Arquivo da categoria: Slavoj Žižek

Žižek: A economia política dos refugiados

Zizek ParisPor Slavoj Žižek.*

Slavoj Žižek responde a seus críticos sobre a crise dos refugiados

O presente artigo pode ser lido como uma continuação do último artigo de intervenção de Slavoj Žižek, Perturbação numa redoma, que reformula o impasse do capitalismo global de hoje à luz do rescaldo dos ataques terroristas do dia 13 de novembro de 2015 em Paris. No entanto, o texto pertence também a um debate maior acerca da dita “crise dos refugiados” na Europa. Nele, Žižek responde diretamente a algumas das críticas que foram feitas à seus posicionamentos polêmicos e apresenta de forma mais extensa alguns dos desdobramentos de sua reflexão sobre o tema. Nas suas palavras: “Tomar o controle da crise de refugiados significará quebrar tabus da esquerda.” A tradução é de Estanislau Alves da Silva Filho, para o Blog da Boitempo. Confira! Continuar lendo

Perturbação numa redoma | Žižek escreve sobre os atentados em Paris

redoma zizekPor Slavoj Žižek.

Sim, os ataques do dia 13 de novembro em Paris devem ser incondicionalmente repudiados, mas… não quero aqui procurar introduzir circunstâncias atenuantes, a questão é que eles devem ser realmente repudiados, e para isso é preciso de mais do que o simples e patético espetáculo de solidariedade por parte de nós, cidadãos “livres”, “democráticos”, “civilizados”, contra o grande monstro assassino muçulmano. Continuar lendo

Žižek: O ateísmo é um legado pelo qual vale a pena lutar

zizek ateismoPor Slavoj Žižek.*

No contexto do lançamento do aguardado O absoluto frágil, ou, porque vale a pena lutar pelo legado cristão, de Slavoj Žižek, recuperamos este artigo do filósofo esloveno que procura reabilitar, da perversa ética multiculturalista do capitalismo contemporâneo, o núcleo emancipatório do ateísmo. Ao invés de se relacionar de forma exterior com a religião – sucumbindo assim à armadilha da “tolerância” –, Žižek subverte a abordagem e propõe levarmos a crença a sério e cobrar dos crentes a responsabilidade sobre aquilo em que creem. É esta perspectiva avessa ao lugar comum que anima também O absoluto frágil, um ensaio explosivo que defende uma aproximação entre o cristianismo e o marxismo num projeto político emancipatório renovado. Nas palavras do esloveno: “O primeiro paradoxo da crítica materialista da religião é este: às vezes é muito mais subversivo destruir a religião a partir de dentro, aceitando sua premissa básica para depois revelar suas consequências inesperadas, do que negar por completo a existência de Deus.” Confira! Continuar lendo

Žižek: não podemos abordar a crise dos refugiados sem enfrentar o capitalismo global

zizekPor Slavoj Žižek.*

“Nós não podemos abordar a crise dos refugiados sem enfrentar o capitalismo global. Os refugiados não chegarão à Noruega. Mas a Noruega que eles procuram sequer existe.”

Em seu estudo clássico On Death and Dying, Elisabeth Kübler-Ross propôs o famoso esquema de cinco estágios de como reagimos ao saber que temos uma doença terminal: negação (a pessoa simplesmente se recusa a aceitar o fato: “Isso não pode estar acontecendo, não comigo.”); raiva (que explode quando já não podemos negar o fato: “Como isso pode acontecer comigo.”); negociação (a esperança de que podemos de alguma forma adiar ou diminuir o fato: “Apenas deixe-me viver para ver meu filho graduado.”); depressão (desinvestimento libidinal: “Eu vou morrer, então por que se preocupar com alguma coisa?”); aceitação (“Eu não posso lutar contra isso, mas eu bem posso me preparar para isso.”). Mais tarde, Kübler-Ross aplicou esses estágios a qualquer forma de perda catastrófica pessoal (desemprego, morte de um ente querido, divórcio, vício em drogas) e enfatizou que eles não acontecem necessariamente na mesma ordem, nem que os cinco estágios são vivenciados por todos os pacientes.

A reação da opinião pública e das autoridades na Europa Ocidental ao fluxo de refugiados da África e do Oriente Médio não teve uma combinação semelhante de reações disparatadas? Houve a negação, agora diminuindo: “Não é tão sério, vamos simplesmente ignorar.” Existe uma raiva: “Os refugiados são uma ameaça ao nosso modo de vida, entre eles escondem-se fundamentalistas muçulmanos, eles precisam ser barrados a qualquer preço”. Há negociação: “Ok, vamos estabelecer quotas e apoiar os campos de refugiados nos seus próprios países!” Há depressão: “Estamos perdidos, a Europa está se transformando em uma Europa-stan.” O que está faltando é a aceitação, o que, neste caso, significaria um consistente plano pan-europeu para lidar com os refugiados.

Então, o que fazer com centenas de milhares de pessoas desesperadas, que esperam no Norte da África, fugindo da guerra e da fome, tentando atravessar o mar e encontrar refúgio na Europa? Continuar lendo

Žižek: Violência policial e violência divina

zizek violência divina e violência policial boitempo1Por Slavoj Žižek.

Em Agosto de 2014, uma onda de protestos violentos explodiu em Ferguson, um subúrbio de St. Louis nos EUA, depois que um policial matou a tiro um adolescente negro desarmado, supostamente suspeito de algum roubo. Ao longo de vários dias, a polícia se viu na tarefa de dispersar e reprimir manifestantes, em larga medida negros também. Ainda que os detalhes do incidente fossem incertos, a maioria da população da cidade, preta e pobre, tomou o acontecimento como mais uma prova da sistemática violência policial contra eles.

Nas favelas e nos guetos norte-americanos, a polícia efetivamente opera cada vez mais como uma força de ocupação – algo que ecoa mesmo a presença das tropas israelenses nos territórios palestinos na Margem Oeste. A própria mídia ficou estarrecida ao constatar que a polícia e o exército compartilhavam inclusive alguns dos mesmos armamentos. A questão é que mesmo quando ações policiais visam tão somente impor paz, disseminar ajuda humanitária, ou organizar medidas médicas, seu modus operandi é o de controle sobre uma população estrangeira. Continuar lendo

Žižek indica 6 livros para entender Hegel

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Slavoj Žižek desenvolve em Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (Boitempo, 2013) a expressão mais sistemática de sua filosofia ao propôr uma inusitada “repetição” do grande filósofo idealista alemão à luz dos atuais impasses do capitalismo global. Perguntado a respeito de quais livros sobre Hegel foram os mais influentes em seus estudos, o esloveno respondeu com a seguinte lista (sem ordem de importância):

L’ envers de la dialectique: Hegel à la lumière de Nietzsche [O avesso da dialética: Hegel à luz de Nietzsche], de Gerard Lebrun

The Persistence of Subjectivity: On the Kantian Aftermath, de Robert Pippin

Hegel Variations: On the Phenomenology of the Spirit, de Fredric Jameson

Mourning Sickness: Hegel and the French Revolution, de Rebecca Comay

The Future of Hegel: Plasticity, Temporality and Dialectic, de Catherine Malabou

In the Spirit of Hegel, de Robert C. Solomon

Quais livros vocês diriam que estão faltando? Que autores e comentadores foram os mais importantes nos seus estudos sobre Hegel, Marx e filosofia alemã?

Já viu o booktrailer de Menos que nada?

E a entrevista de Žižek sobre o livro na Univesp TV:

Žižek passou pelo Roda Viva quando veio lançar o livro aqui no Brasil: (reparem na camiseta que ele escolheu usar no dia!)

Pra encerrar: a aula de Rodnei Nascimento sobre Menos que nada, no Curso de introdção à obra de Slavoj Žižek”, da Boitempo:

Žižek: Um novo começo para a Europa?

Zizek TsiprasPor Slavoj Žižek.

O “NÃO” inesperadamente forte do referendo grego marcou uma resolução histórica, lançada em uma situação de desespero. Em minha obra, frequentemente me valho da conhecida piada soviética da década passada sobre Rabinovitch, um judeu que quer emigrar. O burocrata do departamento de emigração pergunta o motivo, e ele responde: “Bem, há dois motivos. O primeiro é que temo que os comunistas percam o poder aqui na União Soviética, e que consequentemente o novo governo venha a colocar sobre nós, judeus, toda a culpa pelos crimes dos comunistas – inaugurando uma nova leva de pogroms anti-semitas…” “Mas que bobagem”, interrompe o burocrata, “nada vai mudar na União Soviética. O poder dos comunistas durará para sempre!” “Pois então, esse é o meu segundo motivo”, responde Rabinovitch tranquilamente.

Me disseram que uma nova versão dessa piada está agora circulando em Atenas. Um jovem grego visita o consulado australiano na capital grega e solicita um visto de trabalho. “Mas por que você quer sair da  Grécia?” pergunta o funcionário. “Por dois motivos,” responde o grego. “Estou preocupado que a Grécia caia for a da União Européia, que levará a mais miséria e caos no país…” “Mas não se preocupe,” interrompe o sujeito, “a Grécia vai permanecer na União Europeia e se submeter à disciplina financeira.” “Bem,” responde o grego calmamente, “esse é justamente meu segundo motivo.”

Seriam então ambas as escolhas, para parafrasear o camarada Stalin, “escolhas piores”?

Chegou a hora de irmos além dos debates irrelevantes sobre os possíveis enganos e erros de avaliação do governo grego. O que está em jogo agora é simplesmente grande demais para isso.

O fato das tentativas de fechar os termos de uma formula de compromisso sempre acabarem se esvaindo no último momento das negociações em curso entre a Grécia e os gestores da União Europeia já é algo profundamente sintomático. Pois não se trata efetivamente de detalhes financeiros – a diferença, a esse ponto é mínima. A União Europeia acusa os gregos de falarem só em termos mais gerais, fazendo promessas vagas sem detalhes específicos, ao passo que os gregos acusam a União Europeia de tentar controlar seu país até os menores detalhes e impondo condições à Grécia que são mais duras que as impostas no governo anterior. Mas o que espreita essas repreensões é um conflito muito mais profundo.

O primeiro ministro grego Alexis Tsipras recentemente comentou que se ele se reunisse a sós com Angela Merkel para um jantar, eles teriam encontrado uma formula poucas horas. O que ele queria dizer é que ele e Merkel, dois políticos, tratariam o desacordo como uma problema fundamentalmente político. À diferença portanto dos gestores tecnocráticos como Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogroup. Aliás, se há um “malvadão” emblemático nessa história toda é esse sujeito, cujo lema é: “Se eu entrar para o lado ideológico das coisas, não resolverei nada.”

Isso nos traz ao ponto chave da questão: Tsipras e Yanis Varoufakis, o ex-ministro das finanças que renunciou no dia 6 de julho, falam como se eles fossem parte de um processo político aberto em que as decisões são essencialmente “ideológicas” (baseadas em preferências normativas), enquanto os tecnocratas da União Europeia falam como se tudo fosse uma questão de medidas regulatórias detalhadas. Quando os gregos rejeitam essa abordagem e levantam questões mais fundamentalmente políticas, eles são acusados de mentirosos, de estarem evitando soluções concretas etc. E está claro que a verdade aqui está do lado grego: a negação do “lado ideológico” advogada por Dijsselbloem é o que há de mais puramente ideológico. Ela mascara (no sentido de apresentar falsamente) como medidas peritas puramente regulatórias, medidas que estão efetivamente enraizadas em decisões politico-ideológicas.

Por conta dessa assimetria básica, o “diálogo” entre Tsipras ou Varoufakis e seus interlocutores da União Européia muitas vezes fica parecendo um diálogo entre um jovem estudante que quer travar um debate sério sobre questões básicas, e um professor arrogante que, em suas respostas, humilhantemente ignora a questão principal e repreende o aluno com questões técnicas (“Você não formulou corretamente a questão! Você esqueceu de levar em conta tal e tal ponto!”). Ou ainda, fica parecendo um diálogo entre uma vítima de estupro que desesperadamente relata o que lhe aconteceu, e um policial que continuamente a interrompe exigindo detalhes técnicos. Essa passagem da política propriamente dita à administração especialista e pretensamente neutra caracteriza a totalidade do nosso processo politico: decisões estratégicas baseadas em poder são cada vez mais mascaradas como regulamentações administrativas baseadas em avaliações técnicas neutras, e são cada vez mais negociadas secretamente e implementadas sem consulta democrática alguma.

A luta que se trava hoje é luta pela cultura econômica e política dominante (Leitkultur) na Europa. As potências da União Europeia defendem o status quo tecnocrático que preserva e mantém há décadas a inércia da Europa.

Como costumo lembrar, em suas Notas para uma Definição de Cultura, o grande conservador T.S.Eliot ensina que há momentos em que a única escolha que resta é entre a heresia e a descrença — nessas horas, a única maneira de poder manter viva uma religião é fazendo um corte sectário no âmago de seu corpo principal. Essa é nossa posição hoje, em relação à Europa: só uma nova “heresia” (representada hoje pelo Syriza) pode salvar o que ainda vale a pena salvar do legado europeu: a democracia, a confiança no povo, a solidariedade igualitária. A Europa que vencerá, se o Syriza for atropelado, é uma “Europa com valores asiáticos” (o que, é claro, nada tem a ver com a Ásia, mas tem tudo a ver com a tendência visível e atual no capitalismo contemporâneo, de suspender a democracia).

Na Europa Ocidental gostamos de olhar para a Grécia como se fôssemos observadores distanciados que acompanham, com compaixão e simpatia, o suplício de uma nação empobrecida. Esse confortável ponto de vista repousa sobre uma ilusão fatídica. Verdade é que o que se passa na Grécia nessas últimas semanas nos diz respeito a todos: o que está em jogo é o futuro da Europa. Portanto, quando lemos sobre a Grécia desses dias, não nos esqueçamos que, como diziam os antigos, de te fabula narratur (trocando o nome, a fábula vale para você também).

Um ideal de Europa

Um ideal está gradualmente emergindo da reação do establishment europeu ao referendo grego. Talvez a melhor expressão dele esteja na manchete de uma recente coluna de Gideon Rachman no Financial Times: “O elo mais frágil da Eurozona são seus eleitores.”

Nesse mundo ideal, a Europa se livra desse “elo mais frágil” e os peritos são concedidos o poder para impor diretamente as medidas econômicas necessárias – se é que houverem eleições, sua função só será a de confirmar o próprio consenso dos especialistas. O problema é que essa política de especialistas está baseada numa ficção, a ficção de “prorrogar e fingir” (prorrogar o período da reembolso, fingindo que todas as dívidas serão eventualmente pagas).

Por que essa ficção é tão teimosa? Não é só que essa ficção faz com que a prorrogação da dívida seja mais aceitável aos eleitores alemães; e também não é só que a anulação da dívida grega possa desencadear reivindicações semelhantes em Portugal, na Irlanda e na Espanha. É que quem está no poder não querem de fato que a dívida seja plenamente quitada. Os credores e gestores da dívida acusam os países endividados de não sentirem culpa suficiente – são acusados de sentirem-se inocentes. Seu prazer se encaixa perfeitamente no que a psicanálise chama de “superego”: e o paradoxo do superego, como bem percebeu Freud, é justamente que o quanto mais obedecemos suas demandas, mais culpa sentimos.

Imagine um professor cruel que prescreve tarefas impossíveis para seus alunos, e sadicamente goza quando vê a ansiedade e pânico dos estudantes. O verdadeiro objetivo de emprestar dinheiro ao devedor não é o de receber depois a dívida reembolsada junto com determinado lucro, mas sim a continuação indefinida da dívida que mantém o devedor em permanente situação de dependência e subordinação. É claro que isso vale só para a maior parte dos devedores, porque há devedores e devedores. Vale lembrar que não apenas a Grécia mas também os próprios EUA não seriam, nem teoricamente capazes de quitar sua dívida, como agora já se admitiram publicamente. Então, quer dizer, há devedores que podem chantagear seus credores porque não podem se permitir entrar em falência (grandes bancos), há devedores que podem controlar as condições de sua quitação (governo estadunidense), e por fim, devedores que podem ser usurpados e humilhados (Grécia).

Os credores e gestores da dívida basicamente acusam o governo do Syriza de não sentir culpa o suficiente – são acusados de se portarem como inocentes. É por isso que o Syriza incomoda tanto o estabilshment da União Européia: ele reconhece a dívida, mas sem culpa. Eles se livraram da pressão do superego. Varoufakis personificou essa postura em suas negociações com Bruxelas: ele plenamente reconheceu o peso da dívida, e argumentou um tanto racionalmente que, na medida que a política da União Europeia obviamente não funcionou, outra opção deveria ser encontrada.

Paradoxalmente, o que Varoufakis e Tsipras estão defendendo repetidamente é que o governo do Syriza é a única chance para que os credores recebam ao menos parte do seu dinheiro de volta. O próprio Varoufakis se pergunta sobre o enigma do porquê dos bancos estarem despejando dinheiro na Grécia e colaborando com um estado clientelista sabendo muito bem como as coisas – a Grécia nunca teria se endividado tanto sem a conivência do establishment ocidental. O governo no Syriza tem plena consciência de que a principal ameaça não vem de Bruxelas – ela está no interior da própria Grécia, um estado clientelista e corrompido. O que se deve criticar na burocracia da União Europeia é que, ao mesmo tempo em que criticava a corrupção e a ineficiência da Grécia, apoiava a própria força política (o Nova Democracia) que encarnava essa corrupção e ineficácia.

O governo do Syriza busca justamente romper esse impasse – tome por exemplo a declaração programática de Varoufakis (publicada no Guardian) que concentra o objetivo estratégico fundamental do partido:

“Uma saída da Grécia, de Portugal ou da Itália da Eurozona logo levaria a uma fragmentação do capitalismo europeu, produzindo uma região de grave superávit recessivo ao leste do Reno e norte dos Alpes, enquanto o resto da Europa estaria sujeita a uma pesada estagflação. Quem você acha que se beneficiaria com esse movimento? Uma esquerda progressista, que irá ressurgir como uma fênix das cinzas das instituições públicas europeias? Ou os nazistas do Aurora Dourada e toda sorte de neofascistas, xenófobos e especuladores oportunistas? Eu não tenho dúvida alguma a respeito de qual dos dois se sairá melhor de uma desintegração da eurozona. Eu, pelo menos, não estou preparado para cair no embalo dessa versão pós-moderna do que foi a década de 1930. Se isso significa que sobrou para nós, os marxistas adequadamente erráticos, salvar o capitalismo europeu de si mesmo, que seja. Não por amor ao capitalismo europeu, nem pela Eurozona, tampouco por Bruxelas e muito menos pelo Banco Central Europeu, mas simplesmente porque queremos minimizar o desnecessário custo humano da crise.”
Yanis Varoufakis, “How I became an erratic marxist“, Guardian.

A política financeira do governo do Syriza seguiu à risca essas diretrizes: sem déficit, disciplina estreita, mais dinheiro arrecadado por impostos. Certa imprensa alemã recentemente caracterizou Varoufakis como um psicótico que vive em seu próprio universo paralelo – mas será que ele é tão radical?

O que irrita tanto em Varoufakis não é seu radicalismo mas sua pragmática modéstia racional – se olharmos atentamente às propostas oferecidas pelo Syriza, não se pode evitar de perceber que elas já fizeram parte do próprio padrão de programa social-democrata moderado (na Suécia na década de 1960, o programa do governo era muito mais radical). É um triste sintoma dos nossos tempos que hoje você tem que pertencer a uma esquerda “radical” para advogar essas mesmas medidas – um sinal de tempos sombrios mas também uma chance para a esquerda ocupar o espaço que, décadas atrás, era o da centro-esquerda moderada.

Mas talvez ficar insistindo no quão modestas são na verdade as políticas do Syriza, de que não passam da boa e velha social democracia, de certa forma erre o ponto principal. Será mesmo que se repetirmos isso o bastante, eventualmente convenceremos os eurocratas de não somos realmente perigosos e passarão a nos ajudar? Essa posição passa ao largo do fato de que o Syriza é efetivamente perigoso, e ele representa sim uma ameaça à presente orientação da União Europeia. Porque o capitalismo global de hoje não dá conta de voltar para o velho welfare state.

Então há algo de desentendido nas reafirmações da suposta modéstia do projeto do Syriza: ele efetivamente quer algo que não é possível no interior das coordenadas do sistema global existente. Uma séria escolha estratégica terá de ser feita: e se tiver chegado o momento de tirar a máscara da modéstia e abertamente defender uma mudança muito mais radical como necessária para garantir um ganho ainda que modesto?

Muitos críticos do referendo grego alegaram que tratou-se de um caso de pura encenação demagógica, ironicamente assinalando que não estava nem claro o que efetivamente o referendo estava determinando. Mas a verdade é que o referendo não tinha a ver com Euro vs Drachma, com “Grécia dentro da UE” vs “Grécia fora da União Europeia”: o governo grego repetidamente sublinhou sua disposição de continuar na UE e na Eurozona. Mais uma vez, os críticos pegaram uma questão política fundamental levantada pelo referendo e traduziram ela como uma decisão administrativa que versava sobre medidas econômicas específicas.

Um novo começo

Em uma entrevista ao Bloomberg em 2 de julho, Varoufakis deixou claro o que estava de fato em jogo no referendo. A escolha era entre a continuidade das políticas da União Europeia dos últimos anos que levaram a Grécia à beira da ruína – a ficção do “prorrogar e fingir” (prorrogando o período de quitação, mas fingindo que todas as dívidas seriam eventualmente pagas) – e um novo começo realista que não dependerá mais sobre tais ficções e forneceria um plano concreto sobre como dar início à efetiva recuperação da economia grega. Sem um plano como esse, a crise simplesmente voltaria a se recolocar. No mesmo dia, o próprio FMI admitiu que a Grécia precisa de uma alívio de dívida para criar uma “margem de respiro” e fazer com que a economia volte a andar (ele propõe um moratório de 20 anos em cima dos pagamentos da dívida).

O “NÃO” do referendo grego foi portanto muito mais que uma escolha entre duas abordagens diferentes diante da crise econômica. O povo grego heroicamente resistiu à vergonhosa campanha de medo que mobilizava os mais baixos instintos de autopreservação. Os gregos anteviram a brutal manipulação de seus oponentes que falsamente apresentaram o referendo como uma escolha entre o Euro e o Drachma, entre a Grécia na Europa e a “Gréxit”.

O “NÃO” do povo grego foi um “não” aos eurocratas que a cada dia confirmam que são incapazes de arrancar a Europa de sua inércia. Foi um “não” à continuidade do business as usual; um clamor desesperado dizendo a todos que as coisas não podem continuar da forma de sempre. Foi uma decisão por autêntica visão política contra a estranha combinação de fria tecnocracia e frases racistas fáceis e esquentadas a respeito da preguiça e da irresponsabilidade financeira dos gregos. Foi uma rara vitória de princípios contra o oportunismo egoísta e essencialmente autodestrutivo. O “não” que venceu foi um “sim” à consciência plena da crise na Europa; um “sim” à necessidade de encenar um novo começo.

Agora cabe à União Europeia agir. Será que ela será capaz de despertar de sua inércia auto-satisfeita e compreender o sinal de esperança lançado pelo povo grego? Ou despencará sua ira sobre a Grécia para poder continuar com seu sonho dogmático?

* Publicado originalmente em inglês no New Statesman em 6.7.2015. A tradução é de Artur Renzo para o Blog da Boitempo.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Žižek, sobre a Grécia: por uma nova heresia

zizek greciaPor Slavoj Žižek.

 

A luta que se trava hoje é luta pela cultura econômica e política dominante (Leitkultur) na Europa. As potências da União Europeia defendem o status quo tecnocrático que preserva e mantém há décadas a inércia da Europa.

Em suas Notas para uma Definição de Cultura, o grande conservador T.S.Eliot ensina que há momentos nos quais a única escolha que há é entre a heresia e a não crença — nestas horas, a única maneira de poder manter viva uma religião é fazer um corte sectário no âmago do corpo principal.

Essa é nossa posição hoje, em relação à Europa: só uma nova “heresia” (representada hoje pelo Syriza) pode salvar o que ainda vale a pena salvar do legado europeu: a democracia, a confiança no povo, a solidariedade igualitária.

A Europa que vencerá, se o Syriza for atropelado, é uma “Europa com valores asiáticos” (o que, é claro, nada tem a ver com a Ásia, mas tem tudo a ver com a tendência visível e atual no capitalismo contemporâneo, de suspender a democracia).

Nós, da Europa Ocidental gostamos de olhar para a Grécia como se fôssemos observadores distanciados que acompanham, com compaixão e simpatia, o suplício de uma nação empobrecida. Esse confortável ponto de vista repousa sobre uma ilusão fatídica. Verdade é que o que se passa na Grécia nessas últimas semanas nos diz respeito a todos: o que está em jogo é o futuro da Europa. Portanto, quando lemos sobre a Grécia desses dias, não nos esqueçamos que, como diziam os antigos, de te fabula narratur [a fábula fala de ti].

* Publicado originalmente em inglês no Greek Left Review. A tradução é de Vila Vudu, para o OutrasPalavras.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Lançamento Boitempo: Quando o Google encontrou o WikiLeaks, de Julian Assange

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“Ninguém quer admitir que o Google se transformou num monstro. Mas foi o que aconteceu.”

A Boitempo acaba de lançar o explosivo novo livro de Julian Assange Quando o Google encontrou o WikiLeaks.

O que está por trás do Google e do sistema operacional Android, tão presentes em nossa vida? Quais os interesses das ferramentas de livre acesso da internet e das tecnologias de comunicação? A quem pertencem as informações geradas por cada passo que damos na era tecnológica?

Em junho de 2011, Julian Assange recebeu a visita inesperada do presidente do Google, Eric Schmidt, na casa de campo onde residia sob prisão domiciliar, em Norfolk, na Inglaterra. Durante horas, o líder sitiado da organização editorial insurgente mais famosa do mundo travou um embate de ideias com o bilionário responsável pelo maior império da informação que já existiu, em uma discussão voltada para os problemas políticos enfrentados pela sociedade e as soluções tecnológicas criadas pela rede global – da Primavera Árabe ao Bitcoin.

Os dois representam perspectivas radicalmente opostas: para Assange, o poder libertador da internet baseia-se em sua natureza livre e sua falta de vínculos com países, enquanto para Schmidt a emancipação está em harmonia com os objetivos da política externa dos Estados Unidos, motivada pelo estabelecimento de comunicações entre países não ocidentais e empresas e mercados norte-americanos. Pontos de vista distintos em um cabo de guerra acirrado sobre o futuro da internet.

Este livro relata o encontro entre Assange e Schmidt. Entre o fascínio e a alarmante revelação de um nada admirável mundo novo, contém a íntegra da conversa e um material inédito escrito por Assange, delineando ponto a ponto sua visão sobre o futuro da internet.

Leia abaixo a orelha do livro escrita por Slavoj Žižek:

As realizações do WikiLeaks podem ser resumidas pela autodesignação irônica de Assange como um “espião para o povo”. “Espionar para o povo” não é uma negação direta da espionagem (o que equivaleria a agir como um agente duplo, vendendo os nossos segredos ao inimigo), mas sim sua autonegação, ou seja, o questionamento do próprio princípio da espionagem, o princípio do sigilo, uma vez que seu objetivo é levar os segredos a público. Assim, o WikiLeaks atua de forma semelhante a como a “ditadura do proletariado” marxista deveria atuar (o que, é claro, raramente foi o caso): como uma autonegação imanente do próprio princípio da ditadura. Para aqueles que acham que o comunismo é uma espécie de espantalho, deve-se dizer que o WikiLeaks está praticando o comunismo ao tratar a informação como um recurso comum da humanidade.

Recentemente, nossos recursos comuns informativos se exteriorizaram como um dos principais domínios da luta de classes em dois aspectos: econômico, no sentido estrito, e sociopolítico. Por um lado, as novas mídias digitais nos confrontam com o impasse da “propriedade intelectual”. A própria natureza da World Wide Web parece ser comunista, tendendo ao livre fluxo de dados. Essa livre circulação, é claro, vem acompanhada dos próprios perigos: tal abertura levou ao surgimento de provedores não criativos (Google, Facebook) que exercem um poder quase monopolista para regular o fluxo de dados, enquanto as pessoas que criam o conteúdo se perdem no anonimato da rede.

Alguns defendem um retorno em massa à propriedade privada como solução: tudo o que circula na web, incluindo dados pessoais, deveria ser tratado como uma mercadoria valiosa e remunerada e tudo deveria ser atribuído com clareza a uma fonte humana individual. Embora seja verdade que a livre circulação anárquica e anônima gere as próprias redes de poder, é preciso questionar a solução proposta: será que a privatização global é realmente a única maneira de regulação?

Por outro lado, a mídia digital abriu novos caminhos para milhões de pessoas comuns criarem uma rede e coordenarem suas atividades coletivas, além de oferecer a órgãos do governo e empresas possibilidades até então jamais sonhadas de rastrear os nossos atos públicos e privados. Foi nessa luta que o WikiLeaks interveio de maneira tão explosiva.

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Saiba mais sobre o livro clicando aqui
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“Eu sou estúpido e maldoso” | Žižek esclarece sua posição sobre o “Je suis Charlie”

Zizek esclarece hebdoPor Slavoj Žižek.

No rescaldo dos atentados de Paris, o filósofo esloveno Slavoj Žižek escreveu, no calor da hora, um artigo de intervenção no debate sobre o Charlie Hebdo. Rejeitando o diagnóstico de um impasse civilizacional entre ocidente e oriente, ele insistia que o fenômeno tinha de ser analisado a partir de um mesmo chão comum e recuperava a tese frankfurtiana de que o fascismo fundamentalista seria uma resposta – ainda que falsa e mistificadora – a uma fratura real no paradigma liberal. Republicado na Folha de S.Paulo, o texto teve uma repercussão em larga medida pautada pelo contraponto encomendado a João Pereira Coutinho e, como apontou Christian Dunker em sua intervenção no debate, por uma estigmatização da posição de esquerda que acabou por não registrar o essencial da contribuição de Žižek. 

Neste novo artigo enviado pelo autor ao Blog da Boitempo, Žižek esmiúça sua posição mais a fundo, repassando (agora não mais no calor da hora) os principais atores e elementos envolvidos no fenômeno, mapeando os mecanismos ideológicos em jogo nas suas interpretações. Para ele, os ataques terroristas conseguiram o impossível: reconciliar a geração de 1968 com seu arqui-inimigo. O filósofo enfrenta ainda a difícil questão dos limites do humor e do “politicamente incorreto”, e mostra como é justamente neste debate que aparece a zona cinzenta que funda os impasses da modernidade capitalista. Para ele não devemos condenar o humor do Charlie Hebdo por ter ido longe demais, muito pelo contrário, “o problema é que ele se encaixava perfeitamente no funcionamento cínico hegemônico da ideologia em nossas sociedades. Ele não representava ameaça alguma àqueles no poder; ele meramente tornava seu exercício do poder mais tolerável.”

Contra as acusações de estar pregando o retorno a um novo fundamentalismo no ocidente, Žižek insiste enfim que “alegar que o anti-semitismo articula, de forma deslocada, uma resistência ao capitalismo de forma alguma o justifica” e que procurar compreender o mal, de forma alguma significa relativizá-lo, nem “transformar opressor em vítima”, e conclui com a triste constatação de que é preciso abandonar a ideia de que há algo de emancipatório em experiências extremas, que o terror não nos permite abrir os olhos à radical verdade da situação. A tradução é de Artur Renzo, confira:

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O OBSCENO DA IDENTIFICAÇÃO

A patética formula de identificação “Eu sou …” (ou “Somos todos …”) só funciona no interior de certos limites, para além dos quais converte-se em pura obscenidade. Podemos até proclamar “Je suis Charlie”, mas as coisas já começam a ruir com exemplos como “Somos todos de Sarajevo!” ou “Estamos todos em Gaza!”. O fato brutal de que não estamos de forma alguma em Sarajevo nem em Gaza é forte demais para ser compensado por uma patética identificação dessas. E a identificação se torna plenamente obscena no caso dos Muselmänner (o termo alemão para “muçulmanos”, usado para descrever os prisioneiros mais miseráveis e brutalizados de Auschwitz). É completamente inconcebível dizer: “Somos todos Muselmäner!” Em Auschwitz, a desumanização das vítimas foi tão longe que se identificar com elas em qualquer forma significativa é impossível. (E na direção oposta, seria também ridículo declarar solidariedade com as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 alegando que “Somos todos Nova Iorquinos!” Milhões diriam: “Sim, adoraríamos ser Nova Iorquinos, nos dê um visto norte-americano então!”)

O mesmo vale para os assassinatos do mês passado: era relativamente fácil se identificar com os jornalistas do Charlie Hebdo, mas teria sido muito mais difícil anunciar: “Somos todos Baga!” Para quem não ficou sabendo: Baga é uma pequena cidadezinha no nordeste da Nigéria onde Boko Haram executou duas mil pessoas. O nome “Boko Haram” pode ser traduzido meio ao pé da letra como “Educação ocidental é proibida” (mais especialmente educação das mulheres). Como dar conta do estranho fato da existência de um movimento sociopolítico maciço cuja principal pauta programática é a regulação hierárquica da relação entre os sexos? O enigma é o seguinte: por que é que esses muçulmanos, que estão sem dúvida expostos à exploração, dominação e outros aspectos destrutivos e humilhantes do colonialismo, miram sua reação na melhor parte (para nós, ao menos) do legado ocidental, nosso igualitarismo e nossas liberdades pessoais, incluindo a liberdade de tirar sarro de todas autoridades? A resposta óbvia é que seu alvo na verdade é muito bem escolhido: o oeste liberal é tão insuportável porque ele não só pratica a exploração e a violenta dominação, como ainda por cima apresenta essa realidade brutal à guisa de seu oposto: liberdade, igualdade e democracia.

ESPETÁCULO DE HIPOCRISIA

Mas voltemos ao espetáculo dos grande nomes políticos do mundo tudo de mãos dadas em solidariedade às vitimas das chacinas de Paris, de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas: se alguma vez houve imagem de falsidade hipócrita, foi essa. Quando a procissão passava sob a janela de um cidadão anônimo, ele colocou pra tocar num alto falante a “Ode à alegria” de Beethoven, o hino não-oficial da União Europeia, acrescentando um tom de kitsch político ao repugnante espetáculo encenado pelos maiores responsáveis pela bagunça em que estamos hoje. E o que dizer do Ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov se juntando à fila de dignitários se manifestando diante da morte de jornalistas? Se ele se atrevesse a participar de uma tal marcha em Moscou (onde dezenas de jornalistas foram assassinados) ele seria imediatamente reprimido! E que tal a obscenidade do Netanyahu se espremendo para aparecer na frente da manifestação, enquanto que em Israel a mera menção pública a al-Nakbah (a “catástrofe” de 1948 para os palestinos) é proibida? Cadê a tolerância para com a dor e o sofrimento do outro?

E o espetáculo foi literalmente encenado: as fotos expostas na mídia davam a impressão de que a linha de líderes políticos estava na frente de uma grande multidão que marchava pela avenida – dando assim a impressão de uma suposta solidariedade e união com o povo… Só que outra foto foi tirada mais de longe pegando a cena toda e mostrou claramente que atrás dos políticos só havia cento e poucas pessoas e muito espaço vazio, patrulhado de todos os lados pela polícia. O verdadeiro gesto digno do Charlie Hebdo seria ter publicado na sua capa uma caricatura grande e de brutal mal gosto tirando sarro desse episódio todo.

Embora eu seja um ateu resoluto, acredito que essa obscenidade foi demais até para Deus, que se viu obrigado a intervir com uma obscenidade divina digna do espírito do Charlie Hebdo: enquanto o presidente François Hollande abraçava Patrick Pelloux, o médico e colunista do Charlie Hebdo, na frente do escritório do semanário, um passarinho cagou no ombro do presidente francês! Os funcionários do jornal, ao fundo, se esforçavam para segurar o riso… Relembre, nesse contexto, a imagem cristã da uma pomba pousando para entregar uma mensagem divina… além disso, em alguns países, quando um pombo caga na sua cabeça, é sinal de boa sorte!

SOMOS TODOS POLICIAIS

Há ainda um elemento dos recentes acontecimentos na França que parece ter passado desapercebido: além dos cartazes e das faixas dizendo “Je suis Charlie” havia outras que diziam “Je suis Flic” [Eu sou policial]. A grande unidade nacional celebrada e encenada em grandes mobilizações populares não era apenas a unidade das pessoas, atravessando grupos étnicos, classes sociais e religiões, mas também a unificação das pessoas às forças de controle e ordem.

Até então, a França era o único país no ocidente em que (até onde sei) os policiais eram um constante foco de piadas brutais os retratando como burros e corruptos (como era comum nos países ex-comunistas). Agora, no rescaldo da chacina do Charlie Hebdo, a polícia é aplaudida e elogiada – não só a polícia mas também o CRS (um dos slogans de maio de 1968 era inclusive “CRS-SS”), o serviço secreto e todo o aparato securitário estatal. Não há lugar para Snowden ou Manning nesse novo universo. “Ressentimento contra a polícia não é mais o que era, exceto entre a juventude pobre de origens árabes ou africanas”, escreveu Jacques-Alain Miller no mês passado. “Algo sem dúvida jamais visto na história da França”.1

Em resumo, os ataques terroristas conseguiram o impossível: reconciliar a geração de 1968 com seu arqui-inimigo em algo como uma versão popular francesa do Patriot Act, com pessoas se voluntariando para serem vigiadas.

A CONTRADIÇÃO IMANENTE DO POLITICAMENTE CORRETO

Esses momentos extáticos das manifestações de Paris foram um triunfo da ideologia: eles mobilizaram as pessoas contra um inimigo cuja fascinante presença momentaneamente oblitera todos os antagonismos. Ao publico restou uma escolha deprimente: ou você está com os Flics [policiais], ou está com os terroristas. Mas como é que o humor irreverente do Charlie Hebdo se encaixa aqui nesta escolha? Para responder a esta questão temos que ter em mente a interconexão entre o Decálogo e os direitos humanos como seu obverso moderno: que o que a experiência de nossa sociedade liberal-permissiva demonstra é que os direitos humanos são no final das contas os direitos de violar os dez mandamentos.2

O direito à privacidade é um direito a cometer adultério. O direito à propriedade privada é um direito de roubar (de explorar os outros). O direito de liberdade de expressão é um direito de dar falso testemunho. O direito de portar armas é um direito de matar. O direito à liberdade de culto religioso é um direito de adorar falsos deuses. É claro, os direitos humanos não toleram diretamente a violação dos Mandamentos, mas eles mantém aberta uma zona cinzenta marginal que deve estar fora do alcance do poder (religioso ou secular). Nessa zona cinzenta, eu posso violar os mandamentos, e se o poder se debruçar sobre ela e me pegar no flagra, posso gritar: “Assalto aos meus direitos humanos básicos!” A questão é que para o poder é estruturalmente impossível traçar uma linha clara de separação para prevenir só o “uso indevido” dos direitos humanos sem infringir no seu uso adequado, isto é, o uso que não viola os mandamentos.

É nessa zona cinzenta que pertence o humor brutal do Charlie Hebdo. Lembremos como o semanário começou em 1970 como um sucessor do Hara-Kiri, um periódico banido por ter tirado sarro da morte do General de Gaulle. Depois de receberem uma carta de leitor acusando o Hara-Kiri de ser “estúpido e maldoso” (“bête et méchant”), a frase foi adotada como o slogan oficial do jornal e passou a permear a linguagem cotidiana: “Hara-Kiri: journal bête et méchant”. Essa é a zona cinzenta do Charlie Hebdo: não sátira benevolente mas sim, muito literalmente, estúpida e maldosa, de forma que seria mais apropriado que os milhares marchando em Paris proclamassem “Je suis bête et méchant” ao invés do simples e piegas “Je suis Charlie”. E de fato, as manifestações midiáticas de solidariedade em Paris foram efetivamente “bête et méchant”.

Por mais refrescante que podia ser em algumas situações, a atitude “bête et méchant” do Charlie Hebdo é condicionada pelo fato de que o riso não é por si só liberador, mas profundamente ambíguo. Lembremos daquele famigerado contraste que a imagem difundida da Grécia Antiga nos trás: entre os Espartanos solenes e aristocráticos e os Atenienses jocosos e democráticos. O que escapa a essa imagem é que os espartanos, que se orgulhavam de sua severidade, punham o riso no centro de sua ideologia e prática: eles reconheciam o riso comunal como um poder que ajudava a aumentar a glória do Estado. (Os atenienses, em contraste, legalmente restringiam tal riso brutal e excessivo como uma ameaça ao espírito do respeitável diálogo onde nenhuma humilhação do oponente deve ser permitida). O riso espartano – a zombaria brutal de um inimigo ou escravo humilhado, tirando sarro de seu medo e dor a partir de uma posição de poder – encontrou um eco nos discursos de Stalin, quando ele escarnecia do pânico e da confusão dos “traidores”, e persiste ainda hoje, no humor dos ditos “politicamente incorretos”. (Aliás, esse riso deve ser distinguido ainda de outro tipo de riso daqueles em poder, a derrisão cínica que mostra que eles próprios não levam sua ideologia a sério).

O problema com o humor do Charlie Hebdo não é que ele tenha ido longe demais em sua irreverência, mas que era um excesso inócuo que se encaixava perfeitamente no funcionamento cínico hegemônico da ideologia em nossas sociedades. Ele não representava ameaça alguma àqueles no poder; ele meramente tornava seu exercício do poder mais tolerável.

É nesse sentido que devemos abordar o delicado tema dos diferentes modos de vida. Nas sociedades liberais-seculares ocidentais, o poder do Estado protege as liberdades públicas mas intervém no espaço privado – quando há uma suspeita de abuso infantil, por exemplo. Mas como esclarece Talal Asad3, tais “intrusões no espaço doméstico, em domínios ‘privados’, não são permitidas pela Lei Islâmica, embora a conformidade no comportamento “público” pode até ser mais rigorosa. […] Para a comunidade, o que importa é a prática social do sujeito muçulmano – incluindo manifestações verbais – não seus pensamentos internos, quaisquer que possam ser.” O Al corão diz: “A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser.” Mas, nas palavras de Asad, esse “direito de pensar o que for que se quiser não […] inclui o direito de expressar suas crenças religiosas ou morais publicamente com a intenção de converter pessoas a um ‘falso comprometimento’”. É por isso que, para os muçulmanos, “é impossível permanecer em silêncio quando confrontados com a blasfêmia […] sua reação é tão acalorada pois para eles, a blasfêmia não é nem ‘liberdade de expressão’ nem o desafio representado por uma nova verdade mas algo que busca perturbar uma relação de vida”. Do ponto de vista liberal ocidental, há um problema com ambos os termos desse nem/nem: e se a liberdade de expressão passasse a incluir também atos que podem perturbar uma relação viva? E se uma “nova verdade” tiver o mesmo efeito disruptivo? Uma decodificação científica do universo não tende a perturbar uma “relação de vida” tradicional? E se uma nova consciência ética fizer com que uma relação de vida existente apareça injusta?

Se, para os muçulmanos, não é somente “impossível permanecer em silêncio diante da blasfêmia” como é também impossível permanecer inativo – e o impulso de fazer algo pode incluir aí atos violentos e assassinos – então a primeira coisa que devemos fazer é localizar essa atitude em seu contexto contemporâneo. O mesmo vale para o movimento cristão anti-aborto, que também acha “impossível permanecer em silêncio” diante das mortes de centenas de milhares de fetos todo dia, uma chacina que eles comparam ao Holocausto. É aqui que começa a tolerância: a tolerância ao que sentimos como impossível-de-suportar (“l’impossible-a-supporter”, na formulação de Lacan), e nesse ponto o “politicamente correto” da esquerda liberal se aproxima do fundamentalismo religioso com sua própria lista de “blasfêmias” diante das quais é “impossível permanecer em silêncio”: machismo, racismo e outras formas de intolerância. O que aconteceria se um jornal abertamente zombasse do Holocausto?

É fácil tirar sarro de todas as regras muçulmanas para cada detalhe da vida cotidiana (uma característica que, aliás, compartilham com o judaísmo), mas e da lista “politicamente correta” de todos aqueles jogos de “sedução” (sic.) que podem ser considerados assédio verbal, das piadas que são consideradas racistas ou machistas – ou ainda “especiestas” (que tiram sarro de outras espécies de animais que não a humana)? O que interessa ressaltar aqui é que há uma contradição imanente na posição liberal de esquerda: a posição libertária de ironia universal e zombaria, tirando sarro de todas as autoridades, espirituais e políticas (a atitude personificada no Charlie Hebdo), tende a deslizar em seu oposto, uma sensibilidade aguçada à dor e à humilhação do outro.

RESPOSTAS À ESQUERDA

É por conta dessa contradição que boa parte das reações de esquerda às chacinas de paris seguiram um deplorável padrão previsível: eles corretamente suspeitaram que algo estava profundamente errado com o espetáculo do consenso e da solidariedade liberal para com as vítimas, mas tomaram a direção errada quando se permitiram condenar as chacinas só depois de longas e enfadonhas qualificações do tipo “também somos todos culpados”. Esse medo de que ao condenar abertamente a chacina estaríamos de alguma forma alimentando a islamofobia é politicamente e eticamente errado. Não há nada de islamofobico em condenar as chacinas de paris, da mesma forma em que não há nada de anti-semita em condenar o tratamento de Israel aos palestinos.

Quanto à noção de que devemos contextualizar e “compreender” as chacinas de Paris, ela pode também ser uma completa armadilha. Talvez um dos melhores exemplos de burrice mascarada de profunda sabedoria seja o ditado: “Um inimigo é alguém cuja história você ainda não conhece”.4 Não há exemplo melhor dessa tese que Frankenstein, de Mary Shelley. Shelley faz algo que um conservador jamais teria feito. Em uma parte central de seu livro, ela permite que o monstro fale por conta própria e nos conte a história a partir de sua perspectiva. Essa escolha de Shelley expressa, em seu nível mais radical, a atitude liberal diante da liberdade de expressão: o ponto de vista de todos deve ser ouvido. Em Frankenstein, o monstro não é um terrível objeto que ninguém ousa confrontar; ele está plenamente dotado de subjetividade. Shelley mergulha na sua mente e pergunta como é ser rotulado, definido, oprimido, excomungado, e ainda fisicamente distorcido pela sociedade. O supremo opressor pode assim se apresentar como supremo oprimido. O monstruoso assassino se revela como sendo um individuo profundamente machucado e em apuros, ansiando por companhia e amor… Há, no entanto, um claro limite para esse procedimento: será que estamos dispostos a afirmar que Hitler só era um inimigo porque sua história não foi realmente ouvida? Para mim, muito pelo contrário, quanto mais conheço e “compreendo” Hitler, tanto mais imperdoável ele aparece a mim. Compreender o mal não é perdoá-lo, é ver como o mal funciona – com isso, o mal não é de forma alguma relativizado muito menos amenizado.

O que isso também significa é que, ao abordarmos o conflito Israel-Palestina, devemos nos ater a padrões frios e implacáveis: devemos incondicionalmente resistir à tentação de “compreender” o anti-semitismo arábico (quando realmente o encontramos) como uma reação “natural” à triste condição dos palestinos, ou de “compreender” as medidas de Israel como uma reação “natural” à memória do Holocausto. Não deve haver “compreensão” alguma para o fato de que em muitos países árabes Hitler seja considerado um herói, e que crianças na pré-escolas são incutidas de inúmeros mitos anti-semitas, dos notoriamente forjados Protocolos dos sábios de Sião até alegações ridículas de que os judeus usam o sangue das criancinhas para fins sacrificiais.

Alegar que esse anti-semitismo articula, de forma deslocada, uma resistência ao capitalismo de forma alguma o justifica (o mesmo vale para o anti-semitismo nazista: ele também extraiu sua energia da resistência anti-capitalista). O deslocamento aqui não é uma operação secundária, e sim o gesto fundamental de mistificação ideológica. O que essa alegação sim implica é a ideia de que, no longo prazo, a única forma de derrotar o anti-semitismo não é pregando a tolerância liberal, mas articular o motivo anticapitalista subjacente de uma forma direta, não deslocada.

A LIÇÃO DO TERROR

O ponto chave é portanto precisamente não interpretar ou julgar atos singulares “em conjunto”, não localizar eles no “contexto mais amplo”, mas extraí-los de sua textura histórica: as atuais ações das Forças de Defesa de Israel na Margem Oeste não devem ser julgadas contra o pano de fundo do Holocausto; a celebração que muitos árabes fazem à imagem de Hitler ou a profanação de sinagogas na França e por toda parte na Europa não devem ser julgados como reações inapropriadas porém compreensíveis ao que Israel está fazendo na Margem Oeste.

Quando qualquer protesto contra Israel é categoricamente denunciado como uma expressão de antissemitismo – isto é, quando a sombra do Holocausto é permanentemente evocada a fim de neutralizar qualquer crítica às operações militares e políticas de Israel – será que não basta insistir na diferença entre antissemitismo e crítica a políticas específicas do Estado de Israel que, nesse caso, esta profanando a memória das vítimas do Holocausto, as instrumentalizando como uma forma de legitimar medidas políticas presentes?

O que isso significa é que devemos categoricamente rejeitar a noção de qualquer ligação lógica ou política entre o Holocausto e as atuais tensões Israel-Palestina. Eles são dois fenômenos rigorosamente diferentes: um deles é parte da história europeia da resistência direitista às dinâmicas da modernização; a outra é um dos últimos capítulos na história da colonização. Em contrapartida, a difícil tarefa diante dos palestinos é aceitar que seu verdadeiro inimigo não são os judeus, mas sim os próprios regimes árabes que manipulam sua condição oprimida precisamente para prevenir essa transformação – isto é, a radicalização política em seu próprio seio.

A ascensão do antissemitismo na Europa é inegável. Quando, por exemplo, uma minoria muçulmana agressiva em Malmö molesta os judeus a ponto deles terem medo de andar nas ruas com suas vestimentas tradicionais, isto deve ser condenado claramente e sem ambiguidade. A luta contra o antissemitismo e a luta contra a islamofobia devem ser vistos como dois aspectos de uma mesma luta. E longe de configurar uma posição ingenuamente utópica, essa necessidade de uma luta comum se funda na própria natureza de vasto alcance que as consequências da opressão extrema têm.

Em uma memorável passagem de seu Still Alive, Ruth Klüger descreve uma conversa com “alguns candidatos avançados de PhD” na Alemanha:

Um deles relata como ele conheceu um velho judeu húngaro que era um sobrevivente de Auschwitz, e entretanto esse homem xingava os árabes e nutria desprezo por eles. “Como pode alguém que vem de Auschwitz falar assim?”, pergunta o alemão. Eu entro na conversa e discuto, talvez de forma mais acalorada do que fosse preciso. O que ele esperava? Auschwitz não era nenhuma instituição de instrução […] Não se aprendia nada lá, muito menos humanidade e tolerância. “Absolutamente nada de bom saiu dos campos de concentração”, eu me pego dizendo, com minha voz se elevando, e ele espera catarse, purgação, o tipo de coisa que se espera quando se vai ao teatro? Foram os estabelecimentos mais inúteis e sem sentido imagináveis.

Ou seja, o extremo horror de Auschwitz não o fez um lugar que purifica suas vítimas sobreviventes tornando as sujeitos eticamente sensíveis desprovidos de interesses egoístas tacanhos; muito pelo contrário, parte do horror de Auschwitz é que ele também desumanizou muitas de suas vítimas, as transformando em sobreviventes brutos e insensíveis e tornando impossível para elas praticarem a arte do juízo ético balanceado.

Temos que abandonar a ideia de que há algo emancipatório em experiências extremas, que elas nos permitem abrir os olhos à radical verdade da situação. Essa talvez seja a mais deprimente lição do terror.

NOTAS
1.
Ver Jacques-Alain Miller, “L’amour de la police“, bloggado em 1/13 2015 e publicado em inglês em lacan.com como “France loves its cops“.
2. Me baseio aqui no artigo de Julia Reinhard Lupton (UC Irvine) and Kenneth Reinhard (UCLA), “The Subject of Religion: Lacan and the Ten Commandments.”
3. Talad Asad, Wendy Brown, Judith Butler, Saba Mahmood, Is Critique Secular? Blasphemy, Injury, and Free Speech, Berkeley: University of California Press 2009.
4. Epígrafe de “Living Room Dialogues on the Middle East,” citado em Wendy Brown, Regulating Aversion, Princeton: Princeton University Press 2006.
5. Ruth Kluger, Still Alive: A Holocaust Girlhood Remembered, New York: The Feminist Press 2003, p. 189.

* Texto enviado pelo autor ao Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.