Frei Betto entre Havana e Brasília: a ponte Brasil-Cuba como projeto

Frei Betto e Fidel Castro em 1992. Imagem: Acervo Pessoal

Por Rodrigo Ayres Almeida Camurça

Frei Betto ocupa um lugar singular na história recente da América Latina. Como frade dominicano, escritor e jornalista de método, construiu ao longo de décadas uma interlocução constante entre Cuba e Brasil que atravessa governos, agendas e climas de opinião. Sua trajetória combina visitas sucessivas à ilha, entrevistas longas com a liderança cubana Fidel Castro, circulação por escolas, hospitais e espaços culturais, além de uma atuação discreta como mediador confiável. O que o move é uma visão simples e exigente da fé vivida como compromisso e tendo em vista a política, entendida por sua vez como construção de direitos. A partir dessa chave, ele leu Cuba sem exotismo e devolveu ao público brasileiro um repertório de experiências concretas em educação, saúde, cultura e cooperação econômica que indiretamente retornam nos programas que se sucederam aos governos do PT.

O ponto de inflexão dessa ponte é conhecida e continua indispensável para novos leitores. Em Fidel e a religião, Frei Betto registra quatro dias de conversa, vinte e quatro horas de gravação e um esforço raro de tradução entre dois vocabulários que a Guerra Fria costumou apresentar como antagônicos: de um lado, o socialismo cubano, do outro uma teologia cristã orientada pela opção preferencial pelos pobres. Ao organizar perguntas, tensionar respostas e abrir margem para nuances, o livro impede o leitor de se refugiar em slogans. Fica claro que a divergência cubana não era com a fé em si, mas com o poder dos privilégios. Fica evidente que uma parte relevante dos cristãos latino-americanos leu o evangelho como convite a fazer política pública de base. Fidel e a religião tornou visível esse encontro e continua sendo porta de entrada para quem deseja discutir Cuba com precisão e sem caricatura. É também um convite a ler o livro hoje, como um serviço ao debate público brasileiro.

Seu outro livro, Paraíso perdido: viagens ao mundo socialista, funciona como o contraponto necessário. Se no primeiro título Fidel tem a palavra, aqui predomina a voz do repórter que percorreu por décadas escolas, bibliotecas, postos de saúde, fábricas e salas de reunião. O olhar se fixa no detalhe verificável: rotinas de aula, formação de professores, campanhas de alfabetização, desenho territorial do atendimento em saúde, práticas de prevenção, arranjos de cooperação internacional. O que surge não é um álbum de idealizações, mas um inventário de soluções construídas com poucos recursos e muita organização. Ao recomendar explicitamente a leitura de ambos, este texto defende que as obras, combinadas, permitem enxergar a ilha por dentro e escapar dos atalhos de opinião que tantas vezes intoxicam a conversa brasileira sobre Cuba.

As cenas documentadas por Frei Betto ajudam a entender por que sua intermediação ganhou respeito nas duas margens. No início dos anos 1990, em plena crise do socialismo real, a presença de Fidel no Rio de Janeiro durante a Eco 92 e a Cúpula Ibero-Americana foi acompanhada pela formação de rodas privadas com intelectuais e artistas brasileiros. Houve também manifestações nas ruas. O frade registrou as conversas e o clima no interior de um auditório apertado, onde cerca de quarenta nomes do pensamento e da cultura ouviram e perguntaram com franqueza. Do lado de fora, bandeiras e cartazes indicavam que havia público disposto a compreender a ilha sem folclore. O método de Frei Betto é sempre o mesmo: observar, anotar, comparar, perguntar o que pode ser adaptado ao Brasil e o que não deve ser copiado. A partir daí, produzir texto claro que acenda luz sobre resultados.

Em outro momento, já na década seguinte, Frei Betto acompanhou em Cuba visitas a presídios e equipamentos comunitários. A comparação com o Brasil aparece de modo incômodo para nós. Na ilha, a ênfase na dignidade do interno, na visitação regular, na formação escolar e profissional; no Brasil, a marca de chacinas e rotinas desumanas que explodiram em episódios como o Carandiru. O contraste é pedagógico, mostrando que políticas penais são escolhas e que há alternativas comprovadas para reduzir reincidência e violência. No campo da saúde, a mesma lógica: Cuba exporta médicos e conhecimento, coopera com países do Sul, trata a prevenção como política de Estado. O frade puxa o fio que nos interessa: Por que parte dessas soluções não é sequer considerada nos grandes centros urbanos brasileiros com orçamento robusto? A resposta exige lidar com o desenho de governança, prioridades orçamentárias e cultura de avaliação, temas que costumam sumir na arena da polêmica fácil, mas que ele se esforçou em construir institucionalmente, principalmente nos governos petistas.

A educação aparece como eixo recorrente de aprendizado. Frei Betto descreve uma política que valoriza o professor, estabelece rotinas de estudo, associa escola e vida comunitária e monitora resultados a longo prazo. Em vez de generalidades, relata calendários, materiais, estratégias de formação continuada, modos de envolver famílias e territórios. Ao trazer esse repertório para o Brasil, desloca o debate do moralismo ideológico e o devolve ao terreno em que a cidadania se mede — acesso, permanência, aprendizado. A lição é simples e dura: sem continuidade de investimento, sem carreira docente digna, sem escola como centro de vida local, o país oscila entre entusiasmos passageiros e frustrações recorrentes.

No plano econômico, a cooperação se plasmou em iniciativas como o complexo portuário de Mariel (governo Dilma Rousseff). Ali se condensaram ambições de reposicionamento logístico, geração de empregos qualificados e criação de cadeias produtivas capazes de sustentar crescimento com soberania. Frei Betto acompanhou o processo com atenção particular à formação da força de trabalho e ao papel de sistemas de apoio empresarial e educação técnica. A mensagem que atravessa suas páginas serve a ambos os países. As grandes obras pedem redes de pequenas e médias iniciativas, e pedem gente preparada para operar e inovar. Sem isso, o concreto se torna monumento oco.

Há momentos de forte densidade simbólica, que explicam a adesão de públicos muito distintos ao texto de Frei Betto. Em uma visita, Betto participa da missa celebrada por Leonardo Boff à beira do Caribe, evento que reuniu brasileiros, cubanos, crentes, agnósticos e comunistas em um mesmo ritual de comunhão. O registro não busca o impacto do inusitado, antes aponta para o que a Teologia da Libertação sempre tentou praticar, a fé como linguagem pública de solidariedade. Em outro episódio, narrado e analisado por mim, a representação de uma escultura de Dom Quixote e Sancho Pança na casa de uma liderança da ilha sugere ao frade uma alegoria: são Fidel e Raul representados nessa imagem; o sonho e pragmatismo como pares que caminham juntos na construção de um projeto nacional. Ao lado dessas imagens, multiplicam-se reuniões discretas, telefonemas e convites que fazem de Frei Betto um interlocutor de confiança para tratar desde temas de agenda educacional até questões humanitárias específicas.

Entre Havana e Brasília, sua mediação assume contornos de diplomacia cultural, nos lançamentos editoriais, em exibições de cinema na Casa das Américas, em congressos pedagógicos, em audiências com gestores e em encontros com comunidades católicas locais. Essa circulação é sustentada por uma ética da escuta e por uma escrita que não finge neutralidade, mas recusa desonestidades. O frade declara de onde fala e submete sua posição a fatos verificáveis. É por isso que suas páginas resistem ao tempo e nelas há menos proclamação e mais investigação. Esse padrão é especialmente visível quando o tema inclui o bloco latino-americano de solidariedade que conectou Cuba a experiências brasileiras nos ciclos progressistas, entre elas a cooperação em saúde, missões médicas, intercâmbios acadêmicos, formação técnica, projetos de infraestrutura e redes culturais entre 2011 e 2016.

O leitor atento perceberá que o retrato de Jesus que orienta a teologia de Frei Betto opera como fio interno de sua pauta, não se trata de um Cristo desidratado pela lógica de mercado, mas de um Cristo cuja vida se alinha a políticas concretas de cuidado. Ao aproximar essa imagem da experiência cubana, o autor não suspende as diferenças entre Igreja e Estado nem cede a idealizações fáceis. Ele observa que há convergências práticas que importam como: alfabetizar, vacinar, oferecer portas de trabalho e de estudo, proteger vulneráveis. Ao mesmo tempo, reconhece limites, gargalos e erros. É esse equilíbrio que nos permite perceber coisas novas e formar juízo com base em evidências.

No Brasil, esse repertório entrou na agenda de diferentes maneiras, como argumento a favor de políticas universais e de cooperação Sul-Sul nos planos federal, estadual e municipal, como insumo de debates acadêmicos e editoriais que atualizaram a compreensão da América Latina para novas gerações, uma inspiração concreta para redes sociais e comunitárias de solidariedade que sustentaram ações de base em territórios vulneráveis. Frei Betto foi ponte para todas essas escalas, fez circular ideias, fortaleceu vínculos, chamou pessoas e instituições à responsabilidade pública.

A figura do mediador bem quisto em Cuba não nasceu do acaso, é fruto de biografia e coerência. Comunidades eclesiais de base, enfrentamento à ditadura, fundação de partido, fidelidade a uma ética pública que conjuga evangelho e direitos. Quando atravessa o Caribe, Frei Betto não se apresenta como turista político nem como fiscal de uma moral abstrata. Ele chega com perguntas, retorna com relatos, oferecendo um mapa de como ideias viram políticas, e de como políticas mudam vidas no ritmo das coisas reais. A consequência prática desse labor é percebida em agendas tão distintas quanto o combate à fome, a governança de sistemas de saúde e educação, o debate penal e o planejamento de infraestrutura.

Ao final, o balanço proposto neste texto é preciso: a ponte entre Cuba e o Brasil não é metáfora, é um corredor de políticas, livros, pessoas e práticas que já produziu resultados e que ainda pode produzir muitos outros. O que a obra de Frei Betto indica é que esse corredor se sustenta quando é percorrido sem arrogância, com escuta e com preferência pelos últimos. Isso significa assumir escolhas orçamentárias, proteger instituições públicas das soluções unicamente de curto prazo e seguir avaliando, corrigindo e melhorando. Significa também insistir em que a solidariedade latino-americana não é saudação retórica, mas projeto cotidiano.


Nota do autor: Este texto nasce de minha tese de doutorado Representações de Cuba em setores da esquerda brasileira, a partir da experiência das “brigadas solidárias”: vínculos, compromissos e solidariedade. A pesquisa reconstrói a presença de Cuba no imaginário de setores da esquerda no Brasil, analisa a prática das brigadas solidárias e discute, a partir de documentação, entrevista, observação participante e etnografia, como mediadores como Frei Betto produziram vínculos duradouros entre fé, política e políticas públicas.

Referências

CAMURÇA, Rodrigo Ayres Almeida. Representações de Cuba em setores da esquerda brasileira, a partir da experiência das “brigadas solidárias”: vínculos, compromissos e solidariedade. Tese (Doutorado em Ciências Sociais), Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.

BETTO, Frei. Fidel e a religião: conversas com Frei Betto. São Paulo: Brasiliense, 1986.

BETTO, Frei. Paraíso perdido: viagens ao mundo socialista. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

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Rodrigo Ayres Almeida Camurça é mestre em Ciências Sociais pelo PPG-CSO/UFJF e doutor em Ciências Sociais pelo PPCIS/UERJ.




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