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Cultura inútil: Moderninho, mas nem tanto

14.10.08_Mouzar Benedito_Moderninho mas nem tantoPor Mouzar Benedito.

Pedro, o Grande, querendo modernizar os costumes na Rússia, fez coisas malucas como baixar um decreto proibindo a barba, em 1698, pois na Europa o costume de andar barbudo já tinha sido abolido. Quem insistisse em manter a barba tinha que pagar um imposto altíssimo, e muitos homens fugiram do país. Mas o czar não era tão moderno assim, em outras coisas. Quando descobriu que a mulher tinha um amante, mandou decapitar o dito-cujo e colocou sua cabeça numa jarra com álcool. A mulher foi obrigada a conservar essa jarra com a cabeça em seu quarto.

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Assim falou Graciliano Ramos: “O que eu acho é que deputados e senadores são inúteis e comem demais”.

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Paquete era um tipo de navio que transportava cargas, correio e passageiros. No século XIX, uma companhia inglesa de paquetes fez um contrato pelo qual uma vez por mês um navio trazia mercadorias da Inglaterra para o Rio de Janeiro. Os paquetes ingleses tinham mesmo pontualidade britânica. Todo mês chegava um paquete na data certa, no Rio. Se não chegasse, era sinal que houve alguma “encrenca” no caminho. Os cariocas logo o associaram à menstruação…

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Entre as datas comemorativas, 30 de setembro é Dia Mundial do Tradutor. O santo do dia, desta data, é São Jerônimo. Não é coincidência: São Jerônimo é patrono dos tradutores. Ele viveu de 340 a 420 d.C. e ficou conhecido como “Doutor Máximo das Escrituras”, porque era grande estudioso da Bíblia e a traduziu para o latim clássico,

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Angenor de Oliveira (1908-1980) nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Teve várias profissões, inclusive a de pedreiro. Nesta profissão, usava sempre um chapéu para que não caísse tinta na sua cabeça. Por isso ganhou o apelido Cartola. Sambista da maior qualidade, foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Ele propôs a adoção das cores verde e rosa para ela. Quando criticavam essas cores, dizendo que elas não combinavam, Cartola respondia: “Como não combinam as cores da esperança e do amor?”.

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A palavra fulano vem do árabe, fulan, que significa “um certo” ou “tal”, quando se refere a um indivíduo sem citar o nome dele. Beltrano é uma adaptação do francês, Beltrand, nome que aparecia muito nas novelas de cavaleiros. Cicrano tem origem desconhecida.

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Os portugueses tentaram implantar o cristianismo no Japão, mas foram expulsos. Das décadas que passaram lá, acabaram influenciando na criação de algumas palavras. Arigatô, por exemplo, deriva de “obrigado”. Os japoneses não tinham uma palavra para agradecimento. Mais recentemente, a língua que influencia mais os japoneses é, logicamente, o inglês. Não tinham, por exemplo, uma frase para declarar amor. Agora falam algo que soa como “aróviú”, derivado de I love you.

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As bactérias podem se reproduzir sexualmente.

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Tem sido muito comum usar a expressão “sopa no mel” para falar de algum acontecimento muito bom. Parece esquisito, não é? A expressão surgiu no século XVII, em Portugal. Sopa, no caso não era líquida. Era um pedaço de pão umedecido em água em que se cozinhou qualquer coisa. Um pouco de mel nessa fatia de pão melhorava muito o sabor e o valor nutritivo. Por falar nisso, sopa, no Paraguai também não é líquida, é uma espécie de torta de milho.

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Provérbio chinês: “A única porta bem fechada é a que se pode deixar aberta”.

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No interior, quando alguém engana alguém num negócio, diz que “passou manta” nele. Acredita-se que essa expressão vem da crença que o diabo usava uma manta para se passar por santo, enganando as pessoas.

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Em alguns lugares do Nordeste, acredita-se que dando água de chocalho para um bebê, ele aprende a falar mais rápido. Daí, quando alguém fala demais, é tagarela, dizem que “bebeu água de chocalho”.

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O primeiro manifesto feminista de que se tem notícia foi em 1792, na Inglaterra: foi o livro Uma defesa dos direitos das mulheres, publicado pela professora Mary Wolltonecraft. Ela exigia que as mulheres tivessem o direito de estudar e que participassem do governo.

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Para quem acredita em Adão e Eva, aí vai a divisão de “eras” segundo a Bíblia: a Primeira Idade, que vai de Adão até o dilúvio teve 1.656 anos; a Segunda Idade, do dilúvio até o reino do patriarca Abraão, durou 427 anos; a Terceira Idade, de Abraão até a entrega da Tábua de Mandamentos a Moisés, durou 430 anos; a Quarta Idade, da entrega dos mandamentos a Moisés até a construção do Templo de Salomão, durou 488 anos; a Quinta Idade, da construção do Templo até sua destruição, foi de 467 anos; a Sexta Idade, que vai da destruição do Templo de Salomão até o nascimento de Jesus, durou 536 anos. Somando tudo, de Adão ao nascimento de Jesus foram 4.004 anos. Então, com mais dois mil e poucos anos de lá pra cá, o mundo tem pouco mais de 6 mil anos.

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Assim falou Mário Quintana: “Despertador é bom para a gente se virar para o outro lado e dormir de novo”.

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Quando uma pessoa é cheia de regras, controlada, e segue tudo quanto é regulamento, a gente diz que ela é “cheia de nove horas”. A expressão vem do século XIX, quando nove horas da noite era o limite para um monte de coisas. As visitas tinham que ir embora às nove horas. Depois desse horário, quem andasse pelas ruas estava sujeito a ser revistado pela polícia, como suspeito de qualquer coisa. Até as casas de jogos de baralho encerravam suas atividades às nove horas da noite. Então, a vida de quem era certinho era mesmo cheia de nove horas.

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Na Tasmânia tem (ou tinha, estava em extinção) um animal feroz conhecido como “diabo da tasmânia”, pela sua brabeza. Pois no Acre muita gente acredita que na Floresta Amazônica existe um bicho parecido, a que chamam “gogó de sola”. Parece um cachorro do mato, mas tem no pescoço uma mancha amarela que parece sola (couro curtido) muito dura. Ele anda feito doido pela mata e ataca qualquer coisa que veja, é feroz mesmo. Lenda para alguns, há quem até tenha uma descrição precisa dele: tem até 65cm, mais um rabo de 15cm.

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Assim falou Roberto das Neves: “Os socialistas ingleses são assim: socialistas por fora, ingleses por dentro”.

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Sòzinho, cafèzinho, afàvelmente, sòmente, tôda, govêrno, apêrto… Estas palavras estão escritas erradas, com acentos que não existem? Sim, depois de 19/01/72, estão. Mas esses acentos existiam antes, deixaram de existir nesta data por um acordo assinado pelos governos de Brasil e Portugal, no ano anterior. Por esse acordo, caíram acentos diferenciais como em aperto (aperto sem acento era a conjugação do verbo apertar, primeira pessoa do presente: eu aperto, tu apertas… ― o ato ou efeito de apertar, era escrito apêrto, com acento). No caso de tôda, o acento era para diferenciar de uma ave portuguesa chamada toda (pronuncia-se tóda). Mas permaneceram algumas palavras com acento diferencial, como pólo, pêlo e pêra, que cairiam na reforma de 2009 (assim como o trema, utilíssimo). O acento grave (como o da crase) era usado em palavras derivadas de outras que levavam acento agudo: café, com o diminutivo zinho, virava cafezinho: só, e afável com o sufixo mente. Essas sílabas com acento grave eram chamadas de subtônicas;

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Lady, palavra que significa dama em inglês, quando escrita com L maiúsculo é um título de nobreza. Mas a origem da palavra não tem nada a ver com essa frescura toda: no inglês antigo significava amassador de pão.

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Uma festa muito famosa de Feira de Santana acabou se espalhando pelo Brasil todo, a partir dos anos 1990: o carnaval fora de época. Tem um nome curioso: micareta. De onde vem isso? De mi-carêne, que em francês significa “meio da quaresma”. Desde o século XVI existe na França essa espécie de carnaval no meio da quaresma, que também é conhecido como “festa das lavadeiras”. Ao que tudo indica foram elas que iniciaram essas festividades, com a participação de vendedores de carvão e de água. Em Feira de Santana, o nome micareta foi oficializado em 1937, depois de um “plebiscito” feito pelo jornal A Tarde. Mas moradores da também baiana Jacobina reivindicam prioridade nisso: segundo eles, desde 1912 há na cidade um carnaval no meio da quaresma, e o nome micareta foi oficializado lá em 1935. Hoje, o carnaval fora de época que acontece em muitas cidades não se restringe ao período da quaresma, podem ser em qualquer época do ano.

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Segundo Câmara Cascudo, a micareta surgiu mesmo em 1937, em Feira de Santana, porque houve uma chuvarada muito forte no Carnaval, que não permitiu o festejo. Então, transferiram a festa para depois da quaresma (na época era pecado pra lá de mortal fazer festas desse tipo na quaresma). Micareta não seria simplesmente uma adaptação de mi-carême, e sim uma “mistura” de mi-carême com careta, já que os foliões saíam fantasiados.

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O nome da cidade de Jacobina, na Bahia, parece ser bíblico, derivado de Jacob ou qualquer coisa que o valha, não? Mas não tem nada disso. É tupi. A grafia antiga era Jacuabina, corruptela de já-cuã-apina, que significa “o que tem cascalho limpo”. Lá ocorreu a primeira descoberta de ouro pelo invasor europeu na Bahia.

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A peruca é originária do Egito ou da Assíria, e era usada como símbolo de autoridade na era dos faraós. Foi difundida na França no século XIV e depois foi levada para a Inglaterra por um rei da França, Carlos II, que era careca.

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Tabu: algo proibido, que não se pode nem discutir. Essa é a ideia que a palavra passa. É uma influência, acreditem, da Polinésia na cultura universal. Os indígenas de lá consideravam algumas coisas proibidas ou intocáveis, por serem sagradas ou malditas. Em português, escrevemos tabu, em inglês é taboo e em francês tabou.

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No Rio de Janeiro havia muitas negras escravas ou libertas que vendiam quitandas e doces nas ruas, em tabuleiros. De vez em quando algum moleque sem dinheiro tentava roubar doce, e o preferido deles era um feito de rapadura derretida com amendoim moído. Quando a mulher flagrava o menino fazendo isso, dava-lhe uma bronca, dizia: “Pede, moleque”. Se pedisse ela dava. Essa é uma das histórias da origem do nome do doce chamado pé-de-moleque. Outros acreditam que a cor do doce se parece com a de um pé descalço sujo…

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A frase “tempo é dinheiro” (time is money, no original) foi criada por Benjamin Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos e inventor do para-raios. A frase faz parte de seus escritos sob o título Conselhos a um jovem negociante.

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Quando uma águia pega uma tartaruga com as garras, ela a leva para o alto e solta em cima de uma rocha, para quebrar seu casco duro. Aconteceu na Grécia Antiga: uma águia teria confundido a careca de Ésquilo com uma rocha e soltou uma tartaruga na cabeça dele. Matou o dramaturgo.

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Johnny Weissmuller, ator que ficou célebre como Tarzã, era um grande atleta da natação. Num só dia, em 5 de abril de 1927, ele bateu três recordes.

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Henry Ford, o badalado industrial dos Estados Unidos, era simpatizante do nazismo. Para escrever a “bíblia” do nazismo, Mein Kampf, Hitler usou ideias antissemitas de Ford. E o industrial gringo ainda dava uma boa grana para o movimento nazista. Hitler mantinha uma foto de Henry Ford sobre sua mesa… e Ford mantinha uma de Hitler na sua.

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O que diferencia a mandioca brava da mandioca mansa? A quantidade de ácido cianídrico (HCN) que ela contém. A mandioca mansa, também chamada de aipim e de macaxeira, tem no máximo 50 ppm de HCN, as bravas chegam a ter 300 ppm. A mandioca brava é usada para fazer farinha, não é consumida como a outra. Pode causar até a morte.

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Em 1964, um pé de brócolis colhido na Inglaterra pesou 13,1 kg. Também na Inglaterra, um repolho colhido em 1865 tinha 6,57 m de circunferência e pesava 55,8 kg. Na Austrália, uma cenoura colhida em 1967 pesou 4,9 kg. Um pepino colhido no Texas (EUA) em 1978, pesou 5,9 kg, mas em comprimento ele perdia para um de variedade vietnamita colhido na Hungria em 1976, com 1,82 m. Em 1980, foi colhida nos EUA uma melancia com 90,7 kg.

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Geronte, na Grécia Antiga, era como chamavam o membro de uma Gerúsia (conselho de anciãos). Nas comédias clássicas italianas, passou a ser um tipo de velho meio ridículo, moralista. Molière e outros autores de teatro dos séculos XVII e XVIII retomaram o nome, com o mesmo sentido. Só que sempre era enganado. Numa peça, um falso médico é usado para enganar o personagem Geronte. Gerontologia é hoje o ramo da medicina que estuda as causas da velhice, trata dos problemas relacionados à pessoa idosa. Bom… Hoje chamam a velhice de “melhor idade”. Só Geronte para acreditar, não é?

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Um ditado: “Nesta vida os prazeres são por quilos e os pesares por toneladas”.

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Assim falou Gino Meneghetti, ladrão assumido: “Sempre detestei homens que malbaratam o dinheiro público”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Bill Ferrer, o detetive heterodoxo, e a era FHC

14.09.22_Mouzar Benedito_FerrerFHCPor Mouzar Benedito.

Bill Ferrer é um detetive particular gringófilo. Tanto que adotou esse nome e fala com sotaque do sul dos Estados Unidos.

Sua agência fica na Baixada do Glicério, área decadente da região central de São Paulo. Lá, numa saleta pequena e maltratada, ele toma uísque nacional de marca bem barata, enquanto seu auxiliar, Vasconcellos, toma jurubeba. Os dois comem tremoços e cospem as cascas numa lata de lixo, errando quase sempre, o que deixa o chão em estado deplorável.

Os dois comentam a situação em que estão: há muito não entra dinheiro para Bill Ferrer. A criminalidade é grande e há muita corrupção, pouca coisa é apurada pela polícia, então supostamente deveriam sobrar clientes para o detetive. Mas há um desânimo geral, uma descrença em tudo, e poucas vítimas ou parentes de vítimas pensam em apurar esses crimes. Os que pensam nisso, não têm dinheiro. Com isso, o salário mixuruca de Vasconcellos está pra lá de atrasado e ele é ameaçado de ser posto pra fora do cortiço em que mora.

Bill Ferrer já pensa em fechar a agência e procurar algum emprego, o que dificilmente conseguiria, pois o comum é demitir gente, não contratar, e o desemprego ronda todo mundo.

Estamos falando de 2014?

Não, não, não! É 2002. O livro Pamonhas de Piracicaba e outras histórias está sendo lançado agora, mas foi escrito em 2002. Tem três contos e, para ser mais exato, a última delas foi escrita no início de novembro daquele ano. O fim da história se passa exatamente na noite de domingo em que aconteceu o segundo turno das eleições.

Vasconcellos é um crítico confuso do governo, mas vota sempre na esquerda, ao contrário de seu patrão, Bill Ferrer, reacionário e eleitor tucano. Só que a situação está tão grave que Ferrer chega à conclusão que tem que votar na oposição para ver se muda alguma coisa.

Isso aparece num “lado B” das histórias, nos diálogos entre eles. Ferrer só fala em dólares, o dinheiro que respeitava, e que chegava no final de 2002 a quase R$ 4,00, por causa do medo dos investidores sobre uma possível eleição de Lula para a presidência.

Relendo os originais, fiquei me lembrando do segundo mandato do governo FHC, pois esse volume foi escrito no último ano de governo dele.

O desemprego crescia, havia uma falta geral de perspectiva, um pessimismo danado, um medo do futuro. Lembro-me que entre as pessoas que eu conhecia as mais otimistas achavam que não piorariam de vida nos meses seguintes.

Parecido com hoje? Não acho que o Brasil esteja uma maravilha, mas gostaria que certos tucanos, devotos do “mercado” e muitos jornalistas lessem esse livro. Não vai acontecer, claro. E se algum ler é capaz de me chamar de “petralha”, embora eu nem seja petista. Deixei de ser em 1994, quando o PT abandonava propostas geradas em sua origem e se adaptava ao quadro político existente. Deixava de ser um partido diferente dos outros para ser cada vez mais igual a eles, com vernizes de esquerda.

Adotou um discurso moralista que, como previ e fui muito xingado por isso, daria com os burros n’água.

Bom, vamos ao enredo dos três contos, deixando um pouco de lado esse “lado B”, com histórias paralelas que servem mais ou menos para contextualizar as histórias.

No primeiro caso, À procura de um Zé, Ferrer é contratado para descobrir o assassino de um velho fazendeiro de Mato Grosso do Sul, encontrado agonizando num terreno baldio do bairro do Tucuruvi, em São Paulo. Uma historinha paralela envolve seu auxiliar Vasconcellos, que vive cantando a prima que topa transar com todo mundo, menos com ele, agora tem um começo de paquera com uma policial.

O segundo caso, que leva o título do livro, Pamonhas de Piracicaba, trata de roubo de cargas de carne e troca clandestina de carne de gado especial por outras comuns, para uma rede de churrascarias. O título que não tem nada a ver com isso se deve ao fato de naquele ano serem muito frequentes as kombis anunciando as famosas “pamonhas de Piracicabas” e incomodando Vasconcellos, azucrinando os ouvidos de muita gente. O clima de desânimo, corrupção como cultura e falta de grana já aparece aqui com certo destaque. Vasconcellos acredita que terá um trunfo que fará a prima cobiçada cair nos seus braços, mas isso é outra coisa. Será que conseguirá?

No terceiro, com tamanho dos dois primeiros somados, Onde está o Abreu? Você não sabe? Nem eu!, investiga-se o sumiço de um líder empresarial, o Abreu, sequestrado um ano antes no consultório de uma dentista. Estaria morto? A polícia e outros detetives tentaram em vão descobrir o que aconteceu com ele. Aí a família recorre a Bill Ferrer, que já estava quase fechando sua agência de detetives por falta de clientes.

Neste conto, fica evidente o clima político e econômico da época. Dólar subindo de preço exageradamente e uma falta de perspectivas tão grande que até o reacionário Bill Ferrer resolve votar na oposição para ver se as coisas melhoram.

Discussões políticas e safadezas entremeiam os textos.

Se descobrem o Abreu? Bom… Compre o livro e veja.

Lançamento de Pamonhas de Piracicaba e outras histórias (Editora Limiar)
dia 24 de setembro | quarta-feira | a partir das 18h30
Restaurante Canto Madalena
Rua Medeiros de Albuquerque, 471 | Vila Madalena | São Paulo

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Sacis aprontam no Parque da Água Branca

14.09.09_Mouzar Benedito_Água BrancaPor Mouzar Benedito.

O Parque da Água Branca é um daqueles lugares maravilhosos da cidade de São Paulo que a grande maioria dos moradores nem se lembra que existe. Tem mais de 13 hectares de vegetação, lagos com peixes, uma típica casa de caboclo e até um espaço para aulas de equitação. É um oásis no meio do caos urbano. Vegetação bonita, muitas aves domésticas e silvestres, além de saguis acostumados à presença humana, é um descanso para o espírito, um recanto de paz na cidade.

O silêncio não é absoluto, porque há muitos e muitos galos garnisés que cantam por todo lado, e também é possível ouvir alguns cantos de pássaros que habitam por ali.

Mas algo estranho está acontecendo ali. Funcionários e frequentadores andam meio espantados e com muita curiosidade de uns tempos para cá;

E muitos acham que tem a ver com uns bambuzais de taquaruçu, aquele tipo de bambu de gomo grandão em que segundo a lenda nascem e vivem os sacis.

De uns tempos para cá, contam, começou a ter uns redemoinhos estranhos, que viram painéis de informação e espalham folhas pelas trilhas, galinhas d’angola chocam e em vez de pintinhos nascem patos, porque trocaram os ovos, os cavalos amanhecem com nós nas crinas e assim por diante.

A explicação – acredite quem quiser – é que há uma superpopulação de sacis naquele parque. E eles reivindicam mais áreas verdes em São Paulo, para que possam esvaziar um pouco ali, por isso aprontam.

Em função disso, está sendo feita uma grande programação de atividades ditas “sacizísticas” no parque, com o título O Saci tá aqui!.

No meio do parque há um lugar muito agradável, chamado Espaço de Leitura, com alguns quiosques/bibliotecas e mesas espalhadas debaixo das árvores. São muitos e muitos livros para crianças e para adultos em um lugar calmo e agradável.

Nesse espaço está a exposição Saci em Foco, com 12 painéis, falando sobre os sacis, que são muitos. Num desses painéis, fala-se por exemplo da variedade de sacis existentes. Por exemplo: você sabe que além do Pererê existem o Saçurá, o Mofera, o Açu, o Mirim e outros? O que diferencia uns dos outros? Há explicações sobre isso.

Outra exposição é O colecionador de Sacis, uma coleção de garrafas que – juram – têm sacis apreendidos. Eles serão todos libertados festivamente no dia 1o de novembro, sábado, depois do “Dia do Saci e seus amigos”, que é 31 de outubro.

Além dessa exposição, que é permanente, há atividades para as crianças todos os sábados e domingos de setembro e outubro, a partir das 11h da manhã.

Entre essas atividades, há gincanas, oficinas de desenho, apresentações musicais, contação de histórias e muitas brincadeiras.

Vale a pena levar as crianças lá. É de graça e, para melhorar, o Parque da Água Branca fica pertinho da estação Barra Funda de metrô, trem e ônibus. Então é muito fácil chegar lá, sem se preocupar com o trânsito, lugar para estacionar, essas chatices.

Os adultos que não embarcarem nas brincadeiras ditas “sacizísticas” também vão gostar de ir ao parque. Além de ser desestressante passear por num espaço de muito verde e vida animal, num lugar facílimo de chegar, perto do centro, pode-se aproveitar para desenvolver habilidades e conhecimentos – acontecem regularmente nele oficinas de artesanatos diversos, música, internet, pintura, yoga… E em alguns dias da semana, os saudáveis poderão ir à Feira do Produtor Orgânico e comprar alimentos diretamente de quem produz.

Quem quiser mais informações, aí vai o caminho das pedras:

Espaço de leitura | aberto de terça a domingo
Terça das 10 às 17 horas e de quarta a domingo das 9 às 18 horas
Parque da Água Branca | Rua Ministro Godói, 180 | Perdizes
Telefone: (11) 2588-5918 | contato@espacodeleitura.org.br
facebook.com/espacode.leitura | www.espacodeleitura.org.br

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Nossa Senhora das Formigas

14.08.27_Mouzar Benedito_N ossa senhora das formigasPor Mouzar Benedito.

Há mais de cinco séculos perto de Bolonha, na Itália, venera-se Nossa Senhora das Formigas, que tem um santuário em cima de um monte chamado “Monte das Formigas”. Havia um quadro em que a Virgem aparecia com formigas pintadas nos pés, que foi destruído durante bombardeios, durante a II Guerra Mundial. Em 1956 o santuário foi reconstruído, e todos os anos, no dia 8 de setembro, o local se enche de peregrinos que vão lá ver as formigas que, segundo se afirma, sobem ao santuário.

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O Hino Nacional Brasileiro, com música de Francisco Manuel da Silva e letra de Osório Duque Estrada, foi oficializado em 18 de janeiro de 1890.

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O jogo de dominó tornou-se conhecido na Europa no século XVIII. Acredita-se que ele tenha sido criado na China séculos antes. A lenda é que o herói Hung Ming criou o jogo para distrair seus soldados. Outra versão é que foi um cortesão que criou o jogo, por volta do ano 1120, para presentear o imperador Hui-Tsung. O nome dominó é europeu. Em chinês o chamavam de kuat-pai (prancheta de ouro), embora lá ele pudesse ser feito também de marfim ou madeira. Os chineses o usavam também para fazer previsões (como o tarô em outras culturas). Já o jogo de damas teria sido criado por um sultão do Ceilão, atual Sri-Lanka, embora os gregos reivindiquem a invenção. O inventor, segundo os gregos, seria Palamedes.

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Não foi na Globo, e sim na TV Tupi, que houve uma “revolução” nas telenovelas: “Beto Rockfeller”, de Cassiano Gabus Mendes começou a ser exibida em novembro de 1968.

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Florianópolis chamava-se Desterro, forma resumida de seu nome original, Nossa Senhora do Desterro. Era uma cidade conservadora, e teve lá em 1893 e 94 um movimento monarquista, contra a República. Era uma coisa reacionária, claro. Floriano Peixoto, presidente da República, reprimiu pra valer. Os repressores lotaram as prisões da cidade, estupraram, queimaram, depredaram, e fuzilaram ou enforcaram um monte de gente. Os números sobre os executados variam, chegando, conforme a fonte, a 185. Em seguida, o então governador Hercílio Luz mudou o nome da cidade para Florianópolis. Desterro era realmente um nome pouco atrativo, mas homenagear um sujeito que promoveu um massacre, dando seu nome à cidade dos massacrados é uma piada de muito mau gosto, mesmo que os assassinados sejam bem reacionários. Então, viva o apelido Floripa, que parece mais homenagem a qualquer flor do que ao marechal!

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Considerado por muitos o maior dançarino de todos os tempos, o “russo” Nijinsky (Vaslav Formich Nijinsky), que viveu de 1890 a 1950, era na verdade ucraniano, nasceu em Kiev, filho de dançarinos de balé poloneses. Ele teve uma carreira de apenas dez anos, encerrada em 1917, depois de uma excursão pela América do Sul, quando passou a ter paranoia aguda e, temendo supostos inimigos, contratou guarda-costas. Foi morar na Suíça, com a esposa Romola. Em 1918, por sua doença irreversível, foi internado num asilo, onde viveu 32 anos.

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Rainer Maria Rilke (1875-1926), considerado o maior poeta lírico da Alemanha nos tempos modernos, era tratado como menina, pela mãe, até os 6 anos de idade. Ele usava vestidos e era chamado de Sofia. Uma irmã que nasceu antes dele teve morte prematura e sua mãe o imaginava como um substituto dela. Para que não ficasse afeminado, seu pai o colocou numa academia militar quando ele tinha onze anos.

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Você acredita no ditado “cão que ladra não morde”? Se acredita, quando um cachorro vier latindo pro seu lado, você nem liga, não é? Esse ditado se parece com um outro, de Minas Gerais: “Peido que estrala não fede”. Mas não, hein?

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A primeira estação telefônica do Brasil foi instalada no Rio de Janeiro em 29 de novembro de 1877.

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Luiz de Camões estava na Índia e em 1557 ou 58 foi para Macau, onde prestou serviço ao reino português e se apaixonou por um chinesa que se tornou sua companheira. Foi obrigado a retornar a Goa e o navio em que viajava naufragou em frente ao golfo de Tonquim. Ele alcançou a nado o rio Mekong, conseguindo salvar os manuscritos de “Os Lusíadas”. Há relatos não confirmados de que Camões viu a mulher amada sendo arrastada pelas águas para um lado e a arca com o manuscrito do livro para outro. Tinha que optar por salvar só a mulher ou só o livro. Optou pelo livro, para azar dela e sorte da literatura portuguesa.

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Você acha o amigo meio biruta, quer dizer, meio maluco? A palavra biruta é relativamente recente, e tem relação com a aviação. Nos chamados campos de aviação, ou seja, locais onde pousam e decolam pequenos aviões, por determinação da Aeronáutica, desde 1941, tem que ter uma espécie de sacola feita de tela, colocada no alto de uma casa ou de um poste. Se não há vento, ela fica murcha, parada. Mas com o vento ela se enche e sobe, e vira para os lados conforme a direção que ele vem. Como quase sempre tem pelo menos um ventinho, essa sacola, chamada biruta, fica se mexendo praticamente o tempo todo, não para, virando pra todos os lados. Igual ao pessoal que a gente chama de biruta. Uma curiosidade: em russo, alemão e francês, a biruta é chamada por nomes que, traduzindo para o português, significam “saco de vento”.

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Dom Pedro II era astrônomo amador e, em sua homenagem, a data em que nasceu, 2 de dezembro, foi oficializada como Dia da Astronomia, pela Sociedade Brasileira de Astronomia, fundada em 1947.

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Alguns sobrenomes de origem francesa têm significados curiosos: Laborde significa “a granja”; Lacaz é “a casa”; Lacombe é “o vale”; Lafayette é “a falazinha”; Lafitte é “a pedra fincada” e Lemoine é “o monge”. Já o sobrenome Lacerda, originalmente escrito separado, La Cerda, é português, de origem espanhola. Dom Fernando, primogênito de Afonso, o Sábio, tinha uma mecha de cabelo no peito e por isso recebeu o apelido de “la cerda”.

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Os brasileiros são pródigos em inventar nomes e a copiar nomes estrangeiros, não é? Se vivêssemos na França, até 1970, não poderíamos fazer isso. Lá, o Ministério do Interior tinha uma lista de nomes dos dois sexos e só se podia dar aos filhos nomes que estivessem nessa lista. Só depois que De Gaulle morreu é que a lista de nomes deixou de vigorar.

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Por que quando a gente quer dizer que cada um deve ficar com seu igual ou semelhante dizemos “lé com lé, cré com cré”? Isso vem de Portugal, onde se separava os leigos dos clérigos. Diziam “leigo com leigo, clérigo com clérigo”, que foi resumido para “lé com lé, cré com cré”.

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O Canal do Panamá foi aberto para navegação em 1o de janeiro de 1914.

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Segundo o livro Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas, do Cônego Francisco Bernardino de Souza, publicado no Pará em 1873, “em virtude de um decreto datado de 12 de junho de 1748, começou em maio de 1749 a correr na cidade de Belém dinheiro de prata, ouro e cobre, com as mesmas inscrições, peso e valor que se haviam estabelecido para a moedagem no Brasil. Até então o dinheiro que havia em circulação era novelos de algodão e outros gêneros, que tinham valores determinados e com ele se pagava aos funcionários de todas as classes e também aos particulares”.

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Em São Paulo, existia na “República Velha” uma cadeia em que se prendia e mantinha com muita crueldade os desafetos do governo. Era chamada de “Bastilha do Cambuci”. Depois da Revolução de 1930, no dia 25 de novembro daquele ano, uma multidão invadiu e detonou essa cadeia. Foi a “Queda da Bastilha do Cambuci.

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Sabe quem é Chalchihitlicue? É a deusa asteca das águas correntes. É também deusa da vegetação, que garante a produtividade das plantações de milho.

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Muita gente conhece o ditado “A cavalo dado não se olha os dentes”, mas não sabe o seu significado. Um caipira legítimo, quando vai comprar um cavalo olha os dentes dele e sabe que idade tem. Até os dez meses, o potro tem todos os dentes de leite, e aí eles começam a cair e vão sendo substituídos por dentes permanentes. Aos 5 anos de idade, a segunda dentição está completa e ele já é um animal adulto. Aos 8 anos, os dentes ainda têm esmalte e forma ovalada, e aos 9 anos começam a aparecer manchas. Quando atinge os 12 anos, todos os dentes dele já têm manchas. Aos 13 anos, todos os dentes já perderam o esmalte e começa a velhice dele, e a partir daí os dentes vão se deteriorando. Detalhe: as éguas têm 20 dentes e os cavalos 24.

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A fauna pantaneira é talvez a mais rica do planeta, com 658 espécies de aves, 124 de mamíferos, 325 de peixes, mais de mil espécies de borboletas, 77 de répteis e 41 de anfíbios.

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Thomas Morus, autor do livro Utopia, era chanceler do reino na Inglaterra e desaprovou o divórcio do rei Henrique VIII, que pretendia se casar com Ana Bolena, e por isso foi afastado do cargo e preso. Condenado à morte, o rei – vejam que bonzinho – lhe deu o privilégio de escolher a forma como queria ser morto: enforcado, afogado, eviscerado (eviscerar é retirar as vísceras) ou esquartejado. Ele preferiu ser decapitado. Canonizado em 1935, com o nome Thomas More, é santo da igreja católica.

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O purê, comida típica francesa… epa! Purê é uma palavra de origem tupi. Tem a mesma origem que pirão, vem de pirõ, que significa “papa grossa”. O purê foi inspirado no pirão e é uma influência indígena na culinária francesa.

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A descoberta da tumba do faraó Tutancâmon foi anunciada em 26 de novembro de 1922.

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Alguém já imaginou a cidade do Rio de Janeiro sem a Floresta da Tijuca? Já foi assim: a vegetação da Mata Atlântica naquela área foi derrubada para dar lugar a plantações de café. Em 1861, Dom Pedro II determinou seu reflorestamento e o replantio foi iniciado pelo major Manoel Gomes Archer que, em treze anos, plantou 80 mil mudas de ipês, jequitibás, quaresmeiras e centenas de outras espécies vegetais. São 3200 hectares de mata.

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Mark Twain disse certa vez que a invenção da imprensa foi o maior acontecimento da história do mundo.

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A data do ataque da polícia ao bando de Lampião que matou o próprio Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, em Sergipe, foi 8 de julho de 1938. Apesar de terem cortado a cabeça de todos eles, muita gente acreditava que eram sósias de Lampião e Maria Bonita. Os “legítimos” Lampião e Maria Bontia teriam fugido para o norte de Minas e vivido até morrer de velhice na região de Montes Claros.

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Duas “comparações” na linguagem dos cearenses: “Mais importante do que balconista de cartório” e “Mais alegre do que coroa tirada pra dançar”.

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Alguns ditados
Careca não gasta pente
Cada um com sua certeza
Só se sente a falta d’água quando o pote está vazio
Cavalo alugado não cansa

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Assim falou Érico Veríssimo: “O mundo está muito melancólico. Cheio de gente desagradável”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Um exemplar defensor do capitalismo

14.08.12_Mouzar Benedito_Um exemplar defensor do capitalismoPor Mouzar Benedito.

Al Capone era anticomunista radical e certa vez discursou contra o comunismo dizendo: “Devemos conservar a América íntegra, segura e intacta”.

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A primeira Bienal de Artes Plásticas de São Paulo foi inaugurada em 20 de outubro de 1950.

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Estalo que se dá com a língua e os lábios, como sinal de desdém, o “muxoxo” teve origem na África e foi trazido para o Brasil pelos angolanos. Era um gesto quase que exclusivamente feminino.

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A primeira cooperativa do mundo surgiu na Inglaterra, em 1844, formada por 28 tecelões que se uniram para enfrentar a crise. Cada um entrava com uma libra para comprar coisas que precisavam para produzir. Ainda não se chamou cooperativa, era “rochdale”. No Brasil, a primeira cooperativa foi em Ouro Preto, em 1889, formada por funcionários públicos. Chamava-se Sociedade Econômica Cooperativa.

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O basquete foi criado em dezembro de 1891 pelo canadense James Naismith, instrutor da Associação Cristã de Moços em Springfield, Massachusetts, Estados Unidos.

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A Babilônia tinha um costume interessante: todos os anos fazia-se lá um leilão de moças em idade de casar, e logicamente os lances mais altos iam para as mais bonitas. Detalhe: a renda do leilão ia para as mais feias, e com a grana que ganhavam elas acabavam encontrando marido.

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No fim do século XVI havia cerca de 11.600 cortesãs em Veneza. O número de esposas patrícias não chegava a mil.

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A expedição de Fernão de Magalhães, que deu a volta no planeta pela primeira vez, saiu da Espanha com três caravelas e 180 homens. Só uma chegou de volta, com 18 sobreviventes – até o próprio Fernão de Magalhães morreu. Mas assim mesmo a expedição deu um baita lucro.

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Em janeiro de 1907 entrou em vigor uma lei que levou o nome de seu propositor, o senador paulista Adolpho Gordo, que regulamentava a criação de sindicato e permitia a expulsão de estrangeiros que participassem de greves, por exemplo. Leis que não prestam são aplicadas pra valer no Brasil: só em 1907 foram expulsos 132 estrangeiros, e de 1908 a 1921 mais 556.

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Isadora Duncan, nascida em 1878 em São Francisco (EUA) dançarina linda, teve uma vida amorosa bem agitada. Fez viagens pelo mundo inteiro e sempre tinha ligações amorosas nos lugares em que se apresentava. Em São Paulo, acredita-se que teve um caso com Oswald de Andrade, que a teria levado a um hotel em Osasco. Na época, Osasco era um pequeno bairro da capital e muito provavelmente não havia lá hotel que prestasse… Namorou muitos homens mais jovens que ela. Em 1927, aos 49 anos, em Nice, na França, ela estava interessada em comprar um carro conversível, mas mais interessada ainda pelo jovem italiano que demonstraria o carro a ela. Saiu com ele para um passeio de demonstração, toda charmosa, usando uma echarpe bem comprida enrolada no pescoço. A ponta da echarpe se prendeu nos aros da roda dianteira, ela teve o pescoço quebrado e morreu na hora.

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Alfred Nobel, inventor da dinamite, inventou também a madeira compensada.

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Um dos grupos musicais de maior sucesso no Brasil no início dos anos 1960 foi o Trio Esperança, trio vocal formado por três crianças: os irmãos Mário, Regina e Evinha. A música Filme Triste, uma versão cantada por eles, fez grande sucesso em 1962. Outra versão, O Passo do Elefantinho, fez sucesso em 1963, e em 1966 foi a vez da música A Festa do Bolinha. Três irmãos jovens desse grupo, mais um primo formavam os Golden Boys, quarteto vocal que também fazia muito sucesso desde 1959, mas uma música deles que foi marcante, em 1970. Era Fumacê. Alguns ainda devem se lembrar da letra dela: “Ê ê ê fumacê / Ê ê ê fumaçá / Tem alguém queimando coisa / tá botando pra quebrar”.

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Uma musiquinha ingênua muito cantada até há alguns anos em saraus de gente comportada era a modinha “Quem dirá”, que começa assim: “Tão longe, de mim distante / onde irá, onde irá meu pensamento…”. Seu autor? Carlos Gomes, em 1859.

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Depois que a revolta dos escravos liderada por Spartacus foi dominada, em 71 a.C., seis mil escravos foram recapturados e crucificados ao longo da Via Apia.

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Lavoisier era desafeto de Jean-Paul Marat. Quando este revolucionário francês tornou-se um dos líderes radicais da Revolução, conseguiu que o químico fosse guilhotinado, em 1794. Foram feitos vários apelos para poupar a vida de Lavoisier, mas o juiz que o condenou manteve a pena, argumentando que “a Revolução não precisa de homens de ciência”.

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Há coisas que no meio rural dizem que “fazem mal”. Não explicam o resultado de quem fizer isso, mas não fazem. Exemplos: casar numa segunda-feira; entrar pela porta da frente e sair pela de trás e cortar unha numa sexta-feira.

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O almanaque “Eu sei tudo”, de 1922, publica uma afirmação do dr. Kellog, de Chicago, que “depois de pacientes estudos” chegou à conclusão que é vantajoso ter pés grandes, principalmente as mulheres. Segundo ele, pessoas de grande inteligência não têm pés pequenos, e “o pé grande é igualmente indício de um caráter vigoroso e são, e de uma grande natureza amável”.

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Enrico Caruso, o grande cantor de ópera, estava em São Francisco, nos Estados Unidos, no dia 18 de abril de 1906, quando se deu o famoso e terrível terremoto. E jurou nunca mais voltar lá. “Prefiro o Vesúvio”, disse ele.

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Olha o que faz uma aliança em tempo de guerra: Viatcheslav Mikhilovitch Molotov (isso mesmo, o famoso Molotov, ministro das Relações Exteriores da União Soviética) foi hóspede da Casa Branca, sede do governo dos EUA, durante a Segunda Guerra. A visita não foi divulgada e ele foi registrado como Mister Brown.

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O primeiro posto de álcool combustível foi inaugurado em 20 de abril de 1979, em Curitiba.

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Assim falou Millôr Fernandes: “Tato político é a faculdade de entender as entrelinhas de uma folha em branco”.

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São Paulo tinha muitas linhas de bondes até os anos 1960. O prefeito Faria Lima acabou com eles. O último bonde da cidade foi o que ia do Instituto Biológico (região do Ibirapuera) até Santo Amaro. Circulou pela última vez no dia 27 de março de 1968.

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Segundo alguns supersticiosos, cada dia da semana tem uma cor que dá sorte. Então, deve-se usar pelo menos uma peça de roupa da cor do dia. Domingo é dia de usar roupa cor de abóbora; segunda é branco, lilás, cinza ou azul claro; terça é vermelho; quarta é amarelo; quinta é azul marinho; sexta é rosa e sábado é verde.

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Uma assombração interessante é o Barba-Ruiva (ou Barba-Branca), que só aparece na lagoa de Parnaguá, no sul do Piauí. Segundo a lenda, a lagoa não existia, havia só uma cacimba. Ali perto morava uma viúva com três filhas. Uma delas engravidou solteira e, quando o filho nasceu, jogou o menino na cacimba. Anos depois surgiu esse sujeito que tem a barba suja de lodo e limo, que a deixam avermelhada, assombração que assusta as pessoas e se atira sobre as mulheres, mas não para lhes fazer mal e sim para beijá-las e abraçá-las.

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Charles Drew, trabalhando pela Cruz Vermelha dos Estados Unidos, foi um pesquisador sobre conservação e transfusão de plasma sanguíneo. Suas pesquisas ajudavam a salvar muitas vidas. Os Estados Unidos estavam sob o badalado governo Roosevelt (que foi Prêmio Nobel da Paz) em 1942, em plena II Guerra Mundial. O trabalho de Drew era importantíssimo, mas ele pediu demissão porque a Cruz Vermelha do país governado por Roosevelt proibiu que se fizesse transfusão de sangue de negros em brancos.

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A primeira viagem de carro de São Paulo a Santos foi feita em abril de 1909.

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Assim falou Capistrano de Abreu: “Assassinar chefe político é operar canceroso; extraído aqui o cancro, reaparece além, em parte mais nobre, e mais virulento”.

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A Companhia do Metrô de São Paulo foi fundada em abril de 1968. Em princípio a prefeitura seria sócia do governo estadual, mas Paulo Maluf foi nomeado prefeito pelo governo militar e tirou a prefeitura da empreitada.

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O pé, medida ainda usada na Inglaterra e nos Estados Unidos, tem 30,5cm.

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A ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, distante de tudo, é conhecida por ter sido o local onde exilaram Napoleão Bonaparte, mas antes dele, em 1676, ela teve outro morador famoso, Edmund Halley (quem não ouviu falar do cometa com o nome dele?), que fazia o mapa celeste do hemisfério sul.

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A manga, que parece uma fruta bem brasileira, foi trazida do sul da Índia para cá pelos portugueses, no século XVI. Segundo a lenda, o primeiro europeu a ver uma manga foi Alexandre, o Grande.

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Drible é uma palavra inglesa. To dribble significa enganar, fintar, e aportuguesamos o verbo inglês para driblar. Houve uma época que alguns locutores esportivos não usavam a palavra drible, era comum ouvir dizer que o fulano aplicou uma finta no adversário.

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O governo Juscelino Kubitschek fez em 28 de junho de 1959 uma coisa que governos mais “de esquerda” recentes não tiveram coragem: rompeu com o FMI. Conta-se que um foca (jornalista novato) estava editando uma matéria sobre o assunto para um jornal e o diagramador, por gozação, disse que a matéria teria uma chamada de capa de uma só coluna e o título devia ser em três linhas de três caracteres apenas. O diagramador e colegas veteranos esperavam que o novato ficasse embatucado e não desse conta do recado, mas rapidamente ele apareceu com o título:

JK:
FMI
NÃO

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Há algumas décadas, um grupo de “especialistas” (não sei quem eram, nem como se identificaram como especialistas nisso) se reuniram para escolher as três frutas mais saborosas do mundo. As escolhidas foram o abacaxi, a lichia e a atemoia. A lichia é de origem chinesa e a atemoia é chilena. O abacaxi, originário do Brasil e do Paraguai, teve muito tempo a fama de ser a “rainha das frutas”. Dizem dele: “Já nasce com coroa”. Seu nome é tupi e significa fruta cheirosa.

* * *

Diz o dito popular: “A cada minuto morre um imbecil. E nascem dois”.

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Assim falou Pittigrilli: “Prefácio é aquela coisa que se escreve depois, imprime-se antes e não se lê nem antes nem depois”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura Inútil: Darwin na contramão

14.07.28_Mouzar Benedito_Darwin na contramãoPor Mouzar Benedito.

Antes de Charles Darwin, houve uma espécie de anti-Darwin que imaginou algo como uma “involução” das espécies, em vez da evolução darwiniana. Georges de Buffon (1707-1788), naturalista francês, pensava, entre outras coisas, que o macaco era um homem degradado, e o jumento a degradação do cavalo.

* * *

O Rio Negro era chamado de Guriguaçu por algumas nações indígenas. Em tupi, essa palavra significa rio dos bagres grandes.

* * *

Quando se dá flores a uma mulher hoje em dia não se tem em mente o significado da “mensagem” que cada flor leva. Segundo especialistas, as flores dão um recado do doador à musa. Exemplos: flor de pessegueiro rosa-claro significa “sou seu escravo”; rosa branca quer dizer “sou digno de você”; tulipa, se amarela, é uma declaração de amor, mas vermelha é de amor sem esperança de ser correspondido; petúnia é “sua presença me tranquiliza” e trevo de quatro folhas (com as pequeninas flores brancas ou vermelhas) é “seja minha”.

* * *

Antes de morrer, em 1910, Leon Tostoi disse: “É o fim… E realmente não tem a menor importância”.

* * *

A instalação do estado de Israel foi anunciada por Ben Gurion em 14 de maio de 1948. No dia seguinte, cerca de 700 mil famílias de palestinos foram expulsas de suas casas, pelo governo israelense. Por isso, 15 de maio ficou conhecido como “Dia da Catástrofe”. No mesmo dia a Liga Árabe declarou guerra a Israel.

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Os índios Cherokee, dos Estados Unidos, achavam que a escrita era um instrumento importante (inclusive de dominação) dos europeus. Um deles, chamado Sequoyah, que viveu de 1770 a 1843 (e que deu o nome à árvore sequóia), criou um alfabeto silábico de 86 caracteres para a sua língua. Funcionou. Em sete anos já tinham até jornal semanal impresso com esses caracteres.

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Os bois vivem 15 anos, em média, mas uma vaca chamada Big Bertha, na Irlanda, viveu 48 anos e 9 meses.

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Em Álamo Gordo, no Novo México, é que foram fabricadas as primeiras bombas atômicas. As autoridades tinham receio que papéis jogados fora ou perdidos fossem lidos por quem não devia, e por isso só admitiam nas instalações que produziam a bomba analfabetos para trabalhar como zeladores, porteiros e faxineiros.

* * *

Abdul Kassem Ismael, sábio grão-vizir da Pérsia, que viveu de 938 a 995 d.C., tinha uma biblioteca de 117 mil volumes. Como guerreiro e estadista, fez várias viagens mas jamais se separou dos livros. Eles eram carregados por 400 camelos que marchavam numa fila de maneira que os livros fossem mantidos em ordem alfabética. Qualquer livro que o grão-vizir pedia era encontrado imediatamente pelos bibliotecários.

* * *

Carlos Magno, rei dos francos e dos lombardos, e depois “Imperador do Ocidente”, coroado “imperador dos romanos” pelo Papa Leão III, chamado de “Pai da Europa” no ano 799, por ter feito a primeira reunião territorial da Europa, governando uma área de mais de um milhão de quilômetros quadrados, nunca aprendeu a escrever. Sabia ler, mas não escrever.

* * *

O tamanduá-bandeira ataca os cupins com suas garras poderosas, estica sua língua de até 60 centímetros pelos buracos do cupinzeiro, movimentando-a a uma velocidade de 150 vezes por minuto, e come cerca de 30 mil insetos por dia.

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Os primeiros países do mundo em que as mulheres adquiriram o direito de votar foram a Nova Zelândia (1893), a Austrália (1902) e a Finlândia (1906).

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O Amapá foi muito disputado por Portugal, França, Inglaterra e Holanda. A França persistiu durante muito tempo tentando se apoderar da região. Só em 1900, com arbitragem do presidente da Suíça, a disputa acabou, com a posse definitiva para o Brasil. Foi então, criado o território de Araguari, incorporado ao Pará. Em 1943, ele se tornou território federal e passou a se chamar Amapá, que é o nome de uma árvore da região, que dá um fruto comestível, roxo-escuro. Em 1988, tornou-se estado.

* * *

Separação de casais costuma ser problemática, e às vezes há acusações quanto ao comportamento sexual de um dos cônjuges. Charles Chaplin, encarava um processo judicial de separação, em 1920, nos Estados Unidos, e foi acusado de fazer sexo oral na mulher. Uma devassidão! Ele causou espanto com sua resposta: “Mas todas as pessoas casadas fazem isso!”.

* * *

O milésimo gol de Pelé, foi de pênalti, marcado contra o Vasco, no Maracanã, em 19 de novembro de 1969. Repórteres correram para ouvir uma declaração dele e ele começou com “Love, love, love…”.

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A ave símbolo do Pantanal Mato-grossense é o tuiuiú, também chamado jaburu – cuja envergadura atinge 2m80 e a altura 1m60. Mas essa não é a ave mais pesada da região, e sim a ema, que não voa, e é muita parecida com o avestruz africano. Ela pode chegar a 1m40 de altura e pesar mais de 30 quilos. Há várias versões para o nome tuiuiú, de origem tupi, uma delas é que significa “bico muito amarelo”. Jaburu significa “o que tem o papo cheio”. Por ser uma ave com aspecto meio desengonçado, jaburu se tornou sinônimo de sujeito de aparência feia e tristonha. O nome da ema em tupi é nhandu, e significa “a que corre, veloz”. Mas nhandu é também o nome da aranha, em tupi. Neste caso, deriva de nhã-andu(ba), que significa “a que sente, sensitiva”.

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Os tanques de guerra foram usados pela primeira vez em 15 de setembro de 1916, na Primeira Guerra Mundial.

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Por que a região da praça Floriano, no centro do Rio de Janeiro, se chama Cinelândia? Ela ganhou esse nome depois que, em 1925 e 1926, foram inauguradas ali quatro salas de cinema.

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Durante o reinado dos imperadores da dinastia Yuan, na China (1260 a 1368), já havia mulheres estudando nas faculdades de medicina chinesas. A Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, só começou a aceitar mulheres em 1945.

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O alho é rico em vitaminas B e C, proteínas e cálcio, e contém potássio. Em muitos lugares é considerado um remédio valioso. Na antiga União Soviética, era chamado de “penicilina russa”.

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O maior rodeio do Brasil, o de Barretos, começou com a fundação do Clube dos Independentes, por um grupo de rapazes, em 1955, para fazer a festa do peão. A primeira festa foi realizada no ano seguinte, no picadeiro de um circo. Hoje é um dos maiores do mundo. O chato, além do sofrimento dos animais, é que tudo lá tem o estilo cowboy, até os chapéus. Nada a ver com nossa cultura caipira.

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Seu cachorro ou gato tem pulgas? Um bom jeito de fazer que elas pulem fora dos bichos é acrescentar levedo de cerveja na comida deles. Depois que o cachorro ou gato ingere levedo de cerveja, solta um cheirinho que as pulgas odeiam.

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Um oficial do exército de Napoleão, chamado Pedro Labatut, foi contratado por Simón Bolívar para participar das lutas de libertação contra os espanhóis. Mas quis mandar mais que o próprio Bolívar e acabou expulso da Venezuela. Foi então contratado por Dom Pedro I para reprimir rebeliões no Brasil, o que fez com muita crueldade no Ceará, entre julho de 1832 e abril de 1833, reprimindo a insurreição de Joaquim Pinto Madeira. Aprontou tanto por lá que segundo contam virou um monstro, uma assombração com forma humana, “pior que o lobisomem”. O tal monstro chamado Labatut era temido na divisa dos estados do Ceará e Rio Grande do Norte.

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Acredita-se que o primeiro médico do mundo a fazer uma cirurgia usando anestesia geral tenha sido o chinês Hua T’o. Essa anestesia era obtida com uma combinação de haxixe com um vinho muito forte, chamado ma fei san. Antes da Revolução chinesa, a data do aniversário desse médico era feriado nacional.

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A “libertação dos escravos”, um tanto fajuta, porque não deu condições de sobrevivência aos ex-escravos, apenas os jogou na rua, acabou tendo muita influência na criação do samba. Muitos escravos libertos que trabalhavam nas lavouras do Vale do Paraíba e da Bahia, sem ter trabalho, foram para a “corte”, quer dizer, para o Rio de Janeiro. Lá foram desenvolvendo sua música e dança. Já no início do século XX, muitos negros se reuniam para cantar e dançar na casa de uma baiana, Tia Ciata, e lá seus cantos e danças evoluíram até chegar ao samba.

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“Pelo telefone” foi o primeiro samba gravado no Brasil, em 1917. Foi composto na casa da Tia Ciata, no final de 1916, por um grupo de sambistas tradicionais, mas um deles, Donga, o registrou como sendo seu, provocando protestos nos demais compositores. Fez um sucesso enorme e foi a música mais cantada no Carnaval daquele ano. Segundo alguns, Donga teria dito que “samba é como passarinho, é de quem pegar primeiro”.

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O motim que inspirou o filme “Encouraçado Pontenkim” aconteceu em 27 de junho de 1905.

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Os cheques já eram usados na Suméria mil anos antes de serem fabricadas as primeiras moedas, mas logicamente não eram feitos em papel, e sim escritos em tábuas de argila.

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O Distrito Federal, até 21 de abril de 1960, era a cidade do Rio de Janeiro. Com a transferência da capital para Brasília, o Rio se tornou uma “cidade estado”. Estado da Guanabara, capital Rio de Janeiro. O estado do Rio tinha Niterói como capital. Durante a ditadura, unificou-se os estados do Rio e da Guanabara, ficando como é hoje. O primeiro governador do novo estado, depois da fusão, foi o almirante Faria Lima, nomeado pelos militares em 11 de setembro de 1974, exatamente um ano depois do golpe do general Pinochet no Chile e 27 anos antes do atentado que derrubou as torres do World Trade Center, em Nova York.

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Córdoba, na Espanha, durante o domínio mouro, era chamada de “Atenas do Ocidente”. Tinha uma biblioteca de 400 mil volumes.

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Superstição: tropeçar num balde cheio ao sair de casa é sinal de sorte. Tropeçar num balde vazio, é azar. Sinal de que vai ter encrenca o dia todo.

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Os cachorros são inteligentes? Segundo um estudo feito na Universidade de Harvard, no final do século passado, eles não aparecem pelo menos entre os dez animais mais inteligentes que são (segundo esse estudo), em ordem decrescente: chimpanzés, gorilas, orangotangos, babuínos, gibões, macacos (o estudo não especifica quais), baleias, golfinhos, elefantes e porcos.

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Para classificar os vários tipos de paralisia infantil, as pesquisas duraram três anos. Nelas, foram usados 30 mil macacos.

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Assim falou o escritor Camilo Castelo Branco: “Como é belo o pecado quando o coração não o confessa”.

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Ditado de Nova Resende (MG): “Mais vale um gosto do que um caminhão de abóboras”.

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Leia todas as outras versões da Cultura Inútil clicando aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Onde o rato sumiu? Músicas com letras que me marcaram

15.07.14_Mouzar Benedito_LupcínioPor Mouzar Benedito.

Quando o governo Costa e Silva resolveu baixar o Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5, só um membro do governo teve reação contrária: o vice-presidente Pedro Aleixo disse temer o resultado dele.

Alguém, acho que o próprio ministro da Justiça, Gama e Silva, autor do texto, ficou bravo e perguntou: “Você não confia nos nossos generais?”.

Pedro Aleixo respondeu: “Nos generais, eu confio. O que eu não confio é no guarda da esquina”. Bom, eu não confiaria nem nos generais nem nos guardas da esquina, mas realmente, com o endurecimento da ditadura, tudo quanto é “guarda da esquina” passou a se sentir uma grande “otoridade” e cometer abusos de todos os tipos. Porteiro de prédio, por exemplo, se julgava imperador do condomínio, se sentia com poderes para ameaçar quem quer fosse, de visitas a moradores.

Um exemplo que me lembro bem dessas “otoridades” é de um motorista de ônibus. Eu estudava Geografia na USP e muitos dos meus colegas gostavam muito de cantar. No ônibus da Cidade Universitária para o centro, no final das aulas, lá pelas onze da noite, o pessoal já entrava cantando, mas não era coisa barulhenta. Eram músicas bonitas, cantadas baixinho. Não chegava nem a incomodar quem estivesse conversando com outro passageiro.

Um dia, quando o pessoal foi entrando no ônibus, o motorista gritou: “Se cantar eu levo direto pra delegacia”.

Um dos meus colegas perguntou: “E falar, pode?”. O motorista ameaçou ficar bravo: “Tá me gozando?”. “Pode ou não pode?” “Claro que pode”. Aí esse colega começou a falar: “Meu coração, quando te vê, bate feliz, não sei porquê…”, e foi acompanhado por todo mundo “falando” a letra da música Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro.

A mais admirada do poeta

Lembrando dessa história e da música Carinhoso, vieram ao meu pensamento algumas letras maravilhosas da música popular brasileira. O poeta Manuel Bandeira disse certa vez que, se se fizesse um concurso para escolher “o verso mais bonito da nossa língua”, provavelmente votaria naquele que diz: “Tu pisavas nos astros distraída”, referindo-se à música Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. É uma música com letra inteira muito bonita, e esse verso faz parte da estrofe que diz:

A porta do barraco era sem trinco
e a lua furando nosso zinco
salpicava de estrelas o nosso chão .

E tu pisavas nos astros distraída,
sem saber que a ventura desta vida
é a cabrocha, o luar e o violão…

Acho bonito também. É uma letra muito poética. Fico admirado pensando não só nas maravilhas feitas por compositores bem formados, mas também por pessoas que tiveram uma vida dura e pouca formação escolar, como Cartola e Nelson Cavaquinho. Eles e muitos outros faziam letras muito elaboradas, até sofisticadas.

Mas gosto também de lembrar de outros estilos, do humor aos xingamentos.

Pobre, mas estiloso

De humor, nem vale lembrar Noel Rosa, um mestre. Cito João da Baiana, no samba Cabide de Molambo, que tem um trecho assim:

Meu Deus, meu Deus eu ando com sapato furado,
tenho a mania de andar engravatado.
A minha cama é um pedaço de esteira
e uma lata velha que me serve de cadeira.

Minha camisa foi encontrada na praia,
a gravata foi achada na ilha da Sapucaia;
meu terno branco parece casca de alho,
foi a deixa de um cadáver num acidente de trabalho…

Agora vejam uma sacada genial de Adoniran Barbosa, na música Tocar na Banda:

Num relógio é quatro e vinte,
no outro é quatro e meia;
é que de um relógio pra outro
as horas vareia.

Mestres das imprecações

Lupicínio Rodrigues, autor de músicas belíssimas, é mais lembrado por algumas no estilo dor de cotovelo e outras cheias de imprecações. Tinha cada samba-canção que deixava a gente com sensação de quase pavor. A música Vingança, por exemplo, diz no início:

Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar…

No fim dela mesma, tem esses versos: 

Mas, enquanto houver força em meu peito
eu não quero mais nada:

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
que rolam na estrada,
sem ter nunca um cantinho de seu
pra poder descansar.

Falando de imprecações, não poderia deixar o tango de lado. Certo, tango é argentino, não é brasileiro. Mas houve uma época em que era comum aqui, tinha inclusive bons compositores brasileiros dedicados ao gênero. E, para o meu gosto, um dos maiores cantores de tango de todos os tempos era o brasileiro Nelson Gonçalves, mais conhecido como intérprete de sambas-canções, mas que não deixava nada a desejar interpretando tangos, compostos aqui mesmo ou traduzidos.

Preciso lembrar aqui que tango, no início, na Argentina, não era música de tragédias. Foi criado por negros e suas letras eram alegres, até que foi assumido pelos brancos de classe média, aí sim virou uma coisa tão trágica que quando alguém tinha uma vida cheia de sofrimentos, aqui no Brasil, dizia: “Minha vida dá um tango”.

Embora lembrando de alguns tangos brasileiros, vou citar aqui um argentino que, acredito, foi o maior mestre das letras arrebatadoras e arrebentadoras. Seu nome é Enrique Santos Discépolo. Basta lembrar a letra de Cambalache, tango proibido na Argentina na época da ditadura. Aqui, ele foi cantado (em castelhano mesmo) por Caetano Veloso e fez o maior sucesso. Mas na linha das imprecações, um tango arrasador, de autoria de Discépolo, é Esta noche me emborracho, traduzido para o português (Esta noite me embriago) e cantado por Nelson Gonçalves. Falando de uma ex-amada, ele começa assim:

Triste, sozinha desprezada
a vi de madrugada sair de um cabaré.
Fraca, mostrando que a sorte
destruiu todo seu porte
sem lhe dar vez.

Magra, vestida sem aprumo
a exibir sem rumo sua nudez
fez de si um quadro sem valor
mostrando sem pudor
seu corpo sem calor…

Ex-namorada, por sinal, é tema de muitas letras malvadas, e não é só em tango que Nelson Gonçalves desanca uma. O samba-canção Revolta, dele e Raul Sampaio, tem um trecho assim:

É meu consolo acreditar que estás sofrendo
e em sua vida de prazeres vives louca…

Nessas imprecações, às vezes era preciso encontrar formas elaboradas para descrever a decadência de uma pessoa. Não valia dizer que “minha ‘ex’ virou puta e foi pra zona. Paguei pra transar com ela”. Vejam uma forma Adelino Moreira encontrou pra dizer isso, no samba-canção A flor do meu bairro, cantado por Nelson Gonçalves:

Hoje, depois de alguns anos,
Eu encontrei-me com ela
Na rua dos desenganos,
Menos ingênua e mais bela.

Ela fingindo desejo,
a boca me ofereceu.

E eu paguei por um beijo
que no passado foi meu.

Bronca e tristeza

Nestes tempos em que é “politicamente correto” tentar controlar a vida alheia, com um “bom-mocismo” esquisito, como o que tenta proibir as pessoas de fumarem (“é para o bem delas”, dizem os cínicos), se eu tivesse bom ritmo e boa voz, sairia cantando bem alto:

Se eu quiser fumar eu fumo,
se eu quiser beber eu bebo,
não interessa a ninguém.

Ah, o fim dessa estrofe é assim:

Se o meu passado foi lama
hoje quem me difama
viveu na lama também.

Noel Rosa, em seu samba Último Desejo, também falando de uma “ex”, dá seu recado aos desafetos:

Às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é um botequim.

Que eu arruinei sua vida,
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

Agora, um estilo que acho muito bonito é o de Batatinha, compositor baiano que quase caiu no ostracismo, e uma das pessoas que não deixaram acontecer isso, cantando suas músicas maravilhosas, é Maria Bethânia. Batatinha compunha músicas alegres, mas algumas com letras tristes, que pareciam não combinar com elas. Mas combinava, de maneira provocante e bonita. É o caso de O Circo, que começa assim:

Todo mundo vai ao circo,
menos eu, menos eu.

Por não poder pagar ingresso
fico de fora escutando as gargalhadas…

Para terminar, safadezas

Ah, as músicas com letras safadas… Escutei muitas por aí. E lembro de uma ouvida em Minas. Mas antes de falar dela, aí vai o motivo por que me lembrei da dita cuja: uma vez, numa véspera de Natal com a família quase toda reunida na chácara de um dos meus irmãos, os três filhos dele, meninos que, se me lembro bem, tinham respectivamente 8, 6 e 4 anos de idade, estavam numa fase de cantar e de vez em quando pediam a todos que os ouvissem interpretando musiquinhas infantis.

Chamei os três de lado e falei que ia ensinar uma música a eles. O mais velho falou: “Não, a mamãe falou que você só ensina bobagem pra gente”. Pensei: “Ah, é? Eu ia ensinar uma música bonitinha, mas agora vou mudar”. E falei: “É a música do Lelê. Pergunte pra sua mãe se lelê é palavrão ou bobagem”.

Ele foi e perguntou: “Mamãe, lelê é palavrão?”. Ela disse que não e ele falou: “Então o Mouzar vai ensinar pra nós a música do lelê”. Ela permitiu.

Eu ensinei, eles puseram todo mundo a postos para ouvi-los e cantaram pomposos, deixando a mãe furiosa:

Subiu um rato na perna da comadre,
veio o compadre pra ver o que aconteceu.
Tirou a roupa da comadre e sacudiu,
mas ninguém sabe, ninguém viu
onde o rato se escondeu.
Foi no lelê que o rato sumiu,
foi no lelê que o rato sumiu.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Juízes exibidos e outras futebolices

14.06.25_Mouzar Benedito_Cidinho[O árbitro Alcebíades Magalhães Dias, "Cidinho Bola Nossa", entre Amaury de Castro, capitão do Cruzeiro, e o capitão do Siderúrgica. Moeda no ar para dar início à partida.]

Por Mouzar Benedito.

Aí vão mais umas historinhas com referências ao futebol. Se a gente for puxando pela memória, parece que a coisa não tem fim. Começo por histórias relacionadas aos juízes.

Juiz Bola Nossa

Alcebíades Magalhães Dias, o Cidinho, era juiz de futebol de Belo Horizonte e torcedor fanático do Atlético. Manipulou muitos jogos a favor do Galo. Uma vez, em 1949, apitando um jogo entre o Atlético e o Botafogo do Rio, o atleticano Afonso e o botafoguense Santo Cristo disputavam uma bola e ela saiu pela lateral. Ficaram discutindo e Afonso perguntou ao juiz de quem era a posse da bola. Cidinho tirou o apito da boca e respondeu ao atleticano:

― Afonso, a bola é nossa!

Ficou sendo conhecido como Juiz Bola Nossa

Pantera-Cor-de-Rosa

Quando estudei jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, tinha entre meus colegas de classe o atacante Lance, do Corinthians, o defensor Polaco, do Palmeiras, e o juiz de futebol Roberto Nunes Morgado.

Uns anos depois, Morgado, cheio de trique-triques, fazia umas arbitragens meio malucas, como uma vez que apitou o tempo todo sem entrar no campo, só correndo na lateral. Parecia que tinha pirado.

Num jogo entre São Paulo e Palmeiras, expulsou quatro jogadores do Palmeiras, e começaram a achar que ele tinha mesmo problemas psiquiátricos e chegaram a pedir um laudo médico para que continuasse sendo árbitro.

Em um jogo entre o Vasco e o Ferroviário do Ceará, pelo Campeonato Brasileiro de 1983, expulsou a PM que fazia a segurança na área interna do campo, dando cartão vermelho a ela.

Por causa de seus trejeitos (pelo que contam, inspirados em Armando Marques) e seu porte físico, alto e bem magro, ganhou o apelido de Pantera-Cor-de-Rosa.

Frequentador da Boca do Lixo, contraiu o vírus HIV e morreu de Aids em 1989.

E apareceu o Margarida

O catarinense Clésio Moreira dos Santos se inspirou em Armando Marques, Morgado e outros juízes polêmicos de futebol para criar seu próprio estilo. Além do uniforme todo cor-de-rosa (incluindo as chuteiras) fazia uma coreografia toda especial, criada por ele mesmo, que recebeu o nome de “passo da gazela”, e tornou-se um espetáculo à parte nos jogos em que apitava, na década de 1990. Recebeu o apelido de Margarida, que assimilou bem.

Popularizando a palavra “bicha”

Armando Marques foi um árbitro famoso nas décadas de 1960 e 70. Tinha atitudes polêmicas, como a expulsão de Pelé, quase sem motivo, aparentemente só para ter a glória de ter sido o primeiro (ou será único?) a expulsar o “rei” dos gramados.

Mas o que chamava mais a atenção eram seus trejeitos. Na época, a palavra bicha era sinônimo de gay apenas em São Paulo, e nos jogos do Corinthians no Pacaembu, quando ele entrava no gramado, toda a torcida corintiana gritava: “Bicha! Bicha!”. Assim essa gíria chegava pelas transmissões de TV aos lares de todo o Brasil e se tornou nacional.

Chuteiras inconvenientes

Agora, deixemos os juízes de lado.

Político dar jogo de camisas de futebol para times de várzea em véspera de eleição é coisa antiga. Aliás, dava-se até uniforme completo.

No início da década de 1960, um time de roça do interior de Santa Catarina jogava bem, mas era formado por gente bem pobre, e jogava-se descalço. Não tinha chuteiras. Pois um político deu um jogo completo de uniformes para o time, incluindo as chuteiras. Marcou-se um jogo com um adversário forte, para a estreia desse uniforme.

O problema era que aqueles craques que jogavam descalços não se deram bem com as chuteiras. Resultado: no fim do primeiro tempo, o time estava perdendo por 9 x 0. O diretor do time perguntou ao juiz se os jogadores podiam tirar as chuteiras e jogar descalço, como era seu hábito, o juiz permitiu e deu-se a redenção: empate de 9 x 9.

Receita para o artilheiro

Em Porto Feliz, interior do estado de São Paulo, havia um técnico de futebol muito interessante, cheio de fórmulas para marcar gols. Um dia, chamou o centro-avante e disse:

― Olha… Quando a bola bate no travessão e volta, o goleiro fica completamente perdido. Então se você ficar cara a cara com o goleiro, chute a bola no travessão de um jeito que ela volte direto pra você, aí, com o goleiro sem saber o que fazer, você manda pra dentro do gol.

Dias de Pelé

“Todo grosso tem seu dia de Pelé.”

Não sei de quem é essa frase, mas imagino que seja de Neném Prancha, que nos bons tempos do Botafogo do Rio torcia por ele e era considerado “filósofo da bola”, por suas frases de efeito. Por exemplo: “O pênalti é uma coisa tão importante que devia ser batido pelo presidente do clube”.

Mas o que me interessa mesmo é a frase inicial. Sempre, em qualquer time, tem um perna-de-pau que um dia desencanta, faz jogadas dignas de Pelé. Falo isso preferindo o futebol de Garrincha, mais divertido, gozador, como acho que deveria ser sempre o futebol, mas ele vai ficando uma coisa séria demais, não comporta gozações e brincadeiras como as de Garrincha, que chamava os marcadores de “João” e dava um baile neles, coisa que hoje seria considerada humilhação e justificaria pros adversários, e até para os comentaristas esportivos, que lhe metessem o sarrafo.

Bom, vou me lembrar de alguns grossos que tiveram seu dia de Pelé (ou de Garrincha), começando pelo Zé Cocão, goleiro do segundo time da Esportiva Nova Resende, que pegou o apelido por causa da cabeça grande. Frangueiro que só ele, um dia fechou o gol. Com suas defesas e o ataque funcionando, logo o time ganhava de 3 x 0. Zé Cocão pegou uma cadeira (não sei quem levou, mas o campo não tinha alambrado e era fácil chegar até o goleiro), óculos e jornal, pôs a cadeira no meio do gol, colocou os óculos e ficou fingindo ler o jornal. Imagine hoje… Seria agredido com certeza.

Outro é o Siriaco, lateral direito do mesmo segundo time da Esportiva Nova Resende. Talvez muitos leitores não saibam o que é isso de segundo time. É que no interior, antes do jogo pra valer, sempre havia uma preliminar entre esses times formados pelos que aspiravam ser titulares do primeiro time e uns jogadores que nunca seriam titulares, mas gostavam de jogar futebol e o pessoal da equipe gostava deles. O jogo dos segundos times era para a torcida ir se distraindo até começar o jogo do primeiro, o que valia.

Pois é, o Siriaco era grosso. Muito grosso. Nunca seria titular do primeiro time. Um dia, o goleiro lhe passou a bola na lateral direita, ele foi indo de cabeça baixa, driblando todo mundo, chegou ao gol adversário, driblou o goleiro e podia entrar com bola e tudo no gol, o que tentou fazer, mas, sem levantar a cabeça, deu de cara com a trave e a driblou também, só que pelo lado errado. Saiu pela linha de fundo. Se tivesse marcado o gol, Siriaco teria superado Pelé no seu famoso “Gol de Placa”, marcado no Maracanã, contra o Fluminense em 1961, em que ele pegou a bola passada pelo goleiro Gilmar perto da área, driblou quase todo o time do Fluminense e marcou um gol belíssimo, que mereceu uma placa feita pelo jornal “O Esporte”, considerando que aquele foi o gol mais bonito da história do Maracanã.

Outro grosso das minhas amizades que teve seu dia de Pelé foi o Cabeça de Vaca ― mais um do segundão da Esportiva Nova Resende.

Ele chutava mal, sem pontaria nenhuma. Nunca tinha marcado um gol. Mas num dia em que tinha chovido muito e o campo estava que era puro barro (não era gramado), pegou uma bola na entrada da área e a meteu no ângulo, sem chance de defesa para o goleiro. Todo mundo se surpreendeu. Dali a pouco, pegou outra bola ainda mais longe do gol e marcou outro gol belíssimo, com um chute certeiro.

Depois do final do jogo fui falar com ele. Perguntei se ele tinha treinado chutes de longe e ele me contou em segredo:

― Eu não chutei no gol. O Elias estava assistindo ao jogo em pé, atrás da linha de fundo, a uns cinco ou seis metros do gol. Estava de terno branco. Quando peguei a primeira bola, chutei pra sujar aquela roupa branquinha. Errei e marquei o gol. Veio a segunda bola, chutei nele de novo e errei de novo.

Pensou um pouco e falou:

― Ah, se o Elias ficasse sempre naquele lugar…

(Publicado originalmente na Revista do Brasil)

Quero o Paissandu no campeonato brasileiro!

Diante do tropeço do Santos frente ao invencível Barcelona, uma espécie de seleção mundial, lembro dos bons tempos do futebol brasileiro em que o campeonato nacional era chamado de “o melhor do mundo”, quando, em vez de brasileiros acompanhando campeonatos europeus, eram os europeus que acompanhavam com inveja, pela TV, os jogos dos nossos times.

O futebol brasileiro já teve momentos absurdos também, como no tempo da ditadura “Onde a Arena vai mal, um time no nacional. Onde a Arena vai bem, um time também”, era a brincadeira que se fazia. O futebol quase sempre foi e é utilizado politicamente, e a ditadura brasileira fez isso com muito sucesso.

Além de faturar em cima da conquista da Copa de 1970, aproveitou a euforia futebolística para agradar o eleitorado, colocando timecos regionais para disputar o campeonato nacional. Em 1979, chegou a 94 o número de times na disputa.

Houve uma reação muito justa contra essa inflação de times colocados politicamente na “elite do futebol brasileiro”, sem nenhum merecimento. Mas acho que acabaram exagerando na dose.

O Brasil imita a Europa, sem necessidade. Nos países europeus, como Itália, Espanha, Alemanha e França são vinte times que disputam o campeonato? Então tem que ser vinte no Brasil também.

Pergunto aos leitores quantos times espanhóis disputaram a final do campeonato mundial de clubes. Real Madrid, Barcelona… Mais algum? E os italianos? E os ingleses? E os alemães?

Pois vejam que no Brasil nove times chegaram a isso. Sete times – Santos, São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Grêmio e Internacional – já foram campeões mundiais. Cruzeiro e Vasco disputaram e perderam, foram vices. Que país tem tantos times no topo do futebol assim? Nove disputaram a final do mundial de clubes!

Então, por que temos que ter campeonato com vinte times, como os europeus? Proporcionalmente, o campeonato paulista já equivale ao de um país europeu. Tem quatro times de primeira linha – Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras – e vários equivalentes aos de segunda linha dos campeonatos europeus. Portuguesa, Ponte Preta, Guarani… de vez em quando mais algum ascendente, como Bragantino, Santo André, São Caetano…

Então é isso: campeonato de vinte times é o paulista. O brasileiro tem que ir além.

Não temos um Barcelona aqui, mas vejam que o campeonato espanhol tem Barcelona e Real Madrid disputando com dezoito coadjuvantes – de vez em quando algum deles desponta, como o Atlético Madrid, o Valência e o Sevilha –, aqui temos muito mais times disputando o campeonato de verdade.

Além dos quatro grandes paulistas, temos os dois grandes gaúchos, os quatro grandes do Rio, os dois grandes de Minas (só aí são doze equipes) e entre os “coadjuvantes” que de vez em quando despontam, três times do Paraná, dois da Bahia, três de Pernambuco e às vezes algum de Goiás do Ceará ou de Santa Catarina, como foi o caso do Figueirense, no campeonato de 2011.

Por causa dessa imitação que se faz do campeonato europeu ficam de fora do campeonato brasileiro times de outros estados, como o Pará (o Payssandu tem uma torcida enorme), que nada ficam a dever a alguns que disputam o campeonato espanhol: Getafe, Mallorca, Granada, Rayo…

Por isso, defendo: o campeonato brasileiro de futebol deveria ter 28 times. Tá falado.

Ah… Me lembrei de uma situação que era o contrário dessa.

Em Nova Resende, minha terra, o lateral Elias foi afastado à revelia da Esportiva, o “grande” time local, quando completou 49 anos. Não queria abandonar o futebol. Fundou então com alguns companheiros “aposentados” do esporte o Sem Futuro Futebol Clube. O problema era arranjar adversário equivalente. Procuraram na região e encontram em Juruaia o Reumatismo Futebol Clube. E só. Jogavam apenas entre eles. Não inventaram um campeonato, mas se inventassem seria interessante. Um deles seria fatalmente campeão e o outro vice. Sem rebaixamentos.

(Publicado originalmente na revista Fórum)

Apóstolo atleta

A impressão que tenho quando converso com homens da minha geração que moravam em pequenas cidades mineiras é que quase todos foram coroinhas.

Eu mesmo não escapei disso.

Quer dizer, “não escapei” entre aspas, fui ser porque quis, ninguém me forçou. É que via outros moleques indo ajudar nas missas e rezas e, como a gente quase não tinha o que fazer, deu vontade de entrar nessa também.

Num tempo em que não existiam bibliotecas públicas nem escolares na cidade, não havia quadra de esportes nem piscinas, o que fazíamos eram brincadeiras impensáveis hoje.

Víamos os filmes do Tarzã e imitávamos. Numa capoeira que chamávamos “selvinha”, havia cipós para ir de árvore em árvore e alguns meninos eram craques nisso. Eu não. Mas até que com o arco e flecha eu não era tão ruim, embora não fosse um craque como uns outros.

Treinávamos esse “esporte” na beira da selvinha, onde tinha um pasto e ali perto um monte de bananeiras. Cortávamos um tronco de bananeira do nosso tamanho e púnhamos de pé, amarrado com cipó a uma árvore e ele se tornava nosso alvo. Montávamos em pelo numa égua chamada Realina que ficava no pasto e, galopando, passávamos a uns quinze ou vinte metros do tronco disparando flechas para acertar o tronco de bananeira, inimigo imaginário.

Outras brincadeiras eram roubar frutas, brincar em córregos, pescar lambaris… Alguns caçavam passarinhos para colocar em gaiolas, mas eu não gostava disso. E trabalhava, seja como engraxate, vendedor de frutas ou balconista de boteco.

Então, ser coroinha era uma novidade, algo diferente, e o padre Caio me aceitou para o bando, quando eu tinha uns oito anos. Mas logo ele viu que eu seria um problema: nas rezas, gostava de ficar encarregado do turíbulo, um vaso de queimar incenso, de metal, pendurado em três correntes. Então, o turíbulo era cheio de brasas e a gente tinha que segurá-lo por um pegador no alto das correntes que o prendiam, e ficar chacoalhando de leve, de um lado para o outro, para manter as brasas vivas.

E o que eu gostava era de rodear, na vertical, o turíbulo cheio de brasas, o que era proibido. Mas era só o padre virar para o altar que eu cometia isso. Algumas pessoas riam e ele se virava para mim fazendo cara feia. Tinha que rezar com um olho no altar e outro em mim.

Acabei expulso com alguns outros, porque achamos algumas garrafas de vinho de igreja na sacristia, bebemos, ficamos bêbados e aprontamos um monte de coisas. Um dos coroinhas era implicado com um sino que batia sozinho, dando as horas; subiu à torre ao meio-dia, a fim de impedir que funcionasse uma espécie de martelo que batia no sino de meia em meia hora. Ao meio-dia, daria doze badaladas. Quando o martelo se levantou para bater, ele segurou e só soltou uns minutos depois. Quebrou.

Um ou dois anos depois fui aceito para ser um dos doze apóstolos na missa do lava-pés, na Semana Santa. Ensaiamos uma vez e o padre recomendou:

— Antes de vir para cá, lavem bem os pés e passem talco, porque eu só dou uma lavadinha de leve e depois tenho que ir beijando os pés de um a um…

Na quinta-feira, dia da missa em que haveria a cerimônia do lava-pés, fui jogar futebol no início da tarde. Lá pelas três e meia, saí do campo para ir embora e uns moleques do time adversário começaram a gritar:

— Tá com medo… tá com medo…

Voltei com muita vontade de meter uns gols neles. E cada vez que alguém ameaçava sair era a mesma coisa. Quando vi, estava escurecendo. Foi o tempo de correr, vestir a túnica de apóstolo e entrar na igreja, sem tempo para nada. Acho que fui o primeiro apóstolo de Cristo a entrar na igreja de chuteiras.

Na hora da cerimônia mais esperada, quando o padre Caio chegou em mim, vi sua cara de pavor ao olhar meus pés dentro das chuteiras em estado precário. Desamarrou as chuteiras, tirou-as, deu uma lavadinha nos meus pés e teve que quase encostar os lábios neles sujos e fedorentos, com um olhar que parecia dar fuziladas em minha direção.

(Publicado originalmente na revista Fórum)

A salvação era o rádio

Marinho tinha a fama de ser um dos melhores centro-avantes das redondezas. Jogando num time de roça, marcava gols à vontade nas equipes das cidades próximas. Acabou sendo convidado para jogar num time profissional, da segunda divisão do estado do Rio. Estava indo tão bem que contrataram um armador argentino, um craque mesmo, para mandar a bola na entrada da área, do jeitinho do Marinho meter para dentro do gol. A coisa ia dando certo, mas de repente o Marinho começou a piorar. Errava tantos gols que até parecia que era por querer. Chegaram a pensar que ele não se dava bem era com o jogo do armador argentino, mas ele mesmo defendeu o colega, impedindo que fosse vendido para outro time. Atribuía a ele mesmo a chamada “fase ruim”.

Um dia, tudo foi esclarecido e, em vez do argentino, foi ele quem teve que se mandar da cidade. Descobriram seu problema, a tal “fase ruim”: era a mulher do armador argentino. Ela se engraçou com ele, mas o marido só desgrudava dela nos treinos e nos jogos. Como o Marinho participava dos treinos, tinha que dar um jeito de ficar livre durante os jogos. Então, enquanto a bola corria no gramado, a safadeza corria solta na cama do craque portenho, com a mulher dele e o sem-vergonha do Marinho.

Antes de se mandar, fugindo do marido traído, Marinho ainda teve tempo de comentar com um colega:

― A única coisa ruim era que quando o nosso time jogava em casa a gente tinha que ir pra cama ouvindo o jogo pelo rádio, porque a casa era ali bem ao lado do campo e, quando o marido se machucava ou era substituído, nem ia para o vestiário, ia direto pra casa. Duas vezes eu tive que sair correndo, mal dando tempo de vestir a roupa, porque o cara tava chegando machucado. A salvação era o rádio!

(Publicado originalmente no livro “Memória Vagabunda”)

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Bernardo Buarque de Hollanda, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cultura inútil: Mil-homens: gol contra

14.06.18_Mouzar Benedito_Cultura inútil_Gol contraPor Mouzar Benedito.

A planta chamada jarrinha, também conhecida como cipó-mil-homens, é tida como afrodisíaca, talvez por causa desse nome fantasioso. Em alguns lugares é comum deixar a planta em infusão na cachaça e tomá-la como excitante sexual, mas os resultados, segundo alguns pesquisadores, pode ser o contrário: eles dizem que ela é broxante.

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Por pouco o rei Luiz XVI e Maria Antonieta não escaparam da guilhotina! Eles fugiam da França, em 1791, a carruagem em que viajavam parou em Sainte-Menehoul para trocar de cavalos, eles saíram para esperar (uma esticadinha nas pernas que custou caro!) e foram reconhecidos, detidos e levados para Paris.

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Leônidas da Silva, jogador de futebol que inventou a bicicleta (claro, a bicicleta do futebol, não o veículo – embora os chilenos digam que foi um chileno quem fez isso) era conhecido também pela elegância. Jogou um tempo no Peñarol, no Uruguai e voltou para o Brasil em janeiro de 1934, vestindo um terno de palha-seda, gravata e sapatos brancos… Seu apelido, “Diamante Negro”, virou nome de um chocolate que existe até hoje.

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Um ditado: “Sogro e sogra, milho e feijão só dão resultado debaixo do chão”.

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Só dois países da África não foram colonizados por Europeus. Um deles é a Libéria, fundada por ex-escravos dos Estados Unidos. Em 1816 foi criada a Sociedade Americana de Colonização, que tinha como meta mandar escravos libertados para a África. Em 1822 chegou a primeira leva deles. Em 1847 foi proclamada a independência do país. O outro país é a Etiópia. Menelik I, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá, teria sido o primeiro rei do país, a partir do ano 1000 a.C. O país resistiu a várias tentativas de colonização, como a dos árabes (século VII) e a dos portugueses (século XV). Em 1935 a Etiópia foi ocupada por tropas fascistas de Mussolini, que foram expulsas em 1941, com a ajuda do Reino Unido.

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O CVV – Centro de Valorização da Vida – foi criado em São Paulo, em 1962, por causa do aumento do número de suicídios. A instituição dá apoio emocional e tenta evitar suicídios de pessoas com problemas. Atende 24 horas por dia, com voluntários.

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O primeiro cabo telegráfico ligando a América do Sul à Europa foi instalado em 1874.

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Dom Pedro II autorizou a instalação de telefones no Rio de Janeiro em 1879. Em São Paulo, o telefone chegou no ano de 1884.

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Wolfgang Amadeus Mozart morreu aos 35 anos, à meia-noite de 5 de dezembro de 1791. Ele estava terminando de compor uma ópera encomendada por um desconhecido, o Réquiem, e tinha a convicção de que ela seria seu próprio réquiem. O enterro foi em 8 de dezembro, um dia frio e chuvoso. Sua mulher, Constança, adoentada, não participou. Todos os amigos voltaram para casa, por causa do mau tempo e da neve, e o corpo foi levado só pelo coveiro a uma vala comum, numa época em que havia um surto de cólera, em Viena. Então, nem uma cruz nem nada marcava o lugar em que foi enterrado. Só 19 anos depois é que a ex-mulher, Constança, foi ao cemitério acompanhada de seu novo marido. Mas o próprio coveiro já havia morrido e não era possível localizar o lugar onde ele foi enterrado. Mas há uma história de que um admirador de Mozart, chamado Rothmeyer, amarrou o caixão do compositor com um fio de metal para que pudesse ser localizado depois entre os outros, e secretamente foi ao cemitério e roubou seu crânio. Esse crânio foi sendo passado a herdeiros, sumiu, reapareceu… Em 1842 foi dado ao Museu Mozart, em Salzburgo, um crânio que seria o dele, mas não há como comprovar.

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Em 1614 foi publicada a primeira tábua de logaritmo, pelo escocês John Napier.

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A tinta sépia foi inventada por (aportuguesando o nome) Tiago Clemente Seydelmann, pintor alemão, em 1778. Essa tinta é uma mistura de siba (molusco da família do polvo) e bistre (uma mistura de fuligem e goma).

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A primeira eleição direta para presidente do Brasil foi em 1o de março de 1894. O eleito foi Prudente de Morais.

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A primeira vítima de Jack, o Estripador, em Londres, foi a prostituta Mary Ann Nichols, assassinada em 31 de agosto de 1888. Foram atribuídos a ele 14 assassinatos de mulheres, mas acredita-se que matou “apenas” cinco delas, entre 31 de agosto e início de novembro de 1888. Cada assassinato teve mais violência que o anterior. Todas as vítimas eram prostitutas, mas não houve indícios de violência sexual contra nenhuma delas. Nunca se descobriu a identidade do criminoso, e Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, disse certa vez acreditar que “Jack”, na verdade, era uma parteira doida.

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Se uma estrela do mar for cortada em vários pedaços, cada um deles vai crescer e formar uma nova estrela completa.

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Livros chineses publicados em 1044 revelam que naquela época já se fabricava a pólvora no Oriente.

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Uma das formas de combater a febre amarela no Brasil, imaginaram, era soltar aqui pássaros que comessem os mosquitos que a transmitem. Então trouxeram pardais para o Rio de Janeiro, mas o pardal come mesmo são sementes e grãos. Proliferou pelo país todo, virou uma praga.

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Santos Dummont se suicidou com depressão, contrariado com o uso do avião para bombardeios a São Paulo, durante a Revolução de 1932. Mas não foi a primeira vez que o avião foi usado com fins militares, no Brasil: na Revolta do Contestado já deturparam o uso do avião.  E o primeiro piloto militar brasileiro a morrer em ação foi João Ricardo Kirk, cujo avião caiu e ele morreu durante essa revolta, em 1o de março de 1915.

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Os gregos tiveram colônias na atual Turquia, inclusive a cidade de Soles, onde a população tinha um dialeto muito peculiar, falava muito mal o grego. Disso originou a palavra solecismo, que é o mau uso da gramática.

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A folha da vitória-régia, planta aquática famosa da Amazônia, chega a ter 2,5m de diâmetro, e fica sobre a superfície da água. Pode-se colocar até 40kg em cima dessa folha, de maneira bem distribuída, que ela não afunda. Em guarani, seu nome é urupé, e em tupi é aguapé-açu. O nome com que ficou famosa no mundo foi dado em homenagem à rainha Vitória, da Inglaterra, quando um explorador alemão levou a planta para o jardim botânico de Londres.

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O Eixo Monumental, avenida de Brasília que começa em frente ao Congresso Nacional e passa pela Esplanada dos Ministérios, pelo setor hoteleiro etc., é o divisor entre o Norte e o Sul de Brasília. Tem 250 metros de largura e é considerado a avenida mais larga do mundo.

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A prostituição era o principal negócio da cidade grega de Corinto, durante a antinguidade. Havia mais de mil mulheres no templo de Afrodite Porne. Como era de se esperar, Corinto era escala preferida pelos marinheiros.

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Não é à toa que a palavra messalina virou sinônimo de mulher devassa, libertina. Valéria Messalina, que viveu de 22 a 48 da era cristã, mulher do imperador Cláudio, de Roma, era ninfomaníaca total, tinha relações sexuais com muitos cortesãos, depois passou a se interessar por artistas. Uma época teve predileção especial por um ator chamado Mnester, com quem tinha relações sexuais frenéticas. Deixou no corpo dele muitas marcas de unhadas. Às vezes saía pelos becos de Roma caçando homens. Uma vez, decorou seus aposentos como um prostíbulo e recebia homens ali, cobrando o valor pago a prostitutas comuns. Havia filas de homens.

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Quem acha que a palavra inconstitucionalissimamente é grande, deveria ler a antiga fórmula da Cibalena, remédio para dor de cabeça. Ela vinha escrita no envelope e eu acabei – veja só que inutilidade – decorando o nome de um componente. Pior, eu me lembro dessa palavra até hoje: dimetilaminofenildimetilpirazolona (acreditem: não copiei de lugar nenhum, é decorado mesmo).

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Acredita-se que Alexander Graham Bell, físico e eletricista nascido na Escócia e naturalizado estadunidense, inventou o telefone quando pesquisava uma maneira de curar sua mulher, que era surda-muda. Graham Bell manteve, entre 1876 e 1888, uma luta jurídica com o estadunidense Elisha Gray, que dizia ter sido ele o inventor do telefone. A justiça decidiu a favor de Graham Bell.

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Em 22 de março de 1850, o poeta e deputado Pedro Pereira apresentou o primeiro projeto de abolição da escravatura no Brasil.

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Existe em Fortaleza uma estátua de Iracema, mas não na praia de Iracema e sim na do Meireles, no local onde, segundo o romance de José de Alencar, ela ficou esperando o amado. Aliás, a praia de Iracema não é bem uma praia, é um antigo porto, e tem tradição de vida noturna.

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Um certo Daniel, filho de um francês huguenote refugiado na Inglaterra, escreveu um livro chamado “O Consórcio – ou Transações no Mundo da Lua”, de ficção, imaginando uma máquina que viajava pelo espaço, mas não fez nenhum sucesso. Depois ele mudou seu sobrenome Foe para Defoe e publicou “As aventuras de Robinson Crusoé”.

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Em 18 de julho de 1913, foi fixada por lei a “hora legal” brasileira, que dividiu o país em quatro fusos horários.

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Os “dias santos” eram os verdadeiros feriados dos caipiras. Trabalhar em 7 de setembro ou 15 de novembro, por exemplo, era comum, mas não se trabalhava de jeito nenhum no dia de São Bento, protetor contra picadas de cobra. Por falar em santo protetor… aí vão alguns deles: São Benedito protege contra a fome, não deixa faltar alimento; São Francisco de Assis, todos sabem, é protetor dos animais em geral, mas os cachorros têm um protetor a mais, São Lázaro. Santa Luzia é protetora dos olhos e da visão e São Brás é protetor contra doenças na garganta.

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O Brasil deu asilo político a alguns líderes da Comuna de Paris, esmagada em maio de 1871.

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Potiguara, o gentílico de quem nasce no Rio Grande do Norte, significa comedor de camarão. Mas há historiadores que dizem que no início da colonização portuguesa os lusitanos pronunciavam petinguara, que significa mascador de fumo. Petim ou betim é tabaco na língua tupi.

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Ditados sobre QUEM…
Quem anda pela cabeça dos outros é piolho.
Quem apanha de mulher não dá parte ao delegado.
Quem canta não assobia.
Quem casa com mulher feia não tem medo de assombração.
Quem com porcos se deita, farelos come.
Quem faz uma vez, faz duas ou três.
Quem mente precisa ter boa memória.
Quem muito se abaixa, o cu aparece.
Quem não furta nem herda, não tem senão merda.
Quem não sabe fingir, não sabe governar.
Quem nasceu pra ser tatu, morre cavando.
Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Quem quer enricar em um ano, em seis meses o enforcam.
Quem rouba tostão é ladrão, quem rouba milhão é barão.
Quem se deita com menino, amanhece mijado.
Quem tem medo de cagar, não come.
Quem tem perna curta, levanta mais cedo e sai primeiro.

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Assim falou Dario (jogador de futebol): “Não me venha com problemática, que eu tenho a solucionática”.

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Assim falou Vicente Matheus (então presidente do Corinthians, sobre a versatilidade dos jogadores): “Jogador de futebol hoje tem que ser como o pato, que é um animal aquático e gramático”.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Bernardo Buarque de Hollanda, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Futebol arteiro

14.06.10_Mouzar Benedito_Futebol Arteiro_1Por Mouzar Benedito.

Nestes tempos de discussão sobre a Copa do Mundo de Futebol no Brasil, já falei o que tinha que falar sobre o assunto.

Mas tem um lado mais divertido do futebol ou relacionado a ele.

Resolvi colocar aqui uns textos que andei publicando em livros ou na internet.

Os meus livros não costumam ter muitos leitores, então são causos praticamente inéditos, com exceção de um que se refere a um jogo da Esportiva Nova Resende, nos tempos em que se usava ainda, na região, bola de capotão do tipo que a câmara era solta dentro do capotão, e tinha que se amarrar o lugar por onde ela era colocada.

Ele trata de uma situação de conflito que o juiz teve que enfrentar e me lembrou a sabedoria do Rei Salomão quando duas mulheres diziam ser a mãe legítima de uma criança. Publiquei esse causo em vários lugares e mais tarde, em 1987, no livro Santa Rita Velha Safada (esgotado), e depois vi um monte de gente recontando esse causo como se tivesse acontecido em outras cidades. Começo por ele:

O SALOMÃO DO FUTEBOL

O time de futebol de Santa Rita Velha estava jogando na vizinha cidade de Presépio, contra seu tradicional adversário, o Presépio Sport Club. A bola, velha e meio torta, meio oval, não atrapalhava em nada a qualidade do jogo. Combinava bem com a forma de jogar dos dois times.

Aos quarenta minutos de jogo, a bola sobrou pingando para o centro-avante Cavadeira, de Santa Rita, que encheu o pé, chutou com toda força mas o goleiro estava bem colocado e pulou, agarrando a “redonda” no peito.

Acontece que a bola não resistiu. Ao bater no peito do goleiro, estourou, e ele ficou segurando só o capotão, enquanto a câmara de ar saltou para dentro do gol. Aí começou a discussão.

Os jogadores de Santa Rita começaram a comemorar, gritando que valia, era a câmara de ar, enquanto os de Presépio afirmavam que o capotão era que valia e este o goleiro pegou. Os 22 jogadores e mais os reservas falavam sem ninguém ouvir:

— O que vale é a câmara…

— Não foi gol não, o capotão não entrou…

Quando já estavam partindo pra briga foi que o juiz resolveu fazer valer sua autoridade:

— Prrriiii, prrriiii, prrriiii… — apitava alucinado para chamar a atenção dos jogadores, até que resolveram ouvi-lo.

— Quem entende de regra aqui sou eu. Eu é que sei o que vale e o que não vale.

— Então como é que é? É gol ou não é?

— Tá na regra: quando a câmara de ar entra e o capotão não entra, vale meio gol!

Foi o único jogo até hoje que terminou meio a zero.

Causos publicados no livro Serra, Mar e Bar (também esgotado):

A DESPEDIDA

Quando Elias completou 31 anos como lateral esquerdo da Esportiva Nova Resende, resolveram fazer para ele uma festa de despedida do futebol. Um detalhe: os 31 anos não eram de idade (que devia estar por volta dos 50), mas só de titular do time. Se deixassem, ele continuaria ainda. A festa foi um jeito sutil de tirá-lo pelo menos da equipe principal.

A despedida seria contra o time da Ventania, que topou o acerto: a primeira bola que fosse na sua área, um zagueiro deveria pôr a mão intencionalmente. O Elias seria encarregado de bater o pênalti e o goleiro tinha a obrigação de não defendê-lo. Aí seria feita uma grande badalação, com discursos e tudo o mais. Depois recomeçaria o jogo, já com outro titular na lateral esquerda da Esportiva. E alguém daria também um pênalti intencional a favor do time da Ventania. Só daí pra frente o jogo seria pra valer.

Desde meia hora antes do início do jogo, todos os seresteiros da cidade se revezaram num microfone improvisado em cima de um caminhão, cantando “Ave Maria do Morro”, a música preferida do Elias.

Com todo mundo em campo, fez-se um minuto de silêncio em homenagem a um ex-craque da Esportiva, que tinha morrido dias antes. Em seguida o juiz deu o início à partida e tudo correu conforme o combinado.

Aos cinco minutos de jogo, veio o pênalti. Elias bateu e marcou o gol, foi carregado pelos jogadores até o caminhão que servia de palanque. O presidente do time discursou rememorando os grandes momentos do jogador que se despedia, o prefeito falou em seguida sobre o grande cidadão, que honrava a cidade e, pra completar, foi designado para falar, representando os jogadores, o meia-direita Luizinho do Lica. O que ele fez não foi bem um discurso, falou apenas uma frase:

— Só de minuto de silêncio, o Elias tem um ano e meio!

CHUTE FORTE

Zeca, o pescador e caçador que garante nunca ter contado uma mentira em toda a vida, um dia assistia a uma discussão no Bar Esportiva Nova Resende, sobre quem tinha o chute mais forte em toda a história do futebol da cidade. Uns diziam que era o Celinho, que jogava na Esportiva e mudou-se para Juruaia. Era beque de esperta, e os tiros de meta que batia atravessavam o campo e caíam atrás do gol adversário. Outros diziam que era o Toniquinho, e havia quem defendesse o Zé Leopoldo…

No meio da discussão, Zeca, que estava calado até essa altura, resolveu entrar na conversa e todo mundo se calou, sabendo que quando ele tinha sempre alguma coisa “inédita” pra contar (e quem é que tinha coragem de chamar suas histórias de mentira?).

— Não é nenhum desses aí. O chute mais forte que já teve aqui era o do Tião Folheiro.

— Como é que o senhor sabe? — provocou o Alcindo.

— Rá! Eu era menino quando reinauguraram o campo da Esportiva, que foi aplainado, acabando com a inclinação. Foi aí que sobrou aquele barranco atrás do gol de cima. Fiquei sentado no barranco, bem atrás do gol, e vi o primeiro pênalti batido nesse campo novo, pelo Tião Folheiro. Sabe o que aconteceu?

— Nunca ouvi falar!

— A bola enterrou um metro e meio no barranco!

JUIZ IMPARCIAL

A inauguração de um campo novo no Córrego Cavalo foi muito festiva. Chamaram até um time da cidade pra jogar lá. Quem ia “bater o piu”, quer dizer, apitar o jogo, era o Ernesto, que fez um longo discurso antes, dizendo ser imparcial, o que não convenceu ninguém.

Estava difícil fazer o time da casa ganhar, o adversário jogava muito melhor. A certa altura, o baixinho Parafuso pegou a bola na ponta direita, driblou dois zagueiros do Córrego Cavalo e centrou. O ponta esquerda Luizinho do Lica entrou de cabeça pelo meio e marcou um gol para o time da cidade, quer dizer, o adversário do Córrego Cavalo. Gol anulado, claro.

— Nóis é da roça mas sabe as regras. Ponta esquerda tem que jogar na ponta esquerda, na extrema. O que é que ocê tava fazendo no lugar do centroavante? — bronqueou o juiz, que ainda deu falta contra o time da cidade.

Pouco depois, sobrou uma bola pingando para o centroavante Zé do Gato, que deu um chutaço a gol. O goleiro do Córrego Cavalo nem viu a cor da bola. Só que o gol não tinha rede e a bola, a meia altura, bateu de cheio na cara do Zé Soldado, da gloriosa Polícia Militar, que assistia ao jogo atrás do gol, derrubando-o de costas. Ernesto, Logicamente, anulou, apitando falta do atacante:

— Desacato a autoridade — gritou bravo, ameaçando Zé do Gato de expulsão, se ele fizesse isso de novo.

Faltando uns dez minutos para terminar o jogo, mantido zero a zero até então com muita dificuldade, finalmente o ataque do Córrego Cavalo chegou à área adversária, mas o meio Zaqueu tropeçou e caiu na hora de chutar. Pronto! Pênalti, apitou o Ernesto. Quem foi bater? O próprio Zaqueu? Não!

— Eu apitei pra mim batê, uai — disse o Ernesto.

Já vestindo a camisa cedida por um atacante substituído por ele, Ernesto entregou o apito ao seu compadre Orlando:

— Cumpadre, bate o piu nesse restinho de jogo que agora eu sô jogador.

Bateu o pênalti e marcou. Um a zero para o time do Córrego Cavalo, invencível jogando em casa.

Do livro Memória vagabunda (também esgotado – detalhe: esses livros são esgotados não porque venderam muito, é que as tiragens foram pequenas):

MELHOR QUE BEIJA-FLOR

Quando o centroavante Dario, também conhecido como Dadá Maravilha, marcou um gol de cabeça em que deu a impressão de ficar alguns segundos parado no ar, esperando a bola, logo depois do jogo fez uma declaração folclórica:

— Só três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha.

Mas Zeca, o pescador e caçador mineiro que garante nunca ter contado uma mentira, achou pouco:

— Já fiz muito melhor que isso.

Para os descrentes, contou uma história que, segundo afirma, teve várias testemunhas. Infelizmente, a única viva morando no Paraná, em lugar que ele mesmo não se lembra.

— Eu era novo — disse. — Fomos pescar no Sapucaí e saímos pela margem esquerda do rio, procurando um pesqueiro bom. A certa altura, havia um afluente com uns dois metros de largura, mas muito fundo. A gente tinha que pular esse corguinho pra chegar no pesqueiro…

— Bom, e daí? — provocou alguém.

— Daí que eu afastei, corri pra pegar embalo e pulei. Quando eu tava bem no alto, no meio do corgo, vi uma urutu do outro lado, bem onde eu ia cair. A bicha tava de boca aberta, me esperando. Dei uma reviravolta no ar, voltei e caí no mesmo lugar de onde tinha pulado…

GRANDES CONCLUSÕES

Arlindo foi jogar futebol num time de várzea de Itajubá e ouvia conselhos muito interessantes do técnico, que falava, sério, coisas como

— Se você for bater pênalti e chutar com bastante força bem no ângulo, o goleiro não pega.

Certo dia, antes de um jogo contra um time mais forte, reuniu a equipe no vestiário e falou com a seriedade de sempre:

— Olha, gente, se a gente marcar um gol logo no começo, depois segurar o jogo e não deixar eles marcarem nenhum gol… nós ganhamos o jogo!

Agora, um publicado no livro Trem Doido (da Editora Limiar – eba! Não esgotado):

E CHUTA PARA O HEMISFÉRIO NORTE…

Belém, capital do Pará, é a cidade das mangueiras. Assim como a cerâmica marajoara e a chuva quase diária, à tarde, as mangueiras são uma característica da cidade, uma marca registrada. Mas não é só em Belém que as mangueiras fazem parte da paisagem urbana. Macapá, capital do Amapá, também é arborizada quase toda com mangueiras. Suas ruas largas, sem placas que as identifiquem nem placas de trânsito, indicando mão e contra-mão, são repletas de belas mangueiras.

Foi Macapá que comi o peixe mais saboroso que conheci: tambaqui com molho de taperebá. Uma delícia.

Mas o que achei divertido na capital amapaense foi ouvi uma brincadeira de pessoas que dizem que são da América do Norte. É que a capital do Amapá fica no Hemisfério Norte — pouquinho “acima” da linha do Equador, mas fica. — Na verdade, o centro fica a 00º 02’ de latitude Norte. Há bairros que ficam no Hemisfério Sul e também exatamente na linha do Equador, onde existe um monumento ao marco zero de latitude. Ele fica exatamente na linha do Equador. Nele, a gente pode ficar com um pé no hemisfério Sul e outro no Norte. E perto dele tem um campo de futebol apelidado Zerão, nome que vale também para todo o bairro, cuja linha do meio de campo fica exatamente na linha do Equador.

Assim, um time ataca para o hemisfério Norte e outro para o Sul. No segundo tempo eles trocam de hemisfério. A arquibancada também fica bem no meio, é possível ficar até com meia bunda no hemisfério Sul e meia bunda no norte.

No livro 1968, por aí… Memórias burlescas da ditadura (Editora Publisher Brasil, também não esgotado), publiquei umas historinhas de futebol também. Uma delas é sobre o André, um preso político do Rio de Janeiro. Ele era preso “comum”, leu muito dentro do presídio, se “politizou”, participou de uma fuga organizada por um grupo guerrilheiro que ajudou a criar, o MAR (Movimento de Ação Revolucionária), mas foi preso de novo e voltou para o presídio como preso político. Seguem três historinhas desse livro.

UM FUTEBOL DIFERENTE

Antes da fuga e da recaptura que o caracterizou como preso político, André foi convidado para fugir com presos comuns. Ele seria uma pessoa chave nessa história, pois sua função na época era cuidar do vestiário do campo de futebol que havia lá dentro. Não quis fugir, mas assegurou aos presos que não os denunciaria. Eles, então, cavaram um túnel de dentro do vestiário até a rede de esgotos. A fuga foi marcada para um domingo à tarde, no intervalo de um jogo entre dois times de presidiários. Era um dia de comemoração de qualquer coisa, e na platéia, assistindo ao jogo, estavam o diretor do presídio e um monte de autoridades.

No intervalo do jogo, os times entraram no vestiário, passaram-se os quinze minutos regulamentares e não saiu ninguém. Mais um pouquinho de espera e finalmente os agentes penitenciários foram ver o que tinha acontecido. Viram só aquele buraco no chão. Mas a surpresa maior foi numa avenida ali perto. Muitas pessoas viram espantadas uma tampa de bueiro abrir-se e saírem dois times de futebol inteiros correndo avenida afora.

O ESPORTISTA VEREADOR

O massagista Mário Américo, nascido em Minas Gerais, ganhou fama na Copa Mundial de futebol de 1958. Cada vez que algum atleta brasileiro se machucava, entrava em campo aquele crioulão simpático, para socorrer nossos heróis Garrincha, Didi, Nilton Santos, Pelé…

Perto do final do regime militar, quando só existiam dois partidos legalizados, a Arena (a favor do governo) e o MDB (oposição consentida, que às vezes se levava a sério), Mário Américo se candidatou a vereador pelo MDB em São Paulo. Sua campanha foi mais baseada nas mãos que massagearam os ídolos do futebol do que nas idéias que o massagista tinha na cabeça, mas deu certo. Ele ganhou. E até não decepcionava muito como vereador, apresentando projetos criados pela assessoria do MDB.

Mas aí veio a reformulação partidária, quando Arena virou PDS. MDB virou PMDB e surgiram PT, PDT e PTB. Mário Américo, como alguns outros políticos, foi cooptado por Paulo Maluf, que liderava os simpatizantes do regime militar em São Paulo. Então, em vez de ir para o PMDB, Mário Américo foi para o PDS malufista.

Aí, chegou à fase de votação em plenário de um projeto apresentado à Câmara de Vereadores pelo próprio Mário Américo, quando era oposicionista. Mas ele recebeu ordens dos seus novos aliados: tinha que votar contra, pois o projeto desagradava o prefeito nomeado, Reynaldo de Barros, e seu padrinho, Paulo Maluf. E aconteceu a aberração: Mário Américo votou contra um projeto dele mesmo. Foi desancado por um vereador do PMDB, que fez um discurso violento contra o massagista, supostamente “comprado” por Paulo Maluf. Depois de ouvir um monte de adjetivos pouco edificantes, Mário Américo pediu um aparte e falou bravo, com dedo em riste:

— Vossa Excelência está ofendendo a minha excelência!

FUTEBOL E DITADURA

Copa do Mundo de 1970, no México. Primeiro veio a alegria de ver uma seleção jogando bem demais. Treinada por João Saldanha, ela tinha um meio de campo que incluía um dos melhores jogadores do mundo, Dirceu Lopes, do Cruzeiro. Derrotava os adversários de lavada nas classificatórias.

Mas no auge da ditadura, o general-presidente Garrastazu Médici se sentia no direito até de querer influir na escalação. Queria que João Saldanha escalasse o atacante Dario, apelidado “Peito de Aço”. Saldanha, comunista brigão, não gostou: “Escale o seu ministério que eu escalo a minha seleção”, respondeu. Pouco depois estava demitido da seleção. Seu lugar foi ocupado por Zagalo, que de início tirou um pouco o encanto da seleção, ao afastar jogadores como Dirceu Lopes.

Além do descontentamento “futebolístico”, havia outro motivo que fazia muita gente torcer o nariz para a seleção: sua vitória seria usada para propagandear a ditadura brasileira. Muitos ficaram com a opinião de que devíamos torcer por sua derrota. Mas isso durou pouco, só até o início da Copa. Aí, foi uma festa danada em cada jogo. Inclusive porque pela primeira vez uma Copa do Mundo era transmitida ao vivo pela TV. Assistimos a quase todos os jogos no pátio do prédio da Geografia e História da USP, superlotado, vibrante, com aquele bando de gente de esquerda (e muita gente de direita também) se esquecendo de qualquer coisa de política para aplaudir as vitórias da equipe que tinha Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino, Clodoaldo e outros supercraques. Mesmo sem os dispensados por Zagalo, a seleção era um arraso. E realmente a vitória brasileira foi usada para propaganda da ditadura.

Em 1974, na Copa da Alemanha, muita gente esperava um repeteco de 1970. Mas havia uma novidade: a seleção da Holanda, chamada de “Laranja Mecânica”, pela cor de seu uniforme e por causa de um filme da época. Era avassaladora. Dava um baile em todo mundo, ganhava todas. Nas semifinais, olha lá quem era o adversário do Brasil: ela mesma, a Holanda.

Eu trabalhava no Sesc Pompéia, e destinamos um salão para todo mundo assistir aos jogos. No fundo dele, havia um quadro-negro. Nesse dia do embate contra a Holanda, o salão estava lotado, todo mundo tenso antes de começar o jogo. Estava difícil esperar uma vitória brasileira. Um funcionário do Sesc foi até o quadro-negro e escreveu: “Deus é brasileiro”. Foi muito aplaudido. Fui lá, coloquei uma vírgula e continuei: “Mas tá exilado na Holanda”.  Claro que levei uma baita vaia. Mas o Brasil perdeu mesmo. Só que a Holanda não foi campeã, perdeu para a Alemanha na final.

Agora um texto que não publiquei em livros:

FUTEBOL DO SACI

Estive em São Luiz do Paraitinga, na Festa do Saci, e lembrei-me de um campeonato de futebol que existia lá, pena que não exista mais.

É um tipo de campeonato que não tem nada a ver com negociantes do futebol, com a coisa de encarar o esporte como um negócio, em que o que interessa é o lucro, e também de competição desvairada, de motivo para brigas e até mortes.

O campeonato era realizado num pequeno campo no Camping Saci, onde ainda acontecem alguns jogos. Curiosamente, entretanto, uma bela paineira está localizada bem no centro do campo, o que leva os jogadores habilidosos a terem que driblar, além dos adversários, também a árvore. Vejam alguns itens do regulamento do campeonato:

  • O tempo de jogo será de 25 minutos por 25, sem intervalo;
  • O número máximo de atletas por time será de 10 (dez), sendo um o goleiro, cinco jogadores em campo e quatro reservas;
  • Não existe limite para substituições;
  • No que se refere ao uniforme, apenas as camisetas deverão, necessariamente, ser iguais;
  • Os atletas poderão jogar descalços, usar tênis e até chuteiras;
  • Cada atleta deverá contribuir com uma taxa de R$ 5,00 para o custeio da confraternização final (churrasco etc…);
  • O atleta que fizer dois gols no mesmo jogo deverá ir para o banco e só poderá retornar a campo após 10 minutos;
  • Se um time marcar três gols a mais que o outro, caso volte a marcar um gol, este será computado para o time adversário;
  • Os times campeões receberão troféus (o Saci) e o artilheiro e o goleiro menos vazado receberão medalhas;
  • Caso ocorram situações não previstas por este regulamento, os representantes dos times decidirão, por maioria, o que deve ser feito;
  • É solicitado ao representante de cada time que traga uma bola em condições de uso.Obs.:Este torneio é realizado sem fins lucrativos, visando à valorização do esporte e à confraternização entre amigos. Solicita-se respeito e colaboração a todos os atletas, a quem se deseja boa sorte.

Uma coisa que não estava no regulamento mas acontecia: quando um time marcava gol, todos os jogadores dos dois times comemoravam pulando com uma perna só. Como seria bom se o futebol fosse sempre assim.

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.