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Onde o rato sumiu? Músicas com letras que me marcaram

15.07.14_Mouzar Benedito_LupcínioPor Mouzar Benedito.

Quando o governo Costa e Silva resolveu baixar o Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5, só um membro do governo teve reação contrária: o vice-presidente Pedro Aleixo disse temer o resultado dele.

Alguém, acho que o próprio ministro da Justiça, Gama e Silva, autor do texto, ficou bravo e perguntou: “Você não confia nos nossos generais?”.

Pedro Aleixo respondeu: “Nos generais, eu confio. O que eu não confio é no guarda da esquina”. Bom, eu não confiaria nem nos generais nem nos guardas da esquina, mas realmente, com o endurecimento da ditadura, tudo quanto é “guarda da esquina” passou a se sentir uma grande “otoridade” e cometer abusos de todos os tipos. Porteiro de prédio, por exemplo, se julgava imperador do condomínio, se sentia com poderes para ameaçar quem quer fosse, de visitas a moradores.

Um exemplo que me lembro bem dessas “otoridades” é de um motorista de ônibus. Eu estudava Geografia na USP e muitos dos meus colegas gostavam muito de cantar. No ônibus da Cidade Universitária para o centro, no final das aulas, lá pelas onze da noite, o pessoal já entrava cantando, mas não era coisa barulhenta. Eram músicas bonitas, cantadas baixinho. Não chegava nem a incomodar quem estivesse conversando com outro passageiro.

Um dia, quando o pessoal foi entrando no ônibus, o motorista gritou: “Se cantar eu levo direto pra delegacia”.

Um dos meus colegas perguntou: “E falar, pode?”. O motorista ameaçou ficar bravo: “Tá me gozando?”. “Pode ou não pode?” “Claro que pode”. Aí esse colega começou a falar: “Meu coração, quando te vê, bate feliz, não sei porquê…”, e foi acompanhado por todo mundo “falando” a letra da música Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro.

A mais admirada do poeta

Lembrando dessa história e da música Carinhoso, vieram ao meu pensamento algumas letras maravilhosas da música popular brasileira. O poeta Manuel Bandeira disse certa vez que, se se fizesse um concurso para escolher “o verso mais bonito da nossa língua”, provavelmente votaria naquele que diz: “Tu pisavas nos astros distraída”, referindo-se à música Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. É uma música com letra inteira muito bonita, e esse verso faz parte da estrofe que diz:

A porta do barraco era sem trinco
e a lua furando nosso zinco
salpicava de estrelas o nosso chão .

E tu pisavas nos astros distraída,
sem saber que a ventura desta vida
é a cabrocha, o luar e o violão…

Acho bonito também. É uma letra muito poética. Fico admirado pensando não só nas maravilhas feitas por compositores bem formados, mas também por pessoas que tiveram uma vida dura e pouca formação escolar, como Cartola e Nelson Cavaquinho. Eles e muitos outros faziam letras muito elaboradas, até sofisticadas.

Mas gosto também de lembrar de outros estilos, do humor aos xingamentos.

Pobre, mas estiloso

De humor, nem vale lembrar Noel Rosa, um mestre. Cito João da Baiana, no samba Cabide de Molambo, que tem um trecho assim:

Meu Deus, meu Deus eu ando com sapato furado,
tenho a mania de andar engravatado.
A minha cama é um pedaço de esteira
e uma lata velha que me serve de cadeira.

Minha camisa foi encontrada na praia,
a gravata foi achada na ilha da Sapucaia;
meu terno branco parece casca de alho,
foi a deixa de um cadáver num acidente de trabalho…

Agora vejam uma sacada genial de Adoniran Barbosa, na música Tocar na Banda:

Num relógio é quatro e vinte,
no outro é quatro e meia;
é que de um relógio pra outro
as horas vareia.

Mestres das imprecações

Lupicínio Rodrigues, autor de músicas belíssimas, é mais lembrado por algumas no estilo dor de cotovelo e outras cheias de imprecações. Tinha cada samba-canção que deixava a gente com sensação de quase pavor. A música Vingança, por exemplo, diz no início:

Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar…

No fim dela mesma, tem esses versos: 

Mas, enquanto houver força em meu peito
eu não quero mais nada:

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
que rolam na estrada,
sem ter nunca um cantinho de seu
pra poder descansar.

Falando de imprecações, não poderia deixar o tango de lado. Certo, tango é argentino, não é brasileiro. Mas houve uma época em que era comum aqui, tinha inclusive bons compositores brasileiros dedicados ao gênero. E, para o meu gosto, um dos maiores cantores de tango de todos os tempos era o brasileiro Nelson Gonçalves, mais conhecido como intérprete de sambas-canções, mas que não deixava nada a desejar interpretando tangos, compostos aqui mesmo ou traduzidos.

Preciso lembrar aqui que tango, no início, na Argentina, não era música de tragédias. Foi criado por negros e suas letras eram alegres, até que foi assumido pelos brancos de classe média, aí sim virou uma coisa tão trágica que quando alguém tinha uma vida cheia de sofrimentos, aqui no Brasil, dizia: “Minha vida dá um tango”.

Embora lembrando de alguns tangos brasileiros, vou citar aqui um argentino que, acredito, foi o maior mestre das letras arrebatadoras e arrebentadoras. Seu nome é Enrique Santos Discépolo. Basta lembrar a letra de Cambalache, tango proibido na Argentina na época da ditadura. Aqui, ele foi cantado (em castelhano mesmo) por Caetano Veloso e fez o maior sucesso. Mas na linha das imprecações, um tango arrasador, de autoria de Discépolo, é Esta noche me emborracho, traduzido para o português (Esta noite me embriago) e cantado por Nelson Gonçalves. Falando de uma ex-amada, ele começa assim:

Triste, sozinha desprezada
a vi de madrugada sair de um cabaré.
Fraca, mostrando que a sorte
destruiu todo seu porte
sem lhe dar vez.

Magra, vestida sem aprumo
a exibir sem rumo sua nudez
fez de si um quadro sem valor
mostrando sem pudor
seu corpo sem calor…

Ex-namorada, por sinal, é tema de muitas letras malvadas, e não é só em tango que Nelson Gonçalves desanca uma. O samba-canção Revolta, dele e Raul Sampaio, tem um trecho assim:

É meu consolo acreditar que estás sofrendo
e em sua vida de prazeres vives louca…

Nessas imprecações, às vezes era preciso encontrar formas elaboradas para descrever a decadência de uma pessoa. Não valia dizer que “minha ‘ex’ virou puta e foi pra zona. Paguei pra transar com ela”. Vejam uma forma Adelino Moreira encontrou pra dizer isso, no samba-canção A flor do meu bairro, cantado por Nelson Gonçalves:

Hoje, depois de alguns anos,
Eu encontrei-me com ela
Na rua dos desenganos,
Menos ingênua e mais bela.

Ela fingindo desejo,
a boca me ofereceu.

E eu paguei por um beijo
que no passado foi meu.

Bronca e tristeza

Nestes tempos em que é “politicamente correto” tentar controlar a vida alheia, com um “bom-mocismo” esquisito, como o que tenta proibir as pessoas de fumarem (“é para o bem delas”, dizem os cínicos), se eu tivesse bom ritmo e boa voz, sairia cantando bem alto:

Se eu quiser fumar eu fumo,
se eu quiser beber eu bebo,
não interessa a ninguém.

Ah, o fim dessa estrofe é assim:

Se o meu passado foi lama
hoje quem me difama
viveu na lama também.

Noel Rosa, em seu samba Último Desejo, também falando de uma “ex”, dá seu recado aos desafetos:

Às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é um botequim.

Que eu arruinei sua vida,
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

Agora, um estilo que acho muito bonito é o de Batatinha, compositor baiano que quase caiu no ostracismo, e uma das pessoas que não deixaram acontecer isso, cantando suas músicas maravilhosas, é Maria Bethânia. Batatinha compunha músicas alegres, mas algumas com letras tristes, que pareciam não combinar com elas. Mas combinava, de maneira provocante e bonita. É o caso de O Circo, que começa assim:

Todo mundo vai ao circo,
menos eu, menos eu.

Por não poder pagar ingresso
fico de fora escutando as gargalhadas…

Para terminar, safadezas

Ah, as músicas com letras safadas… Escutei muitas por aí. E lembro de uma ouvida em Minas. Mas antes de falar dela, aí vai o motivo por que me lembrei da dita cuja: uma vez, numa véspera de Natal com a família quase toda reunida na chácara de um dos meus irmãos, os três filhos dele, meninos que, se me lembro bem, tinham respectivamente 8, 6 e 4 anos de idade, estavam numa fase de cantar e de vez em quando pediam a todos que os ouvissem interpretando musiquinhas infantis.

Chamei os três de lado e falei que ia ensinar uma música a eles. O mais velho falou: “Não, a mamãe falou que você só ensina bobagem pra gente”. Pensei: “Ah, é? Eu ia ensinar uma música bonitinha, mas agora vou mudar”. E falei: “É a música do Lelê. Pergunte pra sua mãe se lelê é palavrão ou bobagem”.

Ele foi e perguntou: “Mamãe, lelê é palavrão?”. Ela disse que não e ele falou: “Então o Mouzar vai ensinar pra nós a música do lelê”. Ela permitiu.

Eu ensinei, eles puseram todo mundo a postos para ouvi-los e cantaram pomposos, deixando a mãe furiosa:

Subiu um rato na perna da comadre,
veio o compadre pra ver o que aconteceu.
Tirou a roupa da comadre e sacudiu,
mas ninguém sabe, ninguém viu
onde o rato se escondeu.
Foi no lelê que o rato sumiu,
foi no lelê que o rato sumiu.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Juízes exibidos e outras futebolices

14.06.25_Mouzar Benedito_Cidinho[O árbitro Alcebíades Magalhães Dias, "Cidinho Bola Nossa", entre Amaury de Castro, capitão do Cruzeiro, e o capitão do Siderúrgica. Moeda no ar para dar início à partida.]

Por Mouzar Benedito.

Aí vão mais umas historinhas com referências ao futebol. Se a gente for puxando pela memória, parece que a coisa não tem fim. Começo por histórias relacionadas aos juízes.

Juiz Bola Nossa

Alcebíades Magalhães Dias, o Cidinho, era juiz de futebol de Belo Horizonte e torcedor fanático do Atlético. Manipulou muitos jogos a favor do Galo. Uma vez, em 1949, apitando um jogo entre o Atlético e o Botafogo do Rio, o atleticano Afonso e o botafoguense Santo Cristo disputavam uma bola e ela saiu pela lateral. Ficaram discutindo e Afonso perguntou ao juiz de quem era a posse da bola. Cidinho tirou o apito da boca e respondeu ao atleticano:

― Afonso, a bola é nossa!

Ficou sendo conhecido como Juiz Bola Nossa

Pantera-Cor-de-Rosa

Quando estudei jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, tinha entre meus colegas de classe o atacante Lance, do Corinthians, o defensor Polaco, do Palmeiras, e o juiz de futebol Roberto Nunes Morgado.

Uns anos depois, Morgado, cheio de trique-triques, fazia umas arbitragens meio malucas, como uma vez que apitou o tempo todo sem entrar no campo, só correndo na lateral. Parecia que tinha pirado.

Num jogo entre São Paulo e Palmeiras, expulsou quatro jogadores do Palmeiras, e começaram a achar que ele tinha mesmo problemas psiquiátricos e chegaram a pedir um laudo médico para que continuasse sendo árbitro.

Em um jogo entre o Vasco e o Ferroviário do Ceará, pelo Campeonato Brasileiro de 1983, expulsou a PM que fazia a segurança na área interna do campo, dando cartão vermelho a ela.

Por causa de seus trejeitos (pelo que contam, inspirados em Armando Marques) e seu porte físico, alto e bem magro, ganhou o apelido de Pantera-Cor-de-Rosa.

Frequentador da Boca do Lixo, contraiu o vírus HIV e morreu de Aids em 1989.

E apareceu o Margarida

O catarinense Clésio Moreira dos Santos se inspirou em Armando Marques, Morgado e outros juízes polêmicos de futebol para criar seu próprio estilo. Além do uniforme todo cor-de-rosa (incluindo as chuteiras) fazia uma coreografia toda especial, criada por ele mesmo, que recebeu o nome de “passo da gazela”, e tornou-se um espetáculo à parte nos jogos em que apitava, na década de 1990. Recebeu o apelido de Margarida, que assimilou bem.

Popularizando a palavra “bicha”

Armando Marques foi um árbitro famoso nas décadas de 1960 e 70. Tinha atitudes polêmicas, como a expulsão de Pelé, quase sem motivo, aparentemente só para ter a glória de ter sido o primeiro (ou será único?) a expulsar o “rei” dos gramados.

Mas o que chamava mais a atenção eram seus trejeitos. Na época, a palavra bicha era sinônimo de gay apenas em São Paulo, e nos jogos do Corinthians no Pacaembu, quando ele entrava no gramado, toda a torcida corintiana gritava: “Bicha! Bicha!”. Assim essa gíria chegava pelas transmissões de TV aos lares de todo o Brasil e se tornou nacional.

Chuteiras inconvenientes

Agora, deixemos os juízes de lado.

Político dar jogo de camisas de futebol para times de várzea em véspera de eleição é coisa antiga. Aliás, dava-se até uniforme completo.

No início da década de 1960, um time de roça do interior de Santa Catarina jogava bem, mas era formado por gente bem pobre, e jogava-se descalço. Não tinha chuteiras. Pois um político deu um jogo completo de uniformes para o time, incluindo as chuteiras. Marcou-se um jogo com um adversário forte, para a estreia desse uniforme.

O problema era que aqueles craques que jogavam descalços não se deram bem com as chuteiras. Resultado: no fim do primeiro tempo, o time estava perdendo por 9 x 0. O diretor do time perguntou ao juiz se os jogadores podiam tirar as chuteiras e jogar descalço, como era seu hábito, o juiz permitiu e deu-se a redenção: empate de 9 x 9.

Receita para o artilheiro

Em Porto Feliz, interior do estado de São Paulo, havia um técnico de futebol muito interessante, cheio de fórmulas para marcar gols. Um dia, chamou o centro-avante e disse:

― Olha… Quando a bola bate no travessão e volta, o goleiro fica completamente perdido. Então se você ficar cara a cara com o goleiro, chute a bola no travessão de um jeito que ela volte direto pra você, aí, com o goleiro sem saber o que fazer, você manda pra dentro do gol.

Dias de Pelé

“Todo grosso tem seu dia de Pelé.”

Não sei de quem é essa frase, mas imagino que seja de Neném Prancha, que nos bons tempos do Botafogo do Rio torcia por ele e era considerado “filósofo da bola”, por suas frases de efeito. Por exemplo: “O pênalti é uma coisa tão importante que devia ser batido pelo presidente do clube”.

Mas o que me interessa mesmo é a frase inicial. Sempre, em qualquer time, tem um perna-de-pau que um dia desencanta, faz jogadas dignas de Pelé. Falo isso preferindo o futebol de Garrincha, mais divertido, gozador, como acho que deveria ser sempre o futebol, mas ele vai ficando uma coisa séria demais, não comporta gozações e brincadeiras como as de Garrincha, que chamava os marcadores de “João” e dava um baile neles, coisa que hoje seria considerada humilhação e justificaria pros adversários, e até para os comentaristas esportivos, que lhe metessem o sarrafo.

Bom, vou me lembrar de alguns grossos que tiveram seu dia de Pelé (ou de Garrincha), começando pelo Zé Cocão, goleiro do segundo time da Esportiva Nova Resende, que pegou o apelido por causa da cabeça grande. Frangueiro que só ele, um dia fechou o gol. Com suas defesas e o ataque funcionando, logo o time ganhava de 3 x 0. Zé Cocão pegou uma cadeira (não sei quem levou, mas o campo não tinha alambrado e era fácil chegar até o goleiro), óculos e jornal, pôs a cadeira no meio do gol, colocou os óculos e ficou fingindo ler o jornal. Imagine hoje… Seria agredido com certeza.

Outro é o Siriaco, lateral direito do mesmo segundo time da Esportiva Nova Resende. Talvez muitos leitores não saibam o que é isso de segundo time. É que no interior, antes do jogo pra valer, sempre havia uma preliminar entre esses times formados pelos que aspiravam ser titulares do primeiro time e uns jogadores que nunca seriam titulares, mas gostavam de jogar futebol e o pessoal da equipe gostava deles. O jogo dos segundos times era para a torcida ir se distraindo até começar o jogo do primeiro, o que valia.

Pois é, o Siriaco era grosso. Muito grosso. Nunca seria titular do primeiro time. Um dia, o goleiro lhe passou a bola na lateral direita, ele foi indo de cabeça baixa, driblando todo mundo, chegou ao gol adversário, driblou o goleiro e podia entrar com bola e tudo no gol, o que tentou fazer, mas, sem levantar a cabeça, deu de cara com a trave e a driblou também, só que pelo lado errado. Saiu pela linha de fundo. Se tivesse marcado o gol, Siriaco teria superado Pelé no seu famoso “Gol de Placa”, marcado no Maracanã, contra o Fluminense em 1961, em que ele pegou a bola passada pelo goleiro Gilmar perto da área, driblou quase todo o time do Fluminense e marcou um gol belíssimo, que mereceu uma placa feita pelo jornal “O Esporte”, considerando que aquele foi o gol mais bonito da história do Maracanã.

Outro grosso das minhas amizades que teve seu dia de Pelé foi o Cabeça de Vaca ― mais um do segundão da Esportiva Nova Resende.

Ele chutava mal, sem pontaria nenhuma. Nunca tinha marcado um gol. Mas num dia em que tinha chovido muito e o campo estava que era puro barro (não era gramado), pegou uma bola na entrada da área e a meteu no ângulo, sem chance de defesa para o goleiro. Todo mundo se surpreendeu. Dali a pouco, pegou outra bola ainda mais longe do gol e marcou outro gol belíssimo, com um chute certeiro.

Depois do final do jogo fui falar com ele. Perguntei se ele tinha treinado chutes de longe e ele me contou em segredo:

― Eu não chutei no gol. O Elias estava assistindo ao jogo em pé, atrás da linha de fundo, a uns cinco ou seis metros do gol. Estava de terno branco. Quando peguei a primeira bola, chutei pra sujar aquela roupa branquinha. Errei e marquei o gol. Veio a segunda bola, chutei nele de novo e errei de novo.

Pensou um pouco e falou:

― Ah, se o Elias ficasse sempre naquele lugar…

(Publicado originalmente na Revista do Brasil)

Quero o Paissandu no campeonato brasileiro!

Diante do tropeço do Santos frente ao invencível Barcelona, uma espécie de seleção mundial, lembro dos bons tempos do futebol brasileiro em que o campeonato nacional era chamado de “o melhor do mundo”, quando, em vez de brasileiros acompanhando campeonatos europeus, eram os europeus que acompanhavam com inveja, pela TV, os jogos dos nossos times.

O futebol brasileiro já teve momentos absurdos também, como no tempo da ditadura “Onde a Arena vai mal, um time no nacional. Onde a Arena vai bem, um time também”, era a brincadeira que se fazia. O futebol quase sempre foi e é utilizado politicamente, e a ditadura brasileira fez isso com muito sucesso.

Além de faturar em cima da conquista da Copa de 1970, aproveitou a euforia futebolística para agradar o eleitorado, colocando timecos regionais para disputar o campeonato nacional. Em 1979, chegou a 94 o número de times na disputa.

Houve uma reação muito justa contra essa inflação de times colocados politicamente na “elite do futebol brasileiro”, sem nenhum merecimento. Mas acho que acabaram exagerando na dose.

O Brasil imita a Europa, sem necessidade. Nos países europeus, como Itália, Espanha, Alemanha e França são vinte times que disputam o campeonato? Então tem que ser vinte no Brasil também.

Pergunto aos leitores quantos times espanhóis disputaram a final do campeonato mundial de clubes. Real Madrid, Barcelona… Mais algum? E os italianos? E os ingleses? E os alemães?

Pois vejam que no Brasil nove times chegaram a isso. Sete times – Santos, São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Grêmio e Internacional – já foram campeões mundiais. Cruzeiro e Vasco disputaram e perderam, foram vices. Que país tem tantos times no topo do futebol assim? Nove disputaram a final do mundial de clubes!

Então, por que temos que ter campeonato com vinte times, como os europeus? Proporcionalmente, o campeonato paulista já equivale ao de um país europeu. Tem quatro times de primeira linha – Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras – e vários equivalentes aos de segunda linha dos campeonatos europeus. Portuguesa, Ponte Preta, Guarani… de vez em quando mais algum ascendente, como Bragantino, Santo André, São Caetano…

Então é isso: campeonato de vinte times é o paulista. O brasileiro tem que ir além.

Não temos um Barcelona aqui, mas vejam que o campeonato espanhol tem Barcelona e Real Madrid disputando com dezoito coadjuvantes – de vez em quando algum deles desponta, como o Atlético Madrid, o Valência e o Sevilha –, aqui temos muito mais times disputando o campeonato de verdade.

Além dos quatro grandes paulistas, temos os dois grandes gaúchos, os quatro grandes do Rio, os dois grandes de Minas (só aí são doze equipes) e entre os “coadjuvantes” que de vez em quando despontam, três times do Paraná, dois da Bahia, três de Pernambuco e às vezes algum de Goiás do Ceará ou de Santa Catarina, como foi o caso do Figueirense, no campeonato de 2011.

Por causa dessa imitação que se faz do campeonato europeu ficam de fora do campeonato brasileiro times de outros estados, como o Pará (o Payssandu tem uma torcida enorme), que nada ficam a dever a alguns que disputam o campeonato espanhol: Getafe, Mallorca, Granada, Rayo…

Por isso, defendo: o campeonato brasileiro de futebol deveria ter 28 times. Tá falado.

Ah… Me lembrei de uma situação que era o contrário dessa.

Em Nova Resende, minha terra, o lateral Elias foi afastado à revelia da Esportiva, o “grande” time local, quando completou 49 anos. Não queria abandonar o futebol. Fundou então com alguns companheiros “aposentados” do esporte o Sem Futuro Futebol Clube. O problema era arranjar adversário equivalente. Procuraram na região e encontram em Juruaia o Reumatismo Futebol Clube. E só. Jogavam apenas entre eles. Não inventaram um campeonato, mas se inventassem seria interessante. Um deles seria fatalmente campeão e o outro vice. Sem rebaixamentos.

(Publicado originalmente na revista Fórum)

Apóstolo atleta

A impressão que tenho quando converso com homens da minha geração que moravam em pequenas cidades mineiras é que quase todos foram coroinhas.

Eu mesmo não escapei disso.

Quer dizer, “não escapei” entre aspas, fui ser porque quis, ninguém me forçou. É que via outros moleques indo ajudar nas missas e rezas e, como a gente quase não tinha o que fazer, deu vontade de entrar nessa também.

Num tempo em que não existiam bibliotecas públicas nem escolares na cidade, não havia quadra de esportes nem piscinas, o que fazíamos eram brincadeiras impensáveis hoje.

Víamos os filmes do Tarzã e imitávamos. Numa capoeira que chamávamos “selvinha”, havia cipós para ir de árvore em árvore e alguns meninos eram craques nisso. Eu não. Mas até que com o arco e flecha eu não era tão ruim, embora não fosse um craque como uns outros.

Treinávamos esse “esporte” na beira da selvinha, onde tinha um pasto e ali perto um monte de bananeiras. Cortávamos um tronco de bananeira do nosso tamanho e púnhamos de pé, amarrado com cipó a uma árvore e ele se tornava nosso alvo. Montávamos em pelo numa égua chamada Realina que ficava no pasto e, galopando, passávamos a uns quinze ou vinte metros do tronco disparando flechas para acertar o tronco de bananeira, inimigo imaginário.

Outras brincadeiras eram roubar frutas, brincar em córregos, pescar lambaris… Alguns caçavam passarinhos para colocar em gaiolas, mas eu não gostava disso. E trabalhava, seja como engraxate, vendedor de frutas ou balconista de boteco.

Então, ser coroinha era uma novidade, algo diferente, e o padre Caio me aceitou para o bando, quando eu tinha uns oito anos. Mas logo ele viu que eu seria um problema: nas rezas, gostava de ficar encarregado do turíbulo, um vaso de queimar incenso, de metal, pendurado em três correntes. Então, o turíbulo era cheio de brasas e a gente tinha que segurá-lo por um pegador no alto das correntes que o prendiam, e ficar chacoalhando de leve, de um lado para o outro, para manter as brasas vivas.

E o que eu gostava era de rodear, na vertical, o turíbulo cheio de brasas, o que era proibido. Mas era só o padre virar para o altar que eu cometia isso. Algumas pessoas riam e ele se virava para mim fazendo cara feia. Tinha que rezar com um olho no altar e outro em mim.

Acabei expulso com alguns outros, porque achamos algumas garrafas de vinho de igreja na sacristia, bebemos, ficamos bêbados e aprontamos um monte de coisas. Um dos coroinhas era implicado com um sino que batia sozinho, dando as horas; subiu à torre ao meio-dia, a fim de impedir que funcionasse uma espécie de martelo que batia no sino de meia em meia hora. Ao meio-dia, daria doze badaladas. Quando o martelo se levantou para bater, ele segurou e só soltou uns minutos depois. Quebrou.

Um ou dois anos depois fui aceito para ser um dos doze apóstolos na missa do lava-pés, na Semana Santa. Ensaiamos uma vez e o padre recomendou:

— Antes de vir para cá, lavem bem os pés e passem talco, porque eu só dou uma lavadinha de leve e depois tenho que ir beijando os pés de um a um…

Na quinta-feira, dia da missa em que haveria a cerimônia do lava-pés, fui jogar futebol no início da tarde. Lá pelas três e meia, saí do campo para ir embora e uns moleques do time adversário começaram a gritar:

— Tá com medo… tá com medo…

Voltei com muita vontade de meter uns gols neles. E cada vez que alguém ameaçava sair era a mesma coisa. Quando vi, estava escurecendo. Foi o tempo de correr, vestir a túnica de apóstolo e entrar na igreja, sem tempo para nada. Acho que fui o primeiro apóstolo de Cristo a entrar na igreja de chuteiras.

Na hora da cerimônia mais esperada, quando o padre Caio chegou em mim, vi sua cara de pavor ao olhar meus pés dentro das chuteiras em estado precário. Desamarrou as chuteiras, tirou-as, deu uma lavadinha nos meus pés e teve que quase encostar os lábios neles sujos e fedorentos, com um olhar que parecia dar fuziladas em minha direção.

(Publicado originalmente na revista Fórum)

A salvação era o rádio

Marinho tinha a fama de ser um dos melhores centro-avantes das redondezas. Jogando num time de roça, marcava gols à vontade nas equipes das cidades próximas. Acabou sendo convidado para jogar num time profissional, da segunda divisão do estado do Rio. Estava indo tão bem que contrataram um armador argentino, um craque mesmo, para mandar a bola na entrada da área, do jeitinho do Marinho meter para dentro do gol. A coisa ia dando certo, mas de repente o Marinho começou a piorar. Errava tantos gols que até parecia que era por querer. Chegaram a pensar que ele não se dava bem era com o jogo do armador argentino, mas ele mesmo defendeu o colega, impedindo que fosse vendido para outro time. Atribuía a ele mesmo a chamada “fase ruim”.

Um dia, tudo foi esclarecido e, em vez do argentino, foi ele quem teve que se mandar da cidade. Descobriram seu problema, a tal “fase ruim”: era a mulher do armador argentino. Ela se engraçou com ele, mas o marido só desgrudava dela nos treinos e nos jogos. Como o Marinho participava dos treinos, tinha que dar um jeito de ficar livre durante os jogos. Então, enquanto a bola corria no gramado, a safadeza corria solta na cama do craque portenho, com a mulher dele e o sem-vergonha do Marinho.

Antes de se mandar, fugindo do marido traído, Marinho ainda teve tempo de comentar com um colega:

― A única coisa ruim era que quando o nosso time jogava em casa a gente tinha que ir pra cama ouvindo o jogo pelo rádio, porque a casa era ali bem ao lado do campo e, quando o marido se machucava ou era substituído, nem ia para o vestiário, ia direto pra casa. Duas vezes eu tive que sair correndo, mal dando tempo de vestir a roupa, porque o cara tava chegando machucado. A salvação era o rádio!

(Publicado originalmente no livro “Memória Vagabunda”)

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Bernardo Buarque de Hollanda, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Mil-homens: gol contra

14.06.18_Mouzar Benedito_Cultura inútil_Gol contraPor Mouzar Benedito.

A planta chamada jarrinha, também conhecida como cipó-mil-homens, é tida como afrodisíaca, talvez por causa desse nome fantasioso. Em alguns lugares é comum deixar a planta em infusão na cachaça e tomá-la como excitante sexual, mas os resultados, segundo alguns pesquisadores, pode ser o contrário: eles dizem que ela é broxante.

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Por pouco o rei Luiz XVI e Maria Antonieta não escaparam da guilhotina! Eles fugiam da França, em 1791, a carruagem em que viajavam parou em Sainte-Menehoul para trocar de cavalos, eles saíram para esperar (uma esticadinha nas pernas que custou caro!) e foram reconhecidos, detidos e levados para Paris.

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Leônidas da Silva, jogador de futebol que inventou a bicicleta (claro, a bicicleta do futebol, não o veículo – embora os chilenos digam que foi um chileno quem fez isso) era conhecido também pela elegância. Jogou um tempo no Peñarol, no Uruguai e voltou para o Brasil em janeiro de 1934, vestindo um terno de palha-seda, gravata e sapatos brancos… Seu apelido, “Diamante Negro”, virou nome de um chocolate que existe até hoje.

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Um ditado: “Sogro e sogra, milho e feijão só dão resultado debaixo do chão”.

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Só dois países da África não foram colonizados por Europeus. Um deles é a Libéria, fundada por ex-escravos dos Estados Unidos. Em 1816 foi criada a Sociedade Americana de Colonização, que tinha como meta mandar escravos libertados para a África. Em 1822 chegou a primeira leva deles. Em 1847 foi proclamada a independência do país. O outro país é a Etiópia. Menelik I, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá, teria sido o primeiro rei do país, a partir do ano 1000 a.C. O país resistiu a várias tentativas de colonização, como a dos árabes (século VII) e a dos portugueses (século XV). Em 1935 a Etiópia foi ocupada por tropas fascistas de Mussolini, que foram expulsas em 1941, com a ajuda do Reino Unido.

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O CVV – Centro de Valorização da Vida – foi criado em São Paulo, em 1962, por causa do aumento do número de suicídios. A instituição dá apoio emocional e tenta evitar suicídios de pessoas com problemas. Atende 24 horas por dia, com voluntários.

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O primeiro cabo telegráfico ligando a América do Sul à Europa foi instalado em 1874.

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Dom Pedro II autorizou a instalação de telefones no Rio de Janeiro em 1879. Em São Paulo, o telefone chegou no ano de 1884.

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Wolfgang Amadeus Mozart morreu aos 35 anos, à meia-noite de 5 de dezembro de 1791. Ele estava terminando de compor uma ópera encomendada por um desconhecido, o Réquiem, e tinha a convicção de que ela seria seu próprio réquiem. O enterro foi em 8 de dezembro, um dia frio e chuvoso. Sua mulher, Constança, adoentada, não participou. Todos os amigos voltaram para casa, por causa do mau tempo e da neve, e o corpo foi levado só pelo coveiro a uma vala comum, numa época em que havia um surto de cólera, em Viena. Então, nem uma cruz nem nada marcava o lugar em que foi enterrado. Só 19 anos depois é que a ex-mulher, Constança, foi ao cemitério acompanhada de seu novo marido. Mas o próprio coveiro já havia morrido e não era possível localizar o lugar onde ele foi enterrado. Mas há uma história de que um admirador de Mozart, chamado Rothmeyer, amarrou o caixão do compositor com um fio de metal para que pudesse ser localizado depois entre os outros, e secretamente foi ao cemitério e roubou seu crânio. Esse crânio foi sendo passado a herdeiros, sumiu, reapareceu… Em 1842 foi dado ao Museu Mozart, em Salzburgo, um crânio que seria o dele, mas não há como comprovar.

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Em 1614 foi publicada a primeira tábua de logaritmo, pelo escocês John Napier.

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A tinta sépia foi inventada por (aportuguesando o nome) Tiago Clemente Seydelmann, pintor alemão, em 1778. Essa tinta é uma mistura de siba (molusco da família do polvo) e bistre (uma mistura de fuligem e goma).

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A primeira eleição direta para presidente do Brasil foi em 1o de março de 1894. O eleito foi Prudente de Morais.

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A primeira vítima de Jack, o Estripador, em Londres, foi a prostituta Mary Ann Nichols, assassinada em 31 de agosto de 1888. Foram atribuídos a ele 14 assassinatos de mulheres, mas acredita-se que matou “apenas” cinco delas, entre 31 de agosto e início de novembro de 1888. Cada assassinato teve mais violência que o anterior. Todas as vítimas eram prostitutas, mas não houve indícios de violência sexual contra nenhuma delas. Nunca se descobriu a identidade do criminoso, e Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, disse certa vez acreditar que “Jack”, na verdade, era uma parteira doida.

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Se uma estrela do mar for cortada em vários pedaços, cada um deles vai crescer e formar uma nova estrela completa.

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Livros chineses publicados em 1044 revelam que naquela época já se fabricava a pólvora no Oriente.

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Uma das formas de combater a febre amarela no Brasil, imaginaram, era soltar aqui pássaros que comessem os mosquitos que a transmitem. Então trouxeram pardais para o Rio de Janeiro, mas o pardal come mesmo são sementes e grãos. Proliferou pelo país todo, virou uma praga.

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Santos Dummont se suicidou com depressão, contrariado com o uso do avião para bombardeios a São Paulo, durante a Revolução de 1932. Mas não foi a primeira vez que o avião foi usado com fins militares, no Brasil: na Revolta do Contestado já deturparam o uso do avião.  E o primeiro piloto militar brasileiro a morrer em ação foi João Ricardo Kirk, cujo avião caiu e ele morreu durante essa revolta, em 1o de março de 1915.

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Os gregos tiveram colônias na atual Turquia, inclusive a cidade de Soles, onde a população tinha um dialeto muito peculiar, falava muito mal o grego. Disso originou a palavra solecismo, que é o mau uso da gramática.

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A folha da vitória-régia, planta aquática famosa da Amazônia, chega a ter 2,5m de diâmetro, e fica sobre a superfície da água. Pode-se colocar até 40kg em cima dessa folha, de maneira bem distribuída, que ela não afunda. Em guarani, seu nome é urupé, e em tupi é aguapé-açu. O nome com que ficou famosa no mundo foi dado em homenagem à rainha Vitória, da Inglaterra, quando um explorador alemão levou a planta para o jardim botânico de Londres.

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O Eixo Monumental, avenida de Brasília que começa em frente ao Congresso Nacional e passa pela Esplanada dos Ministérios, pelo setor hoteleiro etc., é o divisor entre o Norte e o Sul de Brasília. Tem 250 metros de largura e é considerado a avenida mais larga do mundo.

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A prostituição era o principal negócio da cidade grega de Corinto, durante a antinguidade. Havia mais de mil mulheres no templo de Afrodite Porne. Como era de se esperar, Corinto era escala preferida pelos marinheiros.

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Não é à toa que a palavra messalina virou sinônimo de mulher devassa, libertina. Valéria Messalina, que viveu de 22 a 48 da era cristã, mulher do imperador Cláudio, de Roma, era ninfomaníaca total, tinha relações sexuais com muitos cortesãos, depois passou a se interessar por artistas. Uma época teve predileção especial por um ator chamado Mnester, com quem tinha relações sexuais frenéticas. Deixou no corpo dele muitas marcas de unhadas. Às vezes saía pelos becos de Roma caçando homens. Uma vez, decorou seus aposentos como um prostíbulo e recebia homens ali, cobrando o valor pago a prostitutas comuns. Havia filas de homens.

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Quem acha que a palavra inconstitucionalissimamente é grande, deveria ler a antiga fórmula da Cibalena, remédio para dor de cabeça. Ela vinha escrita no envelope e eu acabei – veja só que inutilidade – decorando o nome de um componente. Pior, eu me lembro dessa palavra até hoje: dimetilaminofenildimetilpirazolona (acreditem: não copiei de lugar nenhum, é decorado mesmo).

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Acredita-se que Alexander Graham Bell, físico e eletricista nascido na Escócia e naturalizado estadunidense, inventou o telefone quando pesquisava uma maneira de curar sua mulher, que era surda-muda. Graham Bell manteve, entre 1876 e 1888, uma luta jurídica com o estadunidense Elisha Gray, que dizia ter sido ele o inventor do telefone. A justiça decidiu a favor de Graham Bell.

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Em 22 de março de 1850, o poeta e deputado Pedro Pereira apresentou o primeiro projeto de abolição da escravatura no Brasil.

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Existe em Fortaleza uma estátua de Iracema, mas não na praia de Iracema e sim na do Meireles, no local onde, segundo o romance de José de Alencar, ela ficou esperando o amado. Aliás, a praia de Iracema não é bem uma praia, é um antigo porto, e tem tradição de vida noturna.

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Um certo Daniel, filho de um francês huguenote refugiado na Inglaterra, escreveu um livro chamado “O Consórcio – ou Transações no Mundo da Lua”, de ficção, imaginando uma máquina que viajava pelo espaço, mas não fez nenhum sucesso. Depois ele mudou seu sobrenome Foe para Defoe e publicou “As aventuras de Robinson Crusoé”.

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Em 18 de julho de 1913, foi fixada por lei a “hora legal” brasileira, que dividiu o país em quatro fusos horários.

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Os “dias santos” eram os verdadeiros feriados dos caipiras. Trabalhar em 7 de setembro ou 15 de novembro, por exemplo, era comum, mas não se trabalhava de jeito nenhum no dia de São Bento, protetor contra picadas de cobra. Por falar em santo protetor… aí vão alguns deles: São Benedito protege contra a fome, não deixa faltar alimento; São Francisco de Assis, todos sabem, é protetor dos animais em geral, mas os cachorros têm um protetor a mais, São Lázaro. Santa Luzia é protetora dos olhos e da visão e São Brás é protetor contra doenças na garganta.

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O Brasil deu asilo político a alguns líderes da Comuna de Paris, esmagada em maio de 1871.

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Potiguara, o gentílico de quem nasce no Rio Grande do Norte, significa comedor de camarão. Mas há historiadores que dizem que no início da colonização portuguesa os lusitanos pronunciavam petinguara, que significa mascador de fumo. Petim ou betim é tabaco na língua tupi.

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Ditados sobre QUEM…
Quem anda pela cabeça dos outros é piolho.
Quem apanha de mulher não dá parte ao delegado.
Quem canta não assobia.
Quem casa com mulher feia não tem medo de assombração.
Quem com porcos se deita, farelos come.
Quem faz uma vez, faz duas ou três.
Quem mente precisa ter boa memória.
Quem muito se abaixa, o cu aparece.
Quem não furta nem herda, não tem senão merda.
Quem não sabe fingir, não sabe governar.
Quem nasceu pra ser tatu, morre cavando.
Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Quem quer enricar em um ano, em seis meses o enforcam.
Quem rouba tostão é ladrão, quem rouba milhão é barão.
Quem se deita com menino, amanhece mijado.
Quem tem medo de cagar, não come.
Quem tem perna curta, levanta mais cedo e sai primeiro.

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Assim falou Dario (jogador de futebol): “Não me venha com problemática, que eu tenho a solucionática”.

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Assim falou Vicente Matheus (então presidente do Corinthians, sobre a versatilidade dos jogadores): “Jogador de futebol hoje tem que ser como o pato, que é um animal aquático e gramático”.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Bernardo Buarque de Hollanda, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Futebol arteiro

14.06.10_Mouzar Benedito_Futebol Arteiro_1Por Mouzar Benedito.

Nestes tempos de discussão sobre a Copa do Mundo de Futebol no Brasil, já falei o que tinha que falar sobre o assunto.

Mas tem um lado mais divertido do futebol ou relacionado a ele.

Resolvi colocar aqui uns textos que andei publicando em livros ou na internet.

Os meus livros não costumam ter muitos leitores, então são causos praticamente inéditos, com exceção de um que se refere a um jogo da Esportiva Nova Resende, nos tempos em que se usava ainda, na região, bola de capotão do tipo que a câmara era solta dentro do capotão, e tinha que se amarrar o lugar por onde ela era colocada.

Ele trata de uma situação de conflito que o juiz teve que enfrentar e me lembrou a sabedoria do Rei Salomão quando duas mulheres diziam ser a mãe legítima de uma criança. Publiquei esse causo em vários lugares e mais tarde, em 1987, no livro Santa Rita Velha Safada (esgotado), e depois vi um monte de gente recontando esse causo como se tivesse acontecido em outras cidades. Começo por ele:

O SALOMÃO DO FUTEBOL

O time de futebol de Santa Rita Velha estava jogando na vizinha cidade de Presépio, contra seu tradicional adversário, o Presépio Sport Club. A bola, velha e meio torta, meio oval, não atrapalhava em nada a qualidade do jogo. Combinava bem com a forma de jogar dos dois times.

Aos quarenta minutos de jogo, a bola sobrou pingando para o centro-avante Cavadeira, de Santa Rita, que encheu o pé, chutou com toda força mas o goleiro estava bem colocado e pulou, agarrando a “redonda” no peito.

Acontece que a bola não resistiu. Ao bater no peito do goleiro, estourou, e ele ficou segurando só o capotão, enquanto a câmara de ar saltou para dentro do gol. Aí começou a discussão.

Os jogadores de Santa Rita começaram a comemorar, gritando que valia, era a câmara de ar, enquanto os de Presépio afirmavam que o capotão era que valia e este o goleiro pegou. Os 22 jogadores e mais os reservas falavam sem ninguém ouvir:

— O que vale é a câmara…

— Não foi gol não, o capotão não entrou…

Quando já estavam partindo pra briga foi que o juiz resolveu fazer valer sua autoridade:

— Prrriiii, prrriiii, prrriiii… — apitava alucinado para chamar a atenção dos jogadores, até que resolveram ouvi-lo.

— Quem entende de regra aqui sou eu. Eu é que sei o que vale e o que não vale.

— Então como é que é? É gol ou não é?

— Tá na regra: quando a câmara de ar entra e o capotão não entra, vale meio gol!

Foi o único jogo até hoje que terminou meio a zero.

Causos publicados no livro Serra, Mar e Bar (também esgotado):

A DESPEDIDA

Quando Elias completou 31 anos como lateral esquerdo da Esportiva Nova Resende, resolveram fazer para ele uma festa de despedida do futebol. Um detalhe: os 31 anos não eram de idade (que devia estar por volta dos 50), mas só de titular do time. Se deixassem, ele continuaria ainda. A festa foi um jeito sutil de tirá-lo pelo menos da equipe principal.

A despedida seria contra o time da Ventania, que topou o acerto: a primeira bola que fosse na sua área, um zagueiro deveria pôr a mão intencionalmente. O Elias seria encarregado de bater o pênalti e o goleiro tinha a obrigação de não defendê-lo. Aí seria feita uma grande badalação, com discursos e tudo o mais. Depois recomeçaria o jogo, já com outro titular na lateral esquerda da Esportiva. E alguém daria também um pênalti intencional a favor do time da Ventania. Só daí pra frente o jogo seria pra valer.

Desde meia hora antes do início do jogo, todos os seresteiros da cidade se revezaram num microfone improvisado em cima de um caminhão, cantando “Ave Maria do Morro”, a música preferida do Elias.

Com todo mundo em campo, fez-se um minuto de silêncio em homenagem a um ex-craque da Esportiva, que tinha morrido dias antes. Em seguida o juiz deu o início à partida e tudo correu conforme o combinado.

Aos cinco minutos de jogo, veio o pênalti. Elias bateu e marcou o gol, foi carregado pelos jogadores até o caminhão que servia de palanque. O presidente do time discursou rememorando os grandes momentos do jogador que se despedia, o prefeito falou em seguida sobre o grande cidadão, que honrava a cidade e, pra completar, foi designado para falar, representando os jogadores, o meia-direita Luizinho do Lica. O que ele fez não foi bem um discurso, falou apenas uma frase:

— Só de minuto de silêncio, o Elias tem um ano e meio!

CHUTE FORTE

Zeca, o pescador e caçador que garante nunca ter contado uma mentira em toda a vida, um dia assistia a uma discussão no Bar Esportiva Nova Resende, sobre quem tinha o chute mais forte em toda a história do futebol da cidade. Uns diziam que era o Celinho, que jogava na Esportiva e mudou-se para Juruaia. Era beque de esperta, e os tiros de meta que batia atravessavam o campo e caíam atrás do gol adversário. Outros diziam que era o Toniquinho, e havia quem defendesse o Zé Leopoldo…

No meio da discussão, Zeca, que estava calado até essa altura, resolveu entrar na conversa e todo mundo se calou, sabendo que quando ele tinha sempre alguma coisa “inédita” pra contar (e quem é que tinha coragem de chamar suas histórias de mentira?).

— Não é nenhum desses aí. O chute mais forte que já teve aqui era o do Tião Folheiro.

— Como é que o senhor sabe? — provocou o Alcindo.

— Rá! Eu era menino quando reinauguraram o campo da Esportiva, que foi aplainado, acabando com a inclinação. Foi aí que sobrou aquele barranco atrás do gol de cima. Fiquei sentado no barranco, bem atrás do gol, e vi o primeiro pênalti batido nesse campo novo, pelo Tião Folheiro. Sabe o que aconteceu?

— Nunca ouvi falar!

— A bola enterrou um metro e meio no barranco!

JUIZ IMPARCIAL

A inauguração de um campo novo no Córrego Cavalo foi muito festiva. Chamaram até um time da cidade pra jogar lá. Quem ia “bater o piu”, quer dizer, apitar o jogo, era o Ernesto, que fez um longo discurso antes, dizendo ser imparcial, o que não convenceu ninguém.

Estava difícil fazer o time da casa ganhar, o adversário jogava muito melhor. A certa altura, o baixinho Parafuso pegou a bola na ponta direita, driblou dois zagueiros do Córrego Cavalo e centrou. O ponta esquerda Luizinho do Lica entrou de cabeça pelo meio e marcou um gol para o time da cidade, quer dizer, o adversário do Córrego Cavalo. Gol anulado, claro.

— Nóis é da roça mas sabe as regras. Ponta esquerda tem que jogar na ponta esquerda, na extrema. O que é que ocê tava fazendo no lugar do centroavante? — bronqueou o juiz, que ainda deu falta contra o time da cidade.

Pouco depois, sobrou uma bola pingando para o centroavante Zé do Gato, que deu um chutaço a gol. O goleiro do Córrego Cavalo nem viu a cor da bola. Só que o gol não tinha rede e a bola, a meia altura, bateu de cheio na cara do Zé Soldado, da gloriosa Polícia Militar, que assistia ao jogo atrás do gol, derrubando-o de costas. Ernesto, Logicamente, anulou, apitando falta do atacante:

— Desacato a autoridade — gritou bravo, ameaçando Zé do Gato de expulsão, se ele fizesse isso de novo.

Faltando uns dez minutos para terminar o jogo, mantido zero a zero até então com muita dificuldade, finalmente o ataque do Córrego Cavalo chegou à área adversária, mas o meio Zaqueu tropeçou e caiu na hora de chutar. Pronto! Pênalti, apitou o Ernesto. Quem foi bater? O próprio Zaqueu? Não!

— Eu apitei pra mim batê, uai — disse o Ernesto.

Já vestindo a camisa cedida por um atacante substituído por ele, Ernesto entregou o apito ao seu compadre Orlando:

— Cumpadre, bate o piu nesse restinho de jogo que agora eu sô jogador.

Bateu o pênalti e marcou. Um a zero para o time do Córrego Cavalo, invencível jogando em casa.

Do livro Memória vagabunda (também esgotado – detalhe: esses livros são esgotados não porque venderam muito, é que as tiragens foram pequenas):

MELHOR QUE BEIJA-FLOR

Quando o centroavante Dario, também conhecido como Dadá Maravilha, marcou um gol de cabeça em que deu a impressão de ficar alguns segundos parado no ar, esperando a bola, logo depois do jogo fez uma declaração folclórica:

— Só três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha.

Mas Zeca, o pescador e caçador mineiro que garante nunca ter contado uma mentira, achou pouco:

— Já fiz muito melhor que isso.

Para os descrentes, contou uma história que, segundo afirma, teve várias testemunhas. Infelizmente, a única viva morando no Paraná, em lugar que ele mesmo não se lembra.

— Eu era novo — disse. — Fomos pescar no Sapucaí e saímos pela margem esquerda do rio, procurando um pesqueiro bom. A certa altura, havia um afluente com uns dois metros de largura, mas muito fundo. A gente tinha que pular esse corguinho pra chegar no pesqueiro…

— Bom, e daí? — provocou alguém.

— Daí que eu afastei, corri pra pegar embalo e pulei. Quando eu tava bem no alto, no meio do corgo, vi uma urutu do outro lado, bem onde eu ia cair. A bicha tava de boca aberta, me esperando. Dei uma reviravolta no ar, voltei e caí no mesmo lugar de onde tinha pulado…

GRANDES CONCLUSÕES

Arlindo foi jogar futebol num time de várzea de Itajubá e ouvia conselhos muito interessantes do técnico, que falava, sério, coisas como

— Se você for bater pênalti e chutar com bastante força bem no ângulo, o goleiro não pega.

Certo dia, antes de um jogo contra um time mais forte, reuniu a equipe no vestiário e falou com a seriedade de sempre:

— Olha, gente, se a gente marcar um gol logo no começo, depois segurar o jogo e não deixar eles marcarem nenhum gol… nós ganhamos o jogo!

Agora, um publicado no livro Trem Doido (da Editora Limiar – eba! Não esgotado):

E CHUTA PARA O HEMISFÉRIO NORTE…

Belém, capital do Pará, é a cidade das mangueiras. Assim como a cerâmica marajoara e a chuva quase diária, à tarde, as mangueiras são uma característica da cidade, uma marca registrada. Mas não é só em Belém que as mangueiras fazem parte da paisagem urbana. Macapá, capital do Amapá, também é arborizada quase toda com mangueiras. Suas ruas largas, sem placas que as identifiquem nem placas de trânsito, indicando mão e contra-mão, são repletas de belas mangueiras.

Foi Macapá que comi o peixe mais saboroso que conheci: tambaqui com molho de taperebá. Uma delícia.

Mas o que achei divertido na capital amapaense foi ouvi uma brincadeira de pessoas que dizem que são da América do Norte. É que a capital do Amapá fica no Hemisfério Norte — pouquinho “acima” da linha do Equador, mas fica. — Na verdade, o centro fica a 00º 02’ de latitude Norte. Há bairros que ficam no Hemisfério Sul e também exatamente na linha do Equador, onde existe um monumento ao marco zero de latitude. Ele fica exatamente na linha do Equador. Nele, a gente pode ficar com um pé no hemisfério Sul e outro no Norte. E perto dele tem um campo de futebol apelidado Zerão, nome que vale também para todo o bairro, cuja linha do meio de campo fica exatamente na linha do Equador.

Assim, um time ataca para o hemisfério Norte e outro para o Sul. No segundo tempo eles trocam de hemisfério. A arquibancada também fica bem no meio, é possível ficar até com meia bunda no hemisfério Sul e meia bunda no norte.

No livro 1968, por aí… Memórias burlescas da ditadura (Editora Publisher Brasil, também não esgotado), publiquei umas historinhas de futebol também. Uma delas é sobre o André, um preso político do Rio de Janeiro. Ele era preso “comum”, leu muito dentro do presídio, se “politizou”, participou de uma fuga organizada por um grupo guerrilheiro que ajudou a criar, o MAR (Movimento de Ação Revolucionária), mas foi preso de novo e voltou para o presídio como preso político. Seguem três historinhas desse livro.

UM FUTEBOL DIFERENTE

Antes da fuga e da recaptura que o caracterizou como preso político, André foi convidado para fugir com presos comuns. Ele seria uma pessoa chave nessa história, pois sua função na época era cuidar do vestiário do campo de futebol que havia lá dentro. Não quis fugir, mas assegurou aos presos que não os denunciaria. Eles, então, cavaram um túnel de dentro do vestiário até a rede de esgotos. A fuga foi marcada para um domingo à tarde, no intervalo de um jogo entre dois times de presidiários. Era um dia de comemoração de qualquer coisa, e na platéia, assistindo ao jogo, estavam o diretor do presídio e um monte de autoridades.

No intervalo do jogo, os times entraram no vestiário, passaram-se os quinze minutos regulamentares e não saiu ninguém. Mais um pouquinho de espera e finalmente os agentes penitenciários foram ver o que tinha acontecido. Viram só aquele buraco no chão. Mas a surpresa maior foi numa avenida ali perto. Muitas pessoas viram espantadas uma tampa de bueiro abrir-se e saírem dois times de futebol inteiros correndo avenida afora.

O ESPORTISTA VEREADOR

O massagista Mário Américo, nascido em Minas Gerais, ganhou fama na Copa Mundial de futebol de 1958. Cada vez que algum atleta brasileiro se machucava, entrava em campo aquele crioulão simpático, para socorrer nossos heróis Garrincha, Didi, Nilton Santos, Pelé…

Perto do final do regime militar, quando só existiam dois partidos legalizados, a Arena (a favor do governo) e o MDB (oposição consentida, que às vezes se levava a sério), Mário Américo se candidatou a vereador pelo MDB em São Paulo. Sua campanha foi mais baseada nas mãos que massagearam os ídolos do futebol do que nas idéias que o massagista tinha na cabeça, mas deu certo. Ele ganhou. E até não decepcionava muito como vereador, apresentando projetos criados pela assessoria do MDB.

Mas aí veio a reformulação partidária, quando Arena virou PDS. MDB virou PMDB e surgiram PT, PDT e PTB. Mário Américo, como alguns outros políticos, foi cooptado por Paulo Maluf, que liderava os simpatizantes do regime militar em São Paulo. Então, em vez de ir para o PMDB, Mário Américo foi para o PDS malufista.

Aí, chegou à fase de votação em plenário de um projeto apresentado à Câmara de Vereadores pelo próprio Mário Américo, quando era oposicionista. Mas ele recebeu ordens dos seus novos aliados: tinha que votar contra, pois o projeto desagradava o prefeito nomeado, Reynaldo de Barros, e seu padrinho, Paulo Maluf. E aconteceu a aberração: Mário Américo votou contra um projeto dele mesmo. Foi desancado por um vereador do PMDB, que fez um discurso violento contra o massagista, supostamente “comprado” por Paulo Maluf. Depois de ouvir um monte de adjetivos pouco edificantes, Mário Américo pediu um aparte e falou bravo, com dedo em riste:

— Vossa Excelência está ofendendo a minha excelência!

FUTEBOL E DITADURA

Copa do Mundo de 1970, no México. Primeiro veio a alegria de ver uma seleção jogando bem demais. Treinada por João Saldanha, ela tinha um meio de campo que incluía um dos melhores jogadores do mundo, Dirceu Lopes, do Cruzeiro. Derrotava os adversários de lavada nas classificatórias.

Mas no auge da ditadura, o general-presidente Garrastazu Médici se sentia no direito até de querer influir na escalação. Queria que João Saldanha escalasse o atacante Dario, apelidado “Peito de Aço”. Saldanha, comunista brigão, não gostou: “Escale o seu ministério que eu escalo a minha seleção”, respondeu. Pouco depois estava demitido da seleção. Seu lugar foi ocupado por Zagalo, que de início tirou um pouco o encanto da seleção, ao afastar jogadores como Dirceu Lopes.

Além do descontentamento “futebolístico”, havia outro motivo que fazia muita gente torcer o nariz para a seleção: sua vitória seria usada para propagandear a ditadura brasileira. Muitos ficaram com a opinião de que devíamos torcer por sua derrota. Mas isso durou pouco, só até o início da Copa. Aí, foi uma festa danada em cada jogo. Inclusive porque pela primeira vez uma Copa do Mundo era transmitida ao vivo pela TV. Assistimos a quase todos os jogos no pátio do prédio da Geografia e História da USP, superlotado, vibrante, com aquele bando de gente de esquerda (e muita gente de direita também) se esquecendo de qualquer coisa de política para aplaudir as vitórias da equipe que tinha Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino, Clodoaldo e outros supercraques. Mesmo sem os dispensados por Zagalo, a seleção era um arraso. E realmente a vitória brasileira foi usada para propaganda da ditadura.

Em 1974, na Copa da Alemanha, muita gente esperava um repeteco de 1970. Mas havia uma novidade: a seleção da Holanda, chamada de “Laranja Mecânica”, pela cor de seu uniforme e por causa de um filme da época. Era avassaladora. Dava um baile em todo mundo, ganhava todas. Nas semifinais, olha lá quem era o adversário do Brasil: ela mesma, a Holanda.

Eu trabalhava no Sesc Pompéia, e destinamos um salão para todo mundo assistir aos jogos. No fundo dele, havia um quadro-negro. Nesse dia do embate contra a Holanda, o salão estava lotado, todo mundo tenso antes de começar o jogo. Estava difícil esperar uma vitória brasileira. Um funcionário do Sesc foi até o quadro-negro e escreveu: “Deus é brasileiro”. Foi muito aplaudido. Fui lá, coloquei uma vírgula e continuei: “Mas tá exilado na Holanda”.  Claro que levei uma baita vaia. Mas o Brasil perdeu mesmo. Só que a Holanda não foi campeã, perdeu para a Alemanha na final.

Agora um texto que não publiquei em livros:

FUTEBOL DO SACI

Estive em São Luiz do Paraitinga, na Festa do Saci, e lembrei-me de um campeonato de futebol que existia lá, pena que não exista mais.

É um tipo de campeonato que não tem nada a ver com negociantes do futebol, com a coisa de encarar o esporte como um negócio, em que o que interessa é o lucro, e também de competição desvairada, de motivo para brigas e até mortes.

O campeonato era realizado num pequeno campo no Camping Saci, onde ainda acontecem alguns jogos. Curiosamente, entretanto, uma bela paineira está localizada bem no centro do campo, o que leva os jogadores habilidosos a terem que driblar, além dos adversários, também a árvore. Vejam alguns itens do regulamento do campeonato:

  • O tempo de jogo será de 25 minutos por 25, sem intervalo;
  • O número máximo de atletas por time será de 10 (dez), sendo um o goleiro, cinco jogadores em campo e quatro reservas;
  • Não existe limite para substituições;
  • No que se refere ao uniforme, apenas as camisetas deverão, necessariamente, ser iguais;
  • Os atletas poderão jogar descalços, usar tênis e até chuteiras;
  • Cada atleta deverá contribuir com uma taxa de R$ 5,00 para o custeio da confraternização final (churrasco etc…);
  • O atleta que fizer dois gols no mesmo jogo deverá ir para o banco e só poderá retornar a campo após 10 minutos;
  • Se um time marcar três gols a mais que o outro, caso volte a marcar um gol, este será computado para o time adversário;
  • Os times campeões receberão troféus (o Saci) e o artilheiro e o goleiro menos vazado receberão medalhas;
  • Caso ocorram situações não previstas por este regulamento, os representantes dos times decidirão, por maioria, o que deve ser feito;
  • É solicitado ao representante de cada time que traga uma bola em condições de uso.Obs.:Este torneio é realizado sem fins lucrativos, visando à valorização do esporte e à confraternização entre amigos. Solicita-se respeito e colaboração a todos os atletas, a quem se deseja boa sorte.

Uma coisa que não estava no regulamento mas acontecia: quando um time marcava gol, todos os jogadores dos dois times comemoravam pulando com uma perna só. Como seria bom se o futebol fosse sempre assim.

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

E se não tiver Copa?

14.05.26_saci_e se nao tiver copaPor Mouzar Benedito.

A pergunta que faço aos militantes do movimento “Não vai ter Copa”, e aos não militantes também, é essa: se esse movimento tiver sucesso e não acontecer a Copa do Mundo no Brasil, o que acontecerá? Que resultados teremos?

Compartilho com todo esse pessoal a indignação com o destino de muitos bilhões de reais para um evento efêmero, indo boa parte dessa grana parar nas contas bancárias de empreiteiras mutreteiras, políticos safados, mercantilizadores do esporte e instituições imperiais corruptas e mandonas. E acredito que idealizadores desse movimento sejam contra o capitalismo e odeiem a Fifa e a CBF. Compartilho isso também.

Talvez eu precise tomar conhecimento do “e daí? O que faremos em seguida?”, para poder embarcar nessa campanha também. Mas enquanto não souber o conjunto todo da proposta, prefiro outras vias. Não sei se haverá o que modernamente chamam de “empoderamento” do povo, se será criado um clima para derrubada do capitalismo ou, pelo menos, se haverá uma mudança na política brasileira que ponha fim a um Congresso vendilhão, que só funciona à base do toma-lá-dá-cá.

14.05.26_copa_e se nao tiver copa

COPAS PASSADAS NÃO MOVEM MOINHOS?

Antes de voltar a discutir a Copa de 2014, gostaria de lembrar de algumas outras copas que “presenciei” à distância.

Minha primeira Copa foi a de 1958. Tinha 11 anos de idade, estudava na primeira série do curso ginasial e ganhava um dinheirinho vendendo frutas e engraxando sapatos, morando numa cidade do Sul de Minas com cerca de dois mil habitantes na área urbana.

Não tínhamos rádio, assim como a maioria da população. Numa cidade em que o dinheiro circulava pouco, era difícil comprar qualquer coisa industrializada que não fosse de primeira necessidade. Então, fomos todos para a frente do cinema – isso mesmo, naquela época, uma cidade minúscula tinha cinema! – ouvir a final Brasil X Suécia pelo alto-falante instalado ali. Uma multidão vibrava na praça. E a conquista do campeonato foi como uma declaração de poder, de tomada de uma autoestima inédita. Acabava-se o mito de que brasileiro era perdedor por natureza.

Na Copa seguinte, de 1962, a conquista foi como uma reafirmação dessa autoestima.

Em 1970, já morando em São Paulo e estudando na USP, com ideias de esquerda – que preservo e até radicalizo –, no auge da ditadura, havia também uma pedra no meio do caminho: se o Brasil vencesse, a ditadura ia faturar em cima, ganhar mais popularidade. Por isso, corria a proposta de torcer contra o Brasil. Mas durou pouco: assistimos e vibramos no pátio do prédio de Geografia e História, todos os jogos do Brasil. E a ditadura realmente faturou em cima. Enquanto se torturava e matava opositores do regime nos porões da ditadura, ouvia-se direto a música “Pra frente, Brasil”. Mas até os presos políticos, em boa parte, torceram pela seleção, que jogou bem e bonito, mereceu vencer.

Em 1982, na Espanha, a seleção jogava bonito como nunca, mas perdeu. Foi uma tristeza imensa, mas até hoje se reconhece o valor daquele time. Acredito que pelo menos o pessoal um pouco mais velho se lembra dela com mais saudade do que das seleções vencedoras de 1994 e 2002. E a perda serviu para os burocratas do futebol se dedicarem a exigir um abandono do chamado futebol-arte, imitando o futebol-força europeu. Uma pena. Quando o Barcelona se tornou o time que vencia jogando bonito, o técnico disse que estava fazendo com o time simplesmente o que aprendeu vendo o Brasil jogar “antigamente”.

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VOLTANDO A 2014

Acredito que se, há seis ou sete anos, houvesse um plebiscito para decidir se o Brasil disputaria o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014, o sim venceria fácil. Pouca gente era contra.

Mas se fôssemos informados de todas as condições que a Fifa impôs e o governo brasileiro aceitou, de nos submetermos a essa instituição imperialista como colonizados sem vontade própria, obedientes e subservientes, aí sim, acredito que o “Não vai ter Copa” seria quase unânime.

O Brasil se submeteu. Numa linguagem vulgar, abriu totalmente as pernas. A Fifa manda e desmanda. Para começar, houve a escolha das cidades que sediariam os jogos. A Fifa impôs o que quis. Por que escolher, por exemplo, Natal, que não tinha um estádio à altura, nem tanta torcida, além de ser relativamente perto de duas sedes – Fortaleza e Recife – e deixar de fora Belém, que já tinha um estádio pronto, “padrão Fifa”, na linguagem atual, e além disso tem uma torcida enorme que freqüenta esse estádio para ver jogos do Payssandu e do Remo?

Como torcedor do Internacional, que tem o Saci como mascote, pergunto: por que deixar de lado um estádio pronto, também “padrão Fifa”, recém-construído pelo Grêmio e ter que fazer um estádio novo, do Inter?

Como simpatizante do Corinthians, perguntou: por que deixar de lado o estádio do Morumbi, que se fosse na Europa seria festejado pela Fifa, e fazer um estádio do zero em Itaquera, com o custo de quase um bilhão de reais, fora as obras do entorno?

E o caso do Maracanã? O estádio passou por uma grande reforma para os Jogos Panamericanos, estava quase “zero quilômetro” e a Fifa exigiu que fosse posto abaixo para ser refeito, a um custo de mais de um bilhão e muitos problemas.

A grana tinha que rolar alto, não é? Quanto mais gastos, mais lucros para a Fifa. E para empreiteiras também: é comum aqui ganhar uma concorrência para fazer uma coisa por uma valor e a obra acabar custando muitas vezes mais. Além disso, fazendo de propósito que a obra atrase, encosta-se o poder público na parede: “Se não puser muito mais grana, não vai ficar pronto a tempo”. Claro que os atuais assentados no poder não fizeram nada para mudar isso. E claro também que a “culpa” tem muito a ver com o tão glorificado empresariado, tratado como honesto e não sei que mais pela mídia e por uns babacas que fingem acreditar que existem corruptos sem existirem corruptores.

E a questão “do” mascote (sei que mascote é palavra feminina, mas ninguém fala “a” mascote)?


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PERNETA, E DAÍ?

Mesmo sabendo que a Fifa (e a CBF também) encara o esporte como um negócio, simplesmente, propusemos o Saci como mascote da Copa. Já expus várias vezes o motivo. Em síntese, o Saci era um indiozinho guarani, foi transformado em negro e ganhou o gorrinho mágico presente em mitos europeus, então é uma síntese do brasileiro.

Nesses tempos em que se fala tanto em meio ambiente, o Saci tem a vantagem de ser um protetor da floresta.

Nesses tempos em que se fala tanto em combate ao racismo, o Saci tem a vantagem de ser negro. Aliás, maior parte dos jogadores brasileiros, do Pelé aos pernas de pau, é negra.

Nesses tempos em que se fala tanto em aceitar as diferenças, o Saci tem a vantagem de ser perneta. Mas apontam isso como um problema: como chutar bola tendo uma perna só? Brinco: ele tem o apoio do redemoinho.

E mais: mesmo sendo pobre, negro (dois motivos para ser estigmatizado nesta terra que muito teoricamente não tem preconceitos), o Saci é brincalhão e alegre. Quer algo mais brasileiro do que isso?

Escolher o Saci como mascote da Copa seria um recado para o brasileiro olhar para si mesmo, e com certeza não só ele, mas toda a mitologia brasileira seria valorizada, estudada aqui e divulgada fora daqui.

Mas o Saci tem uma qualidade a mais, que para a Fifa e a CBF é um defeito: ele é um personagem pronto. Não seria preciso pagar milhões para uma agência de publicidade… mas também não seria possível cobrar royalties por ele. Qualquer pessoa ou grupo criaria a sua imagem do Saci em camisetas, por exemplo.

Milhares e milhares de pessoas mandaram mensagem para a CBF propondo o Saci como mascote, mas os burocratas comerciantes do futebol não deram nenhuma resposta. Chegamos a pedir que nos explicassem que critérios usariam para escolher o mascote, mas nem deram bola. Nunca falaram sobre isso. É próprio dela e da Fifa. São instituições que se julgam no direito de não precisar dar respostas a ninguém.

Enfim, escolheram o que queriam, mas só depois de patentear os possíveis nomes que o coitado do tatu-bola teria. Muitos bobalhões votaram pela internet, como se estivessem decidindo alguma coisa, para ele ter o fuleiro nome de Fuleco.

Se o Saci não podia ser escolhido por ter uma só perna, o coitado do tatu-bola entra numa situação pior: bola é para ser chutada, não para chutar. E tem esse nome infeliz. Fuleco!

O certo é que acredito que se o Saci fosse mascote, milhões e milhões de brasileiros (além de estrangeiros também) estariam usando camisetas com algum desenho dele com a bola no pé, na cabeça ou no redemoinho. Alguém viu por aí uma camiseta com o Fuleco?

Ah, falam que a escolha do tatu-bola, um animal em extinção, ajudaria as instituições que o pesquisam e tentam fazer que sobreviva, receberiam muito apoio. Uma boa causa, enfim. Mas aconteceu? Vi recentemente nos jornais que a instituição que propôs a escolha do tatu-bola não recebeu um centavo.

14.05.26_nao vai_e se nao tiver copa

SEM COPA?

Volto agora à possibilidade de não ter Copa.

Nem ponho em questão coisas do tipo “como ficará a imagem do Brasil no exterior”. Será que o capital, as empreiteiras, a Fifa e os corruptos em geral seriam atingidos de alguma forma? Será que alguém acredita que o dinheiro gasto (desperdiçado, na maioria) voltará automaticamente e será usado para construção de casas populares e melhoria dos sistemas de educação e de saúde? Será que os corruptos e corruptores serão identificados e punidos? Será que caminharemos para um sistema econômico mais democrático?

Acredito que o movimento “Não vai ter Copa”, seja mais para “Vai ter Copa, mas com protestos”. Impedir totalmente a sua realização, agora que já houve a gastança toda, me parece que significa perder mais ainda.

Então, pelo menos provisoriamente, minha ideia é que a Copa não só aconteça como seja muito legal, e que a seleção brasileira jogue bem e bonito, e ganhe sempre.

Isso não implica em apoio à Fifa, à CBF, aos que se locupletam superfaturando obras, aos oportunistas nem nada. Que o movimento continue e cobre tudo isso.

Se houver um movimento pós-Copa para que se realize o que ele propõe hoje e vá até muito além, estou dentro, sem perdoar quem quer que seja. Que o Brasil tenha e seja tudo o que querem os ativistas do “Não vai ter Copa”.

Mas não contem comigo para “protestar” depredando pequenos comércios, como bancas de jornais (isso é contra o capitalismo?) e provocações inúteis. Vamos direto ao ponto, contra os que mantêm o sistema econômico e político atual, as injustiças em geral. Contra eles, “tamos aí”.

E não contem comigo, também, para participar de movimentos com nome em inglês. Black, red, seja que cor for, é coisa deles e imitar gringo me parece que é voltar à estaca zero, ao tempo em que ser brasileiro era ser sinônimo de perdedor por natureza. Não que os movimentos gringos sejam em princípio ruins, mas são deles, e pronto. Nos tempos da ditadura e da Guerra Fria, o então ministro Juracy Magalhães disse uma frase que ficou célebre como postura submissa: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Isso me causa ojeriza até hoje.

14.05.26_jogadoresglobais_e se nao tiver copa

SONHANDO UM POUCO

O “Não vai ter Copa” poderia ir um pouco além e conquistar algumas coisas relativas ao próprio esporte.

Um exemplo: é difícil torcer pelo Brasil sem termos jogadores atuando aqui. Foi-se o tempo em que nos identificávamos com os atletas do Santos (Pelé, hoje estaria nesse time?), do Corinthians (viva Sócrates!), do Botafogo (nossa: nele jogaram ao mesmo tempo, Nilton Santos, Garrincha e Didi, depois teve o Gerson), do Flamengo (com Zico e muitos outros), do Cruzeiro (que timaço, com Tostão, Dirceu Lopes e Joãozinho!), do Internacional (time de Falcão)… Agora, para gostar de um jogador é preciso assistir a jogos do Barcelona, do Real Madrid, do Manchester, do Milan e até times da Ucrânia. Não tem graça.

A mercantilização do esporte manda todos os que se destacam para a Europa, então o futebol daqui fica cada vez mais pobre, embora também mercantilizado. E isso não acontece só com o Brasil. Basta dar uma olhada nas escalações de várias seleções para ver que poucos atuam em seus países. Não seria o caso de chamar só jogadores que atuam dentro do país?

Certo, o jogador tem o direito de ir pra Europa ganhar dinheiro, mas teria como opção ganhar aquela grana toda ou ter a possibilidade de jogar na seleção. Podem dizer que nossa seleção ficaria muito mais fraca. E daí? Perder por perder, melhor perder decentemente. Duvido que se na Copa da África do Sul teríamos uma campanha pior do que a seleção do Dunga.

E tem essa coisa de ganhar uma grana exagerada. Fico pensando: como pode um jogador de futebol ganhar num mês o que um trabalhador comum às vezes não ganha na vida inteira? Em alguns casos, o cara ganha num jogo mais do que um proleta em toda a vida. É justo? Poderão dizer: não, não é, mas a coisa funciona assim. Ora, se queremos mudar tudo, com o povo conquistando o poder e fazendo o que lhe é útil, essas coisas estariam na nossa pauta também, não? Assim como apresentadores de televisão que ganham milhões por mês. Vamos radicalizar: concessões de rádio e TV a grupos capitalistas e políticos, privilégios em geral, reforma (preferiria dizer “revolução”) política, lucros de empresas… Gostaria de ter Copa e mudar tudo isso. Inclusive tomar da Fifa tudo o que ela está nos tirando e, se possível, acabar com ela.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: A primeira cidade comunista das Américas

14.05.12_Mouzar Benedito_Cultura InútilPor Mouzar Benedito.

Alguns natalenses reivindicam um registro histórico inusitado: Natal, capital do Rio Grande do Norte, foi comunista antes de Cuba. O primeiro governo de inspiração marxista das Américas aconteceu lá, embora por poucos dias. Uma revolta planejada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), deveria ser detonada em vários quartéis, no fim de novembro de 1935, mas se precipitou na capital potiguar, estourou no dia 24 desse mês, com apoio de uma minoria civil, e durante quatro dias a cidade ficou sob o poder de um governo Nacional Revolucionário, sendo derrotada em seguida.

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O monte Everest era conhecido como Chomolungma, palavra que na língua tibetana significa “deusa mãe do mundo”. O nome Everest foi dado pelos ingleses, em 1865, em homenagem ao sir George Everest, cartógrafo inglês. Os primeiros a escalar o pico até o topo foram o neozelandês Edmund Percival Hillary e o xerpa (nome de um povo do Nepal e do Tibete) Tensing Norgay, que chegaram ao alto dele em 29 de maio de 1953. Essa é a história oficial, a glória é deles, mas estavam sozinhos? Eles foram acompanhados de doze alpinistas, quarenta guias xerpas e setecentos carregadores.

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A execução dos operários Sacco e Vanzetti, nos Estados Unidos, repercutiu no Brasil. Em 23 de agosto de 1931, houve em Santos (SP) uma manifestação operária em Santos em memória dos dois anarquistas. Eles haviam sido executados na cadeira elétrica quatro anos antes (em 23/8/1927). A repressão assassinou o manifestante Herculano de Sousa e prendeu as comunistas Pagu (Patrícia Galvão) e Guiomar Gonçalves.

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Heráclito, que viveu de 550 a.C. a 480 a.C., autor da tese de que o Universo é uma eterna transformação em que os contrários se equilibram, era chamado de “o filósofo chorão”, por causa do seu pessimismo. Ao contrário dele, Demócrito (que viveu de 460 a.C. a 370 a.C.), que dizia que “nada nasce do nada”, que “tudo se encadeia” e que a alma é feita de átomos, era chamado de “o filósofo sorridente”, não tanto por seus ensinamentos, mas mais pelo seu humor. Mas o fato de ser sorridente tinha motivo: ele herdou uma fortuna enorme.

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A “descoberta” do polo norte magnético, pelo navegador norueguês Roald Amundsen, foi anunciada em 6 de dezembro de 1905.

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A cidade de Palmas, cidade planejada e criada para ser capital do estado de Tocantins, tem um Memorial da Coluna Prestes, coisa inédita no Brasil. O curioso é que seu idealizador foi Siqueira Campos, fundador da cidade, primeiro governador de Tocantins, era de direita mas dizia ter sido estafeta da Coluna Prestes quando rapazote. Segundo consta, a Coluna Prestes passou pelo local duas vezes: na ida para o norte e na volta em direção à Bolívia, onde muitos combatentes se exilaram.

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Sergipe fazia parte da Bahia. Em 1820 deu-se a separação. Antes disso, em 1817, deu-se a criação da província de Alagoas, separada de Pernambuco, por Dom João VI, como represália pela Revolução de 1817,

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Francis Galton, antropólogo inglês que inventou o uso das impressões digitais como identificação, era primo de Charles Darwin.

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José Maria Alkmin foi um dos mais manhosos políticos brasileiros. Era o que chamam uma verdadeira raposa. Durante o governo Juscelino, ele foi com o presidente e Augusto Frederico Schimidt, assessor da presidência, a um jantar com o embaixador do Egito. Schimidit, lembrando ao embaixador a ascendência árabe de Alkmin, perguntou a ele o que significa esse sobrenome na língua dele. Sorrindo meio sem graça, o embaixador explicou: “Al é o artigo ‘o’. Kmin é ‘mentira’, ou ‘emboscada’. Alquime é o ouro falso e alquimia era os conhecimentos da Idade Média”. Alkmin reagiu: “O senhor está dizendo que eu sou ‘o mentiroso’?”. Quando saíram, Schimidt contou a Juscelino que Alkmin havia dito a ele que esta palavra significava “o valente”. Pois é… Mas existem muitos outros sobrenomes árabes na política brasileira. Entre eles, Maluf, que significa “gordo”, e Haddad, que é “ferreiro”. Por falar em ferreiro, Schimidt também tem esse significado em alemão.

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Há várias superstições para curar doenças. Vamos ver alguns exemplos. Para sarampo, chá de lagartixa; para asma, beber um pouco de espuma de boca de mula ou misturar na comida um pouco de pó de barata assada; para reumatismo, rastejar em volta de um espinheiro; para terçol, cocô de coelho.

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Em 19 de setembro de 1909 foi realizada a primeira corrida de automóveis no circuito de São Gonçalo, Rio, com o vencedor atingindo a marca de 50 km/h.

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A Europa só conheceu o café em 1517. A Itália passou a importar café turco em 1580. Em Londres, a primeira loja de café foi aberta em 1632 e em Paris o café se tornou popular em 1643. Em Viena, o café só chegou em 1683. Mas os árabes já tomavam café no ano 850.

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Só depois de levantes em algumas repúblicas da Federação Russa é que ficamos sabendo da existência delas. É o caso da Chechênia. Mas são muitas repúblicas com nomes esquisitos para nós. Aí vão alguns exemplos de repúblicas autônomas (RA) que duvido que mais que meia dúzia de brasileiros saibam que existem: República Autônoma da Buriátia, RA dos Karatchais-Tcherkesses, RA da Calmúquia, RA dos Komis-Permiaks, RA do Bashkortostão e RA da Tichuváquia.

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1o de abril não é só dia da Mentira. É também dia da Abolição da Escravidão dos Índios e dia do Humorista. Tudo a ver, não é? Já 18 de maio é dia Mundial dos Museus, dia Nacional do Petroquímico, dia das Raças Indígenas da América, dia do Vidreiro, dia da Boa Vontade e… dia das Girafas!

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Em 4 de outubro de 1501, uma expedição portuguesa de que participava o italiano Américo Vespúcio “descobre” um grande rio que deságua entre os atuais estados de Sergipe e Alagoas e dão a ele o nome de São Francisco, que era o santo do dia. O índios Caetés o chamavam de Parapitinga, palavra que significa grande rio branco. Mas havia outro nome indígena pelo menos para a trecho junto à foz: Opará, que significa mais ou menos “rio-mar”. Quando começou a penetração para o interior, as margens do rio serviram de caminho para o gado, que foi se interiorizando por ele. Chegou a ter tanto gado nas suas margens que ele foi chamado também de “Rio dos Currais”.

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Em 29 de fevereiro de 1872, brasileiros vivendo no exterior “descobrem” Marx: a revista Echo Americano, editada em Londres, em português, publica longo artigo chamando o “Dr. Karl Marx” de sábio.

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O primeiro Oscar do cinema foi para filmes lançados em fins de 1927 e início de 1928, e só concorreram filmes mudos. O vencedor foi Wings (Asas), que simulava combates no ar. O detalhe é que esses combates não eram efeitos especiais, foram mesmo filmados no ar. Um ator que fez uma ponta nele foi Gary Cooper. Na edição seguinte, do Oscar (1928-1929) concorreram filmes mudos e sonoros. O primeiro filme com passagens faladas e cantadas foi lançado em 1927. É O Cantor de Jazz, de Alan Crosland, com Al Jonson.

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Em 7 de junho 1559, Mem de Sá arrasou quatro aldeias tupiniquins. Em suas próprias palavras: “Vim queimando e destruindo todas as aldeias que ficaram atrás”. Quatro dias depois, os Tupiniquim se vingaram dando um cacete nos portugueses, na Batalha dos Nadadores (travada dentro d’água).

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Hector Berlioz (1803-1869), compositor francês, autor de A danação de Fausto, foi vítima de muitas perseguições e de muita inveja, desde criança. Mas queria deixar seu nome à posteridade e encarava tudo com garra. Por sua obra revolucionária, muita gente poderosa achava que ele era uma planta daninha no meio musical, que precisava ser extirpada. Ele mesmo registrou em suas Memórias: “A vida é uma guerra. Eu caí na emboscada”.

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A TV Record, em São Paulo, segunda emissora a funcionar no Brasil, foi inaugurada em 27 de setembro de 1953, às 20 horas, com “Um cordial boa noite”, dos apresentadores Sandra Amaral e Hélio Ansaldo. A Record se notabilizou, principalmente, pelos festivais de música na década de 1960. Foi, também, a primeira emissora a fazer a transmissão de um jogo de futebol, ainda na década de 50.

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Quando o general Francisco Franco tomou o poder e instalou uma ditadura na Espanha, um dos perseguidos foi o cineasta Luis Buñuel, que acabou sendo obrigado a sair do país e se exilou nos Estados Unidos, e depois no México. Em 1960, a Espanha estava em baixa em termos de realizações culturais e o governo de Franco o convidou para voltar ao país e produzir um filme com verbas oficiais. Ele topou e fez Viridiana, que chocou as autoridades e quiseram tomar e eliminar todas as cópias do filme, mas não conseguiram. Buñuel exibiu Viridiana no festival de Cannes, onde foi o grande vencedor.

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O primeiro africano a ganhar o Prêmio Nobel foi um chefe Zulu, Albert John Luthuli, seguidor de Gandhi (que nunca foi premiado) na prática da não-violência. Luthuli era da África do Sul e ganhou o Nobel da Paz em 1960, época da política do apartheid no país. O governo tentou impedir sua viagem à Noruega para receber o prêmio, mas acabou cedendo.

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O museu do Louvre, em Paris, era residência real. Sua transformação em museu ocorreu entre 1791 e 1793.

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 “Meu anjo, meu tudo, meu ser…” Assim começava uma carta que Beethoven escreveu não se sabe para quem. Ele teve duas paixões que o marcaram profundamente, mas houve a suposição de que ele teve uma relação secreta com uma mulher casada. Havia na gaveta dele várias cartas escritas em 1812 (ele morreu em 1827) para a “imortal bem-amada” de Beethoven, e não se sabe porque estavam com ele. Será que escreveu e não mandou para a amada? Será que mandou e ela devolveu? Muitas mulheres foram arroladas como a possível paixão de Beethoven e alguns pesquisadores concluíram que era Joshéphine Brunswick-Deym-Stackelberg, apelidada Pépi, casada com o barão Christoph von Stacakelberg. Em 9 de abril de 1813 Pépi, deu à luz uma menina chamada Minona, que alguns pesquisadores acreditam que era filha de Beethoven.

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O golfinho e o tubarão atingem a velocidade de 40 km/h. Parece muito? O peixe espada nada a até 95 km/h e o agulhão a 110 km/h.

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Na história criada por Edgard Rice Burroughs, Tarzã nasceu numa cabana em uma praia da África, no dia 22 de novembro de 1888. Os pais dele, Lorde Greystoke e Alice, foram deixados na praia por marinheiros amotinados. Em 1908, também por amotinados de um navio, foi deixada na praia a bela Jane, uma loira de 19 anos. Depois de muitas idas e vindas (ela chegou a se mudar para os Estados Unidos), os dois se casaram.

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O diabo nos ditados
O diabo ajuda os seus
O diabo, depois de velho, fez-se ermitão
O diabo é o outro
O diabo reza também

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Assim falou Jean Cocteau, escritor francês: “Se eu prefiro os gatos aos cães é porque não existem gatos policiais”

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Bolívar não perdeu tempo!

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Por Mouzar Benedito
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Lenda ou verdade? Simón Bolívar, que comandou os exércitos que libertaram a Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia e Panamá, e teve papel importante também da libertação do Peru, participou de 200 batalhas e teve 200 amantes. Ele morreu de tuberculose, aos 47 anos, em 1830. Foi no Monte Sagrado, em Roma, que, quando tinha 22 anos, Bolívar jurou libertar a sua pátria.

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Ausente do noticiário durante muito tempo, a Crimeia agora é foco das atenções. Uma guerra lá, pode influenciar muita coisa no mundo. E isso não seria novidade para os gaúchos. A bombacha, aquelas calças largas que parecem vestimenta de turcos (seu nome vem do espanhol, bombacho, que significa justamente calças largas) se tornaram vestimenta dos gaúchos do campo, acredita-se, por causa da Guerra da Crimeia, ocorrida de 1853 a 1856. O czar Nicolau I tentava expandir o Império Russo e foi combatido pela Inglaterra, França, Império Otomano (atual Turquia) e Sardenha (a Itália ainda não estava unificada). Segundo consta, aquelas calças largas dos turcos eram produzidas na Inglaterra e, com a guerra, não foi possível exportar para seus compradores normais. Capitalista perder dinheiro? Jamais! Então foram atrás de nova freguesia. Introduziram a “moda” na América do Sul, especialmente na região do Prata, os gaúchos acharam as bombachas confortáveis e aderiram a elas. O chapéu típico das “cholas” bolivianas tem história semelhante.

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Logo depois de se candidatar a sede da Copa do Mundo de Futebol de 1962, o Chile sofreu um dos mais terríveis terremotos. Havia dúvida se o país seria capaz de realizar a Copa, e o presidente da Federação Chilena de Futebol fez um apelo: “A Copa do Mundo tem que ser realizada no Chile, porque não temos mais nada”. Dois estádios novos foram construídos rapidamente, e o Brasil foi bicampeão, com Garrincha mostrando sua genialidade.

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A imperatriz Leopoldina achava que os lavradores brasileiros eram indolentes e que eles poderiam mudar de comportamento se trouxessem alemães para cá, para servir de exemplo, e começou a recrutar famílias de lá pra vir para o Brasil. Em 1824, ela escreveu a um recrutador de jovens alemães interessados em vir para o Brasil: “Mande mais 3 mil homens, solteiros e moços, sem descontar o número que lhe escrevi da outra vez”.

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Em 1817, na Revolução Pernambucana, o governo revolucionário revogou o tratamento de “vosmicê” e “senhor”, usados para pessoas importantes, instituindo no lugar deles “vós” (hoje equivalente a “você”), e “patriota” (equivalente a “companheiro”).

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O ouro é considerado um protetor contra mau-olhado, e muita gente usa anel, brinco ou qualquer outro objeto de ouro para se proteger. Mas se quiser ter sorte pra valer, tem que usar uma pedra preciosa (ou semipreciosa) em cada mês: janeiro: granada; fevereiro: ametista; março: água marinha; abril: brilhante; maio: esmeralda; junho: pérola; julho: rubi; agosto: sardônica (acredite: essa pedra existe); setembro: safira; outubro: opala; novembro: topázio; dezembro: turqueza. Haja dinheiro pra ter uma joia pra cada mês!

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A Batalha de Waterloo, em que Napoleão Bonaparte foi definitivamente derrotado, aconteceu em 18 de junho de 1815.

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Bárbara, nascida na atual Turquia, no século III, era filha de Dióscoro, um nobre e rico cidadão do Império Romano, que perseguia os cristãos. Só que ela se tornou cristã, secretamente. Quando Dióscoro descobriu, ficou tão injuriado que denunciou a filha e ela foi condenada a ser decapitada. Ele mesmo se encarregaria de cortar a cabeça da moça. Na hora da execução da pena, quando Dióscoro levantou a espada afiada para a decapitação, caiu um raio na espada e o matou. Esta é uma história que se conta de Santa Bárbara, protetora contra raios e tempestades.

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Segundo a mitologia chinesa, não há apenas uma lua, são doze luas, uma para cada mês.

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Na mitologia persa, há um ponte entre a terra e o céu, chamada Chinvat. Nela, os mortos eram julgados. Os puros passavam, os pecadores eram jogados no inferno.

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Na mitologia hindu existem vários mundos e as leis dos outros mundos não são as mesmas deste em que vivemos. Não há um consenso sobre quantos são esses mundos, o número varia conforme o autor, mas quase sempre em torno de 14.

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Os Estados Unidos compraram o Alasca da Rússia em 1867, e cada hectare custou menos de um centavo de dólar. O Canadá, então colônia da Inglaterra, faz divisa com o Alasca e havia interesse inglês de comprar aquele território, mas a Rússia tinha a Inglaterra como inimiga.

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O primeiro desenho animado de longa-metragem de Walt Disney foi “Branca de Neve e os Sete Anões”, finalizado em 17 de julho de 1937.

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Pelé tinha 16 anos quando jogou pela primeira vez na seleção brasileira de futebol. O jogo foi contra a Argentina, em 7 de julho de 1957. Ele marcou o único gol brasileiro, na derrota por 2 x 1.

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Em livros sobre plantas afrodisíacas, pode-se encontrar entre os estimulantes sexuais o capim barba-de-bode. A parte empregada é a raiz, que deve ser preparada em tintura (infusão em álcool). Recomendam tomar 20 a 80 ml por dia da infusão a 10% em cachaça ou álcool ou 50 a 150 ml por dia de infusão a 20% em vinho branco seco. Quem quiser que arrisque!

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Em dezembro de 1872 tripulantes do navio britânico Dei Gratia, que ia de Nova York para Gibraltar, avistaram um outro navio se deslocando de maneira estranha, irregular. Fizeram uma saudação e não obtiveram resposta. Alguns marinheiros foram de bote até esse navio, que era o Mary Celeste, subiram a bordo e não encontraram ninguém. Nenhuma pessoa! Nunca foi descoberto o que aconteceu com a tripulação.

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Em 1o de janeiro de 1915 foi inaugurada a linha de telégrafo de 1280 quilômetros ligando Cuiabá a Rondônia, na bacia Amazônica, construída pela expedição Rondon. O início da construção foi em 1907.

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Em 25 de janeiro de 1975, mais um piloto brasileiro se destaca na Fórmula 1: José Carlos Pace venceu a corrida em Interlagos. Algum tempo depois ele morreu de acidente de avião, e o governador Paulo Egídio, de São Paulo, nomeado pela ditadura, deu um baita fora: “Eu esperava que ele morresse de acidente de carro, não de avião”.

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No início da ocupação de Pernambuco por engenhos de açúcar, um obstáculo foi o povo Caeté, muito valente, formado por guerreiros excelentes. Uma época, Jerônimo de Albuquerque (que por sinal era filho de um português e uma índia) cobiçou as terras dos Caeté e decidiu expulsá-los. Recrutou quantos brancos pôde e 10 mil índios inimigos dos Caeté e partiu para o ataque, esperando uma vitória fácil, já que os Caeté eram apenas 600. Mas a resistência foi brava. Protegidos por uma paliçada, os Caeté mataram uma porrada de inimigos, e ao amanhecer recebeu o reforço de 200 flecheiros de outras aldeias. Em vez de ficar na defensiva, partiram para o ataque e puseram pra correr os portugueses e seus aliados. Em 1560, o governo português reuniu 22 mil homens muito bem armados, entre índios e brancos, para atacar os Caeté e houve combates com perdas de lado a lado, mas o bravo povo indígena viu que era uma coisa desproporcional e se retirou para o interior.

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Sabe-se que o PCB foi fundado em 25 de abril de 1922, mas antes houve uma tentativa de criação do Partido Comunista do Brasil, em 21 de junho de 1919. Era um partido meio anarquista e teve vida curta.

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Em 1o de março de 1858, termina em Salvador a “Revolta dos Chinelos”, iniciada no dia anterior, 28 de fevereiro. O povo, com apoio da Câmara Municipal, se revoltou contra a alta dos preços da farinha de mandioca e da carne, usando o lema “carne sem osso, farinha sem caroço”. O presidente da Província ficou a favor dos atacadistas e monopolistas de gêneros de primeira necessidade e mandou tropas invadirem a Câmara. O povo reagiu atacando o palácio, a Guarda Nacional foi chamada para dispersar os revoltosos e a praça ficou coberta de chinelos, pois os revoltosos eram pobres e esse era o calçado deles.

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Um ditado: “O anão, quanto mais alto sobe, menor parece”.

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A música popular brasileira estava meio em baixa (será que tanto quanto na época atual?), em meados dos anos 1960, mas aí começou uma era de festivais que mudou tudo. O primeiro festival, realizado pela TV Excelsior, teve sua final em 6 de abril de 1965, e revelou Elis Regina, intérprete da música vencedora, Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Nos anos seguintes a TV Record e a Globo entraram na onda e foi um tempo de músicas maravilhosas, como Domingo no Parque (Gilberto Gil), Sem lenço e sem documento (Caetano Veloso), Roda Viva (Chico Buarque), Disparada (Geraldo Vandré), Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brandt), São Paulo, meu amor (Tom Zé), Pra não dizer que não falei de flores (Vandré) e Sabiá (Chico Buarque e Tom Jobim).

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A data tida como a do primeiro jogo de futebol no Brasil é 14 de abril de 1895, com ingleses residentes em São Paulo. O jogo entre São Paulo Railwai e Companhia de gás, promovido por Charles Miller, na Várzea do Carmo, terminou com a vitória do São Paulo Railway (em que Charles Miller jogava) por 4 x 2.

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Jean-François Champolion, que decifrou a “Pedra da Rosetta” (Rosetta era o nome que os europeus deram a Rashid, no Egito) já era um egiptólogo aos 17 anos de idade, tendo estudado as línguas árabe, caldeu, chinês, copta, pahlavi, parsi e zend. A Pedra da Rosetta foi levada para a França em 1799, e, depois da derrota de Napoleão, para a Inglaterra.

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Em 1507 foi publicado na Europa o livro As quatro navegações de Américo Vespúcio, obra fantasiosa, em que o dito cujo aparece como “grande descobridor”, segundo o cosmógrafo Martin Waldesemüller, que foi quem propôs que o continente levasse o seu nome. Em 1513, o próprio Waldesemüller reviu isso e propôs que o continente se chamasse Colômbia, mas o nome América já tinha pegado, não teve jeito.

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Oataque japonês a Pear Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, tem uma história que começa anos antes. Em 1935, os japoneses queriam começar a espionar a base de Pear Harbor, mas achavam que se mandassem espiões orientais logo suspeitariam deles, então pediram à Alemanha nazista que cedesse espiões a eles. Joseph Goebbels indicou o médico Bernard Kühn, ele aceitou a proposta e se mudou para o Havaí com a família, que se tornou toda espiã: ele, a mulher, uma filha então com 17 anos, e um filho com 5 anos. Era um pessoal muito simpático e ninguém suspeitava deles. Em 1939 a família foi orientada a espionar toda a marinha norte-americana que atuava na área. A filha Susie, bonita, teve papel chave. Namorava oficiais norte-americanos e depois montou um salão de beleza frequentado por mulheres dos oficiais, que fofocavam direto e contavam segredos revelados pelos maridos.

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Ditados sobre cachorros

Cachorro bom de tatu, morre de cobra
Cachorro velho não late à toa
Cachorro velho não se acostuma com coleira
Cão que muito lambe, tira sangue

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Assim falou Camilo Castelo Branco: “Enquanto houver rapazes de quarenta anos, é justo que se desculpem as leviandades dos velhos de dezessete”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV, VI, VII, VIII, IX, X e XI na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Futebolices, sacizices e livros

14.04.08_Mouzar Benedito_Futebolices, Sacizices e livrosPor Mouzar Benedito.

Aproveito meu espaço aqui para fazer algo que podem classificar como oportunismo: convidar os leitores para um lançamento de livros meus. Mas antes de dar as informações sobre títulos a serem lançados, local, data e horário, lanço um desafio: identificar quem escreveu a crônica intitulada Futebol, de que pincei trechos que se seguem.

“Dá energia. Dá tática. Dá agilidade. Dá calma, sobretudo nas emergências mais escabrosas. Dá o golpe de vista pronto, seguro e firme.

Dá energia moral, porque a energia moral é quase sempre um reflexo da energia física. Dá iniciativa. Dá confiança em si próprio.

Dá responsabilidade. Os porquês de tantos ‘dás’? Dá energia muscular porque o jogo movimenta a musculatura do corpo, os músculos do pé e da perna em primeiro lugar, e os do torço e do pescoço em seguida.

(…) Dá tática porque nas multíplices fases dum ataque ou duma defesa, num dribling, inesperado, num chute falho, em qualquer das mil peripécias de luta, o espírito dos foot-ballers, pela tensão prolongada de todas as suas faculdades, acarreta o aperfeiçoamento da mais e da mais evidência, a presteza da percepção, a tática.”

Mais adiante, no mesmo artigo, ele diz:

“Um ditador que tomasse conta desta República e acabasse com as fábricas de bacharéis e normalistas, substituindo-os por severos teams de futebol, faria mais pelo Brasil que as dez gerações de Feijós, Zés Bonifácios e Cotegipes e demais estadistas que nos têm governado.”

E termina assim:

“E é dessa raça de gente que precisamos. Menos bacharéis, menos parasitas, menos coronéis, menos deputados, menos promotores, menos esfria-verrumas e mais struggle for lifes, mais ‘homens’, mais fibra, mais glóbulos de ferro no sangue que um Camilo C. Branco do futuro não venha repetir que tem nas veias um podre sangue e dentro dos ossos farinha de mandioca.”

Bem, só pode ser um fanático por futebol quem “cometeu” esse texto, não? Duas surpresas: 1) a data e local em que ele foi publicado, o jornal O Povo, de Caçapava, na edição que circulou entre 10 e 17 de julho de 1905; 2) o autor, Hélio Bruma, que – fiquem sabendo (eu só fiquei há pouco) – era um pseudônimo de Monteiro Lobato.

Em outra crônica, chamada O 22 de Marajó, Lobato fala coisas que cito a seguir:

“Esse delírio que por aí vai pelo futebol tem seus fundamentos na própria natureza humana.”

“Não é mais esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas raças inimigas. Durante o tempo de luta, de quarenta a cinquenta mil pessoas deliram em transe, estáticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola. Conforme corre o jogo, há pausas de silêncio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentíssimas de entusiasmo, que só a palavra delírio classifica. É gente pacífica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fora de si, torna-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos.”

“Admiramos hoje os grandes filósofos gregos. Platão, Sócrates, Aristóteles; seus coevos, porém, admiravam muito mais aos atletas que venciam no estádio. Milon de Crotona, campeão na arte de torcer pescoços de touros, só para nós tem menos importância que seu mestre Pitágoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria inconcebível a ideia de que o filósofo pudesse no futuro ofuscar a glória do lutador.”

Pois é, quem diria! Monteiro Lobato, até praticou futebol, que admirava muito na juventude, mas depois de algumas caneladas o abandonou. E nunca mais jogou. Já adulto passou a desprezar o futebol.

Tornou-se o pai da literatura infantil brasileira, tem muitas bibliotecas com seu nome, inclusive a mais importante biblioteca infantojuvenil de São Paulo. E é nela, na região central da capital paulista, que será comemorado de maneira especial o aniversário do escritor este ano. As comemorações sob o título Semana Monteiro Lobato começaram no sábado, dia 12 de abril, e se estendem até dia 18.

E como estamos no ano da Copa a ser realizada no Brasil (com protestos e contestações) a semana vai ser aberta com… futebol. E lançamento de livros escritos por mim e publicados pela Liz Editora, incluindo um sobre o futebol.

A programação completa está embaixo deste texto, mas quero convidar a todos para eventos com minha participação: às 16h de sábado, dia 12, um bate-bola que vou fazer com Oiram Antonini. Em seguida, será lançado o meu livro Para entender o Brasil – o país do futebol. Escrito em português e inglês (afinal, a pretensão é que gringos o leiam – e uso a palavra gringo extensiva a estrangeiros em geral) dá um rápido panorama do que é o Brasil hoje e depois capítulos com muitas informações sobre as cidades sedes da Copa, com dicas para aproveitar bem a visita a elas, incluindo clima, comida, ambiente, cultura e um pouco mais. Em algumas, comento até o sotaque. Com mais de 300 páginas e muitas fotos, o preço de lançamento será promocional: apenas R$ 30.

E será lançada também uma coleção de livros infantis com textos meus e belas ilustrações do Ohi. Chama-se Turminha Brava. São oito livros: Ninguém engana o Saci?; O caiporismo do Tenório; Um boi chamado Tatá?; Bete e o Boto; O dia em que Joaquim correu atrás do Curupira mata adentro; Quem será o Lobisomem?; Um mergulho atrás da Iara; e A menina que montou na Mula sem Cabeça. O preço desta coleção também será promocional: R$ 15 cada volume, e a coleção completa sairá por R$ 100.

O lançamento será no saguão da Biblioteca Monteiro Lobato, na rua General Jardim, 485 – Vila Buarque (fica no meio da praça).

No mesmo momento será aberta uma exposição do processo criativo do Ohi.

Compareçam.

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A seguir, a programação completa da Semana Monteiro Lobato.

Sábado, 12 de abril
Abertura: Das 10h às 15h

1º Torneio Monteiro Lobato de Futsal Feminino e Masculino Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato e Base Comunitária da Praça Rotary / Coordenação: Renato Cesar /Local: Praça da Biblioteca (Pça Rotary) / às 16h

Sacizisses e futebolices
Bate-Bola com o jornalista e escritor Mouzar Benedito / Mediação: Oiram AntoniniLançamento dos livros Para entender o Brasil, país do futebol e a Coleção Turminha Brava de Mouzar BeneditoExposição do processo criativo de Ohi, o ilustrador dessa Coleção.

Dia 14 de Abril (segunda)

10h30 – Homenagem a Hilda Vilela Junqueira Merz
Palestra: Como era a Biblioteca nos tempos de Lobato e outros relatos sobre a Memória da Biblioteca.- com Dr. Victor Nussenzweig – diretor, na adolescência, do Jornal “A Voz da Infância”
14h – Histórias do Sítio – pela contadora de histórias Edna Cardoso, da Ed. Globo
15h – exibição do filme “Fantasia

Dia 15 de Abril (terça)

10h – Lançamento da Bibliografia Brasileira Infantil e Juvenil online
Apresentação dos Acervos Especiais da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, por Azilde Andreotti
Fala do Prof. André Moura sobre sua experiência como resenhador
Apresentação do Grupo Teatral “Pé de Zamba, em parceria com a Ed. FTD
15h – Fantasia e Realidade em Monteiro Lobato – Emília e Visconde: duas faces do autor – por André Moura

Dia 16 de Abril (quarta)

10h – Histórias do Sítio – contação de histórias para crianças
15h – exibição do filme “Alice no País das Maravilhas

Dia 18 de Abril – Sexta-Feira Santa

Publicação do texto Jesus Cristo segundo Monteiro Lobato – extraído do livro História do Mundo Para Crianças – no blog da Biblioteca

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Não dá pra esquecer

14.03.25_Mouzar Benedito_golpePor Mouzar Benedito.

Meninos, eu vi! Não foi algo bom de se ver. Aconteceu há 50 anos. Quer dizer, o início foi há 50 anos, o fim (se é que podemos considerar que houve) foi há 29 anos. A coisa durou 31 anos!

Se for fazer uma análise do golpe de 1964, sei que não vou acrescentar nada. Seria uma opinião como muitas outras (e diferente de muitas outras também, mas sem novidades). Então, vou me limitar a relembrar aqueles dias. Eu tinha 17 anos, estudava contabilidade num colégio particular e morava numa pensão.

Vamos ao que interessa (imagino): a visão desse moleque ingênuo e mal informado sobre o que viu no dia do golpe e depois um pouco do que viria a ser a política econômica e social dos que tomaram o poder. Extraí esses textos (mudando um pouquinho) do livro 1968, por aí… Memórias burlescas da ditadura, que publiquei pela Publisher Brasil (editora da revista Fórum, em 2008). Pouca gente leu, então acho que vale.

UM PREÂMBULO

Não que imagine que os leitores precisem de informações tão básicas, mas alguns, quem sabe… No dia 13 de março, Jango fez um comício na Central do Brasil, no Rio, com a presença de cerca de 300 mil pessoas que apoiavam as reformas de base: além da reforma agrária, haveria a reforma urbana (inquilinos poderiam comprar apartamentos em que moravam, e a avaliação do imóvel seria feita pelo governo), educacional (entre outras coisas, as escolas privadas sofreriam limitações), bancária, fiscal e eleitoral (extensão do voto a analfabetos e revisão das bancadas na Câmara Federal, alterando o peso dos estados no Congresso). Outra coisa anunciada no comício foi a proibição da remessa de lucros para o exterior: as multinacionais teriam que aplicar no Brasil os lucros que tinham aqui. E mais: as refinarias de petróleo privadas seriam estatizadas.

Imaginem a reação. A imprensa, a “classe política” dominada pela direita, a igreja conservadora, os fazendeiros, as multinacionais, o governo dos Estados Unidos, os especuladores imobiliários, os comerciantes do ensino… Gente poderosa!

Dia 19 de março veio a primeira resposta a Jango: realizou-se em São Paulo a “Marcha da Família com Deus, pela Liberdade”, organizada pelo deputado direitista Cunha Bueno e pelo padre estadunidense Patrick Peyton, com apoio do governado Adhemar de Barros, da deputada Conceição da Costa Neves (uma mulher muito mal-falada pela imprensa antes disso), de gente como o líder integralista Plínio Salgado (um dos que discursaram), setores da Igreja, a Fiesp e patrões em geral. Eu não tinha nenhuma consciência política, mas estranhei que o diretor do supermercado em que eu trabalhava saiu de seção em seção autorizando os empregados a faltarem para ir à Marcha. Mas tinham que comprovar que foram, ir em bando, com os chefes. Felizmente, mesmo sem saber direito o que era, não fui.

Cerca de 500 mil pessoas participaram da Marcha, no centro da cidade, segundo a imprensa. Um lembrete: depois, as mulheres que participaram desse espetáculo passaram a ser chamadas de marchadeiras. Muitas se arrependeram, quando começaram a perder empregos e ver parentes perseguidos. Zé Ketti chegou a fazer um samba gozando, que tinha o refrão “Marchou com Deus pela democracia / agora chia, agora chia”, mas ele nunca veio a público, pois foi censurado.

O DIA DO GOLPE, NO SUPERMERCADO

14.03.25_Mouzar Benedito_golpe_sirva-se

Cultura inútil: sabe qual foi o primeiro supermercado da América Latina? Muita gente se engana, principalmente os mais velhos do tempo do Peg-Pag, pensam que foi esta rede, cujo nome virou sinônimo de supermercado na década de 1960.

A resposta para esta pergunta é: o Sirva-se. Em 1954, me parece, criado pelo empresário Mário Simonsen, que era dono da Panair do Brasil (empresa de aviação de ótima qualidade, com muitos voos para o exterior) e depois da TV Excelsior de São Paulo (na época, a de maior audiência). A primeira loja do Sirva-se existe até hoje, só que com o nome de Pão de Açúcar. Fica na rua da Consolação, pertinho da avenida Paulista, em São Paulo. A segunda loja, aberta uns anos depois, também existe com o nome Pão de Açúcar, fica na alameda Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim Paulistano, também em São Paulo. Foi durante muito tempo a maior loja de supermercado em todo o Brasil, e considerada um modelo.

Mário Simonsen ficou contra o golpe militar e sofreu uma baita pressão econômica e fiscal, com isso fechou a Panair, perdeu a concessão da TV Excelsior, que depois virou TV Manchete e hoje é a Rede TV!. As duas lojas do Sirva-se e mais uma em construção foram vendidas ao Pão de Açúcar, em 1965.

No dia 31 de março de 1964 eu trabalhava na loja do Jardim Paulistano, e me diverti. Eu era menor de idade, ganhava menos que o salário mínimo e mal conseguia pagar a pensão e o colégio (isso mesmo: colégio pago), mesmo fazendo um montão de horas extras, então não lia jornais, só via as manchetes nas bancas. Não tinha dinheiro. Por isso, estava mal informado e não tinha uma noção certa do que acontecia. Ouvi no rádio o governador de Minas, Magalhães Pinto, esbravejando contra João Goulart, e me parecia mais uma briga entre os governadores de Minas, inicialmente, e depois os do Rio e de São Paulo, contra o governo federal. Só fiquei sabendo que era algo diferente disso depois de conversar com alguns trabalhadores já com alguma consciência política.

Mas a minha diversão, no dia do golpe, era ver o desespero dos ricos frequentadores do supermercado. Com medo de uma revolução de verdade, com batalhas nas ruas e o comércio fechado, todos queriam estocar o máximo possível de comida e outros produtos. Correram em massa para o supermercado. Não cabia todo mundo, deixaram entrar um monte de gente e fecharam as portas, e formou-se uma fila enorme do lado de fora, controlada por seguranças. Quando saía um freguês, deixavam entrar outro. E assim foi o dia inteiro, até acabar tudo que havia nos estoques.

O pessoal passava pegando tudo que havia nas prateleiras, de grãos a latarias, papel higiênico, velas, fósforos… tudo mesmo. Os repositores vinham do depósito com carrinhos cheios de mercadorias que não chegavam nem a pôr nas prateleiras, os fregueses se apossavam dos produtos logo que eles entravam na loja.

Outro lado da minha diversão: o diretor, homem autoritário, sério, mudou de papel nesse dia: virou empacotador. Os meninos empacotadores estavam sobrecarregados e o jeito foi reforçar o serviço com gente do escritório, inclusive o diretor. Detalhe: as pessoas davam gorjeta ao empacotador, inclusive a ele, que aceitava tudo. Era pão-duro.

No dia seguinte, 1o de abril, não havia nada para vender no supermercado, e nada no estoque para repor. Aí veio a notícia de que o golpe estava consumado: João Goulart preferiu fugir para o Uruguai a encarar os golpistas. E fez-se de novo uma fila na porta do supermercado, mas desta vez querendo devolver mercadorias compradas em excesso, o que não foi aceito.

BOB FIELDS

14.03.25_Mouzar Benedito_golpe_bob fields

Agora, vou lembrar de um personagem que não remete a nada que possa ter algo a ver com o humor que encarei as coisas antes: o ministro do Planejamento no governo Castello Branco era Roberto Campos, mais conhecido como Bob Fields, porque era um gringófilo total. Era ele quem mandava na economia.

Logo iniciou um processo de concentração de capitais, de perseguição às pequenas empresas, forçando a se “associarem” a outras maiores, de preferência estrangeiras. Na prática o que se propunha era que elas fossem vendidas às empresas de grande capital. Empresas que tentavam resistir sofriam um assédio fiscal terrível. E assim foram sumindo as pequenas empresas que davam empregos. Até as cachaças boas se acabaram porque, segundo Bob Fields, pequeno alambique não pagava impostos. Então, fechou um monte, deixando só grandes empresas que produziam cachaça em larga escala, com um processo industrial em que era impossível produzir coisa que preste.

Mas o pior mesmo foi o desemprego que ele causou, já que as empresas que compravam as menores demitiam quase todo mundo e não substituíam os demitidos, apenas incorporavam seus serviços aos de outros trabalhadores não demitidos. Toda fusão de empresas gera demissão.

Até começar isso, ninguém que quisesse trabalhar ficava desempregado em São Paulo. Os jornais tinham cadernos enormes de oferta de empregos. Eu mesmo cheguei em São Paulo numa noite de segunda-feira, passei na terça para conhecer um pouco do bairro em que moraria (Pinheiros) e do centro, procurei emprego na quarta e comecei a trabalhar na quinta. E isso não significava que eu tinha sorte ou era qualificado. Tinha patrão que pedia aos empregados que trouxessem conterrâneos para trabalhar em suas empresas, porque não conseguia arrumar os empregados que precisava.

Era um tempo em que, nas blitze em algum lugar de São Paulo, a polícia cercava o local e ia pedindo a carteira profissional de quem estava ali. Quem fosse maior de idade e não tivesse emprego registrado, ia em cana por vadiagem. Eu não era registrado, mas era “de menor” e tinha carteira de estudante, o que me livrava disso. Mas imagine uma coisa dessas hoje! Mais da metade da população em cana!

Pois é, e chega Bob Fields e sua política pró-grandes capitalistas gringos. Logo foi se tornando difícil arrumar emprego e pouco depois já havia bandos de desempregados na cidade.

Naqueles tempos as pessoas tinham uma formação moral muito rígida e não passava pela cabeça de quase nenhum dos desempregados sair assaltando ou traficando drogas. Quando acabava o dinheiro, iam vendendo seus bens. Em 1966, eu estava trabalhando no centro da cidade e via muita gente tentando vender alianças de casamento, a última coisa de que se desfaziam. Pouco depois, deixei de passar pelo Viaduto do Chá, porque quase todos os dias tinha desempregado pulando dele, se suicidando por desespero e desesperança.

E tem muita gente que louva Roberto Campos…

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O QUE RESTA DO GOLPE DE 1964

Confira o especial de 50 anos do golpe no Blog da Boitempo, com artigos, eventos e lançamentos refletindo sobre os legados da ditadura para o Brasil contemporâneo, aqui.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Divagações sobre cachorros e sobre o assassinato de Trotski

14.03.06_Mouzar Benedito_PaduraPor Mouzar Benedito.

Gosto de animais em geral, mas numa época tive uma birra com pessoas que têm um apego exagerado aos cachorros. E esse sentimento me veio à memória enquanto lia O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura, uma história de ficção apoiada em fatos e nomes reais.

Não é novidade para mim, e acredito que para nenhum leitor do blog da Boitempo, que Ramón Mercader, um catalão a serviço de Stalin, assassinou Leon Trotski no México. Uma picareta de alpinista foi o instrumento do assassinato. Direto na cabeça de Trotski, que não morreu na hora, chegou a lutar com o agressor.

Mercader amava os cachorros. Trotski também amava os cachorros. Então, amar os cachorros não é característica exclusiva de stalinistas nem de trotskistas.

Assim como o autor usou essa coisa de amar cachorros para dar o nome ao livro, eu acho que posso, antes de falar do livro propriamente, fazer um intervalo para lembranças sobre coisas que me levaram a ter birra não contra os cachorros, mas contra alguns de seus donos, durante um bom período.

NOVA RESENDE, PARIS, RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO

Quando criança, uns amigos e eu éramos como donos de um cachorro de rua a que demos o nome de Danúbio. Tínhamos um assobio para chamá-lo onde estivéssemos, e qualquer um de nós que assobiasse de uma forma especial que treinamos atraía o animal simpático e brincalhão.

Então, não tenho traumas de infância sobre isso, embora não gostasse de um cara que tinha um pastor alemão, de nome Rex, que atacava as pessoas e vivia solto nas ruas.

Depois disso, a primeira vez que peguei uma certa antipatia por donos de cachorros tem a ver com gente e lugar que não conheci. Muitos amigos que estiveram exilados na França me contavam do tratamento pra lá de amável que os franceses davam aos cães, enquanto as crianças mesmo não eram tão bem tratadas assim. Dois amigos meus estavam em Paris, lá pelo fim dos anos 1970, e quando chegaram aqui me contaram que viram uma mulher andando pela calçada, acompanhada de um menino com uns 5 anos de idade e um cachorro mais ou menos pequeno. Quando foi atravessar a rua, ela pegou o cachorro no colo e foi dando tapas na cabeça do menino para ele andar depressa. Um desses meus amigos deu uma bronca na mulher e quase apanhou de franceses que viram tudo e disseram que ele não tinha nada com isso, que era justo tratar o cachorro e o menino daquela maneira.

Em seguida, fui morar no Rio de Janeiro, no bairro do Leme. Lá e em Copacabana, ao andar pela calçada da avenida que beira a praia, tinha que ir olhando para o chão, para não correr o risco de pisar em merda de cachorro. Um dia, tomava um chope numa mesa da calçada do restaurante Fiorentina, veio um homem com um cachorro grandão, ocupou a mesa ao lado e pediu chope também. Logo em seguida, veio uma mulher passeando com outro cachorro grandão, e seu animal a puxava para perto da mesa do meu vizinho. Ela o acompanhou. Um cachorro ficou cheirando o outro, ela alisou o bicho do homem que estava sentado e falou para o seu: “É seu amigo, fulano”. O homem alisou o cachorro dela e falou algo para o seu próprio cachorro. Ficaram ali uns cinco minutos, ela falando com o cachorro dele e ele falando com o cachorro dela. Não conversaram entre eles. Um só falava com o cachorro do outro.

Aí, pensei: “Gente que gosta exageradamente de cachorro, não gosta de gente”.

Em São Paulo a coisa começou mais tarde. Muita gente tinha cachorro mas eu achava “normal”. Até que num churrasco alguém levou um cachorro enorme, que pra começar bateu as patas no peito de um menino, derrubando-o de costas. Ele destampou a chorar e o dono falou bravo como se ele estivesse cometendo um crime: “O cachorro só está brincando”. Os próprios pais deram uma baita bronca no menino. Aí o cachorro saía correndo, pisava no barro (tinha chovido) e vinha com a brincadeira de bater as duas patas dianteiras no peito das pessoas. Quando falei pro dono que não queria que seu cachorro fizesse aquilo comigo, ele ficou indignado, pensando como é que alguém podia não aceitar uma brincadeira de cachorro. Respondi que se uma pessoa sujasse a mão de barro e batesse no meu peito eu ia no mínimo xingar o sujeito. Por que um cachorro pode ter esse direito de sujar a roupa dos outros? Fiquei malvisto ali.

Aí tem muitas outras histórias, mas concluí que as coisas ficaram esquisitas demais num domingo em que andava pelas ruas arborizadas do bairro, ouvindo rádio. Estava acontecendo uma manifestação em várias cidades brasileiras, em defesa dos animais. Na emissora que ouvia, entraram repórteres falando direto do Rio, de Belém, de São Paulo e de não sei onde mais. Gostei, embora estranhasse que “os animais” nessas manifestações eram quase só cachorros, aparecendo algumas vezes alguém com um gato, ou falando de gatos. Depois de cerca de meia hora cobrindo a manifestação pró-animais, com repórter entrando ao vivo de um monte de lugares, dando voz aos militantes da causa, uma outra notícia: a polícia, apesar de ter garantido que isso não ia acontecer, invadiu o lugar denominado Pinheirinho, em São José dos Campos, para expulsar seus milhares de moradores. Não havia repórter nenhum lá, e leram apenas uma nota com a versão da polícia sobre o acontecido. Só pude ironizar, falando sozinho: “Eu não sou cachorro, não. Que pena!”.

O certo é que o verdadeiro culto aos cachorros hoje em dia me faz pensar que certas pessoas não são donas de cachorros, os cachorros é que são donos delas.

QUANDO O PARTIDO ERA DEUS

Volto ao livro. Não esperava me impressionar com o seu conteúdo, apesar do volume de quase seiscentas páginas. Mas confesso que balancei um pouco. Ele intercala histórias de Trotski já preso, das vésperas do exílio até sua morte no México, da Guerra Civil Espanhola e da trajetória de Ramón Mercader desde criança, até depois que saiu da prisão e viveu na União Soviética e em Cuba.

É impressionante a forma com que se “faz a cabeça de alguém” para cometer um crime achando que está fazendo isso para o bem da revolução, do proletariado e de toda a humanidade. Um assassinato cruel é imaginado como um ato de heroísmo.

Mesmo pessoas com uma cultura vasta podem ser manipuladas. Perde-se o sentido crítico, a humanidade, a dignidade…

O PCB teve uma fase em que a obediência ao partido – que muitas vezes era a obediência a Stalin – era um dogma.

Lendo a história de alguns comunistas que para mim – apesar de eu nunca ter militado no Partidão ou no PC do B – são paradigmas da entrega a uma causa, sempre fico admirado com a dedicação deles ao partido, considerado quase sempre infalível. São pessoas que admiro, como Pedro Pomar, Carlos Marighella, Gregório Bezerra, Vladimir Pomar e Apolônio de Carvalho. Mal acabavam de fazer um grande trabalho a mando do PCB num lugar, sob condições muito difíceis, eram mandados para outro e iam sem vacilar. Na maioria das vezes por conta própria, mudando de nome (inclusive dos familiares), começando tudo do zero de novo em algum lugar. Arriscavam a vida sem contestar ou pôr em dúvida a decisão do Partido, para cumprir uma tarefa.

Apolônio foi lutar pela república na Guerra Civil Espanhola e, acabada a luta ali, com a derrota para os fascistas do general Francisco Franco, atravessou para a França e foi lutar na Resistência contra o nazismo.

Acredito que era um tendência geral de uma época, essa disciplina militante, essa crença, essa entrega total a uma causa. Não era só no Brasil. No livro de Padura, isso aparece com clareza na história de Mercader e também a de Trotski e em quase todos os militantes envolvidos nos acontecimentos da época.

A Guerra Civil Espanhola foi um campo de experimentos. Hitler testou ali armas de execução em massa, promoveu bombardeios como o que arrasou Guernica, e do outro lado, sem comparar os efeitos e os métodos, houve um monte de desavenças entre comunistas ligados ao PC, trotskistas e anarquistas, além de republicanos “comuns”. Nos lugares governados pelos republicanos, havia muita disputa interna entre as tendências.

Trotskistas e anarquistas propunham que a guerra civil fosse também uma revolução, mas o Partido Comunista – que tinha entre outros líderes Dolores Ibárruri, conhecida como “A Passionária”, e Santiago Carrillo – era contra, queria apenas manter a república, sem mudar o sistema econômico. E isso era motivo para refregas internas entre os republicanos.

Li livros espanhóis que acusavam o PC espanhol de mandarem assassinar muitos trokstistas e anarquistas empenhados na luta contra Franco, acusando-os de serem franquistas infiltrados. No livro de Padura, a história aparece inicialmente como se a desavença entre as tendências republicanas fosse geral, com sacanagens de todos os lados, mas acaba mostrando as manipulações do PC, orientadas por agentes de Stalin, incluindo os tais assassinatos, como o do trotskista Andreu Nin, líder trotskista de Barcelona. Para Stalin, ao que parece, não interessava ganhar a guerra se o controle da Espanha republicana não ficasse sob o comando do PC.

Fico pensando em pessoas como Apolônio e até mesmo em Ernest Hemingway (autor de Por quem os sinos dobram, belíssimo livro sobre a luta na Espanha), que lutaram honestamente pela República. Como teriam se sentido ao saber certas verdades por trás da sua luta – que, repito, teve mesmo muito heroísmo e muita fé em ideias libertárias.

A história nos conta que quando vieram à tona os chamados “crimes de Stslin”, em 1954, foi um arraso. Aqui no Brasil, alguns abandonaram totalmente seus ideais. Jorge Amado não só saiu do PCB como mais tarde se tornou um adepto de ACM, o fatídico Antônio Carlos Magalhães.

Marighella, contam, chorou muito. Mas continuou na luta, entendendo que os desvios de conduta do homem em quem acreditava não comprometiam o principal.

Enfim, a leitura de O homem que amava os cachorros mexe com a cabeça da gente. Tem muitos detalhes, muitas histórias de um tempo de paixões políticas dominando corações e mentes, e é interessante e trágico ir entendendo como se forjou, a partir de um jovem idealista, um matador cruel. O próprio autor, em alguns momentos, vacila entre o ódio a ele e a sensação de pena.

Não sei se indicaria o livro para todo mundo. Para alguns não muito estruturados e para quem procura motivos para não acreditar que o mundo pode ser bem melhor sem o capitalismo, seu conteúdo pode ser uma desculpa, tipo “o socialismo leva ao autoritarismo etc.”. Mas para alguns que acreditam sempre no “grande chefe”, seja quem for, acho que ele mostra que as coisas não são bem assim, que eles falham, têm manias, medos, pretensões de poder absoluto e por aí vai. Sentem-se deuses. Não será o caso de pensar se certas figuras do nosso tempo não se parecem um pouco com isso?

Para finalizar, só mais uma coisa da Guerra Civil Espanhola, a palavra de ordem da Passionária, que mexia com todo mundo, resistindo às tropas franquistas em Madri: “Não passarão!”. Foi muito repetida e de vez em quando a escuto ainda, às vezes na versão original: “No passarán!”. Quando estou numa briga e escuto isso, caio fora. É uma maldição para a esquerda, são raras as vezes em que esse lema deu certo. Quase toda vez que se grita “Não passarão!” ou “No passarán!”, a direita passa atropelando, como passou em Madri. Por favor, militantes, não gritem isso.

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O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, já está disponível em ebook, por metade do preço do impresso aqui. Confira o Booktrailer e o debate de lançamento do livro, com Frei Betto, Gilberto Maringoni, Osvaldo Coggiola e Valério Arcary, abaixo:

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.