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A simples coragem da decisão: um tributo esquerdista a Margaret Thatcher, por Slavoj Žižek

13.04.18_Slavoj Zizek_A simples coragem da decisãoPor Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido por Rogério Bettoni, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

Click here for the english version.

Nas últimas páginas de seu monumental Second World War, Winston Churchill reflete sobre o enigma de uma decisão militar: depois que os especialistas (analistas econômicos e militares, psicólogos, meteorologistas etc.) propõem sua análise múltipla, elaborada e refinada, alguém deve assumir a ação simples – e por isso a mais difícil – de transformar essa multiplicidade complexa, em que para cada pró há dois contras, em um simples “Sim” ou “Não” – devemos atacar, devemos continuar esperando… Esse gesto, que não pode nunca ser fundamentado em razões, é o gesto do Mestre. Cabe aos especialistas apresentarem a situação em sua complexidade, mas cabe ao Mestre simplificá-la em um ponto de decisão.

Essa figura do Mestre é necessária principalmente em situações de crise profunda. Aqui, a função do Mestre é representar a divisão autêntica – uma divisão entre os que querem se arrastar nos antigos parâmetros e os que têm consciência da mudança necessária. Essa divisão, e não as transigências oportunistas, é o único caminho para a verdadeira unidade. Tomemos um exemplo que certamente não é problemático: a França na década de 1940. Até mesmo Jacques Duclos, segundo homem do Partido Comunista Francês, admitiu em uma conversa privada que, se naquele momento, houvesse eleições livres na França, Marshal Petain teria ganhado com 90% dos votos. Quando De Gaulle, em um ato histórico, se recusou a reconhecer a capitulação ante os alemães e continuou resistindo, ele afirmou que apenas ele falava em nome da verdadeira França (em nome da verdadeira França como tal, não só em nome da “maioria dos franceses”!), e não o regime de Vichy; sua afirmação foi profundamente verdadeira ainda que “democraticamente” não tivesse legitimação nenhuma, mas fosse claramente oposta à opinião da maioria dos franceses…

E Margaret Thatcher, a “dama que não volta atrás”, foi um desses Mestres que se prende a uma decisão vista a princípio como louca, e gradualmente eleva sua loucura singular à norma aceita. Quando perguntaram a Margaret Thatcher sobre seu maior êxito, ela respondeu sem pestanejar: “O New Labour”. E ela estava certa: seu triunfo foi o fato de suas políticas econômicas básicas terem sido adotadas até mesmo por seus inimigos econômicos – o verdadeiro triunfo não é a vitória sobre o inimigo, ele ocorre quando o próprio inimigo começa a usar sua linguagem, de modo que suas ideias formem a base de todo o campo.

Então o que resta hoje do legado de Thatcher? A hegemonia neoliberal está claramente se desintegrando. Thatcher talvez tenha sido a única thatcherista verdadeira – ela acreditava nitidamente nas próprias ideias. O neoliberalismo atual, ao contrário, “imagina apenas acreditar em si mesmo e exige do mundo a mesma imaginação” (para citar Marx[1]). Em suma, o cinismo hoje está totalmente à mostra. Recordemos a piada cruel de Ser ou não ser (1942), de Ernst Lubitch: quando questionado sobre os campos de concentração alemães na Polônia ocupada, o oficial nazista responsável, apelidado de “Campo de Concentração Erhardt”, responde: “Nós concentramos, os poloneses acampam”. 

O mesmo não vale para a falência da Enrom em janeiro de 2002 (e para todos os colapsos financeiros que se seguiram), o que pode ser interpretado como um tipo de comentário irônico sobre a ideia de sociedade de risco? Milhares de trabalhadores que perderam seus empregos e economias certamente estavam expostos ao risco, mas sem terem uma escolha verdadeira – o risco apareceu como destino cego. Por outro lado, quem percebeu efetivamente os riscos e teve a possibilidade de intervir na situação (os altos executivos) conseguiu minimizar os riscos lucrando com suas ações e opções antes da falência – então é verdade que vivemos numa sociedade de escolhas arriscadas, mas uns fazem as escolhas (os executivos de Wall Street) enquanto outros (o povo que paga hipoteca) correm os riscos…

Uma das consequências estranhas do colapso financeiro e das medidas tomadas para neutralizá-lo (grandes quantias de dinheiro para ajudar os bancos) foi o reaparecimento da obra de Ayn Rand, o mais perto que se pode chegar da ideóloga do capitalismo radical do lema “a ganância é boa” – as vendas de A revolta de Atlas, sua magnum opus, explodiram de novo. Segundo alguns relatos, já existem sinais da representação do cenário descrito em A revolta de Atlas – os próprios capitalistas criativos entrando em greve. O congressista republicano John Campbell disse: “Os empreendedores estão entrando em greve. Vejo, em um nível baixo, um tipo de protesto vindo das pessoas que cria empregos [...], que estão abandonando suas ambições porque percebem como serão punidas por causa delas”. É ridículo que essa reação deturpe totalmente a situação: grande parte das gigantescas quantias de dinheiro injetado vai justamente para os “titãs” randianos desregulados, que fracassaram em seu esquema “criativo” e assim provocaram o colapso. Os grandes gênios criativos não estão ajudando o povo comum e preguiçoso: são os contribuintes comuns que estão ajudando os “gênios criativos” fracassados.

O outro aspecto do legado de Thatcher visado pelos críticos da esquerda era sua forma “autoritária” de liderança, sua falta de sensibilidade para a coordenação democrática. Nesse aspecto, contudo, as coisas são mais complicadas do que parecem. Os protestos populares que acontecem atualmente em toda a Europa convergem numa série de demandas que, por sua própria espontaneidade e obviedade, formam um tipo de “obstáculo epistemológico” ao próprio confronto com a crise atual de nosso sistema político. Parece que estamos diante de uma versão popularizada da política deleuziana: o povo sabe o que quer, é capaz de descobrir e formular o que quer, mas só por meio do engajamento e da atividade continuada – então precisamos fazer funcionar a democracia participativa, não só a democracia representativa com seu ritual eleitoral que, a cada quatro anos, interrompe a passividade dos eleitores; precisamos da auto-organização da multidão, e não de um partido leninista centralizado com o Líder etc. etc.

A coisa mais difícil de ser renunciada é esse mito da auto-organização direta não representativa – que é a armadilha final, ou seja, a mais profunda ilusão a ser desfeita. Sim, em cada processo revolucionário existem momentos extáticos de solidariedade grupal, em que centenas de milhares se juntam e ocupam um lugar público, como a praça Tahrir há dois anos; sim, há momentos de participações coletivas intensas, em que as comunidades locais debatem e decidem, em que as pessoas vivem um tipo de estado de emergência permanente, assumindo o controle de tudo, sem nenhum Líder para guiá-las… mas esses estados não duram, e a “fadiga” nesse caso não é um simples fato psicológico, mas sim uma categoria da ontologia social.

A grande maioria – inclusive eu – quer ser passiva e simplesmente confiar em um aparelho estatal eficaz que garanta o andamento harmonioso de todo o edifício social, de modo que cada um possa realizar em paz o próprio trabalho. Walter Lippmann escreveu em seu Public Opinion (1922) que o rebanho dos cidadãos deve ser governado por “uma classe especializada cujos interesses ultrapassam o que é local” – essa classe de elite vai agir como uma máquina de conhecimento que contorna o defeito básico da democracia, o ideal impossível do “cidadão onicompetente”. É assim que funcionam nossas democracias – com o nosso consentimento: não há mistério no que disse Lippmann, trata-se de um fato óbvio; o mistério é que, sabendo disso, jogamos o jogo. Agimos como se estivéssemos livres e decidindo livremente, não só aceitando, mas também exigindo, em silêncio, que uma injunção invisível (inscrita na própria forma da nossa liberdade de expressão) nos diga o que fazer e pensar. “O povo sabe o que quer” – não, não sabe e não quer saber, o povo precisa de uma boa elite, e é por isso que o político correto não só defende os interesses do povo: é através dele que o povo descobre o que “realmente quer”.

Quanto à multidão molecular auto-organizadora contra a ordem hierárquica sustentada pela referência a um líder carismático, note-se a ironia do fato de que a Venezuela, um país tão elogiado por causa de suas tentativas de desenvolver modalidades de democracia direta (conselhos locais, cooperativas, operários comandando fábricas), também é um país cujo presidente foi Hugo Chávez, um líder forte e carismático, se é que existe um. É como se a regra freudiana da transferência também estivesse em ação aqui: para que os indivíduos “ultrapassem a si próprios”, para que escapem da passividade da política representativa e se engajem como agentes políticos diretos, a referência a um líder é necessária, um líder que lhes permita sair do atoleiro do pântano como barão de Münchhausen, um líder “suposto saber” o que quer o povo. É nesse sentido que Alain Badiou mostrou recentemente como as redes horizontais destroem o Mestre clássico, mas simultaneamente propaga novas formas de dominação muito mais fortes que ele. A tese de Badiou é que o sujeito precisa de um Mestre para se elevar além do “animal humano” e pôr em prática a fidelidade a um Evento-Verdade: 

“O mestre é aquele que ajuda o indivíduo a se tornar sujeito. Ou seja, se admitimos que o sujeito surge na tensão entre indivíduo e universalidade, então é óbvio que o indivíduo precisa de uma mediação, e portanto de uma autoridade, para progredir nesse caminho. É preciso renovar a posição do mestre – não é verdade que se consiga sem ele, mesmo e especialmente na perspectiva da emancipação.” [2]

E Badiou não teme contrapor o papel necessário do Mestre à nossa sensibilidade “democrática”: 

“Estou convencido de que é preciso reestabelecer a função capital dos líderes no processo comunista, qualquer que seja seu estágio. Dois episódios cruciais em que a liderança não bastou foram a Comuna de Paris (que não tinha um líder digno, exceto Dombrowski no domínio estritamente militar) e a Revolução Cultural Chinesa (Mao estava cansado e velho demais, e o “grupo da RCC” foi infectado pela ultraesquerda). Essa foi uma lição severa.

Essa função capital dos líderes não é compatível com a atmosfera “democrática” predominante, motivo que me faz estar engajado em uma luta feroz contra essa atmosfera (afinal, é preciso começar com a ideologia). Quando me dirijo a pessoas cujo jargão é lacaniano, digo “a figura do mestre”. Quando são militantes, digo “ditadura” (no sentido de Carl Schmitt). Quando são trabalhadores, digo “líder de um grupo” etc. É desse modo que sou rapidamente compreendido.” [3]

Devemos seguir sem medo sua sugestão: para efetivamente despertar os indivíduos de seu “sono democrático”, de sua confiança cega nas formas institucionalizadas da democracia representativa, não bastam os apelos à auto-organização direta: é preciso uma nova figura do Mestre. Recordemos os famosos versos de “A une raison” (A uma razão), de Arthur Rimbaud:

Um toque de teu dedo no tambor liberta todos os sons e começa a nova harmonia.
Um passo teu é a mobilização dos novos homens que se põem em marcha.
Se viras o rosto: o novo amor!
Se desviras o rosto, – o novo amor! [4]

Não há absolutamente nada “fascista” nesses versos – o paradoxo supremo da dinâmica política é que é preciso um Mestre para empurrar os indivíduos para fora do atoleiro de sua inércia e motivá-los para a luta autotranscendente emancipatória pela liberdade.

Precisamos hoje, nessa situação, de uma Thatcher da Esquerda: um Líder que repetiria o gesto de Thatcher na direção oposta, transformando todo o campo de pressupostos compartilhados hoje pela elite política de todas as principais orientações.


 [1] Crítica da filosofia do direito de Hegel, 1843 (tradução de Rubens Enderle e Leonardo de Deus, São Paulo, Boitempo, 2010), p. 148

[2] Alain Badiou e Elisabeth Roudinesco, “Appel aux psychanalystes. Entretien avec Eric Aeschimann”, Le Nouvel Observateur, 19 de abril de 2012.

[3] Comunicação pessoal, abril de 2013.

[4] Arthur Rimbaud, Prosa poética (trad. Ivo Barroso, Rio de Janeiro, Topbooks, 1998), p. 229.

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Slavoj Žižek esteve no Brasil para lançar seu maior e mais importante livro teórico: Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético. Confira, abaixo, o Booktrailer da obra:

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A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

The simple Courage of Decision: a Leftist Tribute to Thatcher, by Slavoj Žižek

13.04.18_Slavoj Zizek_THE SIMPLE COURAGE OF DECISIONBy Slavoj Žižek.

Para a versão em português do artigo, clique aqui.

In the very last pages of his monumental Second World War, Winston Churchill ponders on the enigma of a military decision: after the specialists (economic and military analysts, psychologists, meteorologists…) propose their multiple, elaborated and refined analysis, somebody must assume the simple and for that very reason most difficult act of transposing this complex multitude, where for every reason for there are two reasons against, into a simple “Yes” or “No” – we shall attack, we continue to wait… This gesture which can never be fully grounded in reasons, is that of a Master. It is for the experts to present the situation in its complexity, and it is for the Master to simplify it into a point of decision.

Such a figure of Master is needed especially in situations of deep crisis. The function of a Master is here to enact an authentic division – a division between those who want to drag on within the old parameters and those who are aware of the necessary change. Such a division, not the opportunistic compromises, is the only path to true unity. Let us take an example which surely is not problematic: France in 1940. Even Jacques Duclos, the second man of the French Communist Party, admitted in a private conversation that if, at that point in time, free elections were to be held in France, Marshal Petain would have won with 90% of the votes. When de Gaulle, in his historic act, refused to acknowledge the capitulation to Germans and continued to resist, he claimed that it is only he, not the Vichy regime, who speaks on behalf of the true France (on behalf of true France as such, not only on behalf of the “majority of the French”!), what he was saying was deeply true even if it was “democratically” not only without legitimization, but clearly opposed to the opinion of the majority of the French people…

And Margareth Thatcher, the “lady who is not for turning,” WAS such a Master sticking to her decision which was at first perceived as crazy, gradually elevating her singular madness into an accepted norm. When Thatcher was asked about her greatest achievement, she promptly answered: “The New Labor.” And she was right: her triumph was that even her political enemies adopted her basic economic policies – the true triumph is not the victory over the enemy, it occurs when the enemy itself starts to use your language, so that your ideas form the foundation of the entire field.

So what remains today of Thatcher’s legacy today? Neoliberal hegemony is clearly falling apart. Thatcher was perhaps the only true thatcherite – she clearly believed in her ideas. Today’s neoliberalism, on the contrary, “only imagines that it believes in itself and demands that the world should imagine the same thing” (to quote Marx). In short, today, cynicism is openly on display. Recall the cruel joke from Lubitch’s To Be Or Not to Be: when asked about the German concentration camps in the occupied Poland, the responsible Nazi officer “concentration camp Erhardt” snaps back: “We do the concentrating, and the Poles do the camping.” Does the same not hold for the Enron bankruptcy in January 2002 (as well as on all financial meltdowns that followed), which can be interpreted as a kind of ironic commentary on the notion of risk society? Thousands of employees who lost their jobs and savings were certainly exposed to a risk, but without any true choice – the risk appeared to them as a blind fate. Those, on the contrary, who effectively did have an insight into the risks as well as a possibility to intervene into the situation (the top managers), minimized their risks by cashing in their stocks and options before the bankruptcy – so it is true that we live in a society of risky choices, but ones (the Wall Street managers) do the choosing, while others (the common people paying mortgages) do the risking…

One of the weird consequences of the financial meltdown and the measures taken to counteract it (enormous sums of money to help banks) was the revival in the work of Ayn Rand, the closes one can come to the ideologist of the “greed is good” radical capitalism – the sales of her magnum opus Atlas Shrugged exploded again. According to some reports, there are already signs that the scenario described in Atlas Shrugged – the creative capitalists themselves going on strike – is enacted. John Campbell, a Republican congressman, said: “The achievers are going on strike. I’m seeing, at a small level, a kind of protest from the people who create jobs /…/ who are pulling back from their ambitions because they see how they’ll be punished for them.” The ridicule of this reaction is that it totally misreads the situation: most of the gigantic sums of bail-out money is going precisely to the Randian deregulated “titans” who failed in their “creative” schemes and thereby brought about the meltdown. It is not the great creative geniuses who are now helping lazy ordinary people, it is the ordinary taxpayers who are helping the failed “creative geniuses.”

The other aspect of Thatcher’s legacy targeted by her Leftist critics was her “authoritarian” form of leadership, her lack of the sense for democratic coordination. Here, however, things are more complex than it may appear. The ongoing popular protests around Europe converge in a series of demands which, in their very spontaneity and obviousness, form a kind of “epistemological obstacle” to the proper confrontation with the ongoing crisis of our political system. These effectively read as a popularized version of Deleuzian politics: people know what they want, they are able to discover and formulate this, but only through their own continuous engagement and activity, so we need active participatory democracy, not just representative democracy with its electoral ritual which every four years interrupts the voters’ passivity; we need the self-organization of the multitude, not a centralized Leninist Party with the Leader… etc.etc. It is this myth of non-representative direct self-organization which is the last trap, the deepest illusion that should fall, that is most difficult to renounce. Yes, there are, in every revolutionary process, ecstatic moments of group solidarity when thousands, hundreds of thousands, together occupy a public place, like on Tahrir square 2 years ago; yes, there are moments of intense collective participations where local communities debate and decide, when people live in a kind of permanent emergency state, taking things into their own hands, with no Leader guiding them… but such states don’t last, and “tiredness” is here not a simple psychological fact, it is a category of social ontology. The large majority – me included – WANTS to be passive and just rely on an efficient state apparatus to guarantee the smooth running of the entire social edifice, so that I can pursue my work in peace. Walter Lippmann wrote in his Public Opinion (1922) that the herd of citizens must be governed by “a specialized class whose interests reach beyond the locality” – this elite class is to act as a machinery of knowledge that circumvents the primary defect of democracy, the impossible ideal of the “omni-competent citizen”. This is how our democracies function – with our consent: there is no mystery in what Lippmann was saying, it is an obvious fact; the mystery is that, knowing it, we play the game. We act as if we are free and freely deciding, silently not only accepting but even demanding that an invisible injunction (inscribed into the very form of our free speech) tells us what to do and think. “People know what they want” – no, they don’t, and they don’t want to know it, they need a good elite, which is why a proper politician does not only advocate people’s interests, it is through him that they discover what they “really want.”

As to the molecular self-organizing multitude against the hierarchic order sustained by the reference to a charismatic Leader, note the irony of the fact that Venezuela, a country praised by many for its attempts to develop modes of direct democracy (local councils, cooperatives, workers running factories), is also a country whose president was Hugo Chavez, a strong charismatic Leader if there ever was one. It is as if the Freudian rule of transference is at work here also: in order for the individuals to “reach beyond themselves,” to break out of the passivity of representative politics and engage themselves as direct political agents, the reference to a Leader is necessary, a Leader who allows them to pull themselves out of the swamp like baron Munchhausen, a Leader who is “supposed to know” what they want. It is in this sense that Alain Badiou recently pointed out how horizontal networking undermines the classic Master, but it simultaneously breeds new forms of domination which are much stronger than the classic Master. Badiou’s thesis is that a subject needs a Master to elevate itself above the “human animal” and to practice fidelity to a Truth-Event:

“The master is the one who helps the individual to become subject. That is to say, if one admits that the subject emerges in the tension between the individual and the universality, then it is obvious that the individual needs a mediation, and thereby an authority, in order to progress on this path. One has to renew the position of the master – it is not true that one can do without it, even and especially in the perspective of emancipation.” [1]

And Badiou is not afraid to oppose the necessary role of the Master to our “democratic” sensitivity:

“I am convinced that one has to reestablish the capital function of leaders in the Communist process, whichever its stage. Two crucial episodes in which the leadership was insufficient were the Paris Commune (no worthy leader, with the exception of Dombrowski in the strictly military domain) and the Great Proletarian Cultural Revolution (Mao too old and tired, and the ‘group of the GPCR’ infected by ultra-Leftism). This was a severe lesson.

This capital function of leaders is not compatible with the predominant ‘democratic’ ambience, which is why I am engaged in a bitter struggle against this ambience (after all, one has to begin with ideology). When I am dealing with people whose jargon is Lacanian I say ‘a figure of Master.’ When they are militants I say ‘dictatorship’ (in the sense of Carl Schmitt). When they are workers I say ‘leader of a crowd,’ and so on. It is so that I am quickly understood.” [2]

And we should fearlessly follow his suggestion: in order to effectively awaken individuals from their dogmatic “democratic slumber,” from their blind reliance on institutionalized forms of representative democracy, appeals to direct self-organization are not enough, a new figure of the Master is needed. Recall the famous lines from Arthur Rimbaud’s “A une raison” (“To a Reason”):

“A tap of your finger on the drum releases all sounds and initiates the new harmony.

A step of yours is the conscription of the new men and their marching orders.
You look away: the new love!
You look back, — the new love!”

There is absolutely nothing inherently ”Fascist” in these lines – the supreme paradox of the political dynamics is that a Master is needed to pull individuals out of the quagmire of their inertia and motivate them towards self-transcending emancipatory struggle for freedom.

What we need today, in this situation, is a Thatcher of the Left: a leader who would repeat Thatcher’s gesture in the opposite direction, transforming the entire field of presuppositions shared by today’s political elite of all main orientations.


[1] Alain Badiou / Elisabeth Roudinesco, «Appel aux psychanalystes. Entretien avec Eric Aeschimann,» Le Nouvel Observateur, April 19 2012.

[2] Personal communication (April 2013).

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Rabinovitch no Chipre

13.04.08_Rabinovitch no Chipre_Por Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido por Rogério Bettoni, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

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Recordemos a cena clássica dos desenhos animados em que um gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e se vê pairando sobre o abismo. Não é assim que o povo do Chipre se sente hoje em dia? As pessoas sabem que o Chipre nunca mais será o mesmo, que logo adiante haverá uma queda catastrófica no padrão de vida, mas o impacto total dessa queda ainda não foi sentido devidamente; então, por um curto período, as pessoas se dão ao luxo de continuar vivendo normalmente, como o gato que caminha tranquilo no ar. E não podemos condená-las: esse adiamento do colapso total também é uma estratégia de sobrevivência – o verdadeiro impacto acontecerá em silêncio, quando o pânico tiver acabado. Por isso é que agora, quando a crise no Chipre desapareceu em grande medida da mídia, devemos falar e escrever sobre ela.

Há uma piada famosa, contada na última década da União Soviética, sobre Rabinovitch, um judeu que quer emigrar. O funcionário do departamento de emigração pergunta o motivo, e ele responde: “Há dois motivos. O primeiro é o medo de que os comunistas percam o poder na União Soviética, e o novo governo coloque sobre nós, judeus, toda a culpa pelos crimes comunistas – e daí haverá mais pogroms…” O funcionário interrompe, dizendo: “Mas isso é uma bobagem, nada vai mudar na União Soviética, o poder dos comunistas vai durar para sempre!” “Pois então, esse é o segundo motivo”, responde Rabinovitch tranquilamente.

É fácil imaginarmos uma conversa semelhante entre um gestor financeiro da União Europeia e um Rabinovitch cipriota – Rabinovitch reclama: “Há duas razões para estarmos em pânico. Primeiro, temos medo de que a UE simplesmente abandone o Chipre e deixe nossa economia ruir…” O gestor financeiro o interrompe: “Você pode confiar na UE: nós os controlaremos com firmeza e diremos o que devem fazer!” E Rabinovitch responde tranquilamente: “Bem, essa é a segunda razão”.

Esse impasse representa perfeitamente o cerne da triste situação do Chipre: eles não podem sobreviver prosperamente sem a Europa, mas também não o podem com a Europa – as duas opções são piores, como diria Stalin. Recordemos a piada cruel de Ser ou não ser (1942), de Ernst Lubitch: quando questionado sobre os campos de concentração na Polônia ocupada, o responsável oficial nazista, apelidado de “Campo de Concentração Erhardt”, responde: “Nós concentramos, os poloneses acampam”. O mesmo não vale para a atual crise financeira europeia? A forte Europa Setentrional, voltada para a Alemanha, é responsável pela concentração, enquanto o Sul, enfraquecido e vulnerável, acampa. Desse modo, surgem no horizonte os contornos de uma Europa dividida: a região Sul será cada vez mais reduzida a uma zona com força de trabalho mais barata, fora da rede segura do bem-estar social, um domínio próprio para a terceirização e o turismo. Em suma, a lacuna entre o mundo desenvolvido e os retardatários avançará dentro da própria Europa.

Essa lacuna se reflete nas duas principais histórias sobre o Chipre, que lembram duas histórias anteriores sobre a Grécia. Há o que podemos chamar de história alemã: o gasto livre, as dívidas e a lavagem de dinheiro não podem continuar indefinidamente etc. E há a história do Chipre: as medidas brutais da UE resultam em uma nova ocupação alemã que destitui o Chipre de sua soberania. As duas histórias estão erradas, e as demandas que implicam são absurdas: o Chipre, por definição, não pode liquidar sua dívida, enquanto a Alemanha e a UE não podem simplesmente continuar injetando dinheiro para preencher o buraco financeiro cipriota. As duas histórias escondem o fato principal de que há algo errado com o sistema inteiro, no qual as especulações bancárias incontroláveis podem levar um país inteiro à falência. A crise do Chipre não é uma tempestade no copo d’água de um país marginal pequeno, mas um sintoma do que acontece com todo o sistema da UE.

Por isso a solução não é apenas uma regulação maior para evitar a lavagem de dinheiro etc., mas (pelo menos) uma mudança radical no sistema bancário inteiro – para dizer o indizível, algum tipo de socialização dos bancos. A lição das quebras no mundo inteiro desde 2008 é clara: a rede inteira de fundos e transações monetárias, desde depósitos individuais e fundos de aposentadoria até o funcionamento de todos os tipos de derivativos, terá de ser controlada socialmente, modernizada e regulada. Pode soar utópico, mas a verdadeira utopia é a ideia de que podemos, de alguma maneira, sobreviver com mudanças pequenas e cosméticas.

Nesse aspecto, devemos evitar uma armadilha fundamental: a necessária socialização dos bancos não é um compromisso entre o trabalho assalariado e o capital produtivo contra o poder das finanças. Colapsos e crises financeiras são lembretes óbvios de que a circulação do Capital não é um circuito fechado capaz de sustentar plenamente a si próprio, isto é, que essa circulação visa a realidade da produção e da venda de bens que satisfazem às necessidades das pessoas. No entanto, a lição mais sutil dos colapsos e das crises financeiras é que não há como retornar a essa realidade – toda a retórica do “passemos do espaço virtual da especulação financeira de volta às pessoas reais que produzem e consomem” é profundamente equivocada, é a ideologia em sua forma mais pura. O paradoxo do capitalismo é que não podemos jogar fora a água suja das especulações financeiras e guardar o bebê saudável da economia real: a água suja efetivamente é a “linhagem” do bebê saudável.

Isso significa apenas que a solução da crise do Chipre não está no Chipre. Para que o país tenha uma chance, alguma coisa terá de mudar alhures.

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Slavoj Žižek esteve no Brasil para lançar seu maior e mais importante livro teórico: Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético. Confira, abaixo, o Booktrailer da obra:

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Rabinovitch in Cyprus

13.04.08_Rabinovitch in CyprusBy Slavoj Žižek.

Para a versão em português do artigo, clique aqui.

Recall the classic cartoon scene of a cat who simply continues to walk over the edge of the precipice, ignoring that she has no longer ground under her feet – she falls down only when she looks down and notices she is hanging in the abyss. Is this not how ordinary people in Cyprus must feel these days? They are aware that Cyprus will never be the same, that there is a catastrophic fall of the standard of living ahead, but the full impact of this fall is not yet properly felt, so for a short period they can afford to go on with their normal daily lives like the cat who calmly walks in the empty air. And we should not condemn them: such delaying of the full crash is also a surviving strategy – the real impact will come silently when the panic will be over. This is why it is now when the Cyprus crisis has largely disappeared from the media that one should think and write about it.

There is a well-known joke from the last decade of the Soviet Union about Rabinovitch, a Jew who wants to emigrate. The bureaucrat at the emigration office asks him why, and Rabinovitch answers: “There are two reasons why. The first is that I’m afraid that in the Soviet Union the Communists will lose power, and the new power will put all the blame for the Communist crimes on us, Jews – there will again be anti-Jewish pogroms…” “But”, interrupts him the bureaucrat, “this is pure nonsense, nothing can change in the Soviet Union, the power of the Communists will last forever!”. “Well,” responds Rabinovitch calmly, “that’s my second reason.”

It is easy to imagine a similar conversation between a European Union financial administrator and a Cypriote Rabinovitch today – Rabinovitch complains: “There are two reasons we are in a panic here. First, we are afraid that the EU will simply abandon Cyprus and let our economy collapse…” The EU administrator interrupts him: “But you can trust us, we will not abandon you, we will tightly control you and advise you what to do!” “Well,” responds Rabinovitch calmly, “that’s my second reason.”

Such a deadlock effectively renders the core of the sad predicament of Cyprus: they cannot survive in prosperity without Europe, but also not with Europe – both options are worse, as Stalin would have put it. Recall the cruel joke from Lubitch’s To Be Or Not to Be: when asked about the German concentration camps in the occupied Poland, the responsible Nazi officer “concentration camp Erhardt” snaps back: “We do the concentrating, and the Poles do the camping.” Does the same not hold for the ongoing financial crisis in Europe? The strong Northern Europe, focused in Germany, does the concentrating, while the weakened and vulnerable South does the camping. What is emerging on the horizon are thus the contours of a divided Europe: its Southern part will be more and more reduced to a zone with cheaper labor force, outside the safety network of the welfare state, a domain appropriate for outsourcing and tourism. In short, the gap between developed world and those lagging behind will now run within Europe itself.

This gap is reflected in the two main stories about Cyprus which resemble the two earlier stories about Greece. There is what can be called the German story: free spending, debts and money laundering cannot go on indefinitely, etc. And there is the Cyprus story: the brutal EU measures amount to a new German occupation which is depriving Cyprus of its sovereignty. Both stories are wrong, and the demands they imply are nonsensical: Cyprus by definition cannot repay its debt, while Germany and EU cannot simply go on throwing money to fill in the Cypriote financial hole. Both stories obfuscate the key fact: that there is something wrong with the entire system in which uncontrollable banking speculations can cause a whole country to go bankrupt. The Cyprus crisis is not a storm in the cup of a small marginal country, it is a symptom of what is wrong with the entire EU system.

This is why the solution is not just more regulation to prevent money laundering, etc., but (at least) a radical change in the entire banking system – to say the unsayable, some kind of socialization of banks. The lesson of crashes that accumulated worldwide from 2008 on is clear: the whole network of financial funds and transactions, from individual deposits and retirement funds up to the functioning of all kinds of derivatives, will have to be somehow put under social control, streamlined and regulated. This may sound utopian, but the true utopia is the notion that we can somehow survive with small cosmetic changes.

But there is a fatal trap to be avoided here: the socialization of banks that is needed is not a compromise between wage labor and productive capital against the power of finance. Financial meltdowns and crises are obvious reminders that the circulation of the Capital is not a closed loop which can fully sustain itself, i.e., that this circulation points towards the reality of producing and selling actual goods that satisfy actual people’s needs. However, the more subtle lesson of crises and meltdowns is that there is no return to this reality – all the rhetoric of “let us move from the virtual space of financial speculations back to real people who produce and consume” is deeply misleading, it is ideology at its purest. The paradox of capitalism is that you cannot throw out the dirty water of financial speculations and keep the healthy baby of real economy: the dirty water effectively is the “bloodline” of the healthy baby.

What this simply means is that the solution of the Cyprus crisis does not reside in Cyprus. For Cyprus to get a chance, something will have to change elsewhere.

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All of Slavoj Žižek’s books published in Brazil by Boitempo are avaiable in ebook form. If you’re interested, find out more in the links below:

Revolution at the Gates: Lenin – The 1917 Writings * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

The Parallax View * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Welcome to the Desert of the Real! * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

In defense of Lost Causes * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

First as Tragedy, Then as Farce * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Living in the End Times * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

The Year of Dreaming Dangerously * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Also, there’s an article by Žižek on Boitempo’s Occupy: Protest Movements that Took the Streets (along with David Harvey, Mike Davis, Tariq Ali, Immanuel Wallerstein and others) * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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menos que nada_capa_altaSlavoj Žižek’s new book, Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Historical Materialism has just been released in Brazil.

Slavoj Žižek was in Brazil to take part in an International Seminar on Marx, together with David Harvey, Michael Heinrich and many other renowned marxist thinkers!

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Boitempo Editorial is one of the most prestigious independent leftist publishers in Brazil: a publishing house of radical thinkers from the classics of Karl Marx, Friedrich Engels, Leon Trotski and Vladimir I.U. Lenin to György Lukács, István Mészáros, Slavoj Žižek, Alain Badiou, Giorgio Agamben, Perry Anderson, David Harvey, Mike Davis, Fredric Jameson and Tariq Ali. Among the Brazilian authors, Boitempo publishes some of the greatest leftist intellectuals of our time, such as Emir Sader, Leandro Konder, Franscisco de Oliveira, Maria Rita Kehl, Michael Löwy, Ricardo Antunes, Paulo Arantes and Vladimir Safatle. For Foreign Rights, visit our website or contact blog@boitempoeditorial.com.br.

Contra os direitos humanos! Artigo de Slavoj Žižek

Slavoj Žižek no Brasil (fotografia de Kim Doria)

Slavoj Žižek no Brasil (fotografia de Kim Doria)

Por Slavoj Žižek.

Publicada originalmente na New Left Review, n. 34, julho-agosto de 2005. Traduzido do inglês por Sávio Cavalcante. Revisão de Martha Ramírez-Gálvez e Silvana Mariano para a revista Mediações.

As invocações contemporâneas aos diretos humanos, em nossas sociedades liberal-capitalistas, geralmente repousam sobre três suposições. A primeira, que tais invocações funcionam em oposição a fundamentalismos que naturalizariam ou essencializam traços contingentes historicamente condicionados. A segunda, que os dois direitos mais fundamentais são a liberdade de escolha e o direito de dedicar a própria vida à busca do prazer (ao invés de sacrificá-la por alguma causa ideológica maior). A terceira, que a invocação aos direitos humanos pode formar as bases para uma defesa contra o “excesso de poder”.

Comecemos com o fundamentalismo. Aqui, o mal (para parafrasear Hegel) reside frequentemente no olhar que o percebe. Tomemos os Bálcãs durante a década de 1990, lugar de generalizadas violações aos direitos humanos. Em que ponto os Bálcãs – uma região geográfica do sudeste europeu – se “balcanizaram”, com tudo o que esse termo designa para o imaginário ideológico europeu de hoje? A resposta é: no período de meados do século XIX, momento em que os Bálcãs foram completamente expostos aos efeitos da modernização europeia. A diferença [gap] entre as primeiras percepções da Europa ocidental e a imagem “moderna” é impressionante. Já no século XVI, o naturalista francês Peirre Belon podia assinalar que “os turcos não forçam ninguém a viver como turco”. Pouco surpreende, então, que tantos judeus encontraram asilo e liberdade religiosa na Turquia e em outros países muçulmanos, depois que Fernando e Isabel os expulsaram da Espanha em 1492 – com o resultado de que, num supremo toque de ironia, viajantes ocidentais foram incomodados pela presença pública de judeus nas grandes cidades turcas. Eis aqui, dentre uma longa série de exemplos, um relato de N. Bisani, um italiano que visitou Istambul em 1788:

Um estrangeiro, que tenha contemplado a intolerância de Londres e Paris, deve ter ficado muito surpreso ao ver aqui uma igreja entre uma mesquita e uma sinagoga, e um dervixe ao lado de um frade capuchinho. Eu não sei como este governo pode admitir em seu seio religiões tão opostas à sua própria. Deve ser por uma degenerescência do maometanismo que este feliz contraste pode ser produzido. O que é ainda mais surpreendente é encontrar este espírito de tolerância prevalecendo geralmente entre as pessoas; porque aqui você vê turcos, judeus, católicos, armênios, gregos e protestantes conversando juntos sobre assuntos de negócios ou de lazer, com tanta harmonia e boa vontade como se eles fossem do mesmo país e religião (apud JEZERNIK, 2004, p. 233).

A mesma característica que o Ocidente hoje celebra como um sinal de sua superioridade cultural – o espírito e a prática da tolerância multicultural – é repudiado, então, como um efeito da degenerescência islâmica. O estranho destino dos monges trapistas do Etoile Marie é igualmente revelador. Expulsos da França pelo regime napoleônico, eles se instalaram na Alemanha, mas também foram expulsos em 1868. Como nenhum outro Estado cristão os acolheria, eles pediram permissão ao Sultão para comprar terras perto de Banja Luka, na parte sérvia da atual Bósnia, onde eles viveram felizes para sempre – até que se viram pegos nos conflitos dos Bálcãs entre cristãos.

Onde, então, se originaram os traços fundamentalistas – intolerância religiosa, violência étnica, fixação em trauma histórico – que o Ocidente agora associa com “os Bálcãs”? Claramente, no próprio Ocidente. Em um claro exemplo da “determinação reflexiva” de Hegel, o que os europeus ocidentais observam e deploram nos Bálcãs é o que eles mesmos introduziram ali, o que eles combatem é o seu próprio legado histórico descontrolado. Não esqueçamos que os dois grandes crimes étnicos imputados aos turcos no século XX – o genocídio de armênios e a perseguição dos curdos – não foram cometidos por forças políticas muçulmanas tradicionalistas, mas pelos modernizadores militares que buscaram separar a Turquia de seu lastro no mundo antigo e transformá-la em um Estado-nação europeu. O velho sarcasmo de Mladen Dolar, baseado em uma leitura detalhada das referências de Freud à região, que dizia que o inconsciente europeu é estruturado como os Bálcãs, é, assim, literalmente correto: sob o disfarce de alteridade do “balcânico”, a Europa toma conhecimento do “estrangeiro que há em si mesma”, de seu eu reprimido.

Mas, deveríamos examinar os modos pelos quais a essencialização fundamentalista dos traços contingentes é, ela mesma, uma característica da democracia liberal-capitalista. Está na moda queixar-se de que a vida privada está sob ameaça ou mesmo desaparecendo em face da habilidade dos meios de comunicação de expor em público os detalhes pessoais mais íntimos. Correto, com a condição de que coloquemos as coisas ao contrário: o que está efetivamente desaparecendo aqui é a vida pública em si, a esfera pública propriamente dita, na qual se opera como um agente simbólico que não pode ser reduzido a um indivíduo privado, a um feixe de atributos, desejos, traumas e idiossincrasias pessoais. O lugar-comum “sociedade de risco” – de acordo com o qual o indivíduo contemporâneo experimenta a si mesmo como algo completamente “desnaturalizado”, mesmo em relação às suas características mais naturais, desde identidade étnica à preferência sexual, como sendo escolhidas, historicamente contingentes, aprendidas – é, então, profundamente enganador. O que testemunhamos hoje é o processo oposto: uma re-naturalização sem precedentes. Todas as grandes “questões públicas” são agora traduzidas em atitudes para uma regulação de idiossincrasias “naturais” ou “pessoais”.

Isto explica por que, em um plano mais geral, conflitos etno-religiosos pseudo-naturalizados são a forma de luta que mais se ajusta ao capitalismo global. Na era da “pós-política”, quando a política propriamente dita é progressivamente substituída por uma administração social de especialistas, as únicas fontes de conflito restantes são as tensões culturais (religiosas) ou naturais (étnicas). E a “avaliação” é precisamente a regulação da promoção social que se encaixa com esta re-naturalização. Talvez tenha chegado o momento de reafirmar, como uma verdade da avaliação, a lógica perversa à qual Marx se refere ironicamente em sua discrição do fetichismo da mercadoria, ao citar o conselho de Dogberry a Seacol, no final do capítulo I de O Capital: “Ser um homem bem apessoado é um dom das circunstâncias, mas saber ler e escrever vem da natureza”. Ser um especialista em computadores ou um administrador de sucesso é, nos dias de hoje, um dom da natureza, mas ter lábios e olhos belos é uma questão de cultura.

A ausência da liberdade de escolha

Quanto à liberdade de escolha: escrevi alhures sobre a pseudo-escolha oferecida aos adolescentes das comunidades Amish, que, depois da mais rigorosa educação, são convidados, aos dezessete anos, a mergulhar em todos os excessos da cultura capitalista contemporânea – um turbilhão de carros rápidos, sexo selvagem, drogas, bebidas e assim por diante. Depois de dois anos, lhes é permitido escolher se querem voltar ao modo amish. Como foram criados quase que totalmente ignorantes em relação à sociedade estadunidense, os jovens estão muito despreparados para lidar com tal permissividade, a qual, na maioria dos casos, gera uma reação de ansiedade insuportável. A grande maioria decide por retornar à reclusão de suas comunidades. Este é um perfeito exemplo das dificuldades que invariavelmente acompanham a “liberdade de escolha”: ainda que aos jovens amish lhes seja dada formalmente uma livre escolha, as condições nas quais eles têm que fazê-la tornam a escolha não livre.

O problema da pseudo-escolha também demonstra os limites das atitudes liberais padrão em relação às mulheres muçulmanas que usam o véu: é aceitável se for sua própria escolha e não algo imposto por seus maridos ou família. Entretanto, no momento em que a mulher usa o véu como resultado de uma escolha pessoal, o significado muda completamente: não é mais um sinal de pertencimento à comunidade muçulmana, mas uma expressão de uma individualidade idiossincrática. Em outras palavras, uma escolha é sempre uma meta-escolha, uma decisão da modalidade da escolha em si: é somente a mulher que escolhe não usar o véu quem, efetivamente, faz uma escolha. Por esta razão, em nossas democracias liberais seculares, as pessoas que mantém uma fidelidade religiosa substancial estão em posições subordinadas: sua fé é “tolerada” por ser sua própria escolha pessoal, mas no momento em que a apresentam publicamente como o que a fé é para elas – uma questão de pertencimento substancial – são acusadas de “fundamentalismo”. Obviamente, o “tema da livre escolha”, no sentido “tolerante”, multicultural, pode apenas emergir como resultado de um processo extremamente violento de desenraizamento do mundo e da vida particular de cada um.

A força essencial da noção ideológica de “livre escolha” na democracia capitalista foi bem ilustrada pelo destino do ultra-modesto programa de reforma da saúde da administração de Clinton. O lobby médico (duas vezes mais forte que o infame lobby da Defesa) obteve sucesso em impor ao público a ideia de que a assistência universal de saúde ameaçaria, de alguma maneira, a liberdade de escolher naquele campo. Contra esta convicção, toda enumeração de “dados puros” provou-se inútil. Aqui estamos no verdadeiro centro nervoso da ideologia liberal: a liberdade de escolha, fundamentada na noção de sujeito “psicológico”, dotada de propensões que ele ou ela esforçam-se para concretizar. E isto se mantém especialmente nos dias de hoje, na era da “sociedade do risco”, na qual a ideologia dominante se esforça para nos vender as mesmas inseguranças causadas pelo desmantelamento do Welfare State como se fossem oportunidades para novas liberdades. Se a flexibilização do trabalho significa que você tem que mudar de emprego todos os anos, por que não ver isto como uma liberação dos constrangimentos de uma carreira permanente, uma chance de se reinventar e de desenvolver o potencial oculto de sua personalidade? Se existe uma redução de seu seguro de saúde padrão e de seu plano de aposentadoria, o que significa que você tem que optar por uma cobertura extra? Por que não perceber isto como uma oportunidade adicional para escolher entre um melhor estilo de vida agora ou a seguridade em longo prazo? Se este apuro lhe causa ansiedade, os ideólogos da “segunda modernidade” irão diagnosticar que você deseja “escapar da liberdade”, de que está apegado imaturamente a velhas formas estáveis. Melhor ainda, quando isto está inscrito na ideologia do sujeito enquanto indivíduo “psicológico”, prenhe de habilidades individuais, a pessoa tenderá automaticamente a interpretar todas essas mudanças como resultado de sua personalidade, e não como resultado de ter sido sacudida pelas forças do mercado.

A política da jouissance

E o que dizer do direito básico à busca do prazer? A política de hoje preocupa-se cada vez mais com as formas de solicitar ou controlar a jouissance4. A oposição entre o Ocidente liberal-tolerante e o Islã-fundamentalista se condensa mais frequentemente como a oposição entre, por um lado, o direito da mulher à livre sexualidade, incluindo a liberdade de se mostrar ou de se expor e provocar ou incomodar os homens; e, por outro lado, tentativas masculinas desesperadas em suprimir ou controlar esta ameaça. (Os talibãs proibiam as mulheres de usar saltos com pontas metálicas, pois os sons das batidas, vindas debaixo das burcas que a tudo tapam, poderiam causar um apelo erótico irresistível).

Ambos os lados, por certo, mistificam ideológica e moralmente suas posições. Para o Ocidente, o direito das mulheres a se expor de forma provocativa ao desejo masculino é legitimado como seu direito de desfrutar de seus corpos como bem entendem. Para o Islã, o controle sobre a sexualidade feminina é legitimado pela defesa da dignidade da mulher em oposição à sua redução a objetos de exploração masculina. Assim, quando o Estado francês proíbe garotas muçulmanas de usar o véu na escola, pode-se alegar que a elas se permite, então, dispor de seus corpos tal como desejam. Mas, também, pode-se dizer que o verdadeiro ponto traumático para os críticos do “fundamentalismo” muçulmano foi o fato de que há mulheres que não participaram do jogo de deixar seus corpos disponíveis para sedução sexual, ou para a circulação e trocas sociais envolvidas nisso. De um jeito ou de outro, todas as demais questões – o casamento entre homossexuais e a possibilidade de adoção, do aborto, do divórcio – se referem a este fato. O que os dois pólos compartilham é uma abordagem disciplinar estrita, dirigida de diferentes maneiras: os “fundamentalistas” regulam a auto-exibição feminina para prevenir provocações sexuais; os liberais feministas politicamente corretos impõem uma regulação não menos severa do comportamento, com o objetivo de conter formas de assédio.

As atitudes liberais para o outro são caracterizadas tanto pelo respeito à alteridade, a abertura a ela, quanto pelo medo obsessivo do assédio. Em suma, o outro é acolhido na medida em que sua presença não é intrusiva, na medida em que não seja, na verdade, o outro. A tolerância, portanto, coincide com o seu oposto. Meu dever de ser tolerante para com os outros significa, na verdade que não devo chegar muito próximo a ele ou ela, não me introduzir em seu espaço – em suma, que devo respeitar sua intolerância em relação ao meu excesso de proximidade. Isto está emergindo cada vez mais como direito humano central da sociedade capitalista avançada: o direito a não ser assediado, isto é, a se manter a uma distância segura dos outros. O mesmo vale para a emergente lógica do militarismo humanitário ou pacifista. A guerra é aceitável na medida em que procura trazer a paz, ou a democracia, ou as condições para distribuir a ajuda humanitária. E o mesmo não é válido para a democracia e para os próprios direitos humanos? Está tudo bem com os direitos humanos se eles são “repensados” para incluir a tortura e um Estado de emergência permanente. Está tudo bem com a democracia se ela está livre de seus excessos populistas e limitada àqueles suficientemente maduros para praticá-la.

Pegos no ciclo vicioso do imperativo da jouissance, a tentação é optar pelo que aparece como seu oposto “natural”, a renúncia violenta da jouissance. Este é, talvez, o motivo subjacente de todos os assim chamados fundamentalismos – o empenho em conter (aquilo que eles percebem como) o excessivo “narcisismo hedonista” da cultura laica contemporânea com um chamado a reintroduzir o espírito do sacrifício. Uma perspectiva psicanalítica nos permite ver, imediatamente, por que tal empenho vai mal. O próprio gesto de rejeitar o prazer – “Basta de auto-indulgência decadente! Renuncie e se purifique!” – produz por si um prazer-excedente. Não exalam todos os universos “totalitários”, que demandam de seus seguidores um violento (auto)sacrifício à causa, o mau cheiro da fascinação por uma jouissance obscena letal? De modo inverso, uma vida orientada pela busca do prazer acarretará a severa disciplina de uma “vida saudável” – corrida, dietas e relaxamento mental – para ser desfrutada ao máximo. A ordem do superego para se divertir é entrelaçada de forma imanente com a lógica do sacrifício. Ambas formam um ciclo vicioso, em que cada extremo apoia o outro. A escolha nunca é simplesmente entre fazer seu dever ou se esforçar para ter prazer e satisfação. A escolha elementar é sempre redobrada por uma adicional, qual seja, entre elevar o esforço pelo prazer a um dever supremo, e cumprir o dever não pelo dever em si, mas pelas gratificações que provoca. No primeiro caso, os prazeres são o meu dever, e o esforço “patológico” pelo prazer está localizado no espaço formal do dever. No segundo caso, o dever é o meu prazer, e cumprir meu dever se situa no espaço formal das satisfações “patológicas”.

Defesa contra o poder?

Mas se os direitos humanos, enquanto oposição ao fundamentalismo e busca pela felicidade, levam-nos a contradições inacessíveis, não são eles, afinal de contas, uma defesa contra o excesso de poder? Em suas análises sobre 1848, Marx formulou a estranha lógica de que o poder se dá “em excesso” por conta de sua própria natureza. Em O 18 de brumário de Luis Bonaparte e em As lutas de classe na França, ele “complicou” de uma forma devidamente dialética a lógica da representação social (agentes políticos representando classes e forças econômicas). Ao fazê-lo, ele foi muito além da noção usual dessas “complicações”, segundo a qual a representação política nunca reflete diretamente a estrutura social – um único agente político pode representar diferentes grupos sociais, por exemplo; ou uma classe pode renunciar a sua representação direta e deixar a outro o trabalho de assegurar as condições político-jurídicas de seu governo, assim como o fez a classe capitalista inglesa ao deixar à aristocracia o exercício do poder político. A análise de Marx aponta para aquilo que Lacan, mais de um século depois, articularia como a “lógica do significante”. A propósito do Partido da Ordem, formado após a derrota da insurreição de junho, Marx escreveu que somente a vitória eleitoral em 10 de dezembro de Luís Bonaparte permitiu a tal partido “remover” de seu círculo social os republicanos burgueses

e revelou-se o segredo de sua existência, a coalizão de orleanistas e legitimistas em um partido. A classe burguesa dividiu-se em duas grandes frações que, alternadamente – os grandes proprietários de terra durante a monarquia restaurada e a aristocracia das finanças e os burgueses industriais durante a Monarquia de julho – mantiveram um monopólio de poder. Bourbon era o título monárquico para a influência predominante dos interesses de uma fração. Órleans era o título monárquico para a influência predominante dos interesses de outra fração – o domínio sem nome da república foi o único no qual ambas as frações puderam manter, com igual poder, o interesse de classe comum sem abandonar sua rivalidade mútua (MARX e ENGELS, 1969, p. 83).

Esta, então, é a primeira complicação. Quando lidamos com dois ou mais grupos socio-econômicos, seus interesses em comum podem apenas ser representados sob o disfarce da negação de suas premissas compartilhadas: o denominador comum das duas frações monárquicas não é a monarquia, mas sim o republicanismo. (Assim como hoje em que o único agente político que representa de forma consistente os interesses do capital propriamente dito, na sua universalidade, acima de frações particulares, é a “sócio-liberal” Terceira Via). Por conseguinte, nO 18 de brumário de Luis Bonaparte, Marx disseca a composição da Sociedade de 10 de Dezembro, o exército privado de criminosos de Luís Napoleão:

Lado a lado com roués decadentes, de duvidosos meios de subsistência e de origem duvidosa, juntamente com rebentos arruinados e aventureiros da burguesia, havia vagabundos, soldados desligados do exército, presidiários libertos, escravos desertores de galés, vigaristas, charlatões, Lazzaroni, batedores de carteira, trapaceiros, jogadores, maquereaus, donos de bordéis, carregadores, literatos, tocadores de realejo, trapeiros, amoladores de facas, soldadores ambulantes, mendigos; em suma, toda essa massa indefinida e desagregada, jogada de lá para cá, a qual os franceses chamam La bohème; com estes elementos afins, Bonaparte formou o núcleo da Sociedade 10 de Dezembro (…) Este Bonaparte, que se constitui em chefe do lumpem-proletariado, que só então redescobre, em forma de massa, os interesses que pessoalmente persegue, que reconhece nesta escória, neste refugo e rebotalho de todas as classes, a única classe sobre a qual ele pode apoiar-se incondicionalmente, é o verdadeiro Bonaparte, o Bonarparte sans phrases (MARX e ENGELS, 1975, p. 149).

A lógica do Partido da Ordem é aqui trazida à sua conclusão radical. Da mesma forma que o único denominador comum de todas as frações monárquicas é o republicanismo, o único denominador comum de todas as classes é o excremento em excesso, o refugo, o resíduo de todas as classes. Isto é, na medida em que o líder se considere a si mesmo como estando acima dos interesses de classe, sua base de classe imediata pode ser apenas o resíduo de excrementos de todas as classes, os rejeitados sem classe de cada classe. E, como Marx desenvolveu em outra passagem, é este apoio do “abjeto social” que permite a Bonaparte trocar de posição segundo sua necessidade, representando, por sua vez, cada classe contra as demais.

Enquanto autoridade executiva que se fez independente, Bonaparte considera que sua tarefa é salvaguardar a “ordem burguesa”. Mas a força desta ordem burguesa repousa sobre a classe média. Ele se apresenta, portanto, como representante da classe média e emite decretos neste sentido. Todavia, ele somente é alguém porque quebrou o poder desta classe média, e segue quebrando-o diariamente. Ele se apresenta, portanto, como adversário do poder político e literário da classe média (MARX e ENGELS, 1975, p. 194).

Mas, há mais. Para que este sistema funcione – isto é, para que o líder se levante sobre as classes e não atue como representante direto de uma classe qualquer – ele também tem que atuar como representante de uma classe particular: da classe que, precisamente, não está suficientemente constituída para atuar como um agente unido que demanda representação ativa. Esta classe de pessoas que não podem representar a si mesmas e, assim, pode somente ser representadas é, por certo, a classe dos pequenos camponeses, que

formam um vasta massa, cujos membros vivem em condições similares, mas sem estabelecer múltiplas relações entre si. O seu modo de produção os isola uns aos outros ao invés de reuni-los em um intercâmbio mútuo. (…) Eles são, consequentemente, incapazes de fazer valer seus interesses de classe em seu próprio nome, seja através de um parlamento, seja por meio de uma convenção. Eles não podem representar-se, precisam ser representados. Seu representante deve, ao mesmo tempo, aparecer como seu senhor, como uma autoridade sobre eles, como um poder governamental ilimitado que os protege contra as outras classes e que do alto os envia chuva e sol. A influência política dos pequenos camponeses, portanto, encontra sua expressão final com o poder executivo que subordina a sociedade a si mesmo (MARX e ENGELS, 1975, p. 187-188).

Estas três características juntas formam a estrutura paradoxal da representação populista bonapartista: manter-se por cima de todas as classes, trocando entre elas, implica uma dependência direta sobre o abjeto/resíduo de todas as classes, aliado à referência última à classe daqueles que não são capazes de agir como um agente coletivo que demanda representação política. Este paradoxo baseia-se no excesso constitutivo da representação sobre os representados. De acordo com a lei, o poder do Estado apenas representa o interesse de seus súditos; está a serviço deles, é responsável por eles e está, ele mesmo, sujeito a seu controle. Entretanto, de acordo com o superego subjacente, a mensagem pública de responsabilidade é complementada pela mensagem obscena do exercício incondicional de poder: “As leis não me constrangem realmente, eu posso fazer a você o que eu quiser, eu posso tratá-lo como culpado se assim o decido, eu posso destruí-lo por um capricho”. Este excesso obsceno é um componente necessário da noção de soberania. A assimetria, aqui, é estrutural: a lei pode apenas sustentar sua autoridade se os súditos escutarem nelas o eco da obscena e incondicional auto-afirmação do poder.

Este excesso de poder nos leva ao argumento fundamental contra as “grandes” intervenções políticas, as quais têm por objetivo uma transformação global: as experiências aterrorizantes do século XX, uma série de catástrofes que precipitou violentos desastres em uma escala sem precedente. Há três principais teorizações sobre estas catástrofes. Em primeiro lugar, a visão simbolizada pelo nome de Habermas: o Esclarecimento é, em si, um processo emancipatório positivo sem potencial totalitário inerente; as catástrofes que ocorreram apenas indicam que permanece um projeto inacabado, e nossa tarefa deve ser completar este projeto. Em segundo lugar, a visão associada com a Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer e, hoje, com Agamben. A propensão “totalitária” do Esclarecimento é inerente e definitiva, o “mundo administrado” é sua verdadeira consequência, e os campos de concentração e os genocídios são um tipo de ponto final teleológico negativo de toda a história do Ocidente. Em terceiro lugar, a visão desenvolvida nos trabalhos de Etienne Balibar, entre outros: a modernidade inaugura um campo de novas liberdades, mas, ao mesmo tempo, de novos perigos, e não há garantia teleológica suprema do resultado. A contenda segue aberta e sem estar decidida.

O ponto de partida do texto de Balibar sobre a violência é a insuficiência da noção hegeliana-marxista padrão de “converter” a violência em um instrumento da Razão histórica, uma força que gera uma nova formação social (BALIBAR, 2002). A brutalidade “irracional” da violência é, portanto, aufgehoben, “negada” no sentido hegeliano estrito, reduzida a uma “mancha” particular que contribui para a harmonia geral do progresso histórico. O século XX nos enfrentou com catástrofes – algumas dirigidas contra as forças políticas marxistas, outras geradas pelo próprio engajamento marxista – que não podem ser “racionalizadas” desta maneira. Sua instrumentalização que as converte em ferramentas da Astúcia da Razão não é apenas eticamente inaceitável, mas também teoricamente equivocada, ideológica no sentido mais forte do termo. Em sua cuidadosa leitura de Marx, Balibar, todavia, distingue uma oscilação entre esta “teoria da conversão” teleológica da violência, e a noção muito mais interessante da história como um processo em aberto de lutas antagônicas, cujo resultado final “positivo” não está garantido por qualquer necessidade histórica que o englobe.

Balibar argumenta que, por razões estruturais necessárias, o marxismo é incapaz de pensar no excesso de violência que não pode ser integrado na narrativa do Progresso histórico. De forma mais específica, o marxismo é incapaz de gerar uma teoria adequada do fascismo e do stalinismo e seus resultados “extremos”, o holocausto [Shoah] e o gulag. Nossa tarefa é, portanto, dupla: implantar uma teoria da violência histórica como algo que não pode ser instrumentalizado por nenhum agente político, o que ameaça tragar o próprio agente em um ciclo vicioso de auto-destruição; e também propor a questão de como converter o processo revolucionário em si em uma força civilizadora. Como um contra-exemplo, tomemos o processo que levou ao Massacre do Dia de São Bartolomeu. O objetivo de Catarina de Médici era limitado e preciso: foi uma conspiração maquiavélica sua para assinar o almirante de Coligny – um poderoso protestante partidário da guerra contra a Espanha na Holanda – e deixar a culpa cair sobre a excessivamente poderosa família católica dos Guisa. Catarina buscava, assim, traçar a queda das duas casas-reais que representavam um ameaça à unidade do Estado francês. No entanto, a tentativa de colocar seus inimigos uns contra os outros degenerou em um frenesi incontrolável de sangue. Em seu cruel pragmatismo, Catarina foi cega às paixões com as quais os homens se agarram às suas crenças.

Os insights de Hanna Arendt são cruciais aqui, ao enfatizar a distinção entre o poder político e o mero exercício da violência. As organizações dirigidas por uma autoridade apolítica direta – Exército, Igreja, escola – representam exemplos de violência (Gewalt), e não de poder político no sentido estrito do termo (ARENDT, 1970). Neste ponto, entretanto, temos que recordar a distinção entre a lei pública simbólica e os seus complementos obscenos. A noção deste duplo complemento obsceno de poder implica que não há poder sem violência. O espaço político nunca é “puro”, mas sempre implica algum tipo de confiança na violência pré-política. Por certo, a relação entre poder político e violência pré-política é de implicação mútua. A violência não é apenas o complemento necessário do poder, mas o próprio poder já está sempre na raiz de toda relação aparentemente “apolítica” de violência. A violência aceita e a relação direta de subordinação no interior do Exército, da Igreja, da família e de outras formas sociais “apolíticas” são, em si mesmas, a reificação de certa luta ético-política. A tarefa das análises críticas é perceber o processo político oculto que sustenta todos essas relações “a” ou “pré” políticas. Na sociedade humana, a política é o princípio estrutural que a tudo engloba, assim, qualquer neutralização de algum conteúdo parcial indicando-o como “apolítico” é um gesto político par excellence.

A pureza humanitária

Dentro deste contexto podemos situar a proeminente questão dos direitos humanos: os direitos daqueles que estão morrendo de fome ou expostos a uma violência assassina. Rony Brauman, que coordenou a ajuda à Saravejo, demonstrou como a própria apresentação da crise como “humanitária”, a própria reformulação de um conflito político-militar em termos humanitários, foi sustentada por uma escolha eminentemente política – basicamente, para tomar partido pelo lado sérvio do conflito. A celebração da “intervenção humanitária” na Iugoslávia tomou o lugar de um discurso político, segundo argumenta Brauman, desqualificando, assim, de antemão, todo debate contrário (BRAUMAN, 2004, p. 398-199 e 416).

A partir deste insight particular podemos problematizar, em um nível geral, a política supostamente despolitizada dos direitos humanos e vê-la como uma ideologia do intervencionismo militar, que serve a fins político-econômicos específicos. Como sugerido por Wendy Brown a respeito de Michel Ignatieff, tal humanitarismo

se apresenta como espécie de uma anti-política, uma defesa pura dos inocentes e dos impotentes contra o poder, uma defesa pura do indivíduo contra as máquinas imensas e potencialmente cruéis ou despóticas da cultura, do Estado, da guerra, do conflito étnico, do tribalismo, do patriarcado, e outras mobilizações ou exemplos do poder coletivo contra os indivíduos (BROWN, 2004, p. 453).

Entretanto, a questão é: entre aqueles que intervêm em nome dos direitos humanos, que tipo de politização colocam em movimento contra os poderes a que eles se opõem? Eles são partidários de uma formulação diferente de justiça ou se opõem a projetos de justiça coletivos? Por exemplo, está claro que a derrubada de Saddam, liderada pelos Estados Unidos, legitimada em termos de pôr fim ao sofrimento do povo iraquiano, não foi apenas motivada por interesses político-econômicos pragmáticos, mas também contou com uma ideia determinada acerca das condições econômicas e políticas sob as quais era para ser entregue a “liberdade” ao povo iraquiano: capitalismo liberal-democrático, inserção na economia de mercado mundial, etc. A política meramente humanitária e anti-política de apenas prevenir o sofrimento equivale, por tanto, a uma proibição implícita de elaborar um verdadeiro projeto coletivo de transformação sócio-político.

Em um plano ainda mais geral, poderíamos problematizar a oposição entre os direitos humanos universais (pré-políticos), possuídos por qualquer ser humano “enquanto tal”, e os direitos políticos específicos de um cidadão ou membro de uma comunidade política particular. Neste sentido, Balibar (2004, p. 320-321) argumenta pela “reversão da relação teórica e histórica entre “homem” e “cidadão” que prossegue “explicando como o homem é formado pela cidadania e não a cidadania pelo homem”. Balibar faz alusão aqui ao insight de Arendt sobre a condição de refugiados:

A concepção dos direitos humanos baseada na suposta existência de um ser humano como tal rompeu-se no exato momento em que aqueles que declaravam acreditar nesta concepção foram, pela primeira vez, confrontados com pessoas que tinham perdido, de fato, todas as demais qualidades e relações específicas, exceto a de seguir sendo humanas (ARENDT, 1958, p. 297).

Esta direção, por certo, conduz diretamente à noção de homo sacer de Agamben enquanto um ser humano reduzido à “vida nua”. Em uma dialética propriamente hegeliana do universal e do particular, o ser humano – em um único movimento – deixa de ser reconhecido ou tratado como humano precisamente quando fica desprovido de uma identidade particular sócio-política que responde por esta cidadania determinada. Paradoxalmente, fico privado dos direitos humanos no momento preciso em que sou reduzido a um ser humano “em geral”, e venho a ser, portanto, o portador ideal daqueles “direitos humanos universais”, os quais pertencem a mim independentemente de minha profissão, sexo, cidadania, religião, identidade étnica etc.

O que acontece, então, com os direitos humanos quando estes são os direitos do homo sacer, daqueles excluídos da comunidade política; isto é, quando estes não são úteis, porque são os direitos daqueles que, precisamente, não têm direitos e são tratados como não humanos? Jacques Rancière propõe uma notável inversão dialética: “Quando eles não são úteis, se faz o mesmo que pessoas caridosas fazem com suas roupas velhas. Elas são dadas aos pobres. Aqueles direitos que parecem inúteis em seu lugar são mandados para o exterior, junto a remédios e roupas, a pessoas desprovidas de remédios, roupas e direitos”. Todavia, eles não se tornam vazios, porque “nomes políticos e lugares políticos nunca se tornam meramente vazios”. Ao invés disso, o vazio é preenchido por alguém ou algo distinto.

Se aquele que sofre uma repressão desumana é incapaz de decretar os direitos humanos que são seu último recurso, então alguém tem que herdar seus direitos para decretá-los em outro lugar. Isto é o que chamo de “direito de interferência humanitária” – um direito que algumas nações adotam para suposto benefício de populações vitimizadas, e, muito frequentemente, contra a recomendação das próprias organizações humanitárias. O “direito à interferência humanitária” poderia ser descrito como uma espécie de “devolução ao remetente”: os direitos não usados, que foram enviados aos carentes em direitos, são devolvidos aos remetentes (RANCIÈRE, 2004, p. 307-309).

Assim, para colocar na forma leninista: hoje, o que os “direitos humanos de vítimas sofredoras do Terceiro Mundo” efetivamente significam, no discurso dominante, é o direito das próprias potências do Ocidente de intervir política, econômica, cultural e militarmente em países do Terceiro Mundo de sua escolha, em nome da defesa dos direitos humanos. A referência à formula de Lacan da comunicação (na qual o remetente recebe sua própria mensagem de volta do receptor-destinatário em sua forma invertida, isto é, verdadeira) vem bem ao caso aqui. No discurso dominante do intervencionismo humanitário, o Ocidente desenvolvido está, efetivamente, recebendo de volta, do Terceiro Mundo vitimizado, sua própria mensagem em sua forma verdadeira.

No momento, então, em que os direitos humanos são despolitizados, o discurso relacionado a eles precisa mudar: a oposição pré-política entre o Bem e o Mal deve ser mais uma vez mobilizada. Portanto, o atual “novo reino da ética”, claramente invocado, por exemplo, no trabalho de Ignatieff, conta com um ato violento de despolitização, privando o outro vitimizado de qualquer subjetivação política. E, como assinalado por Rancière, o humanitarismo liberal à la Ignatieff vai ao encontro, inesperadamente, da posição “radical” de Foucault ou Agambem com relação a esta despolitização: a noção desses autores de “biopolítica”, como a culminação do pensamento ocidental, acaba caindo em um tipo de “armadilha ontológica”, na qual campos de concentração aparecem como destinos ontológicos: “cada um de nós poderia estar na situação de refugiado em um campo. Qualquer diferença entre a democracia e o totalitarismo se esvai e qualquer prática política prova estar já enredada na armadilha biopolítica” (RANCIÈRE, 2004, p. 301).

Chegamos, portanto, a uma posição “anti-essencialista” padrão, uma espécie de versão política da noção de Foucault de que o sexo é gerado pela multiplicidade de práticas de sexualidade. O “homem”, o portador dos direitos humanos, é gerado por um conjunto de práticas políticas que materializam a cidadania; os “direitos humanos” são, enquanto tais, uma falsa universalidade ideológica, que mascara e legitima a política concreta do imperialismo, das intervenções militares e do neocolonialismo ocidentais. Isto é, entretanto, suficiente?

O retorno da universalidade

A interpretação sintomática marxista pode demonstrar, de forma convincente, o conteúdo que fornece à noção de direitos humanos o seu específico giro ideológico burguês: os direitos humanos universais são, com efeito, o direito dos homens brancos proprietários a trocar livremente no mercado, explorar trabalhadores e mulheres, e exercer dominação política. Esta identificação do conteúdo particular que hegemoniza a forma universal é, contudo, somente a metade da história. Sua outra metade crucial consiste em fazer uma questão suplementar ainda mais difícil: aquela sobre a emergência da própria forma de universalidade. Como – em que condições históricas específicas – a universalidade abstrata se tornou um “fato da vida (social)”? Em que condições os indivíduos se experimentam a si mesmos enquanto sujeitos de direitos humanos universais? Aqui reside o ponto central da análise de Marx do “fetichismo da mercadoria”: em uma sociedade na qual predomina a troca de mercadoria, os indivíduos, em sua vida diária, fazem referência a si mesmos e aos objetos que encontram como personificações contingentes de noções universais abstratas. O que eu sou, em relação às minhas experiências sociais e culturais concretas, é vivenciado como contingente, pois o que me define fundamentalmente é a capacidade universal “abstrata” de pensar ou de trabalhar. Do mesmo modo, qualquer objeto que possa satisfazer meu desejo é vivenciado como contingente, pois o meu desejo é concebido como uma capacidade formal “abstrata”, indiferente à multiplicidade de objetos particulares que podem, mas sem nunca conseguir completamente, satisfazê-lo.

Ou tomemos o exemplo da “profissão”: a noção moderna de profissão significa que me experimento como um indivíduo que não “nasceu” diretamente no seu papel social. No que me transformarei depende da interação entre circunstâncias sociais contingentes e minha livre escolha. Neste sentido, o indivíduo de hoje tem uma profissão – como eletricista, garçom ou conferencista –, enquanto não faz sentido alegar que o servo medieval era camponês por profissão. Nas condições sociais específicas da troca de mercadorias e da economia de mercado global, a “abstração” torna-se uma característica direta da vida social atual, a forma em que indivíduos concretos se comportam e se relacionam com seus destinos e com seu ambiente social. A este respeito, Marx compartilha a ideia de Hegel, segundo a qual a universalidade surge “por si mesma” somente quando os indivíduos não mais identificam completamente o âmago de seu ser com a sua situação particular; somente na medida em que se experimentam como “deslocados” para sempre dela. A existência concreta da universalidade é, desta maneira, o indivíduo sem um lugar adequado no edifício social. Portanto, o modo de aparição da universalidade, sua entrada na existência real, é um ato extremamente violento de romper o equilíbrio orgânico anterior.

Não é suficiente assinalar a gasta noção marxista sobre a diferença entre a aparência ideológica da forma jurídica universal e os interesses particulares que efetivamente o sustentam. Neste ponto, o contra-argumento (apresentado, entre outros, por Lefort e Rancière), segundo o qual a forma nunca é “mera” forma, mas envolve uma dinâmica própria, que deixa traços na materialidade da vida social, é totalmente válido. Foi a “liberdade formal” burguesa que colocou em movimento as demandas políticas e práticas bem “substanciais” do feminismo e do sindicalismo. A ênfase básica de Rancière reside na ambiguidade radical da noção marxista da “diferença” [gap] entre a democracia formal – os Direitos do Homem, as liberdades políticas – e a realidade econômica de exploração e dominação. Esta diferença pode ser lida na forma “sintomática” padrão: a democracia formal é uma expressão necessária, porém ilusória de uma realidade social concreta de exploração e de dominação de classe. Contudo, também pode ser lida em um sentido mais subversivo de uma tensão na qual a “aparência” da égaliberté não é uma “mera aparência”, mas contém uma eficácia própria, o que a permite pôr em movimento a rearticulação das relações socioeconômicas reais por meio de sua progressiva “politização”. Por que às mulheres também não deveria ser permito o voto? Por que as condições de trabalho não deveriam ser também uma questão de interesse público?

Poderíamos aplicar neste momento o velho termo de Lévi-Strauss de “eficácia simbólica”: a aparência da “égaliberté” é uma ficção simbólica que, como tal, possui eficácia real própria; a tentativa particularmente cética de reduzi-la a uma mera ilusão, que oculta uma realidade diferente, deve ser repelida. Não é suficiente apenas firmar uma articulação autêntica de uma experiência do mundo e da vida que depois é reapropriada por aqueles que estão no poder para servir aos seus interesses particulares ou para fazer de seus súditos dóceis peças na engrenagem social. Muito mais interessante é o processo oposto, no qual algo, que era originalmente um edifício ideológico imposto por colonizadores, é tomado subitamente em seu conjunto pelos súditos como uma maneira de articular suas queixas “autênticas”. Um caso clássico seria o da Virgem de Guadalupe, no México recém-colonizado: com a sua aparição a um humilde índio, o cristianismo – que até então servia como uma ideologia imposta pelos colonizadores espanhóis – foi apropriado pela população indígena como um meio para simbolizar sua terrível condição.

Rancière propôs uma solução muito elegante à antinomia entre os direitos humanos, pertencentes ao “homem como tal”, e a politização dos cidadãos. Embora os direitos humanos não possam ser postulados como um Além a-histórico e “essecialista” em relação à esfera contingente das lutas políticas, como “direitos naturais do homem” universais dissociados da história, eles também não deveriam ser descartados como um fetiche reificado, produto do processo histórico concreto de politização dos cidadãos. A diferença entre a universalidade dos direitos humanos e os direitos políticos dos cidadãos não é, portanto, uma diferença entre a universalidade do homem e a especificidade da esfera política. Mais propriamente, esta diferença “separa toda a sociedade de si mesma” (RANCIÈRE, 2004, p. 305). Longe de serem pré-políticos, os “direitos humanos universais” designam o espaço preciso da politização propriamente dita, eles equivalem ao direito de universalidade como tal – o direito de um agente político em declarar sua não-coincidência radical consigo mesmo (na sua identidade particular), para postular a si mesmo como o “supra-numerário”, aquele sem lugar adequado no edifício social; e, portanto, como um agente da universalidade do social em si. Por conseguinte, o paradoxo é muito preciso e simétrico em relação ao paradoxo dos direitos humanos universais como os direitos daqueles reduzidos à inumanidade. No exato momento em que tentamos conceber os direitos políticos dos cidadãos sem fazer referência aos direitos humanos universais “meta-políticos”, perdemos a própria política; isto é, reduzimos a política a um jogo “pós-político” de negociação de interesses particulares.

Referências
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer. Stanford, 1998. [Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: UFMG, 2002.]

ARENDT, Hannah. On Violence. New York, 1970. [Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009].

_______. The Origins of Totalitarianism. New York, 1958. [As origens do totalitarismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989].

BALIBAR, Etienne. ‘Gewalt’: entry for Historisch-Kritisches Wörterbuch des Marxismus, vol. 5, Hamburg: Wolfgang Fritz Haug, 2002.

______. Is a Philosophy of Human Civic Rights Possible? South Atlantic Quarterly, Durham, v. 103, n. 2-3, 2004.

BRAUMAN, Rony. From Philanthropy to Humanitarianism. South Atlantic Quarterly, Durham, v. 103, n. 2-3, 2004.

BROWN, Wendy. Human Rights as the Politics of Fatalism, South Atlantic Quarterly, Durham, v. 103, n. 2-3, 2004.

JEZERNIK, Bozidar. Wild Europe: The Balkans in the Gaze of Western Travellers. London, 2004.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Selected Works, vol. I. Moscow, 1969.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Selected Works, vol. XI. Moscow, 1975. [publicações em português citadas: Karl Marx, Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978 e A revolução antes da revolução, vol. II. São Paulo: Expressão Popular, 2008].

RANCIÈRE, Jacques. Who is the Subject of the Rights of Man? South Atlantic Quarterly, Durham, v. 103, n. 2-3, 2004.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Novo livro de Slavoj Žižek, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, já está nas livrarias!

Sobre Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, de Slavoj Žižek

A filosofia ocidental tem se desenvolvido à sombra de Hegel, de cuja influência cada novo pensador tenta, em vão, escapar. Seu idealismo absoluto tornou-se, assim, uma espécie de bicho-papão, obscurecendo o fato de ele ser o filósofo dominante da histórica transição à modernidade – período com o qual nosso tempo guarda ainda espantosas semelhanças. Hoje, à medida que o capitalismo global se autodestrói, iniciamos uma nova transição. Neste livro Žižek defende que é imperativo não apenas voltar a Hegel, mas repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser ainda mais hegeliano que o mestre em si. Tal abordagem permite que o autor, sempre à luz da metapsicologia de Jacques Lacan – o único verdadeiro rival de Hegel aos olhos de Žižek–, diagnostique nossa condição atual e trave um diálogo crítico com as principais vertentes do pensamento contemporâneo – Martin Heidegger, Alain Badiou, o realismo especulativo, a física quântica e as ciências cognitivas. Obra-prima de Žižek, Menos que nada retoma o legado hegeliano e apresenta um desenvolvimento sistemático de sua filosofia.

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Slavoj Žižek está no Brasil, a convite da Boitempo Editorial, para a realização de uma série de conferências no projeto Marx: A criação destruidora, assim como para o lançamento de Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo históricoO filósofo já se apresentou em Porto Alegre, São Paulo e Brasília e encerra seu circuito com uma conferência em Recife amanhã, sexta-feira, 15 de março de 2013, no evento ArtFlipo. A conferência será no Teatro da UFPE e conta com ingressos a R$20 (inteira) e R$10 (meia entrada), disponíveis para venda nas bilheterias do teatro ou através do site http://eventick.com.br/slavojzizek

Assista à gravação da conferência de Slavoj Žižek em Porto Alegre clicando aqui. A conferência de São Paulo foi gravada e será disponibilizada no no canal da Boitempo no YouTube em breve, assim como todas as atividades do projeto Marx: a criação destruidora!

Faça um download gratuito da apostila do Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek clicando aqui.

Para mais informações sobre a programação, clique aqui.

Para mais informações sobre as inscrições dessas e outras atividades, clique aqui.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Um coração maior que a vida

13.03.11_Slavoj Zizek_Um coração maior que a vidaPor Slavoj Žižek.*

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Devo confessar que, muitas vezes, não gostei do que Hugo Chávez fazia, principalmente nos últimos anos do seu reinado. Não me refiro às ridículas acusações referentes à sua ditadura “totalitária” (às pessoas que afirmavam isto, aconselharia um ano ou dois numa ditadura de estilo stalinista!). De fato, ele fez muitas loucuras. Em matéria de política externa, não é possível perdoar-lhe a amizade com Lukaschenko e Ahmadinajad; em política econômica, a série de medidas improvisadas e mal formuladas que, em vez de resolver realmente os problemas, procuravam cobri-los de dinheiro para que não aparecessem; os maus tratos contra os prisioneiros políticos, a ponto de merecer uma reprimenda do próprio Noam Chomsky; até – no final – algumas medidas culturais ridículas como a proibição dos Simpsons na TV.

Mas tudo isto se torna insignificante diante do projeto fundamental com o qual se comprometera. Todos sabemos que, no capitalismo global dos nossos dias, com sua evolução espetacular, mas profundamente desigual, são cada vez mais numerosas as pessoas sistematicamente excluídas da participação ativa da vida social e política. O crescimento explosivo das favelas nas últimas décadas, principalmente nas megalópoles do Terceiro Mundo, das favelas da Cidade do México e de outras capitais da América Latina até a África (Lagos, Chade) à Índia, China, Filipinas e Indonésia, é talvez o acontecimento geopolítico crucial dos nossos tempos. Como, dentro em breve a população urbana da terra superará a população rural (ou, quem sabe, dada a imprecisão dos censos do Terceiro Mundo, já aconteceu), e como os habitantes das favelas serão a maioria nas populações urbanas, não temos condições de tratar com um fenômeno marginal.

Esses grupos enormes constituem evidentemente um dos objetos privilegiados da ajuda humanitária e das instituições assistenciais para as elites liberais – basta lembrar de imagens emblemáticas como a de Bill Gates abraçando uma criança indiana paralítica. Somos constantemente solicitados a deixar de lado as nossas divisões ideológicas e a fazer algo a respeito – quando vamos a uma loja da Starbucks para tomar uma xícara de café, sabemos que já estamos fazendo alguma coisa, porque uma parte do preço que pagamos vai para as crianças da Guatemala ou de outro país.

Mas Chávez via que isto não bastava. Ele via no horizonte os contornos de um novo apartheid. Ele via a luta de classes de outrora ressurgindo sob a forma de novas divisões e até mesmo divisões mais profundas. E ele fez alguma coisa a respeito. Ele foi o primeiro a não só “cuidar dos pobres”, no velho estilo peronista, falando por eles, mas a canalizar com determinação toda a sua energia no seu despertar e efetivamente na sua mobilização como agentes políticos ativos e autônomos. Ele viu claramente que, sem a sua inclusão, nossas sociedades caminharão paulatinamente para um estado de guerra civil permanente. Basta lembrar da frase imortal do filme Cidadão Kane, de Orson Welles, quando Kane, acusado de falar pelos desfavorecidos contra a sua própria classe, responde: “Se eu não defender os interesses dos não privilegiados, alguém mais o fará – talvez alguém sem dinheiro ou propriedades e isto será muito ruim”. Este “alguém mais” seria Chávez.

Portanto, enquanto ouvimos todo este palavreado a respeito do “legado ambíguo” de Chávez, do fato de ele ter “dividido a sua nação”, sempre que o expomos a uma crítica muitas vezes merecida, não devemos esquecer o sentido de tudo isto. Ele se referia ao povo, ao governo de, para e pelo povo. Toda a confusão foi uma confusão criada pela dificuldade de realizar este governo. Com toda a sua retórica teatral, Chávez foi sincero a esse respeito, ele queria dizer isto mesmo. Seus fracassos foram os nossos fracassos.

Ouvi dizer que existe uma doença do coração – como órgão – que vai crescendo excessivamente sem conseguir funcionar como deve, incapaz de bombear todo o sangue através das veias dilatadas. Talvez Chávez tenha morrido porque tinha um coração grande demais.

*Tradução de Anna Capovilla, publicado no jornal
O Estado de São Paulo em 10/03/2013.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

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Novo livro de Slavoj Žižek, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, a partir deste fim de semana nas livrarias!

Sobre Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, de Slavoj Žižek

A filosofia ocidental tem se desenvolvido à sombra de Hegel, de cuja influência cada novo pensador tenta, em vão, escapar. Seu idealismo absoluto tornou-se, assim, uma espécie de bicho-papão, obscurecendo o fato de ele ser o filósofo dominante da histórica transição à modernidade – período com o qual nosso tempo guarda ainda espantosas semelhanças. Hoje, à medida que o capitalismo global se autodestrói, iniciamos uma nova transição. Neste livro Žižek defende que é imperativo não apenas voltar a Hegel, mas repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser ainda mais hegeliano que o mestre em si. Tal abordagem permite que o autor, sempre à luz da metapsicologia de Jacques Lacan – o único verdadeiro rival de Hegel aos olhos de Žižek–, diagnostique nossa condição atual e trave um diálogo crítico com as principais vertentes do pensamento contemporâneo – Martin Heidegger, Alain Badiou, o realismo especulativo, a física quântica e as ciências cognitivas. Obra-prima de Žižek, Menos que nada retoma o legado hegeliano e apresenta um desenvolvimento sistemático de sua filosofia.

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Slavoj Žižek está no Brasil, a convite da Boitempo Editorial, para a realização de uma série de conferências no projeto Marx: A criação destruidora, assim como para o lançamento de Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico. vem ao Brasil em março para apresentar uma série de conferências entituladas De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise. O filósofo passará por cinco cidades brasileiras, como parte de um seminário internacional que trará, entre outros, David Harvey e Michael Heinrich. Confira a programação completa e mais informações no site oficial Marx: a criação destruidora

Amanhã, dia 12 de março, o filósofo se apresenta em Brasília, no Centro Comunitário da UnB, às 18h30. Para se inscrever, envie seu nome e telefone para zizek.df@laurocampos.org.br.

Na sexta-feira, 15 de março, o filósofo encerra seu ciclo de conferências em Recife, no evento ArtFlipo. A conferência será no Teatro da UFPE e conta com ingressos a R$20 (inteira) e R$10 (meia entrada), disponíveis para venda nas bilheterias do teatro ou através do site http://eventick.com.br/slavojzizek

A conferência de Slavoj Žižek em São Paulo foi gravada e será disponibilizada no no canal da Boitempo no YouTube em breve, assim como todas as atividades do projeto Marx: a criação destruidora!

Para mais informações sobre a programação, clique aqui.

Para mais informações sobre as inscrições dessas e outras atividades, clique aqui.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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A heart larger than life

13.03.11_Slavoj Zizek_A heart larger than lifeBy Slavoj Žižek.

Para a versão em português do artigo, clique aqui.

I must confess that, more often than not, I did not like what Hugo Chávez was doing, especially in the last years of his reign. I don’t mean the ridiculous accusations about his “totalitarian” dictatorship (to people who claimed this, I would advise a year or two in a real Stalinist dictatorship!). But yes, he did many crazy things. In foreign politics, one cannot excuse his friendship with Lukashenko and Ahmadinejad; in economic politics, a series of badly improvised measures which, instead of really solving problems, rather consisted in throwing money at them to cover them up; mistreating political prisoners and deserving a rebuttal from Noam Chomsky himself; up to – last and least – some ridiculous cultural measures like prohibiting Simpsons on TV.

But all this pales into insignificance compared with the basic project he was engaged in. We all know that, in today’s global capitalism with its spectacular but deeply uneven development, there are more and more people who are systematically excluded from active participation in social and political life. The explosive growth of slums in the last decades, especially in the Third World megalopolises from favelas in Mexico City and other Latin American capitals through Africa (Lagos, Chad) to India, China, Philippines and Indonesia, is perhaps the crucial geopolitical event of our times. Since, sometime very soon (or maybe, given the imprecision of the Third World censuses, it already happened), the urban population of the earth will outnumber the rural population, and since slum inhabitants will compose the majority of the urban population, we are in no way dealing with a marginal phenomenon.

These large groups  are of course one of the favored objects of humanitarian care and charity for the liberal elites – recall emblematic images like the one of Bill Gates embracing a crippled Indian child. We are constantly solicited to forget our ideological divisions and do something about it – even when we go to Starbucks for a cup of coffee, we learn that we already are doing something, that a part of the price we pay goes for Guatemala children or whatever.

But Chávez saw that this is not enough. He saw the contours of a new apartheid on the horizon. He saw what was once class struggle re-emerging in the guise of new and  even stronger divisions. And he did something here. He was the first who not only “took care of the poor” in the old populist Peronist style, to speak for them, but seriously put all his energy into awakening them and effectively mobilizing them as active and autonomous political agents. He saw clearly that, without their inclusion, our societies will gradually approach a state of permanent civil war. Remember the immortal line from Orson Welles’s Citizen Kane, when Kane, accused of speaking for the underprivileged against his own class, answers: “If I don’t defend the interests of the underprivileged, somebody else will – maybe somebody without any money or any property and that would be too bad.” This “somebody else” was Chávez.

So while we hear the prattle about Chávez’s “ambiguous legacy,” about how he “divided his nation,” when we expose him to an often deserved criticism, let us not forget what it all was about. It was simply about the people, about the government of, for, and by the people. All the mess was the mess created by the difficulty of realizing such a government. With all his theatrical rhetoric, in this Chávez was sincere, he really meant it. His failures were ours.

There is an illness, I heard, when heart – as organ – simply grows too big and cannot function properly, unable to pump all the blood through its widened veins. Maybe Chávez really died of having too big a heart.

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All of Slavoj Žižek’s books published in Brazil by Boitempo are avaiable in ebook form. If you’re interested, find out more in the links below:

Revolution at the Gates: Lenin – The 1917 Writings * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

The Parallax View * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Welcome to the Desert of the Real! * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

In defense of Lost Causes * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

First as Tragedy, Then as Farce * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Living in the End Times * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

The Year of Dreaming Dangerously * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Also, there’s an article by Žižek on Boitempo’s Occupy: Protest Movements that Took the Streets (along with David Harvey, Mike Davis, Tariq Ali, Immanuel Wallerstein and others) * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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menos que nada_capa_altaSlavoj Žižek’s new book, Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Historical Materialism has just been released in Brazil.

Slavoj Žižek is in Brazil to take part in an International Seminar on Marx, together with David Harvey, Michael Heinrich and many other renowned marxist thinkers!

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Boitempo Editorial is one of the most prestigious independent leftist publishers in Brazil: a publishing house of radical thinkers from the classics of Karl Marx, Friedrich Engels, Leon Trotski and Vladimir I.U. Lenin to György Lukács, István Mészáros, Slavoj Žižek, Alain Badiou, Giorgio Agamben, Perry Anderson, David Harvey, Mike Davis, Fredric Jameson and Tariq Ali. Among the Brazilian authors, Boitempo publishes some of the greatest leftist intellectuals of our time, such as Emir Sader, Leandro Konder, Franscisco de Oliveira, Maria Rita Kehl, Michael Löwy, Ricardo Antunes, Paulo Arantes and Vladimir Safatle. For Foreign Rights, visit our website or contact blog@boitempoeditorial.com.br.

Por que os fundamentalistas de livre mercado acreditam que 2013 será o melhor ano de todos

Como já fizeram os comunistas, os capitalistas de hoje colocam a culpa dos fracassos no uso “impuro” do sistema

13.02.27_Slavoj Zizek_Fundamentalistas livre mercadoPor Slavoj Žižek.*

Tradução: Rogério Bettoni

For the english version, click here.

A edição de natal da revista britânica The Spectator publicou um editorial chamado “Por que 2012 foi o melhor ano de todos?” (disponível aqui, em inglês). O texto criticava a ideia de que vivemos em “um mundo perigoso e cruel, em que as coisas estão ruins e ainda pioram”. Eis o parágrafo de abertura: “Talvez não pareça, mas 2012 foi o ano mais formidável na história mundial. Essa afirmação soa algo extravagante, mas pode ser corroborada pelos fatos. Nunca houve menos fome, menos doenças ou mais prosperidade. O ocidente permanece em um marasmo econômico, mas a maioria dos países em desenvolvimento está progredindo e as pessoas estão saindo da pobreza a uma velocidade jamais registrada. Felizmente o número de mortos pela guerra ou por doenças naturais também está baixo. Estamos vivendo na idade do ouro.”

Essa mesma ideia tem sido fomentada de modo sistemático em uma série de bestsellers, que vai de Rational Optimist, de Matt Ridley, a Better Angels of Our Nature, de Steven Pinker. Também há uma versão mais prática que se costuma ouvir na mídia, principalmente nos países fora da Europa: crise, que crise? Vejamos os chamados países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China –, ou países como Polônia, Coreia do Sul, Singapura, Peru, até mesmo vários Estados da África subsaariana: todos estão progredindo. Os perdedores são a Europa Ocidental e, até certo ponto, os Estados Unidos – então não estamos lidando com uma crise global, mas simplesmente com a mudança do progresso, que se afasta do Ocidente. Um símbolo poderoso dessa mudança não seria o fato de que, recentemente, muita gente de Portugal, país em crise profunda, está voltando para Moçambique e Angola, ex-colônias de Portugal, mas dessa vez como imigrantes econômicos, e não como colonizadores?

Até mesmo com respeito aos direitos humanos: a situação na China e na Rússia não é melhor agora do que há 50 anos? Descrever a crise existente como um fenômeno global, como dizem, é uma típica visão eurocentrista advinda dos esquerdistas que geralmente se orgulham de seu antieurocentrismo. Nossa “crise global”, na verdade, é um mero abalo local em uma história mais ampla do progresso geral.

Mas é preciso conter nossa alegria. A pergunta que deve ser feita é: se a Europa, sozinha, está em declínio gradual, o que está substituindo sua hegemonia? A resposta é: “o capitalismo de valores asiáticos” – o que, obviamente, não tem nada a ver com o povo asiático e tudo a ver com a tendência nítida e atual do capitalismo contemporâneo em limitar ou até mesmo suspender a democracia.

Essa tendência não contradiz de modo nenhum o tão celebrado progresso da humanidade – ela é sua característica imanente. Todos os pensadores radicais, de Marx aos conservadores inteligentes, eram obcecados por esta questão: qual é o preço do progresso? Marx era fascinado pelo capitalismo, pela produtividade sem precedentes que ele desencadeava; mas Marx também frisava que esse sucesso engendra antagonismos. Devemos fazer o mesmo hoje: ter em vista a face obscura do capitalismo global que fomenta revoltas. 

As pessoas se rebelam não quando as coisas estão realmente ruins, mas quando suas expectativas são frustradas. A Revolução Francesa ocorreu apenas quando o rei e os nobres começaram a perder o poder; a revolta anticomunista de 1956 na Hungria eclodiu depois que Imre Nagy já era primeiro-ministro há dois anos, depois de debates (relativamente) livres entre os intelectuais; as pessoas se rebelaram no Egito em 2011 porque houve certo progresso econômico sob o governo de Mubarak, dando origem a uma classe de jovens instruídos que participavam da cultura digital universal. E é por isso que o pânico dos comunistas chineses faz sentido: porque, no geral, as pessoas hoje estão vivendo melhor do que há quarenta anos – os antagonismos sociais (entre os novos ricos e o resto) explodem e as expectativas são muito mais elevadas.

Eis o problema com o desenvolvimento e o progresso: são sempre desiguais, dão origem a novas instabilidades e antagonismos, geram novas expectativas que não podem ser correspondidas. No Egito, pouco antes da Primavera Árabe, a maioria vivia um pouco melhor do que antes, mas os padrões pelos quais mediam sua (in)satisfação eram muito mais altos.

Para não perder o elo entre progresso e instabilidade, é preciso realçar sempre como aquilo que, à primeira vista, parece ser a realização incompleta de um projeto social na verdade sinaliza sua limitação imanente. Existe uma história (apócrifa, talvez) sobre o economista keynesiano de esquerda John  Galbraith: antes de uma viagem à URSS no final da década de 1950, ele escreveu para seu amigo anticomunista Sidney Hook: “Não se preocupe, não me deixarei seduzir pelos soviéticos nem voltarei para casa dizendo que eles têm socialismo!”. Hook respondeu imediatamente: “Mas é isso que me preocupa – que você volte dizendo que a URSS não é socialista!”. O que Hook temia era a defesa ingênua da pureza do conceito: se as coisas derem errado com a construção de uma sociedade socialista, isso não invalida a ideia em si, mas significa apenas que não a executamos apropriadamente. Essa mesma ingenuidade não é detectada nos fundamentalistas de mercado da atualidade?

Durante um recente debate televisivo na França, quando o filósofo e economista francês Guy Sorman afirmou que a democracia e o capitalismo necessariamente andam juntos, não pude me negar fazer esta óbvia pergunta: “Mas e a China?”, ao que ele me repreendeu: “Na China não há capitalismo!” Para o pós-capitalista fanático Sorman, um país não é verdadeiramente capitalista se não for democrático, exatamente da mesma maneira que, para os comunistas democráticos, o stalinismo simplesmente não era uma forma autêntica de comunismo.

É assim que os atuais apologistas do mercado, em um sequestro ideológico sem precedentes, explicam a crise de 2008: não foi o fracasso do livre mercado que a provocou, mas sim a excessiva regulação estatal; o fato de que nossa economia de mercado não foi um verdadeiro Estado de bem-estar social, mas esteve, em vez disso, nas garras desse Estado. Quando rejeitamos as falhas do capitalismo de mercado como infortúnios acidentais, acabamos em um “progress(ism)o” que encara a solução como um uso mais “autêntico” e puro de uma noção, tentando assim apagar o fogo com gasolina.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Novo livro de Slavoj Žižek, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, a partir deste fim de semana nas livrarias!

Sobre Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, de Slavoj Žižek

A filosofia ocidental tem se desenvolvido à sombra de Hegel, de cuja influência cada novo pensador tenta, em vão, escapar. Seu idealismo absoluto tornou-se, assim, uma espécie de bicho-papão, obscurecendo o fato de ele ser o filósofo dominante da histórica transição à modernidade – período com o qual nosso tempo guarda ainda espantosas semelhanças. Hoje, à medida que o capitalismo global se autodestrói, iniciamos uma nova transição. Neste livro Žižek defende que é imperativo não apenas voltar a Hegel, mas repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser ainda mais hegeliano que o mestre em si. Tal abordagem permite que o autor, sempre à luz da metapsicologia de Jacques Lacan – o único verdadeiro rival de Hegel aos olhos de Žižek–, diagnostique nossa condição atual e trave um diálogo crítico com as principais vertentes do pensamento contemporâneo – Martin Heidegger, Alain Badiou, o realismo especulativo, a física quântica e as ciências cognitivas. Obra-prima de Žižek, Menos que nada retoma o legado hegeliano e apresenta um desenvolvimento sistemático de sua filosofia.

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Slavoj Žižek vem ao Brasil em março para apresentar uma série de conferências entituladas De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise. O filósofo passará por cinco cidades brasileiras, como parte de um seminário internacional que trará, entre outros, David Harvey e Michael Heinrich. Confira a programação completa e mais informações no site oficial Marx: a criação destruidora

Slavoj Žižek no Brasil
Conferência
De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise
Porto Alegre 5/3 | São Paulo 9/3 | Brasília 12/3 | Recife 15/3
Autógrafos
Autógrafos de Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético
Sábado | 9/3 | 16h | Livraria Saraiva | Shopping Paulista
Rua Treze de Maio, 1947 | Bela Vista | São Paulo | SP

A conferência de Slavoj Žižek em São Paulo será transmitida via internet gratuitamente pelo site do evento. No mesmo dia, às 14h, haverá exibição do documentário Žižek!, de Astra Taylor, também gratuita!

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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Why the free market fundamentalists think 2013 will be the best year ever

As communists once did, today’s capitalists blame any failures on their system being ‘impurely’ applied

13.02.27_Slavoj Zizek_Freemarket fundamentalists2By Slavoj Žižek.

Para a versão em português do artigo, clique aqui.

The Christmas issue of the Spectator ran an editorial entitled “Why 2012 was the best year ever“. It argued against the perception that we live in “a dangerous, cruel world where things are bad and getting worse”. Here is the opening paragraph: “It may not feel like it, but 2012 has been the greatest year in the history of the world. That sounds like an extravagant claim, but it is borne out by evidence. Never has there been less hunger, less disease or more prosperity. The west remains in the economic doldrums, but most developing countries are charging ahead, and people are being lifted out of poverty at the fastest rate ever recorded. The death toll inflicted by war and natural disasters is also mercifully low. We are living in a golden age.”

The same idea has been developed systematically in a number of bestsellers, from Matt Ridley’s Rational Optimist to Steven Pinker’s The Better Angels of Our Nature. There is also a more down-to-earth version that one often hears in the media, especially those of non-European countries: crisis, what crisis? Look at the so-called Bric countries of Brazil, Russia, India and China, or at Poland, South Korea, Singapore, Peru, even many sub-Saharan African states – they are all progressing. The losers are western Europe and, up to a point, the US, so we are not dealing with a global crisis, but simply with the shift of progress away from the west. Is a potent symbol of this shift not the fact that, recently, many people from Portugal, a country in deep crisis, are returning to Mozambique and Angola, ex-colonies of Portugal, but this time as economic immigrants, not as colonisers?

Even with regard to human rights: is the situation in China and Russia now not better than it was 50 years ago? Describing the ongoing crisis as a global phenomenon, the story goes, is a typical Eurocentrist view coming from leftists who usually pride themselves on their anti-Eurocentrism. Our “global crisis” is in fact a mere local blip in a larger story of overall progress.

But we should restrain our joy. The question to be raised is: if Europe alone is in gradual decay, what is replacing its hegemony? The answer is: “capitalism with Asian values” – which, of course, has nothing to do with Asian people and everything to do with the clear and present tendency of contemporary capitalism to limit or even suspend democracy.

This tendency in no way contradicts the much-celebrated progress of humanity – it is its immanent feature. All radical thinkers, from Marx to intelligent conservatives, were obsessed by the question: what is the price of progress? Marx was fascinated by capitalism, by the unheard-of productivity it unleashed; but he insisted this success engenders antagonisms. We should do the same today: keep in view the dark underside of global capitalism that is fomenting revolts.

People rebel not when things are really bad, but when their expectations are disappointed. The French revolution occurred only once the king and the nobles were losing their hold on power; the 1956 anti-communist revolt in Hungary exploded after Imre Nagy had already been a prime minister for two years, after (relatively) free debates among intellectuals; people rebelled in Egypt in 2011 because there was some economic progress under Mubarak, giving rise to a class of educated young people who participated in the universal digital culture. And this is why the Chinese Communists are right to panic: because, on average, people are now living better than 40 years ago – and the social antagonisms (between the newly rich and the rest) are exploding, and expectations are much higher.

That’s the problem with development and progress: they are always uneven, they give birth to new instabilities and antagonisms, they generate new expectations that cannot be met. In Egypt just prior to the Arab spring, the majority lived a little better than before, but the standards by which they measured their (dis)satisfaction were much higher.

In order not to miss this link between progress and instability, one should always focus on how what first appears as an incomplete realisation of a social project signals its immanent limitation. There is a story (apocryphal, maybe) about the left-Keynesian economist John Galbraith: before a trip to the USSR in the late 1950s, he wrote to his anti-communist friend Sidney Hook: “Don’t worry, I will not be seduced by the Soviets and return home claiming they have socialism!” Hook answered him promptly: “But that’s what worries me – that you will return claiming USSR is not socialist!” What Hook feared was the naive defence of the purity of the concept: if things go wrong with building a socialist society, this does not invalidate the idea itself, it simply means we didn’t implement it properly. Do we not detect the same naivety in today’s market fundamentalists?

When, during a recent TV debate in France, the French philosopher and economist Guy Sorman claimed democracy and capitalism necessarily go together, I couldn’t resist asking him the obvious question: “But what about China?” He snapped back: “In China there is no capitalism!” For the fanatically pro-capitalist Sorman, if a country is non-democratic, it is not truly capitalist, in exactly the same way that for a democratic communist, Stalinism was simply not an authentic form of communism.

This is how today’s apologists for the market, in an unheard-of ideological kidnapping, explain the crisis of 2008: it was not the failure of the free market that caused it, but the excessive state regulation; the fact that our market economy was not a true one, but was instead in the clutches of the welfare state. When we dismiss the failures of market capitalism as accidental mishaps, we end up in a naive “progress-ism” that sees the solution as a more “authentic” and pure application of a notion, and thus tries to put out the fire by pouring oil on it.

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All of Slavoj Žižek’s books published in Brazil by Boitempo are avaiable in ebook form. If you’re interested, find out more in the links below:

Revolution at the Gates: Lenin – The 1917 Writings * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

The Parallax View * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Welcome to the Desert of the Real! * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

In defense of Lost Causes * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

First as Tragedy, Then as Farce * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Living in the End Times * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

The Year of Dreaming Dangerously * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Also, there’s an article by Žižek on Boitempo’s Occupy: Protest Movements that Took the Streets (along with David Harvey, Mike Davis, Tariq Ali, Immanuel Wallerstein and others) * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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menos que nada_capa_altaSlavoj Žižek’s new book, Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Historical Materialism has just been released in Brazil.

During the following week, Slavoj Žižek will be in Brazil to take part in an International Seminar on Marx, together with David Harvey, Michael Heinrich and many other renowned marxist thinkers!

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Boitempo Editorial is one of the most prestigious independent leftist publishers in Brazil: a publishing house of radical thinkers from the classics of Karl Marx, Friedrich Engels, Leon Trotski and Vladimir I.U. Lenin to György Lukács, István Mészáros, Slavoj Žižek, Alain Badiou, Giorgio Agamben, Perry Anderson, David Harvey, Mike Davis, Fredric Jameson and Tariq Ali. Among the Brazilian authors, Boitempo publishes some of the greatest leftist intellectuals of our time, such as Emir Sader, Leandro Konder, Franscisco de Oliveira, Maria Rita Kehl, Michael Löwy, Ricardo Antunes, Paulo Arantes and Vladimir Safatle. For Foreign Rights, visit our website or contact blog@boitempoeditorial.com.br.

Normalização da tortura? Não, obrigado!

13.02.07_Slavoj Zizek_Normalização da tortura2Por Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido pela Carta Maior, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

For the english version, click here.

Aqui está como, em uma carta ao jornal LA Times, a cineasta Kathryn Bigelow justificou a representação, no filme A hora mais escura, de métodos de tortura usados pelos agentes do governo norte-americano para capturar e matar Osama Bin Laden:

“Aqueles de nós que trabalham com arte sabem que representação não é aprovação, elogio. Se o fosse, nenhum artista estaria apto a pintar atos desumanos, nenhum autor poderia escrever sobre eles, e nenhum diretor de cinema poderia se aprofundar em assuntos espinhosos de nosso tempo”, escreveu ela ao jornal.

Sério? Ninguém precisa ser um moralista, ou ingênuo sobre as urgências da luta contra o ataques terroristas, para pensar que torturar um ser humano é, em si mesmo, algo tão destruidor que representá-lo de maneira neutra – isto é, neutralizar este caráter destruidor – é por si uma maneira de apoiá-lo. Imagine um documentário que nos apresente o Holocausto de um jeito desinteressado e tranquilo, como uma enorme operação logística-industrial, focando nos problemas técnicos envolvidos (transporte, descarte de corpos, prevenção do pânico entre os prisioneiros que seriam postos nas salas de gás). Tal filme traria também consigo uma fascinação profundamente imoral com o assunto, ou estaria baseado numa neutralidade obscena em seu modo para gerar consternação e horror nos espectadores. Onde Bigelow se encaixa aqui?

Sem sombra de dúvida, ela está aliada a uma normalização da tortura. Quando Maya, a heroína do filme, presencia pela primeira vez uma simulação de afogamento, fica um pouco chocada, mas rapidamente aprende as artimanhas; mais adiante no filme ela chantageia friamente um prisioneiro árabe – “se você não cooperar, nós lhe mandaremos para Israel”. Sua perseguição fanática atrás de Bin Laden ajuda a neutralizar escrúpulos morais comuns. Ainda mais ameaçador é seu parceiro, um agente da CIA jovem e barbado que domina perfeitamente a arte de passar desembaraçosamente da tortura para a gentileza uma vez que a vítima está completamente desamparada (acendendo seu cigarro e lhe contando piadas). Existe algo extremamente perturbador como, mais para frente, este agente muda de um torturador vestindo jeans para um bem-vestido burocrata de Washington. Isto é a normalização mais pura e eficiente – existe um pequeno mal-estar, mais pela sensação da tortura que pela ética, mas o trabalho tem de ser feito. A consciência de que esta sensação ruim sofrida pelo torturador é o principal custo humano da tortura deixa claro de que não se trata de uma propaganda conservadora barata: a complexidade psicológica é representada para que liberais possam se divertir com o filme sem se sentirem culpados. É por isso que A hora mais escura é bem pior que 24 Horas, em que Jack Bauer, pelo menos, sofre um colapso mental no final da série.

O próprio debate sobre o afogamento simulado ser ou não tortura deve ser descartado como um explícito irracionalismo: por que, se não causa dor ou medo de morrer, este afogamento faz suspeitos terroristas resistentes falarem? A recolocação da palavra “tortura” no campo da “técnica aprimorada de interrogação” é a extensão da lógica politicamente correta: exatamente da mesma forma que “alejado” torna-se “deficiente físico”, “tortura” se torna “técnica aprimorada de interrogação” (e, por que não, “estupro” pode tornar-se “técnica aprimorada de sedução”). O ponto crucial é que a tortura – violência brutal praticada pelo Estado – torna-se publicamente aceitável no momento em que a linguagem pública passa pelo prisma do “politicamente correto” para proteger as vítimas da violência simbólica. Esses fenômenos são dois lados da mesma moeda.

A defesa mais obscena feita do filme é a alegação de que Bigelow rejeita o moralismo barato, e de maneira sóbria apresenta a realidade da luta contra o terrorismo, levantando questões difíceis e que, assim, nos fazem pensar (alguns críticos afirmam, ainda, que a diretora “desconstrói” clichês femininos pois Maya não mostra sentimentalismo, ela é dura e dedicada em sua tarefa… como um homem). Mas, com a tortura, alguém pode não “pensar”. Um paralelo com o estupro se faz aqui necessário por si mesmo: e se um filme mostrasse um estupro brutal neste mesmo jeito “neutro”, alegando que devemos evitar o moralismo barato e começarmos a pensar sobre o estupro em toda sua complexidade? Em nossas entranhas, fica a mensagem de que existe algo terrivelmente errado nisto. Eu gostaria de viver numa sociedade onde o estupro seja simplesmente inaceitável e que aquele que o relativize seja visto como um babaca excêntrico, não em uma sociedade onde alguém precise argumentar contra isto. O mesmo serve para tortura: um sinal de progresso ético está no fato da tortura ser “dogmaticamente” rejeitada como repulsiva, sem nenhuma necessidade de argumentação.

Então o que dizer a respeito do argumento “realista”: tortura sempre existiu, então não é melhor falar sobre isto publicamente? Este é, exatamente, o problema. Se a tortura sempre esteve aí, por que aqueles que estão no poder agora nos contam abertamente? Só há uma resposta: para normalizar, diminuir nossos padrões éticos.

Tortura salva vidas? Talvez, mas com certeza perdem-se almas – e a justificativa mais absurda é dizer que um verdadeiro herói está pronto para renunciar sua alma para salvar as vidas desta ou deste compatriota. A normalização da tortura vista em A hora mais escura é um sinal do vácuo moral de que estamos gradualmente nos aproximando. Se há alguma dúvida sobre isto, tente imaginar um grande filme de Hollywood representando a tortura de um jeito similar vinte anos atrás. É impensável.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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A Boitempo está para lançar o novo livro de Slavoj Žižek, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico. Esta é uma versão provisória da capa do livro, que chega às livrarias ainda este mês!

Sobre Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, de Slavoj Žižek

A filosofia ocidental tem se desenvolvido à sombra de Hegel, de cuja influência cada novo pensador tenta, em vão, escapar. Seu idealismo absoluto tornou-se, assim, uma espécie de bicho-papão, obscurecendo o fato de ele ser o filósofo dominante da histórica transição à modernidade – período com o qual nosso tempo guarda ainda espantosas semelhanças. Hoje, à medida que o capitalismo global se autodestrói, iniciamos uma nova transição. Neste livro Žižek defende que é imperativo não apenas voltar a Hegel, mas repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser ainda mais hegeliano que o mestre em si. Tal abordagem permite que o autor, sempre à luz da metapsicologia de Jacques Lacan – o único verdadeiro rival de Hegel aos olhos de Žižek–, diagnostique nossa condição atual e trave um diálogo crítico com as principais vertentes do pensamento contemporâneo – Martin Heidegger, Alain Badiou, o realismo especulativo, a física quântica e as ciências cognitivas. Obra-prima de Žižek, Menos que nada retoma o legado hegeliano e apresenta um desenvolvimento sistemático de sua filosofia.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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