COP30, mercados verdes e os limites do ecocapitalismo
Marcha Global pelo Clima 2025. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Por Henrique Tahan Novaes
Os capitalistas estão deixando uma “bomba-relógio” nas mãos dos trabalhadores, que inclusive pode inviabilizar uma possível, urgente e necessária construção de uma sociedade para além do capital.
Inúmeros relatórios produzidos pela ONU desde os anos 1970 e denúncias científicas de pesquisadores — alguns dourando a pílula, outros “botando o dedo na ferida” da questão ambiental — trazem evidências de que o modo de produção capitalista pode ser agora chamado de modo de destruição capitalista.
Estamos colhendo os péssimos frutos das três Revoluções Industriais, na forma de uma “vingança da natureza”, como diria Engels. Existem poucos indícios de que o “afastamento das barreiras naturais” — expressão usada por Lukács em Para uma ontologia do ser social — tenha melhorado significativamente as condições de vida e de trabalho do grosso da população. O sociometabolismo destrutivo do capital, ancorado na superexploração da natureza, na exploração-alienação do trabalho e num poderoso complexo militar, coloca agora em risco a sobrevivência da humanidade e dos ecossistemas.
O fetiche do progresso técnico cria a ilusão de que novas tecnologias serão criadas para resolver os problemas decorrentes da própria reprodução do capital. Na outra ponta, técnicas de indução do consumo (obsolescência programada e criação de novos produtos) fazem o sociometabolismo do capital vomitar diariamente mercadorias e mais mercadorias, pois o capital precisa se autovalorizar sem parar. Para dar apenas um exemplo, o celular que compramos hoje, da noite pro dia, se torna “velho”.
Enquanto isso, não só em países de capitalismo dependente (chamados por aí de “subdesenvolvidos”), mas também nos países chamados “desenvolvidos” (em sua grande maioria imperialistas), as políticas neoliberais acirram as contradições socioambientais e colocam boa parte da classe trabalhadora em trabalhos precários, escolas públicas degradadas, casas inabitáveis, sem saneamento básico e condições mínimas de vida e de trabalho.
Não poderia ser pior o contexto de realização da COP30 no Brasil: no ano de 2025 tivemos a aprovação do PL da Devastação, liberação de mais e mais agrotóxicos, início da prospecção para exploração de petróleo na Foz do Amazonas e o aniversário de 10 anos dos crimes da Vale do Rio Doce em Mariana e Bento Rodrigues.
Do mato da COP30 não sairá nenhum cachorro. Ao contrário, a COP 30 é um grande balcão de negócios “verdes” do grande capital. Como dizia István Mészáros, a reprodução do capital só “desloca as suas graves contradições para frente”, aumentando o rombo ambiental que será deixado pelos capitalistas no colo da classe trabalhadora.
Não haverá a criação de um sociometabolismo integrado com a natureza num mundo controlado por grandes empresas transnacionais, tendo por trás Estados imperialistas. Não haverá transição energética num mundo controlado pela extrema direita e que caminha para a implementação reiterada de novas rodadas de neoliberalismo. Não haverá metas de transição num mundo comandado por Trumps e Mileis, que acreditam que a pauta ambiental é invenção de ONGs esquerdistas e de marxistas.
A luta organizada de parcelas dos povos da floresta, quilombolas, indígenas, campesinos e trabalhadores teve lugar na “Cúpula dos povos”, que se reuniu em Belém entre 12 e 16 de novembro de 2025. Sua Carta Final deu o seguinte recado:
“O avanço da extrema direita, do fascismo e das guerras ao redor do mundo exacerba a crise climática e a exploração da natureza e dos povos. Os países do norte global, as corporações transnacionais, e as classes dominantes são os maiores responsáveis por essas crises. Saudamos a resistência e nos solidarizamos com todos os povos que estão sendo cruelmente atacados e ameaçados pelas forças do império estadunidense, Israel e seus aliados da Europa. Há mais de 80 anos, o povo palestino tem sido vítima de genocídio praticado pelo Estado sionista de Israel, que bombardeou a faixa de Gaza, deslocou pela força milhões de pessoas e matou dezenas de milhares de inocentes, a maioria crianças, mulheres e idosos. Nosso repúdio total ao genocídio praticado contra a Palestina. Nosso apoio e abraço solidário ao povo que bravamente resiste, e ao movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS).
Ao mesmo tempo, no mar do Caribe, os Estados Unidos intensificam sua presença imperial. Fazem-no expandindo operações conjuntas, acordos e bases militares, em conluio com a extrema direita, sob o pretexto de combate ao narcotráfico e ao terrorismo, como com a operação recém anunciada ‘Lança do Sul’. O imperialismo segue ameaçando a soberania dos povos, criminalizando movimentos sociais e legitimando intervenções que historicamente serviram aos interesses privados na região. Nos solidarizamos à resistência da Venezuela, Cuba, Haiti, Equador, Panamá, Colômbia, El Salvador, República Democrática do Congo, Moçambique, Nigéria, Sudão, e com os projetos de emancipação dos povos do Sahel, Nepal e de todo o mundo.
Não há vida sem natureza. Não há vida sem a ética e o trabalho de cuidados. Por isso, o feminismo é parte central do nosso projeto político. Colocamos o trabalho de reprodução da vida no centro, é isso que nos diferencia radicalmente dos que querem preservar a lógica e a dinâmica de um sistema econômico que prioriza o lucro e a acumulação privada de riquezas.
Nossa visão de mundo está orientada pelo internacionalismo popular, com intercâmbios de conhecimentos e saberes, que constroem laços de solidariedade, lutas e de cooperação entre nossos povos. As verdadeiras soluções são fortalecidas por esta troca de experiências, desenvolvidas em nossos territórios e por muitas mãos.”
A luta pela construção de um sociometabolismo coerente com os limites da “natureza” pode ser observada também nas demandas da Via Campesina, que participou da programação da Cúpula dos Povos em Belém no dia 13 de novembro. Sem soberania alimentar, não há produção de alimentos sem venenos. Ao contrário, o grande capital industrializa e financeiriza a agricultura produzindo commodities, e não alimentos. A expansão do capital na agricultura passa por cima de pequenos produtores, agricultores familiares, alimenta a fome do capital de se autovalorizar e mercantiliza territórios ainda não penetrados pelas relações capitalistas. Na melhor das hipóteses, subordina os pequenos produtores e movimentos sociais do campo à lógica do capital.
Nos anos 1970, em grande parte devido ao avanço das teorias feministas classistas, descobrimos que o modo de produção capitalista é também modo de reprodução. Além disso, graças aos avanços das teorias ecossocialistas e de pesquisas materialistas, descobrimos que o capitalismo é também um modo de destruição.
A reprodução do capital é uma forma de tirania da produção. Para salvar sua pele, a ditadura do capital financeiro cria algumas maquiagens, como créditos de carbono, fundos para “países em desenvolvimento” e para as florestas tropicais — iniciativas que, contudo, não tocam nem podem tocar nos fundamentos da sociedade baseada na exploração do trabalho e na superexploração da natureza.
Em dias de tempestade, não adianta abrir um guarda-chuva. O grande capital está claramente tapando o sol com a peneira e a COP30 é a demonstração clara da falência das propostas dos capitalistas para os graves problemas criados pelo capital.
Estamos assistindo às cenas da nova fase da decadência ideológica para a grave questão ambiental: frente aos problemas socioambientais profundos, soluções epiteliais que na melhor das hipóteses criam mercados verdes e contribuem ainda mais para financeirizar o meio ambiente.
Certa vez perguntaram a Pepe Mujica o que era melhor: “Dar o peixe ou ensinar a pescar?” Ele respondeu de forma magistral: “Os rios secaram, os peixes estão contaminados com mercúrio.”
É urgente a construção de uma sociedade onde os produtores livremente associados decidam o que produzir, como produzir e para que produzir, dentro dos limites suportáveis para o planeta Terra.
A conquista dos meios de produção é condição necessária, mas não suficiente. Ao lado da conquista dos meios de produção, é necessário o controle da produção e reprodução da vida, isto é, o autogoverno dos produtores e das produtoras conduzido pelo movimento dos atingidos pelo capital — em outras palavras, uma grande unidade na diversidade de uma enorme quantidade de lutas que neste início de século XXI encontram-se ainda dispersas, fragmentadas e pulverizadas, em geral com demandas específicas e dentro da ordem do capital.
O comunismo ecológico, também chamado de ecossocialismo, é a única alternativa para que a humanidade possa viver em harmonia com a “natureza”. Na falta disso, o sociometabolismo destrutivo do capital continuará perpetuando crimes ambientais e a destruição das condições de vida na Terra. Afinal, como disse o velho sábio Chico Mendes: “Ecologia sem luta de classes é jardinagem.”
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Henrique Tahan Novaes é docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Marília. Foi coordenador da pós-graduação em Educação de 2022 a 2024. Além de A educação ambiental anticapitalista, publicado pela Boitempo em 2025, é autor dos livros Mundo do trabalho associado e embriões de educação para além do capital (Lutas Anticapital, 2018), O fetiche da tecnologia – a experiência das fábricas recuperadas (Expressão Popular, 2007) e Reatando um fio interrompido – a relação universidade movimentos sociais na América Latina (Expressão Popular, 2012), que foram também publicados em inglês, espanhol e italiano.
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A educação ambiental anticapitalista: produção destrutiva, trabalho associativo e agroecologia, de Henrique Tahan Novaes
O livro apresenta as ideias mais importantes sobre agroecologia, produção associada, ecossocialismo e pedagogia socialista no Brasil e no mundo, juntamente com práticas de movimentos sociais, enfatizando o trabalho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. Com uma visão abrangente, o autor explora diferentes práticas ecorrevolucionárias, aborda os cercamentos de terra ocorridos ao longo do século XX e XXI, traz como referência autores importantes como Karl Marx e István Mészáros e entrelaça a importância da educação agroecológica em um processo de transformação da sociedade: “A síntese resultante é única em sua fundamentação na luta pela própria terra, combinada com uma visão ampla da mudança ecológica e social revolucionária”, escreve John Bellamy Foster no prefácio da obra.


O capital no Antropoceno, de Kohei Saito
Qual é a relação entre capitalismo, sociedade e natureza? Em O capital no Antropoceno, o filósofo japonês Kohei Saito propõe uma interpretação dos estudos de Karl Marx frente aos problemas ambientais que enfrentamos no século XXI. A mensagem central da obra é que o sistema capitalista dominante, de alta financeirização e busca ilimitada do lucro, está destruindo o planeta, e só um novo sistema, pautado pelo decrescimento, com a produção social e a partilha da riqueza como objetivo central, é capaz de reparar os danos causados até aqui.
Do mesmo autor: O ecossocialismo de Karl Marx
Terra viva, de Vandana Shiva
Autora de importantes obras que discutem os ataques ao meio ambiente por grandes empresas e o efeito desastroso de um mau uso do solo, a doutora em física quântica e ativista ambiental Vandana Shiva faz nesse livro uma volta a suas raízes, revendo uma trajetória que acabaria por definir os movimentos em que se engajou. Assim, ela aborda fases como a infância rural vivida na Índia, sua criação na fazenda dos pais em meio às florestas, a educação libertária que recebeu deles, passando pela mudança de vida e de perspectiva que teve ao entrar na faculdade e viver em grandes centros urbanos na Índia e no exterior. Tudo isso culminando na descoberta dos movimentos de luta em defesa da natureza e dos povos nativos e de sua influência na política ambiental mundial.


Abundância e liberdade, de Pierre Charbonnier
Investigação filosófica sobre as raízes do pensamento político moderno e seu impacto na crise ecológica. O autor desafia o paradigma do progresso ilimitado e explora a relação entre a abundância material e a busca pela liberdade. Uma reflexão essencial para a compreensão do presente e do futuro.
Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico, organizado por Laura Luedy
Não é de hoje que a ciência faz previsões alarmantes em relação ao cenário ecológico desenhado pelo modo de produção dominante ao redor do mundo. Só mais recentemente, porém, as evidências disso têm se imposto à nossa experiência sensível mais cotidiana. A obra organizada pela socióloga marxista Laura Luedy, traz ao público dez textos inéditos de diferentes pensadoras e pensadores que tratam da questão indo à sua raiz. Suas reflexões vão além das abordagens do ambientalismo mainstream e colocam o dedo na ferida do capitalismo. Afinal, é possível evitar o colapso ecológico planetário sem desmontar o arranjo social que governa nossa relação com a natureza?
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