Padura, Cuba e a revolução

Foto: Itziar Guzmán (Tusquets Editores, Barcelona)
Por Michel Goulart da Silva
Nas primeiras páginas do livro Água por todos os lados, de Leonardo Padura afirma: “Cuba é um país maior que a geografia da Ilha”.1 Lançado em 2020, no Brasil, pela editora Boitempo, o livro mostra um retrato político e cultural bastante rico sobre Cuba. O escritor cubano se tornou bastante conhecido no Brasil com a publicação do livro O homem que amava os cachorros, também pela Boitempo, em 2013, que trata do assassinato do revolucionário russo Leon Trótski.
O livro Água por todos os lados reúne uma série de ensaios escritos por Padura, refletindo sobre literatura, música, o viver em Cuba, a cidade de Havana, enfim, sobre diferentes aspectos sociais, políticos e econômicos do país. Os ensaios reunidos no livro foram escritos entre 2001 e 2018.
Apesar da diversidade de textos, é possível destacar alguns temas, a começar por um dos mais enfatizados por Padura, que é a reflexão sobre o ato da escrita, presente em vários dos ensaios que compõem o livro. Padura afirma que “um escritor é um armazém de memórias. Escreve-se vasculhando as próprias memórias e as memórias alheias, adquiridas pelas mais diversas estratégias de apropriação”2. Padura destaca também a influência fundamental exercida pela cidade em que o escritor vive, que, no seu caso particular, se remete a Havana:
“A cidade é então o mercado livre do qual se nutre o armazém de memórias e de lugares simbólicos do escritor, muitas de suas referências, o local material do qual ele não pode se distanciar (e não estou falando de imediações ou distâncias apenas físicas), sob pena de perder a memória e perder tudo.”3
Ao longo das páginas, ele menciona uma pergunta recorrente feita a ele — sobre as razões de permanecer em Cuba, ou mesmo por que escreve sobre o país. Como resposta a esse tipo de indagação, em certo momento do livro, Padura comenta sua relação sentimental com Cuba:
“Viver dentro da ilha constituiu, em contrapartida, uma decisão, um exercício de arbítrio, que aceitei de forma voluntária, porque quero ser alguém que vive perto de minhas nostalgias, de minhas lembranças, de minhas frustrações e, é claro, de minhas alegrias e meus amores.”4
O seu processo de escrita e sua obra estão intimamente ligados a Cuba. Padura afirma: “sou um escritor cubano que vive e escreve em Cuba porque não posso e não quero ser outra coisa, porque (e sempre posso dizer que apesar dos diversos pesares) preciso de Cuba para viver e escrever”.5
Padura reserva bastante espaço para comentar e refletir sobre sua obra mais conhecida, O homem que amava os cachorros. Padura relata em detalhes o processo de escolha do tema e os cinco anos que investiu no processo de elaboração e escrita da obra. Relata também a relação íntima que assumiu com o tema, ao se dar conta do apagamento sofrido pelo nome de Trótski em Cuba. Em uma belíssima passagem de Água por todos os lados, destaca sua reação diante de um dos documentos simbolicamente mais importantes encontrados em sua pesquisa:
“Entre muitíssimos livros, jornais e documentos que fui entesourando ao longo dos anos de pesquisa e escrita do romance, um tem valor especial: a fotocópia dos manuscritos em que Trótski trabalhava no dia de sua morte. Sobre várias dessas folhas, datilografadas em russo e com anotações e rasuras feitas pelo próprio Trótski, ficaram impressas também várias gotas de sangue que lhe saltou do crânio quando Ramón Mercader lhe cravou a pua da picareta.”6
Padura comenta também seus primeiros contatos e o encontro com Esteban Volkov, neto de Trótski. O escritor mostra em detalhes essa aproximação, inclusive transcrevendo uma carta que enviou a ele. Contudo, o mais importante para o escritor parece ser a opinião de Esteban sobre O homem que amava os cachorros. Segundo Padura, “ao ler meu livro, [Esteban] sentiu que eu realizara um ato de justiça histórica por meio de um exercício poético”.7
Em Água por todos os lados também aparecem reflexões sobre a relação de Cuba com a União Soviética e o impacto de seu colapso sobre Cuba. Padura aponta a influência exercida pela União Soviética sobre o país caribenho: “aquela conexão e suas consequências baseavam-se na adoção por Cuba de um modelo político, econômico e social — que inclusive sobreviveu ao desaparecimento da URSS”.8
Padura faz um parelelo entre sua trajetória pessoal e a relação entre os dois países. Mais precisamente, destaca como a sua geração, que viu o colapso da União Soviética, reagiu aos acontecimentos políticos das últimas década, apontando o impacto disso na subjetividade de seus contemporâneos:
“E o desencanto minou muitos espíritos. Os homens e as mulheres da minha geração, artistas ou não, universitários ou não, vimos diluírem-se as ilusões do futuro (o futuro reduziu-se a procurar o que comer hoje, amanhã, quando muito na semana), e sobre nossos ombros caía a derrota de uma vida que de repente perdia todos os nortes, os pontos de apoio, as certezas que nos tinham sido inculcadas e pelas quais tínhamos trabalhado, estudado, lutado, aceitado sacrifícios e limitações de todo o tipo.”9
Padura também mostra ao longo de Água por todos os lados o impacto do processo de colapso da União Soviética sobre a sociedade cubana, enfatizando em muitos momentos a situação vivenciada por Cuba ao longo da década de 1990.
“Com a discreta recuperação econômica que começa a se anunciar no fim do século passado e que se estende até hoje, criou-se a ilusão de que o pior havia passado: os cortes de luz reduziram até desaparecer por completo, a carência de medicamente comuns foi superada em porcentagem importante, a vida cultural se reanimou e os mercados se reabasteceram de alguns produtos, embora a preços altos, às vezes inacessíveis, para o nível salarial médio. No entanto, subsistiram, com persistência sufocante, algumas carências cada vez mais agudas, como a de transporte urbano (verdadeira agonia cotidiana para quem necessita se deslocar para o trabalho, a escola, um hospital), a de moradia (reconhecida pelo governo como o mais grave problema social do país) e, sobretudo, na base, a economia cotidiana em duas moedas, que na realidade são três ou mais.”10
O fantasma do aumento da pobreza também perpassa a sociedade. Padura se refere a “bolsões repletos de desespero e resignação, de frustração e marginalização, que, a partir dos anos da crise de 1990 são cada vez mais agudos e visíveis”.11 Essa situação afetou a o cotidiano e a percepção das pessoas em relação à sociedade ou mesmo a como deveriam seguir construindo suas vidas. Padura comenta:
“Eufemisticamente chamado de ‘período especial em tempos de paz’, o lapso da década de 1990 foi um momento dramático e revelador para Cuba, para todos os cubanos. Como um brusco despertar… O país onde até era possível sonhar com um futuro modesto, mas afinal um futuro, de repente ficou ‘abandonado e sozinho’ – como disse um poeta redundante –, e sofremos as consequências da incapacidade nacional de nos valermos economicamente por nós mesmos. Ao longo daqueles anos, houve falta de comida, dinheiro, eletricidade, transporte público, papel, remédios… e até de cigarros e rum. A sociedade quebrou, derreteu, e cresceu um espírito de sobrevivência que degradou os valores éticos de muita gente, dando rédea solta à filosofia do ‘resolver’.”12
Padura não entra em detalhes sobre as ações do Estado para tentar reverter essa situação, ou seja, não aprofunda uma análise das políticas estatais que nas últimas décadas vêm abrindo as portas para a possibilidade de restauração do capitalismo. Contudo, não deixa de fazer algumas críticas aos governos:
“[…] a sociedade igualitária pela qual se trabalhou foi se fracionando em camadas e estratos, enquanto o Estado todo-poderoso e protetor foi se retirando de determinadas esferas, tornando-se mais realista e pragmático, cortando ‘gratuidades indevidas’ antes outorgadas, mas conservando os grandes mecanismos de decisão política e econômica.”13
Sobre o papel do Estado cubano, Padura também aponta seu caráter repressivo, em especial destacando o período da década de 1970:
“Muitos de nós, escritores e artistas cubanos que hoje passamos da provecta idade dos cinquenta anos, tivemos alguma experiência relacionada com as múltiplas intolerâncias culturais, sociais, morais que imperaram na década obscura de 1970 e que, com menos força, mas não menor frequência, sobrevieram ao longo do decênio seguinte. Castigos, limitações, repreensões podiam nos chegar pelas mais diversas causas: por sermos crentes, homossexuais, ‘problemáticos ideológicos’, por ‘não sermos confiáveis’.”14
Padura aponta que uma das consequências mais dolorosas dessa situação era o medo que ela provocava. O escritor assim descreve:
“E tratava-se de um medo inevitável (pelo menos o foi para mim). Num país em que todos os meios de comunicação, editoras e instituições culturais pertenciam ao Estado e eram dirigidas ou controladas por instâncias político partidárias, receber uma acusação daquelas poderia significar a frustração de uma carreira, a censura ou certas doses mais ou menos altas da mais cerrada marginalização que se possa sofrer.”15
Esse era o cenário vivenciado por escritores e artistas. Padura faz menção ao Congresso de Educação e Cultura, realizado em 1971, cujas teses e resoluções “avisavam de maneira clara e ameaçadora sobre o estreitamento dos espaços de permissividade não só artística, como também moral e religiosa”16. As resoluções do congresso, inspiradas pelas ideias do realismo socialista soviético e suas derivações, impactaram “na normatização dos estritos padrões morais, ideológicos e sexuais que deveriam guiar os intelectuais e educadores a partir daquele momento”17.
Contudo, apesar de mostrar os problemas existente em Cuba, o retrato político e cultural pintado em Água por todos os lados destaca suas raízes revolucionárias, suas riquezas e suas contradições. Esses elementos mostram que “os dilemas do presente mergulham a ilha em um intenso processo de introspecção, que enseja reflexões sobre a totalidade do processo revolucionário”.18 Observa-se, em meio ao mar de contradições, que
“[…] há um componente de conformismo, mas também há consciência crítica nessa ambivalência. De modo geral, os cubanos valorizam a segurança social de que desfrutam e têm menos ilusões sobre a vida no exterior. Porém, a ambiguidade existe porque a vida não é somente difícil, mas às vezes carece de sentido.”19
Em sua narrativa, Padura enfatiza o papel da luta cotidiana do povo cubano, seja pelas formas que encontra para sobreviver às dificuldades enfrentadas, seja pela defesa de suas tradições e das conquistas da revolução. Padura se refere ao que chama de “acúmulo de particularidades e originalidades, e até de dificuldades e carências”20.
Esse livro de Leonardo Padura, mesmo sendo uma obra não-ficcional, tem um evidente personagem: a classe trabalhadora cubana — ou, em sentido mais genérico, o povo de Cuba —, que, apesar das dificuldades e contradições sociais que experienciam, mantém viva a perspectiva de construir uma nova sociedade, superando a miséria da exploração capitalista, e mostrando o caminho que pode ser trilhado pelos trabalhadores de todo o mundo.
Notas
- Leonardo Padura. Água por todos os lados. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 10. ↩︎
- Idem, p. 23. ↩︎
- Idem. ↩︎
- Idem, p. 48. ↩︎
- Idem, p. 9. ↩︎
- Idem, p. 112. ↩︎
- Idem, p. 115. ↩︎
- Idem, p. 131. ↩︎
- Idem, p. 62. ↩︎
- Idem, p. 31. ↩︎
- Idem, p. 33. ↩︎
- Idem, p. 61-62. ↩︎
- Idem, p. 62. ↩︎
- Idem, p. 271. ↩︎
- Idem. ↩︎
- Idem, p. 234. ↩︎
- Idem, p. 236. ↩︎
- Fabio Luis Barbosa dos Santos. Era necessário aliar-se à União Soviética? In: SANTOS, Fabio Luis Barbosa dos; VASCONCELOS, Joana Salém; DESSOTTI, Fabiana (orgs.). Cuba no século XXI: dilemas da revolução. São Paulo: Elefante, 2017, p. 195. ↩︎
- Idem, p. 213. ↩︎
- Leonardo Padura. Água por todos os lados. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 9. ↩︎
***
Michel Goulart da Silva é doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e servidor técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).
CONHEÇA A OBRA DE LEONARDO PADURA


Ir até Havana, de Leonardo Padura
Já pensou em passear pelas ruas de Havana com Leonardo Padura? Em Ir até Havana, o escritor cubano leva o leitor a uma caminhada por locais que marcaram sua vida e sua literatura. Os relatos são entremeados por trechos de seus livros e romances, com claras referências e inspirações.
Água por todos os lados, de Leonardo Padura
Uma cativante exploração das memórias e inspirações do autor, revelando o processo criativo por trás de suas obras e sua profunda conexão com sua terra natal. O leitor é convidado a mergulhar nas histórias, personagens e reflexões de um mestre da literatura cubana contemporânea.
OUTRAS LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO TEMA



O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura
Em uma trama fascinante, este romance explora os segredos da Revolução Espanhola, Revolução Russa e Revolução Cubana, ligando-os por meio do enigmático assassino de Leon Trótski. O autor revela as contradições das utopias do século XX, oferecendo uma leitura instigante.
Escritos de outubro, organizado por Bruno Gomide
Em um vibrante mosaico de vozes que ecoam a Revolução Russa, esta coletânea revela surpresas e tensões entre os protagonistas desse período épico. Textos breves, de diversos autores (entre os quais não poderia faltar o comandante do Exército Vermelho, Leon Trótski), mostram uma perspectiva única, questionando o rumo da mudança e expressando esperanças no futuro.
A revolução de outubro, de Leon Trótski
Narrativa envolvente que apresenta os bastidores da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, escrita por um dos seus principais protagonistas. Perspectiva única de um momento histórico crítico, revelando as complexidades e desafios que moldaram a Revolução em um clássico da literatura revolucionária.
Descubra mais sobre Blog da Boitempo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
Deixe um comentário