Sobre a importância dos Prolegômenos de Lukács

A Boitempo reproduz abaixo a iniciativa do professor de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Mauricio Vieira, que reforça a importância do livro Prolegômenos para uma ontologia do ser social de György Lukács, lançado em dezembro.

 

Caríssim@s,

Escrevo para destacar a importância do lançamento em português dos Prolegômenos para uma ontologia do ser social, derradeiro texto do filósofo húngaro György Lukács. São tantos os méritos deste escrito lukácsiano tardio – verdadeiro périplo por um conjunto de temas filosóficos fundamentais – que é tarefa ingrata destacar apenas um deles. Mesmo assim, vale mencionar a elaboração feita pelo autor sobre as chamadas categorias modais (necessidade, possibilidade, casualidade); com efeito, o que de início poderia parecer sobretudo uma ‘conversa entre filósofos’, acaba por revelar consideráveis consequências não só para o debate filosófico como também para a ação política. A este respeito, a passagem abaixo é bastante esclarecedora sobre os limites das tentativas em determinar, a partir de um entendimento estreito do que seja a necessidade (situada aqui no âmbito dos processos históricos), o decurso real efetivo:

“… Lassalle sempre fala de uma ‘lei férrea do salário’, em que já se manifesta verbalmente a velha posição central da necessidade. Mas quando Marx, que sempre encarou esta determinação com desdenhosa ironia, começa a falar concretamente no mais-trabalho, este é concebido como o resultado processual de componentes estreitamente ligados, mas heterogêneos entre si, no interior de um complexo social. Marx demonstra aqui que a legalidade interna da economia capitalista só consegue determinar os limites superior e inferior do mais-trabalho (…). A respectiva grandeza concreta é estabelecida, a cada caso, histórica e concretamente, pela luta, pela violência social. … Por razões sócio-ontológicas muito parecidas, a teoria, por longo tempo dominante, da ‘pauperização’ mostra-se uma abstrata construção fetichizante que contradiz a teoria social de Marx . Engels, já antes do predomínio teórico da ‘pauperização’, na Crítica do Programa de Erfurt, protestou contra tal generalização (mais uma vez: necessidade ou realidade como categoria central!) e, assim como Marx, apelou para a força real das organizações de trabalhadores que operavam em sentido contrário.” (pp. 194-195, grifos meus).

Vastas são as consequências teóricas e políticas desta tomada de posição lukácsiana. A reposição do real mundano como centro da tematização filosófica corrige aquelas tendências do marxismo que, em nome de um certo entendimento da ‘necessidade histórica’ findavam por involuntariamente elaborar um peculiar tipo de fatalismo, não importa se mais ou menos sofisticado). Ao fim e ao cabo, tal postura eximia-se de uma análise das contradições do mundo real, aprisionando-as no que o filósofo – para quem o ‘desenvolvimento desigual’ é, no fundo, a forma típica dos processos sociais (p. 226) – chamou alhures de uma camisa de força logicista.

Merece destaque também a seriedade do trabalho realizado pela professora Ester Vaisman, da Universidade Federal de Minas Gerais, responsável pela supervisão editorial do texto. Juntamente com Ronaldo Vielmi Fortes, E.Vaisman escreveu uma esclarecedora Apresentação aos Prolegômenos, bem como várias notas explicativas, úteis não apenas para os estudiosos de Lukács como também para os leitores ainda pouco familiarizados com ele.

Abraços a todos,

Maurício Vieira

 


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2 comentários em Sobre a importância dos Prolegômenos de Lukács

  1. Avatar de Desconhecido remo moreira // 17/11/2012 às 5:36 pm // Responder

    “Prolegomenos para uma ontologia do ser social” e “ontologia do ser social” sao o mesmo livro?

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