforça formas específicas de exploração. A existência de uma superpopulação relativa pressiona salários, amplia jornadas e intensifica o ritmo do trabalho, criando condições favoráveis à superexploração. Nesse sentido, a financeirização não substitui essa dinâmica, mas a complementa. Ou seja, quando o salário já não garante a reprodução, a dívida assume essa função, permitindo ao capital extrair mais-valor sob condições cada vez mais desfavoráveis aos trabalhadores. Exploração produtiva e expropriação financeira passam a operar de forma articulada, como aponta Klaus Dörre em seu livro Teorema da expropriação capitalista, sustentadas por uma moral meritocrática que legitima a adaptação à precariedade.
Nesse quadro, a transferência dos riscos sociais para os indivíduos se revela inseparável da crise estrutural do capital e do trabalho assalariado. A incapacidade do capitalismo contemporâneo de garantir trabalho suficiente, digno e socialmente necessário é compensada por mecanismos financeiros que individualizam a sobrevivência. A meritocracia aparece, assim, como forma hegemônica10, na medida em que exerce direção moral e intelectual sobre a vida cotidiana, organizando o consentimento ativo em torno da ideia de que o fracasso é individual, mesmo quando as condições objetivas tornam o sucesso estruturalmente improvável.
A análise de Benanav, nesse sentido, permite compreender por que a financeirização da reprodução social e o modo de vida meritocrático se reforçam mutuamente. A escassez estrutural do trabalho assalariado e o crescimento de uma superpopulação relativa criam as condições materiais para o endividamento generalizado. O endividamento, por sua vez, exige uma moral da responsabilidade individual que legitime a adaptação à precariedade. A meritocracia fornece a gramática moral correspondente, convertendo a crise estrutural do trabalho assalariado em problema de desempenho individual. O resultado é uma forma historicamente específica de dominação social, na qual a sobrevivência depende simultaneamente do trabalho precário, do endividamento e da internalização de um modo de vida meritocrático que naturaliza a instabilidade como destino individual.
Dessa forma, a persistência da meritocracia como um modo de vida no capitalismo contemporâneo não expressa uma contradição entre discurso e realidade, mas a adequação subjetiva a um regime de acumulação incapaz de garantir trabalho estável, proteção social universal e reprodução digna da vida. A financeirização da reprodução social, ao subordinar a sobrevivência cotidiana à dívida, e a crise estrutural do trabalho assalariado, ao reproduzir uma superpopulação relativa permanente, constituem as bases materiais sobre as quais se ergue uma moral da responsabilidade individual que naturaliza a precariedade e desloca para os sujeitos os custos sociais da acumulação. Portanto, questionar o modo de vida meritocrático implica recolocar no centro do debate a historicidade das formas de exploração e expropriação que estruturam o capitalismo, bem como a centralidade do trabalho e a necessidade de reconstruir horizontes coletivos de proteção social, trabalho e organização política capazes de romper com a naturalização do individualismo metodológico que estrutura a experiência social contemporânea.
Notas
- PAULANI, Leda Maria. Brasil delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico. São Paulo: Boitempo, 2008; LAVINAS, Lena. The takeover of social policy by financialization: the Brazilian paradox. New York: Palgrave Macmillan, 2017. ↩︎
- LAPAVITSAS, Costas. Financialized Capitalism: Crisis and Financial Expropriation. In Financialisation in Crisis. Lapavitsas C. (editor), Leinde-Boston: Brill, 2012, p. 15-50. ↩︎
- BONIZZI, Bruno.; KALTENBRUNNER, Anna.; POWELL, J. Subordinate Financialization in Emerging Capitalist Economies. In: Mader, P.; Mertens, D.; Zwan, N. (Eds.) The Routledge International Handbook of Financialization. London: Routledge, 2020. ↩︎
- LAVINAS, L.; Gonçalves, G. L. A expropriação dos direitos universais no lastro da assetização do bem-estar. In: Financeirização: crise, estagnação e desigualdade. Org: LAVINAS, L; MARTINS, N.M.; GONÇALVES, G.L.; VAN WAEYENBERG, E São Paulo: Ed. Contracorrente, 2024 – pp. 421-456. ↩︎
- PAULANI, Leda Maria. Brasil delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico. São Paulo: Boitempo, 2008; LAVINAS, Lena. The takeover of social policy by financialization: the Brazilian paradox. New York: Palgrave Macmillan, 2017. ↩︎
- LAVINAS, Lena. The takeover of social policy by financialization: the Brazilian paradox. New York: Palgrave Macmillan, 2017. ↩︎
- LAVINAS, L.; ARAÚJO, E.; BRUNO, M. A. P. Brasil: vanguarda da financeirização entre os emergentes? Uma análise exploratória. Texto para Discussão, IE-UFRJ, 2017. ↩︎
- ANTUNES, R. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital / Ricardo Antunes. – 1. ed. – São Paulo: Boitempo, 2018; ANTUNES, R. Icebergs à deriva: o trabalho nas plataformas digitais. 1ª edição, São Paulo, Boitempo, 2023; BENANAV, A. Automação e o futuro do trabalho. Tradução: FALAVINA, R. São Paulo: Boitempo, 2025. ↩︎
- SAAD-FILHO, A. Value and Crisis: Essays on Labour, Money and Contemporary Capitalism. Leiden; Boston: Brill, 2019. ↩︎
- GRAMSCI, Antonio. Americanismo e fordismo. In: Cadernos do Cárcere: volume 4. 7ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023. ↩︎
***
Ederson Duda é doutorando em Ciências Sociais pela Unifesp.
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO
Automação e o futuro do trabalho, de Aaron Benanav
O discurso da automação tecnológica tem sido amplamente mobilizado por empresários, políticos, jornalistas e formadores de opinião para sustentar prognósticos ora catastróficos, ora idílicos. Nesse livro, o professor da Universidade Cornell contrapõe-se a essas previsões ao argumentar que não é a tecnologia, mas o longo declínio da economia capitalista, o responsável pelo desemprego e, sobretudo, pelos subempregos contemporâneos.
Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho, de Ricardo Antunes
Extremamente atual, a obra analisa como o trabalho abstrato possibilitou, por meio de uma classe trabalhadora excluída do processo produtivo, o crescimento de uma sociedade descentralizada do ato laboral. Da ascensão do neoliberalismo ao longo dos anos 1990 ao capitalismo de plataforma do século XXI, assunto abordado também no novo apêndice, o texto Antunes mantém a contemporaneidade.
Icebergs à deriva: o trabalho nas plataformas digitais, organizado por Ricardo Antunes
Análise reveladora da dimensão da crise humanitária causada pelo capitalismo em plataformas digitais. Oferece informações atuais e argumentos consistentes sobre a exploração do trabalho. Leitura essencial para compreender a realidade atual do mundo do trabalho.
O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na Era Digital, de Ricardo Antunes
Retrato detalhado e atualizado da classe trabalhadora contemporânea no Brasil, abordando a precarização, terceirização e o impacto das novas relações trabalhistas, culminando na atual conjuntura política. Combina rigor acadêmico com compromisso social, destacando a necessidade de resistência e luta.
Descubra mais sobre Blog da Boitempo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





Deixe um comentário