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Futebolices, sacizices e livros

14.04.08_Mouzar Benedito_Futebolices, Sacizices e livrosPor Mouzar Benedito.

Aproveito meu espaço aqui para fazer algo que podem classificar como oportunismo: convidar os leitores para um lançamento de livros meus. Mas antes de dar as informações sobre títulos a serem lançados, local, data e horário, lanço um desafio: identificar quem escreveu a crônica intitulada Futebol, de que pincei trechos que se seguem.

“Dá energia. Dá tática. Dá agilidade. Dá calma, sobretudo nas emergências mais escabrosas. Dá o golpe de vista pronto, seguro e firme.

Dá energia moral, porque a energia moral é quase sempre um reflexo da energia física. Dá iniciativa. Dá confiança em si próprio.

Dá responsabilidade. Os porquês de tantos ‘dás’? Dá energia muscular porque o jogo movimenta a musculatura do corpo, os músculos do pé e da perna em primeiro lugar, e os do torço e do pescoço em seguida.

(…) Dá tática porque nas multíplices fases dum ataque ou duma defesa, num dribling, inesperado, num chute falho, em qualquer das mil peripécias de luta, o espírito dos foot-ballers, pela tensão prolongada de todas as suas faculdades, acarreta o aperfeiçoamento da mais e da mais evidência, a presteza da percepção, a tática.”

Mais adiante, no mesmo artigo, ele diz:

“Um ditador que tomasse conta desta República e acabasse com as fábricas de bacharéis e normalistas, substituindo-os por severos teams de futebol, faria mais pelo Brasil que as dez gerações de Feijós, Zés Bonifácios e Cotegipes e demais estadistas que nos têm governado.”

E termina assim:

“E é dessa raça de gente que precisamos. Menos bacharéis, menos parasitas, menos coronéis, menos deputados, menos promotores, menos esfria-verrumas e mais struggle for lifes, mais ‘homens’, mais fibra, mais glóbulos de ferro no sangue que um Camilo C. Branco do futuro não venha repetir que tem nas veias um podre sangue e dentro dos ossos farinha de mandioca.”

Bem, só pode ser um fanático por futebol quem “cometeu” esse texto, não? Duas surpresas: 1) a data e local em que ele foi publicado, o jornal O Povo, de Caçapava, na edição que circulou entre 10 e 17 de julho de 1905; 2) o autor, Hélio Bruma, que – fiquem sabendo (eu só fiquei há pouco) – era um pseudônimo de Monteiro Lobato.

Em outra crônica, chamada O 22 de Marajó, Lobato fala coisas que cito a seguir:

“Esse delírio que por aí vai pelo futebol tem seus fundamentos na própria natureza humana.”

“Não é mais esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas raças inimigas. Durante o tempo de luta, de quarenta a cinquenta mil pessoas deliram em transe, estáticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola. Conforme corre o jogo, há pausas de silêncio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentíssimas de entusiasmo, que só a palavra delírio classifica. É gente pacífica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fora de si, torna-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos.”

“Admiramos hoje os grandes filósofos gregos. Platão, Sócrates, Aristóteles; seus coevos, porém, admiravam muito mais aos atletas que venciam no estádio. Milon de Crotona, campeão na arte de torcer pescoços de touros, só para nós tem menos importância que seu mestre Pitágoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria inconcebível a ideia de que o filósofo pudesse no futuro ofuscar a glória do lutador.”

Pois é, quem diria! Monteiro Lobato, até praticou futebol, que admirava muito na juventude, mas depois de algumas caneladas o abandonou. E nunca mais jogou. Já adulto passou a desprezar o futebol.

Tornou-se o pai da literatura infantil brasileira, tem muitas bibliotecas com seu nome, inclusive a mais importante biblioteca infantojuvenil de São Paulo. E é nela, na região central da capital paulista, que será comemorado de maneira especial o aniversário do escritor este ano. As comemorações sob o título Semana Monteiro Lobato começaram no sábado, dia 12 de abril, e se estendem até dia 18.

E como estamos no ano da Copa a ser realizada no Brasil (com protestos e contestações) a semana vai ser aberta com… futebol. E lançamento de livros escritos por mim e publicados pela Liz Editora, incluindo um sobre o futebol.

A programação completa está embaixo deste texto, mas quero convidar a todos para eventos com minha participação: às 16h de sábado, dia 12, um bate-bola que vou fazer com Oiram Antonini. Em seguida, será lançado o meu livro Para entender o Brasil – o país do futebol. Escrito em português e inglês (afinal, a pretensão é que gringos o leiam – e uso a palavra gringo extensiva a estrangeiros em geral) dá um rápido panorama do que é o Brasil hoje e depois capítulos com muitas informações sobre as cidades sedes da Copa, com dicas para aproveitar bem a visita a elas, incluindo clima, comida, ambiente, cultura e um pouco mais. Em algumas, comento até o sotaque. Com mais de 300 páginas e muitas fotos, o preço de lançamento será promocional: apenas R$ 30.

E será lançada também uma coleção de livros infantis com textos meus e belas ilustrações do Ohi. Chama-se Turminha Brava. São oito livros: Ninguém engana o Saci?; O caiporismo do Tenório; Um boi chamado Tatá?; Bete e o Boto; O dia em que Joaquim correu atrás do Curupira mata adentro; Quem será o Lobisomem?; Um mergulho atrás da Iara; e A menina que montou na Mula sem Cabeça. O preço desta coleção também será promocional: R$ 15 cada volume, e a coleção completa sairá por R$ 100.

O lançamento será no saguão da Biblioteca Monteiro Lobato, na rua General Jardim, 485 – Vila Buarque (fica no meio da praça).

No mesmo momento será aberta uma exposição do processo criativo do Ohi.

Compareçam.

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A seguir, a programação completa da Semana Monteiro Lobato.

Sábado, 12 de abril
Abertura: Das 10h às 15h

1º Torneio Monteiro Lobato de Futsal Feminino e Masculino Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato e Base Comunitária da Praça Rotary / Coordenação: Renato Cesar /Local: Praça da Biblioteca (Pça Rotary) / às 16h

Sacizisses e futebolices
Bate-Bola com o jornalista e escritor Mouzar Benedito / Mediação: Oiram AntoniniLançamento dos livros Para entender o Brasil, país do futebol e a Coleção Turminha Brava de Mouzar BeneditoExposição do processo criativo de Ohi, o ilustrador dessa Coleção.

Dia 14 de Abril (segunda)

10h30 – Homenagem a Hilda Vilela Junqueira Merz
Palestra: Como era a Biblioteca nos tempos de Lobato e outros relatos sobre a Memória da Biblioteca.- com Dr. Victor Nussenzweig – diretor, na adolescência, do Jornal “A Voz da Infância”
14h – Histórias do Sítio – pela contadora de histórias Edna Cardoso, da Ed. Globo
15h – exibição do filme “Fantasia

Dia 15 de Abril (terça)

10h – Lançamento da Bibliografia Brasileira Infantil e Juvenil online
Apresentação dos Acervos Especiais da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, por Azilde Andreotti
Fala do Prof. André Moura sobre sua experiência como resenhador
Apresentação do Grupo Teatral “Pé de Zamba, em parceria com a Ed. FTD
15h – Fantasia e Realidade em Monteiro Lobato – Emília e Visconde: duas faces do autor – por André Moura

Dia 16 de Abril (quarta)

10h – Histórias do Sítio – contação de histórias para crianças
15h – exibição do filme “Alice no País das Maravilhas

Dia 18 de Abril – Sexta-Feira Santa

Publicação do texto Jesus Cristo segundo Monteiro Lobato – extraído do livro História do Mundo Para Crianças – no blog da Biblioteca

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Não dá pra esquecer

14.03.25_Mouzar Benedito_golpePor Mouzar Benedito.

Meninos, eu vi! Não foi algo bom de se ver. Aconteceu há 50 anos. Quer dizer, o início foi há 50 anos, o fim (se é que podemos considerar que houve) foi há 29 anos. A coisa durou 31 anos!

Se for fazer uma análise do golpe de 1964, sei que não vou acrescentar nada. Seria uma opinião como muitas outras (e diferente de muitas outras também, mas sem novidades). Então, vou me limitar a relembrar aqueles dias. Eu tinha 17 anos, estudava contabilidade num colégio particular e morava numa pensão.

Vamos ao que interessa (imagino): a visão desse moleque ingênuo e mal informado sobre o que viu no dia do golpe e depois um pouco do que viria a ser a política econômica e social dos que tomaram o poder. Extraí esses textos (mudando um pouquinho) do livro 1968, por aí… Memórias burlescas da ditadura, que publiquei pela Publisher Brasil (editora da revista Fórum, em 2008). Pouca gente leu, então acho que vale.

UM PREÂMBULO

Não que imagine que os leitores precisem de informações tão básicas, mas alguns, quem sabe… No dia 13 de março, Jango fez um comício na Central do Brasil, no Rio, com a presença de cerca de 300 mil pessoas que apoiavam as reformas de base: além da reforma agrária, haveria a reforma urbana (inquilinos poderiam comprar apartamentos em que moravam, e a avaliação do imóvel seria feita pelo governo), educacional (entre outras coisas, as escolas privadas sofreriam limitações), bancária, fiscal e eleitoral (extensão do voto a analfabetos e revisão das bancadas na Câmara Federal, alterando o peso dos estados no Congresso). Outra coisa anunciada no comício foi a proibição da remessa de lucros para o exterior: as multinacionais teriam que aplicar no Brasil os lucros que tinham aqui. E mais: as refinarias de petróleo privadas seriam estatizadas.

Imaginem a reação. A imprensa, a “classe política” dominada pela direita, a igreja conservadora, os fazendeiros, as multinacionais, o governo dos Estados Unidos, os especuladores imobiliários, os comerciantes do ensino… Gente poderosa!

Dia 19 de março veio a primeira resposta a Jango: realizou-se em São Paulo a “Marcha da Família com Deus, pela Liberdade”, organizada pelo deputado direitista Cunha Bueno e pelo padre estadunidense Patrick Peyton, com apoio do governado Adhemar de Barros, da deputada Conceição da Costa Neves (uma mulher muito mal-falada pela imprensa antes disso), de gente como o líder integralista Plínio Salgado (um dos que discursaram), setores da Igreja, a Fiesp e patrões em geral. Eu não tinha nenhuma consciência política, mas estranhei que o diretor do supermercado em que eu trabalhava saiu de seção em seção autorizando os empregados a faltarem para ir à Marcha. Mas tinham que comprovar que foram, ir em bando, com os chefes. Felizmente, mesmo sem saber direito o que era, não fui.

Cerca de 500 mil pessoas participaram da Marcha, no centro da cidade, segundo a imprensa. Um lembrete: depois, as mulheres que participaram desse espetáculo passaram a ser chamadas de marchadeiras. Muitas se arrependeram, quando começaram a perder empregos e ver parentes perseguidos. Zé Ketti chegou a fazer um samba gozando, que tinha o refrão “Marchou com Deus pela democracia / agora chia, agora chia”, mas ele nunca veio a público, pois foi censurado.

O DIA DO GOLPE, NO SUPERMERCADO

14.03.25_Mouzar Benedito_golpe_sirva-se

Cultura inútil: sabe qual foi o primeiro supermercado da América Latina? Muita gente se engana, principalmente os mais velhos do tempo do Peg-Pag, pensam que foi esta rede, cujo nome virou sinônimo de supermercado na década de 1960.

A resposta para esta pergunta é: o Sirva-se. Em 1954, me parece, criado pelo empresário Mário Simonsen, que era dono da Panair do Brasil (empresa de aviação de ótima qualidade, com muitos voos para o exterior) e depois da TV Excelsior de São Paulo (na época, a de maior audiência). A primeira loja do Sirva-se existe até hoje, só que com o nome de Pão de Açúcar. Fica na rua da Consolação, pertinho da avenida Paulista, em São Paulo. A segunda loja, aberta uns anos depois, também existe com o nome Pão de Açúcar, fica na alameda Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim Paulistano, também em São Paulo. Foi durante muito tempo a maior loja de supermercado em todo o Brasil, e considerada um modelo.

Mário Simonsen ficou contra o golpe militar e sofreu uma baita pressão econômica e fiscal, com isso fechou a Panair, perdeu a concessão da TV Excelsior, que depois virou TV Manchete e hoje é a Rede TV!. As duas lojas do Sirva-se e mais uma em construção foram vendidas ao Pão de Açúcar, em 1965.

No dia 31 de março de 1964 eu trabalhava na loja do Jardim Paulistano, e me diverti. Eu era menor de idade, ganhava menos que o salário mínimo e mal conseguia pagar a pensão e o colégio (isso mesmo: colégio pago), mesmo fazendo um montão de horas extras, então não lia jornais, só via as manchetes nas bancas. Não tinha dinheiro. Por isso, estava mal informado e não tinha uma noção certa do que acontecia. Ouvi no rádio o governador de Minas, Magalhães Pinto, esbravejando contra João Goulart, e me parecia mais uma briga entre os governadores de Minas, inicialmente, e depois os do Rio e de São Paulo, contra o governo federal. Só fiquei sabendo que era algo diferente disso depois de conversar com alguns trabalhadores já com alguma consciência política.

Mas a minha diversão, no dia do golpe, era ver o desespero dos ricos frequentadores do supermercado. Com medo de uma revolução de verdade, com batalhas nas ruas e o comércio fechado, todos queriam estocar o máximo possível de comida e outros produtos. Correram em massa para o supermercado. Não cabia todo mundo, deixaram entrar um monte de gente e fecharam as portas, e formou-se uma fila enorme do lado de fora, controlada por seguranças. Quando saía um freguês, deixavam entrar outro. E assim foi o dia inteiro, até acabar tudo que havia nos estoques.

O pessoal passava pegando tudo que havia nas prateleiras, de grãos a latarias, papel higiênico, velas, fósforos… tudo mesmo. Os repositores vinham do depósito com carrinhos cheios de mercadorias que não chegavam nem a pôr nas prateleiras, os fregueses se apossavam dos produtos logo que eles entravam na loja.

Outro lado da minha diversão: o diretor, homem autoritário, sério, mudou de papel nesse dia: virou empacotador. Os meninos empacotadores estavam sobrecarregados e o jeito foi reforçar o serviço com gente do escritório, inclusive o diretor. Detalhe: as pessoas davam gorjeta ao empacotador, inclusive a ele, que aceitava tudo. Era pão-duro.

No dia seguinte, 1o de abril, não havia nada para vender no supermercado, e nada no estoque para repor. Aí veio a notícia de que o golpe estava consumado: João Goulart preferiu fugir para o Uruguai a encarar os golpistas. E fez-se de novo uma fila na porta do supermercado, mas desta vez querendo devolver mercadorias compradas em excesso, o que não foi aceito.

BOB FIELDS

14.03.25_Mouzar Benedito_golpe_bob fields

Agora, vou lembrar de um personagem que não remete a nada que possa ter algo a ver com o humor que encarei as coisas antes: o ministro do Planejamento no governo Castello Branco era Roberto Campos, mais conhecido como Bob Fields, porque era um gringófilo total. Era ele quem mandava na economia.

Logo iniciou um processo de concentração de capitais, de perseguição às pequenas empresas, forçando a se “associarem” a outras maiores, de preferência estrangeiras. Na prática o que se propunha era que elas fossem vendidas às empresas de grande capital. Empresas que tentavam resistir sofriam um assédio fiscal terrível. E assim foram sumindo as pequenas empresas que davam empregos. Até as cachaças boas se acabaram porque, segundo Bob Fields, pequeno alambique não pagava impostos. Então, fechou um monte, deixando só grandes empresas que produziam cachaça em larga escala, com um processo industrial em que era impossível produzir coisa que preste.

Mas o pior mesmo foi o desemprego que ele causou, já que as empresas que compravam as menores demitiam quase todo mundo e não substituíam os demitidos, apenas incorporavam seus serviços aos de outros trabalhadores não demitidos. Toda fusão de empresas gera demissão.

Até começar isso, ninguém que quisesse trabalhar ficava desempregado em São Paulo. Os jornais tinham cadernos enormes de oferta de empregos. Eu mesmo cheguei em São Paulo numa noite de segunda-feira, passei na terça para conhecer um pouco do bairro em que moraria (Pinheiros) e do centro, procurei emprego na quarta e comecei a trabalhar na quinta. E isso não significava que eu tinha sorte ou era qualificado. Tinha patrão que pedia aos empregados que trouxessem conterrâneos para trabalhar em suas empresas, porque não conseguia arrumar os empregados que precisava.

Era um tempo em que, nas blitze em algum lugar de São Paulo, a polícia cercava o local e ia pedindo a carteira profissional de quem estava ali. Quem fosse maior de idade e não tivesse emprego registrado, ia em cana por vadiagem. Eu não era registrado, mas era “de menor” e tinha carteira de estudante, o que me livrava disso. Mas imagine uma coisa dessas hoje! Mais da metade da população em cana!

Pois é, e chega Bob Fields e sua política pró-grandes capitalistas gringos. Logo foi se tornando difícil arrumar emprego e pouco depois já havia bandos de desempregados na cidade.

Naqueles tempos as pessoas tinham uma formação moral muito rígida e não passava pela cabeça de quase nenhum dos desempregados sair assaltando ou traficando drogas. Quando acabava o dinheiro, iam vendendo seus bens. Em 1966, eu estava trabalhando no centro da cidade e via muita gente tentando vender alianças de casamento, a última coisa de que se desfaziam. Pouco depois, deixei de passar pelo Viaduto do Chá, porque quase todos os dias tinha desempregado pulando dele, se suicidando por desespero e desesperança.

E tem muita gente que louva Roberto Campos…

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No headline

O QUE RESTA DO GOLPE DE 1964

Confira o especial de 50 anos do golpe no Blog da Boitempo, com artigos, eventos e lançamentos refletindo sobre os legados da ditadura para o Brasil contemporâneo, aqui.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Divagações sobre cachorros e sobre o assassinato de Trotski

14.03.06_Mouzar Benedito_PaduraPor Mouzar Benedito.

Gosto de animais em geral, mas numa época tive uma birra com pessoas que têm um apego exagerado aos cachorros. E esse sentimento me veio à memória enquanto lia O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura, uma história de ficção apoiada em fatos e nomes reais.

Não é novidade para mim, e acredito que para nenhum leitor do blog da Boitempo, que Ramón Mercader, um catalão a serviço de Stalin, assassinou Leon Trotski no México. Uma picareta de alpinista foi o instrumento do assassinato. Direto na cabeça de Trotski, que não morreu na hora, chegou a lutar com o agressor.

Mercader amava os cachorros. Trotski também amava os cachorros. Então, amar os cachorros não é característica exclusiva de stalinistas nem de trotskistas.

Assim como o autor usou essa coisa de amar cachorros para dar o nome ao livro, eu acho que posso, antes de falar do livro propriamente, fazer um intervalo para lembranças sobre coisas que me levaram a ter birra não contra os cachorros, mas contra alguns de seus donos, durante um bom período.

NOVA RESENDE, PARIS, RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO

Quando criança, uns amigos e eu éramos como donos de um cachorro de rua a que demos o nome de Danúbio. Tínhamos um assobio para chamá-lo onde estivéssemos, e qualquer um de nós que assobiasse de uma forma especial que treinamos atraía o animal simpático e brincalhão.

Então, não tenho traumas de infância sobre isso, embora não gostasse de um cara que tinha um pastor alemão, de nome Rex, que atacava as pessoas e vivia solto nas ruas.

Depois disso, a primeira vez que peguei uma certa antipatia por donos de cachorros tem a ver com gente e lugar que não conheci. Muitos amigos que estiveram exilados na França me contavam do tratamento pra lá de amável que os franceses davam aos cães, enquanto as crianças mesmo não eram tão bem tratadas assim. Dois amigos meus estavam em Paris, lá pelo fim dos anos 1970, e quando chegaram aqui me contaram que viram uma mulher andando pela calçada, acompanhada de um menino com uns 5 anos de idade e um cachorro mais ou menos pequeno. Quando foi atravessar a rua, ela pegou o cachorro no colo e foi dando tapas na cabeça do menino para ele andar depressa. Um desses meus amigos deu uma bronca na mulher e quase apanhou de franceses que viram tudo e disseram que ele não tinha nada com isso, que era justo tratar o cachorro e o menino daquela maneira.

Em seguida, fui morar no Rio de Janeiro, no bairro do Leme. Lá e em Copacabana, ao andar pela calçada da avenida que beira a praia, tinha que ir olhando para o chão, para não correr o risco de pisar em merda de cachorro. Um dia, tomava um chope numa mesa da calçada do restaurante Fiorentina, veio um homem com um cachorro grandão, ocupou a mesa ao lado e pediu chope também. Logo em seguida, veio uma mulher passeando com outro cachorro grandão, e seu animal a puxava para perto da mesa do meu vizinho. Ela o acompanhou. Um cachorro ficou cheirando o outro, ela alisou o bicho do homem que estava sentado e falou para o seu: “É seu amigo, fulano”. O homem alisou o cachorro dela e falou algo para o seu próprio cachorro. Ficaram ali uns cinco minutos, ela falando com o cachorro dele e ele falando com o cachorro dela. Não conversaram entre eles. Um só falava com o cachorro do outro.

Aí, pensei: “Gente que gosta exageradamente de cachorro, não gosta de gente”.

Em São Paulo a coisa começou mais tarde. Muita gente tinha cachorro mas eu achava “normal”. Até que num churrasco alguém levou um cachorro enorme, que pra começar bateu as patas no peito de um menino, derrubando-o de costas. Ele destampou a chorar e o dono falou bravo como se ele estivesse cometendo um crime: “O cachorro só está brincando”. Os próprios pais deram uma baita bronca no menino. Aí o cachorro saía correndo, pisava no barro (tinha chovido) e vinha com a brincadeira de bater as duas patas dianteiras no peito das pessoas. Quando falei pro dono que não queria que seu cachorro fizesse aquilo comigo, ele ficou indignado, pensando como é que alguém podia não aceitar uma brincadeira de cachorro. Respondi que se uma pessoa sujasse a mão de barro e batesse no meu peito eu ia no mínimo xingar o sujeito. Por que um cachorro pode ter esse direito de sujar a roupa dos outros? Fiquei malvisto ali.

Aí tem muitas outras histórias, mas concluí que as coisas ficaram esquisitas demais num domingo em que andava pelas ruas arborizadas do bairro, ouvindo rádio. Estava acontecendo uma manifestação em várias cidades brasileiras, em defesa dos animais. Na emissora que ouvia, entraram repórteres falando direto do Rio, de Belém, de São Paulo e de não sei onde mais. Gostei, embora estranhasse que “os animais” nessas manifestações eram quase só cachorros, aparecendo algumas vezes alguém com um gato, ou falando de gatos. Depois de cerca de meia hora cobrindo a manifestação pró-animais, com repórter entrando ao vivo de um monte de lugares, dando voz aos militantes da causa, uma outra notícia: a polícia, apesar de ter garantido que isso não ia acontecer, invadiu o lugar denominado Pinheirinho, em São José dos Campos, para expulsar seus milhares de moradores. Não havia repórter nenhum lá, e leram apenas uma nota com a versão da polícia sobre o acontecido. Só pude ironizar, falando sozinho: “Eu não sou cachorro, não. Que pena!”.

O certo é que o verdadeiro culto aos cachorros hoje em dia me faz pensar que certas pessoas não são donas de cachorros, os cachorros é que são donos delas.

QUANDO O PARTIDO ERA DEUS

Volto ao livro. Não esperava me impressionar com o seu conteúdo, apesar do volume de quase seiscentas páginas. Mas confesso que balancei um pouco. Ele intercala histórias de Trotski já preso, das vésperas do exílio até sua morte no México, da Guerra Civil Espanhola e da trajetória de Ramón Mercader desde criança, até depois que saiu da prisão e viveu na União Soviética e em Cuba.

É impressionante a forma com que se “faz a cabeça de alguém” para cometer um crime achando que está fazendo isso para o bem da revolução, do proletariado e de toda a humanidade. Um assassinato cruel é imaginado como um ato de heroísmo.

Mesmo pessoas com uma cultura vasta podem ser manipuladas. Perde-se o sentido crítico, a humanidade, a dignidade…

O PCB teve uma fase em que a obediência ao partido – que muitas vezes era a obediência a Stalin – era um dogma.

Lendo a história de alguns comunistas que para mim – apesar de eu nunca ter militado no Partidão ou no PC do B – são paradigmas da entrega a uma causa, sempre fico admirado com a dedicação deles ao partido, considerado quase sempre infalível. São pessoas que admiro, como Pedro Pomar, Carlos Marighella, Gregório Bezerra, Vladimir Pomar e Apolônio de Carvalho. Mal acabavam de fazer um grande trabalho a mando do PCB num lugar, sob condições muito difíceis, eram mandados para outro e iam sem vacilar. Na maioria das vezes por conta própria, mudando de nome (inclusive dos familiares), começando tudo do zero de novo em algum lugar. Arriscavam a vida sem contestar ou pôr em dúvida a decisão do Partido, para cumprir uma tarefa.

Apolônio foi lutar pela república na Guerra Civil Espanhola e, acabada a luta ali, com a derrota para os fascistas do general Francisco Franco, atravessou para a França e foi lutar na Resistência contra o nazismo.

Acredito que era um tendência geral de uma época, essa disciplina militante, essa crença, essa entrega total a uma causa. Não era só no Brasil. No livro de Padura, isso aparece com clareza na história de Mercader e também a de Trotski e em quase todos os militantes envolvidos nos acontecimentos da época.

A Guerra Civil Espanhola foi um campo de experimentos. Hitler testou ali armas de execução em massa, promoveu bombardeios como o que arrasou Guernica, e do outro lado, sem comparar os efeitos e os métodos, houve um monte de desavenças entre comunistas ligados ao PC, trotskistas e anarquistas, além de republicanos “comuns”. Nos lugares governados pelos republicanos, havia muita disputa interna entre as tendências.

Trotskistas e anarquistas propunham que a guerra civil fosse também uma revolução, mas o Partido Comunista – que tinha entre outros líderes Dolores Ibárruri, conhecida como “A Passionária”, e Santiago Carrillo – era contra, queria apenas manter a república, sem mudar o sistema econômico. E isso era motivo para refregas internas entre os republicanos.

Li livros espanhóis que acusavam o PC espanhol de mandarem assassinar muitos trokstistas e anarquistas empenhados na luta contra Franco, acusando-os de serem franquistas infiltrados. No livro de Padura, a história aparece inicialmente como se a desavença entre as tendências republicanas fosse geral, com sacanagens de todos os lados, mas acaba mostrando as manipulações do PC, orientadas por agentes de Stalin, incluindo os tais assassinatos, como o do trotskista Andreu Nin, líder trotskista de Barcelona. Para Stalin, ao que parece, não interessava ganhar a guerra se o controle da Espanha republicana não ficasse sob o comando do PC.

Fico pensando em pessoas como Apolônio e até mesmo em Ernest Hemingway (autor de Por quem os sinos dobram, belíssimo livro sobre a luta na Espanha), que lutaram honestamente pela República. Como teriam se sentido ao saber certas verdades por trás da sua luta – que, repito, teve mesmo muito heroísmo e muita fé em ideias libertárias.

A história nos conta que quando vieram à tona os chamados “crimes de Stslin”, em 1954, foi um arraso. Aqui no Brasil, alguns abandonaram totalmente seus ideais. Jorge Amado não só saiu do PCB como mais tarde se tornou um adepto de ACM, o fatídico Antônio Carlos Magalhães.

Marighella, contam, chorou muito. Mas continuou na luta, entendendo que os desvios de conduta do homem em quem acreditava não comprometiam o principal.

Enfim, a leitura de O homem que amava os cachorros mexe com a cabeça da gente. Tem muitos detalhes, muitas histórias de um tempo de paixões políticas dominando corações e mentes, e é interessante e trágico ir entendendo como se forjou, a partir de um jovem idealista, um matador cruel. O próprio autor, em alguns momentos, vacila entre o ódio a ele e a sensação de pena.

Não sei se indicaria o livro para todo mundo. Para alguns não muito estruturados e para quem procura motivos para não acreditar que o mundo pode ser bem melhor sem o capitalismo, seu conteúdo pode ser uma desculpa, tipo “o socialismo leva ao autoritarismo etc.”. Mas para alguns que acreditam sempre no “grande chefe”, seja quem for, acho que ele mostra que as coisas não são bem assim, que eles falham, têm manias, medos, pretensões de poder absoluto e por aí vai. Sentem-se deuses. Não será o caso de pensar se certas figuras do nosso tempo não se parecem um pouco com isso?

Para finalizar, só mais uma coisa da Guerra Civil Espanhola, a palavra de ordem da Passionária, que mexia com todo mundo, resistindo às tropas franquistas em Madri: “Não passarão!”. Foi muito repetida e de vez em quando a escuto ainda, às vezes na versão original: “No passarán!”. Quando estou numa briga e escuto isso, caio fora. É uma maldição para a esquerda, são raras as vezes em que esse lema deu certo. Quase toda vez que se grita “Não passarão!” ou “No passarán!”, a direita passa atropelando, como passou em Madri. Por favor, militantes, não gritem isso.

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O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, já está disponível em ebook, por metade do preço do impresso aqui. Confira o Booktrailer e o debate de lançamento do livro, com Frei Betto, Gilberto Maringoni, Osvaldo Coggiola e Valério Arcary, abaixo:

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Bate que ele gosta!

14.02.26_Mouzar Benedito_Coltura Inutil_MasochPor Mouzar Benedito.

O austríaco Leopold Von Sacher-Masoch, famoso escritor e advogado que viveu de 1836 a 1895, quando criança apanhava muito do pai e era obrigado por uma tia a lamber os pés dela, quando a espiava transando com alguém. Viciou nisso. Depois de adulto, Masoch pedia às mulheres que lhe batessem, chicoteassem, e lambia os sapatos delas. Só assim chegava ao orgasmo. Do nome dele, Masoch, veio a palavra masoquismo, usada para quem gosta de apanhar.

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Em 335 a.C., Alexandre, o Grande, atacou Tebas, que não se rendeu, dominou-a e mandou destruir a cidade inteira, menos uma casa: como apreciava muito a poesia, ele poupou a casa em que viveu o poeta Píndaro.

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A Bahia tem muitos dos melhores compositores do Brasil, mas quando se fala em músicas que a têm como tema e que encantam, muitos lembram-se de Tabuleiro da Baiana e Na Baixa do Sapateiro, que foram compostas pelo mineiro Ary Barroso. Falsa Baiana é do também mineiro Geraldo Pereira, um dos maiores compositores de samba de décadas atrás, no Rio de Janeiro. Por falar nisso, um dos grandes músicos da carioquíssima bossa-nova é o baiano João Gilberto. E quando se fala de grandes cantores mineiros, de quem a gente se lembra? Muitos, com certeza, se lembrarão de Milton Nascimento, nascido no Rio de Janeiro.

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A primeira enciclopédia de que se tem notícia foi publicada na França em 1772, pelo filósofo Denis Diderot.

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As Ilhas Salomão, localizadas no oceano Pacífico, na região da Oceania chamada Melanésia, têm pouco mais de 400 mil habitantes em sua área de 28 mil quilômetros quadrados, tamanho equivalente ao do estado de Alagoas, e sua língua oficial é o inglês, mas ali se falam mais de 80 dialetos nativos. O arquipélago é um país independente, ligado à Comunidade Britânica, mas seu “descobridor” foi um espanhol, Álvaro de Mendaña, que chegou lá no século XVI e pensou que tinha chegado no lugar de onde levaram as riquezas para ornamentar o templo construído pelo rei Salomão em Jerusalém.

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Allan Kardec, que criou a doutrina espírita em 1857, chamava-se Léon Hippolyte Denizard Rivail. Essa doutrina chegou ao Brasil, mais especificamente na Bahia, em 1865.

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O nome zeppelin, dado aos enormes balões dirigíveis transatlânticos em forma de charuto, se deve ao seu fabricante, o militar alemão Conde Ferdinand von Zeppelin, que viveu de 1838 a 1917,

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Dois dos maiores cientistas brasileiros de todos os tempos nasceram na mesma cidade, que era minúscula: Oswaldo Cruz e Aziz Ab’Saber eram de São Luiz do Paraitinga (SP).

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Em alguns lugares de Minas Gerais, quando alguém quer reclamar de uma situação muito desagradável por que passou ou está passando, diz: “Não há tatu que aguente”. O que muitos não sabem é a origem dessa expressão. Segundo caçadores, quando se persegue um tatu, ele entra num buraco e se consegue agarrá-lo pelo rabo, pode-se puxá-lo com toda força que ele não sai. Enfia as unhas das quatro patas nas laterais da toca e se agarra ali, e quase não se tem como tirá-lo. Quase! Mas há um segredo: enfiando-se um dedo no ânus dele, o tatu reage se encolhendo, tirando as garras da terra, e aí pode ser puxado facilmente. “Não há tatu que aguente”, garantem.

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A testoterona – hormônio masculino – foi isolada pelo químico alemão Adolf Butenandt, em 1934.

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Dois juristas formados pela conceituada Faculdade de Direito da USP, que ocuparam altos cargos nessa Universidade, se destacaram pela violência contra os Direitos Civis como ministros da Justiça da ditadura militar: o ex-reitor Gama e Silva autor do Ato Institucional número 5 (AI-5), queria uma medida mais violenta e inconstitucional do que esse Ato, mas o próprio presidente ditador Arthur da Costa e Silva achou demais e ele teve que abrandar um pouco. O ex-vice-reitor Alfredo Buzaid foi ministro durante o governo Garrastazu Médici, a fase mais violenta da ditadura. Buzaid publicou em 1970 o livro Em defesa da moral e dos bons costumes.

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O nome de Lhasa, capital tibetana, significa “casa de Deus”. Ela foi fundada no século V, como fortaleza budista, e era conhecida pelos ocidentais como “cidade proibida” por causa do difícil acesso a ela, no Himalaia.

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Em 1909 foi feito o primeiro salvamento marítimo a partir de uma chamada de SOS, pelo telégrafo sem fio. Em 1912 morreu muita gente no naufrágio do Titanic, mas 703 pessoas foram salvas, graças a mensagens de socorro enviadas pelo navio e captadas por outro navio, o Carpathia. Depois disso passou a ser obrigatória a instalação de equipamentos de rádio em navios.

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Você sabe quais são os sete pecados capitais? Veja se não cometeu ou comete algum deles: gula, avareza, soberba, luxúria, cobiça, ira e inveja.

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Em 1844 os Correios passaram a entregar correspondência em domicílio e isso foi um estímulo para o aumento da publicação de jornais. Em 1872 alguns quiosques do Rio e de São Paulo vendiam jornais, mas as primeiras bancas de verdade começaram a funcionar em 1892.

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Máxima do Barão de Itararé: “Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outras”.

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A sucessão de erupções do vulcão da ilha de Krakatoa, em 27 de agosto de 1883, destruiu 165 aldeias, danificou outras 132 e matou 36.417 pessoas. Cerca de 300 mil pessoas ficaram desabrigadas. Três quartos da ilha, nas Índias Orientais Holandesas, afundaram no mar.

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A palavra terapêutica vem do grego, therapéuo, e significa “eu cuido”.

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Iracema de Souza Ferreira (1922-2003), que adotou o nome artístico Nora Ney, cantava muito bem e foi uma das primeiras cantoras brasileiras a fazer turnê pela União Soviética e países do leste europeu. Com voz rouca, fez grande sucesso cantando sambas-canções, como Ninguém me ama, de Antônio Maria. Seu marido, Jorge Goulart (nome artístico de Jorge Neves Bastos) também era cantor que fazia sucesso na União Soviética (no Brasil também). Aqui, um dos seus sucessos foi Bigorrilho – “Lá em casa tinha um bigorrilho / Bigorrilho fazia mingau / Bigorrilho foi quem me ensinou / a tirar o cavaco do pau…”. O casal era “simpatizante” do PCB e chegou a fazer uma temporada de 8 meses na União Soviética, em 1958.

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A última refeição de Luís XVI antes de ser guilhotinado constituiu de três pratos de sopa, três pedaços de pão, sete pratos de carne, oito sobremesas, duas garrafas de vinho e quatro xícaras de café. Já que era para morrer mesmo, mandou ver!

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Na mitologia germânica, os grandes guerreiros, quando morrem vão para Válala. Mas não todos, só os mais valorosos. A tal Válala, numa tradução livre “sala dos guerreiros mortos” é uma sala imensa, luxuosa, com 540 portas, onde esses guerreiros mortos passam o dia se divertindo (cavalgando e simulando combates) e à tarde se sentam em torno de uma mesa de ouro pra beber e banquetear à vontade.

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Martinho Lutero pretendia apenas provocar um debate teológico de alguma importância, quando afixou numa espécie de quadro de avisos da igreja de Wittenberg suas 95 teses, em 31 de outubro de 1517. Ele incluiu no final: “Pede-se a quem não puder comparecer para discutir oralmente, que o faça por carta”. Foi o início da Reforma, a criação do Protestantismo.

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Era de Henrique Santos Dummont, irmão do “pai da aviação” o primeiro automóvel a circular no Brasil, um Daimler a vapor, em São Paulo, no ano de 1893. Em 1897, José do Patrocínio foi o primeiro a ter um automóvel no Rio, um carro francês também movido a vapor. O primeiro acidente de carro foi no Rio, quando o poeta Olavo Bilac, aprendia a dirigir com José do Patrocínio, na estrada da Tijuca. O poeta barbeirou e entrou feio numa árvore. O carro arrebentou, mas os dois não tiveram ferimento.

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Deborah Kerr, Anna Magnani, Elizabeth Taylor e Lana Turner foram indicadas para o Oscar de melhor atriz em 1957, mas quem ganhou foi a quinta concorrente, Joanne Woodward, a menos famosa delas, que atuou no filme As três máscaras de Eva. Ela era uma atriz relativamente nova e costurou o vestido com que compareceu à festa, o que provocou comentários maldosos (ou ciumentos?) de Joan Crawford, que achava ser um atraso uma atriz fazer suas próprias roupas. Joan Crawford, por sinal, ganhou o Oscar de melhor atriz em 1945, quando a favorita disparada era Ingrid Bergman. Ela estava gripada e recebeu o Oscar na cama.

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Em 1903, pela primeira vez um automóvel fez a travessia oeste-leste dos Estados Unidos, de São Francisco a Nova York. Gastou 52 dias.

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Baden-Powell, lorde inglês, criador do escotismo, atuou como espião, fingindo ser colecionador de borboletas. Com uma rede, ele se aproximava de fortificações militares na Alemanha, França, Tunísia e Argélia. Ele fazia desenhos das borboletas pegas durante o dia, mas no meio desses desenhos fazia plantas escondidas de cada fortificação, indicando os tamanhos dos canhões e os locais onde eles ficavam. Na Guerra dos Bôeres, na África do Sul, ele era general, mas fez espionagens fingindo ser jornalista.

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A maior queda d’água do mundo é a de Salto Angel, na Venezuela, com 979 metros de altura.

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Em 1998, o Fundo das Nações Unidas para a População (Funuap) fez projeções sobre quais seriam os maiores aglomerados urbanos do mundo em 2015. Acertou só um pouco. Previa, por exemplo, que o aglomerado da cidade de São Paulo teria 16,1 milhões de habitantes em 2015 e bem antes já está beirando 20 milhões. Aí vão as previsões do Funuap para o ano que vem: Tóquio (26,5 milhões); Nova York (16,3); Cidade do México (15,5); Xangai (14,7); Mumbai (14,5); Los Angeles (12,2); Pequim (12); Calcutá (11,5) e Seul (11,5).

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Um ditado que não colou: “Se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”.

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Assim falou Friedrich Nietzsche, autor de Assim falava Zaratustra: “Você diz que acredita na necessidade da religião. Seja sincero. Você acredita mesmo é na necessidade da polícia”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV, VI, VII, VIII, IX, X e XI na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Haja assunto, Lewis Caroll!

14.02.11_Mouzar Benedito_Coltura Inutil_XIPor Mouzar Benedito.

Muita gente tem saudade de receber pelo correio uma carta que não seja de banco, da companhia telefônica ou outra instituição do tipo, geralmente boleto de cobrança. Antes da internet era comum a comunicação por cartas ou, quando urgente, por telegrama. Mas acredito que uma das pessoas que mais escreveram cartas na vida foi Lewis Carroll (ele mesmo, o autor de Alice no país das maravilhas), que segundo seus próprios cálculos escreveu 98.721 cartas nos seus últimos 37 anos de vida. Portanto, nesse período, escreveu, em média, mais de sete cartas por dia.

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A enfermeira britânica Florence Nightingale, que se dedicou à melhoria das condições sanitárias do exército e à criação de um contingente sanitarista feminino, tinha um animal de estimação que levava a todos os lugares onde fosse: uma coruja.

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Aí vão algumas expressões usadas no Ceará: guardador de carro, que no Rio se chama flanelinha, lá é pastorador. Quem tem uma perna boa e anda arrastando a outra é chamado de ponto e vírgula. Baixinho é sibite, batoré ou corró. E quando querem dizer que alguma coisa não serve pra nada, dizem que ela é mais inútil do que vereador.

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A primeira corrida de cavalos com apostas em dinheiro que se tem notícia ocorreu em Currah, perto de Londres, em 1350. Essa corrida se chamou Jockey Hall. A palavra jockey deriva de Jackey, diminutivo de Jack, apelido de John. Então, jockey equivale a Joãozinho. Em seguida, foram surgindo Jockeys Clubs em outros lugares…

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Versão espanhola para o ditado “Enquanto descansa, carrega pedras”: “Mientras descansas, machaca esas granzas”.

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Em 1877, houve uma seca terrível no Nordeste, e ela ficou conhecida como Seca Grande. Sem saída, flagelados promoveram vários saques e o jornal O Cearense comentou: “Dir-se-ia que o comunismo já foi proclamado entre nós”.

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Em 1913, a flotilha de submarinos do Brasil adotou a legenda “Usque ad acqua nauta sum”, quer dizer, “Marinheiros até debaixo d’água” e com isso popularizou essa expressão usada com o sentido de radical. “Corintiano até debaixo d’água”, por exemplo.

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No início do século XX, um grupo de rapazes delicados fez em Petrópolis (RJ) um concurso em que ganharia quem bordasse a mais bela almofada, em benefício de uma obra de caridade, e isso foi tema de crônicas gozadoras nos jornais do Rio. Assim, almofadinha se tornou sinônimo de homens que se vestiam igual a aqueles rapazes, com apuro exagerado, e também insinuação de homossexualidade.

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No cristianismo (e no judaísmo), todos sabemos, há dez mandamentos. Na mitologia japonesa são cinco Gokais, quer dizer, cinco mandamentos: não matar, não roubar, não se entregar à luxúria, não mentir e não tomar bebidas alcoólicas.

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Até 1977, não havia divórcio no Brasil. Havia desquite, que era uma separação legal, mas sem romper o vínculo matrimonial. Quem se desquitava não podia se casar de novo. Só em 26 de dezembro daquele ano é que se tornou lei um projeto apresentado pelos senadores Nelson Carneiro e Accioly Filho, instituindo o divórcio. Antes disso, quem se separava e quisesse casar de novo, ia ao Uruguai, que casava brasileiros desquitados. Mas se homem desquitado que se casava no Uruguai era aceito com certa normalidade, com mulher não era assim. “Casada no Uruguai” era um adjetivo pouco recomendável para elas. Mulher “honesta”, segundo a sociedade preconceituosa, não fazia isso.

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A águia é o símbolo nacional dos Estados Unidos, mas se dependesse de Benjamin Franklin – que foi voto vencido – seria o peru.

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Quando se fala em usar micróbios ou seja lá o que for numa guerra, para destruir as populações “inimigas”, pensa-se logo em cientistas e militares unidos para fazer uma guerra bacteriológica. Coisa moderna. Mas é uma coisa antiga, bem mais antiga, por exemplo, do que a doação de roupas contaminadas com varíola para índios, por gente interessada em tomar as terras deles. Fazendeiros “respeitáveis” fizeram muito isso, no Brasil. Descendentes deles fazem pose de indignados quando se fala em “tomar” para reforma agrária as terras conquistadas por seus ancestrais dessa maneira. Num tempo bem mais antigo, no século XIV, um grupo de mercadores genoveses, perseguido por tártaros, se refugiou em Caffa, cidade murada da Crimeia. Depois de três anos de batalhas, os tártaros arrumaram um jeito de exterminar a população da cidade: com catapultas, jogaram pra dentro da cidade corpos de pessoas que morreram de peste bubônica. Toda a cidade foi contaminada, pouca gente sobreviveu. Aliás, os poucos genoveses sobreviventes voltaram para a Itália e infectaram suas famílias, o que ajudou a disseminar a Peste Negra.

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A ostra geralmente é bissexual. No início da vida, é macho, depois vira fêmea e em seguida volta a ser macho. Pode se tornar fêmea e voltar a ser macho várias vezes.

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Alqueire não é só uma medida de área. Alguns velhos caipiras ainda se lembram dela como medida de capacidade, usada para cereais. Um alqueire equivale a 40 litros.

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Morte doce é isso! Em 1919, um grande tanque no porto de Boston, Estados Unidos, armazenava 13.500 toneladas de melado. O tanque rompeu e formou-se uma onda de melado com 15 metros de altura, matando 21 pessoas.

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No início do século XVIII, a Igreja era dona de dois terços de todas as terras de Portugal.

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Segundo os registros oficiais, quem introduziu o futebol no Brasil foi Charles Müller, filho de ingleses, que estudou na Inglaterra e chegou a São Paulo, em 1894, trazendo duas bolas de couro. Mas o futebol não foi levado de São Paulo para a Bahia, por exemplo. Foi o estudante José Ferreira, apelidado Zuza, que se formou na Inglaterra e chegou a Salvador em 25 de outubro de 1901, quem levou o futebol para lá, mas enfrentou resistências: aquela bola iria quebrar vidraças. Realmente, num jogo realizado no bairro do Rio Vermelho um chute mal dado acabou resultando numa vidraça quebrada. Zuza reuniu amigos e fez o primeiro jogo no Campo da Pólvora. Em 1907, a Liga Bahiana de Sports Terrestres organizou o campeonato de “football” com quatro times: Bahiano de Tênis, Santos Dumont, São Salvador e Vitória. Aí já era no “Derby” (campo) do Rio Vermelho. Tudo no “football” era em inglês: refeere (juiz), keek-off (saída, início do jogo), goal (gol), goal-keeper (goleiro), half-time (em vez de primeiro tempo, primeiro half-time), corner (escanteio), score (resultado). O glorioso Ypiranga começou a disputar o campeonato baiano em 1913.

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Em 1921, a Associação Bahiana de Cronistas Esportivos promoveu um torneio entre os clubes de Salvador, mudando o nome de gol para “furo”, e contabilizava-se também os corners. No primeiro jogo, o Bahiano de Tênis (um “furo” e um corner) venceu o Santa Cruz (um corner). No segundo, o Fluminense (dois “furos” e dois corners) venceu o Ypiranga (3 corners). Participaram do torneio, além dos times já citados: Yankee, Botafogo, Nacional, Vitória, Internacional, São Bento, Associação Atlética e Sul-América.

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Durante a Guerra de Secessão, nos Estados Unidos, os irmãos da mulher de Abraham Lincoln eram membros do Exército Confederado e ela foi acusada de fazer espionagem para o sul.

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Falam tanto da camada de ozônio, mas quantas pessoas sabem o que é ozônio? É um gás com cheiro forte, um oxigênio mais reativo. Seu nome foi dado por causa desse cheiro: ozo, em grego, significa “sinto cheiro”, e foi dado pelo químico alemão Christian Friedrich Schönbein, que fazia experiências produzindo eletricidade em laboratório e achava o cheiro do ar seco passando entre duas placas de eletrodos ligados a corrente alternada parecia com o cheiro de cloro combinado com algum outro elemento.

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Para quem acha que corrupção no Brasil é coisa dos dias de hoje, uma informação: a construção de Salvador, primeira cidade do Brasil, iniciada em 1549 por Tomé de Souza, custou muito mais que deveria, pois as obras foram superfaturadas.

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Uma superstição: muita cera no ouvido traz riqueza.

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Simpatia para curar bronquite: dar tripa de galinha para o doente soprar e depois dar essa tripa para um gato comer.

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Assim falou Darcy Ribeiro: “Fracassei em tudo na vida. Tentei alfabetizar as crianças, não consegui. Tentei uma universidade séria, não consegui. Mas meus fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem venceu”.

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Como são determinadas as datas em que caem os feriados móveis, que são o Carnaval, a Páscoa e o Corpus Christi? A Páscoa é a data base para isso. Ela acontece sempre no primeiro domingo de lua cheia depois do equinócio de Primavera, que no hemisfério Norte pode ser entre 22 de março e 25 de abril. No judaísmo, a Páscoa comemora a saída dos judeus do Egito. No cristianismo, comemora-se a ressurreição de Cristo. A terça-feira de Carnaval é 47 dias antes do domingo de Páscoa, podendo cair entre 3 de fevereiro e 8 de março. Corpus Christi é 60 dias depois da Páscoa, cai sempre numa quinta-feira entre 21 de maio e 24 de junho. Quer fazer as contas? Veja: em 2013, o domingo de Páscoa caiu em 31 de março, a terça-feira de Carnaval em 12 de fevereiro e Corpus Christi em 30 de maio.

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Nomes enganadores: Catulo da Paixão Cearense era maranhense, João Amazonas era paraense, assim como Leandro Tocantins, e Carla Pernambuco é gaúcha. Já, Ney Matogrosso é mato-grossense mesmo.

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Um ditado caipira: “Sossego de homem é mulher feia e cavalo capado”.

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Para quem não cumpre horário: “Mais atrasado do que risada de surdo”.

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Há muito tempo não vemos nos bares e vendas do interior um cartaz muito comum em outros tempos, dizendo:

Freguês educado
Não cospe no chão
Não pede fiado
E não diz palavrão
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Assim falou Quiterinha, figura popular de Itajubá há algumas décadas: “Comunista é assim: não bebe. Mas quando bebe, é pra rachar o cano. Depois joga as garrafas na rua, pra dar trabalho pros lixeiros”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV, VI, VII, VIII, IX, X e XI na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Pepetela e os predadores

14.01.28_Mouzar Benedito_Pepetela e os predadoresPor Mouzar Benedito.

Nunca tinha lido nenhum livro de Pepetela, pseudônimo de Artur Pestana, escritor angolano de quem já tinha ouvido falar muito bem. Recentemente, caiu em minhas mãos um romance de sua autoria, chamado Predadores. Li e gostei muito.

Nesse livro, Pepetela retrata com um certo desencanto a sociedade angolana dos tempos atuais, que não caminhou muito para a direção sonhada pelos guerrilheiros socialistas que lutaram pela liberdade e para construir uma sociedade – como se deduz pelo título e pelo enredo – sem predadores.

O livro mostra, entre outras coisas, a trajetória de um personagem que começou a desapontar depois da independência do país, em 1975. Isso sem ter tido nenhuma participação política durante a guerra, mas que manipulou a história de seu passado, se autoproclamando um grande revolucionário ligado ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), tendência guerrilheira de tendência marxista que, com apoio dos cubanos, depois da independência teve que enfrentar duas outras guerrilhas para permanecer no poder, ambas de direita: a UNITA (União Nacional para Independência Total de Angola) e a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), uma atacando pelo sul e outra pelo norte, com apoio da África do Sul e dos Estados Unidos.

Esse personagem, de nome José Caposso, mais que o que chamamos aqui de “alpinista social”, um aproveitador corrupto, quando lhe foi conveniente, mudou seu nome para Vlademiro, dizendo que o nome lhe fora dado pelo pai em homenagem a Lenin. Fazendo amizades com novos poderosos, cavando favores e se apropriando do que podia, tornou-se muito rico. E fazendo pose de revolucionário. Enquanto isso, verdadeiros revolucionários, gente que se estropiou pisando em minas, se feriu de outras maneiras. Às vezes acabavam tendo que mendigar nas ruas. Alguns lutadores de verdade ocuparam cargos importantes, sim, como o próprio Pepetela (isso não faz parte do livro), que participou da guerrilha lutando pelo MPLA, que foi vice-ministro da Educação durante o governo de Agostinho Neto.

Houve gente que manteve a decência, mas houve quem se locupletou e também gente que nunca fez nada e conseguia “provar” com falsas testemunhas que um sujeito que sempre foi honesto e manteve sua linha revolucionária na verdade era um traidor.

O certo é que como acontece em quase todos os processos revolucionários, enquanto algumas pessoas lutam e se arriscam, há quem dedique seu tempo ao planejamento de um futuro à conquista de favores e poderes pessoais; manipulando, se ajeitando, cavando contatos e postos. E quando o grupo rebelde toma o poder esses sujeitos são capazes de “provar” que sempre foram os bons, enquanto os batalhadores eram na verdade os aproveitadores.

E não é só em processos revolucionários, também no processo de democratização de um país, nos partidos, nos sindicatos e em tudo. Quando se chega ao poder, muitas vezes os companheiros de verdade são colocados de lado, enquanto oportunistas deitam e rolam, tornam-se os companheiros do momento. Quem cobra princípios é visto como porra-louca, maluco ou desleal, e pode ser considerado inimigo maior do que os verdadeiros inimigos.

Mas além de apreciar a qualidade do romance e de ter inevitavelmente lembrado de certos personagens (que não são incomuns por aqui também), me diverti observando não só o estilo literário, o modo de construir frases, mas também o vocabulário do português de Angola, recheado de palavras de origem do kimbundo e de outras línguas nativas.

No livro publicado aqui pela editora Língua Geral, foram respeitadas “as singularidades lexicais, ortográficas e sintáticas do português de Angola”. Então, há muitas palavras que não estão no vocabulário brasileiro, assim como não há no português de lá muitas palavras que usamos aqui, de origem tupi, principalmente, e também gírias.

Isso me remeteu mais uma vez ao batido tema da unificação da língua portuguesa, uma besteira enorme. Temos milhares de palavras tupis no nosso vocabulário, lá eles têm muito do kimbundo – em Moçambique certamente devem ter expressões deles e assim por diante. Claro que as telenovelas brasileiras levaram para outros países lusófonos expressões típicas daqui, mas nem todas.

Achei muito bom o tal respeito ao português falado em Angola. “Traduzir” para o português falado no Brasil empobreceria muito o livro. A gente vai lendo, deduzindo o significado de algumas palavras, procurando os significados de outras em bons dicionários ou mesmo na internet, e assim por diante. E enriquecemos o nosso vocabulário. Nem por isso deixamos de compreender e apreciar o texto.

Vou citar algumas palavras aqui, tanto de gírias locais como de línguas indígenas. Aí vão:

Kambo é camarada, companheiro.

Kimbo é povoado rural, aqui chamamos de bairro rural ou vila.

Musseque é aglomeração de moradias pobres, aqui chamamos de favela.

Bué é muito, bastante.

Kumbu é uma gíria para dinheiro, aqui traduziríamos por grana, “bufunfa”…

Haka! é uma interjeição de espanto, aqui, conforme o tradutor, poderia ser caramba!, nossa!, ou o nordestino vixe!.

Mini-autocarro lá é o que aqui chamamos de van.

Kuribotices são fofocas

Mujimbo é boato.

Kilapi é calote.

Kinhunga é uma gíria para pênis, o equivalente a piroca aqui.

Kitata é prostituta.

Puxar passas é o que aqui chamam de puxar fumo, fumar maconha (que lá é liamba).

De borla é de graça.

Caxico é bajulador, aqui o chamaríamos de puxa-saco.

Muadié é individuo de respeito.

Pagar a gasosa é dar propina.

Chá de caxindé é capim cidreira.

Engonhar é estar com preguiça de trabalhar.

Numa certa altura, Vlademiro, que não acredita em feitiçarias diz à mulher que o que chamam de feiticeiros “são mambos de matumbo do mato”, quer dizer, numa “tradução” livre, curandeiros de caipiras da roça.

Maka é um problema grande, delicado ou complexo. Quando o sujeito não faz alguma coisa porque não quer makas, podemos dizer que ele quer evitar encrencas brabas.

Vlademiro certa vez se pergunta “que tipo de empresa criar. Ou cassumbular, que sempre foi mais fácil”. Cassumbular aí é se apoderar de alguma coisa de alguém.

Quando diz que está marimbando, ele quer dizer que está pouco ligando para alguma coisa.

Um personagem, menino que vive nas ruas, vendendo pilhas, tem que brigar muito para manter seu espaço, brigar até por um buraco para dormir. Mas ele encara quem tenta tomar o espaço dele: “Aprendi um bué de bassulas”. Ou seja: “Aprendi um monte de golpes para derrubar o adversário”. Mas às vezes tem que correr do pente (o rapa que como aqui toma coisas dos camelôs – lá não existe essa palavra) e dos caínga (polícia, que os achaca como aqui) e se vacilar pode até ir para a kionga (cadeia).

Algumas coisas a gente deduz sem “traduzir” perfeitamente. Por exemplo: ele diz que cheirar gasolina o deixava “porreiro” e que comia só coisas “compradas nas zungueiras”.

Enfim, ler Predadores, de Pepetela valeu muito para mim. E acho que valerá para outros leitores.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Macacos espertos

14.01.13_MouzarBenedito_CulturaInútilX_MacacosEspetrosPor Mouzar Benedito.

René Descartes, filósofo francês que viveu de 1596 a 1650, achava que os macacos podiam falar, mas não faziam isso para não serem obrigados a trabalhar.

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Vilcabamba, no Equador, é um vale conhecido pela longevidade de seus moradores. Sua população é pequena, mas boa parte dela vive mais de cem anos, e chega a essa idade trabalhando normalmente, como gente muito mais jovem. Na língua dos índios shuaras, que moravam lá, Vilcabamba significa vale sagrado.

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Antes do “descobrimento” da América, não havia ninguém aqui com sangue tipo B. Todos os índios tinham sangue tipo A ou O. Por falar nisso, quem vai a locais de grandes altitudes nos Andes e tem dificuldade para respirar acha que pode se acostumar com o tempo. Pode ser. Mas a população indígena local tem mais sangue que nós, um litro a mais. E o sangue desses povos é mais escuro. A adaptação secular ou milenar à altitude modificou o sangue deles para que respirem normalmente nas alturas.

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O programa de rádio “Hora do Brasil” foi criado por Getúlio Vargas em 3 de janeiro de 1938.

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O Dr. James Barry serviu durante 40 anos o exército da Rainha Vitória, como cirurgião, e chegou a ser inspetor-geral dos hospitais. Quando morreu, em 1865… surpresa! Descobriu-se que “ele” era de fato uma mulher.

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Chicha é uma bebida fermentada feita de milho (pode ser feita também de mandioca ou frutas), muito comum na Bolívia. Mas existe lá, também, uma bebida destilada exclusiva do país, um pouco parecida com o pisco. É o singani, feito de uva.

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Algumas pessoas têm acrofobia (medo de altura), outras agorafobia (medo de ficar em lugares abertos), necrofobia (medo de cadáveres) e outros medos estranhos, como antofobia (medo de flores), verbofobia (medo de palabras), sofofobia (medo de aprender), iatrofobia (medo de médicos). Um que poucos confessam é ponofobia (medo de trabalho), mas o mais esquisito, acho, é a fobofobia (medo de ter medo).

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O jogo de boliche, com 9 pinos, foi criado por Martinho Lutero, o mesmo religioso alemão que foi também um dos criadores do protestantismo.

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Alguns ditados sobre burros:
Burro e carroceiro nunca estão de acordo

Burro não amansa, acostuma
Burro velho não toma ensino
Burro velho só morre no pasto de gente besta

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A palavra hospital nem sempre teve o sentido que tem hoje. Na Idade Média era o nome que se dava a abrigo para descanso de viajantes. Mais tarde, chamavam de hospital qualquer instituição de caridade para órfãos, velhos e doentes.Enfim, nessa época, hospital era um lugar “hospitaleiro”, expressão que continuou sendo usada como lugar que oferece hospedagem por bondade ou caridade. Hoje, hospitaleiro é lugar ou pessoa que recebe bem os outros.

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Acredita-se que a maçã seja originária do Afeganistão. Lá existem ainda florestas de macieiras selvagens.

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A região onde hoje é o Iêmen, ao sul da Arábia Saudita, era chamada de “Arábia Feliz” pelos romanos, pois é uma terra fértil, contrastando com o deserto da Arábia. A região é citada no Velho Testamento como parte do Reino de Sabá.

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Em 31 de janeiro de 1987, Carlos Drummond de Andrade escreveu seu último poema, que recebeu o nome “Elegia a um tucano morto”.

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Alfred Nobel tinha uma fábrica de nitroglicerina que explodiu em 1864, matando seu irmão. O governo sueco proibiu a reconstrução da fábrica, e Nobel ficou com o conceito de cientista maluco. Em 1867, inventou a dinamite e ganhou muito dinheiro com ela. Lutou contra a fama ruim o resto da vida e deixou testamento instituindo o Prêmio Nobel, em que o dinheiro vem da administração da fortuna que deixou.

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As cabras foram domesticadas por volta do ano 7000 a.C., e as vacas por volta de 6000 a.C., na Grécia. Não se sabe quando se começou a aproveitar o leite delas.

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Rodolpho D’Antonguolla, italiano, migrou para os Estados Unidos em 1913. Lá ele foi dançarino e gigolô antes de se tornar um grande astro do cinema, usando o nome artístico Rudolf Valentino.

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Durante a ditadura que durou de 1964 a 1985, militares esbravejavam dizendo que os grupos de opositores do regime só queriam “semear a cizânia”. Mas o que é cizânia? É o mesmo que joio, uma gramínea que deu origem ao ditado “separar o joio do trigo”, bem antigo, justificado porque ela nascia no meio das plantações de trigo e irritava os agricultores. Por isso, virou sinônimo de falta de harmonia, discórdia.

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Manaus, uma das cidades escolhidas pela Fifa para sediar partidas da Copa do Mundo de 2014, não tem grandes times de futebol. O mais famoso deles é o Nacional Futebol Clube, fundado em 12 de janeiro de 1913.

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Durante a reconquista cristã da Península Ibérica, muitos mouros foram escravizados, e escravos tinham que trabalhar pra burro! Daí surgiu a expressão “trabalhar como um mouro”.

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San Marino, minúsculo país encravado dentro da Itália, com apenas 60,5 km2, é a mais antiga república europeia. E foi o primeiro país do Ocidente a eleger um governo com maioria comunista: logo depois da Segunda Guerra, em 1945, comunistas e socialistas formaram um governo de coalizão que durou até 1957.

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O código criado por Adolf Hitler para a invasão nazista à União Soviética chamava-se Operação Barbarossa.

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A primeira autópsia da história foi feita pelo médico grego Herófilo, que viveu em Alexandria, na primeira metade do século III.

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Depois que astronautas estadunidenses desceram pela primeira vez na lua, em 1969, a Pan American Airlines começou a aceitar reservas para futuros vôos comerciais à lua, para quando eles começassem, claro que sem data especificada. Logo de cara foram feitas cerca de 80 mil reservas.

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Ditados sobre o amor:
Amor e bexiga só dão na gente uma vez

Amor é vento – vai um, vem cento
Amor faz muito, mas dinheiro faz tudo
Amor de parente é mais quente
Amor de asno inclui coices e dentadas
O amor faz passar o tempo, e o tempo faz passar o amor

O amor é uma cangalha
Que se bota em quem quer bem:
Quem não quer levar rabicho
Não tem amor a ninguém.

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A “Morte Negra” (ou Peste Negra) foi uma peste bubônica que matou cerca de 75 milhões de pessoas em 1247 e 1348, diminuiu pela metade a população da Itália, em pelo menos um quarto a da Inglaterra e atingiu vários países da Europa, da Ásia e do norte da África. Dois terços dos estudantes de Oxford morreram. Ela começou na Ásia Central. Um navio com vítimas dela chegou a Gênova e de lá a doença se espalhou. A peste bubônica é endêmica em ratos e é transmitida deles para as pessoas por pulgas.

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Os títulos de nobreza do Império Brasileiro, como “Barão de Tal Lugar”, “Visconde de Não sei Onde”, dão a impressão de que os tais nobres nasceram nesses lugares. Mas não é bem assim. Teoricamente, os títulos eram dados em reconhecimento ao heroísmo desses personagens em algumas batalhas, mas na maioria dos casos também não era assim. Muitos compravam os títulos. Davam uma grana ao imperador e ganhavam um título. Gozando disso, o jornalista e humorista gaúcho Apparício Torelly deu a ele mesmo o título de Duque de Itararé, e depois, em sinal de modéstia, se rebaixou para Barão de Itararé. A referência a Itararé, no caso, é uma gozação sobre uma batalha que não houve, na Revolução de 1930, entre gaúchos e paulistas, naquela cidade do sul do estado de São Paulo. Bom, vejamos onde nasceram alguns barões: existe uma cidade chamada Mauá em São Paulo e um distrito no Rio de Janeiro, mas o Barão de Mauá não era de nenhum desses lugares, nasceu em Arroio Grande (RS); Antonina é uma cidade paranaense, mas o Barão de Antonina nasceu em Taquari (RS); o de Cotegipe (BA) nasceu na cidade de Barra (BA); o de Serro Azul (SP) era de Paranaguá (PR); o de Tefé (AM) era de Itaguaí (RJ); o de Ladário (MS) era carioca, assim como o do Rio Branco (AC); na capital paulista nasceram os barões de Limeira e de Itapetininga, e o de Paranapiacaba (SP) nasceu em Santos. Duas exceções: o Barão de Aracati nasceu mesmo em Aracati (CE) e o de Cocais nasceu mesmo no município de Cocais (MG). Uma curiosidade interessante é que o Barão de Guaraciaba (nome de uma cidade de MG) nasceu em outra cidade mineira, Lagoa Dourada, em 1826, mas o que o diferencia dos outros é que foi o primeiro negro a receber esse título, e tinha sido antes ferreiro, ourives e tropeiro.

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Máxima do Barão de Itararé: “Calvície é a arte de tirar fotografia de chapéu”.

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O vaso sanitário foi inventado pelo inglês Sir John Harrington, em 1596.

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Dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil (vindo de Portugal, claro) ficou famoso por ter sido comido pelos índios Caeté, em 1556, depois de um naufrágio perto da foz do rio Coruripe, em Alagoas, quando voltava de Salvador para Portugal. Eu sempre disse que sardinha é pra ser comida mesmo, mas fora a ironia, ele merecia: tratava muito mal não só os índios, mas todo mundo que não se submetesse a ele. Tinha um monte de acusações de corrupção e violência. Transformava as punições religiosas em dinheiro: sob ameaça de excomunhão aos desafetos, cobrava para perdoar pecados, e embolsava a grana. E tinha cúmplices que espancavam quem o desobedecia ou falava mal dele.

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Trova lusitana:
Quem tiver filhas no mundo,
Não fale das malfadadas,
Porque as filhas da desgraça
Também nasceram honradas.

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Dois provérbios da ilha de Madagascar: “Não faça como o sabão, que se gasta para limpar os outros”; “Ser rico e passar privações não é ser rico, é ser guarda de tesouros”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV, VI, VII, VIII, IX na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura Inútil: Marx dava seus pulinhos

13.12.17_Mouzar Benedito_Cultua Inútil_Marx dava pulinhos

Caricatura de Karl Marx feita pelo quadrinista francês Charb, para o livro “Marx, manual de instruções”, de Daniel Bensaïd

Por Mouzar Benedito.

Karl Marx teve sete filhos, dos quais só quatro chegaram à vida adulta, sendo três mulheres e um homem. O detalhe é que esse único filho homem, chamado Frederic Demuth (1851-1929) era ilegítimo, sua mãe era Helen Demuth, criada da mulher de Marx.

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O figo-da-índia não veio da Índia, e sim da região andina da América do Sul. No início da colonização, os espanhóis (e portugueses também) não usavam o nome América, mas sim Índias Ocidentais.

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Várias cidades brasileiras tinham nome de animais da nossa fauna, entre elas uma chamada Veado, no Espírito Santo. Quando a palavra veado tornou-se sinônimo de homossexual e havia muito preconceito contra ela, resolveram mudar o nome da cidade. Puseram então o nome de um herói da Revolução de 1930, Siqueira Campos. Na época, como não havia CEP (o código de endereçamento postal), a mudança de nome de cidade tinha um problema: como o correio encaminhava a correspondência para o lugar certo? Bom, no caso desta cidade, as cartas chegavam eram endereçadas a “Siqueira Campos (ex-Veado). A família do herói não gostou da homenagem e pediu que tirassem o nome dele da cidade, que passou então a chamar-se Guaçuí, palavra que em tupi significa rio do veado.

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A letra л (pi), a 16a do alfabeto grego, é um símbolo matemático com valor de aproximadamente 3,1416… Novidade nenhuma nisso, não é? Mas o que poucos sabem é sua origem: л é uma abreviação de peripheria.

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Argentinos e uruguaios têm muitas divergências, disputam muitas coisas, além do futebol. Por exemplo: para os argentinos, Carlos Gardel é argentino mesmo, mas os uruguaios dizem que ele nasceu em Tacuarembó, no Uruguai. E segundo consta, não era nem uma coisa nem outra, era francês e originalmente chamava-se Charles Gardes. Outra disputa é sobre a paternidade do doce de leite. Argentinos e uruguaios a reivindicam. Mas e Minas Gerais, como fica nessa história? Para os mineiros, o doce de leite é legitimamente mineiro.

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Os soldados chineses tinham uma péssima reputação. Eram considerados muito cruéis. Mao Tse-tung (hoje escrevem Mao Zhedong, que horror) conseguiu, entre outras coisas, mudar esse conceito. Quando realizou a Grande Marcha (1934-35), tomando terras dos latifundiários e distribuindo entre os camponeses, já procurando impor um modo socialista de produção, Mao criou uma norma de condutas para seus soldados, com oito pontos: 1) Conserte as portas quando deixar uma casa; 2) Devolva em boas condições e enrolada a esteira em que dormiu; 3) Seja educado com as pessoas, ajude-as no que for preciso; 4) Devolva tudo o que tomou emprestado; 5) Seja honesto em todas as transações com os camponeses; 7) Pague tudo o que comprou; 8) Seja higiênico, fazendo suas necessidades fisiológicas a uma distância segura das casas. Outra coisa: dizem que para fazer sua Grande Marcha (ou Longa Marcha), Mao se inspirou na Coluna Prestes.

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O zangão, macho da abelha rainha, depois que copula com ela é expulso da colméia pelas operárias, e vai morrer fora dela.

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Em 1943, com o propósito de ocupar mais densamente regiões de fronteira, Getúlio Vargas criou vários territórios federais, que eram unidades administrativas com governadores nomeado pelo presidente da República, e não tinham assembleias legislativas. Eram territórios: Acre, Amapá, Guaporé, Rio Branco, Fernando de Noronha, Iguaçu e Ponta Porã. Em 1946, o território do Iguaçu deixou de existir, foi incorporado parte a Santa Catarina e Paraná, e Ponta Porã foi incorporado a Mato Grosso (hoje, Mato Grosso do Sul). O Acre tornou-se estado em 1962. Em 1988, a nova Constituição extinguiu de vez os territórios: o Amapá tornou-se estado, mantendo o nome, Rio Branco virou Roraima, Guaporé virou Rondônia e Fernando de Noronha foi incorporado a Pernambuco, e é administrado pela prefeitura de Recife.

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Numa cidadezinha da região do Cariri, no Ceará, dois partidos tinham uma rivalidade tão grande que não concordavam nem em relação ao nome da cidade: quando um ganhava, o nome dela era Santanópolis; quando o outro tomava o poder, ela se chamava Santana do Cariri. Depois de muito vai e vem, prevaleceu este último nome.

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Uma moça ia sempre às partidas de futebol de várzea em que seu namorado jogava, em São Paulo, no início do século XX. Na época, as moças usavam luvas, e ela tirava as luvas durante os jogos, mas ficava nervosa e expressava esse nervosismo torcendo as luvas. Um jornalista viu, fez matérias sobre “a torcedora” e assim a palavra torcedor ganhou o sentido atual.

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Quando alguém era condenado à morte em Portugal, num período do século XV, o executor da sentença podia ser um sujeito chamado Belchior Nunes Carrasco. A ele se deve o significado da palavra carrasco.

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A palavra fã não é nada mais do que uma redução de fanático. Ela começou a ser usada nos Estados Unidos, escrita fan, forma reduzida de fanatic.

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O ditado “Pão-pão, queijo-queijo” significa falar francamente, sem subterfúgios, sem metáforas. Desde a antiguidade há ditados semelhantes, em outras línguas. Em latim, era “Fícus fícus, ligonem ligonem”. Fícus é figo, ligonem, acho que é enxada (no sentido figurado, agricultura). No evangelho segundo São Mateus, aparece assim: “Mas seja o vosso falar: sim, sim; não, não”.  Em francês, se diz: “Appelons les figues figues et um bateau um bateau”, quer dizer, “Chamamos os figos figos e um barco um barco”. Em espanhol é “Dire al pan, pan, y ao vino, vino”, ou seja, “Diga ao pão, pão, e ao vinho, vinho”.

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Em certo período, quando iam desenhar um diabo ele aparecia sempre com uma pequena capa. Daí surgiu a palavra capeta.

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O doce chamado brigadeiro tem esse nome em homenagem ao brigadeiro Eduardo Gomes, candidato a presidente da República na época da criação desse doce, em 1946. Ele foi um dos “18 do Forte”, da revolta de 1922, no Rio de Janeiro. Uma das versões sobre o nome do doce que o homenageia é que logo depois da Segunda Guerra havia uma grande crise de abastecimento de gêneros alimentícios, inclusive ovos. Segundo a lenda, Eduardo Gomes teria sido ferido nos testículos na revolta de 1922, e como o doce feito com chocolate em pó e leite condensado, não tem ovos…

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Até o século XV, a berinjela era cultivada como planta ornamental. Achavam que seu fruto era venenoso.

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A palavra grileiro, usada para designar o sujeito que se apropria de terras que não são suas, forjando documentos falsos (geralmente com a cumplicidade de autoridades) tem origem, segundo contam, no hábito de colocar as falsas escrituras numa gaveta com alguns grilos, insetos mesmo. As fezes ou urina do grilo têm um ácido que dão aparência de antiguidade aos papéis novos.

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O Prêmio Nobel da Paz nem sempre vai para os pacíficos. Até Henry Kissinger já ganhou! Em 1906, quem o ganhou foi Theodore Roosevelt, presidente dos EUA, por ter arbitrado o fim da guerra entre a Rússia e o Japão. Detalhe: Roosevelt havia declarado pouco antes que “Nenhum triunfo da paz é tão grande quanto o supremo triunfo da guerra”.

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Tiradentes foi enforcado em 21 de abril de 1792, certo? Há controvérsias. Em 1969, um historiador carioca, Marcos Correia, pesquisava sobre José Bonifácio de Andrada e Silva, em Paris, e deu de cara com uma cópia de um documento arquivado na Torre do Tombo, em Lisboa, em que, perto da assinatura dele havia outra de um tal de Antônio Xavier da Silva. O historiador havia estudado grafologia e uma assinatura muito estudada por ele foi a de Tiradentes. Achou muito semelhante a ela a assinatura desse Antônio Xavier da Silva. Daí foram feitos estudos e surgiu a versão de um ladrão, Isidro Gouveia, que também havia sido condenado à morte, foi enforcado no lugar de Tiradentes. Topou assumir o lugar dele em troca de ajuda financeira à sua família. A manobra toda teria sido feita pela Maçonaria, que libertou Tiradentes e, em agosto de 1792, o levou para Lisboa com a namorada Perpétua Mineira e os filhos do ladrão enforcado no lugar dele, na nau Golfinho. Ele teria voltado ao Brasil e aberto uma botica. Segundo essa versão, só morreu em 1818, quatro anos dantes de ser reconhecido como Mártir da Independência.

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Alguns ditados sobre mulher:

Mulher de janela fala de todos, e todos dela.

Mulher de igreja, Deus nos proteja!

Mulher de cego, se direita não se enfeita.

Mulher de bigode, nem o diabo pode.

Mulher chorosa, mulher fogosa.

Mulher calada é pior do que boi sonso.

Mulher formosa, doida ou presunçosa.

Mulher que em jura de homem se fia, chora de noite, chora de dia.

Mulher ri quando pode e chora quando quer.

Mulher rixenta, nem o diabo aguenta.

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Mulheres quando se juntam

A falar da vida alheia

Começam na lua nova

E acabam na lua cheia

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Um ditado de Nova Resende: “Mió do que uma muié, só duas muié. Mió do que duas muié, só um caminhão de muié”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV, VI, VII e VIII na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura Inútil: Helicóptero, beija-flor e Dadá Maravilha

13.11.26_Mouzar Benedito_Cultura Inútil_VIIIPor Mouzar Benedito.

O beija-flor é o único pássaro que consegue parar no ar e voar para trás. O centro-avante Dario, que jogou, entre outros times, no Atlético Mineiro, e foi reserva na seleção de 1970, certa vez marcou um gol de cabeça e, para isso, teve que pular alto e pareceu que ficou um tempo parado no ar. Aí disse: “Só tem três coisas que param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha”.

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Quando se tornou claro que a escravidão negra não duraria mais muito tempo no Brasil, os “barões do café” chegaram a pensar em trazer chineses para substituir os negros. Eles seriam “contratados” por um tempo determinado, o que seria na verdade uma escravidão temporária, com eles mal pagos e maltratados. Só desistiram da ideia porque tinham ideias muito racistas quanto aos chineses, diziam que eles eram “gente lasciva ao último grau”, de péssimos costumes, ladrões, indolentes, que só trabalhavam bem depois de apanharem bastante.

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Máxima do Barão de Itararé: “O homem é um animal que pensa. A mulher é um animal que pensa o contrário”.

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A primeira pessoa da América Latina a ganhar um prêmio Nobel de Literatura foi a poetisa chilena Gabriela Mistral, em 1945. Ela nem era conhecida na Suécia, só um dos jurados conhecia seus versos e era apaixonado por eles, traduziu para o sueco e convenceu os demais a premiá-la. Nascida num lugarzinho minúsculo no norte do Chile, chamado Vicuña, ela se chamava na verdade Lucila Godoy e Alcayaga. Enquanto não temos nenhum premiado no Brasil, no Chile tem dois. O outro também era poeta: Pablo Neruda (pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes) ganhou o prêmio em 1971. Neruda era comunista.

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Superstição: passar no meio de duas pessoas que estão conversando, corta a amizade. Deve-se passar ao lado.

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Quer que algum pinguço pare de beber? Veja uma receita popular (nunca soube de alguém a usou): misturar leite de cachorra na pinga e dar pra ele beber. Ele vai ter um baita enjoo, vomitar bastante e nunca mais vai querer bebida alcoólica. Outras receitas com o mesmo resultado são colocar na pinga moela de urubu torrada, ou então umbigo de bebê do sexo feminino (aí não precisa torrar, é só deixar uns dias curtindo).

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Richard Gatling nasceu no Sul dos Estados Unidos, mas durante a Guerra de Secessão ficou com os nortistas. E era leal à sua opção. Ele queria inventar uma arma capaz de facilitar a vitória do Norte. Trabalhou quatro anos nela e finalmente inventou a metralhadora, mas ela só ficou pronta quando a guerra estava perto do fim.

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A cidade de Piracicaba (SP) já se chamou Constituição. Itumbiara (GO) era Santa Rita do Paranaíba. Concórdia (SC) era Queimados. Sobral (CE) era Caiçara. Pirenópolis (GO) era Meia Ponte.

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O nome Adis Abeba, da capital da Etiópia, significa nova flor.

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Durante a Segunda Guerra Mundial, Goebels, Ministro da Propaganda de Hitler, chamou os cineastas alemães e passou um filme para eles, dizendo que queria filmes como aquele para inflamar seu povo. O filme era o Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein. Mas faltou uma coisa aos cineastas alemães: o fervor revolucionário. Eisenstein fez um filme para uma causa que apoiava…

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Em 29 de setembro de 1903 foi licenciado no Rio o primeiro automóvel no Brasil. Nesse ano a Prefeitura do Rio concedeu 6 licenças para carros.

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Enquanto o governo dos Estados Unidos divulgava que estavam construindo um satélite espacial (sem o colocar em órbita), a União Soviética se antecipou e lançou o Sputinik, em 4 de outubro de 1957, dando início à “corrida espacial”, uma disputa entre os EUA e a URSS, em plena Guerra Fria. Pesando 83,6 quilos, o Sputinik dava voltas elípticas em torno da Terra, com um mínimo de 228 e um máximo de 945 quilômetros de distância do planeta. Ele permaneceu em órbita durante 92 dias, levando apenas um transmissor de rádio. Em 3 de novembro do mesmo ano, foi lançado o Sputinik II, com 543,5 quilos, que levava o primeiro ser vivo a subir ao espaço, uma cadela chamada Laika. O primeiro homem e a primeira mulher a irem ao espaço numa nave espacial também foram russos: Yuri Gagarin, em 12 de abril de 1961, na Vostok I e Valentina Tereshkova, em junho de 1963. Detalhes: os russos que viajaram em naves espaciais eram chamados de cosmonautas e os norte-americanos de astronautas.

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Falam muito do faro do cachorro… Mas bom pra cheirar, mesmo, é o bicho da seda, que consegue, pelo olfato, descobrir uma fêmea a 11 km de distância.

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Os dingos, cachorros selvagens da Austrália, não latem.

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A notícia da Independência do Brasil só chegou a Manaus em 9 de novembro de 1823. O atual estado do Amazonas fazia parte da província do Grão-Pará, com capital em Belém, que aderiu à independência em 15 de agosto de 1823. No Piauí, a Independência foi consolidada em 13 de março de 1823, com a vitória dos brasileiros contra os portugueses na Batalha do Jenipapo, perto de Campo Maior. Na Bahia, a última batalha contra os portugueses foi em 2 de julho de 1823, e lá a comemoração da “Independência da Bahia” é nessa data, que dava nome ao aeroporto de Salvador. Puxa-sacos de ACM mudaram o nome do Aeroporto 2 de Julho para Luís Eduardo Magalhães.

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A capivara (“comedor de capim” em tupi) é o maior roedor do mundo, chegando a pesar 80 kg.

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O Marquês de Sade tinha medo de ser vítima de um sadismo (ou pelo menos de um erro): estipulou que, quando morresse, seu corpo deveria ficar 48 horas num caixão sem tampa, e só depois disso ele seria fechado e enterrado. Temia ser enterrado vivo.

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Na mitologia eslava há um ferreiro chamado Ilmarinen, que fez uma mulher de ouro. Mas ao tentar ter relações sexuais com ela, viu que ela era fria e insensível.

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Tri-campeão… tetra-campeão… O Brasil é penta-campeão de futebol e sonha há várias copas ser hexa-campeão. O Corinthians ganhou o campeonato paulista de futebol 25 vezes… Maravilha! Mas vejam o caso de Willie Hoppe, que praticava outro esporte (é esporte?). Ele foi campeão de bilhar dos Estados Unidos pela primeira vez em 1901, quando tinha 14 anos de idade. E continuou ganhando todos os campeonatos até 1952.

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O Loch Ness, lago escocês com 38 quilômetros de comprimento, largura de 1.500 a cinco mil metros e até 280 metros de fundura, abriga (pelo menos é o que acreditam) um monstro do qual há relatos de aparição de há mais de 15 séculos. De cabeça pequena e pescoço comprido, oito pernas curtas e cerca de 15 metros de comprimento, há registros de aparições dele em 1933 e 1954, uma das vezes atravessando uma estrada próximo ao lago. Ilusão? Mentira? Numa das vezes, foi visto por pescadores que estavam num barco (bem… história de pescadores), mas em 1954 todos os passageiros de um ônibus dizem tê-lo visto por cerca de dez minutos, a uma distância de cem metros.

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Os gentílicos de quem nasce na Costa do Mafim são ebúrneo e marfinense.  Nascido no Sri-Lanka é cingalês.

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Blue Moon é uma música de Elvis Presley, com letra melancólica. Mas o que é essa “lua azul”? Tem a ver com a lua cheia, que ocorre uma vez por mês, mas nem sempre é assim. Ela ocorre, na verdade, a cada 29 dias e meio. Então, pode acontecer, embora raramente, de ter duas luas cheias num mesmo mês (com exceção de fevereiro, que só tem 28 dias, ou 29, nos anos bissextos). Essa segunda lua cheia é que é chamada lua azul. Para nós brasileiros, isso não tem nenhuma importância, mas os gringos valorizam muito isso, e há muitas referências a ela nos livros infantis, como um acontecimento raro. A última vez que aconteceu foi em 2010, e voltará a ter uma lua azul em julho de 2015. Uma lua cheia se inicia às 23h19 do dia 1o desse mês e às 7h41 do dia 31. Quanto a ela ser chamada de azul, não tem muito a ver. Às vezes a lua pode ter um tom azulado, por causa das condições atmosféricas, mas pode não acontecer isso especificamente nessa data. Uma “lua azul” comprovadamente dessa cor foi em 1883, quando o vulcão Krakatoa entrou em erupção e suas cinzas provocaram a dispersão da luz vermelha, deixando que passassem apenas as tonalidades azul e verde.

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Um ditado: “Se o velho pudesse e o jovem soubesse, nada há que não se fizesse”.

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O Acre surgiu como Estado independente em 1903, depois que seringueiros liderados por José Plácido de Castro, um militar gaúcho, derrotou o exército boliviano. O Acre foi anexado ao Brasil e em 1908, Plácido de Castro foi morto à traição pela polícia militar do Amazonas.

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A criação do estado de Tocantins, separado do norte de Goiás, foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 30 de novembro de 1983.

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Alguns homossexuais famosos: Ricardo Coração de Leão; Alexandre, o Grande; Imperador Adriano (de Roma, 76-138 d.C.); Frederico, o Grande (da Prússia, 1712-1786); os escritores franceses André Gide e Marcel Proust, o compositor russo Tchaikovsky e os dramaturgos Tenesse Williams (estadunidense) e Oscar Wilde (irlandês).

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Dois provérbios turcos: “O zurro de um jumento é uma declaração de amor para uma jumenta”. “Não é boa caridade dar a carne ao cavalo e o capim ao leão”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV, VI e VII na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura Inútil: O Conde d’Eu e a cabeça de porco

13.10.29_Mouzar Benedito_Cultura InútilPor Mouzar Benedito.

O Conde d’Eu, casado com a Princesa Isabel, era tido como pessoa nada agradável, tratava muito mal as pessoas, nenhum “subordinado” gostava dele. E sovina. Ele era dono de um dos maiores cortiços do Rio de Janeiro, e no portal da entrada desse cortiço havia uma cabeça de porco de ferro. Morar no “cabeça de porco”, inicialmente, era morar naquele cortiço. Depois a expressão virou sinônimo de cortiço de maneira geral, usado até hoje no Rio.

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Em 5 de março de 1961, jogando pelo Santos, Pelé marcou contra o Fluminense o gol que seria considerado o mais bonito da história do Maracanã, depois de driblar quase que o time adversário inteiro. O evento mereceu uma placa comemorativa e passou a ser chamado de “Gol de Placa”.

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O sistema métrico decimal começou a ser usado na França, em 1862. No Brasil, ele foi adotado em 26 de junho de 1862. Antes disso (e até hoje em alguns lugares), usava-se medidas como o palmo, jarda, légua, alqueire… Alguns países insistem em usar jardas, polegadas, pés, milhas, e pesos como onça e libra, volumes como o galão, a medição da temperatura pela escala Fahrenheit (em que 32 graus equivale a zero grau centígrado, do sistema decimal, e 212º F equivalem a 100º C). Como foi escolhido o tamanho do metro? Ele foi definido como 1/10.000.000 da distância entre o equador e o polo.

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Mark Twain dizia que a couve-flor é um repolho que foi para a universidade.

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O genocídio que os colonizadores espanhóis promoveram na América (não só eles: aqui tivemos os portugueses, no norte os ingleses…) tem um exemplo impressionante: o das Bahamas. O arquipélago com 700 ilhas ao norte de Cuba, com uma área de 1.864 km2, foi visitado por Colombo na sua primeira viagem, em 1492, e logo começaram a levar seus moradores para trabalhar como escravos nas minas do Haiti. Deixaram quase zerada a população dessas ilhas: até 1508 tiraram 40 mil delas.

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O Amapá, disputado pelo Brasil e pela França, tornou-se definitivamente brasileiro em 1900, fruto da argumentação do Barão do Rio Branco na arbitragem feita pela Suíça.

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Macunaima (pronuncia-se macunáima, e não macunaíma, como teve o nome adaptado no romance de Mário de Andrade) é, para os povos indígenas de Roraima (também pronuncia-se Roráima, e não Rorãima, como pensa muita gente), o criador do mundo. Nas lendas indígenas, era brincalhão e gozador, mas não perdoava os inimigos: transformava-os em pedras.

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Os camponeses franceses não tinham sapatos, usavam tamancos. Durante um período, para se vingar dos grandes proprietários de terra que os exploravam, pisavam nas plantas recém-nascidas nas propriedades deles. Tamanco em francês é sabot, e isso era chamado de sabotage, que virou sabotagem em português, e também resultou no verbo sabotar. Nas lutas operárias do século XIX, qualquer danificação intencional de alguma coisa, com propósitos políticos ou sindicais, passou a se chamar sabotagem.

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Nos livros de História, estudamos que a primeira capital brasileira foi Salvador, depois a capital mudou para o Rio de Janeiro e finalmente para Brasília. Em relação aos estados, ficamos sabendo que Olinda foi a primeira capital pernambucana, antes de Recife, e que Ouro Preto precedeu Belo Horizonte, em Minas Gerais. Mas antes de Ouro Preto, Mariana foi capital mineira. E em outros estados? Muita gente nem imagina que Oeiras foi capital piauiense antes de Teresina, Barcelos foi a primeira capital do Amazonas, a cidade de Goiás foi capital antes de Goiânia, Niterói foi capital do estado do Rio de Janeiro (com a unificação dos estados do Rio e da Guanabara, a capital foi para a cidade do Rio de Janeiro), antes de Aracaju, São Cristóvão era capital de Sergipe e em Mato Grosso a capital, antes de Cuiabá, era Vila Bela da Santíssima Trindade.

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Levi Hutchins tinha 26 anos em 1787 e já era fabricante de relógios numa cidade da Pensilvânia (EUA). Ele se levantava religiosamente às 4h da manhã, mas às vezes dormia um pouco mais e passava o dia injuriado por isso. Mas como acordar na hora que queria? Inventou o despertador.

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Daniela Mercury, famosa cantora baiana, assumiu um amor homossexual no ano 2013. Tem gente que pensa que lesbianismo é coisa relativamente recente. Não é. Basta lembrar de Safo, poetisa grega que viveu por volta do ano 600 a.C. Algumas famosas que eram lésbicas: as escritoras Virgínia Woolf, inglesa (1882-1941), Madame de Stäel, francesa (1766-1817) e Gertrude Stein, estadunidense (1874-1946). E também a Rainha Cristina, da Suécia (1626-1689).

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“Mãos ao alto!” é uma expressão muito comum em filmes de bangue-bangue, mas a atitude de levantar as mãos como sinal de rendição, exibindo-as sem armas, é muito antiga. Há inscrições de séculos antes de Cristo mostrando vencidos de mãos levantadas, como gesto de submissão.

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Depois da derrota do exército de Napoleão Bonaparte, na Rússia – em que o inverno foi fator determinante e a fome também (no clima gelado, em que a população russa se refugiou longe, levando os alimentos) –, pensando em evitar que seu exército fosse novamente derrotado por falta de comida, Napoleão resolveu premiar quem inventasse um meio de conservar alimentos por longo tempo, e surgiram os alimentos enlatados. Isso foi uma revolução enorme. Depois, sem possibilidade de receber açúcar das Américas, durante a guerra com os ingleses que dominavam os mares, o prêmio era para quem descobrisse uma técnica de produção de açúcar sem que fosse da cana, planta que só dá em clima tropical, e surgiu o açúcar de beterraba. Um sucessor dele, Napoleão III, repetiu um feito assim: em 1869, às vésperas da guerra Franco-Prussiana, havia escassez de manteiga e ele decidiu premiar quem produzisse algo capaz de substituir a manteiga e pudesse ser conservado em navios. Um tal de Hyppolite Mewge-Mouries, então, inventou a margarina. A margarina primeiro se tornou popular na Europa e, com a escassez de manteiga nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra, ganhou mercado lá também.

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O ditado “De boas intenções, o inferno está cheio” é um pouco mais amplo em espanhol: “De buenas intenciones está el infierno lleno, y de malas, infierno y medio”.

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Depois da Independência do Brasil, os brasileiros, na grande maioria, continuaram na mesma situação de penúria, a economia e o poder local em vários lugares continuava com os portugueses. Quando Dom Pedro I voltou para Portugal, surgiram movimentos de lusitanos querendo-o de volta. Em Cuiabá, eles eram chamados de “restauradores”. Sentiam-se ainda os mandões. Em 31 de maio de 1834 estourou na cidade uma revolta chamada “Rusgas de Cuiabá”, uma verdadeira explosão popular contra tudo que fosse português. Houve invasões de moradias e de casas comerciais, chacinas, queima de cadáveres, incêndios e violação de mulheres. Mais de cem pessoas foram mortas, na revolta que durou até 5 de junho.

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A primeira troupe negra dos Estados Unidos a se apresentar em Paris foi a La Revue Nègre, em 1925. Apesar de ter grandes nomes no grupo, quem se destacou foi Josephine Baker, que tinha 18 anos de idade. Filha de uma lavadeira, ela lançava murmúrios nos entremeios das músicas que cantava com voz de soprano. E dançava maravilhosamente. Os franceses se apaixonaram por ela.

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No Egito antigo, a cebola não era um “tempero”, mas sim o alimento básico dos escravos.

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A altura da pirâmide de Quéops é de 148,2 metros. A distância entre a Terra e o Sol é de 148,2 milhões de quilômetros. Coincidência?

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Provérbios persas: “Na hora de dormir, um leito de algodão vale mais do que um de pérolas”; “A morte só vem na hora certa para o nosso vizinho” e “Não se deve exigir perfeição da natureza humana, pois jamais as rosas florescem em pântanos”.

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Uma bailarina italiana, linda e sensual, provocou furor no Rio de Janeiro, em 1851. O nome dela era Marietta Baderna, e seus fãs exaltados passaram a ser chamados inicialmente de badernas, e depois de baderneiros. Foi assim que baderna virou sinônimo de bagunça, confusão. Viva a Marietta! Viva a baderna!

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV e VI na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.