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Cultura Inútil: Mulheres de Pompeia já tinham que depilar a púbis no século I

mouzar benedito cultura inútil pompéiaPor Mouzar Benedito.

Pichação de paredes é coisa mais antiga do que imaginamos. Numa das poucas paredes que não caíram quando uma erupção do vulcão Vesúvio destruiu a cidade de Pompeia, no sul da Itália, estava escrito: “Gosto de mulheres com cabelos nos lugares certos, e não depilada e raspada. A gente pode então se abrigar do frio, como se fosse um casaco”. Enfim, a depilação da área genital feminina também é coisa antiga, assim como vontade de externar a preferência contra ela.

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A Rainha Vitória, que ocupou o trono durante 64 anos, nunca falou inglês com perfeição: sua mãe era filha de um duque alemão e só falava inglês em casa.

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Cultura inútil: Sobre feios e feiura

mouzar benedito mentiraPor Mouzar Benedito.

Chamar alguém de feio, varapau, baixote, gordo, barrigudo, magrelo ou outras coisas hoje em dia pega mal. O “politicamente correto” de hoje é uma chatice.

Aqui, vou me restringir aos feios. Havia muitas formas de xingar alguém de feio. Não vou dizer que isso seja uma coisa boa, mas podia-se levar para o lado divertido. Fiz uma lista do que foi dito sobre feios e feiura por algumas celebridades, e também alguns ditados.

Mas antes quero contar o que me levou a isso.

Foi a lembrança de um grande amigo, um sociólogo piauiense chamado Mendes, com quem trabalhei no Sesc. Um dia, tomando umas no Bar do Zé, começamos a brincar sobre quem era mais feio: ele ou eu. Numa boa. Rindo, sem intenção de ofender. Não faria isso se fosse para ofender alguém.

Depois disso, cada dia que o encontrava, entregava uma lista para ele e ele entregava outra para mim, cada um falando da feiura do outro.

A lista era encabeçada pelo título “Você é mais feio que…”, e listávamos inicialmente coisas já manjadas, como “o rascunho do mapa do inferno”. “a mãe da peste”, “briga de foice no escuro”, “briga de foice no elevador”… Depois fomos inventando. Às vezes nos lembrávamos de algum xingamento antigo e repetíamos.

O certo é que eu acabei listando mais de quatrocentos “você é mais feio que…” para ele, e ele listou quase o mesmo tanto para mim. Ganhei em quantidade, mas me declarei derrotado quando ele me disse que eu era mais feio do que resto de sarapatel.

Pena que não guardamos as listas. Tentei me lembrar daquela brincadeira toda, mas foram poucos os xingamentos que me vieram à memória. Nem sei se parte do que lembrei foi mesmo dito naquela época.

Mas aí vão os “Mais feio que…”, que eu consegui listar agora:

Tropeçar com as mãos no bolso, facada na bunda, indigestão de torresmo, briga de touros, sapato de padre, paraguaio baleado (esta peguei dos gaúchos), encoxar a mãe no tanque, tomar pirulito de criança, bater em mulher grávida, briga de irmãos por causa de mistura e banguela gritando gol.

Havia também algumas adaptações, como aquela de “mais perdido do que cachorro que caiu de caminhão de mudança”, que virou “mais feio que situação de cachorro que cai de caminhão de mudança”. E uns outros eram mais políticos, como “pensamento do Erasmo Dias”, “discurso do Paulo Maluf” e “política de direitos humanos do governo Garrastazu”.

Bom, continuo… Voz de prisão, abraçar a mãe de pau duro, desastre de carreta, o cão chupando manga, o diabo fazendo careta, passagem só de ida pro Piauí (essa foi pra gozar sobre a origem do Mendes, eu gosto do Piauí), férias completas em Aparecida do Norte, roubar dinheiro de igreja, roubar esmola de cego, fila de pronto socorro, tomar muleta de aleijado, mulher de cego, um bando de corujas, tossir e peidar ao mesmo tempo, consciência de torturador, naufrágio do Titanic, fuga de erupção vulcânica, praia depois de um tsunami (na época, falávamos maremoto), fim de mês pra quem ganha salário mínimo, batalha campal, concurso de arroto, penico cheio, cagada depois de tomar lombrigueiro, política econômica do Delfim Netto, privada entupida, o jeito do governo Maluf tratar funcionário público, apanhar de mulher, desastre de avião, apendicite aguda, catarro de tuberculoso, necropsia, unha encravada, tumor vazando pus, trepada de gorila, show de música brega, jogo de futebol da quarta divisão e trânsito paulistano às 6 horas da tarde.

Um parágrafo aqui, só para pausa. E continuo: água do rio Pinheiros, carta de demissão por justa causa, a justiça do diabo, a mãe da necessidade, barulho de britadeira, matar padre celebrando missa, praga de mãe, ensaio de aprendiz de violinista, acidente nuclear, estouro de boiada, fotografia de hemorroida, ficar perdido na mata que tem onça em noite sem lua, pena de morte pelo garrote vil, cara de criança com varíola, incêndio em favela e cachorro com hidrofobia.

Fora isso, brincávamos falando de outras pessoas. Uma moça (isso eu achava muito cruel) que tinha o apelido de Placenta, porque diziam que quando ela nasceu a mãe jogou a criança fora e cuidou da placenta. Sobre uma outra, diziam que quando Deus distribuía a feiúra ela entrou três vezes na fila.

Um cunhado meu dizia sobre a feiúra do povo de um certo lugar: “Se feiúra doesse, ninguém dormia aqui. Ia ser a maior gritaria”. Adaptei pro Mendes: “Se feiúra pagasse imposto, você tava ferrado”.

Outra: um conterrâneo meu, o Valdir, que era considerado muito feio, disse para o Luizinho, meu amigo: “Ô, Luizinho, você tem é muita sorte. Gente bonita como eu, quando vai ficando velho, vai perdendo a beleza; você, com essa feiura, quanto mais velho, vai ganhando mais feiura”.

DITADOS E FRASES

Começo com o ditado “Quem ama o feio, bonito lhe parece”; adaptado pelo Barão de Itararé, virou: “Quem ama o feio é porque o bonito não lhe aparece”; readaptado por mim: “Quem ama o feio… Eba! Olha o Mendes…”

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Clarice Lispector: “A feiúra é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual”.

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Não sei quem: “Se alguém me vir abraçado com mulher feia, pode apartar que é briga”

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Gabriel Pensador: “A beleza é passageira, mas feiúra é um bem que a gente tem pra vida inteira”.

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Vanessa Pimentel: “Inteligência encobre feiúra, mas beleza não disfarça burrice”.

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O povo (ditado popular): “Feio é roubar e não poder carregar”.

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Toulouse Lautrec: “A feiúra, onde quer que esteja, tem sempre um lado belo: é fascinante descobrir beleza onde ninguém a consegue ver”.

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Michel de Montaigne: “Uma fealdade e uma velhice confessada, a meu ver, menos velhas e menos feias do que outras disfarçadas e esticadas”.

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Théophile Gautier: “Se a beleza constituísse o único mérito das mulheres, às feias só restaria enforcar-se”.

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O povo (ditado popular): “Nem tão bela que mate, nem tão feia que espante”.

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Vinícius de Moraes: “As feias que me desculpem, mas a beleza é fundamental”.

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Miguel de Cervantes: “Não há pai nem mãe a quem os seus filhos pareçam feios; nos que o são do entendimento ocorre mais vezes esse engano”.

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Oscar Wilde: “Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência”.

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Mário Quintana: “Dizes que a beleza não é nada? Imagina um hipopótamo com alma de anjo… Sim, ele poderá convencer os outros de sua angelitude – mas que trabalheira!”.

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Ramalho Ortigão: “A mulher plenamente feia é uma calamidade social”.

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Johann Goethe: “Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora”.

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Frei Heitor Pinto: “A formosura da carne costuma ser um véu para cegar nossos olhos, um laço para prender os pés, um visco para impedir as asas – logo não é verdadeiro”.

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Carmen Sylva: “Chama-se realismo à fealdade, como se chama franqueza à grosseria”.

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Padre Antônio Vieira: “As formosuras mortais no primeiro dia agradam, no segundo enfastiam: são livros que, uma vez lidos, não têm mais que ler”.

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Sêneca: “A deformidade do corpo não afeia uma bela alma, mas a formosura da alma reflete-se no corpo”.

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Galeão Coutinho: “Poucos homens distinguem o verdadeiro encanto feminino, que pode nascer até da desarmonia”.

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Camilo Castello Branco: “Para uso de muitos tolos criou Deus as mulheres formosas e criou Camões os famosos versos”.

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Hilda Roxo: “Não basta a beleza das formas, é preciso reunião de um todo, como o é a Natureza”.

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Não sei quem: “Para feiúra, há plástica. Para o peso, há o regime. Mas para a falta de caráter e a hipocrisia não há nenhum tipo de tecnologia que resolva”.

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Coco Chanel: “É possível acostumar-se à feiúra; à negligência, jamais”.

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Berilo Neves: “Uma mulher feia é uma lata de conserva que será confiscada no dia em que a Natureza zelar pela boa fama de seus produtos”.

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Emílio de Menezes: “Nada tem de ridícula a fealdade quando ela, em certas caras, se figura”.

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Pereira da Silva: “O feio poderá ser belo, bastando ao homem saber apreciá-lo”.

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Boccaccio: “Um urubu, voando no meio de pombas brancas, traz ao conjunto mais beleza do que se fosse um cisne”.

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Júlio Dantas: “Não há nada mais belo, quando belo, mas também não há nada mais feio, quando é feio, do que a perna e o pé de uma mulher”.

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Bernard Shaw: “A beleza agrada à primeira vista. Mas quem se importa com ela depois de estar em casa durante três dias?”.

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Medeiros e Albuquerque: “Nada no mundo é bonito nem feio. Somos nós que vestimos de beleza as coisas que julgamos belas”.

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Catulo da Paixão Cearense: “Ai daquele que procura amor na mulher que é bela”.

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Anatole France: “A república é a carta de alforria da feiúra”.

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Charles Bukowski: “Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão”.

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Gostou? Clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Sobre mentiras e mentirosos

mouzar benedito mentira palinPor Mouzar Benedito.

Cuide da memória!
Mentiroso não pode errar
Ao recontar a mesma estória

Numa “aula espetáculo” de Ariano Suassuna, a que assisti no Memorial da América Latina, ele fez um discurso a favor da mentira. Não a mentira agressiva, mas aquela que abranda a verdade ou diverte. E disse que ele mesmo mentia: por que falar a uma pessoa uma verdade que a ofende? Melhor mentir e deixá-la feliz.

Tempos depois, numa outra “aula espetáculo”, ouvi de novo seu elogio à mentira e aos mentirosos divertidos. Contou sobre um deles, do agreste pernambucano, que tinha um apiário e vendia mel. Um dia, segundo ele, esse sujeito disse que estava conseguindo produzir o dobro de mel em cada colmeia. O segredo: tinha cruzado as abelhas com vaga-lume, assim elas trabalhavam dia e noite.

O certo é que a mentira e o mentiroso divertem, alegram a vida. Quanto mais absurda, mais divertida a mentira. E tem aquela história: todo escritor de ficção é na verdade um mentiroso, pois os romances são mentiras em forma de literatura, não é?

Mas voltemos aos mentirosos comuns.

Um médico amigo, o Renê, me contou de um mentiroso de uma cidade da região de São José do Rio Preto, no estado de São Paulo. Um dia, ele disse que, numa festa, ficou encarregado de “estourar” uma champagne e antes de tirar aqueles ferrinhos que protegem a rolha, chacoalhou bastante a garrafa, para que produzisse um “estouro” maior. Só que chacoalhou demais. A rolha bateu no teto, voltou e tampou a garrafa de novo.

Esta, pra mim que ouvi muitas mentiras por aí, foi novidade. Mas há mentiras repetitivas, que cada um diz que é do “mentiroso oficial” de sua cidade. Isso mesmo. Em tudo quanto é cidade pequena havia um sujeito que era considerado o maior mentiroso local, e todas as mentiras eram atribuídas a ele.

Uma mentira que se repete em todos os lugares é a do criador de porcos que ficavam cercados ao lado de um rio. Do outro lado do rio tinha uma roça de milho (ou outra coisa qualquer) e o dono disse a ele que seus porcos estavam invadindo a roça e acabando com ela. Ele foi apurar o que acontecia e viu: ele tinha uma plantação de mandiocas e uma dessas mandiocas era tão grande e grossa que passava por baixo do rio e ia até o lado do vizinho. Os porcos foram comendo a mandioca por dentro e acabaram cavando um túnel por ela até a roça do vizinho.

Falando do “mentiroso oficial da cidade”, na minha terra tinha um. Vamos dizer que o nome dele era Zeca. Mas quem inventava a maioria das mentiras e atribuía a ele era um dentista muito gozador. E qualquer mentira nova que aparecia por ali era atribuída a ele. Porém, mesmo sabendo disso, ele continuava com a fama.

E com ele acontecia aquilo de, quando falava a verdade, ninguém acreditava. Uma vez eu estava num bar e ele, recém-chegado de uma viagem ao Paraná, contou que na região em que esteve passava um caminho de índios que ia desde o litoral brasileiro até os Andes. Assim, os índios daqui mantinham contato com os incas. Ninguém riu, porque ele era bravo, mas quando saiu ficou aquela gozação: onde já se viu um caminho de índios do Atlântico até os Andes? Eu mesmo, molecão, achei o maior absurdo. Muito mais tarde, fiquei sabendo que o tal caminho existiu e se chamava Peabiru. O que o Zeca tinha contado era pura verdade.

E já que falei do Zeca, vou contar uma historinha dele. Ou atribuída a ele, que contei no meu livro de causos Santa Rita Velha Safada.

Depois desse causo, há uma seleção de ditados sobre o tema, e também o que falou um bando de gente famosa sobre ele.

Pescarias

A barbearia do Antônio era sempre cheia de gente. Funcionava como uma espécie de ponto de encontro de desocupados. Assim, às vezes tinha umas dez ou mais pessoas lá, mas só duas ou três na fila para cortar cabelo ou fazer barba. Os demais estavam ali para conversar e, comumente, falar da vida alheia.

Um dia, a barbearia cheia, chegou o Zeca. O pessoal já se assanhou: lá vem mentira das boas. Para puxar assunto um sujeito puxou assunto com ele:

— Ô, Zeca, cê tá sumido…

— Passei uns dias na roça, pescando… Foi lá no açude do Necreto.

— Pegou muitos peixes?

— De quantidade foi pouca, só alguns lambaris. Mas cada baita lambari! Um deles pesava três quilos.

Ficou aquele clima… Quanto pesa um lambari? Quinze gramas? Vinte gramas? E o Zeca vem com a história de lambari de três quilos. Um freguês arriscou:

— Ô, Zeca, lambari de três quilos?…

Antes que ele ficasse bravo, o Zé Luís, outro cara que tinha fama de mentiroso, sapecou:

— Pode ser… Pode ser… Aquele açude é muito esquisito. Um dia eu estava pescando nele, fisgou alguma coisa e eu pensei: é um peixe bem grande, porque estava difícil tirar o baita. Fiz bastante força e puxei, e sabe o que saiu do rio?

— Hum… hum…

— Um lampião aceso!

Aí o Zeca ficou bravo mesmo:

— Cê tá me gozando, Zé Luís? Onde já se viu tirar um lampião aceso do fundo do açude!

O Zé Luís deu um sorrisinho maroto e falou:

— Diminui um pouco o seu lambari que eu apago o meu lampião.

O QUE DIZ O POVO (DITADOS POPULARES)

“A mentira é tanto mais saborosa, quanto mais verdadeira se afigura”

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“O dinheiro cala a verdade e compra a mentira”.

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“Tempo de guerra, mentira por mar e por terra”.

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“Nada enfurece tanto o homem como a verdade”.

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“A mentira é o tempero da verdade”

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“Atrás da mentira, mentira vem”

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“A verdade, só a diz um homem forte ou um tolo”

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“A verdade amarga, a mentira é doce”

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“A verdade é manca, mas chega sempre a tempo”

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“A mentira corre mais que a verdade”

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“A mentira é como uma bola de neve; quanto mais rola, mais engrossa”

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“Mente bem quem de longe vem”

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“A mentira não tem pés, mas anda veloz”

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“A mentira dá flores, mas não frutos”

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“A fruta e a mentira, quanto maior, melhor”

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“Quem fala a verdade não merece castigo”

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“Ao mentiroso convém ter boa memória”

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“Só dura a mentira enquanto a verdade não chega”

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“São necessárias muitas mentiras para sustentar uma”.

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“É bom mentir, mas não tanto”.

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Provérbio chinês: “Meia verdade é sempre uma mentira inteira”.

hitler mouzar benedito[Adolf Hitler, de frente ao espelho, ensaiando a gesticulação de seus discursos]

E O QUE ELES (E ELAS) DISSERAM:

Napoleão Bonaparte: “A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.

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Millôr Fernandes: “Jamais diga uma mentira que não possa provar”.

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Millôr Fernandes, de novo: “As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.

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Hilda Roxo: “Não acredito que o homem goste das pieguices e mentiras da mulher: ele está, coitado, se tornando estéril pela luta e combate à mesma”.

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Federico Fellini: “Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade”.

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Espínola Veiga: “Mentira, que importa? No amor, a mentira é como o sal: demais, salga; às pitadas, tempera”.

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Mark Twain: “Algumas pessoas nunca dizem uma mentira – se souberem que a verdade pode magoar mais”.

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Xiquote: “O amor à verdade é, em última análise, o amor às nossas próprias opiniões”.

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Xiquote, de novo: “Não é difícil dizer sempre a verdade; difícil é conseguir que sempre nos acreditem”.

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Bernardo Pereira de Vasconcellos: “A verdade é a mentira muitas vezes repetidas”.

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Adolf Hitler: “As grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha”.

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Lucille Ball: “O segredo para permanecer jovem é viver honestamente, comer devagar e mentir a idade”.

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Camilo Castello Branco: “A verdade é às vezes mais inverossímil que a ficção”.
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Camilo Castello Branco, de novo: “A verdade é algumas vezes o escolho de um romance”.

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Florbela Espanca: “Quem disser que pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente”.

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Benjamin Disraeli: “Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas”.

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Leon Kaseff: “Na conquista da verdade, não existem vencedores nem vencidos, mas, apenas, convencidos”.

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Humberto de Campos: “Em literatura, e em moral, repete-se o fenômeno: a verdade, nua, é, pela sua uniformidade, fatigante, enfadonha, fastidiosa”.

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José Américo: “Há muitas formas de dizer a verdade. E talvez a mais persuasiva seja a que tem a experiência da mentira”.

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Pereira da Silva: “As verdades de quase dois mil anos caducam como as senhoras respeitáveis de mais de cem”.

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Assis Chateaubriand: “Só o real é contraditório”.

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Vicente Avelino: “A verdade é o meu ponto de vista”

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Sabino de Campos: “A mentira repassada de comicidade e humor é um tônico do espírito”.

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Sabino de Campos, de novo: “A mentira que diverte é um bálsamo para os males crônicos da humanidade”.

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Medeiros e Albuquerque: “Os fracos e perseguidos precisam da mentira como de uma defesa”.

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Aristóteles Onassis: “Não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade”.

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Ieda Graci: “A mentira é uma ilusão dos infelizes”.

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Machado de Assis: “A mentira é muita vezes tão involuntária como a respiração”.

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Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”.

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Mário Quintana, de novo: “Do bem e do mal / Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos. / Não há coisa na vida inteiramente má. / Tu dizes que a verdade produz frutos… / Já viste as flores que a mentira dá?”.

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Paula Nei: “A mentira é um passo em falso – desequilibra; escorregando na primeira é depois um trabalho para um homem restabelecer o aprumo”.

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Galeão Coutinho: “Mentir demanda trabalho, esforço de imaginação, engenho agudo. Quem mente é obrigado a mentir mais, a mentir sempre”.

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Galeão Coutinho, de novo: “Toda mulher tem horror à mentira… pregada pelos homens”.

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Francisco de Bastos Cordeiro: “Não mentir é talvez a forma mais rara de heroísmo”.

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Aristóteles: ”Que vantagem têm os mentirosos? A de não serem acreditados quando dizem a verdade”.

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Henry Mencken: “É difícil acreditar que um homem está a dizer a verdade quando você sabe que mentiria se estivesse no lugar dele”.

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William Shakeaspeare: “As pequenas mentiras fazem o grande mentiroso”.

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Shakespeare, de novo: “Com o engodo de uma mentira, pesca-se uma carpa de verdade”.

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Nietzsche: “O sucesso tem sido sempre um grande mentiroso”.

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Nietzsche, de novo: “Há uma inocência na mentira que é o sinal da boa fé numa causa”.

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Nietzsche, mais uma vez: “O fantasioso nega a verdade para si mesmo; o mentiroso apenas para os outros”.

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Robert Stevenson: “As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio”.

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George Lord Byron: “E, afinal de contas, o que é uma mentira? É apenas a verdade mascarada”.* * *

Padre Sena de Freitas: “Não há nada tão despótico como uma verdade evidente”.

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Josué de Castro: “Nem todas verdades se podem dizer”.

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Bertolt Brecht: “Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso!”.

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Martinho Lutero: “Todo o pecado é um tipo de mentira”.

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Santo Agostinho: “O dom da fala foi concedido aos homens não para que eles enganassem uns aos outros, mas sim para que expressassem seus pensamentos uns aos outros”.

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Dostoiéviski: “A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais”.

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Ovídio: “A consciência tranquila ri-se das mentiras da fama”.

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Sófocles: “Não é bom dizer mentiras; / mas quando a verdade puder trazer uma terrível ruína, / então dizer o que não é bom também é perdoável”.

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Anatole France: “As mulheres e os médicos sabem bem como a mentira é necessária aos homens”.

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Berilo Neves: “A verdade é uma senhora inconveniente que produz escândalo toda vez que aparece em público”.

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Henrik Ibsen: “Se você tira a mentira vital a um homem vulgar, tira-lhe ao mesmo tempo a felicidade”.

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Chico Xavier: “A verdade que fere é pior do que a mentira que consola”.

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Cazuza: “Mentiras sinceras me interessam”.

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Clarice Lispector: “Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre”.

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Clarice Lispector, de novo: “Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece”.

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Clarice Lispector, mais uma vez: “Minha maior mentira todos os dias: meu sorriso”.

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Denis Diderot: “Engolimos de um sorvo a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga”.

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Stephen King: “A confiança do ingênuo é a arma mais útil do mentiroso”.

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Stephen King de novo: “Crianças, ficção é a verdade dentro da mentira, e a verdade desta ficção é bastante simples: a magia existe”.

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Viana Moog: “Na vida, o que prejudica são as pequenas mentiras; as mentiras em grande, são formidáveis instrumentos de bom êxito”.

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Sócrates: “Quem melhor conhece a verdade é mais capaz de mentir”.

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Cícero: “Ninguém acredita em um mentiroso, mesmo quando ele diz a verdade”.

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Jules Renard: “Diga a verdade de vez em quando para que acreditem em você quando mentir”.

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Fabrício Carpinejar: “Gastei todas as minhas mentiras na paixão. Gastei todas as minhas verdades no amor. O que sobrou sou eu”.

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Fabrício Carpinejar, de novo: “Alguém dentro de mim mente para me proteger”.

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Umberto Eco: “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos. Nem todas as mentiras podem ser suportadas”.

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Charles Bukowski: “Era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim assim”.

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Pierre Corneille: “Um mentiroso é sempre pródigo em juramentos”.

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Júlio Dantas: “O que foi sempre o amor senão a mais dolorosa, a mais voluptuosa das mentiras?”.

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Henry Wells: “Publicidade é mentira legalizada”.

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Georges Bataille: “O orgulho é igual à humildade: é sempre mentira”.

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Adélia Prado: “Preciso mentir um pouco para que o ritmo aconteça e eu própria entenda o discurso”.

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Raul Seixas: “Mamãe, eu não quero ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz…”.

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Ambrose Bierce: “Imaginação: um armazém de fatos gerido em parceria pelo poeta e pelo mentiroso”.

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Em Harry Porter e o Cálice de Fogo: “Não faça perguntas e não te direi mentiras”.

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Dr. House: “Há uma razão para a mentira: funciona”.

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Demi Lovato: “O espelho pode mentir, não mostra como você é por dentro”.

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Marilyn Manson: “Mas o que é real? Você não pode descobrir a verdade, você só escolhe a mentira da qual mais gosta”.

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Mahatma Gandhi: “Meu Senhor, ajude-me a dizer a verdade diante dos fortes e não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos fracos”.

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Claude Debussy: “A arte é a mais bela das mentiras”.

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Theodore Adorno: “A arte é a magia libertada da mentira de ser verdadeira”.

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Pablo Picasso: “A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade”.

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Guerra Junqueiro: “A mentira só aos mentirosos prejudica”.

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George Orwell: “A linguagem política, destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez”.

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George Orwell, de novo: “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”.

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Caio Fernando Abreu: “O que você mentir eu acredito”.

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Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo”.

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Oscar Wilde: “A finalidade do mentiroso é simplesmente fascinar, deliciar, proporcionar regozijo. Ele é o fundamento da sociedade civilizada”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Sobre polícias e violência policial

meneghetti mouzarPor Mouzar Benedito.

“Com esses fios, os tiras, semelhantes aos demônios citados por Dante na Divina Comédia, tocam o corpo do encabritado nas partes mais sensíveis: ouvidos, narinas, boca, planta dos pés, rins, órgãos sexuais, raiz das coxas, parte de trás dos joelhos, debaixo das unhas etc. Não pode haver no mundo tortura mais alucinante e dolorosa. Nem o ‘Trem Internacional’ criado por Hitler, nem as fogueiras da Inquisição, nem as pancadas dos sicários de Maomé na planta dos pés dos infiéis, nada no mundo pode ser comparado ao pau de arara brasileiro. O sujeito, com tal tortura, confessa até que foi o autor pessoal da morte de Jesus Cristo, na cruz. […] Adotem o fuzilamento, a câmara de gás, o enforcamento, em vez de rebaixarem a dignidade humana com o pau de arara. Isso não é mais para nosso século. […] E todo aquele que for contra a ideia, mande aplicar nele o pau de arara por cinco minutos apenas, como me aplicaram durante nove horas.”

Este é um trecho de um “recado à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo”, escrito pelo famoso ladrão Gino Meneghetti, pedindo o “fim do suplício do pau de arara”, que sempre incluía choques elétricos em várias partes do corpo. Usei esse trecho no livro Meneghetti: O gato dos telhados, da Coleção Pauliceia, publicado pela Boitempo.

Repare que ele cita o pau de arara como “brasileiro”. E é mesmo. Essa é uma “contribuição” da polícia brasileira para polícias de outros países arrancarem informações de presos.

“Bater em preso” é coisa antiga no Brasil, e pessoas que se julgam imunes à violência policial costumam defendê-la contra suspeitos de crimes, principalmente quando esses suspeitos são pobres. Meneghetti passou por essa tortura muitas vezes. Não se usava a palavra “torturar” para o ato de “bater em preso”. Pelo menos não era comum. A palavra tortura só foi incorporada ao noticiário quando presos políticos começaram a passar por ela.

Aproveite enquanto o Brás é carcereiro

Na minha terra ocorriam violências policiais, mas eram mais raras. Uma das possíveis explicações (suponho) é que raramente aconteciam ocorrências policiais lá. Outra é que os dois soldados da PM mineira, comandados por um cabo, eram nascidos ali, então conheciam as pessoas, tinham relações com as famílias delas.

Sobre a raridade de ocorrências policiais, lembro-me que a cadeia, que ficava na praça central, vivia vazia. Raramente tinha um ocupante para suas duas ou três celas. E quando isso ocorria, não raro a gente via o sujeito tomando sol num banco na porta da cadeia, sem nenhum policial tomando conta. Aí talvez valha outra explicação: os veículos motorizados eram poucos na cidade, e as estradas eram todas de terra batida, bem ruinzinhas. Se alguém fugisse não iria longe.

Além disso, tinha um carcereiro especial, o Brás, um negro baixinho, bem velho (segundo meus pais, ele já era velho quando eles eram jovens), com cara de santo, fala calma e andar mais calmo ainda, apoiado por um cajado. Cuidava bem dos presos. Por isso, quando alguém era visto cometendo ou tentando cometer alguma coisa ilegal, os outros gritavam para ele, com ironia: “Aproveita enquanto o Brás é carcereiro”.

Mais tarde, o Brás já não era carcereiro, tinha se aposentado, e os policiais já não eram locais, vieram de fora. Eram, acho, três policiais militares e um cabo. A cidade já era um pouquinho maior, chegava a uns três mil habitantes na área urbana. Aí já não havia tanto respeito com quem cometesse algum pequeno “crime” ou mesmo quem não cometesse mas fosse suspeito. Ou nem suspeito fosse, bastava ser pobre. Preto, pior ainda.

Nunca tinham cometido uma grande violência explícita, mas já se comportavam com aquela arrogância de “otoridade”. Um dia, um daqueles pobres que perambulavam por ali, o Vito Preto, tomou um pileque e dormiu na sarjeta, perto da cadeia. Os PMs foram lá lhe deram uma surra violentíssima. Só que foram vistos por rapazes que passavam por ali. Eles juntaram um bando, cercaram a polícia e a “prenderam”. Todos os policiais foram levados para a cadeia e trancafiados numa cela. Não cometeram violência contra eles, mas mandaram um telegrama para o comando da polícia, em Belo Horizonte, dizendo que aqueles policiais não serviam para Nova Resende. Estavam presos e só seriam soltos quando aparecessem autoridades para os levarem dali.

Foi um momento de dignidade daquela juventude da minha terra.

Ouvidor da Polícia pra valer

Outro exemplo de dignidade ocorreu com outro conterrâneo meu, José Roberto Rezende, com quem escrevi o livro Ousar Lutar – memórias da guerrilha que vivi (também pela Boitempo).

Ele havia sido preso político, passou oito anos e sete meses na prisão, no Rio de Janeiro. Quando saiu, voltou para Belo Horizonte, onde morava sua família, terminou o curso de Direito, que havia começado antes da militância no Colina (Comando de Libertação Nacional) e na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), e passou a atender movimentos populares e seus militantes.

Na década de 1990, o então governador Eduardo Azeredo (PSDB) resolveu atender à reivindicação de criar uma Ouvidoria de Polícia, como já havia em São Paulo, para apurar crimes das polícias civil e militar. Por unanimidade, os movimentos de Direitos Humanos indicaram o José Roberto para o cargo, que tinha status de secretaria de Estado. O governador se preparava para a sua nomeação quando foi procurado pelo comando da Polícia Militar, que dizia não aceitar o José Roberto para apurar os possíveis crimes cometidos pela polícia. O motivo era simples: “Ele foi muito torturado na cadeia, vai querer se vingar”.

Azeredo pediu, então, a indicação de outro nome, mas os movimentos de Direitos Humanos não recuaram. Disseram que se o governador não aceitasse a indicação deles, que extinguisse a Ouvidoria, antes mesmo dela começar a funcionar. Azeredo cedeu. José Roberto foi o primeiro Ouvidor da Polícia de Minas Gerais.

Por coincidência, logo que assumiu o cargo, apareceu um rapaz morto atrás do aeroporto da Pampulha e a Polícia Militar deu logo a explicação: “Foi briga de quadrilhas”. Mas meu amigo ouvidor viu o morto e – conhecedor das marcas da tortura – não aceitou a explicação. Com a ajuda de um promotor e de uma advogado amigo, partiu para a apuração. E conseguiu. Foi torturado pela PM até a morte.

Por que me lembro dessas coisas?

Duas coisas me remetem à questão da violência policial. Uma é a frequência de denúncias sobre ela, especialmente na repressão a movimentos sociais.

Outra é que tenho visto gente boa se preparando para entrar na Polícia Federal, e muitos conseguem. E convivem com todo mundo como gente “normal”, quer dizer, de quem não se deve ter medo. Bom que seja assim, embora a violência policial – não da Federal, mas da militar e da civil – continue ocorrendo, acho que não tanto quanto antes, mas de qualquer forma, sempre condenável e quase sempre desmotivada.

Sou de uma geração que, na juventude, via a polícia sempre, ou quase sempre, como inimiga. Na época da ditadura, fugia-se da polícia mesmo sem ter motivo algum. Polícia Federal, então, cruz credo! Era como se fossem do Dops, a polícia política. Até hoje sobrou algo em mim, como uma espécie de memória atávica, que me induz a evitar ao máximo situações que envolvam contato com a polícia, e não só ela: evito autoridades judiciais, fiscais, qualquer coisa do tipo. Quer dizer, contatos em que eles aparecem na condição de autoridades, não como pessoas físicas. Mas vejo famílias com orgulho do filho policial, e fico torcendo para que o mundo tenha mudado de forma que esse orgulho seja merecido, e o “medo” de polícia não passe de uma neurose.

E mesmo na época da coisa braba, eu reconhecia que havia policiais decentes.

Alguns conterrâneos meus vieram para São Paulo à procura de trabalho e, quando chegaram aqui, nos tempos do famigerado Roberto Campos dirigindo a economia brasileira, os empregos que sempre existiram na Pauliceia se esvaíram. Alguns desses conterrâneos procuraram logo entrar na polícia, outros tentaram qualquer emprego, e sem chances, numa situação periclitante, entraram para a polícia para não voltarem “derrotados” para Minas. Não havia alternativa. Eu ficava numa situação estranha: tinha pavor de polícia, mas deles não. Continuavam sendo meus amigos e nas nossas conversas quase sempre concordavam comigo quanto às minhas posições de esquerda. Acredito que nunca cometeram violência. Alguns aproveitavam qualquer motivo para pedir transferência para a burocracia da instituição. Um deles só usava a farda em serviço ou para entrar de graça no cinema, porque o salário era baixo.

Claro, havia também quem julgava ter vocação para a polícia. Um deles era um matogrossense que trabalhava comigo, por volta de 1970. Era um jovem de uns vinte anos. Lia livros policiais e queria virar investigador, pensando que seria uma espécie de Sherlock Holmes. Fez concurso para a Polícia Civil, passou e foi fazer um curso na Academia de Polícia antes de partir para a ativa.

Brinquei com ele: “As matérias da Academia são Tortura I, Tortura II… essas coisas”. De vez em quando ele aparecia no antigo trabalho para nos visitar e nós o chamávamos de “Sujeira”, que era a gíria dos malandros para dizer que tinha policial no pedaço.

Quando ele já era policial eu o encontrei em algum lugar que não me lembro, mas lembro que não estava mais tão empolgado com a profissão. Em vez de investigações, interrogatórios inteligentes e deduções científicas, o que funcionava era porrada. Os colegas não queriam “perder tempo” com sutilezas.

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dossiÊ violência policial

Confira o dossiê especial “Violência policial: uso e abuso“, no Blog da Boitempo, com artigos, reflexões, resenhas e vídeos de Ruy Braga, Slavoj Žižek, Antonio Candido, Luis Eduardo Soares, Edson Teles, Mauro Iasi, Christian Dunker, Gabriel Feltran, Maurilio Lima Botelho, Marcos Barreira, José de Jesus Filho, Guaracy Mingardi, Maria Orlanda Pinassi, David Harvey, Vera Malaguti Batista, Laurindo dias Minhoto e Loïc Wacquant, entre outros.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Culltura Inútil: Sobre velhos e velhice

cultura inútil velhice bgPor Mouzar Benedito.

“Escondendo a verdade
Deixou de ser velho:
Agora é da melhor idade”

Antes de entrar em ditados e pensamentos de gente famosa sobre o assunto (há alguns muito interessantes e divertidos), umas considerações minhas. Em parte, considerações óbvias.

Velho, antigamente, era velho. Quando se falava de um velho respeitosamente, como um sábio, podiam chamá-lo de ancião, “amenizando” o peso da palavra velho. Depois “amenizaram” também para os velhos comuns, velho passou a ser idoso. Aí surgiu o eufemismo “terceira idade”, e parecia que os eufemismos parariam aí, mas em seguida veio outro pior: “melhor idade”.

Essa expressão me irrita, mas um dia parei pra pensar e concluí que para certas pessoas a velhice é mesmo a melhor idade. É o caso de mulheres que vivem sufocadas por maridos mandões. Muitas delas não podem fazer absolutamente nada de prazeroso. Como mulheres “do lar”, trabalham, trabalham e trabalham em casa, mas os maridos dizem que elas não trabalham. Não viajam, não passeiam, não dançam, não têm vida social, não estudam… Quando o marido morre, é uma libertação. Passam a fazer tudo o que gostam e querem.

Há muitos anos, conheci na Paraíba uma velhinha simpática, culta, sorridente, alegre, cheia de vida, mãe de amigos meus. Aí me contaram que ela só ficou assim depois que o marido morreu. Foi a libertação, que eu já citei. Ele era do tipo que não permitia à mulher nem ficar olhando a rua pela janela. Se ela fizesse isso, era repreendida com brabeza por estar “flertando” com homens que passavam por ali. Visitas, ele aceitava poucas e mandava embora às 9h da noite. Até o que ela lia ele regulava. Com a morte dele, ela desabrochou, passou a ser uma mulher extremamente feliz.

Numa viagem a Goiás, fui visitar Cora Coralina, que já conhecia de viagens anteriores, e comentei esse caso com ela. Cora Coralina também foi uma mulher que só “desabrochou” depois de velha. Começou a publicar poemas já bem idosa. Perguntei, então, se o caso dela era como o da mãe dos meus amigos paraibanos, se a morte do marido representou sua libertação. Ela disse que não:

– Não é só o marido. Os filhos também atrapalham. A libertação só veio quando meu último filho se casou. Aí fiquei sozinha e passei a fazer o que eu queria, inclusive a ter tempo para isso.

DOCES E POSEIA

Já que falei de Cora Coralina, conto como a conheci. Era 1976, eu fazia uma pesquisa sobre cultura popular em várias partes do Brasil, e em Goiânia, uma moça que trabalhava no Sesc me deu uma ótima ajuda, foi minha cicerone no estado e conhecia bem a cultura goiana. Além de me apresentar a vários artesãos, me levou também a muitos artistas. Um dia ela me falou de uma mulher, doceira, que quase aos oitenta anos de idade revelou-se uma grande poetisa (hoje, o feminino de poeta, para muita gente é poeta mesmo, mas acho a palavra poetisa mais bonita). Fomos à cidade de Goiás e ela me apresentou a Cora Coralina. Comprei seu primeiro livro, publicado havia pouco tempo, e conversamos bastante.

No ano seguinte, fui de novo à cidade de Goiás e fiz uma entrevista com a poetisa, com intenção de publicar no Versus, jornal de que eu era um dos editores. Quando apresentei a entrevista na reunião de pauta, dizendo que era uma velha com mais de 80 anos, mas que ela “tinha futuro” como escritora, acharam que eu estava maluco.

Levei a entrevista à redação do jornal Movimento e apresentei à então editora de cultura, Maria Rita Kehl, que gostou e publicou com o título “Meus doces são melhores do que meus poemas”. Pelo que me disseram depois, foi a primeira entrevista com Cora Coralina publicado num jornal de fora de Goiás.

Em mais uma viagem a Goiás, em janeiro de 1983, fui conversar com Cora Coralina de novo. Comprei seu livro Poemas dos becos de Goiás e outras estórias mais, e pedi que autografasse. Tive a petulância de pedir um autógrafo especial, em que ela falasse alguma coisa dela mesma. Com sua letra trêmula pela idade, mas firme, ela escreveu:

“Mouzar,

Como mulher, deveria ter sido mais bonita e menos idiota. Mais vaidosa e menos inteligente. Mais sofisticada e menos simplória.

Devia ter tido a coragem que me faltou e não devia ter tido o medo que me sobrou.

Devia ter sido mais mentirosa e menos sincera. Devia ter me casado com um moço e me casei com um homem 22 anos mais velho do que eu. Errei de ponta a ponta. Quando reconheci o erro já era tarde.

Cora Coralina

Cidade de Goiás, 24-1-83.”

FRASES E DITADOS

Há muitos ditados e pensamentos “construtivos” e elogiosos sobre velhos e a velhice. Mas quase sempre me soam um tanto falsos. Na nossa sociedade, o “normal”, ou pelo menos o comum, ao se falar de velhos, é usar frases como “já pendurou as chuteiras”, “está mijando nos pés”, “é bananeira que já deu cacho”, “já está de cachimbo apagado”, “é do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça”, “é mais velho do que cagar de cócoras” ou que “foi garçom da Santa Ceia”. E mais: “quem gosta de velho é reumatismo, vento encanado, cadeira de balanço, rede e fila do INSS”, “lugar de velho é na igreja” e “se eu gostasse de velho ia trabalhar em museu”.

E, se alguém acha que merece respeito apenas por ser velho, há um ditado arrasador: “Os canalhas também envelhecem”.

Selecionei ditados gozadores e outros até valorizando(!) os que dobraram o Cabo da Boa Esperança, às vezes contrapondo velhice e juventude, e em seguida frases ditas por gente famosa ou nem tanto.

DIZ O DITO POPULAR:

Se o jovem soubesse e o velho pudesse, nada há que não se fizesse.

* * *

Ninguém é tão velho que não cuide viver mais um ano, nem tão novo que não possa morrer logo.

* * *

Mais vale o velho que me ame do que o moço que me assombre.

* * *

O tempo cura tudo, menos a velhice.

* * *

Homem velho, saco de azares.

* * *

A mocidade é defeito que se corrige dia a dia.

* * *

Aos vinte anos, cabeça oca, aos trinta riqueza pouca.

* * *

Moça com velho casada, como velha se trata.

* * *

Quem quiser ser velho muito tempo, comece-o a ser cedo.

* * *

Não há melhor espelho do que amigo velho.

* * *

Velho gaiteiro, velho menino.

* * *

Queda de velho não levanta poeira.

* * *

Velho na sua terra e moço na terra alheia, sempre mentem de sua maneira.

* * *

Velho que não anda, desanda.

* * *

Velhos são os trapos.

* * *

Velho não se senta sem “ui”, nem se levanta sem “ai”.

* * *

Não há sábado sem sol, nem jardim sem flores, nem velhos sem dores, nem moça sem amores.

* * *

Pote velho é que esfria água – este é semelhante àquele que virou sucesso numa música sertaneja: “Panela velha é que faz comida boa”.

* * *

Tatu velho não cai em mundéu.

* * *

Burro velho não toma ensino.

* * *

Macaco velho não mete a mão em cumbuca.

* * *

Velhice é mal desejado.

O QUE SE DISSE POR AÍ…

Simone de Beauvoir: “A velhice é a paródia da vida”.

* * *

Machado de Assis: “Matamos o tempo, o tempo nos enterra”.

* * *

Mia Couto: “A velhice não nos dá nenhuma sabedoria, simplesmente autoriza outras loucuras”.

* * *

Groucho Marx: “Ficar mais velho não é problema. Tens apenas que viver o tempo suficiente”.

 * * *

Érico Veríssimo: “Moça rica, quando cai na boca do povo não perde nada, mas moça pobre quando é falada…”.

* * *

Charles de Gaulle: “A velhice é um naufrágio”.

* * *

Ambrose Bierce: “Velhice: aquele período da vida no qual ajustamos os vícios que ainda temos, denegrindo aqueles que não conseguimos satisfazer”.

* * *

Victor Hugo: “A miséria de uma criança interessa a uma mãe, a miséria de um rapaz interessa a uma rapariga, a miséria de um velho não interessa a ninguém”.

* * *

Victor Hugo, de novo: “Quarenta anos é a velhice dos jovens; cinquenta anos é a juventude dos velhos”.

* * *

Camilo Castello Branco: “As almas infelizes envelhecem cedo”.

* * *

Camilo Castello Branco, de novo: “As mulheres de 25 anos datam a velhice dos 35, e dos 40 em diante confundem a todas as senhoras na respeitabilidade de suas mães e avós”.

* * *

Camilo Castello Branco, mais uma vez: “O tempo chega sempre; mas há casos em que não chega a tempo”.

* * *

Júlio Dantas: “Afinal, a velhice é um simples preconceito aritmético, e todos nós seríamos mais moços se não tivéssemos o péssimo hábito de contar os anos que vivemos”.

* * *

Júlio Dantas, de novo: “A longevidade é uma prerrogativa das naturezas vulgares”.

* * *

Raquel de Queiroz: “A mocidade é o tempo em que a gente quer ser dono do mundo e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mundo”.

* * *

Maroquinha Jacobina Rabelo: “Prepara na primavera as flores que irão florir o outono e o inverno da vida”.

* * *

Henry Mencken: “Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria”.

* * *

Vitor Caruso: “Velhice e a digestão lenta da mocidade”.

* * *

Doris Lessing: “Conforme envelheces, não ficas mais sábios. Ficas mais irritável”.

* * *

Pierre Proudhon: “A vida do homem divide-se em cinco períodos: infância, adolescência, mocidade, virilidade e velhice. No primeiro período o homem ama a mulher como mãe; no segundo, como irmã; no terceiro, como amante; no quarto, como esposa; no quinto, como filha”.

* * *

Goethe: “Viver muito tempo significa sobreviver a muitos entes amados, odiados e indiferentes”.

* * *

Maurice Chapelan: “Saber envelhecer é fácil: já não se tem a dificuldade da escolha”,

* * *

Suzanne Necker: “Se se pudessem conquistar os homens com fingimentos, todas as mulheres velhas teriam amantes”.

* * *

Godofredo de Almeida: “O futuro de todos nós é o túmulo”.

* * *

Platão: “Deve-se temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas são provas de idade e não de prudência”.

* * *

Nelson Mandela: “Uma das vantagens da velhice é que as pessoas nos respeitam só pelos cabelos brancos e dizem toda espécie de coisas simpáticas sobre nós que não se baseiam sobre quem somos realmente”.

* * *

Mark Twain: “Sou velho e já passei por muitas dificuldades, mas a maioria delas nunca existiu”.

* * *

Jorge Luis Borges: “A velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão ainda maior”.

* * *

Coelho Neto: “Os séculos são longos e quem se destina a atravessá-los deve ir devagar. Quereis saber como se consegue a Eternidade? Com o Tempo”.

* * *

Sêneca: “Ninguém é tão velho que não espere que depois de um dia não venha outro”.
* * *

Walter Waeny: “Quando um homem honrado envelhece, ele se torna um ancião; quando um canalha envelhece, ele é apenas um velhaco que já viveu muito”.

* * *

Walter Waeny, de novo: “A velhice dá o direito de exigir respeito, mas tira o direito de fazer tolices”.

* * *

François La Rochefoucauld: “Os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de já não estarem em estado de dar maus exemplos”.

* * *

Catherine Deneuve: “Acho lamentável o culto à beleza e à juventude, porque é muito limitador. Nos Estados Unidos isso é muito forte, mas na Europa o envelhecimento é melhor aceito”.

* * *

Christian Hebbel: “Muitas vezes a juventude é repreendida por acreditar que o mundo começa com ela. Mas a velhice acredita ainda mais frequentemente que o mundo termina com ela. O que é pior?”.

* * *

Millôr Fernandes: “Você está começando a ficar velho quando, depois de passar uma noite fora, tem que passar dois dias dentro”.

* * *

Millôr Fernandes, de novo: “Um homem começa a ficar velho quando já prefere andar só do que mal acompanhado”.

* * *

Gabriel García Márquez: “O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão”.

* * *

Madame de Stael: “As ideias novas desagradam às pessoas de idade; elas gostam de se convencer de que, depois de haverem deixado de ser novas, o mundo, em vez de se enriquecer, só se perdeu”.

* * *

Carlos Drummond de Andrade: “Há duas épocas da vida em que a felicidade está numa caixa de bombons: a infância e a velhice”.

* * *

Schopenhauer: “Na juventude, imaginamos o mundo repleto de felicidade e prazer, sendo que a única dificuldade é alcançá-los, enquanto na velhice sabemos que do mundo não há muito a esperar. Logo, acalmados por completo, fruímos um presente suportável e encontramos alegrias até em miudezas”.

* * *

Padre Manuel Bernardes: “A velhice é uma quase morte, assim como crepúsculo vespertino é uma quase noite”.

* * *

Nelson Rodrigues: “Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério depois que fica velho”.

* * *

Jeanne Moreau: “A idade não nos protege contra o amor. Mas o amor, até certo ponto, protege-nos contra a idade”.

* * *

Albert Camus: “Envelhecer é passar da paixão à compaixão”.

* * *

Albert Einstein: “A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo homem que lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar”.

* * *

Itamar Franco: “Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo”.

* * *

Rousseau: “Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele”.

* * *

Rousseau, de novo: “O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu a vida”.

* * *

Mário Quintana: “Infância: a vida em tecnicolor. Velhice: a vida em preto e branco”.

* * *

José Saramago: “Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia. Provavelmente, é isto a velhice”.

* * *

Marcel Proust: “Acontece com a velhice o mesmo que com a morte. Alguns enfrentam-nas com indiferença, não porque tenham mais coragem do que os outros, mas porque têm menos imaginação”.

* * *

Rubem Alves: “Toda saudade é uma espécie de velhice, É por isso que os olhos dos velhos vão se enchendo de ausências”.

* * *

Benjamin Franklin: “A mocidade é um erro, a idade madura uma luta, a velhice um lamento”.

* * *

Oswald de Andrade: “Senhor / Que eu não fique nunca / Como esse velho inglês / Aí do lado / Que dorme numa cadeira / À espera de visitas que não vêm”.

* * *

Ediel: “A diversão não acaba com a velhice. A velhice é que acaba com a diversão”.

* * *

Alphonse Daudet: “Os homens envelhecem mas nem sempre amadurecem”.

* * *

Mary Wortle Montagu: “Aos 40 anos, a mulher está longe ser fria e insensível; mas ela sabe, quando necessário, cobrir o fogo com as cinzas”.

* * *

 Benrard Baruch: “Nunca serei velho. Para mim, a velhice começa 15 anos depois da idade em que eu estiver”.

* * *

Barão de Itararé: “A natureza, que, com a idade, nos põe tanta prata nos cabelos, bem que podia ter a gentileza de nos meter algumas no bolso”.

* * *

Woody Allen: “Não há vantagem em envelhecer: não se fica mais sábio e ainda se sofre com dor nas costas. Recomendo que não o façam”.

* * *

Ariano Suassuna: “Terceira idade é para fruta: verde, madura e podre”.

* * *

Henriqueta Brieba: “A vantagem de ter nascido em 1901 é que o século XX estará sempre correndo atrás de mim, em vez de eu ficar correndo atrás dele”.

* * *

Homero: “As mulheres da Grécia contam sua idade a partir de seu casamento e não de seu nascimento”.

* * *

Daniel Auber: “Não tenho 80 anos e sim quatro vezes 20”.

* * *

Jean de la Bruyère: “A maior parte dos homens emprega a primeira metade de sua vida a tornar a segunda metade insuportável”.

* * *

Benjamin Disraeli: “A juventude é um disparate, a idade adulta uma batalha, a velhice uma saudade”.

* * *

Disraeli, de novo: “O homem passa por três idades: a tolice da juventude, a luta da idade madura e os remorsos da velhice”.

* * *

Ricardo Bacchelli: “Quero dizer-vos a diferença entre o lobo e o homem: nenhuma, exceto uma. Na velhice, o lobo entra nos bosques para esperar seu fim sozinho; o homem, quanto mais sente que a morte se aproxima, mais busca companhia, mesmo se ele se aborrece e se ela se aborrece”.

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Madame de Sévigné: “O coração não tem rugas”.

* * *

Autor desconhecido: “Meia idade é quando você para de criticar os mais velhos e começa a criticar os mais novos”.

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Marquês de Maricá: “A velhice é a idade dos desenganos, como a mocidade a das ilusões”.

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Marquês de Maricá, de novo: “A velhice é prêmio para uns e castigo para outros”.

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Marquês de Maricá, mais uma vez: “A velhice é um mal incurável que só a morte pode nos libertar”.

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Charles Saint-Beuve: “Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo”.

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Autor desconhecido: “Os anos entre os cinquenta e os setenta são os mais difíceis. Você é constantemente solicitado a fazer coisas para as quais ainda não se sente suficientemente decrépito para recusá-las”.

* * *

Stendhal: “A velhice, essa época em que se julga a vida e em que os prazeres do orgulho se revelam em toda a sua miséria”.

* * *

Giácomo Leopardi: “A velhice é o pior dos males, pois ela priva o homem de todos os prazeres deixando-lhe o apetite”.

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 Rita Lee: “Geriatras, me aguardem! Vou botar fogo no asilo”.

* * *

Eu: “Já passei da idade de namorar mulheres da minha idade”.

* * *

Tallulah Bankhead: “Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo”.

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 Oscar Niemeyer: “Ficar velho é uma merda”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Sobre leis, justiça e quejandos

15 05 19 Mouzar Benedito Luiz GamaPor Mouzar Benedito.

“O escravo que mata o senhor,
seja em que circunstância for,
mata sempre em legítima defesa”

“Lei no Brasil é igual vacina: umas pegam, outras não.” Não sei quem foi o primeiro a falar isso, mas é um dito que se repete, com muita razão. Muitas leis “não pegam”. São aprovadas, mas nunca obedecidas.

E não são só leis. Portarias, decisões judiciais, um monte de coisas “não funcionam” na prática. Pensei nisso quando li que o Conselho Nacional de Justiça determinou uma cota para negros no cargo de Juiz. Por ela, 20% dos juízes devem ser negros.

São muito poucas as autoridades judiciais negras por aqui. O exemplo quase único de que todos se lembram é do ministro Joaquim Barbosa, do STF.

Mas houve grandes batalhadores negros a serviço de boas causas no Judiciário. O que mais impressiona é Luiz Gama (1812-1882), precursor do abolicionismo. Ele era filho de um fidalgo de origem portuguesa e de uma negra livre e libertária chamada Luíza Mahin, que participou de todas as rebeliões negras ocorridas no início do século XIX na Bahia. E também de outras lutas. Teve papel importante na Sabinada, revolta liderada pelo médico Fernando Sabino Vieira, que pretendia criar a “Rebública Bahiense”, em 1838.

Caçada pela polícia, assim como outros líderes da revolta, teve que fugir de Salvador, deixando com o pai o filho Luiz, de apenas 8 anos de idade. Dois anos depois, o pai se revelou um crápula e vendeu o filho para um traficante de escravos de São Paulo, para pagar uma dívida de jogo.

Luiz Gama foi escravo até os 18 anos, quando conseguiu escapar da escravidão. Não se sabe como, porque todos os papéis relacionados ao regime escravista no Brasil foram queimados no início da República, a mando do ministro da Justiça, Rui Barbosa. Luiz Gama havia aprendido a ler, trabalhou com o desembargador Furtado de Mendonça, que colocou à sua disposição toda uma vasta biblioteca jurídica. O ex-escravo leu tudo, tornou-se jornalista, poeta e rábula (advogado não formado, o que era permitido na época), militando nisso tudo pela libertação dos escravos e pela República. Conseguiu libertar mais de quinhentos escravos, fazendo aplicar leis esquecidas, que eram tratadas como se não tivessem pegado.

Ao defender um escravo maltratado que matou seu senhor, em Araraquara, disse a frase que está no alto, provocando um grande tumulto.

Pouco antes de morrer ele já não tinha muita esperança em acabar com a escravidão por vias legais. Começava a se aproximar da ideia de um outro grande batalhador negro, chamado Antônio Bento. Se Luiz Gama ficou durante muito tempo esquecido e hoje é lembrado por muita gente, Antônio Bento continua no limbo, injustamente. Antes de ser assassinado por fazendeiros, ele ficou conhecido como “O Fantasma da Abolição”.

Filho de português e de uma negra, Antônio Bento estudou direito, tornou-se promotor em Atibaia, mas abandonou o cargo para se dedicar integralmente à luta pela libertação de escravos, mas não pelas vias legais.

O movimento chamado Caifazes, liderado por Antônio Bento teve esse nome por inspiração bíblica. Antes de entregar Jesus a Pilatos, Caifás, no Evangelho segundo São João, teria dito: “Vós não sabeis, não compreendeis que convém que um homem morra pelo povo, para que o povo não pereça?”.

Mais os Caifazes não entregavam ninguém. Ao contrário, eles libertavam. Infiltravam-se nas fazendas e estimulavam os negros a fugir. Muitos tinham medo. Afinal, o escravo fugido e recapturado comia o pão que o diabo amassou. Mas muitos topavam fugir, e outros que queriam mas não tinham coragem eram sequestrados e levados pelas mesmas vias que os fugitivos. Iam para São Paulo, onde ficavam escondidos em igrejas, casas particulares ou casas de comércio de simpatizantes da causa. Depois, seguiam para Santos a pé ou de trem, apoiados por ferroviários também militantes ou simpatizantes do movimento considerado subversivo. Lá, ficavam no quilombo do Jabaquara até serem levados para algum lugar onde pudessem viver e trabalhar como homens livres.

Será que teremos gente como Luiz Gama e Antônio Bento como juízes?

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Mouzar Benedito com Silvio Luiz de Almeida, jurista e presidente do Instituto Luís Gama, na Festa de comemoração dos 20 anos da Boitempo

Bom, além dos negros nesses cargos, poderíamos querer também uma cota de pobres, não? Isso sem falar em índios e outros que têm pouco ou nenhum acesso à justiça.

Gino Meneghetti, o grande ladrão, achava que gente que nunca havia passado fome nem falta de dinheiro não poderia ter o direito de ser juiz. Em um livro chamado Memórias, Meneghetti diz: “Eu achava que a autoridade que estivesse encarregada de julgar criminosos devia conhecer a vida amarga. Não me conformava em ver que pessoas criadas com todo conforto, na infância e na mocidade, mais tarde fossem ser juízes ou pretores, julgando os outros”.

Millôr, Barão de Itararé…

Há muitos ditados e pensamentos altamente positivos sobre as leis, o funcionamento da justiça e tudo relacionado a isso. Bastaria pegar uma lista de citações de Rui Barbosa para mostrar isso.

Mas o que provoca a imaginação são os ditados e pensamentos polêmicos, e fiz uma seleção deles. Porém, antes de apresentar essa lista de ditados e citações, lembro do velho ditado segundo o qual “a justiça tarda, mas não falha”, que durante a ditadura militar Millôr Fernandes adaptou para “a justiça farda, mas não talha”.

Lembro também de um conterrâneo meu, Dorintho Morato, homem de vasta cultura e com muito humor que, quando tinha quase 80 anos de idade, brincava dizendo esperar que um dia fosse aprovada no Brasil uma lei idealizada por ele, que deu a ela o nome de “Lei Boa”. A “bondade” dessa lei era permitir que um homem se casasse com sete mulheres. Hoje, mesmo sendo uma brincadeira, ele teria que enfrentar a pergunta politicamente correta: “E mulher poderia se casar com sete homens?”.

E o Barão de Itararé, humorista que teve muitos problemas com a Justiça, quer dizer, com as leis (nem sempre lei é justiça, não é?), fez muitas brincadeiras sobre o assunto.

Preso várias vezes, ele foi um dos anistiados no fim da ditadura de Getúlio Vargas, em 1945. Nessa época, esteve por aqui o poeta chileno Pablo Neruda, e o Barão disse a ele: “Anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças e os crimes que ele mesmo cometeu”.

Outras duas frases gozadoras dele:

“A balança era antigamente o símbolo da justiça. Hoje é a desgraça da freguesia dos armazéns de secos e molhados.”

“O júri, no Brasil, consta de um número limitado de pessoas escolhidas, para decidirem quem tem o melhor advogado.”

O Barão contava que, quando jovem e ainda era conhecido pelo nome Apparício Torelly, queria ser advogado, mas acabou estudando medicina (não concluiu o curso). Segundo ele, quem o convenceu a mudar de rumo foi seu pai, que teria lhe aconselhado: “Meu filho, para que um advogado tenha boa clientela é preciso muito talento. A um médico, basta assinar receitas e atestados de óbito”.

Mesmo nos momentos mais duros em que encarava a “dona justa”, o Barão era um gozador. Uma das vezes em que foi preso por participação na apelidada “Intentona Comunista”, de 1935. Dessa vez pegou uma boa temporada em cana.

Logo depois de ser preso, o Barão foi levado a um juiz, que lhe perguntou se sabia o motivo de sua prisão. Respondeu:

– Tenho pensado muito, Excelência, e só posso atribuí-la ao cafezinho.

O juiz se surpreendeu, pediu explicação, e o Barão continuou:

– Eu estava sentado no Café Belas Artes, na avenida Rio Branco, tomando o meu oitavo cafezinho e pensando em minha mãe, que sempre me advertiu contra o excessivo consumo de café. Nesse momento, chegaram os policiais e me deram voz de prisão. Só pode ser um castigo pelo abuso do cafezinho.

Depois de meses preso no navio-prisão Pedro I na Baía de Guanabara, ele foi levado para o presídio da rua Frei Caneca, onde já havia uma grande quantidade de presos acusados de participar da “Intentona”. Entre eles, o escritor Graciliano Ramos.

Uma forma de comunicação entre os presos – que além de trocar informações faziam críticas, liam trechos de livros e cantavam – era a Rádio Libertadora, que funcionava à noite, depois que os presos voltavam aos seus cubículos. Gritavam na grade da porta e os outros ouviam de suas celas. Quando o Barão entrou, foi um zunzunzum, todo mundo pedindo que o Barão falasse na Rádio Libertadora. E ele falou, para alegria geral, segundo Graciliano conta no livro Memórias do Cárcere e vários presos lembravam muito tempo depois:

– Tudo vai bem. Não há motivo para receio. O que pode nos acontecer? Somos postos em liberdade ou continuamos presos. Se nos soltam, ótimo: é o que desejamos. Se ficamos presos, deixam-nos com processo ou sem processo. Se não nos processam, ótimo: faltam provas e aí, cedo ou tarde nos mandam embora. Se nos processam, seremos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvem, ótimo: nada melhor, esperávamos isso. Se nos condenam, nos darão uma pena leve ou pena grande. Se for leve, ótimo: descansaremos algum tempo sustentados pelo governo, depois iremos para a rua. Se for pena grande, seremos anistiados ou não. Se formos anistiados, ótimo: é como se não tivesse havido condenação. Se não nos anistiarem, cumpriremos a sentença ou morreremos. Se cumprirmos a sentença, ótimo: depois voltaremos para casa. Se morrermos, iremos para o céu ou para o inferno. Se formos para o céu, ótimo: é a suprema aspiração de cada um. Se formos para o inferno, não há porque nos alarmarmos: é uma desgraça que pode acontecer com qualquer um, preso ou em casa.

DITOS DO POVO E DE PENSADORES

Comecemos pelos ditados populares:

Feita a lei, cuidada a malícia.

* * *

Justiça não é lei, mas invenção.

* * *

Poucas leis, bom governo.

* * *

Fugir do juiz é confessar pecado.

* * *

Justiça na sua porta, não há quem queira.

* * *

Qual a lei, tal a grei.

* * *

A lei é poderosa, mas mais poderosa é a necessidade.

* * *

A fome não tem lei.

* * *

O amor não tem leis.

* * *

Quando as armas falam, as leis se calam.

* * *

Vontade de lei não conhece rei.

* * *

Vai a lei onde querem os reis.

* * *

O direito do anzol é ser torto.

* * *

Antes bom rei que boa lei.

* * *

Quatro coisas desterram a justiça: o amor, o ódio, o medo e a ignorância.

* * *

Não há lei tão justa que não possa ser injusta acerca dos casos humanos.

* * *

A Justiça tem sete mangas, e cada manga sete manhas.

* * *

Pagam os justos pelos pecadores.

* * *

Muitas vezes a dignidade proíbe o que a lei permite.

* * *

Cadeia não foi feita pra cachorro.

* * *

Provérbio dos Estados Unidos: “Falar é barato, até que se precise contratar um advogado”.

O que disseram pensadores famosos ou não

Anatole France: “A majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão”.

* * *

Bernard Shaw: “Quando um homem quer matar um tigre, chama a isso desporto; quando é o tigre que quer matá-lo, chama a isso ferocidade. A distinção entre crime e justiça não é muito grande”.

* * *

Fernando Sabino: “Para os pobres, é dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei. Para os ricos, é dura lex, sed látex. A lei é dura, mas estica”.

* * *

Ludwig Borne: “Somente os ricos elaboram as leis, somente eles distribuem os impostos, carregados na sua maior parte pelos pobres”.

* * *

Eva Perón: “A violência nas mãos do povo não é violência, é justiça”.

* * *

Thomas Eliot: “Infelizmente, há momentos em que a violência é a única maneira de assegurar a justiça social”.

* * *

Silvestre Pinheiro: “Quem não tem justiça, compra-a; quem a tem, paga-a”.

* * *

Sólon: “As leis são como as teias de aranha que apanham os pequenos insetos e são rasgadas pelos grandes”.

* * *

Rousseau: “As leis são sempre úteis aos que têm posses e nocivas aos que nada têm”.

* * *

Napoleão Bonaparte: “Todo homem luta com mais bravura por seus interesses do que por seus direitos”

* * *

Denis Direrot: “A natureza não criou amos nem escravos, eu não quero dar nem receber leis”.

* * *

Bukowski: “Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade”.

* * *

Bakunin: “Não acredito nas instituições nem nas leis, a mais perfeita constituição não conseguiria satisfazer-me. Necessitamos de algo diferente: inspiração, vida, um mundo sem leis, portanto livre”.

* * *

Henry Thoreau: “Qualquer idiota pode fazer uma regra e qualquer idiota a seguirá”.

* * *

Voltaire: “Que toda a lei seja clara, uniforme e precisa; interpretá-la é quase sempre corrompê-la”.

* * *

Sofocleto: “O bom do Juízo Final é que será sem advogados”.

* * *

Código Samurai: “Acredite na justiça, mas não a que emana dos demais e sim na tua própria”.

* * *

Nelson Mandela: “Eu fui feito, pelas leis, um criminoso. Não pelo que o que eu fiz, mas pelo que eu lutei, pelo que eu pensei, por causa da minha consciência”.

* * *

Pitágoras: “Enquanto as leis forem necessárias, os homens não estarão capacitados para a liberdade”.

* * *

Otto von Bismarck: “Os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feias as salsichas e as leis”.

* * *

Bismarck, de novo: ”Com leis ruins e funcionários bons ainda é possível governar. Mas com funcionários ruins as melhores leis não servem para nada”.

* * *

Voltaire: “Eu fui arruinado apenas duas vezes – a primeira quando perdi uma ação judicial, e a outra quando ganhei uma”.

* * *

Tommy Manville: “Ela chorou e o juiz enxugou as lágrimas dela com o meu talão de cheques”.

* * *

Eric Ambler: “Para que serve um advogado honesto quando o que você precisa é de um advogado desonesto?”.

* * *

Jean Carcagne: “Quem advoga em causa própria tem um idiota como cliente”.

* * *

Francisco de Quevedo y Villegas: “Quem julga pelo que ouve e não pelo que sabe, é orelha e não juiz”.

* * *

Robert Burton: “O que é lei hoje, não o é amanhã”.

* * *

Charles Chaplin: “Juízes: não sois máquinas! Homens é o que sois”.

* * *

Terêncio: “A justiça inflexível é frequentemente a maior das injustiças”.

* * *

Marcus Cícero: “Justiça extrema é injustiça”.

* * *

Condessa Diane: “Quem quiser ser justo, deve desconfiar do que os bons têm de mau, e do que os maus têm de bom”.

* * *

Padre Antonio Vieira: “A justiça está entre a piedade e a crueldade: o justo propende para a parte do piedoso; o justiceiro para a de cruel”.

* * *

Machado de Assis: “Em si mesma, a loucura é já uma rebelião. O juízo é a ordem, é a constituição, a justiça e as leis”.

* * *

Dante Alighieri: “As leis existem, mas quem as aplica?”.

* * *

Pietro Metastásio: “Se a justiça empregasse todo o seu rigor, em breve a terra seria um deserto. Onde se encontra quem não tenha, grave ou leve, uma culpa? Examinemos, e veremos que é raro encontrar um juiz inocente do erro que castiga”.

* * *

Epicuro: “O justo é tranquilíssimo, o injusto é sempre muito solícito”.

* * *

Epicuro, de novo: “As leis não existem para os sábios, para que não pratiquem injustiças, mas para que não as sofram”.

* * *

Sêneca: “A lei deve ser breve para que os indoutos possam compreendê-la facilmente”.

* * *

Diógenes: “Se o corpo chamasse a alma perante a justiça, ele a convenceria facilmente de má administração”.

* * *

Henry Mencken: “É relativamente fácil suportar a injustiça. O mais difícil é suportar a justiça”.

* * *

Bertolt Brecht: “Alguns juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça”.

* * *

Leon Kaseff: “Não há justiça mais desumana que a humana”.

* * *

Albert Camus: “Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo”.

* * *

Michel de Montaigne: “As leis mantêm-se em vigor não por serem justas, mas por serem leis”.

* * *

Montesquieu: “Uma lei não é justa porque é lei, mas deve ser lei porque é justa”.

* * *

Montesquieu, de novo: “Quando vou a um país, não examino se há boas leis, mas se as que lá existem são executadas, pois boas leis há por toda parte”.

* * *

Montesquieu, mais uma vez: “O pior governo é o que exerce a tirania em nome das leis e da justiça”.

* * *

Nietzsche: “Justiça: mais vale deixar-se roubar do que usar espantalhos; tal é o meu gosto. E é sempre questão de gosto, nada mais além de questão de gosto”.

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Camilo Castello Branco: “A lógica das multidões é a dos jurados”.

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Sophie Ségur: “A indulgência é frequentemente a melhor forma de justiça”.

* * *

Jules Renard: “Sono do justo! O justo não deveria conseguir dormir”.

* * *

Jules Renard, de novo: “Se temes a solidão, não tentes ser justo”.

* * *

Maquiavel: “Aos amigos os favores, aos inimigos a lei”.

* * *

Getúlio Vargas: “Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei”.

* * *

Getúlio Vargas, de novo: “Lei, ora lei…”.

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Lao-Tsé: “Quanto maior o número de leis, tanto maior o número de ladrões”.

* * *

Ambrose Bierce: “Legal: compatível com a vontade um juiz que tem poder de jurisdição”

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Carlo Rossi: “O mundo não se pode sustentar sem injustiça”.

* * *

Carlo Rossi, de novo: “A lei é igual para todos os miseráveis”.

* * *

Oliver Goldsmith: “As leis trituram os pobres, e os ricos mandam na lei”.

* * *

Tolstoi: “A verdade é que não só nos países autocráticos domo naqueles supostamente livres – como a Inglaterra, a América, a França e outros – as leis não foram feitas para atender à vontade da maioria, mas sim à vontade daqueles que detêm o poder”.

* * *

Miguel Couto: “Justiça é o que nos favorece, injustiça o que nos contraria”.

* * *

Daniel Defoe: “A justiça sempre parece violenta a quem a recebe, pois cada pessoa é, aos seus próprios olhos, inocente”,

* * *

Emílio de Meneses: “O meu conceito de justiça é o seguinte: salve-se quem puder”.

* * *

Albino Forjaz de Sampaio: “A Justiça humana é uma roda velha que ameaça ruína a cada momento. O azeite é o dinheiro. Quando deixa de se azeitar a roda, esta enferruja e racha”.

* * *

Joaquim Nabuco: “A borboleta nos acha pesados, o pavão mal vestidos, o rouxinol considera-nos roucos e a águia tem para ela que somos rastejantes”.

* * *

Goethe: “Se fosse necessário estudar todas as leis, não teríamos tempo para as transgredir”.

* * *

Mahatma Gandhi: “Quando alguém compreende que é contrário à sua dignidade de homem obedecer a leis injustas, nenhuma tirania pode escravizá-lo”.

* * *

Balzac: “A justiça, ninguém ignora, tem a pressa de um cágado manco”.

* * *

Alexandre Pushkin: “Todos dizem: ‘não há justiça na Terra’. Mas também não há justiça lá no alto”.

* * *

Vitor Caruso: “Advogados há que à força de lidarem com ações ordinárias, ficam também ordinários”.

* * *

Clóvis Bevilacqua: “A lei contém em si muito de arbítrio; é obra humana: tal qual a arte e a ciência, é imperfeita”.

* * *

Padre Antonio Vieira: “Quem entra a introduzir uma lei nova não pode tirar de repente os abusos da velha”.

* * *

Blaise Pascal: “É necessário que nasçamos culpados – ou Deus seria injusto”.

* * *

Rui Barbosa: “As leis que não protegem os nossos adversários não podem proteger-nos”.

* * *

Malba Tahan: “A lei foi feita para castigar o culpado e não para premiar o justo”.

* * *

Sócrates: “Três coisas devem ser feitas por um juiz: ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente”.

* * *

Gianpaolo Rugarli: “A lei é sombra, pudica e hipócrita, do desejo de vingança da sociedade. Se, por uma razão ou outras, as paixões se condensam, os ódios se acendem, deve-se aplacá-los, aquietá-los, acalmá-los. Desafogar o aborrecimento sem exceder. Os tribunais são os lugares decentes da vingança. Não para encaminhá-la ao lado correto, mas para impedir que ocorram movimentos perigosos”.

Eu também escrevi sobre isso:

Nestes tempos de chatices politicamente corretas, a Justiça é deficiente visual? O amor também? E nas escolas de samba tocam um tamborzão chamado deficiente auditivo?

* * *

Advogar em causa própria é proibido porque isso não daria lucro para nenhum advogado?

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O amor é cego, a Justiça é cega… talvez seja por isso que levam tanta desvantagem aqui.

* * *

Não se pode garantir que a Justiça brasileira seja cega, mas o que faz de vista grossa!…

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Sem-teto, sem-terra, sem-saúde, sem-escola que preste, sem-justiça, sem-emprego… Mas com-violência, com-fome, com-vermes, com-tudo quanto é merda… Ô vida de brasileiro!

* * *

A Lei do Ventre Livre, ao contrário do que pensam certas pessoas, não foi feita para acabar com a prisão de ventre.

* * *

Para o preso pessimista, o regime semi-aberto é meio fechado.

* * *

Criminoso rico não vai preso: foge de carro, enquanto o castigo anda a cavalo,

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Há assaltos que são feitos dentro da lei: o imposto de renda descontado nos salários, por exemplo.

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A Constituição é a mãe das leis, mas como as filhas, não vale nada.

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Cega justiça!

Sua cegueira

Parece postiça

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Cometeu pecados,

O motivo eu sei:

A necessidade não tem lei

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Gostou? Leia as outras colunas da série “Cultura Inútil”, de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo clicando aqui.

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Confira o debate “Polis, polícia: violência policial e urbanização”, com Guaracy Mingardi, Raquel Rolnik, Silvio Luiz de Almeida e Leonardo Cazes (mediação), no Seminário Internacional Cidades Rebeldes:

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura Inútil: Chavões

Mouzar benedito BokoPor Mouzar Benedito.

Boko Haram e boko-moko. Adioba!

O que tem a ver o Boko Haram com o boko-moko? Nada. Mas desde a primeira vez que li sobre a existência do grupo de fanáticos chamado Boko Haram, as notícias sobre ele me fazem lembrar de uma expressão dos anos 1960, boko-moko. Não me lembro como era a grafia certa, bocomoco, boco-moco… Mas lembro o significado: palerma, bobalhão, ultrapassado metido a moderninho, por aí. Não deixa de ter a ver com o Boko Haram, só que os nossos boko-mokos eram inofensivos. Mais tarde, passaram a usar “goiaba” ou “goiabão” com o mesmo sentido de boko-moko.

Por causa do Boko Haram e da lembrança do boko-moko comecei a me lembrar também de algumas expressões que ouvi desde criança. Muitas caíram em desuso, outras viraram chavões.

Das que caíram em desuso, na minha infância chegou à minha cidade, pelos caminhoneiros, uma expressão para gozar quem passava por alguma dificuldade: “chora na rampa, negão”. Outra dessa fase acredito que também foi levada pelos caminhoneiros era para falar de moça muito bonita: “é o tufo!”, ou mais completa ainda, “o tufo do mufurufo”. Uma menina que veio a São Paulo, quando voltou chamava o garoto que paquerava de “garoto enxuto”.

Depois, já em São Paulo, ouvia (e não gostava) pessoas imitando Roberto Carlos para falar de algo bom ou de alguém legal: “é uma brasa”, ou “é uma brasa, mora!”. Nessa fase, as mocinhas diziam que o rapaz que achavam bonito era “um pão”. Aí surgiu uma gozação: “Pra ser bom, o pão tem que ser fresco”.

No movimento estudantil, no final da década de 1960, quem não gostava de política era alienado. E quem não aceitava nem discutir ideias novas era “um refratário”. Nas assembleias, o orador “fazia uma colocação”. Nas discussões, às vezes fazia uma “análise de conjuntura” para dizer que seus argumentos eram científicos. Eu não gostava, dizia que se análise de conjuntura fosse mesmo algo científico, o resultado de análises de conjuntura não variaria de um analisador para outro.

Não tão de esquerda, mas da moda nessa época, era dizer que o fulano ou algo era “inserido no contexto”. Uma coisa muito boa era (e continua sendo para muitos) genial. Mas dizia-se também “fora de série”. Uma moça que conheci juntava as duas coisas: “é genial fora de série”. E havia também uma variável para o muxoxo: “putz!” Essa acho, era uma redução de uma expressão que o Henfil usava de forma gozadora: “putzgrila!”

Quando resolvi virar jornalista, fiquei sabendo de muitas expressões excomungadas nesse meio. Um professor da faculdade ficava indignado quando alguém escrevia “via de regra” ou “por outro lado”. Reservadamente (não se dizia isso em sala de aula) ele decretava: “Via de regra é a vagina, e por outro lado é o ânus”.

Vi na TV Globo uma lista de expressões amaldiçoadas, que segundo diziam podia resultar até em demissão, como “calor senegalesco”, progenitora em vez de mãe, nosocômio em vez de hospital e muitas outras.

Parece que fora da Globo (ou mesmo nela, em alguns casos) as recomendações contra os lugares comuns não existe. O uso de chavões tomou conta a ponto de influenciar quem assiste principalmente aos programas policiais: os assassinatos são quase sempre com requintes de crueldade, seja na boca do apresentador, do delegado, do policial ou da testemunha. Já ouvi parente de vítima de crime dizendo que ela “entrou em óbito”. Nos programas policiais de TV ninguém morre, entra em óbito. E o criminoso é sempre “frio e calculista”, enquanto a vítima deixou “familiares inconsoláveis”.

Por falar nisso, nesses programas, sempre noticiam um “pavoroso incêndio” em que os bombeiros não tentam apagar o fogo, mas “debelar as chamas”. E quem morre seja por fogo ou outro acidente qualquer, é “vítima fatal”.

Que atire a primeira pedra…

Antes de prosseguir com a lista de expressões que viraram chavões e são na maioria detestáveis, pergunto: quem nunca usou um?

Por exemplo: quem nunca falou que o fulano “dispensa apresentações”? Outros chavões comuns: fechou o evento com chave de ouro, teve uma atuação impecável, cometeu um erro gritante, teve uma calorosa recepção, algo ou alguém teve uma importância vital num acontecimento, o Beltrano é a bola da vez, tal coisa caiu como uma luva, o Cicrano entrou em rota de colisão com o Fulano, outro fugiu da raia, e tudo voltou à estaca zero, e depois de marcar um gol, a seleção só administrou o resultado.

Um fato ou pessoa foi um divisor de águas, o Zé e o Mané trocaram farpas, o moço fez das tripas coração para realizar um desejo da namorada. Outro começou com o pé direito no novo trabalho e no fim do dia respirou aliviado.

E a história de que a presença de alguém “veio preencher uma lacuna”… rê-rê… O Pasquim falou de um canalha qualquer: “A ausência dele veio preencher uma lacuna”. Acho que foi no Pasquim também que alguém escreveu sobre a famosa “luz no fim do túnel”: era um trem que vinha vindo. E a história de agradar gregos e troianos? O Barão de Itararé inovou, quando um deputado goiano ficou irado por causa de alguma coisa feita pelo presidente da República. Segundo o Barão, o presidente “desagradou gregos e goianos”. Hoje, muita gente repete isso, que virou chavão também. Alguns mudam para “gregos e baianos”.

Há expressões que me irritam. Houve um tempo em que namorar universitárias ou intelectuais ficou difícil, porque queriam “discutir a relação”. Mais tarde, mocinhas e rapazinhos falavam em levar um “papo cabeça”.

Umas expressões que tiveram origem na PUC de São Paulo foram “popularizadas”, acredito, por Zélia Cardoso de Mello, que as usava muito, quando foi ministra da Economia. Eram “a nível de…” e “como um todo”. Alguns corrigiam: era “em nível de”, o que não diminui a chatice. Uma menina que conheci colocava um “a nível de…” em tudo. Eram coisas tipo (olha aí outro chavão) “a nível de sabor, este aqui é melhor, mas a nível de preço é aquele ali”. Ou “A nível de beleza…”, “a nível de horário…” Alguém falou para ela: “A nível de nível, você precisa melhorar o nível”.

E o “como um todo”? Expressão dispensável está aí. Se quero falar de parte do Brasil, por exemplo, digo “tal parte do Brasil”; se é sobre o Brasil inteiro, falo simplesmente “o Brasil”. Mas ouvia: “A economia, como um todo…”, “a empresa, como um todo…” e por aí vai. Para um eu disse: “A única situação em que uso essa expressão é quando vou almoçar e alguém me propõe dividir um comercial. Aí respondo que não quero dividir: eu como um todo”.

Articulistas “criativos”

Uma época, cheguei a publicar no Pasquim uma lista de expressões que articulistas de jornais e revistas usavam direto, repetindo uns aos outros e achando que estavam sendo criativos. Às vezes falavam também na TV, fazendo a maior pose. Lembro-me só de alguns chavões que critiquei.

Muitos começavam seus artigos dizendo que “o uso do cachimbo deixa a boca torta”. Nunca vi alguém com a boca torta por fumar cachimbo. “Querem tapar o sol com a peneira” era outra expressão besta e corriqueira. Tal coisa era uma “cortina de fumaça”. Alguns pretensos intelectuais citavam o general De Gaulle para falar do Brasil, com desprezo: “Este não é um país sério”. De Gaulle nunca disse essa frase, mas era citado como se tivesse dito, e os mais metidos a cultos colocavam a frase em francês, para piorar.

Uns achavam que era usando a expressão “dos tempos de antanho” estavam sendo engraçados. E muitos, depois de fazer um monte de considerações e previsões, terminavam o artigo com o quase sempre presente “quem viver verá”.

Colunistas sociais e outros

Num tempo em que viajava bastante, comprava jornais do interior e me divertia com um tipo presente em praticamente todos eles: um misto de cronista e colunista social que noticiava festas de aniversário e bailes de debutantes. Invariavelmente, escreviam sobre alguma menina da elite local: “Fulaninha de Tal colhe a décima quarta rosa no jardim de sua existência”. Sem contar que muitas vezes dizia que ela estava na “primavera da vida”.

Mas até jornalistas famosos acabam descambando para certos chavões. No esporte é direto. Radialistas, então, na maioria parecem especialistas em lugares comuns. Antes eram mais ainda. Muitas vezes, davam seus palpites nos jogos de futebol, erravam e se justificavam: “O futebol é uma caixinha de surpresas”.

Acho que esse chavão deveria ser adaptado pelos colunistas de economia. Há muito tempo vejo que erram muito, e depois se calam fingindo que não é com eles. Lembro-me quando louvavam a abertura econômica do México, e o país desandou em seguida. Ninguém reconhecia que errou. “Meteram a viola no saco”, eu poderia dizer, usando outro chavão. Se se adaptassem aos colunistas esportivos, poderiam dizer que “a economia é uma caixinha de surpresas”.

Uma das coisas que me irritava nesses jornalistas de economia era a insistência de que o Brasil tinha que “fazer a lição de casa”, chavão que na maioria das vezes significava fazer o que o FMI mandava. Criticavam o Brasil por não se submeter 100% ao FMI.

Acho que eles precederam o tucanês em muitas coisas: falavam em “crescimento negativo”, por exemplo.

Voltemos aos chavões. Falavam que tal empresa a ser privatizada era “a joia da coroa”. Ah, essa joia da coroa foi entregue “de mão beijada” para um grupo capitalista. Quando julgava que a população o apoiava, governantes cobravam que a oposição tinha que ouvir “a voz rouca das ruas”, como dizia FHC. Por falar em governo, e as “obras faraônicas”? E o “elefante branco” que recebeu? Mas agora vai ter que “correr atrás do prejuízo”. Epa… No meio deste parágrafo, citei FHC, mas não é só ele. Não me coloquem no meio dessa briga de chavões, “petralhas x coxinhas”! Esclareço, porém, que já fui pra Cuba e numa viagem a Nova Orleans passei por Miami… Preferi Cuba, muito mais. Tanto que voltei lá anos depois, em plena crise provocada pelo fim do apoio russo.

E os noticiários televisivos falando de reunião de políticos ou empresários? Falam do “cardápio da reunião”. Em almoços ou jantares desse pessoal, os repórteres televisivos dizem que o “prato principal” foi a crise, os investimentos, a carga tributária ou outro assunto qualquer. Um chavão que usavam muito há alguns anos, e que me feria os ouvidos, parecia ter saído de circulação, mas reapareceu recentemente, não na TV, mas nos jornais impressos, com um ministro do STF falando que tinha que esse Tribunal tinha que “calçar as sandálias da humildade”. Que horror!

De novo na televisão, mas não só nela, nas entrevistas, antigamente quem ia fazer uma pergunta incômoda ao entrevistado começava com um preâmbulo como quem não quer perguntar aquilo, mas tem que fazer, dizendo que tinha que fazer o papel de “advogado do diabo”. Mas depois de um filme sobre o assassinato de John Kennedy, passaram a usar como preâmbulo o título desse filme: “A pergunta que não quer calar”.

Lugares comuns divertidos

O “orra meu!” típico do bairro da Mooca, em São Paulo, que depois se expandiu para a cidade toda, foi usado primorosamente por Rita Lee num rock com esse nome. Divertido.

Tem um que não é divertido, mas me divirto ouvindo certos políticos falarem assim: “Decisão judicial não se discute, cumpre-se”. É um jeito de “tirar o corpo fora”, não é? E as decisões judiciais nem sempre “estão com essa bola toda”.

Outro que não uso, ouvi muito no interior: “chique no úrtimo”.

Agora, um típico do interior que eu sempre gostei e que é pouco utilizado hoje em dia é para quando alguém fala uns impropérios que deixam outra pessoa a fim de lhe dar umas porradas. Um sujeito da “turma do deixa-disso” diz ao ofendido: “Não liga, não. Ele é meio sistemático”. O ofendido torna-se compreensivo, talvez exprima “ah, bom”, e “deixa barato”.

Sistemático, no caso é o sujeito muito metódico, meio maluco ou maluco de tudo, intransigente.

Bem… Como no início falei de expressões que ouvi na minha terra, quando criança, então vou terminar falando de outras que podem ser consideradas chavões, mas exclusivamente locais, e da época. Nem lá falam mais.

Em Nova Resende tinha muitos “doidos” e o pessoal gostava deles. Às vezes nem eram tão doidos, apenas pessoas excêntricas, mas divertidas. O que eles falavam ou faziam virava moda. Um desses excêntricos era o Pedrinho Pedreiro, muito anterior à música Pedro Pedreiro, de Chico Buarque. Ele cumprimentava homens, mulheres, idosos, jovens, crianças, todo mundo com a expressão “oi, bem”. E essa forma de cumprimento pegou na cidade, quase todas as pessoas passaram a se cumprimentar assim. Era divertido ver um homem com cara de carrancudo falando para outro esse “oi, bem”. E o outro respondendo “oi, bem”.

Um que era considerado doido mesmo era o Badi. Tinha esse apelido porque só falava uma palavra que soava assim: “Badi… badi… badi…”. Mas um dia, o Peixoto, um gozador, disse que estudou bastante a fala do Badi e concluiu que na verdade as pessoas não ouviam direito o que ele dizia. Não tinha esse “B” antes de Badi. E tinha um final, “oba”, que era falado baixinho. Então, o que o Badi falava direto era a palavra “adioba”. Por isso, segundo o Peixoto, adioba tinha um significado universal. Tudo era adioba. E passou a usar a palavra adioba para exprimir admiração ou dúvida, e também a cumprimentar as pessoas falando apenas “adioba”, seja quem fosse, a qualquer hora do dia ou da noite. Pouco tempo depois, o cumprimento entre quase todas as pessoas da cidade era simplesmente um dizendo “adioba” e o outro respondendo “adioba”.

Adioba pra vocês.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Sobre Deus, religião, fé e outras coisas que se dizem afins

15 05 13 Mouzar Benedito Cultura Inútil Deus Religiões e afinsPor Mouzar Benedito.

Jesuis aprometeu que havéra de sarvá
A todos fiéis que o pé da cruiz bejá.
Bejemo, rebejemo, tornemo a rebejá,
Que é pra Jesuis querê nos sarvá.
(Música cantada por beatas na periferia paulistana no final dos anos 1960)

A igreja do Senhor qual será pararapapá.
A igreja do Senhor qual será pararapapá.
Será a que cura os enfermo
E que espanta o capetá.
(Música cantada por um pregador evangélico e seus seguidores no Largo da Concórdia, no final dos anos 1960)

Antes de entrar nuns ditados populares e frases de famosos (ou nem tanto) sobre o assunto, umas considerações. A palavra fé vem do latim, fides, e do grego, pistia. É a confiança absoluta em algo. É uma opinião firme de que algo é verdade, sem qualquer prova.

Para muita gente, todos têm que ter uma “fé”, no caso confundida com religião. Quem não tem é mau.

Segundo dizem, Deus é bom (ou justo?)… Todas as religiões pregam o bem… Será?

Mata-se muito em nome de Deus e das religiões. E isso não é de hoje: basta lembrar alguns episódios históricos. Por exemplo:

1. Sócrates foi condenado à morte em Atenas, e um motivo que pesou muito para essa condenação foi que ele cultuava deuses que não eram atenienses.

2. Leiam o Velho Testamento da Bíblia, na parte que trata das pragas contra o povo egípcio: o faraó queria deixar o povo hebreu se mandar do Egito, para se livrar de pragas mandadas pelo Deus desse povo. Mas, para mostrar poder, Deus “endurecia o coração do faraó” para que ele não permitisse a saída dos hebreus, e depois castigava o povo todo, de forma cruel, inclusive matando os filhos primogênitos de cada família.

3. Roma perseguia e matava os cristãos, colocavam nos circos para serem comidos por leões, sob o aplauso daqueles que professavam a religião dominante naquele império. Também decapitava, queimava, martirizava… Estudem um pouco a vida dos santos católicos e verão. Depois a coisa se inverteu: Roma se tornou cristã e passou a perseguir os não cristãos.

4. A “Santa” Inquisição matava na fogueira quem ela julgava que não era católico e/ou cometia heresias contra o cristianismo.

5. A colonização da América tinha como base de apoio a conversão dos povos dominados à fé cristã, e para isso era permitido matar, estuprar, roubar, fazer o que fosse preciso. E isso valeu para a colonização de outras partes do mundo.

A crueldade dos colonizadores espanhóis era tanta que vale sempre lembrar a história do cacique Hatuey, nascido no Haiti, que foi a Cuba de canoa, no início do século XVI, prevenir os povos indígenas de lá sobre a maldade dos espanhóis. Ele foi pego lá e condenado à morte na fogueira. Um padre disse que se ele se convertesse ao cristianismo iria para o céu. Hatuey perguntou ao padre se espanhóis também iam para o céu, e ele disse que sim. Então o cacique disse algo mais ou menos assim: “Então quero ir para o inferno. Não quero ir para um lugar com gente tão ruim”.

6. Os colonizadores (inclusive os portugueses aqui) demonizavam os deuses dos colonizados, diziam que eram demônios. Impuseram o cristianismo na marra. Hoje em dia ainda há “cristãos” com a mesma mentalidade. Certas seitas evangélicas consideram demônios, por exemplo, todos os deuses das religiões africanas e indígenas.

7. As guerras do Oriente Médio atualmente têm justificativas religiosas, embora por trás esteja também a riqueza do petróleo. De qualquer forma, a intolerância é uma marca das religiões dali, a fé alheia é considerada sempre maligna. Estão aí os exemplos exacerbados do Estado Islâmico e do Boko Haram. Mas mesmo dentro da mesma religião mata-se gente por discordâncias internas, com atos terroristas horrorosos.

Li em algum lugar que as religiões monoteístas são as piores, têm deuses mais, digamos, “vaidosos” e impiedosos, que não aceitam a existência de outros deuses, seus seguidores têm que ser exclusivamente deles. As politeístas pelo menos têm deuses que não são exclusivos. Achei interessante.

Eu mesmo andei escrevendo algumas abobrinhas sobre religião, fé etc. Aí vão elas:

Sou materialista desde a outra encarnação.

* * *

Quando alguém abre a alma, o que encontra dentro dela?

* * *

De que religião são as pessoas de boa-fé?

* * *

Há pessoas que passam a vida cantando “Hosanas ao Senhor”, para poder ir para o céu, onde passarão a eternidade cantando “Hosanas ao Senhor”.

* * *

É fundamental
A quem não tem fundamento
Ser fundamentalista

* * *

Deus é fiel!
Mas tem uns arautos…
Deus do céu!

* * *

Para os fundamentalistas, a vida não é fundamental.

* * *

Nas forças do inferno
O capitão
É um capetão

* * *

Cometeu pecados,
O motivo eu sei:
A necessidade não tem lei

* * *

Que caráter bélico
Tem o pastor
Que se diz evangélico

* * *

Deus é amor.
O diabo
É o atravessador.

* * *

Mulher que “dá” aos pobres empresta o quê a Deus?

* * *

Quem sobe no Dedo de Deus vê os anéis de Saturno?

* * *

Deus é contraditório nos ditados populares: não dá asas a cobra, mas dá nozes a quem não tem dentes.

* * *

No uso da mitologia romana com produtos de limpeza, a arte ganhou mais status que a ciência: o deus das artes, Phebo, virou um sabonete perfumado enquanto o das ciências, Minerva, virou sabão em pó.

* * *

Se a voz do povo é a voz de Deus, Deus anda muito reclamão.

* * *

Contradição de protestante é aceitar sem protestar tudo que o pastor lhe diz.

* * *

A fé remove montanhas. Mas para fazer isso, precisa contar com a ajuda de grandes máquinas de terraplenagem e, às vezes, até dinamite.

DITADOS POPULARES:

Muitos ditados relacionados a Deus são “edificantes”, conformistas. Há o clássico “Deus dá o frio conforme o cobertor”, usado na bela música Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa. Dizem que “o homem põe e Deus dispõe”, ou “se Deus é por nós, quem será contra nós?”, ou “o futuro a Deus pertence”. Ou ainda que “o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada”. E tem aquela: “Quem não morre, não vê Deus”.

Mas há outros não tão piegas assim. Aí vão alguns:

Deus é bom, e o diabo não é mau.

* * *

O diabo não é tão feio como o pintam.

* * *

Se o diabo morresse, poucos se importavam com Deus.

* * *

De dinheiro e santidade, a metade da metade.

* * *

O diabo é o outro.

* * *

Deus é grande, mas o mato é maior.

* * *

O homem põe, e Deus dispõe.

* * *

Oração curta depressa chega ao céu.

* * *

O diabo ajuda os seus.

* * *

O diabo reza também.

* * *

O diabo sabe muito, porque é velho.

* * *

Quem é besta pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.

* * *

Sacristão novo cospe fora da igreja; sacristão velho mija no altar.

O QUE DISSERAM ALGUNS INTELECTUAIS, ARTISTAS ETC.

Isaac Asimov: “Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé, mas não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões”.

* * *

Anatole France: “A religião prestou ao amor um grande serviço, fazendo dele um pecado”.

* * *

Simone Weil: “A religião como fonte de consolação é um obstáculo à verdadeira fé; nesse sentido, o ateísmo é uma purificação”.

* * *

Afonso Schmidt: “O catolicismo é uma revolução comunista que fracassou”.

* * *

Menotti Del Picchia: “Deus está dentro da imaginação que cria e que crê”.

* * *

Simone de Beauvoir: “Eu passava muito bem sem Deus. E, se utilizava seu nome, era para designar o vazio que tinha, a meus olhos, o clarão da plenitude”.

* * *

William Shakespeare: “O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”.

* * *

Voltaire: “A religião mal entendida é uma febre que pode terminar em delírio”

* * *

Clóvis Ernesto Correia: “Foi Deus quem fez o Céu alto para lá não ir ninguém”.

* * *

Nietzsche: “Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo”

* * *

Schopenhauer: “Não nos deixar cair em tentação é o mesmo que dizer: não nos deixar ver quem realmente somos”.

* * *

Medeiros de Albuquerque: “Os crentes chamam ‘Deus’ à causa ignorada de tudo que se conhece.

* * *

Medeiros de Albuquerque, de novo: “O ateísmo sereno, a certeza de que só conosco devemos contar, dá mais tranquilidade ao espírito do que qualquer religião”.

* * *

Rubem Alves: “Deus nos deu asas do pensamento para voar, os homens nos deram as gaiolas da religião”.

* * *

Vincent van Gogh: “Quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas”.

* * *

Marquês de Maricá: “A religião é como a pátria, sempre nos parece melhor a nossa própria”.

* * *

Bakunin: “Religião é demência coletiva”.

* * *

Karl Marx: “O primeiro requisito da felicidade dos povos é a abolição da religião”.

* * *

Sophie Arnaud: “As mulheres se dão para Deus quando o diabo já não quer mais nada com elas”.

* * *

Padre Manuel Bernardes: “Que é o inferno? Reino da morte viva”.

* * *

Aldous Huxley: “O céu que vá para o diabo”.

* * *

Aldous Huxley de novo: “E se este mundo for o inferno de outro planeta?”.

* * *

Renato Kehl: “Místico é aquele que não consegue manter-se no domínio das realidades, perdendo-se em devaneios sem fim”.

* * *

Dante Alighieri: “No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.

* * *

Gregor Samsa: “O inferno só existe onde existe religião”.

* * *

Clarice Lispector: “Quando de noite ele me chamar para a tração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural”.

* * *

Francisco de Bastos Cordeiro: “A oração contemplativa é o monólogo em êxtase. A oração imperativa, uma forma de suborno”.

* * *

Gustave Le Bon: “Se o ateísmo se propagasse, tornar-se-ia uma religião tão intolerável como as antigas”.

* * *

Eduardo Galeano: “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”.

* * *

Luís Freitas Rodrigues: “O papel da igreja no plano espiritual dever ser o de dar e não o de pedir, e muito menos o de exigir”.

* * *

Bob Marley: “Não tenho religião, eu sou o que sou. Eu sou um Rastafári… E isso não é religião, isso é vida”.

* * *

Camilo Castello Branco: “As religiões, prometendo infernos além deste mundo foram mais inventivas que Deus”.

* * *

José Saramago: “O problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama”.

* * *

Eurípides: “O dinheiro é a religião do homem de bom senso”.

* * *

Afrânio Peixoto: “A religião é um tropismo humano”.

* * *

Raquel de Queiroz: “Quanto ao ateu, a diferença que faz do deísta, é que ele próprio é o seu Deus”.

* * *

Robert M. Pirsig: “Quando uma pessoa sofre um delírio, isso se chama insanidade. Quando muitas pessoas sofrem um delírio, isso se chama religião”.

* * *

Miguel Couto: “Vinte séculos de cristianismo não fixaram o homem na humanidade”.

* * *

Joracy Camargo: “Deus é o único que perdoa os ateus”.

* * *

Joracy Camargo, de novo: “O homem crê porque tem medo de não crer”.

* * *

Ivan Lins: “A crença em Deus, até mesmo quando se trata de sacerdotes e Papas, nem sempre concorre para melhorar os homens”.

* * *

Olavo Bilac: “O medo é o pai da crença”.

* * *

Guerra Junqueiro: “A razão é um verme, mas a crença é asa”.

* * *

Jean-Paul Sartre: “Não há necessidade de grelhas, o inferno são os outros”.

* * *

Fernando Pessoa: “Haja ou não deuses, deles somos servos”.

* * *

Gorki: “A mentira é a religião dos escravos e dos senhores”.

* * *

Rui Barbosa: “Um povo cuja fé se petrificou, é um povo cuja liberdade se perdeu”.

* * *

Augusto de Lima: “A crença é pretensão de ver em plena treva”.

* * *

Jô Soares: “No Brasil, quando o feriado é religioso, até ateu comemora”.

* * *

Winston Churchill: “Se estiver passando pelo inferno, continue caminhando”.

* * *

Ieda Graci: “No coração dos maus há sempre um pouco de boa fé”.

* * *

John Lennon: “Eu acredito em Deus, mas não como uma coisa, não como um velho no céu. Creio que o que as pessoas chamam de Deus é algo que está em todos nós. Acredito que o que Jesus, Maomé, Buda e outros disseram está certo. São as traduções que foram erradas”.

* * *

Charles Darwin: “Não consigo acreditar que alguém deseje que o cristianismo seja verdadeiro: porque se for, o texto da Bíblia deixa claro que os que não acreditam nela, e isso incluiria meu pai, meu irmão e quase todos os meus melhores amigos serão eternamente punidos. E essa é uma doutrina abominável”.

* * *

Leoni Kaseff: “O fanatismo é um estado d’alma, em que a paixão do crente se converte em alucinações”.

* * *

Antero de Figueiredo: “As superstições são o vício mísero dos espíritos mesquinhos”

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Josué de Castro: “O beato fanático traduz a vitória da exaltação moral, apelando para as forças metafísicas a fim de conjurar o instinto solto e desacordado”.

* * *

Sigmund Freud: “Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa”.

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Humberto de Campos: “Se a religião pode fazer o santo, a descrença pode fazer o justo”.

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Walther Waeny: “As grandes religiões nascem, muitas vezes, de uma heresia”.

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Charles Baudelaire: “Quem docemente nosso espírito consola (…) é o Diabo que nos move e até nos manuseia”.

* * *

Stanislaw Ponte Preta: “Se o diabo entendesse de mulher, não tinha rabo nem chifre”.

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Napoleão Bonaparte: “A religião é aquilo que impede os pobres de matarem os ricos”

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Autor desconhecido: “Jesus é o caminho. Edir Macedo é o pedágio”.

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Stendhal: “Todas as religiões são fundadas sobre o temor de muitos e a esperteza de poucos”.

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Júlio Dantas: “Deus, se tivesse de ouvir os pecados de uma mulher, ouvia-os sorrindo”.

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Albert Einstein: “A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia”.

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Machado de Assis: “O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado”.

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Jonathan Swift: “Nós temos a religião suficiente para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros”.

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Roberto das Neves: “O pior pecado é nunca ter pecado”.

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Autor desconhecido: “O fanatismo é para a religião o que a hipocrisia é para a virtude”.

* * *

Christopher Marlowe: “Considero a religião um brinquedo infantil, e acho que o único pecado é a ignorância”.

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Mahtama Gahdhi: “Eu seria cristão sem dúvida, se os cristãos o fossem 24 horas por dia”.

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Guimarães Rosa: “Deus come escondido, e o Diabo sai por toda parte lambendo o prato”.

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Guimarães Rosa, de novo: “E, outra coisa, o Diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro.! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho, assim é o milagre”.

* * *

Bernardo Guimarães: “Dos grandes pecadores fazem-se os grandes santos, como da imundície e da podridão brotam por vezes as mais lindas e viciosas plantas”.

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Mário Quintana: “O milagre não é dar vida ao corpo extinto, ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo… Nem mudar água pura em vinho tinto. Milagre é acreditarem nisso tudo”.

PARA TERMINAR…
Um causo que publiquei no livro Santa Rita Velha Safada

Sá Donana ficou muito irritada no domingo de manhã, quando saía para a missa e deu de cara com o Micuim dormindo bêbado bem em frente a sua porta. Mas, como estava indo para a igreja, em vez de fazer um esporro, resolveu demonstrar seu espírito cristão, tentando recuperar o Micuim com conselhos — que era o máximo que se dispunha a dar a quem quer que fosse.

Cutucou o bêbado com o pé, até ele acordar mal-humorado.

— Seu Micuim, o senhor não tem vergonha de viver bêbado todos os dias? O senhor parece que não gosta da vida, que não acredita em nada, que não tem fé…

— Péra aí… fé eu tenho. Gosto muito de dois Santos!

Animada, pensando que afinal ele tinha salvação e que sua boa ação ficaria um pouco mais fácil, ela prosseguiu:

— É!? E quais são os dois santos que o senhor gosta?

— São Risal quando tô de fogo e São Duíche quando tô com fome.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Pensamentos profundos, e rasos também

15 04 27 Mouzar Benedito Cultura InútilPor Mouzar Benedito.

Jorge Luís Borges: “Todos os caminhos levam à morte. Perca-se”.

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Paulo Leminski: “Salve-se quem quiser. Perca-se quem puder!”.

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Tom Jobim: “Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”.

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Graciliano Ramos: “Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que me deram lucro”.

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Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.

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Eça de Queiroz: “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.

* * *

Isadora Duncan: “Você já foi selvagem aqui uma vez. Não deixe que eles lhe domem”,

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Carlito Maia: “Evite o tráfico. Plante em casa”.

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Carlito Maia, de novo: “Liberdade sexual é foda!”.

* * *

Padre Antônio Vieira: “Mais afronta a mesura de um adulador que a bofetada de um inimigo”.

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L. Menchen: “É pecado pensar mal dos outros, mas raramente é engano”.

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Santos Dumont: “É para Paris que emigra a alma dos bons americanos quando morrem”.

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Xiquote (pseudônimo de Bastos Tigre): “Somente num caso é possível a amizade de dois homens, havendo uma mulher no meio: se ela é sogra de ambos”.

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Rui Barbosa: “Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem e fazem-nos mal”.

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Karl Marx: “O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções”.

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Henny Young: “Sabe o que significa voltar para casa à noite e encontrar uma mulher que lhe dá amor, afeto e ternura? Significa que você entrou na casa errada, só isso”.

* * *

Machado de Assis: “O melhor jeito de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo nas mãos”.

* * *

Berilo Neves: “Dá-se o nome de trovoada a um barulho que chega atrasado, já passou. É como conselho dado depois que nos casamos: já não adianta…”.

* * *

Camilo Castelo Branco: “Não há amor que resista a 24 horas de filosofia”.

* * *

Luís Carlos Prestes (poucos dias antes do golpe de 1964): “Não há condições para o golpe reacionário. Se os golpistas tentarem, terão as cabeças cortadas”.

* * *

Mark Twain: “Prefiro o paraíso pelo clima, o inferno pelas companhias”.

* * *

Carlos Drummond de Andrade: “A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca”.

* * *

Barão de Itararé: “Mais valem dois galos cantando no poleiro do que um na testa”.

* * *

Érico Veríssimo: “De que serve construir arranha-céus, se não há mais almas humanas para morar neles?”.

* * *

Darcy Ribeiro: “Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para o nada”.

* * *

Johann Goethe: “Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco. À medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida”.

* * *

Getúlio Vargas: “Nos períodos de exaltação e de luta não é raro vermos a democracia matando em nome da liberdade e a fé religiosa trucidando em nome de Deus”.

* * *

Fialho de Almeida: “Um cínico disse: só os imbecis se portam bem. E eis aí uma verdade universal”.

* * *

Ellen Goldman: “Mostre-me uma mulher que quer ser magra apenas por razões de saúde e e eu lhe mostro um homem que lê Playboy apenas pelas entrevistas”.

* * *

Mário Quintana: “Tudo que acontece é natural. Inclusive o sobrenatural”.

* * *

Kurt Vonnegut: “Humanista é uma pessoa com grande interesse pelos humanos. Meu cachorro é humanista”.

* * *

Trilussa: “Quem gasta tudo o que possui economiza o choro dos herdeiros”.

* * *

Vítor Caruso: “Chamar cara-metade à própria esposa é perigoso: pode dar a ideia de que há um sócio”.

* * *

Mário de Andrade: “Popular é o ruim gostoso”.

* * *

Marilyn Monroe: “Hollywood é um lugar onde te pagam mil dólares por um beijo e cinquenta centavos por sua alma”.

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Chico Buarque (respondendo à acusação de “passadista” que lhe fez o movimento tropicalista, em 1968): “Nem toda loucura é genial, assim como nem toda lucidez é velha”.

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Millôr Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”.

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Afrânio Peixoto: “É cético o caramujo: desconfia de tudo, até da própria casa. Por isso anda com ela às costas”.

* * *

Confúcio: “Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pelo fracasso. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade”.

* * *

Viana Moog: “Tragédia sem incesto é drama”.

* * *

Ambroise Pierce: “Bem-estar é o estado da alma produzido pela observação do mal-estar do nosso vizinho”.

* * *

Dercy Gonçalves: “Nunca tive amor pelos homens. Com eles sempre fiz negócios”.

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Mae West: “Nunca cometa o mesmo erro duas vezes. A não ser que tenha sido bom”.

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Mae West, de novo: “A virtude tem suas vantagens, mas não dá bilheteria”.

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Capistrano de Abreu: “É bom que os críticos estreiem por obras próprias”.

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Harry Benjamin: “Não acrescente dias à sua vida, mas vida aos seus dias”.

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Graça Aranha: “A civilização é uma violência do homem à natureza”.

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Charles Chaplin: “Se matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis”.

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João Grosso (de Nova Resende): “Homem que não come cinco pratos de comida, pra mim não é homem”.

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Fernando Pessoa: “As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais”.

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Fernando Sabino: “Não confio em produto local. Sempre que viajo, levo meu uísque e minha mulher”.

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Einstein: “Tristes tempos os nossos, em que é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.

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Autor desconhecido: “Para evitar filhos, transe com a cunhada… Se nascerem, serão sobrinhos”.

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Paula Nei: “A democracia seria ideal se não tivesse sovaco. Tudo!, tudo!, menos tal cheiro de suor honrado”.

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Stanislaw Ponte Preta: “No Brasil, as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixam de acontecer”.

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Tim Maia: “Comecei uma dieta, cortei bebidas e comidas pesadas, e em um mês perdi trinta dias”.

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Sócrates: “O ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem surdo”.

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Luís Fernando Veríssimo: “Brasil: esse país de corruptos sem corruptores”.

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Al Capone: “Não entendo como alguns escolhem o crime, quando há tantas maneiras legais de ser desonesto”.

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Che Guevara: “Quando o extraordinário se torna cotidiano, é a revolução”.

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Victor Hugo: “Em tempo de revolução, cuidado com a primeira cabeça que rola. Ela abre o apetite do povo”.

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Glauber Rocha: “A História é feita pelo povo e escrita pelo poder”.

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Baiaco (craque do time do Bahia, que não entrou num jogo porque estava contundido): “Comigo ou sem migo, o Bahia ganha”.

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Walther Waeny: “O homem é tão egoísta que foi preciso falar-lhe de recompensa em outra vida para que ele praticasse o bem nesta”.

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Woody Allen: “Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer”.

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Marquês de Maricá: “Folgamos com os erros alheios como se eles justificassem os nossos”.

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Mouzar Benedito, quer dizer, eu mesmo: “Há uns tempos, velho começou a ser chamado de idoso, depois passou a ser da ’terceira idade’ e por fim da ‘melhor idade’. Assim capenga a humanidade.”

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Algumas considerações sobre a cachaça

cachaça mouzarPor Mouzar Benedito.

Uma história que já contei por aí começa com uma pergunta: numa guerra, como é que um soldado que pode ser gente boa e pacífica sai dando tiro em “inimigos”, matando gente que nunca viu?

A resposta, li em algum lugar, sobre a Guerra do Paraguai: antes dos combates, os oficiais davam a cada soldado uma caneca de cachaça, eles pegavam a pólvora de um cartucho, misturavam na dita cuja e bebiam. Imagine! Dariam tiro até na mãe, se ela lhe aparecesse na frente.

Mas isso não é coisa só daqui. Um militar me disse certa vez que na Batalha de Stalingrado a principal carga de abastecimento permanente dos russos era de vodka, que chegava lá regularmente, considerada mais importante do que comida e qualquer outra coisa. E do outro lado, o que não podia faltar para o exército de Hitler era conhaque.

Bom… Mas cachaça – e seus equivalentes – não é coisa usada só para maldades. No frio, ela serve para esquentar (não é à toa que a chamam de cobertor de pobre); no calor, para refrescar. Para quem quer entrar numa briga, serve para dar coragem; para os machões do coração duro, serve para soltar o choro. Ela dá eloquência aos tímidos. Um que queira se declarar a uma mulher e não tem coragem (diferente da coragem para brigar), cria essa coragem com uma dose da danada.

A cachaça tem mais de mil sinônimos no Brasil. Seria até um tanto chato tentar listar todos. Mas vou listar alguns, em tópicos intercalados com historinhas, de acordo com o “ângulo” que se usa para vê-la e designá-la. Começo por aqueles positivos, afetuosos. Aí vão alguns:

Adorada / cem-virtudes / afamada / apetitosa / carinhosa / distinta / bicho-bom / lindinha / salve-ela / purinha / danadinha / quero-mais / faz-xodó / santinha / virgem afamada / cheirosinha / vexadinha / abençoada / preciosa / sinhazinha / dengosa / imaculada / lágrima de virgem / xixi-de-anjo

Pode inventar que ele entende

Uma vez, numa pequena cidade de Minas Gerais, comentei com um amigo paulista que, além dos mais de mil sinônimos, podíamos inventar outros na hora que o vendeiro entendia só pelo tom de voz que a gente usasse. Ele não acreditou. Eu disse que ia provar. Entramos numa venda, ele, eu e dois primos meus. Bati no balcão e pedi: “Quatro bostas”. O vendeiro não vacilou: pegou quatro copos e serviu uma dose caprichada em cada um deles.

Meu amigo continuou não acreditando, disse que eu sabia que bosta era sinônimo de cachaça ali. Propus que na venda seguinte ele pedisse, inventando o nome que quisesse. Topou. Bateu no balcão e pediu: “Quatro martelos”. Sem falar nada, o vendeiro serviu quatro doses.

Muito bem, fiz primeiro uma lista com sinônimos “positivos”. Agora, lá vai uma com nomes que estão mais para encrenca ou outras coisas “negativas”:

Marvada / nó-cego / engasga gato / acaba-festa / sururu / arranja-briga / a que matou o guarda / água de briga / braba / tira-prosa / tira-teima / trombada / desmancha-samba / espanta-moleque / precipício / sopapo / arranca-bofe / tira-teima / turbulenta / valentona / mijo de cão / venenosa / corta-bainha / já-começa / cascavel / tenebrosa

Dar um gole pro santo

Caipira que é caipira mesmo não bebe sem despejar no chão umas gotas “para o santo”. Será que santo bebe? Bom, pelo menos alguns acreditam que há protetores divinos para quem está bêbado. Uns dizem que Deus protege as crianças e os bêbados. Mas com tanta criança e tanto bêbado, seria serviço demais pra um Deus só. Aí entram seus auxiliares.

Você sabe quais são os santos protetores dos cachaceiros?

Santo Onofre, que era um eremita, tem na imagem uma cuia pendurada no ventre. Oficialmente é uma cuia com água, mas para os apreciadores da “marvada” aquilo tem é pinga mesmo. Santo Onofre é considerado por muitos como o “padroeiro dos cachaceiros”, e também das prostitutas e dos jogadores de baralho. Um santo da pá virada! Mas nas piadas há outros padroeiros dos pinguços: São Sebastião, que morreu num pau só; Santa Joana D’Arc, que morreu no fogo; São João, que morreu na brasa, e São Jorge, que matava o bicho.

Um intervalo agora, para alguns sinônimos dela que certamente foram criados por homens que a comparavam à mulher amada:

Chica-boa / Maria-teimosa / mulata / moça-branca / maria-branca / sedutora / filha de senhor de engenho

Tomar uma, para alguns, é matar o bicho, expressão usada inicialmente para se referir à primeira dose, tomada de manhã, e depois passou a ser usada também para as primeiras doses tomadas a qualquer hora do dia a branquinha, amarelinha ou azulzinha (nomes que ela recebe conforme o recipiente em que é descansada). Em alguns lugares, usa-se a expressão “salgar o gato” com o mesmo significado.

Voltemos aos sinônimos da pinga. Muitos dos nomes usados para falar dela a tratam como remédio. Alguns deles:

Mata-bicho / cura-tudo / penicilina / homeopatia / canforada / depurativo / tira-frio / antibiótico / curandeira / sossega-leão

Eta água boa!

Alguns falam dela como “agüinha” (com trema mesmo, para que ninguém leia errado se escrever aguinha – que horror, o fim do trema), pensando que é uma gíria exclusivamente brasileira. Nada disso. Vodka, em russo, também é agüinha – simplificando, adaptando ao o palavreado russo ao nosso linguajar, vod é água, e ka o diminutivo. E “água” aparece em vários sinônimos de cachaça, como é o caso de água benta e água que passarinho não bebe. Mas vamos a algumas palavras que não se enquadram nas categorias anteriores, mas que acho interessantes, como sinônimos de cachaça:

Cajibrina ou canjibrina / lamparina / abrideira / zuninga / gasolina / querosene / petróleo / péla goela / não-sei-quê / suor de alambique / sumo de cana / purona / quebra-jejum / teimosa / tome-juízo / girgolina / friinha / jinjibirra / otim-fim-fim / retrós / ximbica / delas frias

E os caras que não querem que saibam o que estão bebendo? Na minha terra, um rapaz que bebia todas, sempre que queria tomar uma dizia que ia comprar fósforo, só que a nossa pronúncia caipira ali era “fósqui”. Ele entrava na venda ao lado e pedia um “fósqui”, e era servido meio escondido.

Parati, birita, caninha…

Isso faz lembrar a história de alguns nomes que lhe deram. No Rio de Janeiro, até as primeiras décadas do século XX, a cidade era abastecida com cachaça produzida em Parati, e a palavra parati virou sinônimo da distinta. Basta lembrar o samba de Assis Valente: “Em vez de tomar chá com torradas, ele tomou parati”. Hoje em dia, Parati produz muita cachaça de novo, e há alambiques que, dizem, funcionam desde o século XIX. Pode ser, mas com certeza eles pararam um tempo de produzir, ou pelo menos de produzir para vender, pois na primeira vez que fui a Parati, quando ainda não existia a rodovia Rio-Santos e o único jeito de chegar lá por terra era uma estrada precária que parecia mais uma trilha perigosa, que descia a Serra do Mar a partir de Cunha, só encontrei nos botecos de lá duas marcas de pinga: a Labareda e a Quero Essa. Isso foi lá por 1969 ou 1970. Claro que com a estrada asfaltada, veio o turismo mais forte, bares e restaurantes chiques, e os alambiques devem ter voltado à ativa, ou voltado a produzir comercialmente.

Em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, havia uma das pingas mais famosas da Bahia, a Birita, e birita virou também sinônimo de cachaça. Desse sinônimo, surgiu a variante birinaite.

Napoleão Bonaparte teve algo a ver com a produção de cachaça aqui também. Não acredita? Quando a família imperial portuguesa veio para cá, fugindo de Napoleão, a vingança de Dom João VI foi ocupar a Guiana Francesa. Mais tarde, teve que desocupar, mas trouxeram de lá uma variedade de cana muito boa para a produção de cachaça, e ela tinha o nome da capital daquela Guiana, Caiena. Aqui, o nome mudou para caiana, variedade que se tornou uma das preferidas dos alambiqueiros.

Outra variedade muito apreciada pelos produtores era a caninha, uma cana fininha e pequena, mas com alto teor de açúcar, o que dava uma ótima cachaça. Mas ela era hospedeira de uma doença que nela não fazia mal, mas passava para outras variedades e nessas era muito prejudicial. Getúlio Vargas era o ditador na época e mandou exterminar a caninha para evitar a doença nos canaviais, só sobraram algumas plantações clandestinas dela. Mas sobrou o nome caninha… Em Monte Alegre do Sul, estado de São Paulo, há muitos anos, descobri um alambique que produzia cachaça com caninha, mas ela custava bem mais caro que as demais.

Bêbado como?

“Cachaceiro é quem produz a cachaça, eu sou consumidor”, ouvi quando criança um dos maiores consumidores dela.

Há muitas expressões divertidas para falar de quem bebeu demais. Uma delas é dizer que o cara está cercando frango. Quem já pegou frango na horta sabe aquele andar cambaleante, fazendo que vai pra um lado e indo pro outro, justifica a expressão.

Outra é que o fulano está bêbado que nem gambá. Na roça, os gambás costumavam atacar os galinheiros para comer ovos, e um jeito que os roceiros usavam para pegar o bicho era colocar ao lado de um ninho de galinha um prato com pinga. Dizem que o gambá gosta muito da marvada, e bebe até cair. Então, de manhã, o sujeito vai lá e encontra o animal ainda bêbado, dormindo. Aí… pau nele! Não eram nada ecológicos esses roceiros!

Outras expressões sobre bêbados: está com a cachorra cheia; bebaço, avinhado, encarraspanado (ou, dizem, “tomou uma carraspana”), envernizado, borracho (este herdamos dos países de língua espanhola).

Para quem costuma beber rotineiramente, todos os dias, a palavra mais comum é boêmio, mas conforme o caso usa-se as expressões, pé-de-cana, bebum, funil, biriteiro, beberrão, caixa-d’água, irmão da opa, mamarrote, pinguço, borrachão, troviscado, ébrio…

Barão de Itararé e a cachaça

O glorioso Barão tem muitas histórias boas sobre bebidas. Aí vai apenas uma amostra:

Teatro sintético

1º ato
(No balcão da confeitaria)

– Vira uma pinga com limão!

2º ato
(Entra um amigo e fala)

– Você não deve beber pinga com limão. É veneno!

3º ato
(O primeiro personagem responde)

– Suspenda o limão!

(Pano de boca, depressa)

Ditos sobre cachaça e afins

Listo primeiro, uns poucos ditados populares entre os muitos que existem. Em seguida frases de alguns pensadores:

Ditados

Cachaça pode mais do que Deus: ele dá juízo, ela tira.

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Quem não bebe, cheira o copo.

* * *

Bebe só duas qualidades de bebidas: nacionais e estrangeiras.

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Deixou de beber: está comendo com farinha.

* * *

Cachaceiro não tem segredo.

* * *

Mulher, cachaça e bolacha em toda parte se acha.

* * *

In vino, veritas.

Assim falaram dela

Dorintho Morato (de Nova Resende): “Pergunte a qualquer roceiro aí sobre esses matinhos. Eles sabem que um serve pro coração, outro pro pulmão, outro pro estômago, outro pra dor de não sei do quê… Italiano não sabe nada disso, e não é porque seja mais bobo, e sim mais esperto: toma vinho, que serve pra tudo, não precisa de tomar chá de matinho”.

* * *

Tiago (morador do Jardim Nordeste, em São Paulo, quando tinha 5 anos de idade): “Lá em casa a gente só bebe pinga, mas tem que ser da ruim mesmo. Se for pinga boa, a gente põe limão pra ficar ruim”.

* * *

Monteiro Lobato: “Literatura é cachaça. Vicia. A gente começa com um cálice e acaba pau d’água na cadeia”.

* * *

Raymond Chandler: “O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo e o terceiro é rotina. Depois dele, você tira as roupas da moça”.

* * *

Sabino de Campos: “A cachaça, quando não dá certo por dentro, dá por fora”.

* * *

Ernest Hemingway: “Um homem inteligente às vezes é forçado a ficar bêbado para gastar um tempo com suas bobagens”.

* * *

Nabuco de Araújo: “O bêbado é o voluntário da loucura”.

* * *

Josué de Castro: “Todo mundo faz hinos ao vinho, mas ninguém se lembra de fazer um hino ao leite”.

* * *

Omar Khayam: “Ouço dizer que os amantes do vinho serão castigados no inferno. Se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno, o paraíso deve estar vazio”.

* * *

Groucho Marx: “Eu bebo para fazer as outras pessoas interessantes”.

* * *

Eu: “Tem baixinho que bebe só pra ficar alto”.

* * *

Eu, de novo: “Há quem pense que círculo vicioso é cu de bêbado”.

* * *

Eu, mais uma vez: “Músico clássico bêbado só toca Bach, Chopin e Brahms”.

E para terminar…

Um causo que publiquei no livro Santa Rita Velha Safada.

ROSÁRIO

Rosário, poeta analfabeto de pai e mãe, mas de memória de deixar elefante morrendo de inveja, era o cronista do povoado. Tudo o que acontecia ali, era relatado com riqueza de detalhes, em rimas cheias de insinuações.

Ficava o dia inteiro sentado à sombra de uma casa ou de uma árvores, encostado, com ar de bêbado. Poesia para ele se chamava “décima”.

— Ô, Rosário, fala uma décima pra mim.

— Então paga uma pinga.

— Pagavam, ele bebia, fazia um ar feliz e perguntava:

— Qualé o assunto que ocê qué?

Se ele tinha uma décima pronta sobre o assunto escolhido, declamava com voz pastosa; se não tinha, inventava na hora e falava — também com voz pastosa.

Um dia ele amanheceu particularmente irritado. Ficou sentado na porta de uma loja e não queria falar nada.

— Rosário, fala uma décima aí.

— Não, hoje não.

— Eu pago uma pinga.

— Não.

Para um fazendeiro que insistiu muito, ele acabou fazendo uma concessão. Rimando, começou a descreve Santa Rita Velha, com ironia, vendo o lado defeituoso de cada coisa, depois olhou para o fazendeiro e continuou:

Lá vem o caboclo da roça,
calçado de sapatão,
de relógio no pulso
e num sabe quantas horas são.

Foi daí pra pior, humilhando o fazendeiro até que ele foi-se embora. Mas, já que tinha começado a falar, continuou — rimando — a dirigir versos a todos os que passavam. Zé Passarinho, por exemplo mereceu esses versos:

Eu queria encontra
com esse tal de Zé Passarinho,
pra metê o pé nos ovos
e botá fogo no ninho.

Joaquim Bento, um negro que tinha a mão branca devido à doença chamada vitiligo, entrou alegre na loja, para fazer compras pro seu casório, esbarrou no Rosário e, em vez de pedir desculpa, resmungou alguma coisa qualquer. Rosário não deixou barato:

Fui chamado pruma festa,
casamento dum papudo.
Ele chama Joaquim Besta,
mão pelada e pé cascudo.

Ele é cambaio das perna,
é caolho e beiçudo,
tem o nariz esparramado
pro meio da cara tudo.

Ele gosta da prumaça,
lenço branco no pescoço,
cacunda de boi zebu,
barriga de sete almoço.

Levou uns tapas, antes que a turma do deixa disso segurasse o Joaquim Bento, mas mesmo assim continuou no mesmo estilo o dia todo. De tardezinha, num bar, um cigano começou a tentar fazer um desafio com ele. Falou um monte de versos provocativos e o Rosário nem ligava. Tanto encheu que o Rosário resolveu responder, falando da “nação” cigana:

Ô nação disgramada,
ô nação dissoluta,
os homens são breganhista
e as muié são tudo puta.

Não deu pra continuar. Levou mais uns tapas, antes que a turma do deixa disso interviesse novamente, segurando o cigano.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.