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Cultura inútil: Sobre amor e casamento

15.01.26_Mouzar Benedito_Cultura Inútil_Sobre amor e casamentoPor Mouzar Benedito.

Há muitas frases bonitas sobre amor e casamento. Mas as mais “divertidas” não são nada românticas. Mesmo pessoas bem sucedidas no amor e no casamento dizem coisas malucas sobre essas o assunto.

Selecionei alguns ditados populares e algumas frases de gente famosa (às vezes nem tanto) sobre amor e casamento, para repassar aos leitores:

DITADOS POPULARES

Amor é uma flor roxa, que nasce em coração de trouxa.

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Homens honestos casam cedo, e os prudentes nunca.

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O amor faz passar o tempo, e o tempo faz passar o amor.

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Homem apaixonado não admite conselho.

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Amor é vento: vai um, vem cento.

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Amor e bexiga só dá na gente uma vez.

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Amor de parente é mais quente.

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Quem casa com mulher feia não tem medo de outro homem.

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Amor de asno entra coice e dentadas.

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Se o amor fosse cardeal, há muito tempo o demônio seria papa.

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Amor de pica é que fica.

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Quem casa, quer casa longe da casa em que casa.

* * *

Amigado com fé, casado é.

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Casamento feito, noivo arrependido.

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Casarás e amansarás.

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Quem ama o feio, bonito lhe parece.

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Casar, casar… soa bem e sabe mal.

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Casar é bom, não casar é melhor.

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Casar não é casaca que se pendura na estaca

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O amor é uma cangalha
Que se bota em quem quer bem.
Quem não quer levar rabicho
Não tem amor a ninguém.

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O QUE ELES DISSERAM

Alexandre Dumas: “O fardo do casamento é tão pesado que precisa de dois para carregá-lo – às vezes, três”.

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Martinho Lutero: “No casamento, cada pessoa deve realizar a função que lhe compete. O homem deve ganhar dinheiro, a mulher deve economizar”.

* * *

Millôr Fernandes: “O pior casamento é o que dá certo”.

* * *

Hilda Roxo: “Quanto mais o homem fala em amor, menos ele o tem para dar”.

* * *

Machado de Assis: “O amor quando contrariado, quando não leva a um desdém sublime da parte do coração, leva à tragédia ou à asneira”.

* * *

De novo Machado de Assis: “O amor é um problema que só a morte ou o casamento resolve”.

* * *

São Pedro: “Semelhantemente vós, mulheres, sede sujeitas a vossos próprios maridos, para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavras”.

* * *

Xiquote: “O amor pode conduzir o homem aos crimes mais revoltantes; até ao da procriação”.

* * *

William Shaekespeare: “O casamento faz de duas pessoas uma só, difícil é determinar qual será”.

* * *

Voltaire: “O casamento é a única aventura ao alcance dos covardes”.

* * *

Nelson Rodrigues: “Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata”.

* * *

Lupicínio Rodrigues (na música Esses Moços): “Se eles julgam que a um lindo futuro / só o amor nesta vida conduz / saibam que deixam o céu por ser escuro / e vão ao inferno, à procura de luz”.

* * *

Galeão Coutinho: “O amor é como um piano. As mulheres são o teclado. Não é possível tocar uma grande sinfonia numa tecla só.

* * *

Berilo Neves: “Em negócios de amor, só as pequenas coisas têm importância. Por exemplo: um piolho na cabeça da namorada”.

* * *

Airton, meu amigo: “Casar é bom. Eu já casei quatro vezes”.

* * *

Antônio Feijó: “Quando o amor empreende a mais simples jornada, vai a demência adiante a conduzir-lhe os passos”.

* * *

Camilo Castello Branco: “Duas pessoas que se amam só começam a dizer coisas ajuizadas desde que se aborrecem”.

* * *

Groucho Marx: “As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora”.

* * *

De novo Groucho Marx: “O matrimônio é a principal causa do divórcio”.

* * *

Abraham Lincoln: “Casamento não é o paraíso nem o inferno – é apenas o purgatório”.

* * *

Lenny Bruce: “Minha sogra destruiu meu casamento. Minha mulher voltou para casa mais cedo e me pegou na cama com ela”.

* * *

Nietzsche: “O casamento transforma muitas loucuras curtas em uma longa estupidez”.

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Joaquim Manuel de Macedo: “O amor mais constante que geralmente se conhece é o amor ao dinheiro”.

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Padre Antônio Vieira: “Melhor é o tédio, que nos salva, do que o amor, que nos perde”.

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Malheiro Dias: “Os tiranos do amor sempre foram reverenciados”.

* * *

Tonico e Tinoco (na música Cana Verde): O amor que vai e volta, a volta sempre é melhor”.

* * *

Medeiros de Albuquerque: “Amor e calvície acomodam-se muito bem nos homens – repelem-se formalmente nas mulheres”.

* * *

Correia Júnior: “O amor é a mais inútil das experiências”.

* * *

Albino Forjas de Sampaio: “As mulheres precisam de pancadas para amar. A pancada é sempre mais sincera do que o beijo”.

* * *

Mark Twain: “O amor é aquilo que depois do casamento se chama engano”.

* * *

Benjamin Franklin: “Antes do casamento os olhos devem estar bem abertos; depois do casamento, semi-cerrados”.

* * *

Sócrates: “Meu conselho é que se case. Se você arrumar uma boa esposa, será feliz; se arrumar uma esposa ruim, se tornará um filósofo”.

* * *

José Américo: “A mulher que ama é a que diz menos, porque é a que mente mais”.

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Barão de Itararé: “O casamento é uma tragédia em dois atos: civil e religioso”.

* * *

Lord Byron: “O casamento vem do amor, assim como o vinagre do vinho”.

* * *

De novo Lord Byron: “Todas as tragédias terminam em morte e todas as comédias em casamento.

* * *

Oscar Wilde: “Os solteiros ricos deviam pagar o dobro de impostos. Não é justo que alguns homens sejam mais felizes do que os outros”.

* * *

Chico Anysio: “Quem é casado há quarenta anos com dona Maria não entende de casamento, entende de dona Maria. De casamento entendo eu, que tive seis”.

* * *

Jô Soares: “Quando saber se o casamento está ruim? Quando, você está engolindo sapo ao invés de comer a perereca”.

* * *

Eu também já falei umas besteiras sobre isso. Exemplos:

Amor com amor se paga. Não nos puteiros…

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Um bom matrimônio pode garantir um bom patrimônio.

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Foi Édipo quem criou o ditado “amor só de mãe”?

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O amor é cego, a Justiça é cega… talvez seja por isso que levam tanta desvantagem aqui.

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PARA TERMINAR ESSAS RANHETICES, NADA MELHOR QUE O SONETO IDEALISMO, DE AUGUSTO DOS ANJOS, POETA PRA LÁ DE PESSIMISTA

Falas de amor, eu ouço tudo e calo.
O amor na humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que de amores fúteis
Na minha lira poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim amá-lo?!
Quando, se amor que a humanidade inspira
É o amor de sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?

Pois é mister que o amor sagrado
O mundo fique materializado –
Alavanca desviada do seu fulcro –

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura Inútil: Paz, amor e rapadura!

15.01.13_Mouzar BeneditoPor Mouzar Benedito.

“Paz e amor”, era lema do movimento hippie em 1968. Mas no Brasil, esse lema é muito anterior. Nilo Peçanha era vice-presidente da República, morreu o titular, Afonso Pena, em junho de 1909, e ele assumiu o governo dizendo que seu governo seria “de paz e amor”. Por falar nisso, os hippies se cumprimentavam mostrando os dedos indicador e médio abertos (como o V de vitória), significando paz e amor. Mas aqui havia uma gozação. Diziam que o cumprimento de hippies cearenses era levantando três dedos (o indicador o médio e o anular), significando “paz, amor e rapadura”.

* * *

Sinclair Lewis (1885-1951) primeiro estadunidense a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1930; Edgar Allan Poe (1809-1849), considerado pai da moderna literatura detetivesca; Eugene O’Neill (1888-1853) outro estadunidense que ganhou o Nobel de Literatura (em 1936); Paul Verlane (1844-1896), poeta francês; Jack London (1876-1916), escritor genial dos Estados Unidos; Dylan Thomas (1914-1953), poeta nascido no País de Gales; F. Scott Fitzgerald (1896-1940), mais um grande escritor estadunidense… O que esse pessoal todo tinha em comum? Eram alcoólatras, assim como as cantoras Edith Piaf e Janis Joplin, o ator Douglas Fairbanks Jr., a dançarina Isadora Duncan, o escritor Ambroise Pierce, o general Ulysses S. Grant e o rei Eduardo VIII, da Inglaterra.

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Em Portugal havia uma tradição de, quando resolviam expulsar de uma cidade algum vagabundo, bêbado ou malandro, irem tocando tambor (também chamado caixa) atrás dele, até os limites da comunidade. O sujeito era “corrido”, tocado pra fora, sob vaias e gritarias, e isso era considerado uma vergonha. Sair a toque de caixa é uma expressão que veio desse costume português.

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Pádua, na Itália, tinha o nome latino de Patavium. Lá nasceu, no ano 59 a.C. o historiador Tito Lívio, que morreu em Roma no ano 17 d.C. Frequentou a corte de Augusto e era ironizado por se opor ao imperador. Como falava usando expressões de sua terra, Patavium, era ironizado também por isso. Diziam que não entendiam patavina, quer dizer, a língua falada em Pádua.

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Assim falou Mário Quintana: “Minha vida é uma colcha de retalhos. Todos da mesma cor”.

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Muita gente acredita que vestir agasalho pelo avesso dá azar. Mas tem um jeito de evitar essa má sorte: logo que perceber que a roupa está do avesso, dar três voltas em torno de si mesmo.

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A vida sexual de certos seres não é atraente para nós. O percevejo, por exemplo, fura as costas da fêmea com um ferrão que têm à frente do pênis, ejacula nesse buraco e o esperma entra no sangue dela até encontrar os ovários. O escorpião macho agarra a fêmea pelas pinças, ejacula no chão e a arrasta para que o órgão reprodutor dela entre em contato com os espermatóforos. Os pinguins imperadores só fazem sexo uma vez por ano, e a transa dura dois a três minutos. Mas a fama de safados dos macacos se justifica no caso dos chimpanzés, que fazem masturbação mútua e têm práticas orais. As fêmeas são insaciáveis (ninfomaníacas?) no período de fertilidade e podem ter mais de vinte relações sexuais num dia.

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Maomé aconselhava: “Comam romã. Ela expurga o ódio e a inveja”.

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O Jornal Nacional, da Globo, foi ao ar pela primeira vez em 1o de setembro de 1969. Recebeu esse nome porque era patrocinado pelo Banco Nacional, de Magalhães Pinto, um dos líderes do golpe de 1964. Os apresentadores eram Hilton Gomes e Cid Moreira.

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A goma arábica, extraída de uma árvore do gênero das acácias abundante na Arábia, já era conhecida no Egito 17 séculos antes de Cristo.

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Até 1906, nos Estados Unidos, podia-se comprar em lojas ou mesmo por reembolso postal, medicamentos contendo morfina, cocaína ou heroína. Nesse ano foi promulgada a Lei dos Alimentos e Drogas Puras. Em 1914 uma lei passou a regulamentar a venda de ópio e derivados. Em 1918 a Liga Antibar afirmava que o comércio de bebidas alcoólicas era uma atividade “antiamericana, pró-alemães, geradora de crimes, desperdiçadora de alimentos, corruptora da juventude, destruidora de lares e traição inominável”. No ano seguinte, acrescentaram à Constituição dos EUA a 18a Emenda, que ficou conhecida como “Lei Seca”, proibindo a venda de bebidas alcoólicas. Ela foi revogada em 1933.

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Segundo um ditado brasileiro, se ferradura desse sorte burro não puxava carroça. Mas muita gente poderosa acreditava nos poderes dela. O presidente Harry Truman tinha uma em cima da porta de seu gabinete, e o almirante Lord Nelson mandou pregar uma no alto do mastro de sua nau capitânia.

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Nós, brasileiros, estranhamos certas palavras em línguas nórdicas, cheias de consoantes e quase sem vogais, mas eles também devem estranhar – pelo motivo oposto – algumas palavras do nosso vocabulário, cheias de vogais. Uma palavra da língua “brasileira” tem cinco vogais juntas: piauiense. Digo língua “brasileira” porque tem a terminação portuguesa, mas deriva do tupi. Piauí, nesta língua, significa rio do piau. Piau, nome de um peixe, por sua vez, significa pele manchada. Ele é conhecido também pelos nomes piaba, piapara e canivete.

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Assim disse Marques Rebelo: “A sociologia é inimiga da perfeição”.

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Segundo o livro Would You Belive It? (Você acreditaria nisso?), de Deidre Sanders, Dick Girling, Derek Davies e Rick Sanders, publicado em 1973, na época um décimo da renda nacional dos Estados Unidos estava nas mãos do crime organizado.

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As duas cidades de maior altitude do continente africano ficam na Etiópia: Adis Abeba (2.408m) e Asmara (2.374m).

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Em meados da década de 1970, a média de vida na Guiné (África) era de 27 anos (26 para os homens e 28 para as mulheres). Na Suécia era de 74,2 anos (71,8 anos para os homens e 76,5 para as mulheres). No Brasil era em torno de 58 anos.

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Em 1809 foi criada uma polícia especial com a função de castigar com chibatadas os escravos dos quilombos e os praticantes de capoeira. A prática da capoeira continuou proibida, na República, era praticada clandestinamente. Em 9 de junho de 1937, depois de maravilhar Getúlio Vargas em Salvador, Mestre Bimba abre a 1a academia de capoeira legalmente registrada. Acaba uma perseguição que vinha de 1890.

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O candomblé era “vigiado” pela polícia na Bahia, os terreiros tinham que ter registro policial. Só em 15 de janeiro de 1976 é que acabou a exigência de registro.

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O conceito de Produto Nacional Bruto (PNB) foi criado por Simon Kuznets, professor em Harvard, nascido na Rússia em 1901 e naturalizado estadunidense. Por causa da criação desse conceito, ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em 1971.

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A palavra velhaco, de péssimo sentido, não vem de velho, mas sim do espanhol bellaco, significando homem de vida má.

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Para o coroamento da rainha Elisabeth II, na Inglaterra, em 1953, meteorologistas foram procurados para escolherem uma data em que haveria tempo bom, sem riscos de chuvas. Foi escolhido o dia 2 de junho daquele ano. E choveu!

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Tem gente que não vale um tostão, não é? Políticos são muitos assim. No tempo em que o dinheiro brasileiro era o mil-réis, o tostão era uma moeda que valia um décimo de um mil-réis. Com a reforma da moeda em 1942, quando foi criado o cruzeiro, acabaram-se os tostões, mas a palavra continuou sendo usada. E gente que não vale um tostão continuou (e continua) existindo também. Mas qual é a origem da palavra tostão? Vem de testone, quer dizer, cabeça grande, em italiano. É que nas moedas de baixo valor, lá, um dos lados dela tinha o carão do governante da época.

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O nome de Jerusalém – cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos – significa “fundamento de paz”.

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O nome Sabrina é a designação dada pelos judeus a judia nascida em Israel.

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No Brasil, só existiam a loteria federal e algumas estaduais, que consistiam na venda de bilhetes. O jogo do bicho concorria fácil com ela. Mas tudo começou a mudar em 19 de abril de 1970, quando foi lançada a loteria esportiva. Depois dela veio esse monte de jogos que existem, como a mega-sena, a lotomania, a dupla sena e outras.

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Em 1736 foi promulgada na Inglaterra a Lei do Gim, para tornar a bebida tão cara que pobres não poderiam beber muito. Mas houve muitas infrações à lei e o consumo só aumentou.

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Quais foram as últimas palavras de Albert Einstein antes de morrer? Jamais saberemos: ele falou em alemão para uma enfermeira que não entendia essa língua.

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Os árabes escrevem ao contrário de nós, que escrevemos da esquerda para a direita. A escrita japonesa é vertical, do alto para baixo, mas também é “de trás pra frente” em relação à nossa: a primeira página dos livros ou revistas é a nossa última. Os gregos tiveram dúvidas durante muito tempo quanto à direção da escrita. Alternaram várias vezes escrevendo da direita para a esquerda e vice-versa. Só por volta do ano 500 a.C. é que adotaram pra valer a escrita e a leitura da esquerda para a direita.

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As primeiras mulheres europeias a chegarem ao Brasil foram três meninas órfãs enviadas pela coroa portuguesa em 1551.

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Os bebedores de cerveja brasileiros “invejaram” durante um bom tempo o que viam nos filmes norte-americanos: a cerveja em lata, num tempo em que aqui não havia sequer garrafas descartáveis. Para comprar cerveja era preciso levar vasilhames para troca ou pagar um depósito caro, que ficava retido até a devolução dos “cascos”, as garrafas vazias. Brahma e Antarctica reinavam no mercado, mas foi uma fábrica nova que trouxe a cerveja em lata para o Brasil, em 1971, a Skol. O lançamento da Skol em lata no mercado foi em 30 de abril daquele ano. No início eram latas de flandres, mais tarde substituídas por latas de alumínio e mais tarde ainda chegaram as garrafas descartáveis, tipo long neck. No início do consumo de cerveja em lata no Brasil, havia um costume que eu considerava meio besta: espremer limão e colocar sal em cima da lata e beber a cerveja com essa mistura.

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Assim falou Mário Quintana: “A gente deve atravessar a vida como quem está gazeteando a aula, e não como quem vai para a escola”.

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Carlito Maia falou algo que se assemelha ao que disse Mário Quintana: “Vim a este mundo a passeio, não a negócio”.

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O que alguns supersticiosos recomendam que a gente faça para ter boa saúde: pendurar uma réstia de cebola em casa, pendurar no pescoço uma moeda de prata ou uma bolinha de cânfora, carregar sempre uma batata (no bolso, na bolsa…), esfregar alho nos pés e ficar na chuva no primeiro temporal que cair no mês de maio.

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O Manifesto Antropófago e o Tropicalismo têm algo em comum: a data do lançamento, 1o de maio, mas com 40 anos de diferença: o Manifesto em 1928 e Tropicália em 1968.

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Os gringos (os legítimos, dos Estados Unidos) têm muitas superstições. Entre elas, coisas que se deve fazer para determinar um futuro para uma criança recém-nascida. Acham que se colocar perto dela uma bíblia, ela terá bom coração; se colocar uma moeda, vai ter muito sucesso com grana; um livro, vai ser intelectual; uma fralda, vai ter muitos filhos… Mas cuidado: se colocar perto dela um baralho, será uma jogadora.

* * *

Na Copa do Mundo de 1970, no México, em que a seleção brasileira foi considerada uma das melhores de todos os tempos, e tornou-se tricampeã, todos os atletas jogavam em times brasileiros. O time que mais cedeu jogadores para a seleção foi o Santos (Pelé, Edu, Clodoaldo e Joel). Duas equipes cederam três jogadores: Cruzeiro (Tostão, Piazza e Fontana) e Botafogo (Jairzinho, Paulo César Caju e Roberto). Três cederam dois: Corinthians (Ado e Rivelino), Palmeiras (Leão e Baldocchi) e Fluminense (Félix e Marco Antonio). Cederam um jogador as equipes do Flamengo (Brito), São Paulo (Gerson), Atlético Mineiro (Dario), Grêmio (Everaldo) e Portuguesa (Zé Maria).

* * *

Alguém acha que é possível juntar cinco jogadores que em seus respectivos times jogam com a camisa 10 e dar certo? Pois em 1970, deu: Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho e Rivelino eram camisa 10 no Santos, Cruzeiro, São Paulo, Botafogo e Corinthians.

* * *

Nessa Copa de 1970 houve um monte de novidades. Uma delas: o televisionamento direto para países de várias partes do mundo, inclusive o Brasil. Foram 50 países que receberam o sinal. Outra: permissão para substituir até dois jogadores durante a partida. Antes disso, se um jogador se machucasse, azar: jogava-se com um jogador a menos. Pela primeira vez foi criada uma bola especialmente para a Copa, pela Adidas. E para terminar, foi quando começou a se usar os cartões, em vez de fazer advertências verbais. O primeiro a receber um cartão amarelo foi o russo Lovchev, no jogo inaugural, conta o México. Nenhum jogador foi expulso nessa Copa.

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Assim falou o Marquês de Maricá: “Os homens são como os relógios: uns se atrasam, outros se adiantam, poucos regulam bem”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Poder, política e corrupção

Mouzar Benedito_Poder política e corrupçãoPor Mouzar Benedito.

Antes de colocar as frases que selecionei sobre esses temas que mais parecem um só, umas considerações…

O Lula de outros tempos certa vez falou que tinha 300 picaretas no Congresso, e houve quem chiasse. Só 300?, perguntei na época e pergunto de novo hoje. E só no Congresso? Poder (seja executivo, legislativo ou judiciário – e também em empresas, órgãos empresariais e mesmo em organizações sindicais), política e corrupção são cartas do mesmo baralho.

Não vale o costume de achar que corruptos são os outros, que há corruptos sem corruptores. Empresários e dirigentes de empresas fingem que não têm nada com isso, mas não têm? Quem dá dinheiro para os corruptos, e por quê?

Voltando ao Congresso e à política em geral, a festa continua, agora mais exposta, mais explícita, segundo alguns porque passou a haver apuração dos fatos. Se fossem 300 picaretas no Congresso, que tem quase 600 parlamentares entre deputados e senadores, sobrariam quase 300 não picaretas. Onde estão? Duvido que alguém consiga listar 50, somando todos de todos os partidos. E entre os mais de mil deputados estaduais? E os vereadores? Isso sem contar governadores, prefeitos, ministros, secretários… Mas nem por isso, digo que “todos” os políticos são a mesma coisa. Há políticos (poucos) sinceramente comprometidos com o país e/ou com as causas populares. Vivam eles!

E não venham dizer que isso é coisa do Brasil ou dos tempos atuais. É um fenômeno mundial e pra lá de milenar.

Henry Kissinger, alemão que foi ministro das Relações Exteriores dos Estados Unidos nos anos 1970, político não melhor que os outros, mas conhecedor de seu meio, disse certa vez: “Noventa por cento dos políticos dão aos 10% restantes uma péssima reputação”.

No Brasil, desde que aqui chegou a política (trazida pelos europeus, índio não fazia política, pelo menos como a conhecemos), a coisa sempre foi sinônimo de sujeira, mutretas e muito mais. Algumas exceções foram trágicas. Roberto Saturnino (então no PDT), que tentou governar o Rio de Janeiro sem fazer concessões à corrupção e sem se submeter aos corruptos, não conseguiu fazer nada no governo, foi minado por todos os lado e terminou seu mandato como um dos piores governos já havidos lá. Sobre ele, disse Millôr Fernandes algo como “o governo Saturnino Braga representa a falência da honestidade”.

Isso faz lembrar o que disse Otto Lara Resende: “Política é a arte de enfiar a mão na merda. Os delicados (vide Milton Campos) pedem desculpas, têm dor de cabeça e se retiram”.

Bom, com todo o respeito aos que se salvam (repito: no Legislativo, no Executivo e no Judiciário), listei um monte de coisas que disseram sobre poder, política e corrupção, segundo os mais variados personagens, mas optando pelos pensamentos mais cruéis em relação aos políticos, pois os demais são exceções. Para isso, eu me vali de anotações antigas, livros e consultas à internet.

Mas para não ficar no que “os outros” disseram, começo por algumas coisas que escrevi, parte delas publicadas em alguns lugares por aí. Lembro, no entanto, que esses meus escritos não são só dos tempos atuais. Alguns são “antigos”, lá dos anos 1990.

Aí vão versos (imitando haicais) da minha lavra, seguidos de frases também minhas, antes de entrar nas de gente mais sábia:

O poder do poder:
Com ele, a ética
Torna-se patética

* * *

Poderoso de comício
É secretamente
Napoleão de hospício

* * *

A poder de chumbo
Governos bregas
Revelam-se chumbregas

* * *

Em nome da boa
Governança
A ética dança

* * *

Tem político que se diz “verde”
Mas não olha no espelho
Pra não ficar vermelho

* * *

Com chave do cofre
O corrupto comanda
O conchavo

* * *

Ofensa ao corrupto:
Foi investigado
De modo abrupto

* * *

CPI radical:
Quem se deu bem
Julga quem se deu mal

* * *

“Ele de novo!”
Reclamam do político
Que fala em povo

* * *

Corrupção tucana?
Quem liga pra isso?
Acham até bacana!

* * *

Constituição…
Que gênero mais chato
De ficção!

* * *

Poder e pudor muito raramente se encontram na mesma pessoa.

* * *

O que falta aos governos brasileiros não é caráter, isso eles têm até demais. Só que péssimo.

* * *

Em flagrantes de corrupção, quem é vivo nunca aparece.

* * *

Diz o ditado patronal que manda quem pode, obedece quem tem juízo. Poder pra mandar eu não tenho, mas juízo pra obedecer tenho muito menos.

* * *

O governo faz um jogo especial nas relações com os credores. Jogo de bunda!

* * *

Partidos brasileiros são muito interessantes. O PT está partido; o PSDB, fica no muro, não toma partido; o PMDB tira partido de tudo quanto é situação e qualquer governo, e o PFL (que se alcunhou Democratas) sempre toma o partido que o PSDB mandar.

* * *

Não confunda quituteira com empresário mutreteiro: ela trabalha com massa podre, ele com massa falida.

* * *

Os governos dançam conforme a música: se é samba, eles dançam rock; se é valsa, eles dançam tango; se é tango, eles dançam bolero…

* * *

Para quem tem tesão por mandar, o poder é mais phoder.

* * *

Para Washington Luís, governar era abrir estradas. Para Mário Covas, era colocar pedágio nelas.

* * *

As CPIs são exemplares na punição da corrupção. Nelas, os parlamentares pegos com a mão na massa são interrogados e julgados pelos que não foram pegos.

* * *

Quem nasceu pra ladrão pé-de-chinelo nunca chega a corrupto.

* * *

Corrupção no Brasil é assim: quem tem costas quente, mete o peito.

* * *

Entre um corrupto manjado e um futuro corrupto, não vote em ninguém!

* * *

Se tudo que vicia é droga, o poder não deveria ser proibido?

* * *

Com o perdão das prostitutas, que não têm nada com isso, com quantos filhos da puta se faz um governo?

* * *

Que diferença tem entre um ladrão que rouba pobre e um governo que cobra imposto de renda de assalariado?

* * *

Na Itália, o governo sempre governa com as massas?

* * *

No seio do governo… só tem mamata?

* * *

Agora, frases de gente famosa ou do povo:

Charles de Gaulle: “Como nenhum político acredita no que diz, fica sempre surpreso ao ver que os outros acreditam nele”.

* * *

Nikita Krushev: “Os políticos são iguais em todas as partes. Prometem construir uma ponte inclusive onde não há rio”.

* * *

Padre Antônio Vieira: “Reis e belicosos; reis e políticos; reis e deliciosos, quantos quiserdes, mas reis e santos, muito poucos”.

* * *

Hubert Humphrey: “Errar é humano. Culpar outra pessoa é política”.

* * *

Mário Amato (ex-presidente da Fiesp): “Todos somos corruptos. Ninguém pode atirar a primeira pedra”.

* * *

Marquês de Maricá: “A vitória de uma facção política é ordinariamente o princípio da sua decadência pelos abusos que a acompanham”.

* * *

Karl Liebknecht: “A lei básica do capitalismo é tu ou eu, não tu e eu”.

* * *

Roscommon: “A multidão nunca tem razão”.

* * *

O povo (ditado popular): “Bem dissimular para bem governar”.

* * *

Medeiros de Albuquerque: “Mesmo os governos mais retrógrados e nefastos não têm impedido o progresso de certas nações”;

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Maquiavel: “O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta”.

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Albert Einstein: “O meu ideal político é a democracia, para que todo homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado”.

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Nelson Rodrigues: “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”.

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José Justo: “A república é no Brasil uma monarquia que se renova de quatro em quatro anos”.

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Hegel: “Povo é a parte da nação que não sabe o que quer”.

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Giambattista Vico: “No início, a natureza dos povos é cruel, depois torna-se severa, em seguida, benevolente; mais tarde, delicada, e finalmente, corrupta”.

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Gustave Lê Bom: “Dominam-se mais facilmente os povos excitando as suas paixões do que cuidando dos seus interesses”.

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O povo (ditado popular) Governo, pra ser bom, é preciso haver passado.

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John Quinton: “Políticos são pessoas que, quando vêem luzes no fim do túnel, vão e compram ainda mais túnel”.

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Ronald Reagan: “Eu achava que a política era a segunda profissão mais antiga. Hoje vejo que ela se parece muito com a primeira”.

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Oswaldo Aranha: “O Império foi a hipocrisia organizada, e a República a falsidade oficial”.

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Mao Tse-tung: “A política é uma guerra sem derramamento de sangue, e a guerra uma política com derramamento de sangue”.

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Henri Montherlant: “A política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros”.

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Goethe: “Todo aquele que aspira o poder já vendeu sua alma ao diabo”.

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Joseph Jouber: “Em política, sempre é preciso deixar um osso para a oposição roer”.

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Paul Valéry: “A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem”.

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Assis Chateaubriand: “Para manobrar seguro em política, é indispensável organizar entreveros de amigos e inimigos”.

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Philip Chesterfield: “Os políticos não conhecem nem o ódio, nem o amor. São conduzidos pelo interesse e não pelo sentimento”.

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Abraham Lincoln: “Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”.

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Júlio Dantas: “Nunca é prudente ajuizar da mentalidade dos homens pela impressão que eles nos dão na política – enganamo-nos sempre”.

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Sigmund Freud: “O estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los”.

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Voltaire: “O melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis”.

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Max Weber: “Neutro é quem já se decidiu pelo mais forte”.

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François Mitterrand: “Os franceses fazem greve nas segundas-feiras porque o pão subiu, nas terças se manifestam porque ganham pouco; nas quartas protestam por falta de liberdades… E no domingo votam na direita”.

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Anônimo: “Ajude seu candidato a trabalhar. Não vote nele”.

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Demetrio Pianelli: “A paciência dos povos é a manjedoura dos tiranos”.

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Esopo: “Nós enforcamos os ladrõezinhos e indicamos os grandes ladrões para cargos públicos”.

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Machado de Assis: “A corrupção escondida vale tanto como a pública: a diferença é que não fede”.

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Luis de Saint-Just: “Todas as artes têm produzido obras admiráveis; a arte de governar só tem produzido monstrengos”.

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O povo (ditado popular): “Quem não sabe fingir não sabe governar”.

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Stanislaw Ponte Preta: “A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”.

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Nietzsche: “Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos”.

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Anthony Éden: “A corrupção nunca foi compulsória”.

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Fray Antonio de Guevara: “Ao homem que faz tudo o que pode não podemos dizer que não faça tudo o que deve”.

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Platão: “O castigo dos bons que não fazem política é ser governados pelos maus”.

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Eça de Queiroz: “Os políticos e a as fraldas são semelhantes, possuem o mesmo conteúdo”.

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Millôr Fernandes: “A diferença entre a galinha e o político é que o político cacareja e não bota o ovo”.

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Leonel Brizola: “Estou pensando em criar um vergonhódromo para políticos sem-vergonha, que ao verem a chance de chegar ao poder esquecem os compromissos com o povo”.

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Doug Larson: “Em vez de dar a um político as chaves da cidade, seria melhor trocar as fechaduras”.

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Ambroise Bierce: “A política é a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares”.

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George Santayanna: “Há três tipos de governo: o que faz acontecer, o que assiste o que acontece e o que nem sabe o que acontece”.

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O povo (ditado popular) “Não roube! O governo não gosta de concorrência.

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Honoré de Balzac: “Governar demasiadamente é o maior perigo dos governos”.

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Denis Diderot: “Cuidado com o homem que fala em pôr as coisas em ordem. Pôr as coisas em ordem sempre significa pôr as coisas sob seu controle”.

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Jean Paulhan: “Tudo o que peço aos políticos é que se contentem em mudar o mundo sem começar por mudar a verdade”.

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Benjamin Disraeli: “Em política, nada é desprezível”.

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Woody Allen: “O político de carreira é aquele que faz de cada solução um problema”.

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David Zac: “Num estado democrático existem duas classes de políticos: os suspeitos de corrupção e os corruptos”.

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José Saramago: “Os políticos são a mentira legitimada pela vontade do povo”.

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Antonio Gala: “O poder é como a nogueira: não deixa crescer nada debaixo de sua sombra”.

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Jonathan Swift: “O poder arbitrário constitui uma tentação natural para um príncipe, como o vinho e as mulheres para um homem jovem, ou o suborno para um juiz, ou a avareza para o velho, ou a vaidade para a mulher”,

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O povo (ditado popular): “Queres conhecer o Inácio? Coloca-o no palácio”.

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Guerra Junqueiro: “O povo, coitado, é soberano como fora Jesus para beber o fel, para morrer na cruz, para pagar impostos, para morrer na guerra”.

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George Orwell: “O poder não é um meio, mas um fim em si mesmo”.

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Ezra Pound: “Governar é a arte de criar problemas com cuja solução manter a população em suspense”.

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Alfonso Guerra: “Os personagens universais, perfeitamente conscientes de sua inutilidade, são necessários para acalmar a consciência coletiva”.

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Anônimo: “Todo homem tem seu preço. E tem um monte que está em promoção!”.

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Sérgio Motta: “Com alguns deputados, só conversando na sauna, e pelado”.

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Mahatma Gandhi: “Olho por olho, e o mundo acabará cego”.

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Alberto Moravia: “Uma ditadura é um estado em que todos temem um e um teme todos”.

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Xiquote (pseudônimo de Bastos Tigre, comentando as discussões sobre a instituição do voto feminino): “Quando as mulheres tiverem direito ao voto, transformarão todas as eleições em concurso de beleza e elegância”.

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Winston Churchill: “Só me fio nas estatísticas que manipulei”.

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Millôr Fernandes: “Brasil, país do faturo”.

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Provérbio italiano: “Dinheiro público é como água benta: todos põem a mão”.

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Bertolt Brecht: “Alguns juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça”.

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Gostou? Confira outras colunas da série “Cultura Inútil”, de Mouzar Benedito clicando aqui.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Romanos comiam rabudos

14.12.17_Mouzar Benedito_Romanos comiam rabudosPor Mouzar Benedito.

Muita gente se horroriza com hábitos alimentares de certos povos. E quase todo mundo tem nojo ou medo de rato. Mas há exceções. No Sertão nordestino, nas grandes crises de fome, há muitas histórias de gente caçando rato para comer. Lá, chamam rato de “rabudo”. Na viagem de volta ao mundo, de Fernão de Magalhães, houve uma calmaria no Oceano Pacífico, não havia ventos e as caravelas não andavam, não chegavam a lugar nenhum, e a comida acabou. Não sobrou um rato nas caravelas, comeram todos, depois passaram a comer as botinas deixadas de molho um tempão na água pra amaciar. Em Roma, ratos silvestres eram comido não por necessidade, era uma comida muito apreciada. Um acepipe. Muitos romanos criavam ratos silvestres em casa, colocando-os em gaiola e alimentando com sementes, até chegar o ponto em que eram abatidos e traçados com muito prazer.

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Comer lesma? Que nojo! Ora, a falta do que comer pode mudar esse conceito: numa crise no século XIX, na França, com a falta de comida, o povo apelou para os caracóis, e assim o escargô – nome do dito cujo em francês – passou a ser um prato requintado. Comeram tantos, e gostaram, que quase acabaram com eles. E começaram a criar para comer.

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Quando o Padre Cícero morreu, em julho de 1934, houve luto por todo o Nordeste. Mas uma mulher moradora de Palmeira dos Índios, em Alagoas, disse que ia usar luto sim, mas não pelo padre e sim pela sua cachorra que morreu na mesma época. Daí, diz a lenda, virou cachorra e passou a latir e a assombrar a região, ficando conhecida como “A cachorra de Palmeira”.

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O hábito de mastigar chiclete, quem diria, ajudou muito nas pesquisas sobre o povo maia. O chicle, matéria prima do chiclete, era obtido a partir da seiva do sapotizeiro. Trabalhadores que entravam nas selvas atrás de sapotizeiros para tirar a seiva acabavam encontrando ruínas maias cobertas pelo mato e passavam a informação aos arqueólogos.

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As primeiras escolas de farmácia no Brasil foram criadas em 1832, na Bahia e no Rio de Janeiro. Depois, vieram a de Ouro Preto, em 1837; a de Porto Alegre, em 1896; e a de São Paulo, em 1898.

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Até o fim do século XVII, as porcelanas legítimas só eram fabricadas pelos chineses. Havia imitações feitas na Itália, mas foi um saxão que conseguiu descobrir o “mistério” das porcelanas chinesas e fabricar peças verdadeiras pela primeira vez no Ocidente. É a porcelana de Dresden.

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Se você perguntar a um legítimo caipira o nome dos três reis magos, ele responderá: “Bartazá, Gaspá e Brechó”. Belchior vira Brechó na pronúncia caipira. Mas no Rio de Janeiro também havia um Belchior que ficou conhecido como Brechó, no século XIX. Ele abriu a primeira loja de objetos usados (inclusive roupas) da cidade, e por isso essas lojas passaram a ser chamadas de brechó. Dois sinônimos de brechó são hoje praticamente desconhecidos: adelo (ou adeleiro), de origem árabe, e brique-a-braque (do francês bric-à-brac).

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As tropas que depuseram Dom Pedro II e proclamaram a República levavam uma bandeira que era uma espécie de cópia da estadunidense, só que com as cores do Brasil, porque os republicanos não tinham ideia de uma bandeira republicana. Em seguida, Décio Villares desenhou uma bandeira de acordo com o que queriam os positivistas, incluindo o dístico “Ordem e Progresso”.

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O silenciador de arma de fogo foi inventado em 1909, pelo estadunidense Hiran Percy Maxim. Outro gringo, Jaime Ritty, inventou a caixa registradora em 1879.

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As sandálias havaianas foram lançadas em São Paulo, em 14 de junho de 1962. A empresa que a produzia deu esse nome porque, segundo informou, Havaí lembra sol, praia, calor e charme.

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Muitos cangaceiros tinham como apelidos nomes de aves brasileiras. Aí vão alguns deles: Xexéu, Andorinha, Coruja, Asa Branca, Beija-flor, Azulão, Azulão Segundo, Pássaro Preto, Sabiá, Mergulhão, Paturi, Passarinho, Gavião, Bem-te-vi, Juriti, Bicudo e Marreca. Outros tinham apelidos que dão ideia de terem sido brabos pra chuchu: Cobra Preta, Jararaca, Fato de Cobra, Moita Braba, Tempestade, Trovão, Casca Grossa e Lasca-Bomba. Em compensação havia uns que deviam ser bem bonzinhos: Criança, Cuscuz, Pensamento, Pirulito, Paizinho, Pai Véio e Bom Devéra.

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Basílio II de Constantinopla usava o cognome Bulgaroktonos, que significa “matador de búlgaros”. Em 1014, querendo acabar de vez com uma guerra iniciada havia quarenta anos, ele tinha quinze mil prisioneiros búlgaros e resolveu devolvê-los à Bulgária e avisou Samuel, o líder búlgaro, que seus soldados estavam sendo devolvidos. Mandou então cegar quase todos eles, deixando só 150 cegos de um olho só. Cada um desses tinha, então, que conduzir cem búlgaros cegos de volta à sua pátria. Samuel foi receber seus soldados de volta e teve um choque tão grande ao ver aquela cena que teve um derrame e dois dias depois morreu.

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Assim falou Mark Twain: “Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que não mostra a ninguém”.

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Em 1851, houve um surto de febre amarela na região de Belém, capital do Pará. Segundo alguns moradores, antes do surgimento desse surto, em várias tardes sucessivas baixou um nevoeiro escuro, com ar pesado, e mau cheiro. Esse nevoeiro ia de rua em rua, contavam. Como para os indígenas tudo na natureza tem uma mãe (Cy, em tupi), e a presença da cultura indígena era forte na região, acharam que esse nevoeiro é que trouxe o surto, diziam que ele era a “mãe da peste”. Daí, provavelmente, surgiu a expressão que foi muito utilizada. Quem não ouviu dizer que “Fulano é mais feio do que a mãe da peste”?

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Segundo o censo de 1970, dos Estados Unidos, naquele ano havia 2.983 homens viúvos aos 14 anos de idade. E 289 mulheres com essa idade já eram viúvas ou divorciadas.

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Para construir o Canal do Panamá, os Estados Unidos provocaram a divisão da Colômbia, que não concordava com os termos que os gringos queriam impor. Assim, surgiu o Panamá, uma secessão da Colômbia, que aceitou o acordo desproporcional favorecendo os Estados Unidos. Foi criada uma “Zona do Canal” dominada pelos gringos, e nela o governo panamenho não tinha nenhum poder. Mas pelo acordo, a bandeira dos Estados Unidos na Zona do Canal seria substituída pela do Panamá, no dia 1o de janeiro de 1964, cinquenta anos depois da conclusão das obras. Em janeiro daquele ano, estudantes panamenhos tentaram substituir a tal bandeira, mas os gringos não aceitaram. Reprimiram violentamente, matando um número de panamenhos que varia conforme a fonte, de 15 a 28, e ferindo centenas. Mas o comandante militar dos Estados Unidos minimizou a coisa: “Só foram usadas balas de caçar pombos”.

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Em 30 de abril de 1912, foi assentado o último dormente da ferrovia Madeira-Mamoré, no atual estado de Rondônia. Cerca de 30 mil pessoas morreram na construção. Ela foi oficialmente inaugurada no dia 1o de agosto daquele ano. Em 10 de julho de 1972, locomotivas da estrada de ferro Madeira-Mamoré, em Rondônia, apitaram durante cinco minutos, despedindo da população: a ferrovia encerrava suas atividades.

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A sirene foi inventada pelo francês Charles Caignard de la Tour, em 1822.

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Algumas invenções que usamos no nosso dia a dia sem pensar que foram feitas por brasileiros: o escorredor de arroz, criado pela dentista Therezinha Beatriz Alves de Andrade; o bina (identificador de chamadas telefônicas), pelo mineiro Nélio José Nicolai… e quando fazemos ligações telefônicas a cobrar, nem pensamos que seu inventor é Adenor Martins de Araújo. Ah, o cartão telefônico usado no Brasil (é diferente do usado em outros países) foi criado na Unicamp, por Nelson Guilherme Bardini.

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Um narcótico muito eficaz produzido na Alemanha tinha uma marca inspirada na palavra herói, por seu efeito extraordinário. A marca comercial, em alemão, era Heroin. O termo entrou na linguagem científica no final do século XIX, mas a heroína acabou sendo proibida no mundo todo.

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A primeira vez que a seleção brasileira de futebol jogou com a camisa amarela foi em 1954, na Copa realizada na Suíça.

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O maior goleador de uma Copa só foi o francês Fontaine, que em 1958, na Suécia, marcou 13 gols… Quer dizer, francês entre aspas: ele nasceu no Marrocos. Era filho de um funcionário francês.

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O Olodum, bloco-afro do carnaval de Salvador, na Bahia, foi fundado em 25/04/1979, como opção de lazer aos moradores do Maciel-Pelourinho, garantindo-lhes o direito de brincar o carnaval em um bloco e de forma organizada. Depois da estréia, no carnaval de 1980, a banda conquistou quase dois mil associados e passou a abordar temas históricos relativos às culturas africana e brasileira. O primeiro LP da banda, chamado Egito, Madagascar, foi gravado em 1987 e estourou na Bahia, com a música Faraó.

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Quem introduziu a marcação de gado na América foi Hernán Cortez, o conquistador do México. Vaca ou cavalo marcado com três cruzes, todos sabiam: era dele. O costume se estendeu pelas pradarias de onde viria a ser o oeste dos Estados Unidos, onde o gado era criado solto.

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A América tem seu nome em homenagem ao navegador italiano Américo Vespúcio, que esteve por aqui a serviço da Espanha e de Portugal. Colombo, o “descobridor” da América, também era italiano, a serviço da Espanha. Cabot (cujo nome verdadeiro era Giovanni Caboto), comandou os primeiros navios ingleses que chegaram à América. Mas nenhuma embarcação italiana esteve na América na época.

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Em Roma, quando alguém casava, espalhava-se gotas de mel na soleira da casa dos noivos. Daí, passaram a chamar de lua-de-mel a primeira fase do casamento.

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Cada um dos cinco anéis entrelaçados que simbolizam os jogos olímpicos representa um continente. O azul representa a Europa, o preto a África, o amarelo a Ásia, o verde a Oceania e o vermelho a América.

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De 1959 a 1964, a Guerra do Vietnã era mais ou menos restrita aos Vietnãs do Norte (comunista) e do Sul (capitalista), embora houvesse apoio indireto da União Soviética ao Norte e dos Estados Unidos ao Sul. Em 4 de agosto de 1964, os Estados Unidos alegaram que torpedeiros do Vietnã do Norte haviam atacado navios estadunidenses no Golfo de Tonquim e entrou com tudo na guerra. A informação era falsa, só uma desculpa para sua intromissão direta. A guerra acabou se alastrando para os países vizinhos.

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Sempre que ia presidir reuniões oficiais em sua corte, a bela rainha Cleópatra, do Egito, usava barbas postiças.

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Você conhece um esporte chamado mintonette? Esse é o nome que Willian G. Morgan deu ao esporte que inventou em 1895, quando era diretor de educação física da Associação Cristã de Moços da cidade de Holyoke, Massachusetts, Estados Unidos. Na época, era moda um esporte criado quatro anos antes, o basquete, muito bom para jovens, mas cansativo demais para pessoas um pouco mais velhas. Por sugestão de um pastor, Morgan criou um esporte mais adequado para essas pessoas. No ano seguinte, o mintonette mudou de nome, passou a se chamar volleybol, é o vôlei de hoje. Em 1910, o Peru foi o primeiro país sul-americano a praticar o vôlei. O primeiro campeonato sul-americano de vôlei aconteceu no Brasil, na quadra do Fluminense, Rio de Janeiro, em 1951. O Brasil foi campeão masculino e feminino.

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O recorde de público do Pacaembu foi batido em 23 de maio de 1945, quando Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, estreou no São Paulo, contra o Corinthians, com 74.078 pagantes de ingressos. Leônidas, famoso pelos gols de bicicleta, tinha vindo de três temporadas de sucesso no Flamengo.

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A primeira mulher a tornar-se senadora no Brasil não tinha nada de progressista. Eunice Michiles, da Arena do Amazonas, era suplente e assumiu o lugar do titular, em 11 de maio de 1979.

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O nome do alfabeto cirílico, usado nos idiomas russo, bielorrusso, búlgaro, sérvio, cazaque e outros de países da antiga União Soviética, deve-se a São Cirilo, que viveu de 827 a 869. Ele e seu irmão, São Metódio, eram missionários e criaram esse alfabeto no século IX, usando caracteres de outras línguas, como o hebraico e o grego, para transcrever a Bíblia para línguas eslavas.

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Artéria significa “condutor de ar”. Esse nome foi dado pelo médico grego Praxágoras, que pensou que as artérias transportassem ar. Nos cadáveres, geralmente elas estão vazias.

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Rosário, poeta popular de Nova Resende, chamava seus poemas caboclos de “décimas”. Aí vai o trecho inicial de uma de suas décimas:

Cachaceiro entrô na venda,

Sentiu mágoa e chorô,

Quando o vendeiro disse

Que a cachaça cabô.

 

Ó, que notícia cruel,

Ó, que notícia tirana!

Num sei pra que tanto engenho,

Num sei pra que tanta cana!

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Assim disse Leon Tolstoi, horrorizado ao ver uma execução pública em Paris: “Jamais, sob qualquer circunstância, servirei a nenhuma forma de governo, seja lá qual for”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Tambeíba enchia o saco dos índios de língua tupi

14.11.02_Mouzar Benedito_Indios[Pictogramas na Cachoeira Resplendor, Pará]

Por Mouzar Benedito.

comentei neste blog sobre aves que existiam aqui antes da chegada dos portugueses, mas cujos nomes em língua tupi foram abandonados. É o caso, por exemplo, de beija-flor, pica-pau e joão-de-barro.

Mas isso não acontece só com aves. Muitos e muitos animais permanecerem com seus nomes tupis (como jacaré, cutia, capivara, paca…), mas alguns passaram a ser chamados por nomes não tupis. É o caso da cascavel, que em tupi é boicininga (palavra que significa cobra que chocalha) e do macaco-inglês, que tem o rosto bem vermelho, e recebeu este nome porque os ingleses que andavam sob o sol da Amazônia ficavam muito vermelhos também. Em tupi o nome dele é uacari (indivíduo velhaco).

Mico não é de origem portuguesa, mas também não é tupi, é genérico de macacos pequenos, vem de uma língua karibe. Aqui nós o chamamos também pelo nom tupi, que é sagui (olhos vivos), ou sauim (de sôo-in, bicho pequeno).

Mico-leão é considerado uma espécie de sagui, seu nome em tupi é saguipiranga ou sauimpiranga (sagui vermelho, mico vermelho).

Outro bicho nosso com nome português é o ouriço-cacheiro. Em tupi, seu nome é cuandu que significa ligeiro e rumoroso; ou cua (cintura) ndu (cauda capaz de pegar, segurar). Outra versão sobre seu nome é que ele significa “o que faz pavor na roça”. Mas parece que o mais lógico é que seu nome signifique mesmo “muitos espinhos”. Pode ser também cuim (compridinho ou língua pequena, ou inquieto). Uma espécie de ouriço-cacheiro é chamado de queiroá ou queiroã, que significa “espinhos eriçados”.

Lagartixa em tupi é aimberê (que é também nome de homem), palavra que significa aquele que se contorce. Já o bicho-preguiça tem um nome onomatopéico em tupi, é aí ou aígue. Nunca ouvi o som que ele emite, mas dizem que é esse.

O nome genérico de morcego é bopi (o que fura a pele), mas tem o andirá, que significa morcego que tem chifre.

Queixada é taiaçu ou tajaçu (dente grande) e também tacuité.

Carrapatos, gafanhotos e outros bichos

Quanto aos insetos, parece que os portugueses renomearam quase todos. Vamos ver alguns deles.

Gafanhoto em tupi é tucura (bicho voraz), e seu nome aparece, por exemplo, no nome do bairro paulistano do Tucuruvi (gafanhoto verde) e na usina de Tucuruí (rio do gafanhoto).

Louva-a-deus é caajara (senhor do mato) ou emboici (mãe da cobra). Libélula (também conhecida como lavadeira ou lavandeira, talvez por “morar” em rios) é jacina (deitada na lua) ou jacatinga, palavra que significa árvore fétida, mas no caso da libélula deve ser “o que tem a cabeça branca” ou “o que tem o peito branco”.

Carrapato é jatevoca (o que racha com o ferrão), jatebuca, jateúca, jatevu, jatiúca (jati é pontudo, jatiúca é o que finca a tromba), e tem o carrapato-estrela, que é chamado de jatebuçu (carrapato grande). Bicho-de-pé é tunga (o que come). Pulga é tungaçu.

E vocês pensam que índios não pegavam aquele bichinho desgraçado chamado chato? Ora, pegavam, sim, e seu nome em tupi é tambeíba (o que se apega aos pelos do també – e també, é o nome da xoxota). Mas é chamado também de quibarana (semelhante ao piolho), já que o nome de piolho é quiba.

Grilo é jaqui ou iaqui (irrrequieto, agitado). Mas aqui entra uma dúvida minha: cigarra, que para os índios não passa de um piolho grandão, é jaquirana (o que é semelhante ao piolho, e a tradução literal seria “semelhante ao grilo”). Mas a cigarra é chamada também de guaruçu, o que é muito esquisito porque guaru é peixe comilão.

E já que o assunto é piolho, a centopeia, que popularmente é conhecida como piolho-de-cobra, em tupi tem o nome exatamente com esse significado: boiquiba (mboy é cobra e quiba é piolho), mas ela é chamada também de embuá, que pode significar pelos erguidos (viria de ambo-ã). Mas será que o “embu” de embuá não veio de mboy, que é cobra em tupi? A cidade de Embu, em São Paulo, deriva dessa palavra.

Percevejo é taminguá (pequeno comedor), tambejuá, pixuca ou pixunga (nome que davam ao fumo de corda de qualidade ruim).

Vagalume é uauá, mas pode ser também muá, uã ou cuici. Só consegui descobrir o significado de uã, que é uma derivação de anga, e significa alma.

Barata é arabé (o que é chato, rasteiro), mas besouro também é chamado por esse nome.

Lacraia aparece como japeguá (que tem “casca” redonda), mas japeguá no guarani falado até hoje no Paraguai é caranguejo e também escorpião.

Vespa é caba, caua ou cava (o que fere). Gusano é ibiraçoca (verme da madeira). Lesma e sanguessuga têm o mesmo nome, cumbe (língua achatada ou longo e achatado) – cum pode ser língua ou longo.

Aranha é nhandu (a que sente, sensitiva), e caranguejeira é nhanduaçu (aranha grande – mas esta palavra pode também significar ema grande, pois nhandu é também nome tupi da ema – neste caso, nhandu significa perna de correr, corredora).

Mosca é mberu, meru, e varejeira é merobi (mosca verde). Muriçoca (o nosso pernilongo) é “meru pequeno”, mosquito, e o borrachudo é pium (mosquitinho). “Beru”, às vezes, tem outra pronúncia, como no caso de Birigui (cidade paulista) e Barigui (parque de Curitiba), e também significam mosquitinho.

Já o barbeiro (chupão) é brocotó ou procotó – o que sacode a gente (quando pica).

Vermes que dão em frutas (e também caruncho) são chamados de açoca ou içoca (o que quebra fruta). Já a mosca do desgraçado do berne, que em vez de furar frutas bota ovos na pele da gente e dos animais, e seus “filhotes” entram pele a dentro crescem ali, provocando dor, chama-se ura (nasce dentro).

Borboleta é panamã (pa: bater; amã: levantar – o que se bate se levantando). Vale panamá também. Pode ser só panã (bater, malhar) ou paná. Borboleta que vive em bandos é panapanã. Em guarani é panambi, palavra usada para mariposa em tupi.

Peixes e outros que vivem nas águas

Entre os peixes, há o caso do dourado, que é simplesmente uma tradução de piraju, nome dele em tupi.

Alguns preservam mais ou menos o nome tupi, ao lado do português, como é o caso da enguia, que em tupi é muçum (significa o que desliza, escorregadio).

Mas muitos receberam nomes que nada têm com os originais do tupi. Arraia é jabebira (o que tem a pele estufada, encaroçada). Bagre é jundiá (cabeça com espinho – alusão à barbatana). Cascudo é chamado acari, cari e juruitaquara (o que fica deitado no buraco da pedra, na loca).

O peixe-boi, que não é boi e sim um mamífero, é conhecido aqui também pelo nome de manati, palavra da língua do povo Taino, do caribe, e significa peito de mulher. Os povos de língua tupi o chamavam de guaraguá, palavra que pode ter três significados, conforme a interpretação: peixe gordo, peixe redondo e morador das enseadas.

E continuamos com os bichos aquáticos. Uçá é o nome genérico de todos os caranguejos de unha pontuda, Significa “olhos na perna”, porque parece que ele tem mesmo olho na perna.Um caranguejo que permaneceu com o nome tupi no Nordeste é o guaiamum (o indivíduo do buraco, ou o encovado).

Camarão, todo mundo deve se lembrar que é poti, pois aparece no gentílico de quem nasce no Rio Grande do Norte, potiguar (comedor de camarão). E um líder indígena que participou da expulsão dos holandeses chamava-se Poti e depois foi batizado como Felipe Camarão. Mexilhão é sururu (o bicho tímido, ou encharcado);

E chegamos às rãs, cujo nome genérico em tupi é jia. Sapo em geral é cururu (não só o que nós chamamos por esse nome em português), palavra que significa rugoso. O sapo-boi e o sapo-de-chifre são chamados de intanha ou intão, uma adaptação de ji (rã) tã (forte).

Bom, termino por aqui. E já que terminei falando de sapo, lá vai um ditado caipira envolvendo o dito-cujo, mas em português mesmo: “Sapo não pula por boniteza, pula por precisão”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: O que eles disseram

14.11.25_Mouzar Benedito_O que eles disseram_Por Mouzar Benedito.

Albert Einstein: “Só os estúpidos precisam de organização. Os gênios controlam o caos”.

* * *

Goethe: “O homem de bom senso jamais comete uma loucura de pouca importância”.

* * *

Humberto de Campos: “A evolução da sociedade é feita, aliás, não pela democratização das elites, mas pela aristocratização da plebe”.

* * *

Afonso Schimidt: “As prostitutas têm sido mais úteis aos homens do que Moisés ou Zoroastro”.

* * *

Juca Chaves: “Água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer dar, ninguém segura”.

* * *

Camilo Castelo Branco: “Se começarmos a ver o mundo tal qual é, a poesia acaba toda”.

* * *

Afrânio Peixoto: “De todas as incapacidades humanas a mais certa é a de prever”.

* * *

Mae West: “Entre dois males, escolho sempre aquele que ainda não experimentei”.

* * *

Júlio Ribeiro: “Dos insubmissos tem emanado todo o progresso social”.

* * *

Dom Francisco Manuel de Melo: “Nunca me arrependi do que não disse”.

* * *

Millôr Fernandes: “Psicanalista é uma espécie de mágico que tira cartolas de dentro dos coelhos”.

* * *

Medeiros e Albuquerque: “Estudando as origens de quase todas as cerimônias religiosas, vê-se que elas são, ora pueris, ora grosseiras”.

* * *

Marilyn Monroe: “Os homens passam, os diamantes ficam”.

* * *

Latino Coelho: “Dantes havia público e autores, homens que liam e poucos que escreviam; hoje é o contrário – todos escrevem, e ninguém lê”.

* * *

Stanislaw Ponte Preta: “Macrobiótica é um regime alimentar para quem tem 77 anos e quer chegar aos 78”.

* * *

Juracy Magalhães (governador da Bahia durante a ditadura): “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”.

* * *

General Figueiredo (quando o último presidente da ditadura iniciada em 1964, quando perguntado o que faria se fosse operário e ganhasse salário mínimo): “Dava um tiro no coco”.

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Jarbas Passarinho (quando era ministro da Educação e, como os outros ministros, assinou o AI-5): “Às favas com os escrúpulos”.

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Plínio Salgado: “O integralismo nega a eficácia do voto, nega a concepção democrática do cidadão, condena o sufrágio universal”.

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Assis Chateaubriand: “A clareza se revolta contra a religião, que é a obscuridade, o simbolismo e o mistérios”.

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Garrincha (enquanto os demais jogadores comemoravam a vitória sobre a Suécia e a conquista da Copa do Mundo, em 1958): “Que torneio mixo! Não tem nem segundo turno?”.

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Marquês de Maricá: “Os homens mais respeitados não são sempre os mais respeitáveis”.

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Capistrano de Abreu: “Constituição brasileira, artigo único: todo brasileiro é obrigado a ter vergonha”.

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Heitor Moniz: “De vez em quando sopra na humanidade o vento da loucura. Há um grande entusiasmo coletivo. Os povos sublevam-se, tomam as armas, fazem a revolução”.

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Machado de Assis: “Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas”.

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Guimarães Rosa: “Trabalho não é vergonha, é só uma maldição”.

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Mark Twain: “Uma mentira é capaz de dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos”.

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Agripino Grieco: “A sarna é uma das poucas distrações que restam aos pobres”.

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Victor Hugo: “Quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha”.

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Viana Moog: “Temos a capacidade de tornar sensacional o que em si mesmo não tem a menor importância”.

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Abraham Lincoln: “A melhor forma de destruir seu inimigo é converter-lhe em seu amigo”.

* * *

Roquette Pinto: “Os escravos sempre serviram para carregar, entre outros fardos, a culpa dos senhores”.

* * *

O povo (nome de um bloco de carnaval do Rio): “Simpatia é quase amor”.

* * *

Charlie Chaplin: “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”.

* * *

Carmem Mayrink Veiga: “Há duas coisas que nunca pretendo fazer: esportes e trabalhar”.

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Vinícius de Moraes: “O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado”.

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Galeão Coutinho: “O charuto é a chaminé da prosperidade”.

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Voltaire: “É perigoso estar certo quando o governo está errado”.

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Luís Fernando Veríssimo: “Às vezes, a única verdade em um jornal é a data”.

* * *

Gondin da Fonseca: “Judas era um cidadão respeitável comparado a certos entreguistas do Brasil”.

* * *

Mário Quintana (sobre seus críticos): “Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão… eu passarinho”.

* * *

Chico Xavier: “Ambiente limpo não é o que mais se limpa. É o que menos se suja”.

* * *

Marquês de Maricá: “O roubo de milhões enobrece os ladrões”.

* * *

Walther Waeny: “O homem é um animal racional. Racional, às vezes; animal, quase sempre”.

* * *

Graciliano Ramos: “Tanto faz morrer assim como assado. Tudo é morrer. Crucificado ou de prisão de ventre, em combate glorioso ou forca, o resultado é o mesmo”.

* * *

Roberto das Neves: “O mundo começou por um incesto e um fratricídio, e até hoje não melhorou”.

* * *

Câmara Cascudo: “Nações e frutos têm sua hora natural de maturação”.

* * *

O povo (ditado popular): “Casa de mulher feia não precisa de tramela”.

* * *

Constâncio Alves: “Há anedotas que passam de celebridade em celebridade, como roupas de aluguel, que passam de corpo em corpo”.

* * *

Érico Veríssimo: “A gente foge da solidão quando tem medo dos próprios pensamentos”.

* * *

O povo (dito popular): “O tempo tudo cura, menos a velhice”.

* * *

César Zama: “Suicidem-me os senhores, porque por minhas mãos eu não me suicido”.

* * *

Paula Nei: “A maternidade é um fato, mas a paternidade é um problema”.

* * *

Carlito Maia: “Quem tem mãe não sabe o que está perdendo”.

* * *

Aristides Ávila: “A diferença é a seguinte: apetite é fome de quem tem o que comer; fome é apetite de quem não tem o que comer”.

* * *

Antônio Carlos de Andrada (governador de Minas, pouco antes de estourar a revolução de 1930): “Façamos a revolução antes que o povo a faça”.

* * *

Pedro Ferreira da Silva: “A família é uma comuna dentro de uma sociedade que condena o comunismo”.

* * *

Groucho Marx: “Acho que televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro”.

* * *

Ferreira de Almeida: “Atleta é um indivíduo que é forte demais para trabalhar”.

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Lula (num comício pelas eleições diretas, em 1987): “Se disputasse uma eleição, os votos do Sarney não dariam para encher um penico”.

* * *

Jules Lévy: “O ventre é a primeira sala de espera”.

* * *

Paulo Leminski: “A vida não imita a arte. Imita um programa ruim de televisão”.

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Clarice Lispector: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

* * *

Menotti Del Picchia: “Todos têm medo da felicidade porque a felicidade se parece muito com a morte”.

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Cid Cercal: “A ignorância das ignorâncias é a ignorância da própria ignorância”.

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Darcy Ribeiro: “Mestrado é só para mostrar que o sujeito é alfabetizado, pois a metade dos que estão na Universidade não sabe ler”.

* * *

Mário Pires (meu amigo, tomando uma cachaça): “Mens sana, in corpore cana”.

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Paulo Francis (há quem atribua essa frase a Jaguar): “Intelectual não vai à praia. Intelectual bebe!”.

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Jânio Quadros (esta sim, eu tenho quase certeza que foi dita por Jaguar, quando lhe perguntaram porque ele bebia, mas Jânio ficou com a fama): “Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, eu comia”.

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Maxim Gorki: “Esse negócio de ‘busca de Deus’ deve ser proibido por algum tempo. Afinal, é uma ocupação totalmente inútil”.

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Geraldo Tartaruga (contador de causos de São Luiz do Paraitinga): “Antigamente, o diabo aparecia pros fazendeiros. Agora não aparece mais, porque tem medo”.

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Bocage: “A vida é filha da puta, / a puta é filha da vida… / Nunca vi tanto filho da puta / na puta da minha vida”.

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Emílio de Meneses: “Beber é uma necessidade, saber beber uma ciência, embriagar-se uma infância”.

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Jorge Luis Borges: “O casamento é um destino pobre para uma mulher”.

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Lima Barreto: “Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa”.

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Gino Meneghetti: “O comerciante é um ladrão que tem paciência”.

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Beppe, avô de Meneghetti, quando soube que o neto, ainda menino, havia praticado roubos, e o aconselhando a não ser um ladrãozinho: “Muitos dos homens bem colocados que você vê aqui em Pisa são ladrões refinados, mas roubam dentro da legalidade. São ladrões da pátria, ladrões de salão. Roubam e a lei ainda lhes presta honras, porque dependem deles para aumentos, nomeações e outras coisas. Durante sua vida você vai ver muitos destes, vá em que país for, porque o mundo está cheio deles. São vigaristas e ladrões, mas vigaristas e ladrões bem sucedidos. Roubam milhões e nada acontece”.

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Barão de Itararé: “O casamento é uma tragédia em dois atos. Um no civil e um no religioso”.

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Por que não terminar com algo de minha autoria? Lá vai: “Entrou por um ouvido e saiu pelo outro: foi tiro de fuzil”.

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Ou clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

As aves que aqui gorjeiam tinham outros nomes

14.11,04_Mouzar Benedito_As aves que aquiPor Mouzar Benedito.

Já comentei aqui o lançamento do livro Paca, Tatu, Cutia… Glossário Ilustrado de Tupi (Editora Melhoramentos), uma espécie de pequeno “dicionário”, mas sem a estrutura formal dos dicionários, com palavras que falamos no dia a dia sem perceber que elas são de origem tupi.

Muitas aves mantiveram os nomes de origem tupi. É o caso do sabiá, sanhaço, tié, arara maritaca, araponga, bacurau, graúna, saíra, guará, jaburu , jacu, juriti, jaó, macuco, maguari, mutum, nhambu, saracura, seriema, socó, tangará, tucano, uirapuru, urubu e anu, por exemplo. No nosso “dicionário” tem o significado dos nomes delas.

Mas o Ohi, meu parceiro no livro (as ilustrações são dele) me lembrou de uma coisa: e as aves que receberam nomes dados pelos portugueses, quais eram os nomes delas na língua tupi? Bem-te-vi, nome onomatopaico – quer dizer, que imita o som que ele emite –, certamente não seria tupi, argumentou. E não é mesmo. Em tupi, seu nome é pitanguá, que significa comedor de pitanga.

Pensando nisso, listei algumas que não estão no livro, pois são aves que receberam nomes dados pelos portugueses. Como eram os nomes delas em tupi? Pesquisei e repasso pra vocês. Aí vão.

João-de-barro é ogaraiti (casa-ninho); canarinho, ou canário-da-terra, é guiranhengatu ou uiranhengatu (pássaro que canta bonito), mas é chamado também pelo onomatopaico chapim.

Pica-pau é ipecó (fura-árvore), gralha azul é uiraobi (ave azul) e azulão é guarundi (ave pretinha). Beija-flor é guainumbi (passa depressa). Muitos pensam que colibri, um dos nomes do beija-flor, é tupi, mas esse é seu nome na língua galibi.

Ati é nome genérico para gaivotas, e pode significar cabeça branca. Picu é nome genérico de pombas, significa comprido. Rolinha é picuí (pomba pequena). Pomba-do-ar é picaçu (pomba grande) e fogo-pagô é picuipinima (rolinha pintada).

Tico-tico pode ser tico-tico mesmo (onomatopoaico) ou jipiú, xibiú, xibiu (coisa pequena) e caga-sebo é cambacica (cabeça curta ou cabeça cortada).

Codorna é unambuí (pequeno nhambu). Bom, aqui cabe explicar “nhambu”: é o que levanta voo a prumo (y-nhá-bu), ou o que surge fazendo algazarra, fazendo barulho (y-nhã-bu). Perdiz é inhambuapé, que pode vir de inhambu-peba (nhambu baixo, achatado), mas há quem diga que inhambupé tem outra origem, significando mais ou menos “baixinho que come fazendo barulho”. Algumas variantes do seu nome são enapupê, inhapupé, nhapup~ee e napopé.

Cardeal é acapitã (cabeça-vermelha) ou as variantes acampitá e capitã, mas é chamado também de paroara (que mora no rio). Martim-pescador é ariramba (caído da margem: ele vive à margem dos barrancos e faz seus ninhos em buracos elevados), tendo as variantes urarirama e urarirana, mas é chamado também de jaguati (focinho de onça, nariz de onça). Mergulhão é atobá ou biguá (pé vermelho ou pé penugento). Andorinha é taperá, talvez porque faz ninho em taperas. Por falar em tapera, essa palavra significava originalmente aldeia extinta, o que foi aldeia, mas depois passou a ser usada também para falar de casa em ruína.

O nome genérico dos gaviões é tauató, ou as variantes toató e taguató (tem vários significados, um eles é “que é encorpado” e outro é “que tem a pena listrada”). A palavra aparece nos nomes de vários gaviões, como taguatojuba (gavião amarelo), taguatopiranga (gavião avermelhado) e taguatopinima (gavião pintado). Outros gaviões, como o pinhé e o carcará, mantiveram os nomes tupis.

As corujas são muitas, algumas mantiveram o nome tupi, como o caburé (morador do mato) e o jucurutu ou murucutu (triste e agressivo), mas outras mudaram, como é o caso da coruja-das-torres, que é suindá ou suindara (o que não se alimenta – os índios acreditavam que elas não comiam).

Bom, seja em tupi ou em português, é bom ver e ouvir essas aves todas, não? Mas não nas gaiolas. Lugar de guiranhengatu, por exemplo, é nas árvores, cantando bonito pra gente ouvir.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Um livro com o tupi nosso de cada dia

Mouzar ConvitePor Mouzar Benedito.

Por que você está na pindaíba?

Pode ser porque está desempregado, não? Ou porque tem emprego mas o salário é baixo. Ou porque estourou o cartão de crédito e paga juros muito altos, não sobra dinheiro pra nada. Ou porque o aluguel aumentou demais, o salário não acompanhou. Se é aposentado, então, pior ainda.

Mas os índios de língua tupi há séculos já podiam ficar na pindaíba, sem esses motivos.

É que pindá, em tupi, significa anzol. Iba, significa ruim. Então, pindaíba quer dizer anzol ruim. E nos povos que viviam em grande parte da pesca, anzol ruim é mesmo de deixar a pessoa sem ter o que comer.

Pindaíba é um dos mais de oitocentos e trinta verbetes do livro Paca, Tatu, Cutia! – Glossário ilustrado de Tupi, que escrevi em parceria com o Ohi (textos meus, ilustrações dele) e que acaba de ser publicado pela Editora Melhoramentos.

Não é um “dicionário”, pois não tem aquelas formalidades necessárias para isso, nem a estrutura de um dicionário. E em muitos dos verbetes conto alguma historinha relacionada a eles. Tem um pouco de informações históricas e humor.

Por exemplo: jabá. Não o jabá com sentido de propina que alguns artistas pagavam (ou pagam) para tocar suas músicas nos rádios. Esse tipo de jabá, índio não conhecia.

Mas também, originalmente, essa palavra não era sinônimo de carne seca. Jabá, em tupi, é fuga, fugir, fugitivo.

Antes de trazer escravos africanos para o Brasil (e depois também), os portugueses escravizaram índios. Mas quem é que gosta de ser escravo? Eles fugiam, e eram muito perseguidos para serem recapturados. Durante a fuga precisavam comer, mas não podiam parar para caçar, então levavam carne seca. Assim, a carne que se levava na fuga passou a ser chamada de jabá.

Deve ter alguém imaginando: então Jabaquara, nome de um bairro de São Paulo e outro de Santos, tem algo a ver com isso?

Tem. Quara é um sufixo tupi que significa refúgio, entre outras coisas. Então, Jabaquara significa “refúgio dos fugitivos”. É o mesmo que quilombo do idioma quimbundo. O Quilombo do Jabaquara (curioso, não? Falar quilombo do Jabaquara equivale a dizer “quilombo do quilombo”) de Santos era muito famoso, abrigou escravos fugitivos até à libertação dos escravos, em 1888.

Nomes que descrevem animais

Uma curiosidade da língua tupi é que os nomes que os seus falantes deram aos animais de certa forma falam de alguma característica deles. Por exemplo, jacaré significa “o que olha de lado”.

Você já viu uma cutia comendo uma espiga de milho? Ela pega a espiga com as patas dianteiras e fica de pé sobre as patas traseiras. Por isso, ganhou o nome cutia, que significa “o que come de pé”.

Paca significa esperta, ágil. Caçadores desse bichinho montavam armadilhas e tinham que ficar um tempão esperando escondidos, para pegar a danada. Daí surgiu o verbo paquerar, que hoje usamos para uma atividade mais agradável e mais ecológica, não é? Nada de matar animais silvestres.

Entre as aves, tem o jacu, que é desconfiado, cauteloso. Esse é o significado dessa palavra. E como roceiro, caipira, costuma ser também desconfiado e cauteloso, tem quem o chame de jacu, também.

Por falar em caipira, está aí outra palavra tupi. Tem quem a traduza por desconfiado ou tímido, mas seu significado literal é “morador do mato”. Mas que não se pense que caipira é imbecil. A palavra é usada de forma preconceituosa, mas o caipira tem uma cultura muito rica, e seu jeito de falar tem motivos históricos (ver embaixo: “Nheengatu e língua geral paulista”).

No Nordeste, em vez de caipira, falam – também preconceituosamente – tabaréu, que é “morador da taba”.

Cidades, rios, montanhas…

Em todos os estados brasileiros existem cidades com nomes de origem tupi, mesmo naqueles em que não se falava tupi. É que bandeirantes falavam tupi (ou melhor, a “língua geral paulista”) e jesuítas usavam esse idioma para se comunicar com os índios em geral e “criaram” uma língua a partir dos vários dialetos tupis. Então, tanto bandeirantes como os religiosos usavam o tupi para nomear rios, povoados etc.

No estado de São Paulo, base dos bandeirantes, há uma profusão de nomes tupis nas cidades. Alguns muito curiosos. Por exemplo: Pindamonhangaba e Itaquaquecetuba. Quem tem curiosidade por nomes deve saber que Pindamonhangaba é “lugar onde os homens fazem anzóis”, quer dizer, fábrica de anzol. Quicé é um tipo de taquara muito cortante, como faca. Tuba é coletivo, lugar que tem muito de alguma coisa. Taquaquicetuba, que depois virou Itaquaquecetuba, é lugar que tem muitas taquaras cortantes, do tipo quicé.

Bauru, ao contrário do que muita gente pensa, não tem nada a ver com sanduíche. É cesto de frutas. Poá é mão aberta. Itu é salto, cachoeira. Ituverava é cachoeira brilhante.

Alguns nomes de cidades podem até parecer “bíblicos”, mas são tupis. É o caso de Jacobina, na Bahia. Não parece algo relacionado a algum Jacó? Pois ele vem de já cuã apina, que quer dizer cascalho limpo, jazida de cascalho. O primeiro ouro que os portugueses garimparam no Brasil foi nessa jazida de cascalho, em 1718.

Os rios com nomes tupis são muitos. Paraguai, por exemplo, é rio dos papagaios, e Tocantins é nariz de tucano.

E as montanhas: quer nome mais bonito do que Mantiqueira (“chuva gotejante” ou “chuva contínua”)? No Nordeste tem a Chapada do Araripe, um lugar alto. Araripe é “sobre o mundo”.

Bom, há muita coisa que a gente fala pensando que está falando português, mas na verdade é tupi… ou português do Brasil. Pense em algumas palavras do nosso cotidiano: pereba, tapera, peteca, mingau, pamonha, guri, sapeca, carioca, maloca, pipoca…

Ah, quem é profissional do futebol sonha jogar no Morumbi, Itaquera, Pacaembu, Maracanã… tudo nome tupi.

E nome de gente? Moacir, Jaci, Moema… Vou contar o significado de apenas um: Araci é aurora, mãe do dia. Se uma mulher se chamar Aurora e outra Araci, elas são xarás. Epa! Por falar nisso, xará é uma palavra tupi, significa “o que tem o mesmo nome”.

Enfim, acho, modéstia à parte, que este é um livro que pode ser lido com prazer por adultos e por crianças. E está muito bem produzido, bonito. Convido a todos para o lançamento que será no dia 25 de outubro (sábado), das 16h às 19h, na Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena – São Paulo.

Quem preferir, pode acrescentar algo mais: vá à Festa do Saci, em São Luiz do Paraitinga. No sábado, dia 1o de novembro, haverá um seminário sobre cultura caipira a partir das 10h da manhã, e logo depois (a partir do meio-dia), no mesmo local faremos o lançamento. Vai ser no Centro Turístico e Cultural Nelsinho Rodrigues, na Rua Cel. Domingues de Castro, 33, no centro da cidade.

A vantagem de comprar no lançamento é que o Ohi vai além de dar um simples autógrafo: ele faz um desenho na hora.

Nheengatu e língua geral paulista

Os jesuítas queriam catequizar os povos indígenas e perceberam que quase todos os povos da faixa litorânea falavam dialetos de uma mesma língua, mas não tinham escrita, era uma língua exclusivamente oral. .

Resolveram então “unificar” esses dialetos e criar uma escrita para eles. Em São Paulo, chamaram de “língua geral paulista” e no norte “nheengatu”, que significa língua boa ou falar bem. Mas são línguas bem parecidas e costuma-se usar nheengatu também para o que se falava em São Paulo.

Em São Paulo e sua área de expansão só se falava a língua geral paulista. Depois da guerra em que os exércitos de Portugal e Espanha se uniram para combater os Guarani, apoiados pelos jesuítas, o Marquês de Pombal resolveu expulsar os jesuítas do Brasil e determinou que só se falasse português aqui. Isso foi em 1758. Mas não se muda de língua de um dia para o outro. As escolas passaram a usar só a língua portuguesa e todos os documentos tinham que ser escritos em português.

Demorou muito para assimilar o português, e muitos dos brasileiros do atual Sudeste preservaram o modo de falar nheengatu. No tupi não existe, por exemplo, a pronúncia L nem LH, que acabam virando R na pronúncia caipira (esse pessoal que resistiu ao “sotaque” português). Então, trabalho vira trabaio, por exemplo. Mulher é muié. E no tupi/nheengatu não existe R no final dos verbos, e isso foi mantido no “dialeto caipira”. Falamos fazê, trabaiá, coçá, brincá…

Mas não é só isso. Existem mais diferenças de pronúncia, presentes no nosso linguajar. Vale a pena estudar um pouco disso. Nosso livro é um começo, para os curiosos.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Moderninho, mas nem tanto

14.10.08_Mouzar Benedito_Moderninho mas nem tantoPor Mouzar Benedito.

Pedro, o Grande, querendo modernizar os costumes na Rússia, fez coisas malucas como baixar um decreto proibindo a barba, em 1698, pois na Europa o costume de andar barbudo já tinha sido abolido. Quem insistisse em manter a barba tinha que pagar um imposto altíssimo, e muitos homens fugiram do país. Mas o czar não era tão moderno assim, em outras coisas. Quando descobriu que a mulher tinha um amante, mandou decapitar o dito-cujo e colocou sua cabeça numa jarra com álcool. A mulher foi obrigada a conservar essa jarra com a cabeça em seu quarto.

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Assim falou Graciliano Ramos: “O que eu acho é que deputados e senadores são inúteis e comem demais”.

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Paquete era um tipo de navio que transportava cargas, correio e passageiros. No século XIX, uma companhia inglesa de paquetes fez um contrato pelo qual uma vez por mês um navio trazia mercadorias da Inglaterra para o Rio de Janeiro. Os paquetes ingleses tinham mesmo pontualidade britânica. Todo mês chegava um paquete na data certa, no Rio. Se não chegasse, era sinal que houve alguma “encrenca” no caminho. Os cariocas logo o associaram à menstruação…

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Entre as datas comemorativas, 30 de setembro é Dia Mundial do Tradutor. O santo do dia, desta data, é São Jerônimo. Não é coincidência: São Jerônimo é patrono dos tradutores. Ele viveu de 340 a 420 d.C. e ficou conhecido como “Doutor Máximo das Escrituras”, porque era grande estudioso da Bíblia e a traduziu para o latim clássico,

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Angenor de Oliveira (1908-1980) nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Teve várias profissões, inclusive a de pedreiro. Nesta profissão, usava sempre um chapéu para que não caísse tinta na sua cabeça. Por isso ganhou o apelido Cartola. Sambista da maior qualidade, foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Ele propôs a adoção das cores verde e rosa para ela. Quando criticavam essas cores, dizendo que elas não combinavam, Cartola respondia: “Como não combinam as cores da esperança e do amor?”.

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A palavra fulano vem do árabe, fulan, que significa “um certo” ou “tal”, quando se refere a um indivíduo sem citar o nome dele. Beltrano é uma adaptação do francês, Beltrand, nome que aparecia muito nas novelas de cavaleiros. Cicrano tem origem desconhecida.

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Os portugueses tentaram implantar o cristianismo no Japão, mas foram expulsos. Das décadas que passaram lá, acabaram influenciando na criação de algumas palavras. Arigatô, por exemplo, deriva de “obrigado”. Os japoneses não tinham uma palavra para agradecimento. Mais recentemente, a língua que influencia mais os japoneses é, logicamente, o inglês. Não tinham, por exemplo, uma frase para declarar amor. Agora falam algo que soa como “aróviú”, derivado de I love you.

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As bactérias podem se reproduzir sexualmente.

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Tem sido muito comum usar a expressão “sopa no mel” para falar de algum acontecimento muito bom. Parece esquisito, não é? A expressão surgiu no século XVII, em Portugal. Sopa, no caso não era líquida. Era um pedaço de pão umedecido em água em que se cozinhou qualquer coisa. Um pouco de mel nessa fatia de pão melhorava muito o sabor e o valor nutritivo. Por falar nisso, sopa, no Paraguai também não é líquida, é uma espécie de torta de milho.

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Provérbio chinês: “A única porta bem fechada é a que se pode deixar aberta”.

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No interior, quando alguém engana alguém num negócio, diz que “passou manta” nele. Acredita-se que essa expressão vem da crença que o diabo usava uma manta para se passar por santo, enganando as pessoas.

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Em alguns lugares do Nordeste, acredita-se que dando água de chocalho para um bebê, ele aprende a falar mais rápido. Daí, quando alguém fala demais, é tagarela, dizem que “bebeu água de chocalho”.

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O primeiro manifesto feminista de que se tem notícia foi em 1792, na Inglaterra: foi o livro Uma defesa dos direitos das mulheres, publicado pela professora Mary Wolltonecraft. Ela exigia que as mulheres tivessem o direito de estudar e que participassem do governo.

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Para quem acredita em Adão e Eva, aí vai a divisão de “eras” segundo a Bíblia: a Primeira Idade, que vai de Adão até o dilúvio teve 1.656 anos; a Segunda Idade, do dilúvio até o reino do patriarca Abraão, durou 427 anos; a Terceira Idade, de Abraão até a entrega da Tábua de Mandamentos a Moisés, durou 430 anos; a Quarta Idade, da entrega dos mandamentos a Moisés até a construção do Templo de Salomão, durou 488 anos; a Quinta Idade, da construção do Templo até sua destruição, foi de 467 anos; a Sexta Idade, que vai da destruição do Templo de Salomão até o nascimento de Jesus, durou 536 anos. Somando tudo, de Adão ao nascimento de Jesus foram 4.004 anos. Então, com mais dois mil e poucos anos de lá pra cá, o mundo tem pouco mais de 6 mil anos.

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Assim falou Mário Quintana: “Despertador é bom para a gente se virar para o outro lado e dormir de novo”.

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Quando uma pessoa é cheia de regras, controlada, e segue tudo quanto é regulamento, a gente diz que ela é “cheia de nove horas”. A expressão vem do século XIX, quando nove horas da noite era o limite para um monte de coisas. As visitas tinham que ir embora às nove horas. Depois desse horário, quem andasse pelas ruas estava sujeito a ser revistado pela polícia, como suspeito de qualquer coisa. Até as casas de jogos de baralho encerravam suas atividades às nove horas da noite. Então, a vida de quem era certinho era mesmo cheia de nove horas.

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Na Tasmânia tem (ou tinha, estava em extinção) um animal feroz conhecido como “diabo da tasmânia”, pela sua brabeza. Pois no Acre muita gente acredita que na Floresta Amazônica existe um bicho parecido, a que chamam “gogó de sola”. Parece um cachorro do mato, mas tem no pescoço uma mancha amarela que parece sola (couro curtido) muito dura. Ele anda feito doido pela mata e ataca qualquer coisa que veja, é feroz mesmo. Lenda para alguns, há quem até tenha uma descrição precisa dele: tem até 65cm, mais um rabo de 15cm.

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Assim falou Roberto das Neves: “Os socialistas ingleses são assim: socialistas por fora, ingleses por dentro”.

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Sòzinho, cafèzinho, afàvelmente, sòmente, tôda, govêrno, apêrto… Estas palavras estão escritas erradas, com acentos que não existem? Sim, depois de 19/01/72, estão. Mas esses acentos existiam antes, deixaram de existir nesta data por um acordo assinado pelos governos de Brasil e Portugal, no ano anterior. Por esse acordo, caíram acentos diferenciais como em aperto (aperto sem acento era a conjugação do verbo apertar, primeira pessoa do presente: eu aperto, tu apertas… ― o ato ou efeito de apertar, era escrito apêrto, com acento). No caso de tôda, o acento era para diferenciar de uma ave portuguesa chamada toda (pronuncia-se tóda). Mas permaneceram algumas palavras com acento diferencial, como pólo, pêlo e pêra, que cairiam na reforma de 2009 (assim como o trema, utilíssimo). O acento grave (como o da crase) era usado em palavras derivadas de outras que levavam acento agudo: café, com o diminutivo zinho, virava cafezinho: só, e afável com o sufixo mente. Essas sílabas com acento grave eram chamadas de subtônicas;

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Lady, palavra que significa dama em inglês, quando escrita com L maiúsculo é um título de nobreza. Mas a origem da palavra não tem nada a ver com essa frescura toda: no inglês antigo significava amassador de pão.

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Uma festa muito famosa de Feira de Santana acabou se espalhando pelo Brasil todo, a partir dos anos 1990: o carnaval fora de época. Tem um nome curioso: micareta. De onde vem isso? De mi-carêne, que em francês significa “meio da quaresma”. Desde o século XVI existe na França essa espécie de carnaval no meio da quaresma, que também é conhecido como “festa das lavadeiras”. Ao que tudo indica foram elas que iniciaram essas festividades, com a participação de vendedores de carvão e de água. Em Feira de Santana, o nome micareta foi oficializado em 1937, depois de um “plebiscito” feito pelo jornal A Tarde. Mas moradores da também baiana Jacobina reivindicam prioridade nisso: segundo eles, desde 1912 há na cidade um carnaval no meio da quaresma, e o nome micareta foi oficializado lá em 1935. Hoje, o carnaval fora de época que acontece em muitas cidades não se restringe ao período da quaresma, podem ser em qualquer época do ano.

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Segundo Câmara Cascudo, a micareta surgiu mesmo em 1937, em Feira de Santana, porque houve uma chuvarada muito forte no Carnaval, que não permitiu o festejo. Então, transferiram a festa para depois da quaresma (na época era pecado pra lá de mortal fazer festas desse tipo na quaresma). Micareta não seria simplesmente uma adaptação de mi-carême, e sim uma “mistura” de mi-carême com careta, já que os foliões saíam fantasiados.

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O nome da cidade de Jacobina, na Bahia, parece ser bíblico, derivado de Jacob ou qualquer coisa que o valha, não? Mas não tem nada disso. É tupi. A grafia antiga era Jacuabina, corruptela de já-cuã-apina, que significa “o que tem cascalho limpo”. Lá ocorreu a primeira descoberta de ouro pelo invasor europeu na Bahia.

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A peruca é originária do Egito ou da Assíria, e era usada como símbolo de autoridade na era dos faraós. Foi difundida na França no século XIV e depois foi levada para a Inglaterra por um rei da França, Carlos II, que era careca.

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Tabu: algo proibido, que não se pode nem discutir. Essa é a ideia que a palavra passa. É uma influência, acreditem, da Polinésia na cultura universal. Os indígenas de lá consideravam algumas coisas proibidas ou intocáveis, por serem sagradas ou malditas. Em português, escrevemos tabu, em inglês é taboo e em francês tabou.

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No Rio de Janeiro havia muitas negras escravas ou libertas que vendiam quitandas e doces nas ruas, em tabuleiros. De vez em quando algum moleque sem dinheiro tentava roubar doce, e o preferido deles era um feito de rapadura derretida com amendoim moído. Quando a mulher flagrava o menino fazendo isso, dava-lhe uma bronca, dizia: “Pede, moleque”. Se pedisse ela dava. Essa é uma das histórias da origem do nome do doce chamado pé-de-moleque. Outros acreditam que a cor do doce se parece com a de um pé descalço sujo…

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A frase “tempo é dinheiro” (time is money, no original) foi criada por Benjamin Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos e inventor do para-raios. A frase faz parte de seus escritos sob o título Conselhos a um jovem negociante.

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Quando uma águia pega uma tartaruga com as garras, ela a leva para o alto e solta em cima de uma rocha, para quebrar seu casco duro. Aconteceu na Grécia Antiga: uma águia teria confundido a careca de Ésquilo com uma rocha e soltou uma tartaruga na cabeça dele. Matou o dramaturgo.

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Johnny Weissmuller, ator que ficou célebre como Tarzã, era um grande atleta da natação. Num só dia, em 5 de abril de 1927, ele bateu três recordes.

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Henry Ford, o badalado industrial dos Estados Unidos, era simpatizante do nazismo. Para escrever a “bíblia” do nazismo, Mein Kampf, Hitler usou ideias antissemitas de Ford. E o industrial gringo ainda dava uma boa grana para o movimento nazista. Hitler mantinha uma foto de Henry Ford sobre sua mesa… e Ford mantinha uma de Hitler na sua.

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O que diferencia a mandioca brava da mandioca mansa? A quantidade de ácido cianídrico (HCN) que ela contém. A mandioca mansa, também chamada de aipim e de macaxeira, tem no máximo 50 ppm de HCN, as bravas chegam a ter 300 ppm. A mandioca brava é usada para fazer farinha, não é consumida como a outra. Pode causar até a morte.

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Em 1964, um pé de brócolis colhido na Inglaterra pesou 13,1 kg. Também na Inglaterra, um repolho colhido em 1865 tinha 6,57 m de circunferência e pesava 55,8 kg. Na Austrália, uma cenoura colhida em 1967 pesou 4,9 kg. Um pepino colhido no Texas (EUA) em 1978, pesou 5,9 kg, mas em comprimento ele perdia para um de variedade vietnamita colhido na Hungria em 1976, com 1,82 m. Em 1980, foi colhida nos EUA uma melancia com 90,7 kg.

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Geronte, na Grécia Antiga, era como chamavam o membro de uma Gerúsia (conselho de anciãos). Nas comédias clássicas italianas, passou a ser um tipo de velho meio ridículo, moralista. Molière e outros autores de teatro dos séculos XVII e XVIII retomaram o nome, com o mesmo sentido. Só que sempre era enganado. Numa peça, um falso médico é usado para enganar o personagem Geronte. Gerontologia é hoje o ramo da medicina que estuda as causas da velhice, trata dos problemas relacionados à pessoa idosa. Bom… Hoje chamam a velhice de “melhor idade”. Só Geronte para acreditar, não é?

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Um ditado: “Nesta vida os prazeres são por quilos e os pesares por toneladas”.

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Assim falou Gino Meneghetti, ladrão assumido: “Sempre detestei homens que malbaratam o dinheiro público”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Bill Ferrer, o detetive heterodoxo, e a era FHC

14.09.22_Mouzar Benedito_FerrerFHCPor Mouzar Benedito.

Bill Ferrer é um detetive particular gringófilo. Tanto que adotou esse nome e fala com sotaque do sul dos Estados Unidos.

Sua agência fica na Baixada do Glicério, área decadente da região central de São Paulo. Lá, numa saleta pequena e maltratada, ele toma uísque nacional de marca bem barata, enquanto seu auxiliar, Vasconcellos, toma jurubeba. Os dois comem tremoços e cospem as cascas numa lata de lixo, errando quase sempre, o que deixa o chão em estado deplorável.

Os dois comentam a situação em que estão: há muito não entra dinheiro para Bill Ferrer. A criminalidade é grande e há muita corrupção, pouca coisa é apurada pela polícia, então supostamente deveriam sobrar clientes para o detetive. Mas há um desânimo geral, uma descrença em tudo, e poucas vítimas ou parentes de vítimas pensam em apurar esses crimes. Os que pensam nisso, não têm dinheiro. Com isso, o salário mixuruca de Vasconcellos está pra lá de atrasado e ele é ameaçado de ser posto pra fora do cortiço em que mora.

Bill Ferrer já pensa em fechar a agência e procurar algum emprego, o que dificilmente conseguiria, pois o comum é demitir gente, não contratar, e o desemprego ronda todo mundo.

Estamos falando de 2014?

Não, não, não! É 2002. O livro Pamonhas de Piracicaba e outras histórias está sendo lançado agora, mas foi escrito em 2002. Tem três contos e, para ser mais exato, a última delas foi escrita no início de novembro daquele ano. O fim da história se passa exatamente na noite de domingo em que aconteceu o segundo turno das eleições.

Vasconcellos é um crítico confuso do governo, mas vota sempre na esquerda, ao contrário de seu patrão, Bill Ferrer, reacionário e eleitor tucano. Só que a situação está tão grave que Ferrer chega à conclusão que tem que votar na oposição para ver se muda alguma coisa.

Isso aparece num “lado B” das histórias, nos diálogos entre eles. Ferrer só fala em dólares, o dinheiro que respeitava, e que chegava no final de 2002 a quase R$ 4,00, por causa do medo dos investidores sobre uma possível eleição de Lula para a presidência.

Relendo os originais, fiquei me lembrando do segundo mandato do governo FHC, pois esse volume foi escrito no último ano de governo dele.

O desemprego crescia, havia uma falta geral de perspectiva, um pessimismo danado, um medo do futuro. Lembro-me que entre as pessoas que eu conhecia as mais otimistas achavam que não piorariam de vida nos meses seguintes.

Parecido com hoje? Não acho que o Brasil esteja uma maravilha, mas gostaria que certos tucanos, devotos do “mercado” e muitos jornalistas lessem esse livro. Não vai acontecer, claro. E se algum ler é capaz de me chamar de “petralha”, embora eu nem seja petista. Deixei de ser em 1994, quando o PT abandonava propostas geradas em sua origem e se adaptava ao quadro político existente. Deixava de ser um partido diferente dos outros para ser cada vez mais igual a eles, com vernizes de esquerda.

Adotou um discurso moralista que, como previ e fui muito xingado por isso, daria com os burros n’água.

Bom, vamos ao enredo dos três contos, deixando um pouco de lado esse “lado B”, com histórias paralelas que servem mais ou menos para contextualizar as histórias.

No primeiro caso, À procura de um Zé, Ferrer é contratado para descobrir o assassino de um velho fazendeiro de Mato Grosso do Sul, encontrado agonizando num terreno baldio do bairro do Tucuruvi, em São Paulo. Uma historinha paralela envolve seu auxiliar Vasconcellos, que vive cantando a prima que topa transar com todo mundo, menos com ele, agora tem um começo de paquera com uma policial.

O segundo caso, que leva o título do livro, Pamonhas de Piracicaba, trata de roubo de cargas de carne e troca clandestina de carne de gado especial por outras comuns, para uma rede de churrascarias. O título que não tem nada a ver com isso se deve ao fato de naquele ano serem muito frequentes as kombis anunciando as famosas “pamonhas de Piracicabas” e incomodando Vasconcellos, azucrinando os ouvidos de muita gente. O clima de desânimo, corrupção como cultura e falta de grana já aparece aqui com certo destaque. Vasconcellos acredita que terá um trunfo que fará a prima cobiçada cair nos seus braços, mas isso é outra coisa. Será que conseguirá?

No terceiro, com tamanho dos dois primeiros somados, Onde está o Abreu? Você não sabe? Nem eu!, investiga-se o sumiço de um líder empresarial, o Abreu, sequestrado um ano antes no consultório de uma dentista. Estaria morto? A polícia e outros detetives tentaram em vão descobrir o que aconteceu com ele. Aí a família recorre a Bill Ferrer, que já estava quase fechando sua agência de detetives por falta de clientes.

Neste conto, fica evidente o clima político e econômico da época. Dólar subindo de preço exageradamente e uma falta de perspectivas tão grande que até o reacionário Bill Ferrer resolve votar na oposição para ver se as coisas melhoram.

Discussões políticas e safadezas entremeiam os textos.

Se descobrem o Abreu? Bom… Compre o livro e veja.

Lançamento de Pamonhas de Piracicaba e outras histórias (Editora Limiar)
dia 24 de setembro | quarta-feira | a partir das 18h30
Restaurante Canto Madalena
Rua Medeiros de Albuquerque, 471 | Vila Madalena | São Paulo

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.