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O Brasil não é mais aquele

14.10.02_Flávio Aguiar_O Brasil não é mais aquelePor Flávio Aguiar.

Nesta quarta-feira, 1º. de outubro, vou participar de um debate na livraria Livraria (este é o nome), em Berlim, sobre “Do Real à Real: O Brasil hoje”, ao lado do professor Sérgio Costa, do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim, e do escritor Rafael Cardoso. Apresento aos leitores do blog da Boitempo a linha geral de minha intervenção:

1.
A equação Brasil no nosso imaginário mudou.

2.
O Brasil mudou de de dimensão, de equação e de lugar.

3. Dimensão
Estamos acostumados com a projeção de Mercator, da geografia escolar, no mapa-múndi, com foco na altura do Trópico de Câncer, no Hemisfério Norte. O Brasil ali é diminuto, menor do que o Alasca e a Groenlândia. A projeção agora terá de ser outra. De repente o Brasil aparece com seu tamanho “verdadeiro”: oito mil quilômetros de comprido por outros oito mil de largura. De fato, um gigante.

3. Equação
O Brasil não é mais a equação onde predominam os pobretões, os miseráveis, os absolutamente despossuídos, as favelas abandonadas, as crianças esquálidas, etc. Ao contrário: a infância no Brasil hoje enfrenta o problema da obesidade precoce. A “classe média”, do ponto de vista do consumo, é maioria no país.

4. Ainda a Equação
O Brasil foi e ainda é um dos campeões da desigualdade. Mas a desigualdade diminuiu. Isto é um fato, atestado por inúmeros índices. Os resultados são interessantes, mas problemáticos. Desde a década de 70 as cidades brasileiras foram planejadas para o automóvel. Mas não para que tantas pessoas pudessem comprar automóveis ao mesmo tempo. A economia foi planejada, mas não para que tantas pessoas tivessem emprego ao mesmo tempo: era necessário manter um exército industrial de reserva, leia-se, de desempregados, grande, para “baixar o custo Brasil”, leia-se, comprimir os salários. Isto acabou. Resultado: muito mais pessoas se deslocam nas cidades brasileiras. Idem graças à inclusão educacional, e a de saúde. Resultado: as cidades estão congestionadas.

5. Ainda a Equação (ii)
O Brasil foi planejado para co-existirem, nos condomínios, duas entradas, a “social” e a de “serviço”. Isto não acabou, mas a expressão “de serviço” deixou de ser discriminatória, e passou a ser de fato, “de serviço”, isto é, reservada para mudanças, deslocamento de malas, grandes volumes, etc. Também: o Brasil não fora planejado para as empregadas domésticas terem carteira assinada obrigatoriamente, nem receberem pelo menos o salário mínimo – e um salário mínimo em ascensão.

6. Ainda a Equação (iii)
O Estado moderno, desde os espasmos das Grandes Guerras, foi planejado para garantir direitos e administrar privilégios. Administrar = garantir, mas reduzir, embora nunca eliminar. Isto valia para os dois lados do muro de Berlim. Em países como o Brasil, a Equação era a de o Estado garantir privilégios e administrar (a redução de) direitos. Este termo da equação de desequilibrou, ou melhor se equilibrou, talvez tenha até se invertido. Um pouco, mas invertido.

7. Lugar
O Brasil era o grande – importância do termo “grande” – devedor do FMI e do G-7 (não 8, Rússia excluída) na América Latina. Hoje o Brasil é credor do FMI e da União Europeia quebrada, mantendo ações humanitárias na África, na Ásia, na América Central, e com uma relação de igual para igual na América do Sul e na América do Norte. Participa da criação de um Banco de Desenvolvimento Internacional Alternativo ao FMI, ao Banco Mundial, ao BID.

8. Tudo isto desestabiliza o nosso imaginário
Há quem veja nisto o caos, a confusão, a desorganização do mundo. Há quem veja nisto a ascensão, o acesso ao que nunca teve. Há quem veja nisto a concorrência em espaços antes “reservados” ou “garantidos”, como nas universidades ou na busca de emprego. Tudo isto gera ansiedade. Inclusive na Europa, onde os Estados hoje administram a redução de direitos e garantem privilégios. Diante da ansiedade, a primeira resultante é a tentativa, ainda que fantasiosa, de restabelecer a equação anterior.

9. A tentativa de restabelecer a Equação Brasil anterior não é privilégio apenas das oposições nesta eleição que se avizinha dramaticamente. Assisti ontem um documentário do canal internacional Arte sobre o tema “Brasil, rumo a uma grande potência?”. O documentário foi feito no ano passado, ainda no embalo das manifestações de junho e na campanha para declarar que o Brasil não tinha a menor condição de organizar uma Copa do Mundo. Visivelmente, ele foi feito para a rede francesa do Arte, e adaptado para a rede alemã, que fez-lhe uma cabeça e um encerramento atualizado. Mas o clima ainda era o anti-copa. O resultado foi surpreendente. A apresentadora, dirigindo-se diretamente à presidenta Dilma, dizia que esta era otimista quando à imagem do Brasil, mas que agora chegara a “hora da verdade”, e de verificar a “catástrofe” que era o Brasil. Assisti uma hora de programa, até o fim, esperando a tal da catástrofe, e ela não veio. O que veio foi a exposição de um “work in progress” chamado Brasil, com problemas e conquistas. Havia depoimentos tocantes de pessoas moradoras na favela sobre como sua vida tinha mudado. De catastrófico, havia o depoimento do líder do Greenpeace, dizendo que as plataformas do pré-sal vão inundar o oceano com manchas de óleo (parece a BP britânica) e o depoimento de uma manifestante de julho, que não provinha de favelas ou pobreza, entoando aquela ladainha de que no Brasil nada funciona. Ficou a impressão forte de que os editores da versão alemã do programa sequer se deram ao trabalho de assistir o vídeo previamente. Azar o deles.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Educação ou cultura?

14.10.01_Christian Dunker_Educação ou cultura_1[Fotogramas do filme Brasil S/A (2014), do diretor pernambucano  Marcelo Pedroso]

Por Christian Ingo Lenz Dunker.

A retórica de campanha dirá que o melhor de Lula já estava em FHC, e que o melhor de Marina já estava em Dilma. Se os tempos benfazejos estão sempre à procura de pais, nem tudo é economia e nem sempre a continuidade é a alma do sucesso.

Os doze últimos anos vêm sendo caracterizados como uma época na qual a política cultural brasileira profissionalizou-se. O Estado abandonou sua pretensão dirigista e construiu um novo sistema de produção cultural baseado em leis de incentivo por meio das quais uma parte dos impostos é redistribuída para iniciativas culturais por meio de um complexo processo jurídico administrativo do qual participam o artista e a empresa patrocinadora. Em vez de leis nacionalistas que prescreviam a posse, uso ou propriedade de meios culturais para diretores, artistas e intérpretes brasileiros, basta que a peça seja adaptada à linguagem e à cultura de nosso país.

Talvez o ciclo desta política cultural tenha se encerrado, não sem deixar bons frutos. Contudo, o principal efeito indesejável, a ser enfrentado pelo novo presidente, é a organização da educação e da cultura ao modo de condomínios. Por condomínio, neste contexto, devemos entender a formação de áreas fortificadas e protegidas, no interior das quais emergem síndicos, gestores ou administradores de um lado e regras formais, códigos de regulação e métricas de comparação por outro.

Uma revolução normativa semelhante ocorreu no âmbito da educação. A abertura de cursos e universidades não segue mais obscuros critérios clientelistas, mas está facultada a qualquer um que conheça os trâmites e esteja suficientemente adaptado à linguagem e à cultura do Conselho Nacional de Educação. Com isso formaram-se gigantescos condomínios educacionais, nos quais vigora uma espécie de indiferença ao conteúdo e à excelência. Não é só que isso seria uma subserviência ao mercado de trabalho, mas a tônica, até certo ponto aceitável, de que primeiro é preciso incluir – colocar todas as crianças na escola, oferecer uma cobertura universitária acessível a todos –, depois pensamos na qualidade.

Cultura e educação tornam-se, por meio desta mutação política, extensões “vigiadas” do mercado. Dois condomínios que funcionam com síndicos que se desconhecem. Garantidos por critérios de seleção mínimos e pela ação gradual, persistente e civilizatória do mercado, cedo ou tarde, com o auxílio da mão invisível do Estado regulador, a qualidade emergirá da quantidade.

Segundo a política originada em FHC e aprofundada por Lula e Dilma, cultura e educação devem se organizar em uma mesma superfície formal sem que ao mesmo tempo exista continuidade real entre elas.

Formação

Cultura e educação são definidas cada vez mais em termos de forma, processo ou métrica sendo o conteúdo deixado à deriva. Cumpridos os requisitos, a qualidade seria indiferente. E o contrário disso não precisa ser uma política autocrática, elitista ou popular, que definiria hierarquias. Ocorre que é justamente a indeterminação entre o ponto onde começa a cultura e onde termina a educação que serve de base para um dos conceitos mais importantes na gênese de cada uma destas áreas – a saber, a noção de formação. Em uma síntese brutal, formação quer dizer que a forma da educação deve admitir a universalidade da cultura como conteúdo, e que, respectivamente, a forma da cultura deve reconhecer que seu conteúdo é a educação das experiências particulares. Sem essa flutuação cruzada, sem essa zona de indeterminação na qual educação e cultura se recobrem sem que consigamos distinguir a quem pertence este condomínio, a formação perde sua função de tratar contradições sociais, ou seja, sua função “terapêutica”.

Os grandes benefícios trazidos pelas novas leis de incentivo cultural e pelos novos marcos regulatórios na educação, esqueceram-se que o preço a pagar pela agilidade técnica e pela definição operacional de suas áreas era justamente a importância desta indeterminação. Surge assim uma paradoxal escolha com a qual somos cada vez mais confrontados. Temos que fazer uma espécie de escolha que jamais deveria ser colocada: o que você prefere, educação ou cultura?

Se você quer se beneficiar das leis de incentivo à cultura, afaste-se da educação, ou esconda-a debaixo do tapete. É verdade, que se você for pedir um financiamento ou incentivo e mencionar que seu projeto tem fins, meios ou agentes de natureza educativa, você será remetido sumariamente a outro departamento. Algo como: guichê errado, educação é do outro lado. Inversamente, se você estiver em uma universidade pública siga a diretriz: ensino, pesquisa e extensão. Mas não esqueça: extensão deve significar serviço à população. Se você deixar transparecer que há uma contribuição cultural efetiva ou pretendida o financiamento tende a declinar, a não ser nas áreas nas quais a cultura é atividade fim (mas aí não estamos mais falando em extensão).

Há um amplo consenso prático e teórico de que essa separação é no mínimo bizarra. Afinal, porque teríamos que escolher entre educação ou cultura como se estivéssemos em uma daquelas piadas sobre o funcionamento burocrático dos países comunistas? O que queremos é uma educação dotada de alto valor cultural e uma cultura que possua grande potência educativa.

Do sistema Capes de avaliação das pós-graduações aos inovadores referenciais da educação infantil; da publicidade à música erudita e incluindo a manutenção do sempre eterno ECAD, passando pela crise das curadorias, cultura e educação tornaram-se tarefas para administradores (assim como a saúde, mas em sentido ligeiramente diferente). Que um artista se torne administrador isso não muda o fato. A continuidade que encontramos de FHC a Dilma passando por Lula é dada tanto pela referência comum ao mercado quanto pelo papel do Estado como aquele que administra, intermedia e regula o pólo da produção. O pólo do consumo, por sua vez, ficará a cargo da educação. A formação de referências e repertórios, a hermenêutica crítica, a tarefa formativa da educação jamais deverá contrariar a cláusula de que a cultura deve ser consumida por quem quer aprender significativamente. O conteúdo, novamente é tratado com indiferença.

O caso do cinema nacional

Outro exemplo. O programa convencional de crítica da brasilidade diria que o cinema nacional é um cinema de tese, que tem uma nova realidade a construir e que reflete sobre suas condições locais de produção em uma orientação pedagógica. Mas se o cinema novo da década de 1960 falava principalmente com a crítica, o novo cinema novo possui outra consciência do processo de produção cultural. Ele considera uma nova classe consumidora, que terá pela primeira vez uma imagem de sua própria divisão e ressentimento refletida na tela. Fernando Meirelles, Beto Brant, Andrucha Waddington e outros egressos do circuito publicitário brasileiro, surgem entre a degradação pelo excesso e a degradação pela falta. Orçamentos diminuíram, agências fecharam ou se fundiram, indústrias inteiras como a fonográfica e a fotográfica desapareceram ou se redimensionaram em menos de cinco anos. O prestígio social diminui com a dispersão da centralidade da cultura televisiva e depois digital.

Mas a posição de resíduo ou de crise da antiga indústria publicitária criou condições objetivas (como se dizia antigamente), para pensar seu próprio processo e, ao mesmo tempo, inventar uma nova forma de brasilidade. Foi uma experiência de aprendizagem e de formação. A qualidade técnica e reflexiva da direção e da criação do cinema da retomada é indiscutível, assim como a hegemonia na forma de produção, pela Globo Filmes. A herança da excelência adquirida na publicidade inclui um sistema de produção expresso, por exemplo, na fotografia de Afonso Beato, na montagem de Eduardo Escorel, nos roteiros de Marçal Aquino e no documentário de João Moreira Sales. A propaganda permitiu investir em formação e favorecer uma primeira geração de artistas-empresários. Antes, os subsídios da Embrafilme bancavam a produção. Isso acabou. O cinema só renasceu quando descobriu o mercado, mas também quando pôde recuar do núcleo da cultura de massa para a periferia da crítica.

Ocorre que a cultura é referida a um mercado que não funciona propriamente como um mercado. Por outro lado o mote da educação para o mercado é quase a paráfrase para educação sem cultura. O artista, mesmo o artista consagrado, agora precisa das leis de incentivo. Ele deve prestar contas ao público, mas a lógica que preside sua prática não é mais nem a do entretenimento, nem a da cultura em sentido estrito, mas sua capacidade de articulação direta de patrocínio e engenharia administrativa ou gestão dos processos de beneficiamento. A qualificação da produção cultural veio junto com seu encarecimento de forma que a bilheteria e consequentemente a presença do público, torna-se um fator coadjuvante na regulação da política cultural. O número de salas de cinema no Brasil declina.

Produtivismo acadêmico

Fenômeno semelhante acontece na educação universitária que se vê cada vez mais dividida entre a excelência de alto custo e acesso limitado contra a acessibilidade de baixo custo com uma administração barbarizante. Neste caso a primazia da forma é conhecida como “produtivismo”. Quem publica mais, leva. Ou seja, desde que você publique – de preferência em revistas bem indexadas, de preferência com seus alunos ou colegas –, o conteúdo é novamente indiferente.

Se poderia dizer, entretanto, que os rankings de revistas são uma forma de valorizar a qualidade do conteúdo, mas isso não é verdade. É próprio do conteúdo sua dificuldade de comparação: daí que o ranking das revistas seja composto, novamente, por critérios formais tais como regularidade, existência de pareceristas, variedade de origem dos autores, internacionalização, etc. O “impacto cultural” de uma pesquisa, tecnologia ou método é irrelevante, porque não pode ser medido. Cria-se assim a pesquisa “junkie” que recria e pasteuriza ideias em tediosa repetição feita para aumentar o índice de produtividade do programa de Pós-Graduação ao qual você pertence, feita para melhorar o índice de impacto de publicação, e ao final em vez de pesquisadores “publicadores formais de papers”.

Uma escolha negativa

Tudo se passa como se a questão do conteúdo se tornasse tão espinhosamente política que aquilo que deveria ser um critério central da cultura, que é sua potência civilizatória, ficasse neutralizado pela métrica formal do processo de distribuição de recursos. E de modo inverso, aquilo que compõe o conteúdo mesmo da educação, sua potência cultural universalizante, fica desativado por critérios formais de desempenho produtivista. Resultado: temos que escolher entre uma educação sem cultura, ou entre uma cultura sem educação. Tudo porque o conteúdo não pode ser medido por critérios de valor agregado.

Pergunta: por que nossas universidades, públicas e privadas, que participam do amplo movimento de redistribuição da renda e dos bens culturais que lhe são consoantes não são também pólos de investimento cultural? Ou seja, devemos escolher entre educação ou cultura desde que esta escolha seja uma escolha negativa. Se o que há de pior na cultura é sua intenção pedagógica e se o que há de pior na educação é sua pretensão mono-culturalizante fiquemos com o oposto de cada uma delas. Tal é a falsa escolha forçada legada por anos de abertura educativa e cultural, baseada na primazia da forma sobre a indeterminação de conteúdo.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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miniaturaEm novembro a Boitempo lança Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros, de Christian Dunker. Novo título da coleção Estado de Sítio, coordenada por Paulo Arantes, o livro parte de uma psicanálise da vida em condomínios para desenvolver uma aprofundada reflexão interdisciplinar sobre a privatização do espaço público e inserção da psicanálise no Brasil. Confira a aula dele, no Café filosófico do CPFL Cultura, sobre as transformações no sofrimento psíquico:

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012, seu livro mais recente é Sofrimento, mal-estar e sintoma (Boitempo, 2014, no prelo). Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

O tabu homossexual de Maria

Maria buscava um amor que, apesar de jamais admiti-lo em consciência, fosse à semelhança do irmão. Ao modo e aparência de Maciel, o gêmeo, um homossexual sem alarde. E com isso, no seu ideal, também se cruzam vários caminhos, ou, se quiserem, o seu ideal era um cristal de muitas faces. Numa delas, na mais evidente, o amor conforme Maciel era um homem que a respeitasse, à pessoa de Maria, pois que ela era uma pessoa, acima de tudo.

Em sua melhor imagem, antes de se apresentar como mulher, ela se queria uma pessoa. O que para um homem, nesse vê-la como uma pessoa, seria um contato assexuado, indigno de um macho, para Maria era um plano de mais conforto e ambição, ver-se no espelho como gente humana, antes do sexo. Ela possuía suas razões, além das mais dignas e gerais.

Com Maciel, com o irmão, com o seu gêmeo de alma, ela falava e se fazia ouvir, ela ouvia e se permitia ouvir. Ou seja, havia entre eles, macho e fêmea, uma igualdade de planos e terreno. Ela o queria porque a ele falava. Ele a queria porque a ela, sua igual, ele falava, se ouvia, se respeitava. Ao diabo que era Maciel, baixinho, necessitado, pois a procurava por não ter onde comer, almoçar, num tempo em que a carga feroz contra homossexuais era mais perseguidora, dentro do inferno em que já estavam os homens pobres e pequenos, a esse pobre-diabo ela não via, porque punha no seu lugar um homem de ternura e bigodinho, de voz suave, que a ouvia e escutava. Que lhe importava se esse Maciel não seria nem era capaz de se levantar contra a selvageria do marido? Não havia problema, porque para isso ela própria tinha força e ânimo para responder. Mas ao não ver o pobre-diabo em Maciel não lhe ocorria propriamente uma cegueira, uma miopia mágica, de não ver nada do que todos viam. Ela não era cega nem louca. Apenas, apenas, aquelas características informadas por todos Maria punha sob outros valores. Ela respondia à infâmia de outros parentes contra o irmão:

– Ele é uma pessoa de coração, ele sente.

“Ele me ama”, ela queria dizer. E o que mais desejava o seu peito que ser amada, ainda que num terreno íntimo, particular, privado, mesmo que fossem xifópagos separados? Que viessem os bárbaros, que viessem os tártaros, ela os atacaria por mais de um flanco. No entanto é claro, numa outra face do prisma, esse amor à semelhança do respeito fraterno era um amor de possibilidades. Ou, numa aproximação da face nua e limpa, era um amor vicário, que não se satisfazia no vicariato. E por isso pegava dele características que seriam uma graça dos céus, mas passava por elas e seguia mais longe. Pois além de uma pessoa, pessoa geral, Maria era uma pessoa específica, certa e determinada mulher. Ela queria ser desejada e tomada e vista e acariciada como Mulher. Sim, com maiúscula no calor do seu desejo e imaginação. E, coisa estranha, apesar de Maciel ser modelo para seu coração, ele não a poderia satisfazer por um duplo impedimento. No menor deles, que Maria na consciência se falava ser o maior, ele era o seu irmão. “Está doida? Coisa de doido. Nem pensar”. E aqui, mesmo que não possamos esperar dela atos e percepções além do seu tempo e cultura, a narração pode e deve falar de Maria o que a sua pessoa não enxergava. Ou não queria ou não podia ver.

Em sonhos, há muito, ela estava com o marido, à hora do almoço, e ele, o marido, de forma a mais carinhosa alisava-a com os pés sobre os pés dela, subia com eles em suas coxas, rodeava com o dedão o seu sexo, ao que ela respondia, entre o abandono ao pezinho do marido:

– O que é isso? Os vizinhos podem ver.

A isso o seu marido, de pele escura, bem escura, sorria com um bigodinho que ela adorava, que a deixava sem forças para reagir com força, com raiva. Ah, que raiva ela se sentia possuída por não reagir contra aquela obscenidade! Mas como reagir àquele antiFiladelfo? Pois apesar de todos os traços exteriores, cor, cabelo, voz, olhos, apesar de toda anatomia de Filadelfo, aquele homem com quem ela almoçava no sonho era terno, delicado, atencioso, pois até nos pés a ouvia como ela desejava. Havia ali, apesar de, sempre “apesar de”, apesar da presença física de Filadelfo, havia ali o marido em sua negação. E, dividida, Maria olhava aquela cena como se estivesse em um plano mais alto, a pairar sobre os dois na mesa, entre a “safadeza” de sua pessoa, pois não retirava brusca aquele dedão pecaminoso – sim, aquilo era um pecado -, e o desejo de afeto que o dedão continha. Era um pé ternura. Era um pé, que sendo sexo, pois era duro e tentava penetrá-la, era também um carinho, porque a rodeava, enredava, sim, a enredava a ponto de a deixar em rede de pesca, e a enredava também porque lhe contava enredos, fuxicos, bisbilhotices, enquanto a alisava nos pelos íntimos, tão íntimos que existiam antes até de serem pelos. Aquele Filadelfo, se o encarava bem, ou se a encarava, era másculo e feminino, macho e fêmea, Filadelfo e Maria. Então o sonho ia se desenvolver, e Maria não deixava, ela não o queria, pois sabia aonde o sonho a levava, levaria, o sonho ia tornar o pé em ponte de ligação, que encolhia, que se desenvolvia pelo desaparecimento, como, coisa estranha, como um crescimento que some, algo de mecânica impossível, a não ser que o pé crescesse por sumir dentro dela. E o desenvolvimento de tal absurdo era Maria abraçada a Filadelfo, amalgamada e fundida nele como uma estátua de bronze em uma praça, enquanto Filadelfo lhe sussurrava, “sabe, Maria?”, e tão confortável e conhecida há muito era a voz, que a Maria soava com um conteúdo de “sabe, mana? sabe, maninha?”, um absurdo absoluto, pois ela acordava ao lado de um corpo estranho à sua intimidade.

Então ela não poderia saber, ou – muro imperioso – ela não devia saber, porque era porta vedada a seu desejo: a pessoa de Maciel como irmão era o menor impedimento. O incesto era uma vedação de costumes, de cultura do tempo, uma vedação ao pensamento dos dias. Então lhe vinha um breve pigarro, como a engolir algo áspero. Porque o desejo, naquelas aprisionadas circunstâncias, era livre como projeto. De um ponto de vista anatômico, eram macho e fêmea, ou, engulho ou salvação maior, eram macho e fêmea nascidos de mesmos ventre e hora. Que mais intimidade, pecaminosa, bendito pecado, haveria? De um ponto de vista, digamos, funcional, todas as condições estavam dadas para o sucesso da vicária felicidade. Eles, ela e ele, em estatura e gênese se completavam. Vistos de um modo cru, os seus corpos eram harmônicos na acidental variedade da natureza. Maria e Maciel Deus os criou. Ali não havia um obstáculo, digamos, objetivo, se de um modo grosseiro nos expressamos. Escrevemos o adjetivo “grosseiro” porque os impedimentos na ideia, na formação de uma pessoa, também são um impedimento objetivo, mesmo que não se apresente como um muro de pedra. Mas se separamos, sempre com um método brutal, corpo e alma, matéria e espírito, o incesto não era o limite do proibido: “pecado, Maria, pecado, Maciel”. Mas com pecado, ainda que mortal, ainda que impulso animal sem freio, a penetração era possível. Poderia até ser penetrada pelo sonho, para melhor consumação da vitória sobre o impedimento. Não. Aqui o horror era passável, passável assim como o cirurgião se acostuma ao sangue, assim como o açougueiro se acostuma às vísceras do boi, do porco, assim como o carniceiro se acostuma ao corte sobre pessoas vivas. Esse não era o impossível.

O impedimento era o lado fêmeo de Maciel, que Maria notava e sob valores mais altos dele não tomava conhecimento. Mas uma coisa era o irmão lhe ser solidário, afetuoso, digno, amorável sob o bigodinho. (Infernal bigodinho que não a deixava em paz no sono nas noites solitárias.) Ah, bigodinho querido, outra coisa era aquele pé interno, íntimo, se transformar em pênis. Outra coisa maior era aquele pênis ficar inchado, crescido e lançado pelo desejo que tivesse o irmão fêmeo. Essa era a vedação objetiva, até mesmo pela visão grosseira. E aqui, mais uma vez, é preciso determinar a grosseria. O ponto crucial não era que Maciel fosse incapaz de ter ereção com mulher, qualquer mulher, até mesmo contra a irmã. “Sem problema”, ele diria. “Eu também sou macho”, podia completar, sem qualquer bazófia. Sim, isso nele era possível. Assim como são possíveis os desastres, os terremotos, os cânceres, as doenças incuráveis, a ereção nele por uma mulher era possível. Dir-se-ia até, como uma prova de macheza, e aqui de novo as palavras para serem compreendidas exigem um espaço humano para sua melhor definição, Maciel possuía ereção com mulheres. E tal macheza queria dizer: domínio de vontade, fazer-se algo contra a vontade, suportar a dor no limite da resistência. Essa, a macheza. Mas como, se a ereção em héteros não existia por vontade, como em um ser homo ela se dava por algo miraculoso, à semelhança da meditação zen?

Sim, largo e em voltas espirais é o engenho humano: Maciel conseguia ter ereção no processo de se fazer fêmea para a mulher que estivesse a seu lado. Como uma abstração realizável, assim como muitas vezes se ama uma mulher em lugar de outra, em um artifício de sonho posto no cotidiano. Em termos mais simples e duros, isso quer dizer que ao levar uma mulher para a cama, o senhor Maciel, num esforço de variação máxima, oferecia-lhe as costas. Assim posto, fazia as próprias nádegas roçarem o clitóris para melhor excitá-la, enquanto ansiava por uma carnosidade dura no ânus. Desejando o clitóris da desejada, balouçante ele se dava de costas à mulher, para visualizar no escuro o que procurava. E recebê-la, se por felicidade a mulher se envolvesse no jogo. Pois fazer assim, chegar a tal ponto de sacrifício, era sem dúvida, e sem qualquer ironia, uma prova de macheza, se pela palavra queremos expressar: ter a coragem de enfrentar uma grande adversidade.

Fora de um ponto de vista moral, ou melhor, uma vez que esta narração vai além do reproduzir a vida consciente de Maria: de outro ponto de vista moral, de uma moral mais larga e funda como um oceano, Maria queria ser amada, e se possível, de um modo ideal, apaixonadamente. E para essa justa esperança, o espelho Maciel não a satisfazia. E por quê? A coisa não se dava naquela possibilidade mínima, ou máxima, pouco lhe importava, de ereção. Ou de ser penetrada na vagina. Mas os grandes e pequenos lábios estavam em outro lugar, melhor, em todos os seus lugares. Ela queria, precisava, é certo, de carinho, de um homem carinhoso até o ponto da gentileza, aquela à margem de boas maneiras. Alguma coisa que fosse à semelhança de Maciel, de modos finos – e ao dizer “modos finos” de ser, pensava em Maciel, mas com um esforço de o apartar de laços de irmão -, e que fosse ao mesmo tempo de voz grave, máscula, másculo. Melhor, e aqui enorme é o esforço para não amesquinhá-la, para melhor acompanhar o sentimento de Maria: ela queria um homem sem macheza, um homem por atos e de ação, que não baixasse os olhos ao se ver humilhado, que não desse as costas ao inferno de uma irmã. Mas nesse lugar do seu querer já não estava Maciel. Sem mágoa, porque nesse passo, como todas as mulheres que na ausência de um homem, vale dizer, na falta de um ser que aja e vá à frente, assumem o seu lugar, como as mães sozinhas que fazem as vezes de marido, de um modo heróico e mais efetivo que o substituído, nesse ponto, sem mágoa, ela crescia para assumir o lugar do irmão, seu igual e sangue, quando humilhado. Nada demais, sem mágoa. Mas ali já não estava o que ela queria, como marido e amante, como aquele que ama conforme é amado. E o que ela queria, afinal?

Assim como Ismália, a virgem que no poema queria o céu e queria o mar, Maria buscava um homem fêmeo que fosse macho, mas um macho que fosse mais que pênis, um homem, um homem, enfim. Um cidadão que abrigasse a mulher que gargalhava até as lágrimas, de uma certa Maria que ao ficar raivosa dava mostras de raiva inchando as bochechas, a mulher Maria que era generosa a ponto de dividir o pouco, para ficar depois em estado de quebrar a cabeça para ter soluções criadoras de sobrevivência. Ela queria, desejava nada mais, nada menos que a ventura, aventura do toque dos dedos em seus cabelos, do carinho das pontas dos dedos, em lugar das mãos calosas que a apertavam antes, antes do gozo que não poderia ser dela. Então, com Maciel, ela estava com um revólver de brinquedo, uma pequena mauser de plástico, e queria com tal arma se defender no sentimento. No mundo, mas com tal arma estava sozinha. Ela era ameaçada por se fazer de armada, ou de amada, vale dizer, porque os pobres também possuem jogos verbais, porque o amor em seu sonho aparecia às vezes como uma falsa arma. Amada, armada em falso. Mas que ainda assim lhe fazia correr sério risco de ser morta, amada em falso, armada em falso.

Por que não há uma justiça para os corações? Pois assim como Maria era traída no sentimento, aquele que traía tinha também o seu merecido quinhão. Haveria nisso um reflexo fiel dos boleros intragáveis da época, em que alguém chorava por não ser amado por quem queria, enquanto era amado por quem não desejava? Ou seria, a canção medíocre, a vulgarização de algo mais grave que o simples quero-quem-não-me-quer-e-não-quero-quem-me-quer? Talvez haja nisso a verdade de algo mais preciso: o coração, mesmo quando busca amor, o faz em um caminho onde se mistura o egoísmo. Porque ele quer aquilo que o conforta, antes de mais nada. Ele, o coração, não quer para se dar, para se doar, antes. Essa doação se faz sobre um terreno de benefício próprio. A mulher quer os filhos porque esse querer a conforta. O homem quer a mulher porque nela vê beleza, e essa, física, espiritual ou espiritualizada, que lhe faz bem, ele precisa ter junto de si. Daí que se doa a esse afeto, porque nesse caso dar é receber, perder é ganhar, pela satisfação que possui quem se dá. Não há, entre amantes, o amor por filantropia. Então, como haver justiça para os corações? Em que lugar ou tempo existe a paz para a correspondência justa de amar porque se é amado, ou de ser amado porque se ama?

 *Do romance O filho renegado de Deus, de Urariano Mota, publicado pela Bertrand Brasil, 2013.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

SUT: Participação popular ou atentado à classe trabalhadora?

14.09,29_Jorge Luiz Souto Maior_SUTPor Jorge Luiz Souto Maior. 

Em 23 de maio de 2014, o governo federal editou o Decreto n. 8.243, que instituiu a Política Nacional de Participação Social – PNPS, “com o objetivo de fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil”.

O Decreto foi bastante criticado por dois motivos: primeiro, pelo fato das iniciativas nele contidas não terem sido submetidas ao crivo do processo constitucional de elaboração das leis, já que instituído por Decreto, sendo, portanto, um ato exclusivo do Poder Executivo; e, segundo, por ter supostamente suprimido as instâncias institucionalizadas da democracia participativa, notadamente, a Câmara dos Deputados.

Parece-me que as críticas embora tenham algum sentido – até porque me arrepia um pouco a palavra “Decreto” – não têm respaldo jurídico, pois o governo, na forma de administrar o país, pode decidir como quer dialogar diretamente com a sociedade e um mecanismo de diálogo não pode ser visto como contrário à democracia, sendo certo, de todo modo, que qualquer atuação concreta, de natureza regulatória, ou seja, que dependa de lei, deve seguir a via procedimental adequada, constitucionalmente assegurada.

A questão relevante, portanto, não é esta de cunho formal, mas da própria eficácia da medida e, principalmente, dos riscos que traz ao atribuir à vontade da “sociedade civil” a manifestação de alguns segmentos da sociedade, sabendo-se que muitas das entidades “convidadas” a participar do diálogo podem possuir ligações políticas com o governo. Assim, o “diálogo” serviria apenas para criar uma legitimação de uma pretensa vontade popular para a execução de iniciativas que seriam, na verdade, do próprio governo ou, pior, de setores determinados, usando-se a resolução do “diálogo” como forma de mascarar a influência do poder instituído, com intenções nem sempre totalmente reveladas, e de pressão sobre a opinião pública e o Congresso Nacional.

Há riscos, portanto, para uma efetiva participação democrática, ainda que o propósito seja ampliar as formas da intervenção popular nesse processo.

Mas, principalmente, há graves riscos para a classe trabalhadora. Neste último aspecto, é importante lembrar que os organismos institucionalizados têm como função fazer atuar os valores consagrados na Constituição de 1988, que embora tenha mantido o modelo de produção capitalista, conferiu à livre iniciativa um valor social, atribuiu à propriedade uma função social, assim como previu que a economia se desenvolva com base nos ditames da justiça social. Também na Constituição os direitos sociais, notadamente, os direitos dos trabalhadores, foram alçados a direitos fundamentais, estando amparados pelo princípio do não-retrocesso, vez que insertos ainda no conceito de cláusulas pétreas.

A grande função administrativa do governo nesta área, portanto, é a de garantir o pleno funcionamento das instituições estatais voltadas à efetivação desses direitos.

Parece-me um grave desvio de finalidade, com séria perspectiva de eliminação de responsabilidade, pondo mesmo em risco o projeto constitucional, transferir para instâncias de diálogo a deliberação acerca da eficácia de direitos históricos, que foram integrados, à custa de muitas lutas, ao patrimônio da classe trabalhadora. Soa falso, ou, no mínimo frágil, o argumento de que se está tentando incentivar a participação popular nas vias de deliberação do Estado quanto a esses direitos, notadamente quando se sabe do descaso com que foram tratadas as instituições responsáveis pela fiscalização e aplicação dos direitos sociais nas últimas duas décadas.

Veja-se, por exemplo, que na perspectiva específica dos direitos trabalhistas, seguindo a linha do Decreto n. 8.243, o governo federal está “patrocinando” um projeto de lei que institui o Sistema Único do Trabalho – SUT. Ocorre que o SUT, sob o pretexto de aumentar a participação dos trabalhadores – e dos empregadores – nas deliberações sobre as relações de trabalho, acaba por fragilizar a eficácia da legislação trabalhista ao ser posta em mesa de debate, quando o que se deveria esperar do governo é que fizesse cumprir o projeto constitucional de essencialidade dos direitos trabalhistas.

O papel obrigatório do governo, diante do compromisso que a sociedade civil organizada assumiu, na Constituinte de 1987, perante à classe trabalhadora, é o de deixar claro aos setores econômicos que a justiça social, que parte da eficácia dos direitos trabalhistas e previdenciários, constitui a pedra fundamental do modelo de produção brasileiro. E, dentro dessa perspectiva, cumpre ao governo federal, isto sim, prestigiar as instituições voltadas à efetivação dos direitos trabalhistas, tais como o Ministério do Trabalho e Emprego, no setor específico da fiscalização do trabalho, o Ministério Público do Trabalho e a Justiça do Trabalho, e não se dedicar à criação de uma estrutura cara e complexa como o SUT, na qual o papel dessas instituições é mitigado, abrindo-se espaço para a formalização de um pretenso diálogo entre o capital e o trabalho sem a fixação do pressuposto necessário da relevância da eficácia dos direitos trabalhistas e do encaminhamento constitucional da linha ascendente desses direitos, indo, aliás, em direção contrária, ao se dar prioridade às negociações coletivas – sem qualquer limitação – tanto na criação de direitos quanto na solução de conflitos e mais ainda autorizando, expressamente, a instituição de formas precárias de relações de trabalho, revitalizando, inclusive, a malsinada expressão “intermediação de mão-de-obra”.

O SUT, portanto, sob a aparência de favorecer a democracia, serve, isto sim, como fundamento para o sucateamento das entidades referidas, contribuindo para a precarização das relações de trabalho.

Não é por outra razão que as instituições em questão, cuja função é assegurar a eficácia dos direitos trabalhistas, posicionaram-se contra esse projeto de lei, que configura, de fato, um grave atentado à classe trabalhadora.

Por oportuno, cabe reproduzir as manifestações referidas: o Manifesto pela valorização da auditoria fiscal do trabalho e contra o Sistema Único do Trabalho e a “Nota pública” da Associação Nacional do Procuradores do Trabalho (ANPT).

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Flávio Aguiar, entre outros. Confira aqui.

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Löwy: A I Internacional, 150 anos depois

14.09.26_A I InternacionalPor Michael Löwy.

Marxistas e anarquistas (esses termos não eram comuns à época) fundaram a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), a Primeira Internacional, há exatos 150 anos. Os desacordos entre os partidários de Marx e de Bakunin levaram a uma amarga divisão em 1872. Logo depois, a AIT “marxista” dissolveu-se, de fato, enquanto os bakuninistas criaram, em uma conferência em Saint-Imier, Suíça (1872), sua própria AIT, que de maneira precária existe ainda hoje.

Para Marx, as razões para a cisão foram as tendências pan-eslávicas e o sectarismo antidemocrático e conspiratório de Bakunin. De acordo com Bakunin, a divisão resultou da orientação pan-germânica de Marx, assim como de seu comportamento intolerante e autoritário. Uma importante coletânea de textos históricos inéditos, organizada por Marcelo Musto e a ser em breve publicada pela Boitempo, expõe com clareza essas mazelas: Trabalhadores uni-vos: antologia política da I Internacional. O que se perde nesta abordagem, que predomina amplamente na literatura da Primeira Internacional, é o simples e importante fato de que essa era uma Associação onde, a despeito dos desacordos e conflitos, partidários de Proudhon, Marx, Bakunin, Blanqui e outros, puderam trabalhar juntos por muitos anos, eventualmente adotando resoluções comuns, e lutando lado a lado no maior evento revolucionário do século XIX, a Comuna de Paris.

Apesar de sua curta duração – apenas alguns meses – a Comuna de Paris de 1871 foi o primeiro exemplo histórico do poder revolucionário dos trabalhadores, democraticamente organizado – delegados eleitos pelo sufrágio universal – e suprimindo o aparato burocrático do Estado burguês. Foi também uma autêntica experiência pluralista, associando na mesma luta “marxistas”, proudhonianos de esquerda, jacobinos, blanquistas e republicanos sociais. Claro, as respectivas análises de Marx e de Bakunin sobre este evento revolucionário eram absolutamente opostas.

No entanto, as – inegáveis – divergências entre Marx e Bakunin, marxistas e anarquistas, não são tão simples e óbvias como comumente se crê.

Curiosamente, Marx regozijou-se do fato de que durante os eventos da Comuna os proudhonianos esqueceram a hostilidade de seu mentor para com a ação política revolucionária, enquanto certos anarquistas estavam satisfeitos com o esquecimento do centralismo e a adoção do federalismo nos escritos de Marx sobre a Comuna. É verdade que A Guerra Civil na França 1871, assim como a declaração sobre a Comuna que Marx redigiu em nome da Primeira Internacional e diversos rascunhos e materiais preparatórios deste documento, testemunham o feroz antiestatismo de Marx. Definindo a Comuna como uma forma política, finalmente encontrada, para a emancipação dos trabalhadores, ele insistiu na ruptura com o Estado, este corpo artificial, esta jiboia-constritora, como ele o chamava, este pesadelo sufocante, este enorme parasita2.

Entretanto, depois da Comuna, intensificou-se o conflito entre as duas tendências revolucionárias do socialismo internacional, levando à exclusão de Bakunin e Guillaume (seu seguidor suíço), no Congresso de Haia da AIT (1872), e a transferência desta para a sede em Nova York – de fato, sua dissolução. Depois desta cisão, os anarquistas, como mencionado acima, fundaram sua própria Associação Internacional dos Trabalhadores.

A despeito da cisão, Marx e Engels não ignoraram os escritos de Bakunin e, em alguns casos, tiveram de concordar com seus argumentos antiestatais. Um exemplo marcante é a Crítica do Programa de Gotha, de 1875.

Ao invés de contabilizar os equívocos e tropeços de cada lado do conflito – não faltam acusações mútuas – há de se enfatizar o aspecto positivo da Primeira Internacional: um diverso, múltiplo e democrático movimento internacionalista, onde participantes com abordagens políticas distintas foram capazes não apenas de coexistir, mas de cooperar no pensamento e na ação durante alguns anos, atuando como a vanguarda da primeira revolução proletária moderna. Foi uma internacional na qual marxistas e Libertaires, como indivíduos ou como organizações políticas (tais como o marxista Partido Social Democrata Alemão) puderam – a despeito dos conflitos – trabalhar juntos e se engajar em ações comuns.

As Internacionais posteriores – a Segunda, a Terceira e a Quarta – não tiveram muito espaço para os anarquistas. Entretanto, em diversos momentos importantes da história do século XX, anarquistas e socialistas ou comunistas foram capazes de unir forças.

  1. Nos primeiros anos da Revolução de Outubro (1917-1921), muitos anarquistas, tais como Emma Goldmann e Alexander Berkman, deram apoio (crítico) aos líderes bolcheviques.
  2. Durante a Revolução Espanhola, os anarquistas da CNT-FAI (Confederación Nacional del Trabajo – Federación Anarquista Ibérica) e os simpatizantes de Trotsky do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista) lutaram lado a lado contra o fascismo, e se opuseram à orientação não-revolucionária dos stalinistas e dos sociais democratas de direita.
  3. No Maio de 1968, uma das primeiras iniciativas revolucionárias foi a fundação do Movimento 22 de Março, sob a liderança do anarquista Daniel Cohn-Bendit e o trotskista Daniel Bensaïd. Houve também diversas tentativas intelectuais significativas de juntar as duas tradições revolucionárias, entre escritores como William Morris ou Victor Serge, poetas como André Breton (o fundador do movimento Surrealista), filósofos como Walter Benjamin, e historiadores como Daniel Guérin.

A experiência da Primeira Internacional não pode ser repetida, obviamente, mas ela é de extrema relevância para todos nós, no começo do século XXI, quando novamente marxistas e anarquistas reúnem forças e agem conjuntamente, como indivíduos, como redes ou como organizações políticas (cuja existência não é um obstáculo à cooperação), no movimento Justiça Global, nas lutas ecológicas radicais, em apoio aos Zapatistas em Chiapas, nas mobilizações de massa dos Indignados (Espanha, Grécia), ou no Occupy em Wall Street e outros cantos do mundo.

* Uma versão ampliada deste artigo será publicada na edição 23 da revista Margem Esquerda, que chega às livrarias no final de outubro.

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Leia também “Os 150 anos da Internacional“, de Marcello Musto, no Blog da Boitempo. O renomado pesquisador italiano estará no Brasil em outubro para lançar a antologia da I Internacional em um encontro internacional em oito cidades brasileiras, para debater o legado da AIT. Confira a programação completa aqui.

***Michael Löwy está no Brasil para uma série de debates, conferências e cursos em São Paulo, Campinas e Niterói. Os eventos marcam o lançamento de seu inusitado A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (Boitempo, 2014).

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Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Seu mais recente livro é o inusitado A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberianoColabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Reeleger Dilma e mudar mais

14.09.23_Reeleger Dilma e mudar maisPor Izaías Almada.

O mundo gira, a Lusitana roda e ficamos todos no mesmo lugar. Calma, amigo leitor, não se deixe emprenhar pelo ouvido ou pelos olhos. É uma frase como outra qualquer, despretensiosa.

Já não houve alguém no passado que disse que tudo que é sólido se desmancha no ar? Há sempre alguma coisa que muda, para pior ou para melhor. Nosso desejo é que seja sempre para melhor, não?

É claro que entre o homem de Neanderthal e o meu vizinho aqui do apartamento ao lado há toda uma história para se contar, repleta de altos e baixos, de avanços e recuos, mas a distancia entre a razão e o coração permanece a mesma, ora privilegiando uma, ora privilegiando outro. Quando se encontra algum equilíbrio nessa química, dirão os sábios, reina a paz e a alegria. Será?

O mundo contemporâneo cada vez menos se compraz com a verdade. Ou dela se beneficia. Mas, afinal, o que é a verdade, perguntarão os filósofos de botequim e os verdadeiros…

Diante dos lugares comuns com que abro o artigo, que de tão comuns não chegarão a sensibilizar as almas bem mais eruditas que a minha, debruço-me com algum cuidado sobre as próximas eleições de outubro na, ingênua talvez, expectativa de encontrar explicações para o que ouço e leio e até preparar o espírito para um possível desastre anunciado. Repito: possível, mas não desejado… E pelas últimas pesquisas de intenção de votos, apenas anunciado.

Pois guerra é guerra, venha ela pela ponta das baionetas, dos drones ou pelas manchetes de jornais, revistas e telejornais irresponsáveis. Em particular nos países que ainda não se despiram de preconceitos seculares dos mais variados matizes e letárgica aculturação.

Na ânsia de ler o noticiário do dia a dia das eleições defronto-me com frases como “Chico Mendes era um homem de elite”, “A formação de cartel não é crime”, “O PSDB é contra toda e qualquer corrupção”, “Quero governar com os melhores”, “Vamos atualizar as leis trabalhistas”, “O governo colocou um diretor na Petrobrás para roubar” e toda uma cantilena de idiotices e frases ocas, o que não é de se estranhar se levarmos em conta, por exemplo, que Barak Obama é premio Nobel da Paz. E o mensalão mineiro, o do PSDB, nunca existiu. Em se tratando de nonsense

Na geléia geral da propaganda política para o grande evento do próximo cinco de outubro o que sobra é a pobreza generalizada das candidaturas de oposição ao atual governo, algumas escancarando o lado grotesco dos candidatos e seus discursos vazios de ideias e carregados de ignorância, preconceito, algum humorismo e, sobretudo, de pessimismo.

Nesse item, uma vergonha! Cidadãos e eleitores merecem mais respeito e consideração. Já que o espetáculo da democracia representativa burguesa nos oferece o “horário eleitoral gratuito” (sic), nada nos impede de ver ali o raio-x desse jogo do vale tudo.

A presença e o discurso de alguns dos candidatos, o Levy, o Eymael, o pastor fulano de tal, enfatiza o deboche da própria democracia que defendem e dizem representar. Dedicar três ou quatro linhas do artigo a essa baboseira já é demais. Haverá sempre a possibilidade de qualquer um de nós recorrermos ao soro antiofídico.

Em seguida, as propostas ingênuas e até fora de contexto dos candidatos da esquerda radical que, excetuada a convicção e alguma coragem com que defendem suas ideias, corretas muitas delas, não dialogam com o eleitor que quer encontrar respostas imediatas às suas necessidades do dia a dia e não ouvir apenas proselitismos políticos e ideológicos.

Por último, o confronto entre os três candidatos que terão a maioria dos votos daqui a dez dias. Para a oposição conservadora e a da ‘nova política’ o leitmotiv é a corrupção, crime que surgiu no Brasil a partir de 2002 e, pelo visto, só existe no atual governo, na Petrobrás e no Partido dos Trabalhadores. Nunca antes nesse país se encontrou tanta corrupção.

“Quem não tiver culpa que atire a primeira pedra”… Não foi esse, entretanto, o ensinamento maior do líder de toda essa gente? Perguntem ao Malafaia e ao padre Marcelo. Aos fundamentalistas da revista Veja ou aos tribunais da Inquisição em que se transformaram os entrevistadores televisivos da presidente Dilma nessa campanha.

A operação plástica de Aécio Neves e o ar angelical de Marina Silva ao se referirem à corrupção alheia são de dar enjoo em antiácidos estomacais. O cinismo com que querem nos colocar no canto da sala de aulas com orelhas de burro na cabeça chega a ser doentio e criminoso. E sempre que possível amparado pela justiça eleitoral ou outras justiças espalhadas pelo país.

E por falar nisso, onde foi parar o látego negro depois de cumprir sua função de juiz imparcial?

Goste-se ou não, concorde-se ou não, a campanha demonstra com propriedade que o único programa que se salva é o do próprio governo tanto em forma como em conteúdo. Mostra o país em transformação dos últimos doze anos e o muito que ainda se pode fazer. Um esforço hercúleo para quebrar a parede de concreto erguida pela mídia impatriótica entre o governo e os cidadãos, em particular os que ajudam a sustentar o país com o seu trabalho de sol a sol.

Os smartfones e ifones com seus selfies e outras surpresas (e bobagens), as redes sociais estão expondo as vísceras da luta de classes no Brasil.

De resto é a falácia, a crítica pela crítica, inúmeras acusações sem provas, a construção de um pessimismo odioso e odiento que só prejudica, à saída, aos menos favorecidos da pirâmide social. E à soberania do país.

Não é difícil, para quem ainda não vendeu a alma ao diabo, fazer tais constatações, até porque a direita e muitos de seus despolitizados adeptos, já não tem o menor pudor em mostrar as entranhas do jogo que propõe jogar.

Tudo cheira a mofo e a passado, a uma hipocrisia nauseabunda, quando varrem para debaixo do tapete de suas consciências o criminoso assalto contra o patrimônio público praticado em governos de seus ‘líderes’.

Ou ainda quando substituem o diálogo e a contra argumentação, em defesa de suas ideias (?), pela violência verbal ou mesmo física fazendo surgir aqui e ali traços inequívocos de intolerância, de um fascismo reprimido que vem à tona e procura fazer ‘justiça’ com as próprias mãos.

Há que reeleger Dilma Roussef sim. Qualquer outro resultado poderá deixar o Brasil e a América Latina às portas de um extemporâneo retrocesso político e social que a minha geração conheceu bem e que as novas gerações não fazem por merecer.

O que tem que ser tem muita força.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Bill Ferrer, o detetive heterodoxo, e a era FHC

14.09.22_Mouzar Benedito_FerrerFHCPor Mouzar Benedito.

Bill Ferrer é um detetive particular gringófilo. Tanto que adotou esse nome e fala com sotaque do sul dos Estados Unidos.

Sua agência fica na Baixada do Glicério, área decadente da região central de São Paulo. Lá, numa saleta pequena e maltratada, ele toma uísque nacional de marca bem barata, enquanto seu auxiliar, Vasconcellos, toma jurubeba. Os dois comem tremoços e cospem as cascas numa lata de lixo, errando quase sempre, o que deixa o chão em estado deplorável.

Os dois comentam a situação em que estão: há muito não entra dinheiro para Bill Ferrer. A criminalidade é grande e há muita corrupção, pouca coisa é apurada pela polícia, então supostamente deveriam sobrar clientes para o detetive. Mas há um desânimo geral, uma descrença em tudo, e poucas vítimas ou parentes de vítimas pensam em apurar esses crimes. Os que pensam nisso, não têm dinheiro. Com isso, o salário mixuruca de Vasconcellos está pra lá de atrasado e ele é ameaçado de ser posto pra fora do cortiço em que mora.

Bill Ferrer já pensa em fechar a agência e procurar algum emprego, o que dificilmente conseguiria, pois o comum é demitir gente, não contratar, e o desemprego ronda todo mundo.

Estamos falando de 2014?

Não, não, não! É 2002. O livro Pamonhas de Piracicaba e outras histórias está sendo lançado agora, mas foi escrito em 2002. Tem três contos e, para ser mais exato, a última delas foi escrita no início de novembro daquele ano. O fim da história se passa exatamente na noite de domingo em que aconteceu o segundo turno das eleições.

Vasconcellos é um crítico confuso do governo, mas vota sempre na esquerda, ao contrário de seu patrão, Bill Ferrer, reacionário e eleitor tucano. Só que a situação está tão grave que Ferrer chega à conclusão que tem que votar na oposição para ver se muda alguma coisa.

Isso aparece num “lado B” das histórias, nos diálogos entre eles. Ferrer só fala em dólares, o dinheiro que respeitava, e que chegava no final de 2002 a quase R$ 4,00, por causa do medo dos investidores sobre uma possível eleição de Lula para a presidência.

Relendo os originais, fiquei me lembrando do segundo mandato do governo FHC, pois esse volume foi escrito no último ano de governo dele.

O desemprego crescia, havia uma falta geral de perspectiva, um pessimismo danado, um medo do futuro. Lembro-me que entre as pessoas que eu conhecia as mais otimistas achavam que não piorariam de vida nos meses seguintes.

Parecido com hoje? Não acho que o Brasil esteja uma maravilha, mas gostaria que certos tucanos, devotos do “mercado” e muitos jornalistas lessem esse livro. Não vai acontecer, claro. E se algum ler é capaz de me chamar de “petralha”, embora eu nem seja petista. Deixei de ser em 1994, quando o PT abandonava propostas geradas em sua origem e se adaptava ao quadro político existente. Deixava de ser um partido diferente dos outros para ser cada vez mais igual a eles, com vernizes de esquerda.

Adotou um discurso moralista que, como previ e fui muito xingado por isso, daria com os burros n’água.

Bom, vamos ao enredo dos três contos, deixando um pouco de lado esse “lado B”, com histórias paralelas que servem mais ou menos para contextualizar as histórias.

No primeiro caso, À procura de um Zé, Ferrer é contratado para descobrir o assassino de um velho fazendeiro de Mato Grosso do Sul, encontrado agonizando num terreno baldio do bairro do Tucuruvi, em São Paulo. Uma historinha paralela envolve seu auxiliar Vasconcellos, que vive cantando a prima que topa transar com todo mundo, menos com ele, agora tem um começo de paquera com uma policial.

O segundo caso, que leva o título do livro, Pamonhas de Piracicaba, trata de roubo de cargas de carne e troca clandestina de carne de gado especial por outras comuns, para uma rede de churrascarias. O título que não tem nada a ver com isso se deve ao fato de naquele ano serem muito frequentes as kombis anunciando as famosas “pamonhas de Piracicabas” e incomodando Vasconcellos, azucrinando os ouvidos de muita gente. O clima de desânimo, corrupção como cultura e falta de grana já aparece aqui com certo destaque. Vasconcellos acredita que terá um trunfo que fará a prima cobiçada cair nos seus braços, mas isso é outra coisa. Será que conseguirá?

No terceiro, com tamanho dos dois primeiros somados, Onde está o Abreu? Você não sabe? Nem eu!, investiga-se o sumiço de um líder empresarial, o Abreu, sequestrado um ano antes no consultório de uma dentista. Estaria morto? A polícia e outros detetives tentaram em vão descobrir o que aconteceu com ele. Aí a família recorre a Bill Ferrer, que já estava quase fechando sua agência de detetives por falta de clientes.

Neste conto, fica evidente o clima político e econômico da época. Dólar subindo de preço exageradamente e uma falta de perspectivas tão grande que até o reacionário Bill Ferrer resolve votar na oposição para ver se as coisas melhoram.

Discussões políticas e safadezas entremeiam os textos.

Se descobrem o Abreu? Bom… Compre o livro e veja.

Lançamento de Pamonhas de Piracicaba e outras histórias (Editora Limiar)
dia 24 de setembro | quarta-feira | a partir das 18h30
Restaurante Canto Madalena
Rua Medeiros de Albuquerque, 471 | Vila Madalena | São Paulo

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Viagem ao seio materno

14.09.28_Viagem ao seio maternoPor Roniwalter Jatobá.

Numa madrugada fria, no Jardim Helena, em São Miguel Paulista, o trabalhador da construção civil Jacinto Ferreira da Silva sonhou que voltava para sua terra de origem, depois de trinta anos em São Paulo. E tal como em muitos sonhos, havia milagres.

Era um homem bem-sucedido, tinha posses. Nada que lembrasse os dias difíceis, o trabalho em turnos, o trem lotado e caindo aos pedaços, nem as ruas encharcadas e os córregos fétidos ao redor da moradia. Nada que lembrasse esquinas tomadas de lixo, o agonizante rio Tietê e a visão, quando ia para o trabalho, do Jardim Pantanal, onde moradias parecem boiar num horizonte de pesado mormaço. Não, afinal há sonhos onde tudo ou quase tudo é possível.

Num automóvel novo e possante, Jacinto cruza os caminhos para a Bahia. Ficam para trás prédios, depois pastagens e morros. Minas Gerais passa pelo vidro da janela, os olhos cansam nas retas das estradas baianas. Era julho em Bananeiras, tempo de chuvas finas que começam cedo e varam o dia inteiro. Depois de Senhor do Bonfim, deixa a estrada de asfalto e entra no caminho de terra no rumo do lugar onde nasceu.

Vista de longe, sua cidade parece mesmo um mundo perdido, descoberto por acaso. Uma só estrada: por ela se vai e por ela se vem. Cruza com lavradores que carregam enxadas nos ombros e tocam animais carregados de mandioca. Buzina alegre, respondem tristes. Já bem perto, atravessa a ponte de madeira que estrala com a passagem do carro sobre o rio Aipim, onde mulheres lavam roupas e vasilhames junto no leito enlameado.

O Santana preto sobe sem resfolegar a ladeira calçada de pedras, cercada de muros brancos, que leva ao arruamento. Ao longe, ao sul, a montanha azulada, que compõe a serra do Espinhaço, debruça sua gigantesca sombra pelas planícies cheias de verde. Ao centro, a igreja arrodeada de moradias seculares.

Jacinto pára o automóvel junto à igreja, já cercado de crianças maltrapilhas, que, indiferentes à chuva, buscam um trocado. Ele abaixa o vidro:

Onde mora dona Emília?

– Os garotos se entreolham, nenhum sabe a resposta.
– Nasci aqui – diz patético.

Em seguida, dirige contornando a praça até encontrar uma mulher debruçada numa janela. Os olhos dela fitam perdidos a chuva fina, alheios à presença daquele homem dentro do carro, tão fino, que ela sabe quem é.

– Conhece dona Emília?

Ela faz que não escuta. Logo, descruza os braços e fecha a janela. Jacinto desliga o motor e, por minutos, fica ouvindo o barulho da chuva gotejando sobre a capota do carro. Recorda das noites de verão de sua infância, sentado com a turma nos degraus da igreja ainda quentes pelo calor do sol. Chega mais gente vinda da roça.

Ali, falam do dia-a-dia: o boi mordido por cascavel e encontrado morto na ravina, para alegria de urubus carniceiros; o rio com água rala, corta não corta em alguns trechos, à espera da chuva que nessa época vem carregada de coriscos do lado do mar tão distante; os filhos que vão e vêm do Sul sem descobrir seus destinos; do rio naquela enchente que encheu até cobrir a gameleira copuda na beirada da roça do Antoinho; do Armando que se amigou outra vez e uma semana depois largou aquela fulana do Olho D’água, e agora vive bebendo mais do que antes; da festa de janeiro que a cada dia vai se acabando, o povo sem dinheiro para festa.

Ruas silenciosas agora, sem meninos nem mulher. Só ele ali parado no interior do carro, parecendo um fantasma. De repente, surge uma procissão que caminha lentamente em direção ao automóvel. Ele desce protegendo-se da chuva, homens, mulheres e crianças carregam estandartes e velas apagadas, como num funeral. Cruzam com Jacinto ao lado do carro, apenas a mulher desconhecida olha para sua figura enquanto comenta com as pessoas ao lado:

– É ele.

Depois, dirigindo-se a Jacinto:

– Sua mãe, Emília, morreu enquanto você ficou rico. Vá embora, contra a gente você não tem nenhum poder.

Logo, o grupo desapareceu à frente e, novamente, Jacinto estava só. Tentou lembrar-se comendo mangas redondas e amarelas em janeiro; pescando piaus e lambaris à sombra fria de um bambuzal em fevereiro; acordando na sua casa daquela praça com as folhas dos coqueirais voando contra as outras lembrando um vento forte, e lá fora o sol quentinho, em março; saboreando cajus vermelhos e amarelos em abril… Aí, Jacinto Ferreira da Silva deu alguns passos e entrou em seu carro, molhando com sua roupa o estofamento de veludo azul.

Nesse instante, ele acordou e viu que estava em seu leito. No quarto ao lado, seu filho mais velho grita e, em seguida, um cachorro gane. Assustado com lembranças cravadas na memória, mas ao mesmo tempo feliz pelo despertar do pesadelo, levanta. Sabia que estava atrasado e na certa ia perder o primeiro trem para o Brás. Mesmo assim certifica-se que está acordado: no entreabrir da cortina, avista mais um amanhecer que se debruça sobre sua janela em mais uma segunda-feira paulistana.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Preocupação com o uísque

14.09.18_Flávio Aguiar_EscóssiaPor Flávio Aguiar.

Alguns anos atrás eu fazia a cobertura do Fórum Social Europeu em Paris, para a Carta Maior. Numa das voltas, acompanhava um debate absolutamente morno sobre “minorias sem estado próprio na Europa”. Desfilavam pela mesa sonolentos e lamuriosos (desculpem se estou ofendendo alguém, mas é que os advogados destas causas, lá no debate, eram modorrentos mesmo) catalães, bascos, vênetos, bretões, langues d’oc, frísios, valões, galeses, até bávaros havia.

Eis que se não quando, de repente, não mais que derepente, adentrou o recinto o representante da Escócia. Era um homem gigantesco, caminhando a passos largos com uns meiões de escoteiro, borzeguins enormes, sacudindo o seu kilt, aquele saiote axadrezado que eles usam. Sentou-se à mesa e, para o despertar delirante da platéia, disse aos berros: “Eu vim repartir com vocês o verdadeiro espírito escocês”! E tirou do seu alforje uma, duas garrafas de uísque, dando uma para a atônita mesa depois de sorver ele mesmo um golacho, e a outra deu-a ao público que, como eu disse, já delirava embriagadamente. E daí lascou uma fala vibrante sobre a independência escocesa, que deve ter feito todos os reis passados e futuros da Inglaterra tremerem em seus túmulos.

Lembrei-me deste episódio porque na quinta-feira, dia 18, enquanto esta crônica estiver sendo publicada no blogue da Boitempo, a Escócia estará votando sim ou não à sua independência. As pesquisas apontam resultados apertados para um ou outro lado, diferenças de não mais do que 1 ou 2% em meio a proporções muito grandes de indecisos (pelo  menos 10%).

Confesso minha perplexidade diante do assunto. Movimentos separatistas europeus têm o mau hábito de pender à direita. No caso escocês, no entanto, há forças à direita e à esquerda que apoiam a independência. Sean Connery é pela independência, Mick Jagger contra, o que me faz pender para ela. Além disto, o establishment financeiro europeu e mundial – o mesmo que quer derrubar Dilma Rousseff a qualquer custo (ou lucro, melhor dizendo) – é radicalmente contra a independência.

O FMI ameaça com insolvências. Os bancos escoceses disseram que se mudam para Londres, caso a Escócia fique independente. Empresários anunciam deserções (como na primeira eleição do Lula em 2002, lembram?). A Rainha recomenda cautela. David Cameron afaga com promessas de maior autonomia, e bate na mesa anunciando que a Escócia independente ficará sem a libra esterlina, tendo que inventar outra moeda. Os Estados Unidos são contra. Bill Clinton disse que prefere o Reino Unido unido do  jeito que está.

É claro que nestas preocupações do establishment europeu vai o temor de que se a independência da Escócia sair das urnas, os movimentos separatistas no continente e fora dele vão ganhar impulso: além daqueles acima citados na modorrenta mesa, há os lombardos (estes sim, hoje, à direita), os russos, há a Ucrânia do Leste em efervescência, mais os roma (ciganos), a miríade dos balcânicos, e ainda outros espalhados pelo mundo velho sem porteira, como o Québec, os curdos, províncias na China, e até mesmo me ocorre a pergunta: seriam os palestinos um movimento separatista em Israel?

Há outros fatores que me levam a pender pela causa escocesa. Por exemplo, meu coração farroupilha. Calma, leitores: considero as bolhas separatistas que assomaram no Rio Grande depois da eleição do Collor uma bobagem, algo mais ligado ao fechamento das agências do Banco do Brasil promovido pelo afã privatista do que a algum sentimento histórico. Sou um gaúcho brasileiro, ou um brasileiro gaúcho. Mas não nego que em 1835 eu estaria lutando ao lado das tropas de Bento Gonçalves e do General Netto, de preferência junto às Brigadas de Cavalaria dos Lanceiros Negros liderados pelo bravo Coronel Teixeira Nunes, assassinado pelos imperiais quando a guerra já ia ao fim, contra os imperiais dos insolventes  governos da Regência. Já imaginaram, lutar ao lado de Giuseppe e Anita Garibaldi? Melhor do que lutar ao lado do futuro Duque de Caxias, não é mesmo? Bom, pelo menos me restou o consolo de fazer isto no meu romance Anita, aliás, premiado no Brasil.

Também não nego que em décadas passadas, quando houve dois jogos no Beira-Rio entre as seleções do Brasil e do Rio Grande (que felizmente terminaram empatados) torci desbragadamente por esta. De quebra, foi um prazer ouvir as sonoras vaias num dos jogos – em plena ditadura – quando foi anunciada a presença do general presidente de plantão que, por sinal, para variar, era gaúcho!

E quando mais não seja, sacudir a City Londrina, Downing Street no. 10 e o Palácio de Buckingham, e sacudir ainda Frankfurt-am-Main, sede do Banco Central Alemão, e também o Banco Central Europeu,  me são coisas simpáticas.

Vamos ver o que acontece.

De todo modo, confesso aqui à socapa que naquele dia no modorrento debate sacudido pelo terremoto escocês, consegui passar a mão na garrafa e brindar à independência da Escócia ou do uísque, ou de ambos, já não lembro bem.

14.09.18_Flávio Aguiar_Escóssia_2

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Um mutirão antineoliberal para salvar o Brasil de nova devastação

14.09.18_Emir Sader_MutirãoPor Emir Sader.

A forma da campanha eleitoral mudou: Aécio foi substituído pela Marina como candidato da oposição. A simples contraposição entre os governos do PT e do PSDB desenha uma derrota já no primeiro turno para a oposição, a quarta consecutiva.

O mais que suspeito acidente aéreo – caixa preta não gravou, mas a população viu um avião caindo em chamas, indicando que houve a explosão de algum artefato no seu interior – que levou à substituição da candidatura do PSB mudou o quadro eleitoral na sua forma, mas seu conteúdo segue o mesmo, conforme Marina assume teses ainda mais explicitamente neoliberais.

O Brasil mudou, principalmente no plano social e econômico, também no plano político, mas os valores deixados pelo neoliberalismo não foram substituídos por valores alternativos. E nisso, falharam todas as forças antineoliberais.

Falhou o governo, porque não desenvolveu sistematicamente um discurso explicativo sobre o significado das suas políticas de superação do neoliberalismo. Falhou por não avançar nada na democratização dos meios de comunicação, que impedisse que a máquina monopolista da mídia seguisse perpetuando esses valores e desvirtuando o sentido das políticas do governo.

Falharam os partidos de esquerda – os que apoiam o governo e os que o criticam –, assim como os movimentos sociais, porque não fizeram desse tema sua ação central nestes anos em que logramos colocar o neoliberalismo na defensiva pelas políticas sociais do governo. Mas não foi desenvolvido um trabalho de massas no plano ideológico, que ajudasse a consciência social do povo em relação às imensas e progressistas transformações que vive o país.

Esse trabalho não poderá se desenvolver satisfatoriamente na campanha, mas é preciso concentrar em desmascarar as teses do “nem direita, nem esquerda”, “nova política”, para centrar a agenda da campanha no modelo neoliberal e nas propostas e programas antineoliberais.

A campanha será uma disputa de agenda: a Marina tentando centrar na desqualificação do Estado – do mandato do PT, da Petrobras – e na suposta superação da polarização PT-PSDB. A campanha da Dilma tem que se centrar no modelo neoliberal de que a Marina, mais além dos envoltórios, representa de forma ortodoxa.

Um imenso mutirão popular antineoliberal é o que pode levar a mais uma derrota da direita e à continuidade e aprofundamento do projeto iniciado por Lula em 2003.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.