Resgatar a tradição dos oprimidos: sobre uma tese de Walter Benjamin

“Soldados avançando após ataque de gás” (1924), gravura de Otto Dix pertencente à série “A guerra”. Imagem: WikiCommons.
Por Michael Löwy
TESE VIII
“A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ no qual vivemos é a regra. Precisamos chegar a um conceito de história que dê conta disso. Então surgirá diante de nós nossa tarefa, a de instaurar o real estado de exceção; e graças a isso, nossa posição na luta contra o fascismo tornar-se-á melhor. A chance deste consiste, não por último, em que seus adversários o afrontem em nome do progresso como se este fosse uma norma histórica. — O espanto em constatar que os acontecimentos que vivemos ‘ainda’ sejam possíveis no século XX não é nenhum espanto filosófico. Ele não está no início de um conhecimento, a menos que seja o de mostrar que a representação da história donde provém aquele espanto é insustentável.“
— Walter Benjamin, “Sobre o conceito de história”
Benjamin confronta, aqui, duas concepções da história — com implicações políticas evidentes para o presente: a confortável doutrina “progressista”, para a qual o progresso histórico, a evolução das sociedades no sentido de mais democracia, liberdade e paz, é a norma, e aquela que ele afirma ser seu desejo, situada do ponto de vista da tradição dos oprimidos, para a qual a norma, a regra da história é, ao contrário, a opressão, a barbárie, a violência dos vencedores.
As duas concepções reagem de maneira diametralmente oposta ao fascismo. Para a primeira, trata-se de uma exceção à regra do progresso, uma “regressão” inexplicável, um parêntese na marcha avante da humanidade. Para a segunda, a expressão mais recente e mais brutal do “estado de exceção permanente” que é a história da opressão de classe. Sem dúvida, Benjamin foi influenciado pelas ideias de Carl Schmitt em Teologia política — uma obra pela qual ele tinha muito interesse — principalmente por sua identificação entre soberania — seja monárquica, ditatorial ou republicana — e estado de exceção: soberano é aquele que tem o poder de decisão no estado de exceção. Esse tema encontra-se em Origem do drama barroco: depois de ter citado C. Schmitt, W. Benjamin observa, a propósito da contrarreforma: “No estado de exceção, quando ocasionado pela guerra, pela revolução ou por outras catástrofes, o príncipe reinante é imediatamente designado a exercer o poder ditatorial.” Algumas páginas depois, acrescenta: “A teoria da soberania, para a qual o caso de exceção, ao desenvolver instâncias de ditadura, torna-se exemplar, quase obriga que a imagem do soberano se realize no sentido do tirano.” Essas observações dos anos 1920, sem dúvida, estavam presentes em seu espírito quando refletiu, em 1940, sobre a natureza do III Reich1.
Essa visão das coisas permite situar o fascismo na continuidade do cortejo dos vencedores como cabeça de Medusa, fisionomia suprema e última da barbárie recorrente dos poderosos. Mas ela tem o grande defeito de não ressaltar a inovação do fascismo — principalmente em sua variante hitlerista — em relação às formas antigas de dominação: o que a Escola de Frankfurt denominará “a administração total”, e Hannah Arendt o totalitarismo. É preciso dizer, em defesa de Benjamin, que as manifestações mais características dessa inovação histórica — o sistema relativo aos campos de concentração, as indústrias da morte, o extermínio industrial dos judeus e dos ciganos — somente vão se desenvolver com toda sua força aterrorizante após sua morte, ao longo dos anos 1941-1945.
Um dos trunfos do fascismo, salienta Benjamin, é a incompreensão que seus adversários manifestam em relação a ele, inspirados pela ideologia do progresso. Trata-se, obviamente, da esquerda, como ele explicita em uma das notas preparatórias2. Dois exemplos permitem ilustrar o que quer dizer o autor das teses.
Para a social-democracia, o fascismo era um vestígio do passado, anacrônico e pré-moderno. Karl Kautsky, em seus escritos dos anos 1920, explicava que o fascismo somente seria possível em um país semiagrário como a Itália, mas jamais poderia se instalar em uma nação moderna e industrializada como a Alemanha…
Quanto ao movimento comunista oficial (stalinista), estava convencido de que a vitória de Hitler em 1933 era efêmera: uma questão de poucas semanas ou meses, antes que o regime nazista fosse varrido pelas forças operárias e progressistas, sob a direção esclarecida do KPD (partido comunista alemão).
Benjamin compreendeu perfeitamente a modernidade do fascismo, sua relação íntima com a sociedade industrial/capitalista contemporânea. Daí sua crítica àqueles — os mesmos — que se espantam com o fato de que o fascismo “ainda” seja possível no século XX, cegos pela ilusão de que o progresso científico, industrial e técnico seja incompatível com a barbárie social e política. Esse espanto não é o taumazein de Aristóteles, fonte de todo o conhecimento filosófico: leva apenas à incompreensão do fascismo e, portanto, ao erro.
Precisamos, observa Benjamin em uma das notas preparatórias, de uma teoria da história a partir da qual o fascismo possa ser desvendado (gesichtet) (GS I, 3, p. 1244). Somente uma concepção sem ilusões progressistas pode dar conta de um fenômeno como o fascismo, profundamente enraizado no “progresso” industrial e técnico moderno que, em última análise, não era possível senão no século XX. A compreensão de que o fascismo pode triunfar nos países mais “civilizados” e de que o “progresso” não o fará desaparecer automaticamente permitirá, pensa Benjamin, melhorar nossa posição na luta antifascista. Uma luta cujo objetivo final é o de produzir “o verdadeiro estado de exceção”, ou seja, a abolição da dominação, a sociedade sem classes3.
Esse “estado de exceção” utópico é prefigurado por todas as revoltas e sublevações que interrompem apenas por um breve momento o cortejo triunfante dos dominantes. Ele encontra também uma prefiguração lúdica — e até mesmo grotesca — em algumas festas populares, como o carnaval: Benjamin concorda, nesse caso, com Bakhtin. Em um conto dos anos 1920, publicado em francês com o título “En regardant passer le corso” [Observando o corso passar], ele escreve: “O carnaval é um estado de exceção. Um derivado dos antigos saturnais durante os quais o superior e o inferior trocavam de lugar e em que os escravos eram servidos por seus senhores. Ora, um estado de exceção não pode ser definido precisamente, senão em oposição total a um estado ordinário.”4
A diferença é que o parêntese carnavalesco era apenas um derivativo e os mestres retomavam seu lugar — “no alto” — quando a festa terminava. Evidentemente, o objetivo do “verdadeiro estado de exceção” é outro, nele não existiria mais nem “superior” nem “inferior”, nem senhores nem escravos.
* Este é um trecho de Walter Benjamin: aviso de incêndio, livro que destrincha na íntegra as famosas teses benjaminianas “Sobre o conceito de história”, escritas pouco antes da morte do filósofo judeu-alemão em 1940 e consideradas por Michael Löwy como seu “testamento filosófico”. A tradução das teses aqui citadas é de Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller.
Notas
- W. Benjamin, Les origines du drame baroque allemand (Paris, Flammarion, 1985), p. 66-70. Em dezembro de 1930, Benjamin enviara seu livro a C. Schmitt, acompanhado de uma carta manifestando sua admiração (Hochschätzung) e reconhecendo a influência de suas obras sobre o Trauerspielbuch (GS I, 3, p. 887). ↩︎
- “A superioridade [do fascismo] sobre a esquerda acha sua expressão — e não é das menores — no fato de que ela se opõe a ele em nome da norma histórica, de uma espécie de constituição histórica média” (GS I, 3, p. 1246). ↩︎
- Podemos considerar, como Rainer Rochlitz — cujo livro contém constatações interessantes, principalmente no que diz respeito às ideias estéticas de Benjamin — que esse objetivo é utópico e irrealista, e criticar o autor das teses por sua recusa obstinada em confiar nas “modificações graduais”, nas mudanças inevitavelmente “sobrecarregadas de compromissos e de acordos” da social-democracia. Mas atribuir-lhe, na tese VIII, “o recurso a uma política autoritária, indissociável do conceito de estado de exceção criado por Carl Schmitt” resulta de mal-entendido (cf. R. Rochlitz, Le désenchantement de l’art: la philosophie de Walter Benjamin, Paris, Gallimard, 1992, p. 271). Benjamin aspira precisamente, com todas as suas forças, à verdadeira exceção, ao fim dos poderes autoritários, aos antípodas de todos os “estados de exceção” no sentido de Carl Schmitt. ↩︎
- W. Benjamin, Rastelli raconte… et autres récits s (Paris, Seuil, 1987). ↩︎
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Michael Löwy é diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), autor de Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014), Estrela da manhã: marxismo e surrealismo (2018), O caderno azul de Jenny: a visita de Marx à Comuna de Paris (2021) e Marx, esse desconhecido (2023). Junto com Júlia Câmara, organizou o Manifesto por uma revolução ecossocialista (2025), publicado pela Boitempo com apoio da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco.
PARA SE APROFUNDAR NA OBRA DE WALTER BENJAMIN
O capitalismo como religião, de Walter Benjamin
Esta antologia, organizada por Michael Löwy, reúne textos escritos entre 1912, quando Benjamin toma parte no “Jugendbewegung” (movimento de juventude), do qual se distancia no início da Primeira Guerra Mundial, até seus anos mais decididamente militantes, passados no exílio, de 1933 a 1940. Trata-se de mostrar como Benjamin soube unir, na sua rejeição contundente ao capitalismo, impulsos oriundos tanto do romantismo alemão quanto do messianismo judaico e do marxismo libertário.
O ensaio que dá título ao livro, “O capitalismo como religião”, é um dos fragmentos mais intrigantes de Benjamin, escrito em 1921. Apesar de contar com apenas cinco páginas, incluindo notas e referências bibliográficas, ele revela como o capitalismo se tornou uma religião cultual, sem piedade ou trégua, que leva a humanidade para a “casa do desespero”. Para Maria Rita Kehl, que assina a orelha do livro, esse texto ilumina o sentido da melancolia benjaminiana: a sensação de que a ação política, assim como as outras dimensões da vida, estaria dominada pelo culto permanente da vida sob o capitalismo. “Benjamin entendeu a melancolia como efeito da anulação da potência política do indivíduo e sua classe social. A ‘coloração religiosa’ que o capitalismo imprimiu ao utilitarismo parece anular a perspectiva de transformação histórica. Daí a seleção de registros de experiências pré-capitalistas, assim como de textos que revelam o espanto de vários escritores diante da devastação em curso nos séculos XVIII e XIX: é no passado que Benjamin vai buscar indícios de diferença capazes de contradizer sua própria visão sombria do futuro”, afirma a psicanalista.
Segundo Jeanne Marie Gagnebin, entre os textos aqui reunidos, também deve ser mencionada a importância dos escritos ligados à redação da tese de livre-docência sobre a origem do drama barroco alemão assim como de várias resenhas de Benjamin, que tentam questionar o presente por uma retomada crítica da tradição histórica e literária. Já o artigo sobre o Instituto Alemão de Livre Pesquisa, escrito em 1937, esclarece a diferença entre a teoria crítica e o pragmatismo em voga nos Estados Unidos, onde Theodor Adorno e Max Horkheimer encontravam-se exilados.
Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin
Um diálogo extremamente atual entre duas grandes mentes do século XX. Uma coletânea única de ensaios sobre a obra dramática e poética de Bertolt Brecht. O filósofo conceitua o teatro épico, discute Marx e sátira, e revela trechos de sua intensa correspondência com Brecht exilado na Dinamarca.
Walter Benjamin: aviso de incêndio, de Michael Löwy
Uma análise erudita das teses de Walter Benjamin sobre o conceito de história, revelando sua riqueza de ideias e influências. O autor destrincha a complexidade das ideias de Benjamin, que articulou influências contraditórias e construiu uma síntese das relações da humanidade com o tempo.
Margem Esquerda #34 | Motins
Em meio a um cenário global marcado pela sobreposição de crises políticas, econômicas e sanitárias, esta edição da revista Margem Esquerda, publicação semestral da Boitempo, se propõe a analisar os impasses e as potencialidades da atual encruzilhada a partir dos motins e insurreições que irrompem no horizonte social. É esse eixo que articula textos de fôlego de Anselm Jappe, David Harvey, Tithi Bhattacharya, Carlos Eduardo Martins, Noam Chomsky, Rejane Carolina Hoeveler, Maria Beatriz Oliveira da Silva, Thomaz Delgado e Michael Löwy, que assina o ensaio “Walter Benjamin e José Carlos Mariátegui: dois marxistas dissidentes contra a ideologia do ‘progresso’”. O dossiê de capa, Crise, neoliberalismo e insurreições populares, coordenado por Luiz Felipe Osório, é costurado por um poderoso ensaio visual da artista plástica chilena Sandra Vásquez de la Horra.
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