Um dos capítulos mais lindos do romance brasileiro do século XX

“Eternos caminhantes”, de Lasar Segall (1919). Imagem: Acervo de Obras – Museu Lasar Segall (Wikimedia Commons)
Por Adelaide Ivánova
Em 1940, o piauiense Permínio Asfora (1913‑2001), primeiro escritor brasileiro de origem palestina a publicar um romance, lançou seu livro de estreia, Sapé. O livro partia da conjuntura política da Paraíba naquela época para emoldurar a situação dos trabalhadores nos algodoais e sua luta pela terra — numa escrita intuitiva, poética e não linear que escandalizou a crítica não apenas pelo seu explosivo teor político, mas mais ainda pelo seu estilo.
Ao ler este belíssimo Sabor de química, romance também de estreia de Roniwalter Jatobá, publicado em 1976, não pude deixar de pensar em Sapé. Como Asfora, Jatobá se aproxima do gesto de escrita-mosaico para traçar um paralelo emocionante entre aquilo que se deixa e aquilo que se encontra quando se é um trabalhador emigrado. Fico me perguntando, genuinamente curiosa, como o livro escapou de ser moído pela censura (Sapé não teve a mesma sorte, sendo interditado pelo DIP 36 anos antes).
Sabor de química se insere na tradição do romance proletário brasileiro, inaugurado aqui por Patrícia Galvão em 1933, com Parque industrial, cuja influência vemos nas suas comoventes páginas. Sentimos, ainda, o sopro inspiracional do realismo mágico de Gabriel García Márquez e de Graciliano Ramos. O resultado dessas influências, mescladas à vida e à força poética do autor, é um “romance de estilhaços” que “trata do que foi feito das esperanças desse enorme contingente de desenraizados”, como bem diz Fernando Bonassi na apresentação a esta edição.
O livro contém o que talvez seja um dos capítulos mais lindos do romance brasileiro do século XX — “Trocato” — e um dos mais tristes, “Ciriaco”. Mas revelar mais sobre o que são seria dar muito spoiler. Espero que esta entusiasmada reflexão seja suficiente para despertar o interesse da leitora indecisa, talvez nesse exato momento em pé numa livraria, lendo este textinho e se perguntando “compro ou não compro?”. Pode confiar: você está prestes a entrar numa história (ou, melhor dizendo, em várias!) contada de uma forma que você nunca leu antes. Boa viagem!
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Adelaide Ivánova é pernambucana, poeta e organizadora comunitária da campanha Deutsche Wohnen und Co. Enteignen, que luta pela expropriação de grandes empresas do aluguel em Berlim, onde mora desde 2011. Publicou, entre outros livros, Asma (Nós, 2024), Chifre (Macondo, 2021) e o martelo (Douda Correria, 2015; Garupa, 2017). Este último, livro de poesia documental que investiga a retraumatização causada por um processo judicial por estupro, venceu em 2018 o prêmio Rio de Literatura na categoria poesia. Mantém a newsletter vodca barata.
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Crônicas da vida operária, de Roniwalter Jatobá
Pioneiro ao mover para o centro da literatura o operário, Roniwalter Jatobá traz em Crônicas da vida operária uma série de textos que reconstrói o universo dos trabalhadores fabris dos anos 1970. Com sensibilidade e rigor textual, o autor explora o intenso fluxo migratório do período, quando milhares de pessoas foram empurradas de seus locais de origem para servir de mão de obra barata para o “milagre econômico brasileiro”.
Paragens, de Roniwalter Jatobá
Migração é a experiência que une os três textos e revela as mazelas de um país marcado por mudanças violentas: do tráfico negreiro às peregrinações cotidianas nas grandes cidades, chegando ao êxodo rural do Norte e Nordeste rumo ao Sul do país. O operário migrante, homens e mulheres comuns que enfrentam as agruras do dia a dia, é o tema central do trabalho de Roniwalter. Este livro reúne três novelas: “Pássaro Selvagem” conta a história de um menino que se muda para a cidade grande, saindo de uma povoação impactada pela construção da rodovia Rio-Bahia. “Paragens”, que dá título ao volume, evoca o mergulho em si mesmo de um personagem que, depois de várias migrações, percorre as ruas inundadas de São Paulo e as estações de trem, até seu destino, que é nenhum. Sua última frase é: “Sigo calado, molhado, bestando”. Já em “Tiziu”, Agostinho Xavier conta sua jornada. Após perder a mão em um acidente de trabalho, se vê solitário na cidade grande. Desesperado pela falta de auxílio que não chega, deixa-se tomar por um arroubo de violência.
Sabor de química, de Roniwalter Jatobá
O campo e a cidade são os polos que se encontram neste livro de estreia de Roniwalter Jatobá. Escrito no fervor da ditadura civil-militar, a obra carrega a característica central que irá marcar todos os demais trabalhos do autor, o de trazer para o centro aqueles que sempre ficaram às margens. Os despossuídos, desenraizados, as ruas de terra com moradias precárias, a falta de saneamento básico, os salários que não chegam ao fim do mês, os transportes públicos lotados e insuficientes e as humilhações corriqueiras aparecem aqui como protagonista de uma literatura que incomoda e chacoalha o leitor.
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