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Žižek: O círculo de giz de Jerusalém

O círculo de giz de Jerusalém2Por Slavoj Žižek.*

Em um contexto de acirramento do conflito no oriente médio, o Blog da Boitempo recupera um trecho do livro Violência, seis reflexões laterais, escrito por Slavoj Žižek em 2008 e que acaba de ganhar edição brasileira pela Boitempo. Saiba mais ao final deste post.

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É demasiado fácil marcar pontos no debate sobre a violência por meio de inversões espirituosas e que poderiam prosseguir indefinidamente – então vamos acabar com este polêmico diálogo imaginário e arriscar um passo que conduza diretamente ao “coração das trevas” do conflito do Oriente Médio. Muitos pensadores políticos conservadores (e não só conservadores), de Blaise Pascal a Immanuel Kant e Joseph de Maistre, elaboraram a ideia das origens ilegítimas do poder, a ideia de “crime fundador” sobre o qual os nossos Estados se baseiam, e é por isso que devemos oferecer ao povo “nobres mentiras” sob a forma de heroicas narrativas de origem. A respeito dessas ideias, o que muitas vezes se diz de Israel é bastante verdadeiro: o infortúnio de Israel é ter sido estabelecido como Estado-nação um ou dois séculos mais tarde do que devia, em condições nas quais tais crimes fundadores deixaram de ser aceitáveis. A suprema ironia aqui é o fato de que foi justamente a influência intelectual judaica que contribuiu para a afirmação dessa inadmissibilidade!

Durante minha última visita a Israel, fui abordado por um intelectual israelita que, a par das minhas simpatias palestinas, me perguntou em tom jocoso: “Não tem vergonha de estar aqui, em Israel, esse Estado ilegal e criminoso? Não tem medo de ver aqui contaminadas as suas credenciais de esquerda e de se tornar cúmplice do crime?”.

Com toda a honestidade, tenho de admitir que toda vez que viajo a Israel experimento esse estranho estremecimento de quem entra num território proibido, de violência ilegítima. Será que isso significa que sou (não tão) secretamente antissemita? Mas o que me perturba é precisamente que me descubro num Estado que ainda não apagou a “violência fundadora” de suas origens “ilegítimas”, recalcando-as para um passado intemporal. Nesse sentido, aquilo com que o Estado de Israel nos confronta é simplesmente o passado apagado de todo e qualquer poder de Estado.

Por que seremos hoje mais sensíveis a essa violência? Precisamente porque, num universo global que se legitima através de uma moralidade global, os Estados soberanos deixaram de poder eximir-se a juízos de ordem moral, mas são tratados como agentes morais puníveis por seus crimes, apesar de continuar a ser discutível tanto aquele que exerce a justiça como o estatuto de quem julga o juiz. A soberania do Estado é assim severamente constrangida. Este aspecto explica o valor emblemático do conflito no Oriente Médio: ele nos confronta com a fragilidade e a permeabilidade da fronteira que separa o poder não estatal “ilegítimo” do poder estatal “legítimo”.

No caso do Estado de Israel, suas origens “ilegítimas” ainda não puderam ser elididas. Seus efeitos são hoje plenamente sentidos. O que nos faz lembrar o lema da Ópera dos três vinténs de Bertolt Brecht: o que é um assalto a banco comparado com a fundação de um banco? Para dize-lo de outra forma, o que são os assaltos que violam a lei comparados com os assaltos que têm lugar no quadro da lei? O que só faz crescer a tentação de propor uma nova variação em torno deste lema: o que é um ato de terrorismo face a um poder de Estado que faz a sua guerra contra o terrorismo?

Quando os observadores ocidentais se perguntam desesperados por que é que os palestinos persistem no seu apego obstinado à sua terra e se recusam a dissolver a própria identidade num mar árabe mais vasto, estão exigindo que os palestinos ignorem precisamente aquilo que constitui a violência fundadora de Estado “ilegítima” por parte de Israel. Numa demonstração de justiça poética que afirma a ironia da história, os palestinos devolvem a Israel a sua própria mensagem, sob uma forma invertida e verdadeira. Existe o apego patológico à terra, implicando um direito de regresso a ela ao cabo de milhares de anos – uma negação efetiva da desterritorialização que se alega ser característica do capitalismo global atual. Mas a mensagem invertida vai mais longe ainda. Imagine se lêssemos a seguinte declaração nos meios de comunicação atuais:

Nossos inimigos nos chamaram de terroristas […]. Pessoas que não foram nem nossos amigos nem nossos inimigos […] também usaram esse nome latino […]. E, no entanto, nós não fomos terroristas […]. As origens históricas e linguísticas do termo político “terror” demonstram que ele não pode ser aplicado a uma guerra revolucionária de libertação […]. Os combatentes da liberdade têm de usar armas; de outro modo seriam imediatamente esmagados […]. O que tem a ver com o “terrorismo” uma luta em defesa da dignidade do homem, contra a opressão e a servidão?

Automaticamente atribuiríamos esta mensagem a um grupo terrorista islâmico e, consequentemente, o condenaríamos. Todavia, o autor dessas palavras não é outro senão o ex-primeiro-ministro de Israel Menachem Begin, durante os anos em que a Haganah combatia as forças britânicas na Palestina1. É interessante notar que, durante os anos de luta dos judeus contra o exército britânico na Palestina, o termo “terrorista” tinha uma conotação positiva. Passemos a outro exercício mental: imaginemos ler nos jornais contemporâneos uma carta aberta intitulada “Carta aos terroristas da Palestina”, que contivesse as seguintes afirmações:

Meus bravos amigos. Podem não acreditar no que escrevo a vocês, dada a atmosfera turva que hoje se respira. Mas dou a minha palavra de velho repórter quando afirmo que o que escrevo é verdade. Os palestinos da América estão do seu lado. Vocês são os nossos heróis. Vocês são o nosso sorriso. São a pluma que enfeita o nosso chapéu. São a primeira resposta que faz sentido – para o Novo Mundo. Toda vez que vocês explodem um arsenal israelita, assaltam uma prisão israelita, fazem ir pelos ares um trilho de trem israelita, roubam um banco israelita ou combatem com suas armas e suas bombas os traidores israelitas invasores da sua pátria, os palestinos da América celebram uma pequena festa em seus corações.

Na realidade, uma carta aberta muito parecida foi publicada no fim da década de 1940 pela imprensa estadunidense, assinada por ninguém menos que Ben Hecht, o célebre roteirista de Hollywood. Limitei-me aqui a substituir a palavra “judeus” por “palestinos” e “britânicos” por “israelitas”2 quase encantador vermos a primeira geração dos líderes israelitas confessarem abertamente o fato de suas reivindicações relativas à terra da Palestina não poderem basear-se numa noção de justiça universal, de se inscreverem no quadro de uma simples guerra de conquista travada entre dois grupos, não sendo possível qualquer tipo de mediação entre eles. Eis o que o primeiro-ministro de Israel David Ben-Gurion escreveu:

Qualquer pessoa pode se dar conta do peso dos problemas nas relações entre árabes e judeus. Mas ninguém vê que não há solução para estes problemas. Não há solução! Estamos diante de um abismo e ninguém pode ligar seus dois lados […]. Nós, como povo, queremos que esta terra seja nossa; os árabes, como povo, querem que esta terra seja deles.3

O problema que esta declaração nos coloca hoje é muito claro: a ignorância de qualquer consideração moral relativamente aos conflitos étnicos em torno da terra deixou de ser admissível. É por isso que se nos parece tão profundamente problemático o modo como o célebre caçador de nazistas Simon Wiesenthal abordou o problema em seu Justica não é vinganca:

Um dia se compreenderá que é impossível instaurar um Estado sem afetar os direitos de algumas das pessoas que a essa altura vivem na região. (Porque onde ninguém viveu antes é presumivelmente impossível de se habitar.) Teremos de nos contentar com o fato dessas consequências serem limitadas e afetarem relativamente poucas pessoas. Tal era a situação na época da fundação de Israel […]. Afinal, existira durante muito tempo uma população judaica na região, e a população palestina era relativamente dispersa e tinha alternativas relativamente numerosas perante a perspectiva de ceder as suas posições.4

O que Wiesenthal advoga aqui nada menos é do que uma violência fundadora de Estado com rosto humano; uma violência, portanto, cujos abusos sejam limitados. (No que se refere à dispersão comparativa dos colonos, a população do território palestino, em 1880, contava 25 mil judeus e 620 mil palestinos.) Todavia, na nossa atual perspectiva, a afirmação mais interessante do ensaio de Wiesenthal aparece uma página antes, onde escreve: “O continuamente vitorioso Estado de Israel não poderá contar eternamente com a simpatia demonstrada às vítimas”5. Wiesenthal parece querer dizer que hoje, quando o Estado de Israel se tornou “continuamente vitorioso”, já não tem necessidade de se comportar como uma vítima, mas pode passar a afirmar plenamente a sua força.

Talvez seja verdade, mas devemos acrescentar que tal posição de força implica também novas responsabilidades. O problema atualmente é que o Estado de Israel, apesar de “continuamente vitorioso”, continua a apoiar-se na imagem dos judeus como vítimas para legitimar a sua política de potência, bem como para denunciar os que o criticam como simpatizantes disfarçados do Holocausto. Arthur Koestler, o grande convertido anticomunista, formulou uma intuição profunda: “Se o poder corrompe, a formulação inversa também é verdadeira; a perseguição corrompe as vítimas, embora talvez de formas mais sutis e trágicas”.

Tal é a fraqueza fatal do único argumento forte em defesa da criação de um Estado-nação judaico após o Holocausto: ao criarem o seu próprio Estado, os judeus superariam a situação na qual a sua liberdade dependeria dos Estados da diáspora e da tolerância ou intolerância das respectivas maiorias nacionais. Embora esta linha de argumentação seja diferente da religiosa, tem de recorrer à tradição religiosa para justificar a localização geográfica do novo Estado. De outro modo, estaríamos na situação descrita pela velha piada em que um louco procura a sua carteira perdida perto de um poste de luz, ao invés de explorar o canto escuro em que efetivamente a perdeu, porque na luz é mais fácil de enxergar: foi porque era mais fácil assim que os judeus ocuparam a terra dos palestinos e não uma outra, tomada àqueles que lhes haviam causado tanto sofrimento e manifestamente lhes deviam reparação.

Robert Fisk, jornalista britânico que vive no Líbano, fez um documentário sobre a crise do Oriente Médio, em que descreve como os seus

vizinhos árabes, refugiados palestinos, lhe mostraram a chave da casa que tinham possuído outrora em Haifa, antes de ela lhes ter sido tirada pelos israelitas. Então ele visitou a família judia que morava naquela casa e perguntou aos seus membros de onde eles tinham vindo. A resposta foi Chrzanow, uma pequena cidade próxima de Cracóvia, na Polônia, e mostraram-lhe então uma fotografia da sua anterior casa polaca, que haviam perdido durante a guerra. O homem viajou, portanto, até a Polônia e procurou a mulher que então vivia na casa de Chrzanow. Era uma “repatriada” de Lemberg, atualmente na Ucrânia Ocidental. Não era difícil adivinhar qual seria o próximo elo da cadeia. A repatriada fora exilada da sua cidade natal por ocasião da sua conquista pela União Soviética. Sua casa fora evidentemente ocupada por russos enviados no pós-guerra pelo governo para a cidade a fim de promover a sua sovietização.6

E a história continua, é claro: a família russa provavelmente se mudou de uma casa na Ucrânia Oriental, destruída pelos alemães durante as grandes batalhas da Frente Leste… É aqui que entra o Holocausto: a referência ao Holocausto permite aos israelitas eximirem-se dessa cadeia de substituições. Mas quem evoca o Holocausto nestes termos, o que faz de fato é manipula-lo, instrumentalizando-o ao serviço de objetivos políticos momentâneos.

O grande mistério do conflito israelo-palestino é ter persistido por tanto tempo quando todo mundo a única solução viável para ele: a retirada dos israelitas da Cisjordânia e de Gaza e a instauração de um Estado palestino, bem como um compromisso conseguido de uma maneira ou de outra a propósito de Jerusalém. Sempre que um acordo pareceu exequível, acabou desaparecendo inexplicavelmente. Quantas vezes não aconteceu que, precisamente quando parece não faltar mais do que uma formulação adequada relativa a certas questões menores para se chegar à paz, tudo volta a se desfazer, revelando a fraqueza da solução negociada? O conflito do Oriente Médio assumiu a feição de um sintoma neurótico: todo mundo vê a maneira de vencer o obstáculo, e contudo ninguém quer removê-lo, como se houvesse algum tipo de benefício libidinal na persistência do beco.

É por isso que a crise do Oriente Médio é um ponto tão sensível para as políticas pragmáticas que visam resolver o problema passo a passo, de maneira realista. No caso vertente, o que é utópico é a própria ideia de que uma abordagem “realista” poderá funcionar quando a única solução “realista” seria aqui a de maior dimensão: resolver o problema pela raiz. A velha palavra de ordem de 1968 parece a única aplicável: Soyons realistes, demandons l’impossible! [Sejamos realistas, vamos exigir o impossível!]. Só um gesto radical e “impossível” no quadro traçado pelas circunstâncias presentes poderia ser uma saída realista. Talvez a solução que “todo mundo conhece” como sendo a única viável – a retirada dos israelitas da Margem Ocidental e de Gaza, a instauração de um Estado palestino – não funcione, e tenhamos, portanto, de mudar de quadro, mudar as condições do problema e encarar o horizonte da solução de um só Estado.

Aqui nos sentimos tentados, uma vez mais, a falar sobre um sintomático: no conflito israelo-palestino, não é verdade que os papéis habituais se encontram de certo modo invertidos, torcidos como à volta de um nó? Israel – representando oficialmente a modernidade liberal ocidental na região – é legitimado ao invocar a sua identidade étnico-religiosa, enquanto os palestinos – acusados de “fundamentalistas”– legitimam as suas reivindicações em termos de cidadania secular. (É grande a tentação de arriscar a hipótese de que foi a própria ocupação israelita dos territórios palestinos que impeliu os palestinos a perceberem-se como uma nação separada em busca do seu próprio Estado, e não mais como uma simples parte da massa árabe.)

Temos assim o paradoxo do Estado de Israel, uma alegada ilha de modernidade liberal e democrática no Oriente Médio, opondo-se às reclamações árabes por meio de uma afirmação étnico-religiosa ainda mais “fundamentalista” do seu direito a uma terra santa. A ironia maior é que, segundo certas pesquisas, os israelitas constituem a nação mais ateia do mundo: cerca de 70% de sua população não crê em nenhum tipo de divindade. Sua referência à terra assenta, assim, numa denegação de tipo fetichista: “Sei muito bem que Deus não existe, mas acredito, apesar de tudo, que foi Deus quem nos deu a terra do Grande Israel…”. E, como nos ensina a história do nó górdio, a única maneira de se sair do beco atual não é desenredar o nó, mas corta-lo. Como? Badiou abordou recentemente o impasse:

“A fundação de um Estado sionista foi uma realidade composta altamente complexa. Por um lado, foi um acontecimento que fazia parte de um outro ainda maior: a ascensão dos grandes projetos revolucionários comunistas e socialistas, a ideia da fundação de uma sociedade inteiramente nova. Por outro lado, foi um contra-acontecimento, parte de um contra-acontecimento maior: o colonialismo, a conquista brutal por parte de gente que vinha da Europa, de uma nova terra onde já vivia um outro povo. Israel é uma mistura extraordinária de revolução e reação, de emancipação e opressão. O Estado sionista tem de se tornar o que continha em si de justo e de novo. Tem de se tornar o menos racial, o menos religioso e o menos nacionalista dos Estados. O mais universal de todos eles.”7

Embora haja algo de verdadeiro nessa perspectiva, o problema persiste: será possível desatar de fato o nó diretamente e simplesmente separar os dois aspectos de Israel, no sentido de consumar a perspectiva do projeto revolucionário do Estado sionista sem a sua sombra colonizadora? Estamos como que perante a lendária resposta por meio de um “Se…” que um político norte-americano deu, na década de 1920, à pergunta “Apoia a proibição do vinho: sim ou não?”: “Se por vinho você entende a terrível bebida que arruinou milhares de famílias, fazendo dos homens destroços que batiam nas mulheres e se esqueciam dos filhos, então sou inteiramente favorável à proibição. Mas se por vinho você entender a nobre bebida, de gosto maravilhoso, que torna cada refeição um enorme prazer, então sou contra!”

Talvez precisemos de um pouco mais: não só do traçado da linha que distingue o bom do mau Israel, mas de um autêntico ato que transforme as próprias coordenadas da situação presente. O antigo primeiro-ministro israelita Isaac Rabin deu o primeiro grande passo nessa direção quando reconheceu a OLP como representante legítima dos palestinos e, por conseguinte, o único verdadeiro parceiro de negociação.

Quando Rabin anunciou a inversão da política israelita de “não fazemos negociações com a OLP, organização terrorista” e pronunciou as simples palavras “vamos deixar esta comédia de negociarmos com os palestinos sem ligações públicas com a OLP e começar a falar com os nossos interlocutores reais”, a situação do Oriente Médio mudou de imediato. Tal é o efeito de um verdadeiro ato político: torna pensável o impensável. Embora fosse um político trabalhista, Rabin efetuou assim um gesto que caracteriza os melhores momentos de certos políticos conservadores: só um De Gaulle podia assegurar a independência da Argélia; só um conservador como Nixon podia estabelecer relações com a China8.

Que poderia, então, constituir hoje um ato desse tipo por parte dos árabes? Fazer o que Edward Norton faz em Clube da luta, de David Fincher: antes de mais nada, atacarem a si próprios – deixarem de atirar todas as culpas para cima dos judeus, como se a expansão sionista na palestina fosse a origem e a representação simbólica de todas as desgraças árabes, o que leva à ideia de que a vitória sobre Israel é a condição imprescindível da autoafirmação árabe. Os palestinos que sustentam que a libertação do seu território da ocupação israelita dará um novo impulso à democratização do mundo árabe não estão vendo as coisas direito. Estas são precisamente ao contrário. Deveríamos começar por denunciar abertamente os corruptos regimes clericais e militares, da Síria à Arábia Saudita, que se servem da ocupação israelita para se legitimarem. O paradoxo é que o foco de toda a sua atenção em Israel é a razão pela qual os árabes estão perdendo a batalha. O sentido fundamental da jihad no Islã não é a guerra contra o inimigo exterior, mas o esforço de purificação interior.

Trata-se de uma luta contra as próprias fraquezas e derrotas. Por isso talvez os muçulmanos devessem proceder mais ativamente à passagem do sentido mais corrente entre o público ao verdadeiro sentido da jihad. Os três principais agentes da Guerra Contra o Terrorismo (os Estados Unidos pós-11 de Setembro, Israel e os árabes) veem-se a si próprios como vítimas e usam sua condição de vítimas para legitimar políticas expansionistas. Em certo sentido, o 11 de Setembro aconteceu no momento certo para justificar o expansionismo militar norte-americano: agora que nós também somos vítimas, podemos nos defender e contra-atacar.

A aliança Estados Unidos/Israel, essa estranha associação entre a nação (desenvolvida) mais religiosa do mundo insistindo na separação entre a religião e o Estado e o povo mais irreligioso do mundo cuja existência se baseia na natureza religiosa de seu Estado, pode assim apresentar-se como um eixo das vítimas.

Então vamos à grande questão: qual seria hoje o ato ético-politico verdadeiramente radical no Oriente Médio? Tanto para os israelitas como para os árabes, consistiria no gesto de renúncia ao controle (político) sobre Jerusalém, isto é, a promoção da transformação da Cidade Velha de Jerusalém em um lugar extraestatal de culto religioso sob o controle (temporário) de uma força internacional neutra.

O que os dois lados deveriam aceitar é que, ao renunciarem ao controle político de Jerusalém, não estão efetivamente renunciando a nada. Antes, estão conseguindo a elevação de Jerusalém a um autêntico lugar sagrado e extrapolítico. O que perderiam seria precisamente e só o que já, por si próprio, merece ser perdido: a redução da religião a uma parada em jogo na peça do poder político. Seria um verdadeiro acontecimento no Oriente Médio a explosão da verdadeira universalidade política no sentido de São Paulo: “Para nós não existem judeus nem palestinos.” Ambos os lados teriam de compreender que essa renúncia do Estado-nação etnicamente “puro” seria uma libertação para eles e não um simples sacrifício que cada um faria ao outro.

Recordemos a história do círculo de giz caucasiano em que Bertolt Brecht baseou uma de suas últimas peças. Em tempos antigos, em algum lugar no Cáucaso, uma mãe biológica e uma mãe adotiva recorreram a um juiz para que este decidisse a qual delas pertencia a criança. O juiz desenhou um círculo de giz no chão, pôs o bebê no meio dele e disse às duas mulheres que cada uma delas agarrasse a criança por um braço; a criança pertenceria àquela que a conseguisse tirar para fora do círculo. Quando a mãe real viu que a criança estava se machucando por ser puxada em direções opostas, a compaixão levou-a a soltar o braço que segurava. Evidentemente, foi a ela que o juiz deu o filho, alegando que a mulher demonstrara um autêntico amor maternal. Segundo a mesma lógica, poderíamos imaginar um círculo de giz em Jerusalém. Aquele que amasse verdadeiramente Jerusalém preferiria perde-la a vê-la dilacerada pela disputa. Evidentemente, a suprema ironia é aqui o fato de a pequena história brechtiana ser uma variante do juízo do Rei Salomão que aparece no Antigo Testamento, que, reconhecendo que não havia maneira justa de resolver o dilema maternal, propôs a seguinte solução de Estado: a criança deveria ser cortada em duas, ficando uma metade para cada mãe. A verdadeira mãe, é claro, desistiu da reivindicação.

O que os judeus e os palestinos têm em comum é o fato de uma existência diaspórica fazer parte de suas vidas, parte de sua própria identidade. E se ambos se unissem na base deste aspecto – não na base de ocuparem, possuírem ou dividirem o mesmo território, mas na de manterem-no partilhado, aberto como refúgio aos condenados à errância? E se Jerusalém se transformasse não no lugar de um ou do outro, mas no lugar dos sem-lugar?

Tal solidariedade partilhada é a única base possível para uma verdadeira reconciliação: para o entendimento de que, ao combatermos o outro, combatemos o que há de mais vulnerável em nossa própria vida. É por isso que, com plena consciência da seriedade do conflito e de suas consequências potenciais, deveríamos insistir mais do que nunca na ideia de que estamos diante de um falso conflito, de um conflito que obscurece e mistifica a verdadeira linha de frente.

Notas

1. Menachem Begin, The Revolt (Nova York, Dell, 1977), p. 100-1.
2. A carta apareceu como um anúncio de página inteira no New York Post, 14 maio 1947, p. 42.
3. Citado pela revista Time, 24 jul. 2006.
4. Simon Wiesenthal, Justice, Not Vengeance (Londres, Mandarin, 1989), p. 266.
5. Ibidem, p. 265.
6. Norman Davies, Europe at War (Londres, Macmillan, 2006), p. 346 [ed. port.: A Europa em guerra: 1939-1945, Lisboa, Edições 70, 2008].
7. Alain Badiou, “The Question of Democracy”, Lacanian Ink, n. 28, 2o sem. 2006, p. 59.
8. Do mesmo modo, deveríamos elogiar Ehud Barak por sua resposta a Gideon Levy no Ha’aretz. Quando lhe perguntaram o que faria se tivesse nascido palestino, Barak respondeu, com efeito: “Teria aderido a uma organização terrorista”.

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violencia_capa_site_altaEste texto integra o livro Violência: seis reflexões laterais, de Slavoj Žižek, sobre o fenômeno moderno da violência, entre as explosões contraditórias das ruas e a opressão silenciosa de nosso sistema político e econômico. A edição conta ainda com um prefácio inédito, de Žižek, e um posfácio, de Mauro Iasi, situando a discussão no contexto das manifestações que tomaram as ruas do Brasil em junho de 2013!

[Disponível em versão eletrônica (ebook) por R$ 18,00 na Amazon]

Violência Zizek Debates_rj_sp

No dia 3 de setembro, Mauro Iasi e Gilberto Maringoni debaterão o livro de Žižek na Livraria Martins Fontes de São Paulo. Em julho, o autor do posfácio participou de um debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, na Livraria Gramsci:

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Alguém disse totalitarismo? Cincon intervenções no (mau) uso de uma noção * ePub (Amazon | Gato Sabido) 

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Amazon |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub  (Amazon | Gato Sabido)

Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético * ePub (Amazon | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Violência, seis reflexões laterais * Kindle (Amazon | Travessa)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Lembrança de velhos

14.07.24_Roniwalter Jatobá_Lembranças de velhosPor Roniwalter Jatobá.

Durante algum tempo da vida, realizei trabalhos fascinantes. Em um deles, coisa rara, reunia prazer, conhecimento e sabedoria. Foi num tempo em que colhia depoimentos de aposentados da antiga Light, pois pensava em fazer um paralelo sobre as profissões que se acabaram para sempre. Ideia louca? Tenho exemplos. O apagador de lampiões, no século passado e, mais próxima de muita gente, o motorneiro ou condutor de bondes.

Muitos idosos por modéstia, no entanto, consideravam sem importância a sua vida pessoal e profissional. Quase sempre, convencia-os com uma história que ouvira em algum lugar e nem sabia se na verdade havia mesmo acontecido.

Era assim – eu contava. Um dia, o famoso pregador norte-americano Fulton Sheen solicitou a presença de um jornalista em sua igreja para uma reunião de fiéis. Surpreso, ele perguntou:

– Mas, haverá alguém importante nesta reunião?

O religioso, então, respondeu com entusiasmo:

– Sim, todos. Todos são importantíssimos.

A historinha funcionava. Depois, era só preparar o gravador e partir para o agradável bate-papo. Um chegou a me confidenciar que era prazeroso lembrar-se de coisas do passado. Quando findou seu depoimento, até ficou assustado com os fatos que havia presenciado na sua trajetória paulistana, e disse:

– Quem diria que a minha vida poderia servir para contar uma história.

Nesta época de Copa do Mundo, quando todo mundo só fala de futebol, lembro de José Penha.

– Tenho orgulho de ter sido um dos primeiros a jogar em campo iluminado. Sabe que o primeiro campo iluminado do mundo era da Light? Ficava na Várzea do Glicério e pertencia à Seção de Linhas e Cabos. O sistema de iluminação foi idealizado por um colega nosso, o Severino Gragnani. Foi ele, também, o primeiro a mandar fazer uma bola branca para jogos noturnos – me revelou.

José Penha nasceu no interior paulista, em 1915. Seis anos depois, a família mudou-se para São Paulo.

– As minhas primeiras recordações são do bairro da Luz, onde moravam meus avôs maternos. Eles forneciam aves e ovos para a Força Pública e eu, garoto, acompanhava a entrega das encomendas aos quartéis.

As lembranças chegavam à sua mente como densa garoa por uma São Paulo em pé de guerra: a revolução de 1924, quando mal podia dormir com o barulho das metralhadoras e, nas manhãs bem cedo, quando saía em busca de pentes de balas abandonados nas trincheiras; o susto na revolução de 30, quando soube que Getúlio Vargas mandou bombardear a Usina de Cubatão. A mais marcante, porém, foi a revolução de 32, ao assistir a morte de quatro estudantes na Praça da República.

Foi aí que contagiado pelo clima de patriotismo vivido em São Paulo, pensou em se alistar na luta. Com alguns amigos foi até a Faculdade de Direito do largo de São Francisco, onde funcionava um posto de voluntários. Mas, na hora, lembrou do pai já morto e da mãe precisando dele, e desistiu. Em vez disso, largou a escola e começou a procurar emprego, o que não era fácil. Acabou chegando na Light. Iniciou como mensageiro em agosto de 1932 — o prédio da empresa da Rua Xavier de Toledo, no centro paulistano, ainda cheirava a novo.

– Naquele tempo eu era muito inquieto e participava de tudo. Imagine que até ajudei a fundar o nosso sindicato. Lá, o meu número de inscrição era 210.

Conheceu sua mulher, Tereza, num baile carnavalesco.

– Os carnavais daquele tempo eram muito diferentes dos de hoje. Os casais dançavam fantasiados, faziam cordões… Todos levavam confete e serpentina para o salão.

Casou-se em abril de 1940, na igreja da Boa Morte, na Rua do Carmo.

– Foi tudo muito simples e, depois da cerimônia, fomos em lua-de-mel para Santos. O ônibus era movido a gasogênio. Era tempo de guerra, havia racionamento de combustível, e os veículos eram movidos a carvão. Todos possuíam um grande cilindro preto, colocado verticalmente na traseira, onde o carvão era queimado para produzir o gás que acionava os motores. Era muito sujo e queimava as pessoas.

Frequentava os bailes patrocinados pela Associação Atlética Light and Power (A. A. L. P.) no Clube Germânia, na 24 de Maio; no Clube Lira, na Rua São Joaquim; e nas estações de bondes da Vila Mariana. Também ia à sede da entidade no Sacomã, onde aos domingos sempre havia piqueniques.

– Um trem especial era contratado para nos levar a Santos. Descíamos a serra cantando e brincando. Quando chegávamos, bondes especiais nos esperavam para nos conduzir até a praia. A banda ia junto, tocando. Depois do banho de mar vinha o almoço e, num salão alugado pelas redondezas, promovia-se um baile. A volta era lá pelas cinco da tarde. Isso só acontecia aos domingos, pois nos sábados trabalhávamos até o meio-dia: era a semana inglesa.

Aposentou-se em 1983, depois de 51 anos de trabalho.

– Ainda me sentia muito bem. Pena que nesse período eu fui perdendo colegas. Sabe que me lembro de todos? Estou ligado a eles por um hábito que venho mantendo: quando saio de casa para um passeio a pé, vou me recordando de cada um deles e vou rezando. Lembro de um e rezo para ele. Lembro de outro e rezo. Faço sempre isso. É o meu modo de sentir saudade.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Memórias de um futuro recente

14.07.21_Izaías Almada_Memórias de um futuro recente[O dramatúrgo rússo Anton P. Tchekhov e o escritor argentino Julio Florencio Cortázar]

Por Izaías Almada.

Racionalizar um espetáculo teatral sustentado pela emoção não é tarefa das mais fáceis, não é verdade? Mas não custa tentar…

Comecemos pelo jogo do faz de conta.

O que pensaria um camponês medieval europeu diante de um computador? Ou um pintor renascentista diante de uma ilha de pós-produção digital na realização de efeitos especiais para os filmes de Hollywood? Perguntas sem propósito?

Vamos, então, inverter o raciocínio: que memórias guardamos nós, já no limiar do século XXI dos mistérios medievais ou das barricadas populares na tomada da Bastilha em Paris, por exemplo?

Em ambas as simulações acima descritas, creio que não seria exagero dizer que nos comportaríamos ou nos situaríamos exatamente dentro daquele período das nossas primeiras semanas de vida, onde a realidade e a fantasia se misturam e os nossos sentimentos ainda não têm presente, nem passado e nem futuro. Em outras palavras, ao nascermos, a memória ainda é um grande vazio diante do novo e desconhecido mundo.

Mesmo considerando as várias teorias no campo das biociências ou ainda os estudos das teorias psicanalíticas, antropológicas ou mesmo filosóficas, não temos memória da nossa entrada nesse mundo. Do nosso nascimento e dos primeiros dias de vida. E nem uma previsão de quando o deixaremos.

Ao enfrentarmos a realidade do nosso cotidiano com o passar dos anos, ficamos entre os sonhos e as memórias. Entre os desejos e as lembranças. Entre o que somos agora, o que fomos antes e aquilo que ainda poderemos vir a ser.

O homem contemporâneo debate-se com o caos de um mundo que ganha em conquistas científicas e tecnológicas e perde em capacidade de amar e de ser solidário. Quanto mais avançamos em tecnologias e inventos para ampliar e aumentar a comunicação, parece que mais nos distanciamos uns dos outros, isolando-nos em nossas casas, ruas e escritórios diante de sofisticados aparelhos de comunicação.

Acrescentemos agora a esse jogo do faz de conta uma pitada de nostalgia e poesia.

O que pode haver de semelhante entre um casarão argentino dos anos 30 do século XX e um casarão russo do final do século XIX, além do fato de abrigarem famílias, pais, avós, irmãos e irmãs, amigos, todos cheios de desejos e esperanças de uma vida saudável e feliz e as memórias, por vezes amargas e cruéis, de não terem conseguido realizá-las?

Muitas das questões aqui mencionadas são, no meu entender, o fio condutor de uma viagem de introspecção e – mais do que isso – de um mergulho nostálgico e sedutor no mundo de Não vejo Moscou da janela do meu quarto, performance teatral produzida pelo Núcleo Corpo Rastreado em uma das salas da SP Escola de Teatro.

O espetáculo junta um conto de Julio Cortázar (Casa tomada) e uma peça clássica de Anton Tchekhov (As três irmãs). Escritas em épocas e cenários distintos, parte do realismo fantástico do escritor argentino se integra ao, chamemos assim, realismo impressionista do escritor russo levando o espectador a uma viagem para dentro de si mesmo. Uma viagem cruel e ao mesmo tempo poética que fala do isolamento do ser humano e que constrói uma metáfora atualíssima para os dias que vivemos no Brasil e no mundo.

Em suas memórias, Irina, Macha e Andrei vão de Buenos Aires a Moscou, como poderiam estar indo da Califórnia do século XXI ao Tibete do século XIX ou de São Paulo hoje a uma Lisboa quinhentista. Não importa o percurso e sim o fato de carregarem em sua memória e em seus antigos pertences a esperança de uma nova vida. Fazem em sua caminhada aquilo que fez o primeiro homem a habitar a terra: buscam a felicidade.

E, curiosamente, à medida que se deslocam pelo espaço cênico o fazem carregando alguns símbolos ultrapassados da comunicação contemporânea: o toca discos, o rádio galena, um velho projetor de cinema, cartas e bilhetes, tudo isso a que hoje chamamos pomposamente, num outro patamar tecnológico, de multimídia.

O programa da peça nos alerta que “essas três personagens transitam entre dois níveis, entre o medo de dentro e o medo de fora, a esperança e a nostalgia”. Eu diria, com alguma ousadia, que vão além disso. Divididos entre o mundo interior e exterior que enfrentam, entre as marcas do passado e a angústia do desconhecido, os três refugiam-se naquela que talvez seja a mais cruel característica do mundo capitalista atual: o egoísmo. Egoísmo que se confronta, de maneira perversa por vezes, com a busca da felicidade.

Desse confronto brota a nossa empatia com o texto e com todo o espetáculo levando-nos ao sorriso e ao marejar dos olhos, não propriamente para a obtenção de uma catarse aristotélica, mas para perceber que passam os séculos e continuamos a procurar uma felicidade que parece cada vez mais distante.

Nesse ponto devo render tributo à interpretação das atrizes Maria Tuca Fanchin e Sol Fanganello, e do ator Leonardo Devitto, pois seguimos a caminhada dos personagens exatamente enquanto personagens e, acredito, esse é o melhor elogio que se pode fazer ao trabalho de um ator. A ambiguidade de gestos e intenções no espetáculo pertence inteiramente ao mundo dos personagens e não necessariamente ao histrionismo de quem os interpreta.

Como Andrei, dancei o tango sem saber dançá-lo, senti os ciúmes e incertezas de Irina e Macha, com os três evoquei o medo e o terror da ficção científica projetada sobre o alvo lençol da sala dos casarões.

Segundo a diretora Silvana Garcia “a proximidade entre Casa tomada de Julio Cortázar e As três irmãs de Anton Tchekhov” sempre lhe pareceu evidente. Partindo dessa premissa, Silvana construiu um espetáculo sensível, poético, sem concessões a qualquer tipo de modismo ou a dramaturgias mofadas de telenovelas, onde o aparente caos do cenário, o figurino de trajes elegantes e cores sóbrias, a iluminação que valoriza cada pormenor do que se vê e se ouve e uma emocionante trilha musical nos carregam por um mundo de fragmentado humanismo suficiente o bastante para nos colocar diante do mais antigo e talvez eterno desafio do homem: qual o sentido da vida?

14.07.21_Izaías Almada_Memórias de um futuro recente_APTJC[Da esquerda para a direita, Leonardo Devitto, Maria Tuca Fanchin e Sol Faganello em cena na peça Não vejo Moscou da janela do meu quarto, dirigida por Silvana Garcia]

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Lançamento Boitempo: Estado e política em Marx, de Emir Sader

estado e politica em marx_capa envio

A Boitempo acaba de lançar, em nova edição, Estado e política em Marx, de Emir Sader. Escrito durante a ditadura, nos densos anos 60, trata-se da primeira tese sobre Marx defendida na USP. Partindo da ampliação das democracias políticas do final do século XX, Sader enfrenta em Estado e política em Marx, um enigma que insiste em se colocar como atual ainda nos dias de hoje: “como os poderes políticos continuaram a ser monopolizados por elites econômicas e sociais, apesar da democratização?”

Leia abaixo a apresentação que Emir Sader escreveu, para a nova edição, publicada 46 anos depois da redação original do livro

Quando escolhi cursar filosofia na Universidade de São Paulo, estava impactado pelos três anos de estudos filosóficos no curso clássico noturno do Colégio Estadual e Escola Normal Brasílio Machado, situado na Vila Mariana, na capital paulista. Porém, mais especificamente pela leitura da primeira parte de A ideologia alemã, do Marx. (Naquela época, e até bem pouco tempo, só havia edições da primeira parte do livro, a que se refere a Feuerbach. A edição integral da obra foi publicada pela Boitempo Editorial em 2007.) Essa leitura me abriu o horizonte de toda a dimensão do pensamento marxista e, de certo, foi a que mais me ajudou a entender o mundo e as possibilidades de transformá‑lo revolucionariamente. Foi, por fim, a obra que consolidou minha decisão de fazer o curso de filosofia – e não os de
ciências sociais ou de psicologia.

Aquele jovem que concluiu o curso noturno de filosofia na USP completava 25 anos quando defendeu sua dissertação de mestrado. Era professor do Departamento de Filosofia da USP e militava politicamente na clandestina Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) e havia realizado a dissertação em meio a grandes mobilizações contra a ditadura – desde passeatas estudantis até as greves de Osasco e Contagem.

A releitura deste texto hoje me permite ter um sentimento de orgulho da capacidade de combinar a elaboração teórica com a militância politica e o trabalho profissional, em um tempo tão denso como aquele. Confesso, imodestamente, considerá-lo um bom texto, daí que eu me permita republicá‑lo mais uma vez, 46 anos depois, e submetê‑lo aos leitores.

São Paulo, abril de 2014

As lições da derrota

Ainda não tiramos as lições da derrota sofrida na última Copa. Vivemos até agora no Brasil uma imensa quarta-feira de cinzas. Uma quarta-feira sem fim. No silêncio das ruas, na quarta-feira 9 de julho, não se ouvia nem um carro acelerado. Só os celerados de sempre, a reação mais à direita, acompanhada pela esquerda que todo fascista deseja ter, que comemorava a derrota da seleção brasileira como se fosse uma derrota da presidenta Dilma. A estupidez é infinita, amigos.

Levantemos voo do chão mais básico: quantas Copas nós perdemos? Teria sido melhor uma derrota final no Maracanã, como em 1950? Sim, digo perder porque a nossa sorte estava selada, antes do jogo contra a Alemanha. Mas não víamos, crentes que estávamos na fé, em palavras de fé, de sentimento da fé no hexa. Mas a fé ganha só no cacófato: fe-ganha.

A parte boa da derrota é aprender com ela. Aliás, deve ser a única parte boa. As pessoas inteligentes, quando sábias, passam os olhos de volta pelo caminho que andaram. Elas crescem com a derrota. O pensamento vulgar, mesquinho, o pensamento de anúncio de televisão (supondo que ali exista pensamento) divulga a máxima de que o sucesso é a vitória. Ou a vitória é o sucesso. Mas esquecem, ou não veem, que na vida real o sucesso, a vitória, só se alcança com a derrota. E não é a derrota do adversário. É a própria derrota de quem um dia poderá ter o sucesso. Mas como? Será isso verdade? Sim, somente o exame maduro sobre o amargo poderá um dia ter a doçura. Somente o trabalho sem trégua, sem descanso, alcançará o fruto, a maçã do paraíso.

Se isso é verdade para a pessoa, é mais clara ainda no progresso e no desenvolvimento da ciência, do conhecimento humano. Reflitam: quantos fracassos tivemos antes de um acerto? Quantos alquimistas foram necessários para que um dia houvesse a Química? Quantos homens de pensamento foram torturados, queimados na fogueira da Inquisição, antes que se tornasse universal que a terra é apenas um insignificante planeta entre as galáxias e estrelas? Quantas vezes Thomas Edison fracassou antes da invenção da lâmpada? Quantos cadáveres, ruínas houve antes da Teoria da Evolução das Espécies e da Teoria da Relatividade? Quanta inumanidade, quanta exploração, inconsciência houve antes que se escrevesse O capital?

Então eu digo que não há crescimento individual, nem coletivo, nem humano, enfim, que se faça sem a derrota. Mas para que haja crescimento, é preciso que se reflita sobre os erros cometidos. Que se retire deles o sumo de toda amargura, que se revejam passos, que se tornem pontos de discussão para o mais impiedoso exame, e só então poderá ter começo uma vitória firme, segura, mas jamais arrogante. Porque na própria vitória há um germe de derrota, no próprio sucesso há um momento de fracasso, no passado ou no futuro.

Mas nada disso nos virá daquela entrevista do técnico Felipão, depois do desastre dos 7 a 1 contra a Alemanha. Estas foram as declarações dele nos jornais:

“Um dia após ver sua equipe passar o maior vexame da história da seleção, Luiz Felipe Scolari deu entrevista coletiva e afirmou que não tem como explicar a goleada por 7 a 1 para a Alemanha. Disse, porém, que o time nacional está no caminho certo.”

Felipão usou a entrevista para defender seu trabalho. Apontou estatísticas da sua segunda passagem pelo time (19 vitórias, 6 empates e 3 derrotas) e lembrou que foi a primeira vez que o Brasil chegou à semifinal da Copa desde 2002, quando comandou a equipe do pentacampeonato.

Felipão classificou que houve uma “pane geral” na seleção durante os seis minutos em que a Alemanha fez quatro gols seguidos.

À primeira vista, ele falou suas razões como quem monta um currículo para um emprego. Omitiu informações, ressaltou outras. Pior: justificou os erros. Se devemos supor que Felipão se encontra no pleno exercício das faculdades mentais, ele mentiu, porque não mostrou, além da retórica “a culpa foi minha”, onde foi que ele errou.

A entrevista de Felipão, depois da humilhante derrota, poderia assim ser resumida: foi uma derrota sem erros. Mas Felipão faria melhor se dissesse: perdemos porque o adversário ganhou. Não explicava, é claro, mas em lugar da burrice e arrogância, teríamos pelo menos uma frase irônica, que é sempre é um brinde à inteligência.

Felipão, que gosta tanto de livro de autoajuda, que faz um sarapatel, uma mistura de escritores diversos e momentos deslocados e prega frases nas portas dos apartamentos dos jogadores – ele não é um intelectual, está visto, ele pesca no Google o que lhe pode servir como um pescador no mar sem rumo e sem bússola – em resumo: Felipão, que gosta tanto de autoajuda, depois da derrota frente à Alemanha bem que poderia refletir nas palavras de Goethe, o clássico alemão acima da arrogância e da barbárie.

Então vejamos o que Goethe escreveu em uma obra madura, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister.

“— Não é obrigação do educador de homens preservá-los do erro, mas sim orientar o errado; e mais, a sabedoria dos mestres está em deixar que o errado sorva de taças repletas seu erro. Quem só saboreia pouco o seu erro, nele se mantém por muito tempo, e dele se alegra como se fosse uma felicidade rara. Mas quem o esgota por completo, deve reconhecê-lo como erro, se não for demente”.

Aí está, Felipão, esta luz de Goethe, que parece ter sido escrita pra você, depois dos 7 a 1 sofridos:

“A sabedoria dos mestres está em deixar que o errado beba a taças completa do seu erro. Quem só saboreia pouco o seu erro, nele se mantém por muito tempo”.

Se assim o técnico brasileiro pudesse refletir, só então poderá dizer, como Goethe, quando concluiu o Livro VII do seu romance com estas linhas luminosas:

“Chegaram ao fim teus anos de aprendizado: a Natureza te absolveu”. 

E nós, quem sabe se na próxima Copa, ou em outra, voltaremos a vencer, depois desse amargo aprendizado. Mas não agora. Por enquanto, é só uma imensa quarta-feira de cinzas.

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Mike Davis, Bernardo Buarque de Hollanda, Mouzar Benedito, Mauro Iasi, Flávio Aguiar, Edson Teles, Emir Sader, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A Copa e a desnacionalização do futebol brasileiro

14.07.18_Carlos Eduardo Martins_A desnacionalização do futebol brasileiroPor Carlos Eduardo Martins.

A Copa do Mundo de 2014 no Brasil chegou ao final e, como grande evento de massas, traz várias questões para a reflexão do pensamento social e a ação comprometida com a democracia, soberania e a cultura popular.

1. O “Não vai ter Copa” foi um erro de parte das esquerdas

O futebol, como expressão do lazer, é item importante da cultura popular brasileira e tentar desprezá-lo como uma atividade menor diante das mazelas históricas que permanecem no Brasil (saúde, educação, saneamento, dependência e subdesenvolvimento em setores chaves da economia brasileira) é um erro estratégico de orientação política, que levou ao isolamento da direção dos movimentos sociais das grandes massas populares. Não foi o “Não vai ter Copa” a razão dos movimentos de junho de 2013 e sim um conjunto de desigualdades econômicas, políticas, sociais e culturais que dela independem e permanecem no Brasil gerando profundas assimetrias e frustrações. Tentar extrapolar uma palavra de ordem que surgiu durante a radicalização dos protestos, fora deste contexto, gerou uma desconexão entre a sensibilidade popular e a direção dos movimentos sociais.

O correto seria defender uma Copa sustentável, soberana e democrática questionando a exclusão das massas dos estádios, as remoções de populações pobres, as violações de direitos humanos, a ingerência imperialista da Fifa sobre o Estado brasileiro (retirando-nos parte da soberania sobre a organização do evento), e o comprometimento de recursos públicos em favor de lucros privados.

2. O futebol deve ser tratado como patrimônio imaterial da cultura brasileira

O futebol brasileiro é um evento cultural de massas nacional e mundial destacando o país em competições internacionais, auferindo 5 copas do mundo, sendo delas 11 vezes semifinalista, e 4 Copas das Confederações. Todavia está sendo fortemente ameaçado pela ofensiva neoliberal sobre este esporte no Brasil por meio: da destruição dos clubes como centros de formação e criação de um mercado mundial oligopólico de circulação de jogadores, articulado pelo capital financeiro internacional; do aprofundamento do caráter autocrático das instituições desportivas brasileiras e sua vinculação aos principais atores deste mercado; e da adoção neocolonial de paradigmas eurocêntricos.

O fim do passe, as precárias compensações estabelecidas pela Fifa e as pressões competitivas do mercado internacional elevaram os custos e colocaram os clubes em situação de brutal endividamento. A desregulamentação abriu o espaço para ampla atuação de empresários e de fundos de investimento no setor levando à criação de clubes fictícios voltados para a valorização de jogadores com o objetivo de destiná-los a transferências internacionais. Estes clubes fictícios controlados por grandes fundos de investimento capturam os direitos de formação das novas gerações transferindo-as ao exterior ou contratam jogadores emprestando-os aos grandes clubes nacionais para valorização e venda ao exterior, apropriando-se de somas fantásticas através de multas rescisórias. A indenização pela formação do atleta incide sobre cada transferência que se realize em sua carreira, podendo acompanha-la até o final.

Estabelecem-se engrenagens subterrâneas envolvendo os grandes dirigentes esportivos e o capital financeiro internacional. A seleção brasileira torna-se vitrine e instrumento para valorização de ativos empresariais, leia-se por isto, jogadores controlados por fundos que pagam comissões a altos dirigentes esportivos ou dos quais estes são sócios. Usam-se bens públicos, o nome do Brasil e o futebol que o representa, para impulsionar lucros privados extraordinários em detrimento das condições de produção que permitem a preservação e desenvolvimento da qualidade do futebol brasileiro. Todo este espetáculo não se faz sem o manejo de vultuosas somas do Estado brasileiro através de isenções fiscais, patrocínios, renegociação de dívidas, créditos bancários, destinação de verbas de loterias, sem o que não se viabilizaria a infraestrutura mínima para o funcionamento do espaço desportivo nacional.

Entrevistado sobre o êxito do futebol alemão, Franz Beckenbauer afirmou que copiou-se o exemplo francês da Copa de 1998, criando-se escolas de futebol nos clubes dedicadas à formação de jogadores. A geração alemã campeã mundial em 2014 foi formada nestas condições. Nosso futebol está tomando o caminho contrário. Desnacionalizando-se, destruindo seus centros históricos e comunitários de formação para impor os interesses do grande capital financeiro internacional e seus sócios locais. Trata-se de um amplo processo de mercantilização que gera desvios de função e corrupção na estrutura administrativa dos clubes nacionais em diversos níveis.

Tal esquema articula-se na cúpula com o poder autocrático e corrupto representado pela CBF. A gestão de Ricardo Teixeira, ex-genro de João Havelange, foi interrompida abruptamente em meio a denúncias pela justiça suíça, que investigava a quebra da empresa de marketing ISL, de que ambos teriam recebido R$ 40 milhões em subornos. Todavia as mudanças foram aparentes e o seu vice, Jose Maria Marin, que vinculou-se no passado à ala radical da ditadura civil-militar iniciada em 1964, assumiu seu lugar em 2012, elegendo antes da copa do Mundo de 2014, o novo Presidente da CBF a tomar posse apenas em abril de 2015, em estratégia articulada ainda por Teixeira. O escolhido em chapa única é Marco Polo del Nero, alvo da Policia Federal, na Operação Durkheim, por suspeita de envolvimento em quadrilhas dedicadas à quebra ilegal de sigilos bancários, fiscais e telefônicos para chantagear políticos, desembargadores e juízes, e também à evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Torna-se urgente estabelecer uma regulação pública sobre o futebol brasileiro e suas principais instâncias administrativas integrantes do sistema nacional de desportos. A reforma da Lei Pelé que qualificou as verbas das loterias como de origem pública, a MP 620 – já aprovada no Senado e em vias de ser sancionada pela Presidenta Dilma – que cria exigências de democratização, transparência e eficiência da gestão para o recebimento de recursos estatais são passos importantes que devem articular-se com a CPI da CBF para restabelecer os níveis mínimos de controle nacional e público sobre o futebol brasileiro.

3. Torna-se necessário romper com o paradigma eurocêntrico e neoliberal

A autocracia gerencial e a configuração da seleção brasileira numa expressão de ativos do capital financeiro e interesses particulares se manifestam na adoção de um paradigma eurocêntrico de futebol, na ruptura da relação com o critério de desempenho para participação na comissão técnica ou no elenco de convocados, e na ampla desqualificação do campeonato brasileiro de futebol.

Desde a chegada de Ricardo Teixeira a CBF inaugura-se a era Dunga e substitui-se o futebol ofensivo e técnico por outro que prioriza a marcação e o estilo europeu. Neste sentido, são contratados treinadores que representam este novo enfoque: Lazaroni, Parreira, Zagallo, Dunga e Felipão representam uma monótona repetição de personagens que dominaram a comissão técnicas nos últimos 24 anos, alguns cuja ascensão remonta ao período ditatorial, nos anos 1970 (Zagallo e Parreira).

A indicação de Felipão e Parreira para a campanha de 2014 não teve qualquer relação com o desempenho esportivo recente de ambos. Felipão foi o responsável pelo rebaixamento do Palmeiras em 2012 e, desde 2002, seu único título havia sido o campeonato Uzbeque de 2009 até assumir a seleção brasileira. Parreira havia fracassado na Copa de 2010 com a desclassificação da seleção anfitriã já na primeira fase, situação inédita nas Copas do Mundo.

A relação de convocados para a Copa de 2014 foi fechada na Copa das Confederações de 2013, impulsionando o marketing e a valorização de determinados jogadores, quase na sua totalidade transacionados no mercado mundial. Desconsiderou as mudanças físicas e técnicas individuais dos últimos 12 meses e o campeonato brasileiro de 2013 e 14, ignorando-se o desempenho das principais equipes e seus jogadores. O Cruzeiro, campeão brasileiro com ampla vantagem, não teve nenhum jogador convocado ou testado. Dos 3 convocados que atuam no Brasil, Fred e Jô, centroavantes chamados por Felipão, tiveram desempenho pífio no campeonato brasileiro 2013, fazendo 3 e 6 gols, respectivamente. Jogadores que se destacaram como Ricardo Goulart, Everton Ribeiro, Dedé, Ganso, Hernani e Vitinho jamais foram testados e veteranos como Ronaldinho Gaúcho, sem perspectivas, pela idade, de valorização no mercado mundial, excluídos. Optou-se por uma seleção de jogadores bastante jovens e inexperientes, transacionados no mercado mundial, muitos dos quais reservas em seus clubes de atuação, apostando-se, como numa bolsa de valores, no forte potencial de valorização de alguns de seus ativos. Mas há fortes riscos em toda aposta que busca lucros extraordinários num mercado altamente competitivo, onde o Estado não pode intervir para neutralizar seus resultados.

Que o resultado chocante da Copa de 2014 contribua para impulsionar as reformas institucionais urgentes que o futebol brasileiro necessita para retomar seu vigor. Isto implica na democratização, fortalecimento e desenvolvimento da eficiência gerencial dos clubes para retomar as condições de produção da escola brasileira de futebol. Isso não será possível sem o controle público e democrático sobre a CBF. Avançar nestas tarefas são desafios que o Estado brasileiro tem no campo desportivo nos próximos anos.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Bernardo Buarque de Hollanda, Pier Paolo Pasolini, Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Eduardo Tomazine,  Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Lançamento Boitempo: Altíssima pobreza, de Giorgio Agamben

Altíssima pobreza_capa final

A Boitempo acaba de lançar Altíssima pobreza: regras monásticas e forma de vida, de Giorgio Agamben. Neste novo título do ambicioso projeto Homo Sacer, o filósofo italiano mergulha numa pesquisa rigorosa das regras monásticas, e reconstrói a genealogia  de uma forma-de-vida, “uma vida que se vincule tão estreitamente a sua forma a ponto de ser inseparável dela”. Pensar a vida como aquilo de que nunca se dá propriedade, mas apenas um uso comum, é, para o filósofo, o legado mais precioso do franciscanismo com o qual, tantas vezes, o Ocidente voltará a confrontar-se como se fosse sua tarefa indeferível.

Leia abaixo a orelha do livro, assinada por Edson Teles

Seria possível imaginar um modo de vida em que o agir coincidisse com o ser? Como conceber uma vida não determinada pelo direito e pelas leis? Qual o limiar entre a vida e a regra?

Aprofundando reflexões sobre o contemporâneo já iniciadas nas outras obras de Homo sacer, Giorgio Agamben se lança em uma pesquisa sobre as regras monásticas, nas quais se encontra uma série de regulações da vida, do comportamento, dos hábitos cotidianos que vão desde a marcação do tempo – dividido entre noite, dia, hora de cuidar do ser, do trabalho – até as relações hierárquicas e de obediência e comando, passando pelas incidências de danos às quebras de procedimento.

As “formas de vida” nascem de um ideal monástico, centrado na fuga do indivíduo para uma vida solitária e de entrega espiritual, e parecem dar origem a um modo de vida em comunidade.

Distinto do modelo contemporâneo, no qual se adéqua o cotidiano à lei e às regras, o dispositivo monástico não aplica a norma à vida, mas busca construir uma formulação em que se vive de acordo com a norma. Com os franciscanos elabora-se uma vivência em comum pela indiferenciação entre vida e regra. Uma forma de vida que não é conselho, nem moral, nem ciência, nem lei, mas funciona como o cânone de uma comunidade do bom uso da vida.

“Altíssima pobreza” é menos uma prática ascética de perfeição do que a possibilidade de uma vida fora do direito e da propriedade, como se ela a ninguém pertencesse e pudéssemos apenas dela fazer um uso comum. A vida franciscana não se situa no plano da doutrina ou da lei, mas na experiência de um modo de vida e de relação com o mundo.

Agamben propõe uma rigorosa genealogia das formas monásticas, relacionando-as às liturgias, à vida comum, às instituições de poder, para construir um duplo caminho: através de um profundo mergulho na figura histórica do pensamento religioso, o autor nos remete diretamente aos dilemas do contemporâneo.

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Adverte-se aos curiosos: esta edição de Altíssima pobreza foi publicada 50 anos depois do lançamento de O evangelho segundo são Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini. No filme, o jovem Giorgio Agamben (22 anos), então estudante de Direito, trabalha como ator no papel do apóstolo Felipe. Confira:

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

A comemoração

14.07.17_Flávio Aguiar_A comemoração[Charge de Ziraldo publicada na revista Visão durante a Copa de 1970]

Por Flávio Aguiar.

Dois municípios se digladiavam no interior do Rio Grande do Sul: Xurumela e Novo Säugling. A rixa era antiga. Novo Säugling, como diz o nome, era predominantemente germânico. Já Xurumela tinha mais de tudo: até alguns dissidentes de Novo Säugling que preferiram se misturar, em priscas eras, aos xurumélios. O contrário também era verdade: muitos xurumenses, sabe-se lá por que, tinham preferido passar para o lado dos säuglinguenses.

A rixa, porém, era antiga. Por exemplo: no tempo da Guerra, alguns säuglingos aderiram ao Terceiro Reich. Não eram a maioria: mas pelo barulho, deram o seu perfil ao município. Marchavam pelas ruas imitando a Wehrmacht, a passo de ganso.

Depois, quando perceberam que isto podia pegar mal, aderiram aos integralistas, camisa verde e tudo o mais. Gritavam Anauê com a mão levantada, no melhor estilo então dominante em Berlim. Isto valeu o apelido a todos os säuglingóis, de “boches” – nome herdado, na verdade, dos filmes americanos sobre a guerra, em que os alemães sempre pareciam gorilas perfilados que falavam um inglês estropiado e gutural.

Já em Novo Säugling os xurumeses tinham fama de vagabundos, que detestavam trabalhar, só pensavam em ir se deitar nas praias do rio Taquari e ficar vadiando. Tudo isto porque muitos xurumelianos adoravam fazer exatamente isto, embora trabalhassem pacas o dia e o mês inteiros. Daí se criou em Novo Säugling a expressão “xurumico” – que servia para designar os vira-latas, os cães vadios, que, aliás, a prefeitura local expulsava sempre para o município vizinho.

Mas havia entre ambas uma sociedade secreta, que se auto-chamava “Os Condestáveis”. Eram grandes empresários de um lado e do outro, que governavam as duas cidades, pois financiavam sempre os candidatos a prefeito e a maioria dos vereadores que eram eleitos. Na verdade, eles, os “Condestáveis”, se julgavam “os eleitos”. Mas preferiam governar na sombra.

Eram sempre muito racionais, embora às vezes surgissem propostas abstrusas entre eles. Por exemplo, um condestável do lado “sing”, preocupado com o excesso de xurumeios que procuravam os bordéis de Säugling”, sugeriu que se construísse um muro na divisa entre as duas cidades, para controlar a passagem. O presidente do Conselho dos Condestáveis se opôs: “logo agora que o muro lá em Berlim caiu?”. Ao que o proponente retrucou: “pois é, a gente podia aproveitar as pedras do de lá pra construir o de cá; sairia barato”.

Mas felizmente a ideia não prosperou. Porque entre as duas cidades havia uma troca intensa, por debaixo da rivalidade. Os condestáveis de Xurumela produziam muito couro e cadarços. Já os de Säugling produziam sapatos. Muitos xurumicos trabalhavam nas fábricas dos boches. E todos – os condestáveis, naturalmente – ganhavam muuuito dinheiro com isto.

Mas aí veio o grande dia do futebol. Alguém teve a ideia de promover um campeonato entre as seleções das duas cidades, em melhor de três. Era para promover a integração, mas logo começaram a surgir as piadas, de que os “boches” jogariam que nem postes e, do outro lado, que os “xurumicos” derreteriam ao sofrer o primeiro gol.

Veio o grande dia. Bandeiras agitadas, feito asas num pombal. Camisetas distendidas em corpos, como num varal. E no campo – cujas arquibancadas estavam lotadas, até com o governador do estado presente – foi um vareio: Xurumela 7 x Singóilingue 1. Uma vergonha. O povo siringóide clamava por vingança. Mas veio a segunda partida, mais sofrida. Mas depois de pênaltis não marcados, expulsões, muito sangue, suor e lágrimas, acabou com a vitória Xuru por 1 x 0.

Daí alguém xurumelo teve a ideia. Vamos fazer uma comemoração.

E fizeram. Era um desfile. Ruas cheias, povo com bandeirinhas xurumélicas na rua. E aí na frente vinha uma linha de jogadores do time xurúquico, de botas, capacete nazi, uniforme, em passo de ganso, cantando: “assim caminham os boches”. A seguir, num passe de mágica, despiam os uniformes, os capacetes, as botas, ficavam de bermuda e chinelo de dedo, entrava uma batucada, e eles a sambar gritavam: “assim caminham os xurumelos!”.

Em Zingoriunga foi um desmanche. “Racismo”, gritavam os mais exaltados. “Desrespeito pelos vencidos”, os menos. “Vergonha”, gritavam todos. “Vingança”, rugiam as ruas.

Alguém teve a ideia: vamos organizar uma dança contrária! A gente começa caminhando de cócoras, cabeça meio baixa, gritando: “assim caminham os xurumicos!”. Depois se alevanta, caminha de pé, e grita: “assim caminha a humanidade!”. Continuava a argumentação: “é o nome de um filme famoso. A gente pode dizer que é um velho costume germânico, de origem medieval – coisa que aliás estes xurumicos não têm – e assim ninguém poderá nos acusar de racismo”. Mas a ideia foi descartada pelo presidente sirigóide dos Condestáveis, temendo que o caso atraísse a atenção das autoridades do estado e até de Brasília. “Ainda mais nestes tempos que lá em Brasília e aqui no estado reinam estes comunas”, ele contou depois à mulher, no jantar.

Mas o caso deflagrou debates candentes de ambos os lados da divisa. Gente contra e a favor, gente que escrevia artigos candentes de um lado exigindo – de ambos os lados – o sangue e a cabeça dos que escreviam pelo outro lado. Grandes confusões de aprontavam no horizonte. Um dos xurumicos, que era amigo de um dos boches, observou para este: “a coisa é feia e vem se debruçando”.

Mas daí alguém – um outro alguém – teve uma ideia – uma outra ideia. Não se sabe muito bem como foi, mas o fato é que num domingo, na praça que marcava a divisa entre as duas cidades, apareceu uma banda. É, uma bandinha, destas do interior. Metade xurumicos, metade boches. Só que os xurumicos vestiam aqueles calçõezinhos de couro da Baviera, com o chapeuzinho verde de peninha em riste. E os boches vestiam de tudo: camiseta listada com sandália de dedo, bombacha de gaúcho, tinha um até vestido de baiana. Por que não?

E desandaram a tocar na manhã ensolarada. Tocavam de tudo. Rancheira, xote, baião, polca, Heimatlandmusik, yodeldideldum suíço, valsa de Viena, rocão, funk, punk, pós-jazz, tudo de tudo. Mas foi na hora do sambão que a coisa começou. Um xurumelo – que tinha uma paixão secreta – não aguentou e tirou-a pra dançar. Só que ela era do lado boche. Mas topou e caiu no samba. Daí subiu a locura. Todo mundo começou a dançar e sambaram até a Kleinenachtmusik do Mozart.

Começou assim a verdadeira comemoração. Diz que durou um mês. Ninguém trabalhou neste tempo. Todo mundo compartilhava tudo: Wurst, picanha, acarajé, cerveja, vinho, refri, água. E caía no samba. Um mês depois, foram dormir, que ninguém é de ferro.

A vida voltou ao normal. Mas nunca mais o normal foi normal. Toda a semana, tem uma festa em algum local, com a bandinha dos aloprados. Tem gente que fala até em fundir os dois municípios. E há uma nova expressão no pedaço, dirigida às novas gerações, capitaneadas por aquele casal que começou a dança: “xuruboche”, e dita com muita honra.

Por seu turno, a Associação Secreta dos Condestáveis registrou aquele mês como perdas e danos. E pediu mais isenção de impostos.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros! Para aprofundar o debate sobre o legado da Copa e das Olimpíadas para o Brasil, a Boitempo lança às vésperas da Copa o livro de intervenção Brasil em jogo, em debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Moral da Copa: a fantasia clama pela racionalidade

14.07.17_Jorge Luiz Souto Maior_Moral da CopaPor Jorge Luiz Souto Maior.

Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas a complexidade do contexto em que vivemos exige que as ideias sejam apresentadas por inteiro, ainda que de forma resumida.

O que pretendo com este ensaio, que nesta visão mostra-se até bastante pequeno, é, sobretudo, advertir sobre os problemas que decorrem da perda da racionalidade, o que não significa dizer que as posições aqui assumidas sejam as corretas. Penso que o único erro que se pode cometer é o de evitar as análises sob o pressuposto de que qualquer tipo de problematização seja uma forma de derrotismo ou de conspiração.

A ocorrência da Copa e o advento das eleições estão obstando a realização de análises comprometidas apenas com os fatos, tais como se apresentam, e isso tem gerado um definhamento na capacidade crítica e reflexiva. As pessoas não querem ouvir e têm medo de falar.

O que proponho, portanto, é apenas que retomemos o diálogo franco e aberto sobre os problemas sociais do país, passando por cima de interesses estritamente eleitorais, estabelecidos em lógica maniqueísta, e de propósitos comerciais.

Nessa perspectiva é que lhes convido a perder parte do valioso tempo de suas vidas com a presente leitura.

1. “Toca de tatu”1

Em entrevista após o 7 a 1 contra Alemanha, Neymar, refutando algumas críticas à seleção brasileira, falou que “é muito fácil falar depois que as coisas acontecem”…

Entendo o que o craque e cidadão Neymar disse. Pretendeu explicitar que antes da partida ninguém diria que aquele resultado ocorreria e mesmo os críticos não manifestariam uma visão tão negativa da seleção quanto a que os gols da Alemanha lhes permitiram expressar. Além disso, após um resultado acachapante como aquele passou a ser muito fácil para os críticos apontarem problemas e mais problemas sem receio de objeções, em razão do dado objetivo, irrespondível, da goleada sofrida pela seleção.

Mas se há alguma verdade na justa observação de Neymar, não é possível deixar de reconhecer que também fica muito fácil recusar as críticas a partir desse argumento, incorrendo-se em erro ainda mais grave que é o de fingir que o resultado não ocorreu, como se verificou, posteriormente, na postura da comissão técnica da seleção brasileira.

Claro que diante de um 7 a 1 é preciso mesmo muito cuidado para fazer a crítica, como adverte Juca Kfouri, para não perder a mão e sair por aí destruindo moralmente as pessoas.

Creio que os jogadores fizeram a sua parte. Jogaram o que podiam, sobretudo diante da carga emocional que indevidamente recaiu sobre suas cabeças. A comissão técnica trabalhou de forma intensa e, por óbvio, fez o trabalho que considerava ser o melhor que podia fazer. Em suma, é preciso respeitar os profissionais que atuaram na seleção, vendo-os como trabalhadores, ainda que muitos deles não se vejam como tal.

Muito menos se pode dizer, a partir do 7 a 1, que a Copa em si não teve muitos pontos positivos tanto no aspecto da qualidade dos jogos quanto no que tange à organização.

Mas daí a dizer, como disseram os membros da comissão técnica, que o 7 a 1 foi fruto de um apagão de 6 minutos e que não tem uma explicação, tendo sido meramente obra da magia do futebol, negando-se a reconhecer algum erro na formação e no treinamento da seleção, vai uma distância muito grande, que alimenta uma atitude dissimulada, em desprezo pleno da realidade.

Essa atitude, ademais, de negar as evidências, foi a que proporcionou que a seleção cometesse os mesmos erros no jogo contra a Holanda, promovendo novo resultado negativo, nem tanto pelo número de gols, mas pela própria forma equivocada de atuação.

Portanto, bem ao contrário do que a frase do Neymar, literalmente interpretada, sugere, não é nada fácil falar sobre a performance da seleção brasileira na Copa depois dos fatos ocorridos, até porque há vários riscos envolvidos ao se entrar no pêndulo impreciso entre a dramatização e a banalização.

2. “Diz um diz que viu”

Sei que, em tese, é só futebol. Sei também que se trata de um esporte cuja dinâmica permite que os resultados possam não ser aqueles que se imaginava devessem racionalmente ocorrer. Mas quem transformou a Copa em algo mais representativo que o próprio jogo não fui eu. De fato, criou-se uma fantasia em torno da Copa, que fora tomada como instrumento para abafar a contestação política ao governo. E agora que o time dentro de campo não funcionou não é mais possível vir a público para dizer que é “só futebol”.

Vale lembrar que a influência política, apoiada no apelo de uma comoção midiática, proporcionou uma preparação da seleção para a Copa completamente alheia a uma avaliação crítica mais contundente. A seleção se formou a partir de uma espécie de consenso, sem ser de fato testada, tudo a partir do argumento objetivo de ter se sagrado campeã da Copa das Confederações, evento que se realizou no olho do furacão das manifestações de junho de 2013 e cujo título serviu para criar o artifício de uma coesa contraposição patriótica à contestação política.

E lá foi a seleção, “que nem marquês de Pombal”, blindada com a marca de salvadora da pátria. Isso já ia mal!

Envolvida na própria fantasia criada, que se alimentava da comoção de entoar o “hino a capella”, que rapidamente foi assimilada como uma marca da seleção, a comissão técnica se viu na contingência de ter que manter os jogadores que participaram daquele torneio, um torneio que, todos sabem, não tem um valor efetivo. Mas, enfim, a fantasia já estava arraigada aos corações e mentes de todos. Resultado: chegou-se à Copa do Mundo com uma seleção com deficiência técnica no conjunto, sem estrutura de jogo e sem opções para reagir diante de adversidades criadas por rivais preparados sem esse fardo.

Com raras exceções, como, por exemplo, a do craque Neto, que reiteradamente insistia em dizer que o Luis Fabiano deveria ser o reserva do Fred, foram pouquíssimas as vozes dissonantes com relação à convocação.

Sem a influência da fantasia seria óbvio perceber que o Neymar não poderia ser o líder da equipe e que faltava alguém – um menos “bom moço” – que assumisse a responsabilidade em campo de arrumar o time e outros que pudessem dividir com o Neymar o peso de decidir os jogos. Não se está dizendo que jogadores com essas características existiam e cobrando nomes. Mas a mera ausência já exigia uma preparação diferente.

Claro que neste aspecto a crítica de Neymar, inicialmente reproduzida, toma corpo, exatamente no sentido de que agora fica fácil falar isso… Mas o que estou pontuando não é qual a convocação deveria ter sido feita e sim que a fantasia criada em torno da Copa das Confederações impediu que se pudesse ter visto as deficiências, no conjunto, do time, indo, aliás, muito além disso, pois a conquista chegou a conferir aos jogadores o excessivo patamar de “pop stars”, o que, claro, foi incentivado por patrocinadores, como forma de alavancar negócios.

3. “Um pega lá no toma-lá-dá-cá”

Consciente de que tinha nas mãos a equipe talhada para ser campeã, na perspectiva do governo o que restava era apenas garantir que a Copa ocorresse sem transtornos, pois o título viria como a cereja do bolo que anularia qualquer crítica à realização do evento.

As manifestações de junho foram violentamente rechaçadas em nome da Copa das Confederações e o sucesso atingido conferiu o direcionamento: impedir que as contestações populares ao evento tivessem lugar. E se visualizou a “Copa das tropas”.

A fantasia já criada em torno da seleção foi transportada para o campo administrativo e político. A Lei Geral da Copa estabeleceu um Estado de Exceção na ordem constitucional brasileira, mas a população foi levada a crer que isso de fato não ocorria e que todos os que apresentavam argumentos com alguma racionalidade objetiva estavam apenas tentando inviabilizar o evento e querendo abalar a estabilidade política do governo.

Por mais que estivessem claros os absurdos jurídicos cometidos na preparação para a Copa com: a) as remoções de famílias; b) a criação de um “local oficial de competição” reservado à FIFA e suas parceiras para comercialização exclusiva; c) a institucionalização do trabalho voluntário na realização de serviços ligados a um empreendimento econômico; d) o permissivo da exploração do trabalho infantil nas atividades ligadas aos jogos, incluindo a de gandula; e) a liberdade conferida à FIFA para atuar no mercado, sem qualquer intervenção do Estado, podendo, inclusive, fixar o preço dos ingressos como bem lhe aprouvesse e mesmo assim a entidade ainda se viu envolvida na formação de um mercado paralelo de ingressos; f) a eliminação do direito à meia-entrada; g) o afastamento da aplicação do Código de Defesa do Consumidor; h) a ausência de fiscalização efetiva das condições de trabalho nas obras dos estádios, das quais decorreram oito mortes e inúmeros acidentes (não contabilizados); i) a isenção tributária à FIFA; j) a restrição à atividade dos ambulantes; l) o incentivo à formação de relações de trabalho por intermédio da terceirização; a fantasia falava cada vez mais alto.

Assim, para atender o compromisso de realizar aquela que se passou a anunciar como a “Copa das Copas” e permitir a curtição do futebol nos estádios, no Fan Fest, em bares, no sofá da sala ou no churrasco com amigos, regado a muita “birita”, era preciso difundir a ideia de que nenhum problema de fato estava ocorrendo, fazendo acreditar que ser brasileiro era necessariamente torcer para a seleção e que tudo o mais não importava naquele momento, impulsionando, desse modo, um espírito de massa, próprio aos regimes totalitários, que se legitimam no Estado de Exceção.

A fantasia em favor da comoção e do ópio tinha, ainda, que desqualificar todos que falavam dos problemas da Copa, mesmo que apenas quisessem, como ocorria a muitos, firmar sua posição quanto à impropriedade de se ter destinado dinheiro público para realizar a Copa exatamente no momento em que a população tinha ido às ruas para pleitear melhorias nos serviços públicos ligados aos direitos sociais e no que se refere aos riscos a que se submetia toda a população com a abertura às práticas policialescas e de supressão de direitos democráticos, notabilizando-se o prejuízo histórico à classe trabalhadora.

Na perspectiva das manifestações populares, essa “derrota” foi imposta pelo uso da força policial, promovendo-se um grave retrocesso na forma democrática de encarar as mobilizações, isso se tomarmos como referência o padrão atingido em junho de 2013. Chegou-se mesmo a estabelecer uma associação entre a União e os diversos Estados da Federação, independente de filiação partidária, para instituição de uma “política federativa de segurança”, conforme assumiu a Presidenta Dilma2. Tudo para abafar as mobilizações populares, tendo se chegado ao ponto da total supressão do direito de manifestação e de reunião, como se deu no primeiro dia da Copa em São Paulo, quando uma manifestação foi impedida de iniciar, e no dia 1º. de julho, em ato realizado, também em São Paulo, na Praça Roosevelt, que restou sitiada por um contingente de policiais no mínimo três vezes superior ao número de participantes. A repressão foi acompanhada da tática de criminalização, que vitimou em São Paulo, os estudantes Murilo Magalhães e Fábio Hideki Harano e o professor Rafael Marques, estes últimos dois presos desde o dia 23 de junho, e instigou, no Rio de Janeiro, a prisão preventiva de 19 ativistas, um dia antes do último jogo da Copa, diante da iminência da ocorrência de manifestações.

A associação política foi acompanhada de um ajuste tácito em torno dos potenciais benefícios econômicos da Copa, fazendo com que vários meios de comunicação, que antes davam destaque aos problemas na preparação para a Copa, com a proximidade do evento, passassem a retirar esses questionamentos do noticiário como se nunca tivessem ocorrido.

4. “Rola a bola”

E quando rolou a bola a fantasia rolou solta. A cada chute, a cada drible, a cada gol, a cada virada, mídia e governo exaltavam a beleza da “Copa das Copas”… E como os estádios ficaram prontos, os aeroportos não ficaram entulhados, as manifestações foram abafadas e se esqueceram os problemas que envolveram a preparação para o evento, foi o momento de atacar os “pessimistas”, afirmando-se que os críticos que tinham feito apostas contra a capacidade do Brasil de organizar um evento dessa envergadura tinham perdido.

Verdade que muitas das premonições contra a Copa, como as que diziam respeito às deficiências de infra-estrutura, eram mesmo exageradas, embora não de todo despropositadas, vez que muitas obras foram concluídas no último instante e tantas outras sequer foram acabadas. De todo modo, problemas na preparação para a Copa existiram e mesmo que ainda estivessem produzindo efeitos concretos, sobretudo no que tange à exceção do Estado Constitucional, a fantasia criada em torno do evento buscava fazer com que os problemas fossem transformados em abstrações de conspiradores, vez que, em concreto, o que se via – como se queria ver – eram torcedores, de várias nacionalidades, entrando e saindo felizes dos estádios, deliciando-se com jogos emocionantes.

5. “Água de benzê, linha de passe e chimarrão”

E a seleção brasileira? Bem, a seleção brasileira foi a representação perfeita dos perigos de tentar viver no mundo da fantasia e dos efeitos deletérios da perda da racionalidade humana.

Transportando para a Copa do Mundo a fantasia da Copa das Confederações, os jogadores da seleção brasileira entraram em campo no primeiro jogo assumindo o papel de “salvadores da pátria”, da pátria com chuteiras. E dá-lhe hino a capella!

Convencidos pela força midiática de que eram super heróis, super craques e símbolos máximos do sucesso econômico do futebol, entoados por uma forte emoção social e carregados do peso insuportável de sufocar os problemas do país, os jogadores se viram na contingência de se encontrarem com seus limites humanos e viram abaladas as suas próprias forças e habilidades.

A seleção, que já possuía, no conjunto, limitações técnicas e deficiência tática, experimentou ainda maiores dificuldades e jogou mal o primeiro jogo, embora tenha vencido.

Mas, claro, a fantasia continuou imperando e foi como se o jogo não tivesse ocorrido. “Tocou Neymar é gol!”

A empolgação com a seleção continuou sendo fortemente incentivada pela grande mídia, exceção feita – nos limites do que tive a possibilidade de ver e ouvir – aos profissionais da ESPN.

No segundo jogo, outro susto. Empate com o México e a seleção novamente não se viu bem. No entanto, comissão técnica e jogadores pareciam estar em um universo paralelo. Para eles, tudo estava sob controle…

Depois, vitória sobre Camarões!!! E na visão fantasiada a seleção tinha encontrado o rumo definitivo dos bons resultados.

Os três jogos já demonstravam claramente que a seleção não estava bem e que corria muitos riscos no jogo contra o Chile. Mas os prognósticos eram: o Brasil passa, com certeza.

Passou, mas por muita, muita sorte, além, é claro, por conta da incompetência dos atacantes do Chile e bastante em razão da habilidade do goleiro Júlio César em pegar pênaltis.

Naquele instante já era possível vislumbrar a situação da seleção brasileira como a daquele time que no campeonato brasileiro fica quase todas as rodadas na zona de rebaixamento e que, faltando poucas rodadas para o término da competição, ainda tem chances matemáticas de não ser rebaixado, bastando para tanto que conquiste 12 nos últimos 15 pontos em disputa. Ora, ainda que matematicamente isso seja possível, não é muito razoável supor que um time que tem, por exemplo, cinco vitórias em todo o campeonato possa vencer quatro adversários nos últimos cinco jogos.

Os analistas profissionais da ESPN, por isso mesmo, continuavam fazendo suas advertências quanto à fragilidade coletiva e tática da seleção brasileira, mas no império do mundo da fantasia eram tachados de negativistas. O Brasil estava jogando mal e não era razoável supor que passasse a jogar bem de uma hora para outra, ainda mais porque entre os convocados não havia quem pudesse ser utilizado para mudar, radicalmente, a forma de jogar, que continuava sendo, “tocou Neymar é gol”.

Foi então que a fantasia da Copa se aliou à realidade totalitária e alguns jornalistas críticos da seleção foram chamados para uma conversa privada, na qual se tentou convencê-los de que não era conveniente que continuassem expressando suas compreensões. A reunião, segundo se relatou, foi amistosa e, em concreto, não repercutiu na postura dos jornalistas. De todo modo, ocorreu e só isso demonstra o quanto o mundo da fantasia se incomoda com racionalidades.

O jogo contra o Chile foi o fundo do poço e a forma como os jogadores desabaram ao final da partida impunha que a comissão técnica reconhecesse o exagero de todo o artificialismo em que a seleção estava envolvida.

Quando se esperava que um pouco de racionalidade fosse produzida, nova fantasia foi criada para manter a euforia em torno da seleção e blindar a comissão técnica: tudo não passava de problemas emocionais; nada que um trabalho psicológico de dois dias não resolvesse.

Com a vitória sobre a Colômbia por 2 a 1 a fantasia se consagrou de vez. A euforia não permitiu que se percebesse, no entanto, o quanto a Colômbia, naquele jogo específico, deixou a desejar.

Mesmo a perda trágica do Neymar, por contusão, do ponto de vista do efeito na seleção, foi minimizada, sendo transformada, por nova fantasia, em alimento para uma comoção social e para a extração de mais energia dos demais jogadores.

Em paralelo, a morte de duas pessoas e o ferimento de outras vinte e três no dia 03 de julho, um dia antes do jogo contra a Colômbia, em Belo Horizonte, decorrentes do desabamento de um viaduto, obra inacabada que seria destinada à mobilidade para a Copa, financiada pelo PAC da Copa, sob a responsabilidade do governo municipal e realizada por grandes empreiteiras, algumas já envolvidas em questões ligadas à falta de segurança dos trabalhadores, como atesta ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho na Bahia (Vara do Trabalho de Ipiaú)3, foram igualmente conduzidos ao plano da abstração, não atingindo a comoção social devida (bem ao contrário do que se deu com a contusão do Neymar, que foi, por certo, muito triste), até porque não era o momento de expor questionamentos que pudessem abalar a performance da seleção em campo. A realidade dos problemas da preparação para a Copa se fazia presente, mas em nome da fantasia era desconsiderada.

6. “Não tem, vai pão com pão”

No plano do futebol, até então, concretamente, a seleção brasileira não havida jogado nenhuma partida de forma convincente e sem Neymar findou-se a única tática existente do “tocou Neymar é gol”. Além disso, sem Thiago Silva a “melhor defesa do mundo” já não seria igual. Era fácil saber, portanto, que o jogo contra a Alemanha seria uma parada duríssima e que o prognóstico mais próximo da realidade era o da derrota da seleção brasileira. Claro que no futebol tudo é possível, mas mesmo o imponderável tem limites e o jogo, de fato, se resolve em campo pela somatória de atuações e a estratégia utilizada. Não basta empolgação, raça ou força de vontade. Mas na fantasia alimentada a seleção era a melhor do mundo e seria ainda melhor sem o Neymar porque os demais jogadores, mesmo extenuados por terem tido que jogar carregando 200 milhões de brasileiros nas costas e por terem tido que fazer valer os compromissos comerciais assumidos pela CBF, jogariam pelo Neymar…

A comissão técnica não apenas foi envolvida neste clima como o incentivou. Ora, na qualidade de uma “comissão técnica” cumpria-lhe ter tido a percepção de que a situação punha a seleção brasileira em uma condição de inferioridade frente à seleção alemã. Mas não, mesmo tendo colocado em campo um “catado” que nunca havia atuado junto, armou a seleção indo para cima dos alemães, que jogam juntos há vários anos não só na seleção mas no próprio campeonato alemão, e mesmo levando um gol aos dez minutos, quando já era possível prever uma goleada, manteve a mesma forma de jogar: desesperada no ataque e atabalhoada na defesa.

Dir-se-á: agora é fácil falar! A questão é que a fantasia em que todos estavam envolvidos não permitia que a totalidade da situação fosse examinada, até porque naquela altura os interesses políticos e econômicos já se davam por satisfeitos e mesmo a derrota poderia ser alimento para novas fantasias…

Aliás, antes da partida contra a Alemanha foi sentenciado: independente do resultado do jogo, “o Brasil já se sente vitorioso!”

7. “Rabada com angu”

Só que a fantasia do futebol de tanto ser utilizada se vingou e resolveu trazer a realidade à tona: Alemanha 7, Brasil 1.

Em concreto, a soberba, a deficiência técnica, a falta de organização e o excessivo envolvimento do futebol com política e relações comerciais acabaram por expor a seleção brasileira a um vexame histórico, mas que acabou sendo necessário, pois somente uma hecatombe poderia extrair o Brasil do local mais profundo da irracionalidade em que se encontrava.

A goleada de 7 a 1 traduziu, exatamente, a distância na preparação que separava as duas seleções.

Na preparação, enquanto a seleção brasileira sofreu das conseqüências do artificialismo, incluindo a infantilização a que foram submetidos os jogadores, que serviram, também, todo o tempo, como garotos-propaganda de algumas marcas e de uma rede de televisão, a Alemanha se postou como uma seleção focada a um objetivo específico: jogar bola.

Naquele instante a análise já seria bastante óbvia, sem possibilidades de digressões. A fragilidade da seleção brasileira ficou à mostra, assim como a superioridade técnica da Alemanha.

8. “Um som bordão bordando o som, dedão, violação”

Era hora, pois, de trazer os problemas à tona, assumi-los e pensar sobre eles. Mas após tanto tempo no mundo da fantasia não apenas ficou definhada a capacidade de raciocinar, como se perdeu mesmo a vergonha de ofender a inteligência alheia.

Depois do jogo cheguei a rascunhar um artigo com o título, “enfim a razão”, supondo que diante das obviedades extraídas da partida não se teria mais lugar para fantasias.

Qual não foi a surpresa quando a comissão técnica veio a público para dizer que a preparação da seleção não teve nenhum erro e que no jogo com a Alemanha o que aconteceu foi apenas um apagão de 06 minutos, tendo sido o resultado final fruto do inexplicável e do acaso…

Neste instante fui invadido de extrema perplexidade e me lembrei de uma conversa que tive no começo desse ano com alguns alunos na Faculdade, quando falávamos sobre o quanto 2014 submeteria a nossa condição humana a testes extremos, isso porque já se podia verificar uma escalada da irracionalidade sobre diversos assuntos e diante da Copa e das eleições tal situação tenderia a se aprofundar.

Mas não foi só. Também o governo que se valeu da seleção e da Copa para abafar as mobilizações populares, passou a adotar uma postura de se desvincular do futebol, destacando apenas o seu papel de organizador do evento. Mas, para não perder a oportunidade de criar nova fantasia, exaltou a capacidade do povo brasileiro de superar a derrota: “Ser capaz de superar a derrota, eu acho que é a característica e marca de uma grande seleção e de um grande país”, disse a Presidenta, deixando a entender que as ausências de Neymar e Thiago Silva foram os fatores determinantes da derrota4.

E, deslocando-se, plenamente, do resultado, preconizou que a Copa foi uma “das melhores” já realizadas, “e isso é em grande parte devido à capacidade do povo brasileiro para oferecer hospitalidade e receber bem torcedores  de todo o mundo”5.

Ou seja, mesmo com o histórico 7 a 1, o que se verificou foi a produção de novas irracionalidades, desenvolvidas no mundo da fantasia, para gerar a sensação de que a goleada simplesmente não havia ocorrido ou que não estivesse ligada a algum problema na formação, preparação e treinamento da seleção.

9. “Naco de peru”

Convencida da própria versão e com o alimento retórico de “Dona Lúcia”, a comissão técnica, que não viu nenhum erro na atuação do Brasil e que foi prestigiada pela CBF, muito rapidamente recuperou o “alto astral”. Foi para o jogo contra a Holanda como se estivesse indo para uma festa cívica, alimentada por novas fantasias, como a de reintegrar o Neymar à delegação e até conduzi-lo ao banco de reservas, para atrair a simpatia do público.

Assim, a seleção brasileira entrou em campo contra a Holanda como se nada tivesse ocorrido e mesmo a torcida foi induzida a acreditar que as coisas voltariam à normalidade artificialmente construída, recuperando a esperança em torno da realização de uma partida técnica e plasticamente perfeita da seleção.

No entanto, conforme já denunciava o 7 a 1, a realidade era a de que seleção brasileira, independente da qualidade individual e da dedicação dos jogadores, no conjunto estava mal.

E a fantasia do futebol se rebelou novamente: 3 a 0.

10. “Sereno e pé no chão”

Com 10 a 1 na conta (somados os dois jogos) não é mais possível deixar de reconhecer que a própria fantasia está exigindo que se recobre a razão a partir de postulados da realidade e é preciso que isso se faça urgentemente, ainda que de forma serena, com pé no chão.

Por conta da derrota no futebol, não me parece devido fazer divagações acerca do caráter nacional, ou coisa que o valha, fazendo alusões a um suposto “complexo de vira-lata”. Talvez o mais apropriado seja tentar identificar os problemas das entidades responsáveis pela organização do futebol, que atingem outras instituições brasileiras, e para tanto cumpre dar destaque à leitura sociológica que aponta os efeitos negativos da ausência de uma revolução social. Lembre-se que sequer uma revolução burguesa em sua forma clássica se produziu entre nós, conferindo-nos um capitalismo dependente, que nega a existência da sociedade de classes e que está envolto em formas de conciliação com o passado6, gerando um legado de preservação e acúmulo de lógicas escravistas, oligárquicas e anti-democráticas, além de práticas de corolenismo, clientelismo e fisiologismo. Essa situação, aliás, teria conferido um caráter autocrático à burguesia brasileira e o apego a um liberalismo dissimulado, que se vale da estrutura repressiva de poder para manter as desigualdades e impor submissão e acomodamento diante das adversidades à classe dominada, à qual se apresenta apenas o refúgio e a retórica de identidade, assim como a “liberdade”, nos eventos festivas7, também como forma de abafar as tragédias cotidianas.

Isso não quer dizer que o povo tenha assistido a tudo bestializado8 ou também que não tenham havido no Brasil inúmeras lutas sociais, sobretudo no âmbito da classe trabalhadora, o que é suficiente, inclusive, para negar a suposta apatia do povo brasileiro, mas não a alienação, obviamente, que é típica no capitalismo. Essas lutas, ademais, têm se intensificado nos últimos anos, sobretudo a partir de junho do ano passado, fazendo com que, neste aspecto, o Brasil esteja bem melhor que a seleção.

Fato é que não dá para continuar vivendo na fantasia. Mas mesmo com o 10 a 1 sair dela não é um passo muito simples, como se possa supor. Após o 10 a 1, o indignado Mauro Cezar Pereira desabafou: “agora só falta alguém dizer que a campanha do Brasil foi a melhor desde 2002”. E como ressaltou o próprio jornalista em questão: “e não é que o Felipão disse isso!”

Essa forma de análise, que nega os fatos, é uma agressão à inteligência de todos e serve para, mais uma vez, mascarar a realidade, fazendo pouco caso da vida em si. Ora, a seleção brasileira, seguramente, embora tenha passado por Chile e Colômbia, teve uma das piores performances entre todas as equipes do campeonato, tendo batido várias marcas negativas…

E cabe aqui uma advertência, que considero muito importante: tratar do assunto Copa e da performance da seleção brasileira exige o cuidado de não se deixar reconduzir ao mundo da fantasia, ainda que se esteja buscando uma racionalidade interna.

Assim, o primeiro passo que se deve dar para sair das amarras da fantasia é devolver o futebol ao limite de sua importância. Não é mais possível sustentar uma nação sobre a fantasia do futebol. Futebol é bom e a gente gosta, como se dá, ademais, em diversos outros países, não sendo, pois, um privilégio, para o bem e para o mal, do Brasil. Mas essa história de que o Brasil é o país do futebol é um estereótipo que nega a sua própria razão de ser como nação. Aliás, a diversidade de nações, visualizadas em posições contrapostas, é um elemento cultural, político e econômico a ser superado.

É importante perceber, também, o quanto o futebol se tornou uma fonte de sustento do modelo capitalista, produzindo riquezas para alguns poucos e entretenimento entorpecente para tantos outros.

Claro que não se pode desprezar a força do futebol, até porque o resultado positivo em campo acaba sendo utilizado para reforçar fetiches e mascarar os problemas sociais, assim como o resultado negativo na Copa pode servir como alimento para superar os obstáculos ao raciocínio, somando-se, ainda, o quanto a postura política dos jogadores pode auxiliar nas mobilizações sociais, como se deu com o jogador Sócrates na campanha pela democratização do país.

11. “É sola, esfola, cola, é pau a pau”

No presente momento é de suma importância ter a capacidade de se afastar da fantasia da Copa. Temos, agora, a grande oportunidade de voltar à realidade na busca de, enfim, construir uma sociedade efetivamente justa.

Claro que o péssimo resultado futebolístico na Copa, que reflete problemas estruturais, impõe que se pense nas necessárias mudanças no futebol, que envolvem, também, o reconhecimento dos direitos dos atletas, a superação da lógica autoritária dos clubes, a fixação de uma concreta responsabilidade fiscal no setor, o respeito aos direitos dos consumidores etc. Mas o assunto principal que nos deve impulsionar neste momento não é este. Principalmente, não devemos nos limitar a esse debate, vez que isso apenas nos condenaria a viver na fantasia, alastrando-a até a outra Copa daqui a quatro anos.

Reitero: são importantes as reivindicações do Bom Senso Futebol Clube quanto aos direitos dos jogadores e à democratização da administração do futebol e é mesmo relevante a postura do Estado em estimular as práticas atléticas, tanto no futebol quanto em outros esportes. Mas essa não pode ser a prioridade brasileira neste instante. Ou, pelo menos não deve ser a única preocupação.

Ultrapassado o grande risco da supressão plena da racionalidade que o período da Copa representou, a prioridade agora só pode ser a do esforço concentrado – que o país tem condições de assumir, como se viu, afinal, no momento de preparação para a Copa – em torno da efetivação dos direitos sociais, sobretudo no que se refere à moradia, à educação pública e gratuita de qualidade, à saúde pública, ao transporte gratuito para todos, ao trabalho digno, ao acesso à cultura, acompanhada de uma política concreta de melhor distribuição da riqueza produzida e da ampliação e concretização das práticas democráticas, notadamente no que se refere à participação nos entes deliberativos e às formas públicas de reivindicação.

É preciso, além disso, ficar muito atento, pois neste período pós Copa há também o grande risco de se tentar manter a sociedade envolvida com as artificialidades da Copa, que podem até gerar novos gastos para a promoção de outros grandes eventos nos estádios que foram construídos exatamente para não incorrer na crítica da ausência de um legado com os estádios, dificultando e atrasando ainda mais a obra em torno daquilo que prioritariamente deve interessar à sociedade brasileira.

É emergencial, sobretudo, retomar a vigência do Estado Democrático de Direito, a começar pela libertação de todos os presos políticos, que foram conduzidos a tal situação durante o Estado de Exceção da Copa, valendo lembrar que o legado autoritário de 21 anos de ditadura ainda está estruturado em muitas de nossas instituições.

É essencial, também, reparar os danos já gerados a vários cidadãos brasileiros no período da preparação para a Copa, especialmente no que se refere às famílias removidas; às vítimas dos acidentes do trabalho e da pressão na execução das obras; aos trabalhadores ambulantes etc.

Aos trabalhadores em geral, enfim, cumpre que não permitir que se promova um aprofundamento dos erros já iniciados no momento de preparação para a Copa, sobretudo no que tange às deteriorações das condições de trabalho (com pressão para a realização dos serviços e intensificação do trabalho em horas extras), à negação ao direito de greve e ao incentivo à terceirização.

Nunca é demais lembrar que o governo federal, ao se ver envolvido com o desafio de organizar a Copa, acabou por se associar à FIFA (e suas parceiras econômicas) e como condição para a realização do evento se viu na contingência de patrocinar uma excepcionalidade na ordem jurídica constitucional, sobretudo em favor de alguns segmentos do setor econômico, do que se originou, inclusive, a malfadada “Lei Geral da Copa”.

Para a construção dos estádios em tempo recorde fez-se vista grossa à forma de atuação de empreiteiras no processo produtivo. Essa situação provocou um retrocesso na luta que vinha sendo travada contra a terceirização na construção civil, sendo bastante oportuno lembrar que as empreiteiras são grandes financiadoras de campanhas eleitorais, de diversos partidos políticos9.

Essa aproximação do governo com o setor econômico gerou uma conta, que está sendo paga com a adoção de uma política repressiva, institucional e midiaticamente organizada, contra o direito de greve, sendo seguida do anúncio de medidas de precarização das relações de trabalho, como forma de favorecer ao novo ciclo da “competitividade produtiva”, conforme anunciou a Presidenta Dilma10.

Na linha das iniciativas precarizantes projetam-se a ampliação da terceirização e o incentivo à negociação coletiva, além da instituição de formas não estatais de solução dos conflitos trabalhistas. É possível verificar esse direcionamento no Projeto de Lei recentemente apresentado pelo governo, que visa à criação do SUT – Sistema Único do Trabalho, no qual as figuras em questão ganham destaque.

No que tange à terceirização especificamente, o governo, diante da pressão sofrida pelo meio sindical, deixou de lado a defesa que vinha fazendo abertamente do Projeto de Lei. 4.330, que ampliava a terceirização, tendo sido a questão encampada pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu, no Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) 713211, a repercussão geral de um julgamento que envolve a definição acerca da amplitude jurídica do fenômeno econômico da terceirização.

Os trabalhadores, a Justiça do Trabalho e os defensores dos direitos dos trabalhadores em geral devem perceber o contexto de retração de direitos que foi iniciado no período de preparação para a Copa, que se reforçou durante o evento e que tende a se consolidar e até a se ampliar no momento posterior, que, ademais, está atrelado à preparação para as Olimpíadas de 2016. E já adiantando um debate necessário a respeito das Olimpíadas, cumpre registrar que após vários anos da definição de que o Brasil sediaria o evento, não se implementou uma política efetiva de formação de atletas, sendo os jovens brasileiros ainda conduzidos ao triste dilema entre estudar ou treinar, pois o esporte não está atrelado à educação, como se dá, por exemplo, nos Estados Unidos.

Voltando ao aspecto dos direitos trabalhistas, cumpre reconhecer que a triste realidade dos trabalhadores no Brasil não é uma novidade ou mesmo uma exclusividade determinada pela Copa, até porque o histórico brasileiro é o do desrespeito reiterado aos direitos trabalhistas e do massacre cultural à relevância desses direitos. Mas as circunstâncias atuais são preocupantes, visto que o entorpecimento favorecido pela Copa e pela proximidade das eleições tende a dificultar as compreensões sobre o fenômeno da precarização, obstando as ações de resistência.

Cumpre destacar que em infeliz coincidência, a precariedade das relações de trabalho conduziu o Brasil a outro quarto lugar. Esse quarto lugar, no entanto, envergonha muito mais do que o da Copa. De fato, o Brasil tornou-se o quarto país do mundo em número de acidentes fatais no trabalho11.

Interessante que os trabalhadores mais suscetíveis a acidentes são os motoristas, os agentes de segurança, os trabalhadores da construção civil e os trabalhadores rurais e as reformas jurídicas que estão sendo preconizadas direcionam-se, exatamente, para reforçar a precariedade nestes setores.

A terceirização é utilizada em larga escala nos serviços de segurança, na construção civil e no transporte e “segundo dados do Dieese, o risco de um empregado terceirizado morrer em decorrência de um acidente de trabalho é cinco vezes maior do que nos demais segmentos produtivos”12. A ampliação vislumbrada, ademais, faz supor que também o meio rural será atingido por uma terceirização mais intensa, valendo acrescentar que no meio rural a atuação da fiscalização do trabalho é bem menos efetiva.

Por oportuno, lembre-se que também tramita no Congresso Nacional um projeto de lei para revogar a lei que limitou a jornada de trabalho dos motoristas.

Outra conta cobrada pelo setor econômico foi a suspensão, já autorizada pelo Ministério do Trabalho, da aplicação da NR12, que regulamenta a forma das atividades produtivas com máquinas. Só que em 2013, “apenas 11 tipos de máquinas e equipamentos (como serras, prensas, tornos, frezadoras, laminadoras, calandras, máquina de embalar) provocaram 55.118 infortúnios, o que representa mais de 10% do total de 546.014 acidentes típicos comunicados pelas empresas no Brasil”13.

Essa tendência de precarização não é fantasia e caso se consolide anula por completo qualquer efeito benéfico que se queira vislumbrar com a realização da Copa, ainda mais quando se lembra de todos os problemas havidos na preparação para o evento. A situação é concreta e sem o entorpecente da Copa não se a pode eliminar com artificialismos retóricos. Assim, a única forma concreta para que o governo do Partido dos Trabalhadores não se veja relacionado a ela é vir a público rechaçá-la, assumindo uma política de rejeição a todas as formas de redução dos direitos trabalhistas e de repressão à mobilização de classe dos trabalhadores, indo, aliás, em sentido inverso, implementando as condições materiais necessárias para uma atuação efetiva da fiscalização do trabalho e impulsionando a adoção de novas formas jurídicas de proteção aos trabalhadores, notabilizando-se a co-gestão de empresas por seus empregados e a proibição de dispensas socialmente injustificadas, para falar de dois exemplos extraídos da realidade alemã.

O que não dá é que:

“…fique na banheira, ou jogue pra torcida
Feliz da vida!”

Notas

[1]. Os subtítulos foram extraídos da belíssima música, Linha de Passe, de João Bosco e Aldir Blanc, de 1979, como forma de prestar uma homenagem aos protagonistas do programa Linha de Passe da ESPN Brasil, por terem trazido racionalidade ao obscurantismo da Copa, e também para lembrar que o Brasil é bem mais que futebol.

[2]. http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1484968-dilma-diz-que-seu-governo-sera-marcado-pelo-investimento-em-infraestrutura.shtml

[3]. http://www.bahianoticias.com.br/noticia/157170-empresas-responsaveis-por-viaduto-que-desabou-em-bh-participam-de-obras-de-ferrovia-na-bahia.html

[4]. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/07/dilma-diz-que-brasil-vai-superar-dor-relata-jornalista-da-cnn-no-twitter.html

[5]. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/07/dilma-diz-que-brasil-vai-superar-dor-relata-jornalista-da-cnn-no-twitter.html

[6]. FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaios de interpretação sociológica. São Paulo: Ed. Globo, 2006.

[7]. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[8]. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[9]. A empresa envolvida no desabamento do viaduto em Belo Horizonte, Construtora Cowan S/A, repassou R$ 2,8 milhões para campanhas eleições em 2012, ocupando a 73ª posição em relação às empresas que mais doaram para campanhas eleitorais naquele ano. A lista de doações é liderada pela Andrade Gutierrez (R$ 81,2 milhões), Queiroz Galvão (R$ 52,1 milhões) e OAS S.A. (R$ 44,1 milhões). http://www.contasabertas.com.br/website/arquivos/8943#sthash.qpqYf2fw.dpuf.

[10]. http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1484968-dilma-diz-que-seu-governo-sera-marcado-pelo-investimento-em-infraestrutura.shtml

[11]. http://www.conjur.com.br/2014-jul-04/brasil-quarto-pais-numero-acidentes-fatais-trabalho

[12]. http://www.conjur.com.br/2014-jul-04/brasil-quarto-pais-numero-acidentes-fatais-trabalho

[13]. Cf. Alessandro da Silva e Vitor Araújo Filgueiras, in: http://reporterbrasil.org.br/2014/07/mais-de-55-mil-trabalhadores-sofreram-acidentes-com-maquinas-em-2013/

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Capa site_altaJorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, junto com Andrew Jennings, Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Antonio Lassance, MTST, Jose Sérgio Leite Lopes, Luis Fernandes, Nelma Gusmão de Oliveira, João Sette Whitaker Ferreira, Gilberto Maringoni e Juca Kfouri! Confira, abaixo, o debate de lançamento em São Paulo, do qual Souto Maior participou:

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Onde o rato sumiu? Músicas com letras que me marcaram

15.07.14_Mouzar Benedito_LupcínioPor Mouzar Benedito.

Quando o governo Costa e Silva resolveu baixar o Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5, só um membro do governo teve reação contrária: o vice-presidente Pedro Aleixo disse temer o resultado dele.

Alguém, acho que o próprio ministro da Justiça, Gama e Silva, autor do texto, ficou bravo e perguntou: “Você não confia nos nossos generais?”.

Pedro Aleixo respondeu: “Nos generais, eu confio. O que eu não confio é no guarda da esquina”. Bom, eu não confiaria nem nos generais nem nos guardas da esquina, mas realmente, com o endurecimento da ditadura, tudo quanto é “guarda da esquina” passou a se sentir uma grande “otoridade” e cometer abusos de todos os tipos. Porteiro de prédio, por exemplo, se julgava imperador do condomínio, se sentia com poderes para ameaçar quem quer fosse, de visitas a moradores.

Um exemplo que me lembro bem dessas “otoridades” é de um motorista de ônibus. Eu estudava Geografia na USP e muitos dos meus colegas gostavam muito de cantar. No ônibus da Cidade Universitária para o centro, no final das aulas, lá pelas onze da noite, o pessoal já entrava cantando, mas não era coisa barulhenta. Eram músicas bonitas, cantadas baixinho. Não chegava nem a incomodar quem estivesse conversando com outro passageiro.

Um dia, quando o pessoal foi entrando no ônibus, o motorista gritou: “Se cantar eu levo direto pra delegacia”.

Um dos meus colegas perguntou: “E falar, pode?”. O motorista ameaçou ficar bravo: “Tá me gozando?”. “Pode ou não pode?” “Claro que pode”. Aí esse colega começou a falar: “Meu coração, quando te vê, bate feliz, não sei porquê…”, e foi acompanhado por todo mundo “falando” a letra da música Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro.

A mais admirada do poeta

Lembrando dessa história e da música Carinhoso, vieram ao meu pensamento algumas letras maravilhosas da música popular brasileira. O poeta Manuel Bandeira disse certa vez que, se se fizesse um concurso para escolher “o verso mais bonito da nossa língua”, provavelmente votaria naquele que diz: “Tu pisavas nos astros distraída”, referindo-se à música Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. É uma música com letra inteira muito bonita, e esse verso faz parte da estrofe que diz:

A porta do barraco era sem trinco
e a lua furando nosso zinco
salpicava de estrelas o nosso chão .

E tu pisavas nos astros distraída,
sem saber que a ventura desta vida
é a cabrocha, o luar e o violão…

Acho bonito também. É uma letra muito poética. Fico admirado pensando não só nas maravilhas feitas por compositores bem formados, mas também por pessoas que tiveram uma vida dura e pouca formação escolar, como Cartola e Nelson Cavaquinho. Eles e muitos outros faziam letras muito elaboradas, até sofisticadas.

Mas gosto também de lembrar de outros estilos, do humor aos xingamentos.

Pobre, mas estiloso

De humor, nem vale lembrar Noel Rosa, um mestre. Cito João da Baiana, no samba Cabide de Molambo, que tem um trecho assim:

Meu Deus, meu Deus eu ando com sapato furado,
tenho a mania de andar engravatado.
A minha cama é um pedaço de esteira
e uma lata velha que me serve de cadeira.

Minha camisa foi encontrada na praia,
a gravata foi achada na ilha da Sapucaia;
meu terno branco parece casca de alho,
foi a deixa de um cadáver num acidente de trabalho…

Agora vejam uma sacada genial de Adoniran Barbosa, na música Tocar na Banda:

Num relógio é quatro e vinte,
no outro é quatro e meia;
é que de um relógio pra outro
as horas vareia.

Mestres das imprecações

Lupicínio Rodrigues, autor de músicas belíssimas, é mais lembrado por algumas no estilo dor de cotovelo e outras cheias de imprecações. Tinha cada samba-canção que deixava a gente com sensação de quase pavor. A música Vingança, por exemplo, diz no início:

Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar…

No fim dela mesma, tem esses versos: 

Mas, enquanto houver força em meu peito
eu não quero mais nada:

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
que rolam na estrada,
sem ter nunca um cantinho de seu
pra poder descansar.

Falando de imprecações, não poderia deixar o tango de lado. Certo, tango é argentino, não é brasileiro. Mas houve uma época em que era comum aqui, tinha inclusive bons compositores brasileiros dedicados ao gênero. E, para o meu gosto, um dos maiores cantores de tango de todos os tempos era o brasileiro Nelson Gonçalves, mais conhecido como intérprete de sambas-canções, mas que não deixava nada a desejar interpretando tangos, compostos aqui mesmo ou traduzidos.

Preciso lembrar aqui que tango, no início, na Argentina, não era música de tragédias. Foi criado por negros e suas letras eram alegres, até que foi assumido pelos brancos de classe média, aí sim virou uma coisa tão trágica que quando alguém tinha uma vida cheia de sofrimentos, aqui no Brasil, dizia: “Minha vida dá um tango”.

Embora lembrando de alguns tangos brasileiros, vou citar aqui um argentino que, acredito, foi o maior mestre das letras arrebatadoras e arrebentadoras. Seu nome é Enrique Santos Discépolo. Basta lembrar a letra de Cambalache, tango proibido na Argentina na época da ditadura. Aqui, ele foi cantado (em castelhano mesmo) por Caetano Veloso e fez o maior sucesso. Mas na linha das imprecações, um tango arrasador, de autoria de Discépolo, é Esta noche me emborracho, traduzido para o português (Esta noite me embriago) e cantado por Nelson Gonçalves. Falando de uma ex-amada, ele começa assim:

Triste, sozinha desprezada
a vi de madrugada sair de um cabaré.
Fraca, mostrando que a sorte
destruiu todo seu porte
sem lhe dar vez.

Magra, vestida sem aprumo
a exibir sem rumo sua nudez
fez de si um quadro sem valor
mostrando sem pudor
seu corpo sem calor…

Ex-namorada, por sinal, é tema de muitas letras malvadas, e não é só em tango que Nelson Gonçalves desanca uma. O samba-canção Revolta, dele e Raul Sampaio, tem um trecho assim:

É meu consolo acreditar que estás sofrendo
e em sua vida de prazeres vives louca…

Nessas imprecações, às vezes era preciso encontrar formas elaboradas para descrever a decadência de uma pessoa. Não valia dizer que “minha ‘ex’ virou puta e foi pra zona. Paguei pra transar com ela”. Vejam uma forma Adelino Moreira encontrou pra dizer isso, no samba-canção A flor do meu bairro, cantado por Nelson Gonçalves:

Hoje, depois de alguns anos,
Eu encontrei-me com ela
Na rua dos desenganos,
Menos ingênua e mais bela.

Ela fingindo desejo,
a boca me ofereceu.

E eu paguei por um beijo
que no passado foi meu.

Bronca e tristeza

Nestes tempos em que é “politicamente correto” tentar controlar a vida alheia, com um “bom-mocismo” esquisito, como o que tenta proibir as pessoas de fumarem (“é para o bem delas”, dizem os cínicos), se eu tivesse bom ritmo e boa voz, sairia cantando bem alto:

Se eu quiser fumar eu fumo,
se eu quiser beber eu bebo,
não interessa a ninguém.

Ah, o fim dessa estrofe é assim:

Se o meu passado foi lama
hoje quem me difama
viveu na lama também.

Noel Rosa, em seu samba Último Desejo, também falando de uma “ex”, dá seu recado aos desafetos:

Às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é um botequim.

Que eu arruinei sua vida,
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

Agora, um estilo que acho muito bonito é o de Batatinha, compositor baiano que quase caiu no ostracismo, e uma das pessoas que não deixaram acontecer isso, cantando suas músicas maravilhosas, é Maria Bethânia. Batatinha compunha músicas alegres, mas algumas com letras tristes, que pareciam não combinar com elas. Mas combinava, de maneira provocante e bonita. É o caso de O Circo, que começa assim:

Todo mundo vai ao circo,
menos eu, menos eu.

Por não poder pagar ingresso
fico de fora escutando as gargalhadas…

Para terminar, safadezas

Ah, as músicas com letras safadas… Escutei muitas por aí. E lembro de uma ouvida em Minas. Mas antes de falar dela, aí vai o motivo por que me lembrei da dita cuja: uma vez, numa véspera de Natal com a família quase toda reunida na chácara de um dos meus irmãos, os três filhos dele, meninos que, se me lembro bem, tinham respectivamente 8, 6 e 4 anos de idade, estavam numa fase de cantar e de vez em quando pediam a todos que os ouvissem interpretando musiquinhas infantis.

Chamei os três de lado e falei que ia ensinar uma música a eles. O mais velho falou: “Não, a mamãe falou que você só ensina bobagem pra gente”. Pensei: “Ah, é? Eu ia ensinar uma música bonitinha, mas agora vou mudar”. E falei: “É a música do Lelê. Pergunte pra sua mãe se lelê é palavrão ou bobagem”.

Ele foi e perguntou: “Mamãe, lelê é palavrão?”. Ela disse que não e ele falou: “Então o Mouzar vai ensinar pra nós a música do lelê”. Ela permitiu.

Eu ensinei, eles puseram todo mundo a postos para ouvi-los e cantaram pomposos, deixando a mãe furiosa:

Subiu um rato na perna da comadre,
veio o compadre pra ver o que aconteceu.
Tirou a roupa da comadre e sacudiu,
mas ninguém sabe, ninguém viu
onde o rato se escondeu.
Foi no lelê que o rato sumiu,
foi no lelê que o rato sumiu.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.