Arquivo da categoria: Colunas

Não existe bala perdida. Sobre as prováveis violências policiais no Brasil

joão violência policialPor João Alexandre Peschanski.*

Este artigo foi escrito como texto-base para participação no debate de lançamento do livro Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação, em 29 de julho de 2015: “Violência policial: causas, efeitos e soluções”. Nele, proponho uma discussão, a partir da sociologia, sobre o papel da violência do Estado nas relações sociais e nas estratégias de transformação política. Ele pode ser lido como uma continuidade daquilo que, com o cientista político Renato Moraes, desenvolvi no capítulo “As lógicas do extermínio”, do livro. Nesse sentido, o artigo trata menos as “causas” da violência policial e mais seus “efeitos” e “soluções”, como diz o título do debate.

* * *

A expressão violência policial está na base de uma questão clássica da sociologia política: Como as pessoas se localizam em relação ao Estado? Há um princípio de estratificação, uma tecnologia política de divisão social, que se funda a partir da relação com a violência em nome do Estado. A experiência com a violência policial torna-se, na nossa sociedade, um atributo que distingue as pessoas – entre aquelas que sofrem ou são passíveis de sofrer com maior probabilidade violências policiais e as que não sofrem ou têm menos chance de sofrer violências policiais – e pode ensejar consciências distintas, mas espero não inegociáveis, da política para a transformação social.

A violência policial é um elemento constitutivo da própria definição de Estado moderno, nos diz o cientista político Guaracy Mingardi na “Apresentação” do livro Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação. Isso não é um julgamento de valor de Mingardi, ou de Weber a quem ele cita, mas a identificação de uma regularidade na história política mundial. A capacidade de controlar racionalmente populações sobre um território e defender esse território em situações de agressões externas marca o processo de unificação e centralização administrativa das formas políticas avançadas. Quando Weber diz que o Estado moderno detém o monopólio da violência, o que inclui uma ordem civil policiada, ele remete à ideia de que, na ecologia de várias formas políticas que existiam principalmente na Europa de outrora – formas imperiais, cidades-Estado, confederações de principados, soberanias familiares –, a mais apta a desenvolver-se foi o agrupamento político que estabeleceu exército e polícia. A ordem civil policiada – o que sugere o uso ou a ameaça do uso da violência policial em situações de interesse do Estado – é, portanto, um marco no processo de constituição do Estado tal qual nós o entendemos hoje em dia.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Independentemente da forma como a violência policial ou a ameaça de violência policial se manifesta nas sociedades modernas – e, no caso brasileiro, a violência policial se manifesta como “genocídio estatal”, nos termos dos representantes do Movimento Independente Mães de Maio que assinam um capítulo em Bala perdida –, a violência policial influencia no modo como as pessoas se localizam em relação ao Estado. As pessoas em todas as sociedades distinguem-se pelo modo como o monopólio da violência age sobre elas, como o Estado age sobre elas.

A violência policial, característica do Estado moderno, distingue os habitantes de um mesmo território, estabelecendo entre eles um sistema de estratificação. Obviamente, a distinção em relação ao Estado é permeada e interage dinamicamente com outras relações de poder, o que, na perspectiva da pessoa que é submetida a várias opressões, torna sua vida uma sequência de violências. Mas existe uma estratificação com relativa independência definida pelo modo como as pessoas estão colocadas em relação à violência estatal.

A violência em nome do Estado discrimina suas vítimas em potencial. Não existe bala perdida, realmente. Existem balas provável e improvável. No Brasil, sabemos, a violência provável é contra jovens homens negros e pobres. A lógica da violência provável contra pessoas com esses atributos, e a crescente probabilidade de ser alvo de violência quanto mais próximo se estiver de um ou mais desses atributos, é um tema central da sociologia hoje, que busca analisar as variações no genocídio estatal. E variações há em todos os extermínios: Por que, em alguns campos de extermínio nazistas, se matou mais intensivamente do que em outros? Por que algumas áreas nos vários conflitos na ex-Iugoslávia tiveram mais assassinatos de civis do que outros? Na ditadura Duvalier no Haiti, quando 300 mil pessoas foram assassinadas pelas forças armadas do regime, por que se matou mais em algumas áreas do que em outras?

Um efeito sociológico da violência estatal tal qual se manifesta no Brasil é que opera rupturas em setores sociais, o que serve como tecnologia política para impedir a solidariedade em torno de causas comuns. A história é repleta de ilustrações desse tipo de situação. Nos Estados Unidos, as leis de trabalho contribuíram para que trabalhadores brancos discriminassem trabalhadores afro-americanos, fomentando uma cisão da classe trabalhadora a partir de uma linha racial. É essa a crítica que faz W. E. B. Dubois, um teórico marxista afro-americano, que acusa os sindicatos estadunidenses de, ao defenderem seus privilégios brancos, perpetuarem a estrutura de classe em que são explorados. No Haiti, a racialização – lembrando que se trata sempre de uma construção social – deu-se entre pessoas da mesma origem histórica, exescravos, mas com posições políticas diferentes em relação à intervenção estadunidense no país, no início do século XX. A cisão entre os ditos Nèg e Mulat haitianos ensejou uma literatura importante de recuperação positiva da origem africana, por exemplo Jean-Price Mars, mas também de intensa violência racial, quando François Duvalier, não por acaso um etnógrafo especialista em ritos africanos, assume o poder.

Somos permanentemente divididos para sermos conquistados e quanto mais se aprofunda o estado de exceção mais a cisão em torno da relação com o Estado cresce. A distopia é o filme Blade Runner, quando a diferença entre policiais e seus pares e policiados é tão gritante que se tornam espécies distintas. A distopia é também sobreviver no inferno, clandestino, sob o risco de intervenção violenta do Estado, em permanência. Isso é o Brasil.

A cisão social que o Estado brasileiro promove – que determina aqueles que serão potencialmente mais vitimados pela violência policial – pode motivar, entre lutadoras e lutadores do povo, pelo menos duas principais formas de atuação política. A primeira, que talvez tenha entre seus principais defensores o martinicano Frantz Fanon, autor do importantíssimo Os condenados da terra, preconiza, por um lado, o acirramento da cisão, a aceitação da estratificação, e, por outro lado, a valorização e organização independente dos subalternos. A obra de Fanon, redigida no contexto da luta anticolonial, toma como ponto de partida analítico a cisão entre mundos:

“O mundo colonizado é um mundo dividido em dois. A linha divisória, a fronteira, está indicada pelos quartéis e pelos postos da polícia. Nas colônias, o interlocutor válido e institucional do colonizado, o porta-voz do colono e do regime de opressão é o polícia e o soldado”.

A estratificação torna-se exclusão recíproca e o processo de transformação depende de acumular forças suficientes para vencer o outro lado.

“Esse mundo em compartimentos, esse mundo dividido em dois, está habitado por espécies diferentes. A originalidade do contexto colonial é que as realidades econômicas, as desigualdades, a enorme diferença dos modos de vida, não chegam nunca a esconder as realidades humanas. Quando se compreende no seu aspecto imediato o contexto colonial, é evidente que o que divide o mundo é sobretudo o facto de se pertencer ou não a tal espécie, a tal raça. Nas colônias, a infraestrutura é igualmente uma superestrutura. A causa é efeito: se é rico porque é branco, se é branco porque é rico.”
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Disponível online aqui.

Fanon é de uma tradição realista da esquerda revolucionária. Isso quer dizer que diagnostica o mundo como ele é e desenvolve a linha de atuação política como permanente construção do sujeito revolucionário. A luta de libertação é um exercício de violência contra aqueles que violentam. O grande mérito dessa tradição é estabelecer o norte da organização popular, valorizando aquilo que é criminoso e chulo na perspectiva dos exploradores. O grande risco dessa tradição é acentuar, sob o signo do realismo, daquilo que se tem no real, rupturas socialmente construídas, isto é, ver o inimigo onde ele não está.

A posição menos relevante que a tradição revolucionária de Fanon enseja é a brutalidade pós-moderna. A partir do momento em que se reconhece e se positiviza a cisão, a luta política torna-se o reconhecimento não de uma, mas de um sem-fim de cisões, que eventualmente se chocam contra a ordem dominante, mas também se brutalizam entre elas. É a situação em que o protagonismo não é o objetivo de uma construção comum, mas está reivindicado em todos os espaços, de antemão. Criam-se hierarquias entre as estratificações, em que há protagonistas que podem mais do que outros, em que só se fala se há sofrimento realmente reconhecido. Aos outros, nessa linha, resta aos outros, fora desse grupo cindido, mas também daquele outro, mas não daquele outro, de negociar espaços e, quando desvalorizado, por não ser o protagonista socialmente aceito, assumir sua culpa. Tudo isso é inócuo, penso.

A segunda forma de atuação política é a construção permanente do aprofundamento democrático. É uma chave política utópica e tomo a licença de ler o comentário de Eduardo Suplicy, em Bala perdida:

“Para superar a criminalidade violenta e da polícia, lembremo-nos dos ensinamentos de Thomas More, em Utopia, em 1516, ao refletir que a pena de morte não havia contribuído para diminuir assaltos, roubos e assassinatos: ‘Em vez de infligir esses castigos horríveis, seria muito melhor prover a todos algum meio de sobrevivência, de tal maneira que ninguém estaria se submetendo à terrível necessidade de se tornar primeiro um ladrão e depois um cadáver. É preciso pôr em prática: Educação e Renda Básica de Cidadania”.

A democracia, o poder de decidir sobre aquilo que me diz respeito, com especial poder e capacidade quando o assunto me disser muito respeito, é o princípio da superação da cisão artificialmente construída, como a que nos distingue entre pessoas mais e menos prováveis de sermos vítimas de violência policial, por meio da universalização plena e empoderada de direitos.

A utopia de Suplicy, e dessa tradição que ele manifesta, é que, num primeiro momento, teoriza o mundo desejável e viável do futuro – o “não-lugar”, ao qual devemos nos orientar – e, feita a teoria, propõe na política tudo aquilo de que precisamos para chegar lá. O caso da Renda Básica de Cidadania é fundamental, pois universaliza um direito, de ter garantido o suficiente para ter uma vida modesta, mas digna, do interesse real de toda a população, independentemente das tecnologias de cisão que são impostas. O modo como você se posiciona em relação à Renda Básica de Cidadania é um determinante real de seus interesses de classe.

Fanon e Suplicy não estão aqui como uma oposição, até porque a pedagogia da esperança que norteia esses dois autores é complementar. A radicalização dessa complementaridade, a democracia profunda, o igualitarismo radical pela esquerda, é a solução para o estado de exceção, é a parte seguinte desse capítulo desgraçadamente violento de nossa constituição social. A falta de perspectiva, o desespero como fundamento da política, é apenas uma expressão da exceção e eventualmente seu recrudescimento.

dossiÊ violência policial

Confira o dossiê especialViolência policial: uso e abuso, no Blog da Boitempo, com artigos, reflexões, resenhas e vídeos de Ruy Braga, Slavoj Žižek, Antonio Candido, Luis Eduardo Soares, Edson Teles, Mauro Iasi, Christian Dunker, Gabriel Feltran, Maurilio Lima Botelho, Marcos Barreira, José de Jesus Filho, Guaracy Mingardi, Maria Orlanda Pinassi, David Harvey, Vera Malaguti Batista, Laurindo dias Minhoto e Loïc Wacquant, entre outros.

***

João Alexandre Peschanski é sociólogo, editor-adjunto da Boitempo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colaborou com os livros de intervenção da Coleção Tinta Vermelha da Boitempo Occypy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012), Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (2013) e Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (2015). Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.

O cansaço e a luta

15 07 31 Luis Felipe Miguel Luta e cansaçoPor Luis Felipe Miguel.

Numa tirinha da Mafalda, Felipe lê a inscrição no pedestal de uma estátua, que descreve o homenageado como “lutador incansável” – e desdenha, afinal difícil mesmo é “estar cansado e continuar lutando”. É a sensação do momento, a de uma fadiga enorme e de uma também enorme força de vontade para não abandonar uma batalha em que a única vitória que se almeja é não recuar mais.15 07 31 Luis Felipe Miguel Luta cansaço

As forças armadas deixaram o poder no Brasil há mais de 30 anos. Sob certo ponto de vista, nossa transição democrática é um sucesso. Há uma ampla inclusão política formal e ampla liberdade de dissenso, que representam os dois eixos da democratização, segundo a teoria de Robert Dahl. A censura estatal acabou e o aparelho de repressão política do Estado parou de funcionar; quase não há mais prisioneiros políticos e a tortura contra eles foi abolida (embora, é verdade, não contra os presos comuns). Para tristeza de alguns, as intervenções militares são uma hipótese afastada, pois parece haver um amplo consenso, entre as forças políticas, de que o voto é o meio por excelência para constituir governos. Os principais grupos de interesse agem por meio dos poderes instituídos, não à margem deles. A democracia se apresenta, assim, como “the only game in town” (o único jogo disponível na cidade), o que, na visão de autores como Juan Linz ou Alfred Stepan, indicaria a consolidação democrática.

Sob outras perspectivas, porém, o balanço é menos positivo. Por um lado, a luta contra a ditadura canalizava um conjunto de expectativas de efetiva transformação social que acabaram frustradas. Há uma música que encarna isso – “Tô voltando”, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, saudação à volta dos exilados, na forma de um samba pra cima, cheio de esperança. O fim da ditadura anunciava a possibilidade de um país mais alegre, mais justo, mais solidário. Esse país se anunciou na campanha das Diretas, se anunciou na vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, se anunciou na Constituição de 1988 e se anunciou, por fim, na vitória do PT e nos governos de Lula, mas não veio nunca.

Até aí, nada demais. Até aí, estamos no script de cientistas políticos conservadores, como Giovanni Sartori, que dizia que era necessário inflar as expectativas sobre o que a democracia poderia fazer, antes dela ser alcançada, e reduzi-las brutalmente depois. Mas há também o “por outro lado”. Se, por um lado, as esperanças presentes na luta contra a ditadura foram malogradas, por outro as próprias instituições políticas democráticas, que nessa visão conservadora deveriam ser o alfa e o ômega de qualquer projeto de sociedade, mostram-se mais do que frustrantes.

Embora, graças aos últimos escândalos, o reinado de Eduardo Cunha comece a ruir, continuamos – após 30 anos de democracia – com a pior representação parlamentar da história, campeã negativa em qualquer critério que se escolha: integridade, esclarecimento, capacidade intelectual. Não foi Cunha, sozinho, que fez vitoriosa a pauta retrógrada dos últimos meses. Contou com uma sólida maioria de deputados. Todos eleitos pelo povo e, mais do que pelo povo, por polpudos financiamentos de campanha. Da democracia à plutocracia, parece, o caminho é curto. Ao lado desse Legislativo, um Executivo que vive atolado na corrupção e um Judiciário sobre o qual pesa a suspeita de ser muito seletivo em suas ações.

É um sistema político que impõe, a quem quer nele triunfar, uma lógica perversa. O PT, que emergiu do final da ditadura como a principal esperança para a transformação do Brasil, sucumbiu a essa lógica – talvez pelo cansaço. Ele representou um experimento muito especial para as esquerdas no Brasil e mesmo fora dele. Marcou a renovação da prática e do discurso da esquerda brasileira. Sob a liderança (por vezes autoritária e equivocada, mas aportando um valioso elemento de autenticidade) de Lula, brotava uma nova forma de fazer política popular, com todas as promessas e equívocos de algo ainda em construção.

O diferencial que Lula e, por tabela, o PT traziam à cena política brasileira era, como Haquira Osakabe disse certa vez, uma “palavra imperfeita”. Imperfeita não apenas porque transportava para a arena política, de forma inédita no Brasil, a prosódia e a sintaxe próprias das classes populares. Imperfeita sobretudo porque não se prendia às fórmulas acabadas, aos modelos prontos das esquerdas tradicionais e, muito menos, das elites estabelecidas. Queria se alimentar da experiência vivida dos trabalhadores e dos embates cotidianos dos movimentos sociais. Mas, conforme o tempo passou, o discurso e a prática do PT se “aperfeiçoaram” – isto é, adaptaram-se aos padrões da política dominante, em forma e em conteúdo. Os padrões do toma-lá-dá-cá, do tráfico de influência, dos acertos de bastidores e, em especial, de um jogo político em que tudo, absolutamente tudo, é feito para que as pessoas comuns fiquem à margem dele.

É a acomodação, enfim, a uma democracia que realiza muito mal seu próprio ideal. A democracia remete à ideia de autonomia coletiva, isto é, à produção das normas que regem o convívio social pelas cidadãs e cidadãos que estarão submetidos a elas. Com o desenvolvimento histórico do ideal democrático, a noção de cidadania ganhou um inequívoco caráter inclusivo, incorporando não-proprietários, mulheres e minorias étnicas. É contra o pano de fundo deste modelo, ainda que se aceite que ele jamais será realizado em plenitude, que se avaliam os regimes políticos que se dizem democráticos. A redução da democracia a um procedimento – a seleção dos governantes por via eleitoral – é arbitrária, contrabandeando, em geral sem explicitá-la ou fundamentá-la, a percepção de que há alguma relação necessária entre este mecanismo e o ideal democrático.

Se a concorrência eleitoral é um elemento inescapável de uma ordem democrática nas sociedades contemporâneas (e tudo indica que sim), ainda é necessário discutir até que ponto os representantes estão vinculados aos interesses de seus constituintes, se as eleições se estabelecem de fato como um momento em que a cidadania marca suas opções para o futuro coletivo, se ao povo comum é concedido algo mais que uma posição passiva no jogo político. Como mecanismo, a eleição não possui valor intrínseco – a não ser, talvez, o de exilar o uso da violência aberta na disputa pelo poder, se bem que outros métodos, desde que reúnam suficiente consenso social, cumprem o mesmo objetivo. Seu valor depende da capacidade de viabilizar objetivos que estão além dela.

Por isso, a igualdade política, numa democracia que se aproxime de seu sentido normativo, deve ser entendida de maneira mais exigente. Não basta ser uma igualdade formal, consubstanciada no peso idêntico dos votos individuais ou no fato de que, oficialmente, todos têm o mesmo direito de se candidatar aos postos de governo. A igualdade democrática requer a redução dos diferenciais de poder político e a eliminação das barreiras estruturais que forçam grupos sociais inteiros à passividade, à apatia e à abstenção.

Colocada a discussão desta forma, vários de seus elementos ficam deslocados. A redução do universo de alternativas em jogo, com a moderação dos “radicais” e a convergência de todos os atores relevantes num “centro” inflado, que em geral é saudada como demonstração de “amadurecimento” da democracia e passo importante no rumo da consolidação, pode ser vista pelo avesso, sinalizando a banalização da controvérsia política e o esvaziamento das opções submetidas ao escrutínio popular. A desmobilização política, que reduz as pressões sobre os governantes, faz decrescer o grau de conflito e amplia a estabilidade do sistema, indica também a capitulação dos grupos desprivilegiados diante da impermeabilidade das instituições às suas demandas.

Não se trata de negar a importância de garantir que o conflito permaneça em níveis administráveis ou que o governo possua, de fato, capacidade governativa. Mas reduzir a preocupação a esses aspectos, como costuma fazer a literatura vinculada à questão da “governabilidade”, significa retirar da discussão os aspectos que estão de fato associados à democracia. Por isso, não basta averiguar a quantas anda a “consolidação” – um conceito, por si só, ambíguo – da democracia. É necessário investigar a qualidade desta democracia, isto é, em que medida ela consegue realizar as promessas de autonomia coletiva, cidadania inclusiva e igualdade política.

Não é possível dizer que estejamos bem nesses quesitos. No Brasil, como por todo o mundo, os interesses do capital comandam as decisões políticas. O exemplo dramático da Grécia diz tudo: ainda que o povo grego tenha afirmado em plebiscito sua recusa, o governo (“de esquerda”) foi obrigado a aceitar as imposições de um plano de “ajuda econômica” que simplesmente suspende a soberania do país. Programas de ajuste fiscal, como se vê hoje na Grécia, no Brasil, na Espanha, em tantos lugares, apresentados como necessidades naturais, sujeitam milhões de pessoas a privações, ao abandono de projetos de vida, à redução de horizontes, sem que seja dado a elas o direito de opinar. Como diz a escritora espanhola Belén Gopegui, em seu belo romance recente El comité de la noche, “estão nos roubando os dias, um a um”.

O romance fala de pessoas que, na Europa, tentam impedir a legalização do comércio de plasma sanguíneo – uma Europa em que, a leste ou oeste, a decadência dos serviços públicos e a ampliação do império do mercado fragilizam a vida das pessoas. A luta das personagens do livro é para garantir limites ao desmonte do Estado de bem-estar, assim como aqui, no momento, parece que não aspiramos a mais do que evitar retrocessos: evitar o fim da CLT, evitar a redução da maioridade penal, evitar uma “reforma política” catastrófica, evitar a degradação da laicidade do Estado, evitar o aniquilamento total das políticas sociais que, com todos os seus limites, foram adotadas nos governos petistas. “No capitalismo” (e aqui cito outra frase do livro de Gopegui), “o dinheiro não é um meio de troca, é violência”. É essa violência que coloniza cada vez mais os diferentes espaços da vida social e é contra ela que, mesmo cansados, é preciso continuar lutando.

***

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

O mês do cachorro louco

izaías almada boitempoPor Izaías Almada.

A mídia chama de “impeachment”. A blogosfera progressista de golpe de estado à paraguaia. A questão semântica não vem ao caso, mas o tema de uma possível ação contra a presidente Dilma Rousseff é um dos assuntos mais comentados no Brasil e até no exterior. E quais as razões para essa já quase paranoia?

Impossível deixar de ler e ouvir as opiniões de “especialistas” e de gente mais séria, onde variados motivos são invocados para uma ação que colocaria uma presidente para fora do governo para o qual foi eleita democraticamente.

“Enganou aos eleitores” dizem ao mesmo tempo opositores e apoiadores do governo. “Maquiou um Brasil que não existe”, diz a direita. “Traiu os trabalhadores”, diz a esquerda. “Nunca se viu tanta corrupção diz a direita”, conveniente e hipocritamente esquecida de quem é.

E o coro dos descontentes, segundos “pesquisas” feitas não se sabe muito bem onde, diz que a presidente tem, no momento, menos de dez por cento de apoio do povo brasileiro. Será isso mesmo?

Quando um partido como o PSTU diz que primeiro é preciso tirar a presidente do governo e depois defender os direitos dos trabalhadores, a paranoia ganha novos ares e a insensatez vai ganhando novos contornos.

Com o advento da internet e das chamadas redes sociais, fica difícil – senão mesmo impossível – saber o que está acontecendo de fato, pois a mídia insiste em criar um país à beira da falência e os progressistas da internet falam desse Brasil escondido e que irá surpreender a muitos ainda no segundo semestre.

São análises baseadas em fatos e estatísticas confiáveis ou vai sendo tudo na base do “chutômetro”? Entre mortos e feridos parece que não se salva ninguém.

No plano institucional o país é um verdadeiro saco de gatos, tendo nesse momento permitido que um departamento de polícia criasse um poder paralelo e seus integrantes, ultrapassando os limites legais, saiam como verdadeiras vedetes de teatro de revista, à procura do aplauso e do sucesso a qualquer preço. Sobretudo agora com a prisão de um militar da reserva.

O Congresso Nacional, que se divide em algumas sessões vazias e outras sob o clima de espetáculos circenses, vai se acostumando a desafiar os outros poderes da república sob a batuta de um fundamentalista religioso e seus fanáticos seguidores, esses – sim – aloprados. O país não pode ficar refém de seitas religiosas. Ou virou brincadeira, deboche?

Achaques, chantagens, ameaças veladas ou não vão se acumulando no dia a dia político nacional num espetáculo tão degradante ou mais do que a suposta “limpeza moral” a que se propõem seus protagonistas e mandantes. Ambiente mais do que propício ao lixo produzido pela mídia atual, sem o menor escrúpulo para levantar suspeitas sobre qualquer cidadão, seja ele suspeito ou não de algum crime.  

Nessa proposital confusão, até data já marcaram para o tal “impeachment” ou golpe de estado: o mês de agosto. O mês do “cachorro louco”, como se dizia nos tempos de 54 e 64. E uma operação policial estanca o país há um ano ou pouco mais. Será que o propósito é mesmo, como querem alguns de seus defensores, livrar o país da corrupção? Só um idiota acreditaria em tal baboseira.

E por qual razão já não fizeram isso na década de 90 ou na de 80 ou na construção de Brasília, por exemplo? Outros tempos, outros atores, outras circunstâncias? Mas motivos nunca faltaram.

Os que gostam de uma teoria da conspiração acham estranha coincidência essa que, através de delações premiadas, vai colocando sob suspeita um tripé muito estratégico para a soberania nacional: a Petrobrás, a indústria naval de submarinos nucleares e a maior empreiteira, responsável por obras também estratégicas para o desenvolvimento e a segurança do país. É preciso punir a corrupção, não o país. Só não vê quem não quer, ou os donos da verdade, seja de um lado ou do outro.

Depois de amanhã já é agosto. Vamos ver o que dá…

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O mundo louco de Basil Wolverton

15 07 24 Luiz Bernardo Pericás Basil Wolverton BoitempoAUTO-RETRATO DO QUADRINISTA, CARICATURISTA E ILUSTRADOR BASIL WOLVERTON (1909-1978).

Por Luiz Bernardo Pericás.

Os desenhos mais estranhos que você já viu. Talvez esta seja uma boa forma de definir a arte de Basil Wolverton, um dos mais influentes cartunistas do século passado, que chegou a ser chamado de o “Michelangelo da revista Mad”. Houve quem tivesse nojo de sua obra e a qualificasse como “feia”. Outros o achavam genial e viam em seus trabalhos uma força ímpar, a expressão de uma destreza técnica tremenda, sem igual.

wolverton scifi

Wolverton vendeu seu primeiro cartoon em 1926, quando ainda era estudante do colegial. Depois vieram muitos, muitos outros… Quem pegar um gibi do Spacehawk, da Space Patrol ou do Rocketman terá certeza de que está diante de um artista com um traço diferente de qualquer outro de sua época.

space patrol

Suas HQs de terror e ficção científica eram verdadeiramente sensacionais (só nos anos cinquenta prepararia dezessete revistinhas para a Marvel). O leitor que tiver a oportunidade deve dar uma olhada nas emblemáticas The Brain-bats of Venus, Nightmare World, The Man Who Never Smiled, The Eye of Doom e até mesmo Robot Woman, de 1952, que começava de maneira irônica e provocadora: “Though she was formed of metal and plastic, her creator claimed she was the perfect woman!” [“Embora fosse composta de metal e plástico, seu criador alegava que ela era a mulher perfeita!”].

Robot WomanEye of doomBrain Bats The man who never smiledNightmare World

O visual destas aventuras é tão original que fica-se com a sensação de que basta apreciar os quadrinhos e deixar de lado a própria narrativa…

NIGHTMARE WOLRD, por Basil Wolverton
[clique nos quadrinhos para visualizar a história completa em alta resolução]

Todas essas experiências nos quadrinhos foram importantes, mas provavelmente nada se compararia a um evento específico que marcaria a carreira do ilustrador, tornando-o conhecido em todos os Estados Unidos. Em meados dos anos quarenta, o colega Al Capp, nas historietas de seu personagem mais conhecido, Li’l Abner, se referia constantemente a uma tal “Lena the Hyena” [Lena, a hiena], em teoria uma das mulheres mais horrorosas do mundo (ou melhor, ela seria “the ugliest girl in Lower Slobbovia” [“a moça mais horrorosa da Baixa Slobbovia”])! Mas o cartunista se recusava a mostrar o rosto da personagem, que era sempre tampado com uma tarja branca onde se lia “removido pelo editor”! Afinal, ela seria tão pavorosa que assustaria os leitores! A pressão do público, contudo, chegou a um ponto de ebulição: as massas pediam, recorrentemente, para Capp desvendar a face repelente de Lena. Só que ele travou. Simplesmente não conseguia colocar no papel uma imagem que fizesse jus às expectativas dos fãs. A insistência foi tanta que o desenhista acabou achando uma forma de resolver a questão: lançou um concurso nacional para encontrar o desenho que representasse com maior fidelidade aquela figura repugnante.

lena2

Salvador Dalí, Frank Sinatra e Boris Karloff avaliam a representação de Lena.

Diz a lenda que os jurados da contenda foram ninguém menos que Boris Karloff, Frank Sinatra e Salvador Dalí! Convenhamos, é difícil encontrar um grupo mais heterogêneo e estranho do que este! Pois entre os 500 mil concorrentes que mandaram caricaturas, Wolverton venceu! Sua versão de Lena foi considerada a mais monstruosa e acabou sendo divulgada não só nas tirinhas de Capp como ainda saiu na capa da Life.

lena1

Al Capp finalmente “revela” o rosto de Lena, no traço de Basil Wolverton.

Foi a partir daí que este autodidata nascido no Oregon desenvolveu seu estilo peculiar, tornando-se o rei do “Spaghetti and Meatball School of Design” [escola “espaguete e almôndegas” de desenho]. Sua obra é vasta. Afinal, Basil passou por diversas revistas, como Mad, Cracked (que no Brasil era publicada como Pancada), Mystic, Weird e Plop!

Wolverton poderia ser chamado de um “modernista vulgar”, com um estilo excêntrico, bastante peculiar. Ele explorou o grotesco e o bizarro, rompendo com convenções, usando o absurdo e a loucura em suas explorações estéticas. Certamente atacava as expectativas de um público mais convencional.

Seus personagens, estranhíssimos, pareciam derreter: os olhos esbugalhados saltavam da cara; os dentes, podres e tortos, se projetavam para fora da gengiva; os rostos eram retorcidos, repletos de sulcos e erupções; os cabelos pareciam macarrão… Wolverton mostrava o que havia de mais horrível e, ao mesmo tempo, de cômico, no ser humano. Certamente influenciou vários outros artistas, entre os quais, o próprio Robert Crumb. E continua sendo, sem dúvida, uma fonte de inspiração para os desenhistas da nova geração.

basil wolverton boitempo blog

Gostou? Leia também “Surfista prateado“, sobre o quadrinho americano dos anos 60 e “A rebeldia de Octobriana“, sobre a incrível personagem soviética de HQs, na coluna de Luiz Bernardo Pericás, no Blog da Boitempo!

***

Conhece o Barricada, novo selo de quadrinhos da Boitempo? Como o próprio nome sugere, o selo se dedica a títulos libertários, de resistência, nacionais e internacionais, garimpados por , um conselho editorial composto por Luiz Gê, Ronaldo Bressane, Rafael Campos Rocha e Gilberto Maringoni.

***

Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

As coisas não saíram como nós combinamos

O novo filme de Marcelo Masagão como marco e epílogo narrativo para o ciclo do lulismo brasileiro.

dunker masagãoPor Christian Ingo Lenz Dunker.

O filme Ato, atalho e vento (2015) de Marcelo Masagão é composto por retalhos de 143 filmes montados pelo diretor a partir do encontro com o texto O mal-estar na civilização, de Sigmund Freud. Especialmente no início, ele é um pequeno desafio para cinéfilos, cativados pelas lembranças fortíssimas de imagens de clássicos como Viagem à lua de Méliès ou O homem que não estava lá dos irmãos Cohen. São sequências de divas com Gloria Swanson e Catherine Deneuve, de embarques e desembarques, de navios e de trens. São imagens recursivas como janelas dentro de janelas, viagens dentro de viagens. Lentamente suspendemos nosso impulso narcísico de indexar as cenas com suas histórias originais e somos tomados pela própria mágica da montagem. Passamos então para o momento dos encontros, das pequenas situações, das formas repetidas, da persistência dos movimentos. Somos levados a redescobrir que os próprios atores são o que são: funcionários em busca do melhor ângulo, escravos do gesto perfeito, artesãos da representação, devotos das palmas. Tudo falsidade, ilusão e artifício. É esta a posição enunciativa que se pretende “realista”.

Em outros momentos a estratégia do filme consiste em reter um mesmo ato – por exemplo, correr, comer, olhar ou beijar – variando personagens e paisagens. Somos então confrontados com nossa pobreza de fantasia, tão presente na clínica dos neuróticos quanto na imaginação política de nossa época. O filme nos expõe a miséria de nossa teoria espontânea e intuitiva de que “só mudam as moscas”. De que a vida é apenas uma repetição de um ou dois filmes, essencialmente trágicos, com os quais interpretamos todos os outros filmes que existem, e em geral sentidos como farsas, cópias imperfeitas ou meras confirmações deformadas de suas versões originais. Esta fixação em reencontrar os mesmos inimigos, esta paixão pela identidade do filme, nos poupa o trabalho de, a cada vez, separar moscas e besouros, farsas e tragédias.

O filme de Masagão é um desafio à nossa crença infantil de só há “um e mesmo” filme. Ele quer mostrar, ao contrário, que a essência do filme não é sua continuidade, mas seus pontos de interrupção, que a história é feita de fragmentos reunidos e que os pontos de cruzamento são como ruínas de outros filmes, já filmados ou ainda não filmados. Três exemplos diferentes de como se pode ter visto o mesmo filme antes: (1) o filme de Amarildo parece uma versão do filme de Herzog (2) o filme de Jango é uma versão do novo parlamentarismo peessedebista (3) o filme de Collor é o mesmo filme de Collor.

VALE PARA O CINEMA, VALE PARA A POLÍTICA

vale para o cinema vale para a política dunker boitempo

Consideremos a experiência diária com a crescente revelação de esquemas de corrupção no país. Não é apenas que nos percebemos enganados. Mais do que isso, agora é como se passássemos a saber como o truque é feito. Este é também o tema do filme Ato, atalho e vento: mostrar como o truque é feito, mostrar como se constroem estruturas de ficção contando sempre, a cada vez, dois pontos e um corte entre eles. Mas o curioso é que, nem o filme nem as revelações da corrupção, chegam a despertar em nós a humildade esperada daquele que é enganado diante de forças e recursos mais poderosos. Quase que o inverso, a primeira reação é ativar nosso complexo de diretor, nossa soberba de maestro, este técnico de futebol travestido de comentarista político, escondido em cada um de nós.

Agimos então como o tolo que acredita piamente que agora que ele descobriu como se faz o truque da bolinha em baixo dos três copinhos ele não será mais enganado. O verdadeiro tolo não é o que é enganado, mas aquele que, depois adquire a inabalável convicção, que agora sabe como o truque foi feito. E é na segunda vez que a aposta é mais alta, e é nela que o tombo dói mais ainda. Como dizia Lacan, aquele que se acredita “não tolo”, “não pato” (non dupe), erra. O “não tolo” está sempre perguntando “quem somos nós” e sempre decepcionado por que não foi isso que “nós combinamos”.

Montar cenas e criar efeitos, inverter perseguidores e perseguidos, orquestrar ódios e gerir preconceitos. Tudo parece fácil quando se sabe contar com máscaras, duplos e projeções imaginárias. O mais difícil é entender porque somos tão facilmente influenciáveis e vulneráveis em nosso estado de “esperteza”. O truque dentro do truque é que não somos só dirigidos por interesses alheios como a propaganda, a media, os produtores profissionais de tendências e atitudes, os pregadores das religiões de resultados… O “verdadeiramente tolo” é aquele que acha que sabe como isso tudo “verdadeiramente funciona”.

Contra isso, o filme de Masagão nos lembra que são sempre muitos filmes. Filmes dentro de filmes, montagens entre filmes, planos e sequencias entre filmes. Contra este mar de contingências está lá a posição do “esperto”. É aquele que desconhece que a verdade possui estrutura de ficção. É aquele que quer apreender o Real a baciadas, nem que seja baciadas de sangue, ódio ou de justiça. O tolo que conclui que se o outro está errado, ele obviamente está com a razão. 

BRASIL: QUE CORTE QUEREMOS?

que plano queremos dunker boitempo

A palavra “plano” tem mais de um sentido. No cinema, designa uma tomada da câmera, entre um corte e outro. Em política, designa algo como uma agenda, um conjunto de intenções de realização futura, que pode ou não ser alterado. E na geometria, designa um espaço formado por um ponto fora de uma reta (ou três pontos não colineares). Como se vê, nos três casos um plano define-se pelo seu corte, pela não-linearidade, por pelo menos um ponto de exceção. O filme de Masagão coloca a questão crucial para o momento: qual corte queremos?

Sêneca dizia que para o tolo (stultos) todos os ventos lhe parecem contrários, porque, no fundo ele não sabe para onde vai. O filósofo estoico estava a nos lembrar que o verdadeiro tolo é aquele que acredita solidamente no plano do Outro. Ele pensa que este Outro lhe estaria a enviar ventos contrários, em vez de considerar que os ventos são proporcionais aos seus planos. Aquele que se agarra ao grande plano do Outro manipulador – seja ele a Esquerda, o Diabo, o Encosto ou as Multinacionais – tende a secundarizar que também somos manipulados pelos nossos próprios desejos desconhecidos, ainda que triviais. Aquele que do alto de sua sabedoria de “metido a diretor do filme” proclama que tudo não passa de dinheiro e interesse dos poderosos, que tudo estará bem “se você pagar a conta do cartão de crédito” não abandona sua teoria de que há um e somente um plano em jogo, sem corte, sem interrupções. Ainda que ele seja o plano do pior.

É por isso que se diz que em política não existe vácuo. Em momentos de anomia ou de crise institucional, em momentos de suspensão de sentido somos ávidos por embarcar num novo plano. Somos afoitos para concluir que as coisas não saíram como combinamos. Somos manipulados por nossa paixão por querer criar sentido, direção e continuidade “no filme” ali onde, às vezes, só existem pedaços de cenas selecionados, ainda que não ao acaso. No filme de Masagão até mesmo a morte muda de figura quando ela aparece em um festival mexicano ou pelas lentes de assaltantes de túmulos. Até mesmo uma frase solta como “deixe-me a sós” se presta a dizer qualquer coisa. Somos manipuláveis por pequenas imagens, que agem como fetiches de um filme, há muito visto e esquecido. A sinopse do filme de Masagão não podia ser mais atual: “as coisas não saíram como havíamos combinado”. É por isso que o filme serve como marco e epílogo narrativo para o ciclo do lulismo brasileiro. Subitamente nos apercebemos que “nós já vimos este filme antes”.

Mas ele serve também como antídoto contra o Grande Plano de purificação moral daqueles que pela denúncia governam e que pela denúncia serão governados. Estamos falando da bancada da bala e da bancada da fé (curiosamente coligados), liderados pelo síndico de ocasião e ecoados pelos intelectuais que querem mais prisões e menos escolas… só porque não vimos este filme antes isso não quer dizer que ele seja novo.

Segundo o Velho Testamento as cidades de Sodoma e Gomorra seriam destruídas pelo fogo e pelo enxofre, dado o grande número de pecadores que ali habitava. Ainda que a exatidão de tais pecados permaneça uma controvérsia hermenêutica, simpatizo particularmente com a versão que afirma que eles eram de três tipos: ganância, apego excessivo à propriedade e maus tratos para com os estrangeiros. Não tendo encontrado dez homens justos os descendentes de Abrahão são salvos, mas com uma condição: não deviam olhar para trás. A esposa de Ló desobedeceu transformando-se em estátua de sal. Corte é corte. Está aí esta nossa tendência a olhar e nos apresentarmos diante da cena, sempre como se estivéssemos fora dela.

Vale para o cinema, vale para o Brasil. Aqueles que pediam o impeachment de Dilma agora se veem, eles mesmos, diante da difícil tarefa de convertem-se em estátuas de sal, fazendo valer para a si a lei que antes clamavam para o Outro. As leis de enxofre e fogo passam por truques como a condução oportunista do projeto de lei sobre a redução da maioridade penal, apoiam-se na injustiça, patente e reconhecida, para praticar a vingança. Esta paixão inconsequente pela falta de ética dos outros (estes estrangeiros), este apego à lei como se ela fosse propriedade privada de seu executor, esta ganância por ser o diretor do filme tem que acabar. Isso não se fará apenas invertendo os polos do Grande Plano, nem imaginando que o qualquer oposto de um erro é naturalmente um ótimo acerto.

Nosso momento é de corte e interrupção. Há um grande desejo de que um certo Brasil termine de vez e fique para trás. Quem quiser gozar com sua destruição que olhe para trás e se vá junto com ele. Com os restos destes filmes desejados, talvez possamos fazer outra coisa, como Masagão nos mostrou.

***

***

Christian Dunker debateu “Nacionalismo, identidade nacional e segregacionismo”, com Gilberto Maringoni e Jessé Souza no Seminário Internacional Cidades Rebeldes. Confira a gravação integral da mesa:

***

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012, seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015). Colabora também com o livro de intervenção Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (Boitempo/Carta Maior, 2015). Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Cultura inútil: Sobre mentiras e mentirosos

mouzar benedito mentira palinPor Mouzar Benedito.

Cuide da memória!
Mentiroso não pode errar
Ao recontar a mesma estória

Numa “aula espetáculo” de Ariano Suassuna, a que assisti no Memorial da América Latina, ele fez um discurso a favor da mentira. Não a mentira agressiva, mas aquela que abranda a verdade ou diverte. E disse que ele mesmo mentia: por que falar a uma pessoa uma verdade que a ofende? Melhor mentir e deixá-la feliz.

Tempos depois, numa outra “aula espetáculo”, ouvi de novo seu elogio à mentira e aos mentirosos divertidos. Contou sobre um deles, do agreste pernambucano, que tinha um apiário e vendia mel. Um dia, segundo ele, esse sujeito disse que estava conseguindo produzir o dobro de mel em cada colmeia. O segredo: tinha cruzado as abelhas com vaga-lume, assim elas trabalhavam dia e noite.

O certo é que a mentira e o mentiroso divertem, alegram a vida. Quanto mais absurda, mais divertida a mentira. E tem aquela história: todo escritor de ficção é na verdade um mentiroso, pois os romances são mentiras em forma de literatura, não é?

Mas voltemos aos mentirosos comuns.

Um médico amigo, o Renê, me contou de um mentiroso de uma cidade da região de São José do Rio Preto, no estado de São Paulo. Um dia, ele disse que, numa festa, ficou encarregado de “estourar” uma champagne e antes de tirar aqueles ferrinhos que protegem a rolha, chacoalhou bastante a garrafa, para que produzisse um “estouro” maior. Só que chacoalhou demais. A rolha bateu no teto, voltou e tampou a garrafa de novo.

Esta, pra mim que ouvi muitas mentiras por aí, foi novidade. Mas há mentiras repetitivas, que cada um diz que é do “mentiroso oficial” de sua cidade. Isso mesmo. Em tudo quanto é cidade pequena havia um sujeito que era considerado o maior mentiroso local, e todas as mentiras eram atribuídas a ele.

Uma mentira que se repete em todos os lugares é a do criador de porcos que ficavam cercados ao lado de um rio. Do outro lado do rio tinha uma roça de milho (ou outra coisa qualquer) e o dono disse a ele que seus porcos estavam invadindo a roça e acabando com ela. Ele foi apurar o que acontecia e viu: ele tinha uma plantação de mandiocas e uma dessas mandiocas era tão grande e grossa que passava por baixo do rio e ia até o lado do vizinho. Os porcos foram comendo a mandioca por dentro e acabaram cavando um túnel por ela até a roça do vizinho.

Falando do “mentiroso oficial da cidade”, na minha terra tinha um. Vamos dizer que o nome dele era Zeca. Mas quem inventava a maioria das mentiras e atribuía a ele era um dentista muito gozador. E qualquer mentira nova que aparecia por ali era atribuída a ele. Porém, mesmo sabendo disso, ele continuava com a fama.

E com ele acontecia aquilo de, quando falava a verdade, ninguém acreditava. Uma vez eu estava num bar e ele, recém-chegado de uma viagem ao Paraná, contou que na região em que esteve passava um caminho de índios que ia desde o litoral brasileiro até os Andes. Assim, os índios daqui mantinham contato com os incas. Ninguém riu, porque ele era bravo, mas quando saiu ficou aquela gozação: onde já se viu um caminho de índios do Atlântico até os Andes? Eu mesmo, molecão, achei o maior absurdo. Muito mais tarde, fiquei sabendo que o tal caminho existiu e se chamava Peabiru. O que o Zeca tinha contado era pura verdade.

E já que falei do Zeca, vou contar uma historinha dele. Ou atribuída a ele, que contei no meu livro de causos Santa Rita Velha Safada.

Depois desse causo, há uma seleção de ditados sobre o tema, e também o que falou um bando de gente famosa sobre ele.

Pescarias

A barbearia do Antônio era sempre cheia de gente. Funcionava como uma espécie de ponto de encontro de desocupados. Assim, às vezes tinha umas dez ou mais pessoas lá, mas só duas ou três na fila para cortar cabelo ou fazer barba. Os demais estavam ali para conversar e, comumente, falar da vida alheia.

Um dia, a barbearia cheia, chegou o Zeca. O pessoal já se assanhou: lá vem mentira das boas. Para puxar assunto um sujeito puxou assunto com ele:

— Ô, Zeca, cê tá sumido…

— Passei uns dias na roça, pescando… Foi lá no açude do Necreto.

— Pegou muitos peixes?

— De quantidade foi pouca, só alguns lambaris. Mas cada baita lambari! Um deles pesava três quilos.

Ficou aquele clima… Quanto pesa um lambari? Quinze gramas? Vinte gramas? E o Zeca vem com a história de lambari de três quilos. Um freguês arriscou:

— Ô, Zeca, lambari de três quilos?…

Antes que ele ficasse bravo, o Zé Luís, outro cara que tinha fama de mentiroso, sapecou:

— Pode ser… Pode ser… Aquele açude é muito esquisito. Um dia eu estava pescando nele, fisgou alguma coisa e eu pensei: é um peixe bem grande, porque estava difícil tirar o baita. Fiz bastante força e puxei, e sabe o que saiu do rio?

— Hum… hum…

— Um lampião aceso!

Aí o Zeca ficou bravo mesmo:

— Cê tá me gozando, Zé Luís? Onde já se viu tirar um lampião aceso do fundo do açude!

O Zé Luís deu um sorrisinho maroto e falou:

— Diminui um pouco o seu lambari que eu apago o meu lampião.

O QUE DIZ O POVO (DITADOS POPULARES)

“A mentira é tanto mais saborosa, quanto mais verdadeira se afigura”

* * *

“O dinheiro cala a verdade e compra a mentira”.

* * *

“Tempo de guerra, mentira por mar e por terra”.

* * *

“Nada enfurece tanto o homem como a verdade”.

* * *

“A mentira é o tempero da verdade”

* * *

“Atrás da mentira, mentira vem”

* * *

“A verdade, só a diz um homem forte ou um tolo”

* * *

“A verdade amarga, a mentira é doce”

* * *

“A verdade é manca, mas chega sempre a tempo”

* * *

“A mentira corre mais que a verdade”

* * *

“A mentira é como uma bola de neve; quanto mais rola, mais engrossa”

* * *

“Mente bem quem de longe vem”

* * *

“A mentira não tem pés, mas anda veloz”

* * *

“A mentira dá flores, mas não frutos”

* * *

“A fruta e a mentira, quanto maior, melhor”

* * *

“Quem fala a verdade não merece castigo”

* * *

“Ao mentiroso convém ter boa memória”

* * *

“Só dura a mentira enquanto a verdade não chega”

* * *

“São necessárias muitas mentiras para sustentar uma”.

* * *

“É bom mentir, mas não tanto”.

* * *

Provérbio chinês: “Meia verdade é sempre uma mentira inteira”.

hitler mouzar benedito[Adolf Hitler, de frente ao espelho, ensaiando a gesticulação de seus discursos]

E O QUE ELES (E ELAS) DISSERAM:

Napoleão Bonaparte: “A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.

* * *

Millôr Fernandes: “Jamais diga uma mentira que não possa provar”.

* * *

Millôr Fernandes, de novo: “As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.

* * *

Hilda Roxo: “Não acredito que o homem goste das pieguices e mentiras da mulher: ele está, coitado, se tornando estéril pela luta e combate à mesma”.

* * *

Federico Fellini: “Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade”.

* * *

Espínola Veiga: “Mentira, que importa? No amor, a mentira é como o sal: demais, salga; às pitadas, tempera”.

* * *

Mark Twain: “Algumas pessoas nunca dizem uma mentira – se souberem que a verdade pode magoar mais”.

* * *

Xiquote: “O amor à verdade é, em última análise, o amor às nossas próprias opiniões”.

* * *

Xiquote, de novo: “Não é difícil dizer sempre a verdade; difícil é conseguir que sempre nos acreditem”.

* * *

Bernardo Pereira de Vasconcellos: “A verdade é a mentira muitas vezes repetidas”.

* * *

Adolf Hitler: “As grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha”.

* * *

Lucille Ball: “O segredo para permanecer jovem é viver honestamente, comer devagar e mentir a idade”.

* * *

Camilo Castello Branco: “A verdade é às vezes mais inverossímil que a ficção”.
* * *

Camilo Castello Branco, de novo: “A verdade é algumas vezes o escolho de um romance”.

* * *

Florbela Espanca: “Quem disser que pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente”.

* * *

Benjamin Disraeli: “Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas”.

* * *

Leon Kaseff: “Na conquista da verdade, não existem vencedores nem vencidos, mas, apenas, convencidos”.

* * *

Humberto de Campos: “Em literatura, e em moral, repete-se o fenômeno: a verdade, nua, é, pela sua uniformidade, fatigante, enfadonha, fastidiosa”.

* * *

José Américo: “Há muitas formas de dizer a verdade. E talvez a mais persuasiva seja a que tem a experiência da mentira”.

* * *

Pereira da Silva: “As verdades de quase dois mil anos caducam como as senhoras respeitáveis de mais de cem”.

* * *

Assis Chateaubriand: “Só o real é contraditório”.

* * *

Vicente Avelino: “A verdade é o meu ponto de vista”

* * *

Sabino de Campos: “A mentira repassada de comicidade e humor é um tônico do espírito”.

* * *

Sabino de Campos, de novo: “A mentira que diverte é um bálsamo para os males crônicos da humanidade”.

* * *

Medeiros e Albuquerque: “Os fracos e perseguidos precisam da mentira como de uma defesa”.

* * *

Aristóteles Onassis: “Não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade”.

* * *

Ieda Graci: “A mentira é uma ilusão dos infelizes”.

* * *

Machado de Assis: “A mentira é muita vezes tão involuntária como a respiração”.

* * *

Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”.

* * *

Mário Quintana, de novo: “Do bem e do mal / Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos. / Não há coisa na vida inteiramente má. / Tu dizes que a verdade produz frutos… / Já viste as flores que a mentira dá?”.

* * *

Paula Nei: “A mentira é um passo em falso – desequilibra; escorregando na primeira é depois um trabalho para um homem restabelecer o aprumo”.

* * *

Galeão Coutinho: “Mentir demanda trabalho, esforço de imaginação, engenho agudo. Quem mente é obrigado a mentir mais, a mentir sempre”.

* * *

Galeão Coutinho, de novo: “Toda mulher tem horror à mentira… pregada pelos homens”.

* * *

Francisco de Bastos Cordeiro: “Não mentir é talvez a forma mais rara de heroísmo”.

* * *

Aristóteles: ”Que vantagem têm os mentirosos? A de não serem acreditados quando dizem a verdade”.

* * *

Henry Mencken: “É difícil acreditar que um homem está a dizer a verdade quando você sabe que mentiria se estivesse no lugar dele”.

* * *

William Shakeaspeare: “As pequenas mentiras fazem o grande mentiroso”.

* * *

Shakespeare, de novo: “Com o engodo de uma mentira, pesca-se uma carpa de verdade”.

* * *

Nietzsche: “O sucesso tem sido sempre um grande mentiroso”.

* * *

Nietzsche, de novo: “Há uma inocência na mentira que é o sinal da boa fé numa causa”.

* * *

Nietzsche, mais uma vez: “O fantasioso nega a verdade para si mesmo; o mentiroso apenas para os outros”.

* * *

Robert Stevenson: “As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio”.

* * *

George Lord Byron: “E, afinal de contas, o que é uma mentira? É apenas a verdade mascarada”.* * *

Padre Sena de Freitas: “Não há nada tão despótico como uma verdade evidente”.

* * *

Josué de Castro: “Nem todas verdades se podem dizer”.

* * *

Bertolt Brecht: “Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso!”.

* * *

Martinho Lutero: “Todo o pecado é um tipo de mentira”.

* * *

Santo Agostinho: “O dom da fala foi concedido aos homens não para que eles enganassem uns aos outros, mas sim para que expressassem seus pensamentos uns aos outros”.

* * *

Dostoiéviski: “A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais”.

* * *

Ovídio: “A consciência tranquila ri-se das mentiras da fama”.

* * *

Sófocles: “Não é bom dizer mentiras; / mas quando a verdade puder trazer uma terrível ruína, / então dizer o que não é bom também é perdoável”.

* * *

Anatole France: “As mulheres e os médicos sabem bem como a mentira é necessária aos homens”.

* * *

Berilo Neves: “A verdade é uma senhora inconveniente que produz escândalo toda vez que aparece em público”.

* * *

Henrik Ibsen: “Se você tira a mentira vital a um homem vulgar, tira-lhe ao mesmo tempo a felicidade”.

* * *

Chico Xavier: “A verdade que fere é pior do que a mentira que consola”.

* * *

Cazuza: “Mentiras sinceras me interessam”.

* * *

Clarice Lispector: “Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre”.

* * *

Clarice Lispector, de novo: “Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece”.

* * *

Clarice Lispector, mais uma vez: “Minha maior mentira todos os dias: meu sorriso”.

* * *

Denis Diderot: “Engolimos de um sorvo a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga”.

* * *

Stephen King: “A confiança do ingênuo é a arma mais útil do mentiroso”.

* * *

Stephen King de novo: “Crianças, ficção é a verdade dentro da mentira, e a verdade desta ficção é bastante simples: a magia existe”.

* * *

Viana Moog: “Na vida, o que prejudica são as pequenas mentiras; as mentiras em grande, são formidáveis instrumentos de bom êxito”.

* * *

Sócrates: “Quem melhor conhece a verdade é mais capaz de mentir”.

* * *

Cícero: “Ninguém acredita em um mentiroso, mesmo quando ele diz a verdade”.

* * *

Jules Renard: “Diga a verdade de vez em quando para que acreditem em você quando mentir”.

* * *

Fabrício Carpinejar: “Gastei todas as minhas mentiras na paixão. Gastei todas as minhas verdades no amor. O que sobrou sou eu”.

* * *

Fabrício Carpinejar, de novo: “Alguém dentro de mim mente para me proteger”.

* * *

Umberto Eco: “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos. Nem todas as mentiras podem ser suportadas”.

* * *

Charles Bukowski: “Era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim assim”.

* * *

Pierre Corneille: “Um mentiroso é sempre pródigo em juramentos”.

* * *

Júlio Dantas: “O que foi sempre o amor senão a mais dolorosa, a mais voluptuosa das mentiras?”.

* * *

Henry Wells: “Publicidade é mentira legalizada”.

* * *

Georges Bataille: “O orgulho é igual à humildade: é sempre mentira”.

* * *

Adélia Prado: “Preciso mentir um pouco para que o ritmo aconteça e eu própria entenda o discurso”.

* * *

Raul Seixas: “Mamãe, eu não quero ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz…”.

* * *

Ambrose Bierce: “Imaginação: um armazém de fatos gerido em parceria pelo poeta e pelo mentiroso”.

* * *

Em Harry Porter e o Cálice de Fogo: “Não faça perguntas e não te direi mentiras”.

* * *

Dr. House: “Há uma razão para a mentira: funciona”.

* * *

Demi Lovato: “O espelho pode mentir, não mostra como você é por dentro”.

* * *

Marilyn Manson: “Mas o que é real? Você não pode descobrir a verdade, você só escolhe a mentira da qual mais gosta”.

* * *

Mahatma Gandhi: “Meu Senhor, ajude-me a dizer a verdade diante dos fortes e não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos fracos”.

* * *

Claude Debussy: “A arte é a mais bela das mentiras”.

* * *

Theodore Adorno: “A arte é a magia libertada da mentira de ser verdadeira”.

* * *

Pablo Picasso: “A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade”.

* * *

Guerra Junqueiro: “A mentira só aos mentirosos prejudica”.

* * *

George Orwell: “A linguagem política, destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez”.

* * *

George Orwell, de novo: “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”.

* * *

Caio Fernando Abreu: “O que você mentir eu acredito”.

* * *

Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo”.

* * *

Oscar Wilde: “A finalidade do mentiroso é simplesmente fascinar, deliciar, proporcionar regozijo. Ele é o fundamento da sociedade civilizada”.

***

Gostou? Clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Žižek indica 6 livros para entender Hegel

zizek_ferias

Slavoj Žižek desenvolve em Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (Boitempo, 2013) a expressão mais sistemática de sua filosofia ao propôr uma inusitada “repetição” do grande filósofo idealista alemão à luz dos atuais impasses do capitalismo global. Perguntado a respeito de quais livros sobre Hegel foram os mais influentes em seus estudos, o esloveno respondeu com a seguinte lista (sem ordem de importância):

L’ envers de la dialectique: Hegel à la lumière de Nietzsche [O avesso da dialética: Hegel à luz de Nietzsche], de Gerard Lebrun

The Persistence of Subjectivity: On the Kantian Aftermath, de Robert Pippin

Hegel Variations: On the Phenomenology of the Spirit, de Fredric Jameson

Mourning Sickness: Hegel and the French Revolution, de Rebecca Comay

The Future of Hegel: Plasticity, Temporality and Dialectic, de Catherine Malabou

In the Spirit of Hegel, de Robert C. Solomon

Quais livros vocês diriam que estão faltando? Que autores e comentadores foram os mais importantes nos seus estudos sobre Hegel, Marx e filosofia alemã?

Já viu o booktrailer de Menos que nada?

E a entrevista de Žižek sobre o livro na Univesp TV:

Žižek passou pelo Roda Viva quando veio lançar o livro aqui no Brasil: (reparem na camiseta que ele escolheu usar no dia!)

Pra encerrar: a aula de Rodnei Nascimento sobre Menos que nada, no Curso de introdção à obra de Slavoj Žižek”, da Boitempo:

Excertos para um fim de semana

ilustração boitempo[Imagem do designer André Almada, feita especialmente para esta coluna]

Por Izaías Almada.

Ainda sob os eflúvios da passagem do Papa Francisco pela América do Sul, cujos países escolhidos e os certeiros discursos proferidos contra os que se julgam donos do mundo ainda darão o que falar, abro essa minha coluna quinzenal prestando uma homenagem e dando o meu incondicional apoio aos cidadãos Fernando Morais, Alexandre Padilha, Gregório Duvivier, Maria do Rosário, Guido Mantega e Jô Soares que, por se mostrarem dignos brasileiros, foram, por isso mesmo, vilipendiados em seus direitos e até mesmo ameaçados fisicamente pelo fascismo caboclo emergente, esse fascismozinho caipira, mas nem por isso menos perigoso e que deve ser combatido no nascedouro.

Aproveito para estender, já não sem tempo, a mesma solidariedade aos companheiros José Dirceu de Oliveira e José Genoíno Neto, primeiras vítimas políticas de uma sórdida armação judiciária, onde muitos brasileiros foram pegos de surpresa e outros tantos aderiram docilmente a uma campanha de desconstrução de lideranças populares e subversão de preceitos constitucionais e leis do Código Civil numa escalada que – sob o pretexto mais do que hipócrita da “moralização” e dos “bons costumes” – vai colocando a democracia brasileira contra a parede.

Tudo indica (e a lista de exemplos com certeza não será pequena, muito pelo contrário) que o brasileiro, independente de classe social, credo religioso ou ideologia, não se dá muito bem com a democracia e sempre que pode gosta de transformá-la na “casa da mãe Joana”. Até que se instaure um novo regime autoritário. Os últimos 85 anos da nossa história não me deixam mentir.

A propósito, gostaria de reproduzir um parágrafo do discurso do Papa Francisco feito há uma semana em La Paz, dentro desse mesmo contexto:

Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia a dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de idéias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as idéias; amam-se as pessoas”…

Belas palavras diante do dedurismo institucional que graça pelos lados da República Independentista do Paraná (pomposamente agora chamado de delação premiada) e comportamental (essa do ‘eu não tenho nada com isso, a culpa é do PT e do governo’) que, mais do que impostores, causam tristeza no dia a dia e alguma ou muita impotência diante da arrogância de deputados e senadores medíocres, uma força policial que se coloca acima das leis e um judiciário parcialmente venal.

Talvez, por isso mesmo, valham a pena algumas reflexões no final de semana a partir de excertos de obras que se situam no extremo oposto da pobreza intelectual da atual oposição brasileira e não só:                                            

1. Sobre a arrogância e o empolado saber de alguns intelectuais...

O polêmico e perseguido psicanalista austríaco Wilhelm Reich, quando do lançamento da terceira edição alemã de sua obra Psicologia de Massas do Fascismo, escreveu o seguinte no corpo do prefácio:

“Quem seguiu e viveu na prática a aplicação do marxismo pela esquerda revolucionária, entre 1917 e 1933, percebeu necessariamente que ela se limitou à esfera dos processos objetivos da economia e das políticas governamentais, mas não compreendeu nem estudou o desenvolvimento e as contradições do chamado “fator subjetivo” da história, isto é, a ideologia das massas. Acima de tudo, a esquerda revolucionária deixou de aplicar, de modo sempre renovado, o seu próprio método de materialismo dialético, de mantê-lo vivo para compreender cada nova realidade social, a partir de uma nova perspectiva”.

“O materialismo dialético não foi então usado para compreender novas realidades históricas, e o fascismo era um fenômeno que Marx e Engels não conheceram e que Lenin só vislumbrou nos seus princípios. A concepção reacionária da realidade não leva em conta as contradições do fascismo e a sua condição atual; a política reacionária serve-se automaticamente daquelas forças sociais que se opõem ao progresso; e pode fazê-lo com êxito apenas enquanto a ciência negligenciar aquelas forças revolucionárias que devem superar as reacionárias. Como veremos adiante, emergiram da rebelião da classe média baixa não só forças sociais retrógradas, mas também outras, de tendência claramente progressista, que vieram a constituir a base de massa do fascismo; essa contradição não foi levada em conta, e, também, não se levou em conta o papel das classes médias baixas até pouco tempo antes da subida de Hitler ao poder”.

“Quando as contradições de cada novo processo não forem compreendidas, a prática revolucionária surgirá em cada setor da existência humana e consistirá numa identificação com aquelas forças que estão se movimentando na direção do verdadeiro progresso. Ser radical é, segundo Marx, “ir à raiz das coisas”. Quando se agarra as coisas pela raiz e se compreende o seu processo contraditório, então é certa a vitória sobre a política reacionária. Caso contrário, cai-se inevitavelmente no mecanicismo, no economicismo ou até na metafísica, e então a derrota é igualmente certa”.

“Deste modo, a crítica só tem sentido e valor prático se consegue mostrar onde as contradições da realidade social não foram levadas em conta. O que era revolucionário em Marx não era o fato de ter escrito exortações ou ter apontado objetivos revolucionários, mas sim de ter reconhecido nas forças industriais produtivas a principal força impulsionadora da sociedade e de ter descrito fielmente as contradições da economia capitalista”.

* * *

2. … E de alguns tolos que se julgam príncipes.

Michael White, jornalista, escritor e consultor do Discovery Channel, em seu livro Maquiavel: um homem incompreendido observa na análise de O Príncipe (p.254) algumas intenções do autor em sua obra mais conhecida:

“Maquiavel teria fracassado como príncipe, porque não possuía a crueldade ou muitos dos outros atributos que considerava necessários para qualquer líder. Em O Príncipe, ele primeiro estabelece o que é requerido para um homem ser rei e, depois, declara a moralidade tradicional e a ética incompatíveis com um poder mundano genuinamente duradouro… Mas quais eram os talentos especiais que Cesare Borgia deveria possuir? Além de ser livre e impedido da moralidade, o que convertia um homem apropriado em um ‘super homem?”

“Para responder a isso, Maquiavel usou uma analogia com a raposa e o leão. Isso já era por si só subversivo, dados os usos que tradicionalmente se faziam a partir das características desses dois animais, mas Maquiavel escolhera as duas figuras bem e cautelosamente. A raposa, ele nos lembra, é considerada mestra em logros e astúcias, mas é incapaz de lutar muito bem. O leão, por sua vez, pode ser fisicamente forte, mas tem pouca astúcia ou habilidade para enganar. É só por meio da combinação das melhores características de cada animal que um governante pode permanecer no poder e controlar seus domínios. Aqueles que agem simplesmente como leões são idiotas”.

“As razões para isso são claras. Algumas situações requerem músculos, ao passo que outras devem ser tratadas com inteligência; os líderes que só sabem reagir de uma maneira são limitados e débeis e, por isso, não merecem liderar. Se todos os homens fossem bons, reitera Maquiavel, esse preceito não seria bom; mas como os homens são criaturas vis que não manterão suas palavras, você não deve manter sua palavra em relação a eles (…). Mas é preciso saber como disfarçar as próprias ações e como ser um bom mentiroso. Os homens são tão simples, e tão entregues às circunstâncias, que aquele que engana sempre irá encontrar alguém pronto para ser enganado”.

* * *

3. O pior cego é aquele que vê, mas…

Shakespeare, Rei Lear, Ato IVº, cena VI. O conde de Gloucester, cego, dialoga com o Rei Lear, já enlouquecido. Ambos traídos por seus filhos e filhas.

LEAR – Lembro-me muito bem dos teus olhos. Por que estás me olhando assim, de esguelha? Lê este desafio e repara, sobretudo, na caligrafia…

GLOUCESTER – Mesmo que cada letra fosse um sol eu não conseguiria vê-las.

LEAR – .

GLOUCESTER – Como, com o buraco das órbitas?

LEAR – Oh! O que é que estás dizendo? Sem olhos na cara nem dinheiro na bolsa? O vazio da cara é mais caro, o da bolsa é mais claro. Mesmo assim, vês como vai indo o mundo?

GLOUCESTER – Um mundo sentido.

LEAR – Como, estás louco? Mesmo sem os olhos um homem pode ver como anda o mundo. Olha com as orelhas. Vê como aquele juiz ofende aquele humilde ladrão. Escuta com o ouvido, troca os dois de lugar, como pedras nas mãos; qual o juiz, qual o ladrão? Já viste um cão da roça ladrar para um miserável?

GLOUCESTER – Já, meu senhor.

LEAR – E o pobre diabo correr do vira latas? Pois tens aí a imponente imagem da autoridade; até um vira lata é obedecido quando ocupa um cargo (,,,) O usurário enforca o devedor. Os buracos de uma roupa esfarrapada não conseguem esconder o menor vício, mas as togas e os mantos de púrpura escondem tudo. Cobre o crime com placas de ouro e, por mais forte que seja a lança da justiça, se quebra inofensiva. Um crime coberto de trapos a palha de um pigmeu a atravessa. Não há ninguém culpado, ninguém – digo, ninguém! Eu me responsabilizo. Podes acreditar em mim, amigo, tenho o poder para lacrar os lábios do acusador. Arranja olhos de vidro e, como um político rasteiro, finge ver aquilo que não vês…

* * *

4. Sobre retidão e tolerância…  

O professor e ensaísta Antonio Candido de Mello e Souza em seu livro Recortes, precioso glossário da literatura brasileira contemporânea feita com a sempre simplicidade de estilo e profundo conhecimento dos temas abordados, apresenta em um dos artigos (p. 205), como refinado crítico e memorialista que é, rápido perfil de um anarquista dos anos 40 de nome Edgard Leuenroth, de quem pôde conhecer “a extraordinária fidelidade dos anarquistas daquele tempo”.

De Leuenroth conta uma pequenina história:

“A partir de 1946 a guerra fria motivou nos países subordinados aos Estados Unidos a caça aos comunistas. Por extensão, o aumento da repressão aos movimentos populares em geral. No Brasil, o Partido Comunista, depois de breve legalidade, foi fechado em 1947, com toda a sorte de violências paralelas. Inclusive restrição ou interdição de manifestações públicas que não agradassem ao governo. De modo que no Primeiro de Maio só o trabalhismo oficial pôde aparecer”.

“Nós, do Partido Socialista Brasileiro, que geralmente nos reuníamos a outras organizações para encorpar as atividades deste tipo, ficamos sós. Não tendo capacidade de mobilização suficiente para furar o cerco por conta própria, fizemos o que era possível: reuniões em nossa sede do Brás”.

“Numa delas, 1947 ou 1948, o presidente do ato anunciou que via com prazer na assistência o companheiro Edgard Leuenroth, e lhe deu as boas vindas”.

“Festejado por uma salva de palmas, Edgard se levantou, vibrante e risonho, com a sua franzina silhueta de uma distinção rara, e agradeceu. Disse que, como velho revolucionário, não quisera ficar em casa no Primeiro de Maio; e verificara que só no Partido Socialista poderia comemorá-lo dignamente; por isso, estava ali. No entanto, era dever de honestidade declarar que discordava essencialmente dos companheiros socialistas. Na qualidade de libertário, rejeitava a própria ideia de partido, assim como a luta para participar de organismos do Estado, do qual preconizava não a transformação, mas a abolição. Com serenidade calorosa, foi assim expondo as suas posições para justificar as divergências; e concluiu que, apesar destas, sentia-se bem entre os companheiros socialistas, aos quais agradecia a hospitalidade, que lhe permitira comemorar a maior data em que os trabalhadores afirmam os seus ideais e o seu ânimo de luta”.

* * *

Quatro textos, quatro maneiras de ver, sentir e prospectar o mundo, nenhuma delas com ódio, preconceito ideológico ou a reivindicar ares de donos da verdade, material escasso nos dias que correm, sobretudo no Brasil, onde o monopólio mediático, ao assumir o protagonismo de uma vergonhosa campanha contra o país, insere-se na categoria do novo colonialismo, tema também referido pelo Papa Francisco:

“O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados ‘de livre comércio’ e a imposição de medidas de ‘austeridade’ que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações…”

“Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores”.

“Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adota o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante”.

Tempos bicudos, mas é nestes que o homem costuma encontrar saídas para combater os instintos mais baixos da sua espécie. Sem isso, teríamos continuado a viver em cavernas.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O Vatiquexit e a delação premiada

Por Flávio Aguiar, de Berlim.

Pois o Papa foi à América do Sul, viu, leu, soltou o Verbo e venceu. E ainda saiu ganhando corações e mentes. Inclusive o meu. Se me considero um ateu não praticante, posso muito bem passar a ser um velho cristão novo sem Igreja.

A verdade é que o Papa botou pra quebrar. Confirmou minha certeza de que, tirando o ponta-esquerda do Saint-Pauli (o time do bairro das prostitutas de Hamburgo, o único que se declara anticapitalista nesta área dominada pela fofa FIFA), o Papa Francisco I é o dirigente mais à esquerda nesta Europa à deriva para a direita. Nem o Varoufakis se compara a ele, com todo o respeito pelo companheiro Yanis. Falou mal do capitalismo vigente, falou bem do meio-ambiente, pediu desculpas à indiada pelo malfeito da Igreja em dar uma mãozinha aos Conquistadores, chamou a economia solidária para a pregação, recebeu e aceitou uma cruz de foice e martelo com Cristo em cima (estranho: a direita canônica é burra mesmo, pois ao condenar o ato, se esqueceu de lê-lo ao contrário, como poderia ter feito, vendo o noivo da Santa Madre crucificado no símbolo do comunismo… Não adianta, desde que Gustavo Corção se foi para os pagos do além, a direita emburreceu, e muito). Enfim, como dizem los Hermanos, “un despelote”. Dos maravilhosos.

Mas não pensem que isto vai ficar assim. Não, três vezes não!!! Em primeiro lugar, a Chanceléria (ou seria Chancilária?) Ângela Merkado vai pedir as contas ao Vaticano. E o ministro Wolfegangue Schauer vai certamente sugerir o Vatiquexit: que o Vaticano seja expulso da zona do euro, posto de quarentena no mínimo por quarenta anos, ao invés dos quarenta dias do Dilúvio. Vade retro, Papán! A Papa trosko sempre se deve dar o troco. Senão, o que será da Grécia e de seu primeiro-ministro Aleixo das Tripas-Coração? Vão querer subir em cima da mesa, ao invés, de como o pobretão da Bíblia, se contentar com as migalhas que caem dela, e são capazes até de pensar em nem pagar pelas tais de migalhas! Pobre é assim mesmo: orgulhoso que nem Jó, ou de dar dó. Ainda mais quando se derem conta de que têm um Papa ao seu lado.

Não, mas isto não é tudo!!!

Felizmente, temos sempre-alertas em nossas próprias plagas.

Certamente o Papa será chamado a depor na Operação Leva-Jeito, capitaneada pelo juiz Sério Morro. Terá de falar sobre quanto deu ou recebeu (pouco importa) em propinas de Rafael Corrido, presidente do Equadrado, e de Ovo Pirales, presidente da comuno-sindical-tribal Bolórvia, mesmo que seja em hóstias. Bem, no conservador reinado do Paraqual, ele certamente não deu nem recebeu propina do santo governo, mas terá de explicar como conseguiu ser recebido entusiasticamente pelo povaréu de uma favela. Certamente distribuiu favas e favores, e ofereceu os regalos de uma Bolsa-Maná, com certeza em busca de votos para ser eleito para algum cargo importante no outro mundo, como, por exemplo, auxiliar de porteiro junto a São Petersburgo (aliás, como o nome indica, um comuna de marca).

Mas ser-lhe-á oferecido o benefício da delação premiada! Desde, é claro, que ele se reconheça culpado pela mais recente interpretação da teoria (ou será teorria?) do dominó do fato, amplamente formulada e divulgada por juristas de renome no principado do telefeérico Teèsseéfe, na Baixada Central de Bruzundangas, o país de analfabetos como Lima Barreto. Claro que se aplica a teorria do dominó do fato, aquela que afirma que uma pedra no meio do lago se espraia que nem tsunami de crimes. Ou o Papa vai dizer que não sabia que o governo de Bruzundangas tirou milhões de gentes da pobreza e da miséria apenas para captar-lhes o voto? E nada fez em contrário! Ou vai dizer também que nada sabia que o governo de Bruzundangas, como afirmaram abalizados comentaristas na internet, trouxe milhares de haitianos a seu terrortório apenas para ter o seu voto, porque, aliás, a gente sabe que essa gente vende seu voto a troco de banana, desde que seja Chuquitita e venha de Miami!

Em que consistirá o prêmio desta delação premiada? Bem, Sua Santidade poderia receber uma indulgência plenária no Purgatório, por que não, dada pelo Sumo-Pontífice Sério Morro, cujo lema é “melhor que Deus, só Eus”? Por que no outro mundo? Ah, porque antes de ser enviado desta para a melhor, ou pior, o Papa terá de ser reeducado, e pagar por seus pecados! Como se dizia na antiguidade: “hic peca, hic paga”, ou algo assim. O Papa seria obrigado a ler e decorar as obras completas de Reinasco Azevedo, Tarugo Maunardi, Pastor Malafalha, Olarva de Carvolho, Denínfimo Rosacampo, Rotundo Coinstantã, além de todas as edições da famosa e conspícua revista de doutrinação Vesga e Meia.

Éééé… mas tem mais.

O Papa seria submetido a um processo de impíchement. A última eleição no Colégio dos Cardeias seria anulada, pela acusação de que Sua Eminência distribuiu santinhos e vinho de missa doados pela Petrusbrás (obviamente usando o santo nome do primeiro Papa em vão) para conseguir votos. Isto abriria espaço para que um pobre cardeal brasileiro, sequioso por ganhar alguma eleição no passado, no presente ou no futuro imediato, Aleutércio Neves Fora Nada, pudesse ser eleito Papa. Porque de imediato? Porque o cardeal Aleutércio teme que no futuro desmediato ela seja contestado não só pelo ameaçador Polvo Ingrácio da Silva, como também por seu corre-legionário Genérico Xuxu Arqui-Mim, que não é mineiro, mas come quieto e pelas bordas. Aleutércio está firme na sua campanha, “quem nasceu para ser coroinha do Bispo de Higietrópolis pode muito bem chegar a ser coroado”.

Vamos ver no que dá esta azáfama toda. Mas que a vida do Papa Hermano I daqui por diante não vai ser fácil, ah, não vai.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

É o lobo, é o lobo!

Por Mauro Luis Iasi.

Uma vez mais se apresenta o alerta sobre a possibilidade de interrupção do mandato presidencial e a possibilidade de algum tipo de golpe. Desta vez pelas declarações golpistas do PSDB, preocupado que o prazo para que a interrupção leve a uma nova eleição está para se esgotar. Como das outras vezes, intensificam-se os ataques ao governo, convocam-se novas manifestações e os meios de comunicações atacam com novas e requentadas denúncias.

Continuamos acreditando que a opção principal da direita, no sentido mais preciso dos interesses de classe ligados ao grande capital monopolista, caminha em outro sentido, qual seja, de produzir uma transição sob um governo fraco e sob cerco, enquanto se gesta uma alternativa para substituí-lo nas eleições de 2018. Alertávamos, no entanto, em outra oportunidade, que um dos mecanismos desta operação, a constante ameaça de impedimento antecipado da presidente, poderia ganhar uma dinâmica própria e se viabilizar como alternativa e, desta maneira, não estaria por princípio descartada como possibilidade pelo bloco dominante.

O cenário atual comprova a persistência deste quadro. Intensificam-se os ataques, enquanto a base de sustentação do governo no Congresso é corroída e os meios de comunicação hegemônicos, por meio de um eficiente manejo do anti-petismo, trabalham para configurar um clima de descontrole total nas hostes governistas. Ao mesmo tempo o governo reage intensificando suas concessões ao bloco dominante: implanta o ajuste e as políticas de austeridade, intensifica os ataques aos trabalhadores (como nas medidas provisórias 664 e 665, no veto às superficiais mudanças na previdência, etc.), opera cortes na educação e na saúde, e impõe arrocho sobre o funcionalismo público federal. Tudo isso sem deixar de abrir seus cofres em generosas contribuições ao agronegócio e financiar a manutenção de empregos com redução de salários e benefícios para as grandes empresas.

Há uma relação entre estes dois vetores da conjuntura que nem sempre fica tão visível. O desgaste inevitável que as concessões ao grande capital monopolista produzem gera uma igualmente inevitável depressão nos setores sociais que sustentaram a atual presidente na expectativa de uma mudança de orientação. A esquerda petista, isolada e minoritária no interior do PT, está rouca de tanta tentar alertar que o caminho escolhido contribui com a estratégia da direita de ir sangrando o governo e dilapidando sua base social para derrotá-lo eleitoralmente na próxima eleição nacional. Propõem um “cavalo de pau”, rompendo com a aliança com o PMDB e retomando o caminho de um projeto democrático popular.

Neste ponto a situação ganha uma complexidade que está longe de ser simples de ser compreendida. A analogia do “cavalo de pau” serve como imagem da urgente necessidade de uma mudança radical de rumos, mas é absolutamente inapropriada para o momento. O ato de puxar o freio de mão e produzir uma mudança abrupta de direção, inclusive valendo-se da derrapagem lateral do veículo, costuma funcionar, não sem riscos de capotagens, quando se trata de veículos leves. Mas no caso de um grande navio, há restrições de movimento por conta de suas dimensões e do tamanho de seu calado. Quando se aproxima do porto, por exemplo, uma embarcação como essa não pode nem sequer sair fora do rumo do canal, e mesmo com suas máquinas desligadas chega a percorrer milhas antes de parar. Por essas condições estruturais, ele está impossibilitado de dar o que se chamaria de um “cavalo de pau”. O governo petista está mais para um grande navio do que para um carro esporte.

No entanto, cabe nos perguntar: por que motivo o governo opera num aparente paradoxo que contribui para a estratégia daqueles que querem derrotá-lo? Podemos falar o que quisermos deste governo (muito temos falado de como ele operou uma estratégica que desarmou a classe trabalhadora conduzindo-a ao pântano da conciliação de classes), mas não que ele é ingênuo ou que lhe falta habilidade política. Aqui a analogia com o navio é ainda mais útil, pois não adianta olharmos para a superfície do mar ou para as hipnóticas luzes de bordo, pois a resposta está no canal em que navega.

O caminho escolhido pelo PT como via de desenvolvimento de sua estratégia acabou por considerar virtuosa uma configuração que segundo seu juízo constituía uma imprudência da burguesia e um cenário favorável aos desenvolvimento de “reformas” gradualistas que beneficiariam aos trabalhadores. Este equívoco se fundamenta na incompreensão de um dos elementos do Estado burguês na sua configuração contemporânea.

A FORMA DEMOCRÁTICA DA REPÚBLICA BURGUESA

Talvez possa parecer, a um olhar superficial, que a forma democrática da república burguesa e a prevalência das eleições como um meio de composição de seus governos, fosse um equívoco das classes dominantes (ou ainda, em outro registro, uma concessão que só se explica pela pressão dos trabalhadores). Afinal, sendo as eleições um jogo numérico e a classe trabalhadora inegavelmente mais numerosa que as classes dominantes, a tendência seria a formação gradual maiorias que pouco a pouco poderiam ir construindo a vontade geral como expressão dos interesses dos trabalhadores, reduzindo o poder político da burguesia à proporcionalidade de sua expressão quantitativa.

O que os atuais reformistas (a bem da verdade estes senhores acabaram ficando muito aquém do reformismo, a ponto de ter de ficar a cargo da esquerda petista a defesa da retomada do rumo das reformas), de fato desconhecem é que a burguesia já equacionou há muito tempo este problema. Podemos comprovar isso resgatando o pensamento de James Madison (1751-1836), que foi um dos destacados redatores de O Federalista (uma serie de ensaios, publicada 1788, defendendo a federação contra a forma confederada), no contexto da luta pela independência dos EUA e consolidação de sua forma política republicana.

O problema dos revolucionários norte-americanos, resumidamente, era determinar qual seria a forma de governo da jovem nação que poderia responder simultaneamente a duas exigências cruciais: manter a necessária unidade política, economia e militar das ex-colônias, e garantir a liberdade das partes aderissem à nação, evitando o risco da tirania.

Diante disso se enfrentam com o problema das facções, entendidas, nos termos de Madison, como grupos de cidadãos, maiorias ou minorias, que unidos por sentimentos e interesses comuns se opõem a outras facções, cidadãos ou mesmo interesses coletivos de uma comunidade. Parecia a Madison que as duas possibilidades apresentadas – atacar as causas das facções ou tentar controlar seus efeitos – se apresentavam impraticáveis. Isso porque as causas estariam ligadas à natureza humana, sendo portanto, incontornáveis. Quanto ao controle dos efeitos, a impraticabilidade derivaria do fato de que teria que ser operada pelos próprios seres humanos que colocariam suas vontades e paixões como critério de tal controle. A solução encontrada seria, segundo Madison, colocar tanto a natureza como seus efeitos a serviço de uma forma que possibilitasse a República. A chave para tal feito seria expressa na formula: “ambição será incentivada para enfrentar a ambição” (O Federalista, n.51).

Antes de ver como isso se materializa em uma forma política, é importante fazer uma ressalva. Apesar de localizar na natureza humana o comportamento de facção, o revolucionário norte-americano sabe que a base material da disputa dos diversos interesses que compõem uma sociedade não é a mera predisposição dos seres humanos como criaturas “ambiciosas, vingativas e rapaces”. Por isso poderá concluir, sem abandonar aquela premissa, que “a fonte mais comum e duradoura das facções tem sido a distribuição variada e desigual da propriedade”, de tal forma que “aqueles que possuem e os não-proprietários invariavelmente corporificam distintos interesses na sociedade”.

Todos são juízes de suas próprias causas. Uma vez que prevaleça o poder de uma facão ou conjunto de facções associadas, seria natural supor que esta maioria tente impor seus interesses sobre as demais, impondo os interesses dos manufatureiros sobre os donos de terra, ou o inverso, “não havendo em nenhum dos casos consideração para com a justiça ou o interesse público”. A confiança de que “estadistas esclarecidos” poderiam funcionar em prol do equilíbrio e da prevalência do bem público é descartada pelo autor com requintes de pragmatismo: “nem sempre os estadistas esclarecidos estarão no leme”.

Notem que, como fica evidente, o objetivo destes senhores é evitar a tirania da maioria. A solução de uma “democracia pura”, como a denominavam, é recusada. Ela é definida como necessariamente própria de pequenas sociedades formadas por indivíduos virtuosos (definidos como aqueles que colocam o bem comum sobre o interesse particular) e cuja base é a frugalidade, nos termos de Montesquieu. Em outras palavras, essa forma política só funcionaria num contexto de pouca riqueza e uma vida simples e estaria descartada para grandes nações poderosas econômica e militarmente. Neste ponto, a afirmação de que as facções se formam pela distribuição desigual da propriedade ganha uma dimensão decisiva.

A forma da “democracia pura” em uma sociedade moderna seria palco de “distúrbios e controvérsias” e levaria necessariamente a um quadro de insegurança e incapacidade de garantir o direito de propriedade, tendo conseguentemente, segundo o juízo de Madison, uma vida curta e um fim violento. A solução, portanto, é a uma república em que se aplica o “esquema da representação”.

Entre as várias vantagens apresentadas por Madison para defender a república contra a democracia pura, estaria em primeiro lugar o fato de que por meio da representação os “pontos de vista da população são filtrados” pelo crivo de alguns cidadãos que irão representá-los. Como o povo escolheria os “melhores” nesse processo de seleção, os seria justo dizer que os eleitos saberão discernir os verdadeiros interesses do país, graças ao seu “patriotismo e amor pela justiça”, dificilmente sacrificando estes interesses por “considerações temporárias ou parciais”, nas palavras de James Madison que chegou a ser o quarto presidente dos EUA.

Evidentemente soa estranho esse grau de fé nas virtudes morais expressa na pena do fundador do Partido Republicano, um sujeito, como vimos, dotado justamente de uma posição marcada pelo pragmatismo. Sem dúvida, Madison tem plena consciência de que indivíduos de “temperamento faccioso e propósitos maldosos” podem por vários meios, inclusive a intriga e a corrupção, conseguir os votos necessários e “depois trair os interesses do povo”. No entanto, para ele, a solução estaria na própria dimensão da república moderna, no sentido quantitativo propriamente dito.

O argumento de Madison é de que a fragmentação de uma grande população em diversas facções e partidos, pulveriza a representação. Assim, com cada um buscando apenas seu próprio interesse, fica difícil formar maiorias, obriga-se que os governantes (ainda que sendo expressão de uma maioria eleitoral) negociem com um conjunto pulverizado de interesses para lograr estabilidade em seu governo. Diz Madison ao falar da república que defende:

“alargado este campo (o do número de cidadão de um Estado) teremos uma variedade maior de partidos e interesses, tornando menos provável a constituição de uma maioria no conjunto que, alegando uma motivação comum, usurpe os direitos de outros cidadãos”.

Desta maneira, conclui Madison, teríamos uma estrutura adequada, um “remédio republicano para as doenças mais incidentes sobre um governo republicano”.

Reparem: a vacina contra a possível “doença” de uma maioria chegar ao poder em algum ponto do Estado burguês está dada desde 1788. Não é demais relembrar que tal estrutura adequada se completa com um redesenho da solução clássica da divisão de poderes, muito além da simples divisão funcional na qual quem governa não redige as leis, e quem as redige não governa, da mesma forma que aquele que julga não redige a lei, nem governa.

O MENINO E O LOBO

Agora, depois da experiência norte-americana, aplica-se uma dinâmica de pesos e contrapesos. Isto é, a cada poder de uma esfera se apresenta um poder para que a outra o controle, como no dispositivo de veto do executivo a uma lei elaborada pelo legislativo e a possibilidade de derrubada do veto pelo segundo, assim como, se houver dúvidas os tribunais são acionados e se tudo der errado há forças armadas para “garantir” a constituição em defesa da propriedade (notem como estamos hoje muito longe da necessidade deste último expediente).

No contexto atual estas chamadas estruturas adequadas não estão menos, mas muito mais eficientes e sofisticadas. Em formações sociais como a nossa, na qual a contradição entre proprietários e não-proprietários é explosiva, o risco de uma tirania da maioria é enfrentado com rigor e profissionalismo.

Além de um eventual executivo que expresse uma certa maioria eleitoral ligeiramente comprometida com interesses populares ser obrigado a compor sua governabilidade com os partidos que compõem o poder legislativo, o filtro eleitoral garante que ali se represente o conjunto das facções das classes proprietárias, obstaculizando ao máximo a possibilidade da maioria real na sociedade se apresentar como maioria na chamada “representação”.

Uma das formas conhecidas, e não por acaso veementemente garantida na atual farsa da reforma política, é o financiamento privado de campanha em sua forma explícita. O poder econômico na sociedade capitalista sempre determina a disputa eleitoral, mesmo numa situação na qual se proíba o financiamento direto de empresários, seja por formas ilícitas e caminhos alternativos (que não deixam de agir mesmo na legalidade do financiamento privado) seja por seu poder indireto no controle de várias esferas da vida, da comunicação de massa, da cultura, do assedio que se funda no poder brutal que patrões têm sobre os trabalhadores nos locais de trabalho, etc.

Uma vez entrando neste canal e aceitando suas regras, que por um tempo favoreceram os governos petistas e sua continuidade, torna-se muito difícil sair, pelo menos sem rupturas consideráveis. Ocorre que é exatamente a dimensão da ruptura que foi abandonada no desenho da estratégia. Querer introduzi-la agora é uma artificialidade infantil, ingênua e, por uma motivo mais banal, impossível.

Nos termos atuais, para a burguesia inviabilizar o governo petista, basta o deslocamento do PMDB para um bloco de oposição.

Não tendo outra alternativa no horizonte imediato que não manter o rumo, a comandante tenta se manter firme no timão exercendo a arte de fazer de conta que não é com ela, enquanto caminha decididamente para a catástrofe. Para se manter cede aos interesses do capital e mergulha ainda mais na tentativa insana de manter a base aliada que se desfaz sob seus pés. Esta tática permite sobreviver no campo imediato, mas tudo indica que fortalece as condições da futura derrota eleitoral. Este é o paradoxo.

Não podendo mobilizar suas bases sociais que correm o risco de serem capturadas pela direita, pela ação em defesa de direitos, conquistas ou condições de vida (uma vez que o presente ajuste e a linha de governo praticada nos últimos doze anos caminharam no sentido contrário), resta a esperança de que, mais uma vez, a chantagem da necessidade do apoio a este governo contra a “direita” ou o “conservadorismo”.

Sabemos que a direita se move em várias frentes, é evidente a retomada de um conservadorismo sem máscaras e preocupante. Compreendemos que papel estes fatores ocupam na estratégia do desgaste visando uma futura derrota eleitoral do petismo, ou na possibilidade de antecipar este desfecho por uma interrupção do mandato da presidente. Mas a direita e a forma de manifestação do conservadorismo tem um papel, também, na estratégia governista. É o de desviar a atenção da brutalidade do ajuste e do real e evidente caráter do compromisso do governo com as condições necessárias à retomada da acumulação de capitais, criando uma cortina de fumaça que desvia a atenção para uma abstrata contraposição entre conservadorismo e progressismo.

Além de desviar a atenção do ataque operado contra os trabalhadores, a educação, a saúde púbica e tantas outras áreas, procurando desarmar a resistência que se ensaia nas greves e nas lutas sociais, há também a clara intenção de desvincular-se do governo que naufraga para, justificado pelo combate ao conservadorismo, manter a mesma estratégia e a continuidade do ciclo petista.

Não há solução para esta estratégia nos rumos escolhidos, ao mesmo tempo não há como buscar outros caminhos mantendo-se no essencial esta estratégia que ao nosso ver se esgotou.

No melhor cenário imaginado pela comandante agarrada ao timão é que o reajuste dê certo, a economia capitalista volte a crescer, o governo logre manter a aliança com o PMDB e tenha condições de disputar as eleições para renovar o mito. Vejam que o melhor cenário renova o caminho que os colocou no impasse em que se encontram.

É bom que lembremo-nos que, pelo menos na versão original da história, quando o lobo veio mesmo… ninguém acreditou no menino.

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.