A língua como forma de resistência: Denilson Baniwa, a jabota poliglota e um dos modos indígenas de contar o mundo
Por Thais Caramico
Artista indígena do povo baniwa com trajetória reconhecida nas artes visuais, Denilson construiu sua presença pública muito antes de estrear na literatura de infância. Seu trabalho circula por museus, galerias, mostras e exposições, sempre tensionando os modos como a arte brasileira olha (e historicamente silencia) os povos indígenas. Para ele, criar é disputar narrativas. E é também sobre isso a entrevista concedida à primeira edição de 2026 do Papo pra Boitatá, boletim mensal da irmã caçula da Boitempo.
É a partir desse campo mais amplo da arte indígena que sua entrada na literatura deve ser compreendida. Ao escrever seu primeiro livro para crianças, ilustrado por Sophia Pinheiro e publicado pela Boitatá em 2024, Denilson não inaugura um novo interesse, apenas desloca para o espaço editorial questões que já atravessavam sua produção artística: território, memória, oralidade e cultura.
Nas últimas décadas, artistas visuais e escritores indígenas vêm ampliando o debate público ao afirmar que a arte indígena não se define por tema ou estilo, mas por modos próprios de pensar, narrar e existir. Trata-se de um campo profundamente político, porque questiona quem pode produzir imagens, histórias e sentidos sobre os povos originários. A literatura indígena, nesse contexto, não aparece como exceção, mas como continuidade de uma produção estética autoral que sempre existiu, ainda que historicamente silenciada.
Essa reflexão conduz também a outra pergunta inevitável: como escritores não indígenas podem se aproximar das histórias indígenas sem reproduzir uma narrativa colonizadora? O que seria uma aproximação ética? A liberdade de criação existe, mas ela não se sustenta sem responsabilidade. A questão parece menos sobre autorização e mais sobre relação: com as histórias, com as pessoas de onde elas vêm, com os contextos que as sustentam. Apropriar-se apagando origens, vozes e autoria é violência; aproximar-se por meio do diálogo, do reconhecimento, do crédito e da escuta abre outras possibilidades. Mas daí entramos em outro caminho: o que faz uma literatura indigenista ser, de fato, aliada dos povos?
A jabota poliglota, livro de Denilson Baniwa, toma a linguagem como matéria narrativa central. Antes de ser uma história sobre bichos que falam diferentes línguas, a obra propõe uma reflexão sensível sobre deslocamentos, convivência entre mundos e os múltiplos sentidos de se comunicar. É um livro que nasceu de um deslocamento concreto e simbólico. Durante a pandemia, o autor retornava de Niterói para Manaus e, depois, de barco, para a comunidade de sua família, no Alto Rio Negro. No trajeto, observava pessoas que dançavam e cantavam ao som de músicas em línguas que não compreendiam totalmente. Ainda assim, a comunicação acontecia. Aquela cena cotidiana acendeu uma reflexão que atravessa todo o livro, mas que não era uma novidade para o artista: a língua é relação.
“A maioria das pessoas ali não falava inglês, mas isso não impedia elas de sentirem a música”, conta Denilson. “Aquilo me fez pensar em querer contar uma história sobre línguas e deslocamentos, em como a arte chega às pessoas mesmo sem compreensão completa.” Outra constatação que teve foi perceber que, na região amazônica para onde o barco seguia, convivem oficialmente diversas línguas indígenas, como baniwa, tukano, nheengatu, yanomami. No mesmo barco, havia pessoas que não compreendiam essas línguas indígenas e que seguiam para territórios onde elas permanecem vivas.
É desse cruzamento entre memória, observação e tradição oral que surge a jabota, personagem feminina do jabuti, figura ancestral das narrativas tradicionais da região. Pequena, lenta e aparentemente frágil, ela vence quase sempre pela sabedoria e pela inteligência. Denilson retoma essa figura e desloca sua astúcia para o campo da linguagem. No livro, a jabota escapa dos predadores porque fala outras línguas ou porque inventa modos de falar a língua deles, como jacarês, onçês e variações sonoras que transformam a palavra em estratégia narrativa.
Desde o título, o livro aposta no jogo linguístico. A paronomásia entre “jabota” e “poliglota” instaura musicalidade, humor e curiosidade. Aliterações, rimas internas, repetições e cadências próximas da oralidade convidam à leitura em voz alta, aproximando o texto de um trava-línguas brincante. E assim, a jabota vence não pela força, mas pela argumentação, pela negociação, pelo domínio das palavras.
Essa centralidade da linguagem dialoga com uma compreensão indígena mais ampla sobre o ato de falar. Para Denilson, a palavra é sempre relacional. “Quando a gente entra em uma floresta ou em um rio, a gente pede licença”, explica. “Cada lugar tem um ser que habita ali. As palavras para isso não existem em português, mas há palavras específicas, ou ‘boas’, como dizemos, para falar com rios, bichos, plantas, espíritos e encantados.” Entrar nesses lugares é como entrar na casa de alguém. Não se entra sem pedir licença, a menos que se queira ser mal-educado.
Há também uma ética da escuta, algo muito bonito, nesse pensar. “Você não joga as palavras por jogar, pois elas precisam soar doces para quem escuta”, afirma o artista, lembrando que, em muitas comunidades, os mais velhos criticam os jovens quando falam uma língua excessivamente coloquial, misturada, sem cuidado com o ouvido do outro. Falar bem não é falar difícil, é falar com cuidado.
Esse entendimento atravessa a jabota poliglota não apenas no texto verbal, mas também na construção visual do livro, realizada por Sophia Pinheiro, que tem um longo trabalho com povos indígenas. A parceria entre autor e ilustradora é antiga, baseada em confiança e diálogo, e se revela aqui como uma verdadeira coautoria estética. Desde o início, Sophia propôs trabalhar com pigmentos naturais como folhas, sementes e terras, trazendo para a materialidade da imagem um gesto que conversa diretamente com o universo da narrativa, a partir de elementos vindos da floresta.
Os corpos dos animais são preenchidos por grafismos que remetem tanto a pinturas corporais indígenas quanto a registros de arte rupestre. Nenhuma jabota, nenhum jacaré, nenhuma onça aparecem desenhados da mesma forma ao longo do livro. Há variação e diversidade dentro da própria espécie, pautados como um registro visual sobre pluralidade cultural e linguística. A paleta de cores, feita de tons terrosos, vermelhos profundos e azuis densos, evoca barro, rio, lama e terras ciliares, compondo um universo sensorial que amplia a experiência de leitura.
Dessa forma, a relação entre imagem e texto é de complementaridade, não de redundância. Na capa, a jabota aparece dentro da boca do jacaré, segurando uma corda vermelha que pode ser lida como língua, fio narrativo ou artifício de fuga. Ao longo do livro, essa corda reaparece, se estende, conecta personagens e atravessa páginas. No desfecho, ela liga jacaré e onça, agora em disputa entre si, enquanto a jabota se afasta, camuflada na vegetação.
Esse cuidado estético reforça uma das ideias centrais do livro: a língua aproxima, mas também confunde; conecta, mas também desestabiliza. A própria disposição gráfica do texto, com alternância de cores nas falas, palavras em itálico para marcar línguas outras e brincadeiras tipográficas, transforma a leitura em experiência corporal e visual. Texto, imagem e projeto gráfico trabalham juntos para criar uma narrativa aberta à fruição, à imaginação e à interpretação – escolha estética que vai além e se materializa também no gesto editorial de publicar o livro em versão bilíngue, em português e nheengatu. A escolha, inclusive, não é decorativa nem pedagógica no sentido convencional, mas política. “Para mim, o livro ser bilíngue é um ato político”, afirma Denilson. “É uma provocação para as pessoas pensarem quantas línguas existem no Brasil e como a gente quase nunca se dá conta disso. Se uma criança se interessar em descobrir que língua é essa, aprender uma palavra que seja, já valeu.”
Ao optar pelo nheengatu, língua amazônica mais falada e que se escreve como se lê e circula entre diferentes povos, o autor amplia o acesso sem apagar a complexidade linguística indígena. O baniwa, lembra ele, se escreve e se pronuncia de modo muito diferente. “Escolher o nheengatu foi também uma forma de pensar no leitor e no gesto de aproximação”, explica.
Ao falar sobre literatura indígena ou literatura indigenista, Denilson faz questão de suspender definições fáceis, reforçando sua consciência histórica e política. Ele diferencia modos de escrita que nascem dentro de sistemas indígenas de transmissão de saber daqueles pensados para circulação no mercado editorial não indígena. Em sua estante convivem registros do artista e narrador Feliciano Lana, do povo dessana, conhecido por narrar histórias cosmogônicas por meio de textos, desenhos e pinturas, e livros de autores como Daniel Munduruku e Cristino Wapichana, ligados à Associação de Escritores Indígenas do Brasil, além de publicações que nasceram de projetos comunitários, sem preocupação com distribuição externa.
Ele cita com especial carinho a coleção Narradores Indígenas do Alto Rio Negro, organizada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro nos anos 1990. São livros em que a mesma história aparece em versões diferentes, contadas por narradores distintos, sem fechamento definitivo. Personagens desaparecem, retornam, se transformam. “Essas histórias não acabam”, explica. “Elas continuam no dia seguinte, viram outra história e, depois de muitas, voltam para a primeira.” Para Denilson, esse modo não linear, circular, coletivo e contínuo de narrar é profundamente indígena.
Nesse sentido, A jabota poliglota ocupa um lugar de trânsito. O próprio autor reconhece que, apesar da autoria indígena e das referências à tradição oral, o livro foi pensado dentro de um sistema de leitura com começo, conflito e desfecho claros. “Uma história indígena adaptada para circular também num mundo não indígena.” Longe de enfraquecer a obra, essa consciência explicita o gesto de tradução cultural, sem apagar a origem da narrativa nem romantizar sua circulação.
Essa leitura atravessa também sua compreensão política do livro. Ao pensar nos deslocamentos forçados na Amazônia, provocados por queimadas, envenenamento de rios e disputas territoriais, Denilson reconhece que esse livro pode ser lido como metáfora involuntária dessas migrações. “Talvez a personagem esteja fugindo de algo externo”, diz. E lembra que, historicamente, muitos povos precisaram aprender a língua do outro para defender seus territórios em espaços institucionais e internacionais. “Aprender a língua do outro é também uma forma de se defender e resistir.”
Para professores e mediadores que desejam trabalhar literatura indígena na escola, Denilson propõe caminhos de aproximação. Sugere acompanhar o pensamento de autores indígenas que discutem educação, dialogar com educadores que já trilharam esse percurso e, sempre que possível, convidar pessoas indígenas para estarem próximas da escola. Acima de tudo, defende a sensibilidade e a disposição para aprender. “O medo de errar dos brancos não pode ser paralisador”, afirma. “Enquanto existe vida, existe possibilidade de conserto.”
No fim, o desejo do autor com esse livro é simples e radical. Ele espera que leitores e leitoras passem a observar melhor o mundo ao redor. Que tentem imaginar o que os bichos pensam de nós. E lembra que, em um mundo atravessado por conflitos, talvez a maior inteligência esteja menos na força e mais na capacidade de escutar, falar e conviver em muitas línguas.
* Esta entrevista foi originalmente publicada no boletim Papo para Boitatá. Assine e fique por dentro de todas as novidades da editora Boitatá, a irmãzinha mais nova da Boitempo.
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Thais Caramico é mãe, jornalista, especialista em livros para crianças e jovens pela Universidade Autônoma de Barcelona e mestra em Artes pela USP, onde pesquisou a relação entre literatura de infância e meio ambiente na perspectiva ecocrítica. É sócia-fundadora do Estúdio Voador, idealizadora da @bibliotecadefora e, desde 2025, integra a equipe da Boitatá como editora de educação.
CONHEÇA A LITERATURA DE DENILSON BANIWA

A jabota poliglota, de Denilson Baniwa com ilustrações de Sophia Pinheiro
Há um conto indígena sobre uma jabota que se safa de muitos desafios na floresta graças a suas habilidades linguísticas: afinal, há maneira melhor de escapar de se tornar almoço de um jacaré do que negociando em jacarês? Ou enfrentar uma onça-pintada arriscando um oncês básico? Com o humor característico do artista visual Denilson Baniwa, que faz sua estreia como autor de livros para as infâncias, A jabota poliglota, que conta com ilustrações da artista Sophia Pinheiro, aproxima a diversidade ecológica da diversidade linguística, oferecendo uma reflexão sobre o mundo em que vivemos e sobre o que o mais fraco pode fazer diante do mais forte.
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