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Cultura Inútil: Ode à preguiça

preguiça cultura inútil mouzar[Fotograma do filme Macunaíma (1969), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade.]

Por Mouzar Benedito.

“Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos” — pode ter algo de marxista nesse pensamento? Bom… a frase não foi exatamente empregada por Karl Marx, mas foi escolhida pelo genro dele, Paul Lafargue (casado com Laura Marx), como epígrafe de um de seus livros mais ilustres: O direito à preguiça.

Li esse livro há um tempão e desde então virei seu fã. Nele, esse meu ídolo disse, entre outras coisas: “Que se proclamem os Direitos da Preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem. Que as pessoas se obriguem a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite”. E mais: “Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal. Depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade”.

Meu amigo Zé Roberto Alencar (que infelizmente não viveu para ver isso — e nem eu vou viver), defendia (e eu o apoiava) que as pessoas deveriam trabalhar apenas um dia por mês. Há ou haverá tecnologia para se produzir tudo o que precisamos sem ter que trabalhar muito. Assim, por exemplo, se meu dia de trabalho fosse o 21 de cada mês, no dia 20 eu não faria nenhum excesso, passaria me preparando física e psicologicamente para trabalhar no dia seguinte. E do dia 22 em diante, até o 19 de cada mês seguinte, seria só alegria, dedicação a atividades artísticas e coisas gostosas de se fazer.

Já sei que algumas pessoas vão resmungar, contra essa “vagabundagem” que a gente quer. Acreditam que cabeça ociosa é oficina do diabo. E de certa forma, é: quem está desocupado pode pensar em coisas que não convêm ao status quo. Esse é um dos motivos pelos quais há instituições patronais e governamentais que “oferecem” atividades de lazer aos trabalhadores. Lazer, no caso, implica em atividade, é diferente do ócio.

Na primeira eleição depois da II Guerra Mundial e do fim da ditadura no Brasil, o Partido Comunista teve uma grande vocação, e muitos trabalhadores se interessaram por política, pela esquerda. Foi aí que empresários e gente do governo se reuniram e resolveram criar o Sesc e o Sesi, para oferecer aos trabalhadores da indústria e do comércio, nas suas horas de folga, atividades de esporte e lazer em geral, de maneira que os desviassem da política. Não deu tão certo assim, e essas entidades não se dedicam — pelo menos nos dias de hoje — a desviar trabalhadores da política.

Antes de continuar, aí vão alguns sinônimos de preguiça: preguiceira, ignávia, indolência, lombeira, modorra, moleza, inação, vadiação, vadiagem, madraçaria, ócio, ociosidade, pachorra, mangona, calaçaria, sornice, marasmo, vagabundagem, inatividade, inércia, mandria e mandriíce. E quem pratica a preguiça, como o chamam, além de preguiçoso? Aí vão alguns adjetivos relativos a ele: indolente, mandrião, pachorrento, ignavo, ocioso, vadio, vagabundo, inativo, preguiceiro, lânguido, modorrento

Mas voltemos ao Lafargue. No seu livro, ele disse também que “o trabalho desenfreado é o mais terrível flagelo que já atacou a humanidade”, e que “os filósofos da antiguidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses”.

Pensando nele, selecionei algumas frases e alguns ditados populares sobre a preguiça. Mas enquanto fazia isso fui me lembrando de algumas coisas que conto antes de apresentar essa minha “pesquisa”.

Alemães exemplares

Quando comecei o curso de Geografia na USP, em 1967, uma das excursões de estudos que fazíamos era ao “Sertão de Santo Amaro”. Isso mesmo: uma região bem grande, no sul do município de São Paulo, era um sertão de verdade.

Para chegar a Parelheiros, lugar ainda hoje considerado distante, mas relativamente populoso e servido por muitas linhas de ônibus, na época era por estradinhas de terra batida e tendo que pegar duas ou três balsas. A população era pequena e a maioria dos moradores dali achava que a cidade de São Paulo tinha como centro o Largo 13 de Maio, em Santo Amaro. Quase nenhum morador do “Sertão de Santo Amaro” tinha ido além do Largo 13, e muitos nem chegaram lá. Eram roceiros como os de qualquer outro lugar.

Na beira das estradas havia vendinhas típicas da roça de qualquer lugar da época, com cavalo selados parados na porta e, dentro, alguns homens tomando cachaça, pitando um cigarrinho de palha e conversando com sotaque bem caipira. E, surpresa: havia entre eles loiros de olhos azuis. Mas como os demais, usavam roupas de roceiros e chapéu de palha, calçavam botina ou andavam descalços, e não raramente lhes faltavam dentes da frente. Os nomes deles? Hans, Fritz…

— Como!? — os estudantes pasmos perguntavam ao professor.

E ele explicava: quando Dom Pedro I era imperador, a princesa Leopoldina dizia que brasileiro era indolente, preguiçoso. Os roceiros não gostavam de trabalhar e produziam pouco mais que o suficiente para sua família sobreviver. Isso, claro, não contando os donos de engenhos de açúcar e outras agroindústrias que, com o trabalho escravo, produziam mercadorias exportáveis. E também muitos brasileiros urbanos que consideravam o trabalho uma coisa indigna, só de escravos.

Um parêntese aqui: Monteiro Lobato no início do século XX, criou o personagem Jeca Tatu, indolente e preguiçoso, como ele achava que eram todos os roceiros daqui, ao contrário dos imigrantes, trabalhadores e dinâmicos. Depois, ele fez uma autocrítica, constatando que eles eram vítimas muitas doenças, como o impaludismo, que provocavam essa moleza. Além disso, os lavradores imigrantes recebiam apoio do governo, e os brasileiros não.

Voltando à princesa Leopoldina, ela convenceu Dom Pedro a trazer para cá um monte de agricultores alemães, para servirem de exemplo aos brasileiros. Vendo os alemães produzirem bastante e “progredirem”, os brasileiros poderiam se aculturar, seguir o exemplo dos alemães. Assim, trouxeram para perto de São Paulo, onde o clima é menos quente que lá pelas bandas da antiga corte, centenas de famílias alemãs.

Acontece que alemão trabalhava tanto assim lá na terra deles, que tem um inverno rigoroso e, além de precisarem de casas e roupas que os protegiam do frio, necessitavam também acumular alimentos para o inverno inteiro. Aqui, não precisavam nada disso. E foram eles os aculturados pelos nossos caipiras.

Viva Caymmi!

Os baianos têm fama de cultuar a preguiça. Não é bem assim, trabalha-se muito na Bahia. Mas, bons gozadores, os baianos brincam com isso. Alguns deles, meus amigos, fazem piada sobre a suposta preguiça que lhes seria característica. Um deles me disse que baiano, para morrer de repente, gasta uma semana. Outro disse que um menino se espreguiçava deitado numa rede, com os pés fora dela, apoiados no chão, e perguntou calmamente para a mãe: “Mãínha… mordida de tartaruga mata?”. A mãe respondeu calmamente também: “Não, meu filho. Mata não! Alguma tartaruga te mordeu?”. E a resposta do menino: “Mordeu não, mãinha… mas tem uma vindo no meu rumo”.

E alguns grandes baianos fazem ou fizeram loas à preguiça. Um deles — olha aí outro ídolo meu — foi Dorival Caymmi. Há até uma piada que ele estava conversando com Jorge Amado, um dia, numa varanda. Caymmi deitado numa rede, com os pés apoiados no chão, e Jorge Amado, de frente para ele, numa cadeira de balanço. A certa altura, Caymmi perguntou: “Jorge… Você que está de frente para mim, me diga: minha braguilha está aberta?”. Jorge Amado respondeu: “Está não, Dorival”. E a conclusão de Caymmi: “Então eu mijo amanhã”.

Preguiçoso inigualável

Um exemplo verdadeiro de preguiça eu não vi na Bahia, foi na minha terra mesmo, em Minas, um sujeito conhecido como Julinho da Penha. Andava numa lentidão que parecia bicho preguiça. E não falava.

Um dia, já morando em São Paulo, fui a Nova Resende e estava conversando com um amigo, o Tião Dentista, na porta de um bar, quando vi o Julinho se aproximando a uns trinta metros de distância. Falei com o Tião: “Olha o Julinho, aquele mudo. Eu não via ele desde que mudei daqui”. O Tião me disse: “Ele não é mudo, não”. Dei risada, discordei: “Eu nunca ouvi ele falar nada!”. É por preguiça que ele não fala”, afirmou o Tião. Não acreditei e meu amigo propôs uma aposta que aceitei. Se o Julinho falasse qualquer coisa, eu perderia a aposta.

Só depois dessa discussão toda e da aposta é que o Julinho da Penha chegou até nós, em sua caminhada lerda, com apoio de um cajado. Parou de frente para nós, levantou a mão direita vagarosamente até perto da boca e movimentou os dedos para frente e para trás, sempre muito devagar, pedindo comida.

O Tião falou: “Olha Julinho, eu pago um sanduíche procê, mas você vai ter que falar ‘eu quero comer’”. O Julinho fez uma cara triste, mas o Tião insistiu: “Se não falar, não come”.

E não adiantou a cara de quase choro do Julinho. “Se não falar, não come”, insistia meu amigo. Eu estava com uma baita pena do cara, ia falar pro Tião que ia pagar o sanduíche pro Julinho, quando ele falou, baixo, devagar: “Eeeeuuuu queeerooo cuuuummmêêêê…”.

Um deus brasileiríssimo

Quem criou o Céu e a Terra? Deus, claro!, dizem os cristãos. Mas para povos indígenas de Roraima, o deus criador do mundo foi Macunaima (pronuncia-se macunáima, e não macunaíma, como teve o nome adaptado no romance de Mário de Andrade). Nas lendas indígenas, era brincalhão e gozador, muito diferente dos deuses caretas e carrancudos da Grécia e de Roma. Mas não perdoava os inimigos: transformava-os em pedras.

Mário de Andrade, grande pesquisador da cultura brasileira, conheceu a história dele e escreveu seu belo romance (que virou ótimo filme também) chamado Macunaíma, publicado em 1928.

No livro, filho de índios, Macunaíma é um herói sem nenhum caráter, na verdade um anti-herói, representante do povo brasileiro. Quando aprendeu a falar, a primeira coisa que disse foi: “Ai que preguiça”.

Por falar nisso, lembro-me de uma menininha bem preguiçosa, neta de um colega de trabalho que dizia: “Pregui…”, quando perguntavam o que ela tinha. Não falava nem a palavra preguiça inteira.

Bom, vamos às frases… Mas antes, mais uma coisa: certamente alguém vai se lembrar do bicho preguiça. Tá aí um animal símbolo das minhas propostas. Mas em tupi, o nome dele não tem nada a ver com preguiça, é “aí” ou “aígue”, que não significa nada, é a voz onomatopaica do bicho, quer dizer, o som que ele emite.

Frases e ditados

Mário Quintana: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”.

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Agatha Christie: “Não acho que a necessidade é a mãe da invenção – uma invenção, na minha opinião, surge diretamente da indolência, possivelmente também da preguiça. Para poupar-se trabalho”.

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Jerome K. Jerome: “É impossível desfrutar completamente a preguiça, a menos que se tenha muito o que fazer”

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Eça de Queiroz: “Não há profissão mais absorvente que a vadiagem”.

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Jules Renard: “Preguiça – o hábito de descansar antes da fadiga”.

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Vicente Avelino: “A preguiça é a delícia de não ser, para gozar certas volúpias do ser”.

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Jean-Jacques Rousseau: “Rico ou pobre, todo preguiçoso é um cretino”.

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O povo (ditado popular): “Para o preguiçoso, todos os dias são feriados”.

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Autor desconhecido: “Nunca faça amanhã o que pode deixar para depois de amanhã”.

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Clarice Lispector: “Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e agora sono”.

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Clarice Lispector, de novo: “Recuso-me a ser um fato consumado. Por enquanto sobrenado na preguiça”.

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François La Rochefoucauld: “Temos mais preguiça no espírito que no corpo”.

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Marquês de Maricá: “A paciência, em muitos caso, não é mais senão medo, preguiça ou impotência”.

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O povo (ditado popular): “A preguiça é muitas vezes confundida com paciência”.

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Francis Bacon: “Passar muito tempo a estudar é preguiça”.

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Mia Couto: “Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que a doença: é preciso entrar e sair dela”.

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Charles Bukowski: “Tudo que era mau me atraía: gostava de beber, era preguiçoso, não defendia nenhum deus, nenhuma opinião política, nenhuma ideia, nenhum ideal. Eu estava instalado no vazio, na inexistência, e aceitava isso. Tudo isso fazia de mim uma pessoa desinteressante. Mas eu não queria ser interessante, era muito difícil”.

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Bukowski, de novo: “Minha ambição é prejudicada pela minha preguiça”.

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Tati Bernardi: “O bom de ficar velho é que dá uma preguiça de sofrer”.

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Luc de Clapiers Vauvernagues: “Os preguiçosos têm sempre vontade de fazer alguma coisa”.

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Vauvenargues, de novo: “A indolência é o sonho do espírito”.

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O povo (ditado popular): “O diabo tenta o homem, e o ocioso tenta o diabo”.

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Sócrates: “Chamo de preguiçoso o homem que poderia estar melhor empregado”.

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Aviso na porta de um bar da Vila Madalena, em São Paulo: “Não abriremos hoje. Motivo: preguiça”.

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Jean de la Bruyere: “É por fraqueza que odiamos um inimigo e pensamos em nos vingar; é por preguiça que nos acalmamos, desistindo da vingança”.

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Artur Renzo (editor do Blog da Boitempo): “Pensei em fazer uma frase para acrescentar aqui, mas deu preguiça. Então vai um vídeo do Adoniran em um de seus melhores momentos captado pelo programa Radiola, da TV Cultura:”

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O povo (ditado popular): “A preguiça não lava a cabeça e, se a lava, não se penteia”.

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Miguel Unamuno: “A erudição é, em muitos casos, uma forma mal disfarçada de preguiça intelectual ou um ópio para adormecer as inquietações íntimas do espírito”.

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Samuel Taylor Coleridge: “O amor à indolência é universal, ou pouco menos”.

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O povo (ditado popular): “A preguiça caminha tão devagar que a pobreza em pouco tempo a alcança”.

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Charles Baudelaire: “A alma toma cá um banho aromatizado pela saudade e pelo desejo. É algo crepuscular, azulado e rosado, um sonho voluptuoso durante um eclipse”.

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O povo (ditado popular): “Preguiça não faz casa de sobrado”.

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Sébastien Roch Chamfort: “É de se desejar a preguiça dos maus e o silêncio dos tolos”.

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Alphonse Allais: “Um preguiçoso é um homem que não finge que trabalha”.

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Jaime Balmes: “O preguiçoso é um relógio sem corda”.

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O povo (ditado popular): “Não há domingo sem missa, nem segunda-feira sem preguiça”.

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Termino com a letra da música “Sossego”, de Tim Maia. Tem gente que considera essa música um hino e sonha com ela sendo tocada em datas cívicas, até com desfiles… Sugiro que a ouçam, é fácil baixar na internet. E imaginem a gente cantando isso como um hino!

Sossego

Ora bolas, não me amole
Com esse papo, de emprego.
Não está vendo, não estou nessa.
O que eu quero?
Sossego, eu quero sossego!

O que eu quero? Sossego!
O que eu quero? Sossego!
O que eu quero? Sossego!
O que eu quero? Sossego!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: “Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?”

Mouzar Benedito vidaPor Mouzar Benedito.

(*A pergunta que dá título a esta coluna foi posta por Nietzsche.)

Emplacamos 2016! E não é que conseguimos sobreviver a um 2015 pra lá de complicado? É certo que muitos de nós nos ferramos bastante, mas cá estamos. Então, começo o ano registrando aqui frases e ditados sobre a vida. Continuar lendo

Dá para ser feliz no Natal!

natal mouzarPor Mouzar Benedito.

Mês de dezembro é um saco, digo todos os anos.

Os bares ficam lotados, muitas vezes com comemorações de fim de ano, promovidas por empresas, e geralmente há nesses grupos pessoas que não são acostumadas a beber e, quando bebem, começam a dar risadas estridentes, falar gritando, batucar desafinadamente em garrafas, e por aí vai. Continuar lendo

Frases de defeito: quem nunca cometeu?

frases de defeito mouzarPor Mouzar Benedito.

Quem entra na chuva é para se queimar”, dizia Vicente Matheus, então folclórico presidente do Corinthians.

Suas frases ficaram célebres. Por exemplo: quando se falava de times que queriam tirar o jogador Sócrates do Corinthians, levando-o por empréstimo ou comprando o passe dele, Matheus foi firme: “O Sócrates é invendável e imprestável”. Continuar lendo

Cultura Inútil: Sobre a avareza e os avarentos

avareza mouzarPor Mouzar Benedito.

Pão-duro, fominha, filárgiro, munheca, mão de vaca, ridico (corruptela de ridículo), vinagre, casca, socranca, somítico, gaveteiro, sovina, forra-gaitas, muquirana, mofino, agarrado, usureiro, morrinha, avarento, avaro, cobiçoso, unha de fome, miserável, mão fechada, mesquinho, sórdido, munheca de samambaia, sovelão, resmelengo, muxiba, fuinha, morto de fome, tacanho, sovina, unhaca, tranca, mão-de-vaca… São muitos os sinônimos que identificam as pessoas obcecadas por acumular dinheiro. Continuar lendo

Cultura Inútil: Seja homem, já que sua mãe não foi!

cultura inútil seja um homemPor Mouzar Benedito.

A frase que intitula este texto era, numa época, em alguns lugares, uma forma brincalhona de chamar um sujeito à responsabilidade, a tomar uma atitude decente.

Bem, o que é “ser homem”? Há muitos conceitos: sociológico, biológico e outros funcionando mais como adjetivos. Continuar lendo

Cultura Inútil: Crianças, melhor não tê-las?

crianças mouzarPor Mouzar Benedito.

* Título inspirado no “Poema Enjoadinho”, de Vinícius de Moraes, que começa assim:

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los.
Mas se não os temos,
Como sabê-lo?

Colecionei frases sobre crianças, ditas por filósofos, educadores, escritores (principalmente poetas) mães e pais… São anjos às vezes incompreendidos. Bem, nem sempre. Vou apresentar parte delas, e também ditados populares. Continuar lendo

De bar em bar: passarela do álcool e algo mais em Porto Seguro

mouzar passarelaPor Mouzar Benedito.

Baiano é bom pra inventar nomes de lugares. No centro de Porto Seguro, uma sequência enorme de barraquinhas que vendem bebidas é conhecida como “passarela do álcool”. A bebida típica do local tem o nome de “capeta”. É feita com vodka, pó de guaraná, leite condensado, canela e outros ingredientes, além de gelo, tudo batido no liquidificador.

Uma época, há muitos anos, a Célia e eu estávamos lá e fomos a uma barraquinha beber só vodka e gelo, e o preço era uma coisa estranha: o capeta, com todos os ingredientes e uma dose generosa de vodka custava R$ 1,50. Uma dose de vodka Smirnoff (a mesma usada no preparo do capeta) e gelo custava R$ 2,00. Pedimos então dois capetas sem guaraná, sem leite condensado, sem canela, sem mais nada além do gelo, e pagamos R$ 1,50 por uma dose que era praticamente o dobro da dose normal, que custava R$ 2,00.

Antes dessa viagem, quando uns amigos souberam que eu ia para Porto Seguro, me disseram que um conterrâneo meu, o Toninho, havia vendido a rede de lojas Courominas em São Paulo e Minas e mudado para Porto Seguro, onde tinha uma barraca de praia. Estranhei. O Toninho tinha uma capacidade enorme pra ganhar dinheiro, e a Courominas era muito lucrativa, e ele não fazia o gênero hippie. Como podia vender tudo e ir cuidar de uma barraca de praia? Para mim, barraca de praia era um quiosque com meia dúzia de mesas em volta.

Garantiram que era verdade, e me disseram que o nome da barraca dele, Barramares. Na cidade, os moradores me informaram que era uma barraca “grande”, no caminho para a Coroa Vermelha. Pegamos um ônibus e fomos lá. Surpresa! Põe grande nisso! Parecia um centro de lazer daqueles filmes norte-americanos, um troço muito grande mesmo.

Dentro da “barraca” havia dois restaurantes, três bares e mais um monte de coisas, e o Toninho tinha 180 empregados. Estava explicado. E seu toque de Midas continuava funcionando. Ele levou pra ser o gerente da barraca o seu primo Geleia, de um povoado que tinha o apelido de Santa Cruz das Sete Facadas, perto de Nova Resende.

“Como é que o Geleia, acostumado a mexer com vacas, vai tocar um complexo de bares e restaurantes desse, a beira mar?”, todo mundo se perguntava no início. Pois em um mês o Geleia já era o sujeito mais popular de Porto Seguro. Amigo de todo mundo. Os pescadores reservavam para ele os melhores peixes e melhores camarões. Os guias turísticos levavam os grupos para lá, espontaneamente. Tudo por causa do Geleia. E ele retribuía: cada motorista de ônibus de turismo e cada guia tinham direito a um almoço e uma cerveja grátis.

Quando cheguei lá, o cantor mais popular de Porto Seguro estava agitando a galera, coordenando um grupo de mais de cem pessoas a dançar a “lambaeróbica”, um misto de lambada e ginástica aeróbica. Ele gritava: o casal que dançar melhor ganha um chope… Um para o homem e outro para a mulher… E todo mundo se animava, se agitava debaixo daquele solzão. Quando pararam, alguns minutos depois, o casal considerado vencedor ganhou os dois chopes, um para cada, e tomou muitos e muitos outros. E todos os participantes, uns cinquenta casais, que não ganharam, beberam muitos chopes também…

Para se ter ideia do movimento do local, havia dentro da “barraca” dois postos bancários: um do Banco do Brasil e outro da Caixa Econômica, exclusivos para os frequentadores, pois não havia nada perto dali.

Mas o que achei mais interessante era que no meio da Barramares, entre os bares e restaurantes, havia um córrego, e no meio dele uma pequeníssima ilha de uns quatro metros de diâmetro. O córrego era raso, a água não passava da canela. E na ilha havia uma placa: “Ilha do Top-Less”. Muitas moças acreditavam. Iam até a ilha, tiravam a parte de cima do biquíni e ficavam tomando sol e exibindo os seios para a gente. Para sair da “ilha” colocavam o sutiã de novo. Isso é que é seguir regras!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

De bar em bar: 1° de Abril!

mouzar 1 arilPor Mouzar Benedito.

Campinas, uma das maiores cidades paulistas, tem algumas coisas muito diferentes. Uma delas, que surpreende muita gente, é o quartel do Exército.

A três quilômetros do centro da cidade, o quartel tem uma área enorme e é cercado apenas por uma mureta de menos de um metro de altura, toda pintada de cor-de-rosa. E todos os prédios lá dentro também são dessa cor, que parece não combinar bem com o verde-oliva tradicional do Exército. Mas acaba sendo uma visão agradável, um respiro da cidade grande, aquela ampla área verde (não oliva, mas do gramado extenso e das árvores) com construções da cor tida como feminina. Continuar lendo

Cultura Inútil: Mulheres de Pompeia já tinham que depilar a púbis no século I

mouzar benedito cultura inútil pompéiaPor Mouzar Benedito.

Pichação de paredes é coisa mais antiga do que imaginamos. Numa das poucas paredes que não caíram quando uma erupção do vulcão Vesúvio destruiu a cidade de Pompeia, no sul da Itália, estava escrito: “Gosto de mulheres com cabelos nos lugares certos, e não depilada e raspada. A gente pode então se abrigar do frio, como se fosse um casaco”. Enfim, a depilação da área genital feminina também é coisa antiga, assim como vontade de externar a preferência contra ela.

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A Rainha Vitória, que ocupou o trono durante 64 anos, nunca falou inglês com perfeição: sua mãe era filha de um duque alemão e só falava inglês em casa.

* * * Continuar lendo