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Um cangaceiro contra a ditadura militar

14.10.30_Pericás_O cangaceiroPor Luiz Bernardo Pericás.

Durante os anos de chumbo, vários artistas alçaram a voz contra a ditadura militar, através de livros, canções, peças de teatro e filmes. No cinema, talvez o exemplo mais inusitado desta vertente seja O’ cangaceiro (isso mesmo, com apóstrofe), de Giovanni Fago, um “faroeste italiano” ambientado na Bahia! Lançada em dezembro de 1969, essa co-produção ítalo-espanhola passou despercebida por muitos amantes da sétima arte. E mesmo pelos apreciadores dos Spaghetti Westerns. Ainda que relativamente pouco conhecida, a fita, contudo, é um caso clássico de crítica contundente ao poder autoritário dos generais e ao imperialismo.

Fago, o diretor da película, começou sua carreira como assistente de lendas como Mario Monicelli, Vittorio De Sica, Renato Castellani e Lucio Fulci e a partir de 1967, se tornou regente de “bangue-bangues” como Per 100. 000 dollari ti amazzo e Uno di più all’inferno. E, é claro, de O’ cangaceiro. Em vez do norte do México ou do “Velho Oeste” dos Estados Unidos, a obra tem como cenário o sertão nordestino. E no lugar de revolucionários, caubóis e caçadores de recompensas, os personagens tradicionais do hinterland brasileiro: padres, beatos e coronéis.

Para o papel principal foi chamado o ator cubano-americano Tomas Milian. Em 1958, ele se mudou para a Itália, onde participou de filmes de Mauro Bolognini e Luchino Visconti. Seu primeiro western foi The Bounty Killer (1966), de Eugenio Martín. Também estrelou, dentro do gênero, trabalhos de Sergio Solima e o clássico Vamos a matar, compañeros (1970), de Sergio Corbucci, ocasião em que contracenou com Franco Nero, Jack Palance e Eduardo Fajardo. Ao longo da carreira, Milian ainda participaria de filmes de Franco Brusati, Dennis Hopper, Michelangelo Antonioni, Tony Scott, Oliver Stone, John Frankenheimer, Steven Spielberg, Steven Soderbergh, Andy Garcia e Bernardo Bertolucci. Em O’ cangaceiro, ele teria um desempenho memorável.

É fácil perceber os ecos de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, e de O cangaceiro, de Lima Barreto, ao longo da narrativa. Vale destacar aqui a fotografia magnífica e original de Alessandro Ulloa, a música de Riz Ortolani e a montagem de Eugenio Alabiso.

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O filme começa com um ataque de tropas comandadas pelo coronel Minas (Leo Anchóriz) contra o cangaceiro Firmino e seu grupo, num vilarejo baiano. O oficial garante a integridade dos cidadãos caso o bandoleiro se entregue. Mas mente. Os soldados massacram, sem piedade, todos os bandidos e chacinam a população local, por esta ter supostamente ajudado os facínoras. O jovem Expedito, o protagonista da história, será ferido na ocasião. Além disso, seu pai (que durante o tiroteio apenas olhava, resignado, para uma gaiola, onde um passarinho preso simbolizava a vida limitada e sem possibilidades de mudança do homem do campo; por sinal, todos os moradores tinham cáveas com aves enclausuradas), é assassinado, e sua vaca (o sustento do sertanejo), também eliminada a bala. O ato violento mostra claramente que o “povo” aparentemente não tem como escapar deste mundo “oficial” de injustiça e opressão. Não se pode confiar no Estado. Ele acabará com tudo que estiver à sua frente; os homens, portanto, são “dispensáveis”…

Expedito, entretanto, vivenciará uma mudança brusca e radical em seu destino. Tratado com ervas medicinais pelo eremita Julian, um “homem santo”, ele se restabelece em pouco tempo. O beato, em seu discurso de fanático religioso, diz que Jesus era forte e levava um chicote nas mãos, para expulsar os mercadores do templo; ao mesmo, porém, era bondoso e ajudava os pobres. Também afirma ao interlocutor em recuperação que havia estado pessoalmente com Deus, o qual lhe ordenara anunciar ao mundo que a “Justiça” prevaleceria. Estranhamente, segundo ele, Nosso Senhor se parecia muito com… Expedito! “Virá um homem que se parecerá comigo, e tu o enviarás para lutar pela Justiça e o chamarás de Redentor”, completa o velho barbudo.

Há, a partir daí, uma conversão radical. Expedito se torna um andarilho (supostamente enviado pelos Céus) que tentará convencer o povo miserável de uma vila de choças a segui-lo. Naquele momento, porém, é confrontado por “Diabo negro”, um criminoso que procura arregimentá-lo para seu bando. O “redentor” não aceita: afinal, “ele” é o escolhido, o “rei dos cangaceiros”, aquele que levará consigo a cruz e o facão. “Um machete é mais longo que a mão, mas um fuzil é mais longo que um machete”, pontifica o bandoleiro afrodescendente, que acaba permitindo que o rapaz siga seu caminho (algo de que se arrependerá no futuro). Depois disso, o jovem joga longe o objeto do cristianismo que levava como um cajado. Sua decisão está tomada…

O próximo passo de Expedito é se dirigir a um forte na capital (uma mistura de quartel e prisão), onde ocorreria uma grande festa popular organizada pelo coronel Minas em homenagem ao bispo Pedreira Souza. O aprendiz de cangaceiro chega ao local sentado num carrinho de rolamentos, se fingindo de mendigo paralítico. Sua atitude insultuosa, porém, incomoda o oficial, que manda prendê-lo. “Fascista!” , grita Expedito. Por certo, um sertanejo pobre, inculto e isolado do mundo nunca proferiria essa palavra e sequer saberia de sua existência ou significado. Na verdade, esse é o grito de toda a oposição progressista contra os militares no poder no Brasil, desde 1964. O termo forte, é claro, foi colocado propositadamente na boca daquele personagem, um homem simples e explorado… Desprezando o suposto deficiente, os soldados o empurram numa rampa que o leva direto a uma cela repleta de detentos: é sua visita simbólica ao inferno. A disposição física dos desanimados inmates, por sinal, é interessantíssima e remete à cenografia do teatro experimental.

Os prisioneiros ganharão uma injeção de ânimo deste elemento externo (talvez a “vanguarda” armada) e se tornarão seus discípulos (um deles, por sinal, tem o nome de Pedro). Enquanto isso, o bispo, com toda sua pompa e riqueza, dá o tom de artificialidade e poder, participando das celebrações para benzer os canhões do quartel! Durante toda a história, o que se vê é uma constante aproximação e aliança entre o Estado, a Igreja, os coronéis e o exército. Expedito, neste ínterim, lidera uma fuga coletiva, explode os armamentos (matando, nesse processo, Minas e o representante da Santa Sé) e começa sua trajetória como bandoleiro.

Em pé, no meio de um cemitério, cercado por seus asseclas (seus “apóstolos”, sentados ou deitados no chão, próximos às lápides e cruzes), Expedito, com cartucheiras cruzando o peito, confirmará sua metamorfose: “o redentor veio libertar o povo dos grilhões… o país tem fome de Justiça e os oprimidos clamam por sua liberdade… benditos… aqueles que sabem manejar armas!” Um dos homens ainda tenta fugir, quer abandonar o grupo. Mas é alvejado pelo cangaceiro. Agora, não se pode mais dar às costas à luta popular: quem está nela, terá de permanecer… ou será eliminado. A responsabilidade histórica está colocada. “Lutaremos pela Justiça e pela vingança”. É a exortação à guerrilha…

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O holandês Vincenzo Helfen (Ugo Pagliai) chega a um vilarejo e estaciona seu carro no meio da praça. A miserável cidadezinha, em peso, corre em direção ao veículo, uma novidade para todos de lá: o arcaico e o moderno se deparam, se defrontam. Em pouco tempo, o automóvel é totalmente depenado, mostrando a incompreensão (e ao mesmo tempo, fascínio) com o mundo contemporâneo, opulento e próspero, que nunca chegara tão longe, naqueles ermos. Nem a carcaça escapa… Do veículo, só restam os eixos e… um livro! A representação da cultura sofisticada não tem valor para aqueles trabalhadores rurais, imersos na ignorância e na pobreza…

O estrangeiro, enviado de uma companhia europeia, fora até ali em busca de petróleo. O objetivo é explorar (ou melhor, roubar) as riquezas do país e enviar todos os lucros para o exterior. Expedito, sem saber disso, contudo, adentra o lugarejo e se depara com o neerlandês. Agora, é um homem transformado. A maquiagem de Milian, neste momento, lembra vagamente aquela de Solomon “Beauregard” Bennet, o icônico personagem de Face a face, o filme de Sergio Solima no qual contracenara com Gian Maria Volonté. O “redentor” exige que Helfen leia o livro inteiro para ele, uma narrativa sobre o mar (tradicionalmente, a representação da utopia sertaneja, um lugar idílico e quase inatingível, onde ele poderá escapar e encontrar a felicidade). Ao final, porém, Expedito acha tudo uma bobagem. A história não lhe diz nada: sua escolha é o mundo real em seu entorno. E atuar nele, a partir de um viés messiânico. “Prefiro a vida do menino Jesus”, comenta.

Depois de liberado, Helfen terá uma reunião com o alto clero da Igreja, políticos e o governador Branco (interpretado por Eduardo Fajardo; o nome do personagem, por sinal, bastante sugestivo, especialmente se considerarmos que tratava-se de um poderoso membro da elite num estado majoritariamente negro), sobre as melhores formas de explorar o petróleo no “território de Água Branca até Palmeiras”. O holandês, talvez ingenuamente, acredita que as jazidas trarão benefícios e prosperidade à região, já que o povo terá trabalho, o dinheiro irá circular e será preciso construir estradas e outras obras de infraestrutura na área. Mas o governador é incisivo: “Temos de evacuar a população da zona, por bem ou por mal… Água Branca terá de ser borrada do mapa… As leis são muito úteis, nos permitem agir legalmente em nosso próprio interesse”. Afinal, como diria o novo bispo: “Existe o perigo de uma explosão do materialismo”. Em outras palavras, os trabalhadores poderiam se organizar em sindicatos ou em partidos (provavelmente, de caráter marxista) e enfrentar os poderosos; isso não deveria ser permitido.

Com o triunfo de Expedito sobre tropas do governo (enviadas para destruí-lo), dizimadas por seus sequazes, o redentor mostra que há possibilidade de vitória contra o Estado autoritário. Uma nova forma de neutralizar o bandido, assim, deve ser colocada em prática, para que os planos do governador e da multinacional não sejam obstaculizados. Helfen, o elemento-chave neste caso, tem uma ideia: tentará seduzir o bandoleiro, oferecendo inicialmente armas modernas. De acordo com o europeu, Branco admirava o “redentor” e estava disposto a dar uma festa em sua homenagem para selar o acordo. Fica nítida a tentativa de cooptação da liderança popular: se Expedito acabasse com os outros bandos de cangaceiros que atuavam na região, as autoridades lhe concederiam algumas demandas. “O simples fato de ter sido convidado já é uma grande vitória, depois de todo o mal que [Branco] nos fez, tanto a mim como à minha gente… e à minha vaca”, comentaria o fora da lei.

E então, Expedito e seus companheiros penetram na festa no Palácio do governo, retratada de maneira felliniana. Os convidados da elite local são caricaturas: ridículos, arrogantes e desconectados da realidade, vivem num mundo paralelo, cercados de serviçais, conversando sobre temas sem qualquer vínculo com a vida da população (a mulher do governador, por exemplo, fala sobre a primavera, muito úmida naquele ano). A incompatibilidade entre os interesses do “povo” e dos ricos é patente.

A função prossegue, e o hiato entre os bandoleiros e os “poderosos” só parece aumentar. Para o “redentor”, a sopa é horrível. “Água suja”, diria. A cena é quase uma homenagem subliminar à menina Mafalda, a personagem dos quadrinhos criada pelo argentino Quino. Vale lembrar que a garota detestava tomar sopa, o alimento insosso que representava a ditadura militar de seu país.

O acordo será confirmado: Branco concorda com as exigências de seu adversário, uma fazenda e o cancelamento do preço por sua cabeça, dando um salvo-conduto para que pudesse viver sem ser perseguido pelas autoridades. Enquanto as comemorações continuam, um dos brigands rouba o anel do bispo e os outros, dançam insanamente no meio dos endinheirados.

O próprio Expedito irá bailar com uma das criadas. A cultura popular mostra sua força; ela é a vitoriosa, penetrando no ambiente quase impermeável da burguesia e tomando conta do lugar.

A partir daí, o líder dos bandoleiros começará uma perseguição implacável às outras quadrilhas que atuavam no sertão. Sem se dar conta, estará fazendo o trabalho sujo que tanto queria o governador. Até se enfrentar com “Diabo negro”. A cena antológica do duelo nas dunas é talvez uma das mais interessantes e memoráveis dos Spaghetti Westerns e rivaliza com a de Três homens e um destino, de Sergio Leone, e a de Os violentos vão para o inferno, de Sergio Corbucci. Desta vez, porém, o embate insano é feito com machetes, enquanto ao fundo, não para de tocar um samba nervoso, fazendo com que as imagens ganhem uma dimensão de loucura. É quase um delírio glauberiano transformado em faroeste italiano. Como se pode imaginar, o “redentor” mata o seu adversário. E então irá se comportar como uma autoridade, dando presentes ao populacho (objetos roubados), chegando a convidar padres a visitar a fazenda que ganhara e que dera o nome de “Paraíso terrestre”, onde acreditava poder construir uma sociedade mais justa.

Enquanto isso, os estrangeiros começam a retirar o petróleo. O capitalismo não se importaria com os arroubos de Expedito, e poderia conviver com ele, desde que não interferisse em suas atividades e em seus lucros.

“Os poços são nossos, os brasileiros não custaram muito”, diz um dos funcionários da empresa europeia. Ainda assim, comenta em tom de desabafo e desprezo, que “a mão de obra barata produz escasso rendimento”.

Helfen, indignado, retruca:

“O povo não tem o que comer!”

“É verdade. Mas o obrigaremos a comer para incrementar a produção!”

“Eles se recusarão. Sabem que não durarão para sempre. É melhor não se acostumarem…”

O jogo das enganações se opera ao longo de toda a fita. As autoridades enganam o povo, enquanto os estrangeiros enganam o governo e a Igreja. Até Expedito, que combate todos eles, acaba enganado por Branco, por Helfen e quem sabe, até mesmo, pelo eremita Julian.

Branco ainda chega a contratar Frank Binaccio e seu grupo de gângsteres americanos para acabar de vez com o “redentor”. São os imperialistas, aliados do poder instituído, vendilhão da pátria, os parceiros do Estado autoritário na luta contra os mais pobres. Avisado por Helfen (agora arrependido de tudo que fizera), contudo, Expedito elimina os criminosos ianques e ao final, assassina o governador. É a vingança do “guerrilheiro”. E também, simbolicamente, do Terceiro Mundo contra os interesses coloniais.

Mas a partir daí, não se sabe qual será o destino e a função daqueles combatentes. “Começo a achar que não sou o redentor”, confessa Expedito. O próprio Fago parece não saber se o caminho das armas é viável. Fica a dúvida naquele momento. O cangaceiro e seus homens apenas partem, juntos, sem objetivo definido, para um destino incerto. Temos aqui um belo filme, em grande medida, subvalorizado e esquecido pelo grande público. Ainda assim, mesmo com possíveis falhas, imprecisões históricas e certo grau de ingenuidade, esta é uma fita com muitas qualidades, que deve ser resgatada. E vista por todos aqueles que apreciam este gênero do cinema.

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Recomendamos a leitura do aclamado Os cangaceiros – ensaio de interpretação histórica, de Luiz Bernardo Pericás, uma análise cultural, política e sócio-histórica da figura mítica do cangaceiro, referência obrigatória para o estudo banditismo rural nordestino e seus desdobramentos na atualidade.

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Chega às livrarias este mês a coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizada por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco! 27 ensaios sobre Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Paulo Freire, Milton Santos, Astrojildo Pereira, Câmara Cascudo, Jacob Gorender, Ruy Mauro Marini, Maurício Tragtenberg, entre outros pensadores críticos do Brasil.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Para um retrato de Dilma, a presidenta do Brasil

Há uma foto de Dilma em que a imagem é bela porque é verdadeira. Para falar dessa foto seriam necessários muitos artigos definidos em textos, poemas e palavras de ardor e reflexão. Na imagem de óculos pesados, em preto e branco, Dilma se une a outras mulheres que vimos nos malditos tempos de 1970. Mas eram mulheres de tal altura, que ficamos à beira de cair em novo paradoxo: o de querer que voltem suas pessoas daqueles anos, mas sem a infâmia das circunstâncias e pesadelo daquele tempo.

Em lugar da pura orquídea pura pétala, de cor fresca e fugaz, a Dilma na sua foto real remete mais à pessoa mesma, de carne e luta, determinada em alcançar um mundo além do interesse de mocinhas bonitas de sua classe, aquele que se podia resumir em três cês, como o velho CCC: Carro, Casa e Carreira. Em preto e branco, como um filme de roteiro de Semprum, vemos uma Dilma que vislumbramos em 1970, multiplicada em outras à sua semelhança, que cresciam como guerreiras, e por isso se tornavam mais fêmeas. Como uma, a quem disfarcei com o nome de Cíntia no romance Os corações futuristas. No Recife, em plena censura e terror ela gritava aos companheiros que a cercavam:

“Eu sou subversiva! Falem, podem dizer, não me importo: eu sou subversiva! Eu quero é virar esse sistema de cabeça para baixo”.

E lembro que ouvíamos isso, e tal ordem mais alta calava fundo no peito de todos, pois também não encontrávamos lugar naquela ordem/desordem da ditadura. Aquele “Eu sou subversiva” se transformava em um sentimento, que nos dizíamos em voz silenciosa e perfurante: “ela tem a coragem de avançar contra a injustiça que nos sufoca. Que mulher!”

Assim como ela, assim como o seu gênero, pessoa e qualidade, foi Soledad Barrett, que escreveu para a mãe um último poema, como uma predestinação:

“Mãe, não sofras se não volto
Me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
Talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, mãe, eu te asseguro
que, sim, me encontrarás!”

Naquele momento em que víamos mulheres à imagem e semelhança de Dilma, nós não podíamos prever, sequer sonhar com o Brasil em que uma delas subiria para a presidência. E menos ainda, delírio do sonho dos sonhos, que ela fosse reeleita. Pois como podíamos prever o pássaro que canta agora, neste 2014 no jardim, em 1970? Sentíamos apenas os abalos que nos davam pessoas desse fogo, e não sabíamos interpretá-las, porque em nós se misturavam admiração, amor e força além dos limites da própria covardia.

Essa Dilma em preto e branco, de óculos pesados, em resumo, é a pessoa/mulher com quem todos crescemos. Ela é uma sobrevivente, como todos nós, como, enfim, todo o povo brasileiro. Como não salvá-la de todos os assaltos das múmias da ditadura? Como não guardá-la, como um bem precioso, contra os velhos de todos os preconceitos de classe? Fazemos isso não por dever, mas por uma defesa da cidadania de nosso sonho. Estamos vivos, bulindo e loucos de emoção. Quem diria? Há um gozo imenso em sobreviver tendo posto em risco a sobrevivência. E sobreviver na sua reeleição ah, isso vai além dos números das urnas. Como não saudá-la?

Lembro que ao ver Dilma discursar em Brasília Teimosa, no primeiro turno, no Recife, eu a vi como a superação daquele terrível ano de 1973, quando ali eu morava, e 6 militantes contra a ditadura foram assassinados, e uma delas foi Soledad Barrett. E sobre Soledad Barrett escrevi o livro Soledad no Recife. 

Dilma é a mulher mais bonita da República. Quando digo que Dilma é a mulher mais bonita da República, quero dizer: vem dela uma história política, uma memória, um bem-querer que é consequência dos valores mais altos pelos quais valem a pena estar vivo. Então eu falo que Dilma é a mulher mais bonita da República, pois a memória recupera o Brasil daquele tempo como uma superação. Dilma confirma a sua beleza quando afirma com voz embargada no palanque:

“Não desisti do Brasil nem quando fui presa e torturada, porque este País é muito maior que um bando de ditadores. Não mudamos de lado, nem de compromisso.”

No segundo turno, em pleno centro do Recife,na terça-feira 21 de outubro, as pessoas gritavam, cantavam “Dilma, eu te amo”. Não digo que tiravam a roupa, mas fizeram coisas mais impulsivas, desbragadas e delirantes.

Na Avenida Conde da Boa Vista, contente com o engarrafamento de carros que se formava em razão da caminhada com Dilma, o motorista de um ônibus largou o volante e subiu para o teto. Para quê? De lá de cima, com uma bandeira vermelha, ele dançou ao som de “Dilma, coração valente”.

A massa delirou. Achando pouco, o louco e sincero motorista fazia passos e voltas sobre o teto do ônibus, agarrado à bandeira, como se ela fosse a própria presidenta. Um crítico de música ao meu lado observou que ele estava em seu momento Michael Jackson. Mas para a massa da multidão, o motorista era, depois de Lula e Dilma, o cara. E nós sorríamos, e acenávamos, e ele posava e pousava para as fotos dos celulares.

A multidão mostrava que Dilma é amada pelo povo do Recife. O povo lhe dedica uma afeição que já deixou de ser política, virou um caso pessoal. Ela virou o nosso caso na República. O povo, no centro do Recife, em pleno comício se comportava como se falasse para ela: “Dá licença, presidenta, o povo pede a sua mão”. E ela respondeu e correspondeu:

– Eu amo vocês, esta é a primeira coisa que eu queria falar. A segunda coisa é que eu nunca vi na minha vida um ato tão bonito, tão alegre, tão carinhoso como este.

Dilma poderia falar o que quisesse. Poderia cantar “o cravo brigou com a rosa”, e todos aplaudiriam. Poderia ficar diante do microfone repetindo “sapo-sapo-sapo-sapo”, e o povo iria ao delírio. Diriam, “como ela fala bem sapo-sapo-sapo!”. Sabem aquele afeição conquistada, que vê em tudo quanto vem da pessoa amada a coisa mais linda?

Lembro que na semana passada uma senhora do povo me falou com a voz rouca, atravessada: “quando Dilma passou mal, depois daquele debate na televisão, eu fiquei… olhe, eu fiquei…” e não conseguia completar a frase, porque a lembrança lhe voltava em forte emoção.

E porque eu a compreendia eu pensava em lhe falar na língua de imbu, mangaba, graviola, cajá, azeitona, pitomba, abacaxi, goiaba, maracujá, manga, cana doce, numa fala de salada do Nordeste. Mistura de tudo, porque o povo mais misturado que já vi numa eleição estava presente.

No final, depois do comício, corremos feito loucos para flagrar a passagem da presidenta, que sairia por trás do palanque. Eu não era mais um cidadão de cabelos brancos, barrigudo, de fôlego curto, a léguas de distância de atleta de qualquer condição.

Eu era, todos éramos, voltávamos a ser mais uma vez meninos. Éramos a infância do que manda o coração. A presidenta entendeu a nossa meninice. Na passagem, ela nos enviou 2 beijos. Naqueles 2 beijos fugazes estava escrito: “Como prova de carinho, amor e amizade”. Assim era a frase no verso das fotos 3 x 4, com que os namorados prometiam uma afeição duradoura no Recife.

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Dilma Vana Rousseff e Soledad Barrett Videma

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Assédio eleitoral

14.10.27_Jorge Luiz Souto Maior_Assédio eleitoral_Por Jorge Luiz Souto Maior.

Os trabalhadores têm sofrido os males do denominado “choque de gestão empresarial”, que, baseado no argumento da necessidade competitiva, procura extrair maior produtividade no trabalho por meio da imposição de metas, quase sempre impossíveis de serem cumpridas. Tudo se faz ligado a uma estratégia que é de fato a de não permitir que os trabalhadores percebam que se trata na verdade da continuação da mesma lógica extrativa de mais valor relativo de sua “força de trabalho”, trazendo como benefícios paralelos, e talvez de forma ainda mais importante, o reforço da alienação e da reificação.

Ao se transferir para o trabalhador a responsabilidade plena pelo seu destino na empresa, visualizado a partir de sua aptidão para entregar a quantidade de serviço esperado, estimula-se uma atitude individualista e ao mesmo tempo concorrencial, vez que sua produção é posta em comparação com outros empregados submetidos às mesmas metas.

Para criar a aparência de um trabalho coletivo, os empregados são divididos em equipes, que também são comparadas a outras. Assim, cada membro se vê responsável pelo futuro de seu colega de equipe e sobre todos se debruça o peso do sucesso do empreendimento.

Ou seja, os trabalhadores são fragilizados e assim são mais facilmente explorados porque têm menor possibilidade de compreender o contexto do processo de trabalho, sobretudo depois que, historicamente, lhes foi retirado o poder do conhecimento tecnológico.

Na realidade atual do processo de produção operou-se a transferência para os trabalhadores do risco que é próprio do empreendedor.

Além de uma postura individual, os trabalhadores assumem a posição do capital, cobrando produção uns dos outros, o que facilita, sobremaneira, a tarefa dos chefes de equipe, do capitalista e do sistema produtivo como um todo.

Dentro da estratégia de gestão incluem-se táticas de dissimulação, como a difusão de que a empresa se preocupa com os Direitos Humanos e o bem-estar de seus empregados, que passam a ser chamados de “colaboradores”, para que não se vejam como explorados. Em contrapartida pelo cumprimento das metas oferece-se aos trabalhadores a promessa do recebimento de prêmios, sempre acompanhados de planos de saúde, notadamente para tratamentos psicológicos.

Tática importante neste contexto é a de vez por outra elogiar o trabalho do empregado, sem deixar de fazer menção à necessidade de que aquele resultado continue sendo alcançado, fazendo com que a “conquista” nunca tenha, de fato, um efeito conclusivo.

Tudo isso vem acompanhado do terrorismo da eterna crise econômica do capital, que deixa todos os trabalhadores sob constante ameaça do desemprego. “Mostrar a porta da rua” aos trabalhadores e, sobretudo falar da realidade daqueles que lá estão, é uma tática relevante para manter o rebaixamento moral dos trabalhadores, facilitando a submissão, que, sendo economicamente necessária, pode atingir padrões de maior perversidade, que permite ao empregador exigir metas mediante a mera promessa de preservação do emprego, que pode, até, se desenvolver com o desrespeito abertamente assumido dos direitos trabalhistas, vistos, despudoradamente, como encargos que dificultam a vida da “coitada” da empresa, que se apresenta como uma entidade que tem “responsabilidade social” porque cuida do meio-ambiente e que faz um grande bem para a “sociedade” – este ente abstratamente concebido e que quase sempre é referido para justificar repressões à classe trabalhadora – ao “dar empregos” e estimular o desenvolvimento econômico, ainda que sua lógica seja sempre a de privatizar os lucros e compartilhar os prejuízos.

Neste contexto, o sistema produtivo capitalista se apresenta como benfeitor, sem defeitos, dissimulando-se por completo a origem da reprodução do capital.

A conseqüência de tudo isso é que as análises em torno dos problemas sociais e econômicos são transferidas para os organismos produtivos e destes para os trabalhadores, onde, de fato, estaria a causa das patologias, tanto pessoais quanto sociais, sendo que apenas nesse momento e para essa finalidade, de serem culpabilizados, os trabalhadores são humanizados.

Esse é contexto no qual os ambientes de trabalho produzem, de fato, relações baseadas em assédio moral, que se apresenta como a pressão psicológica dissimulada, organizada estruturalmente, para dificultar a compreensão do processo produtivo e destruir toda forma de resistência dos trabalhadores, que restam fragilizados e desprovidos de auto-estima, sendo que quanto mais eficientes forem os métodos utilizados menor será a possibilidade de percepção do processo, que chega a atingir o ponto de o próprio trabalhador se declarar culpado pela situação, que não raramente se completa com a aquisição de doenças graves e, no extremo, pelo suicídio.

O que isso tem a ver com a recente eleição presidencial? Tudo!

Comecemos pelo fim. Qual o resultado concreto do processo eleitoral? O que se viu ao final foi uma distensão muito grande entre as pessoas, chegando mesmo a dividir famílias. Neste sentido pode-se perceber que foi eficiente a tática de transferir para os eleitores a responsabilidade pelos problemas do país, como se votar em um candidato ou outro tivesse o efeito de avalizar tudo que estes, ou seus Partidos, fizeram ou prometem fazer.

Para que as pessoas assumissem tal postura foi desenvolvida uma campanha midiática sem precedentes de um convencimento tal que na verdade cumpriu o papel de tornar cada eleitor uma espécie de cúmplice dos erros cometidos pelos governantes – já que os dois candidatos já assumiram essa posição e representam Partidos que estão no poder.

Foi assim, por exemplo, que os eleitores, dependendo do lado adotado, foram forçados a assumir para si lógicas das propagandas eleitorais, como as de que corrupção não é tão importante se algo de bom se fez; que corrupção não é grave, pois sempre existiu; que só é condenável a corrupção que os outros fazem; que o que se fez no passado não importa; que os erros do presente são irrelevantes diante das promessas para o futuro; que o desemprego é um problema de gestão (e não de estagnação do capitalismo); que o assistencialismo social é solução para o capitalismo (ou que o assistencialismo é a causa dos problemas do capitalismo); que o desenvolvimento econômico é uma questão de ajuste fiscal; que a troca dos governantes é essencial para a realização de mudanças (ou que a manutenção dos governantes é primordial para dar continuidade ao processo de mudanças que o país precisa) etc…

 Discussões desenvolvidas na órbita da aparência, sem adentrar temas cruciais do debate para compreensão do modelo de sociedade, como, por exemplo, os que dizem respeito ao processo de produção (tratando, sobretudo, da questão da terceirização); à participação dos trabalhadores na renda produzida; à distribuição da riqueza; e, sobretudo, à titularidade dos meios de produção…

Os debates, desenvolvidos na linha da aparência, serviram, portanto, para dissimular a concretude dos problemas do capitalismo – que é, queiramos, ou não, gostemos, ou não, o modo de sociedade em que nos inserimos. A atuação política, que seria essencial para a produção do conhecimento e para a formação de convicções, ainda que relativas, serviu só para gerar preconceitos, ódios cegos e divisões fundamentalistas, baseadas não em argumentos, mas em factóides, em montagens e em versões parciais dos fatos e da história, que chegaram ao ponto de táticas de terrorismo bestializadas, tais como, “se o PT ganhar o Brasil vai virar Cuba”; “se o PSDB ganhar vai voltar o neoliberalismo da década de 90”; “que o PT está promovendo uma revolução socialista” (encarando-se isto de forma positiva por alguns e negativa por outros) etc.

A produção intelectual foi trocada pela arte do disfarce, conforme revelavam, a cada dia, de forma extremamente pertinente, as crônicas de José Simão na Folha de S. Paulo.

Dentro do contexto da dissimulação eleitoral, muitos eleitores se viram obrigados a assumir posições sem consciência e sem convicção. Viram-se, ainda, na contingência de expressar, publicamente, apoio a um ou a outro candidato, com desprezo da racionalidade, pautando-se unicamente pela lógica do mal menor, fingindo irrelevantes aspectos negativos que, em outro contexto, seriam muito graves, isto quando não, incorporando a lógica da dissimulação, aderiram a um lado, sem revelar os verdadeiros motivos. E, perceba-se, a expressão é esta mesma, “adesão”, vez que falidos os processos de construção democrática, participativa e coletiva, das diretrizes partidárias.

No geral, o processo eleitoral pretendeu nos tornar mais desinformados e mais distantes de análises imanentes, o que, no fundo, talvez seja mesmo a função da democracia burguesa.

Lembre-se, a propósito, o quanto os candidatos fizeram questão de pontuar suas falas na primeira pessoa, “eu”, vangloriando-se do que fizeram e destacando o que farão, se eleitos fossem, mas sempre em questões periféricas e com certo desprezo até mesmo à própria democracia, vez que se referiam a instituições que não criaram sozinhos e que não poderão criar sem as vias democráticas formalmente institucionalizadas, ao mesmo tempo em que, nas questões relevantes, despessoalizavam o discurso, dizendo que promoveriam um “amplo debate” com a “sociedade” a respeito.

Essa forma de diálogo serviu também para potencializar a fragilização da cidadania, que se viu reduzida a uma participação indireta no ato simbólico do voto, posto eletronicamente no contexto de um processo dissimulatório, correspondendo, no campo das relações de trabalho, que é central nesse modelo de sociedade, a um roubo do protagonismo da classe trabalhadora, ou, mais propriamente, da luta de classes, e pretendendo, por consequencia, o esvaziamento da relevância da ação política direta, como se verificou nas mobilizações de junho de 2013 e como sempre se vê nas greves dos trabalhadores.

Pois bem, passado o massacre da eleição, que neste sentido pode ser identificado mesmo como um assédio eleitoral, é hora de retomar o processo de construção da consciência em torno da lógica supressiva da condição humana a que todos estão submetidos no modo de produção capitalista, que se impulsiona pelo consumismo, pela concorrência, pela aparência (física e cultural), pela padronização, pelo individualismo, pela submissão, pela fragilização subjetiva, pela inviabilização da ação coletiva, pela desinformação, pela dissimulação, pela banalização da injustiça e pela repressão…

Ao contrário do que o assédio eleitoral tentou induzir, a racionalidade humana não deve ser conduzida pelo mal menor e os problemas da realidade social não decorrem de “defeitos intrínsecos” pessoais, situando-se, isto sim, em um modelo de sociedade que precisa ser questionado abertamente, com honestidade intelectual e coragem, dada a inafastável angústia que o processo de desalienação resulta.

Não se trata, aqui, de falar da relevância dos laços familiares, do amor ao próximo, ou coisa que o valha. Aponta-se, isto sim, para a emergência de, curado o trauma da eleição, superar, de uma vez por todas, o momento histórico dessa aparente dicotomia entre o PT e o PSDB e das cargas dissimulatórias que trazem, para passarmos a discussões concretas do modo de produção da sociedade capitalista, pois este é, afinal, o método necessário que a classe trabalhadora possui para se identificar enquanto tal e, assim, lutar contra o assédio estrutural a que está submetida.

São Paulo, 25 de outubro de 2014.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

26 de outubro: É a hora…

14.10.22_Fl[avio Aguiar_Agora [e horaPor Flávio Aguiar.

Tem vários “É a hora” na minha vida.

Minha avó tinha um ditado, para quando as coisas ficavam feias para a gente pobre: “esta é a hora em que o patrão ri e o peão chora”.

Depois tem a do Fernando Pessoa: “Portugal, hoje és nevoeiro. É a hora”, ao final da Mensagem. (Estou citando de memória, não garanto o 100% de fidelidade).

Meu amigo Cardoso Pires, infelizmente já partido para os eternos campos de caça, contando do sargento que lhe entrou casa a dentro no 25 de abril de 1974, em Lisboa: “Camarada, chegou a hora!”.

E assim por diante.

E o diante tem o 26 de outubro por diante.

Não adianta fechar os olhos com a venda (aliás o termo é bom) do voto nulo, do voto em branco, da abstenção. As escolhas são cristalinas. Vou dar alguns exemplos.

Trata-se de escolher entre mais médicos ou menos médicos para a população.

Melhores salários ou menores.

Mais empregos ou menos.

Mais especulação ou menos. (Não adianta dizer que a especulação vai continuar. Que me atire a primeira pedra quem me aponte um lugar no mundo onde não haja especulação em algum grau, incluindo a ínclita Cuba e a opaca Coreia do Norte). China, Rússia e Moldávia não valem. Talvez o único lugar sem especulação hoje seja a valorosa Kobani, resistindo aos proto-fascistas do ISIS, contra tudo e contra todos.

Mais abastecimento ou mais carestia.

Mais soberania ou mais subserviência.

Mais Sul ou mais Norte.

Mais América Latina ou a Alca de volta.

Mais Mercosul ou mais Aliança do Pacífico.

Mais aeroporto = rodoviária ou mais aeroporto = spa só para rico e abonado.

Mais futuro ou mais passado (do ruim).

Mais direitos ou mais privilégios.

Mais República ou mais oligarquia.

Mais luta contra a homofobia ou menos.

E por aí se vai.

Agora, se a companheira ou o companheiro preferir o silêncio obsequioso consentido… Vá lá e vote nulo. Ou branco. Ou não compareça. Ou melhor ainda, vote logo no Aécio e peça pra entrar no camarote do Itaú no Itaquerão.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Edson Teles: Eu voto Dilma!

14.10.23_Edson Teles_Eu voto Dilma[Márcia Belarmina da Paixão, na ocupação Copa do Povo]

Por Edson Teles.

No dia 26 de outubro, mais de 130 milhões de brasileiros terão a obrigação de escolher o próximo governo do país. Ainda que seja obrigatório o voto no sistema político brasileiro, cerca de 40 milhões dos que são lançados neste passo formal da democracia simplesmente não escolheram nenhuma das opções em jogo no primeiro turno. Muitos desses votos são considerados inválidos, apesar de registrarem, no mínimo, um descompasso entre boa parte dos brasileiros e o sistema político partidário.

Dentre eles, foram quase 6% dos eleitores brasileiros que anularam seus votos. Estive neste grupo no primeiro turno. Não localizei entre as candidaturas programa partidário com proposição de transformação radical da desigualdade social e da posse fraudulenta das riquezas do país, de discussão das formas de decisão política e da lógica de governo reinante no Estado de Direito brasileiro e nenhuma contestação contundente da militarização da política e da construção de uma democracia de segurança, violenta e repressiva, como vista nos últimos dois anos.

Votei nulo não para me colocar fora da luta política enfrentada dentro das instituições do Estado e do âmbito da democracia representativa. Foi a tentativa de registrar um protesto não ao jogo político que está sendo disputado, mas à ausência de um projeto de transformação profunda da realidade brasileira. Se este jogo está em aberto é necessário agir também dentro de sua lógica de conflito. O governo do sofrimento social e a abertura de possibilidades outras de ação política são questões fundamentais das atuais eleições.

E hoje, às vésperas da votação do segundo turno, o jogo em andamento apresenta-se com outras regras, nas quais se coloca a opção entre dois campos de forças da luta política institucional extremamente opostos.

É por esta razão que declaro meu voto em Dilma Rousseff.

Deixar de tomar uma posição frente ao candidato da direita brasileira, simulacro de uma política liberal e de mudança, significaria para esta minha leitura do jogo em disputa deixar vencer a opção do completo bloqueio de qualquer possibilidade criativa ao agir político, via a institucionalização de um governo fascista.

Para ser breve nesta declaração, atentemos para suas proposições sobre a reforma do Código Penal e de defesa do aprofundamento da política de encarceramento em massa, já vigentes desde anos 70 e cujo alvo é a juventude negra e pobre das periferias, indicando um modelo violento e racista da candidatura tucana.

Esta forma de governo das populações pobres não é projeto exclusivo deste candidato, nem mesmo pertence a um partido ou outro, mas à uma lógica de governo da elite econômica e política cujo projeto é o de uma democracia de roupagem liberal, mas de ação de controle da política e das formas de vida que resistem ao modelo capitalista de sociedade. Contudo, a candidatura tucana seria a estratégia mais aberta de repressão aos movimentos sociais e de controle dos processos de produção de subjetividades, como registrados nas manifestações de junho de 2013, ou nas ocupações de espaços e imóveis abandonados ou sem uso social.

Só para ficar em um exemplo, quando o MTST ocupou o terreno batizado de Copa do Povo em São Paulo, no primeiro semestre de 2014, iniciou-se o processo político que terminaria com uma grande vitória dos movimentos sociais, por meio da negociação entre governo federal e ocupantes concordando com a construção de moradias populares naquele espaço. O modelo tucano, visto poucos anos antes, foi o da desocupação de Pinheirinho, com a violência desmedida da Polícia Militar mesmo diante de liminares da Justiça adiando a operação de despejo.

A aliança heterogênea da candidata Dilma apresenta contradições que abrem maiores campos e possibilidades de conflitos políticos dentro de uma lógica menos agressiva aos movimentos sociais e às reivindicações das minorias. Para combater o projeto autoritário de democracia que ganha terreno em nosso país, a candidatura do PT à presidência apresenta aos movimentos sociais e em luta uma brecha maior de construção de ações criativas de resistência e combate à militarização da política.

Voto em Dilma Rousseff não por acreditar que seu segundo governo resolverá os principais problemas nacionais. Voto em Dilma por uma estratégia de resistência em favor de uma democracia efetiva e radical. Derrotar o projeto fascista tucano é saber que o dia seguinte às urnas será mais um dia de luta.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Edson Teles é autor de um dos artigos que compõe a coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, que tem sua versão impressa vendida por R$10 e a versão eletrônica por apenas R$5 (disponível na Gato Sabido, Livraria da Travessa e outras).

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Albertina

14.10.22_Izaias Almada_Albertina

O colunista relata ter se emocionado com a reação da entrevistada ao ler o artigo para ela, que assim se expressou: “quer dizer que agora sou gente?”

Por Izaías Almada.

Albertina trabalha como diarista em algumas casas em São Paulo. “E com muito orgulho”, diz ela.

Albertina Rodrigues de Oliveira nasceu em Macaúba, interior do Piauí, próximo ao município de Floriano, em 1947, na fronteira com o Maranhão. Filha de Norberto José de Oliveira e de Maria Rodrigues de Oliveira.

Floriano, cidade às margens do rio Parnaíba, tem o nome em homenagem ao marechal Floriano Peixoto, militar nacionalista que governou o país em substituição a Deodoro da Fonseca dois anos após a Proclamação da República em 1889.

Albertina veio para São Paulo em 1978 depois de passar um ano em Fortaleza no Ceará. Seus pais, ainda vivos, o pai com 91 anos e a mãe com 88, tiveram nove filhos, dois já falecidos. Albertina é a filha mais velha.

Começou a trabalhar ainda novinha para ajudar os pais, mas ainda assim conseguiu estudar até o terceiro ano do Curso Normal. Alfabetizou-se no campo, na zona rural piauiense com a professora Maria Olívia, de quem nunca se esqueceu.

Sua infância foi difícil como a de qualquer criança nascida no interior do Piauí na primeira metade do século XX, trabalhando na roça e ajudando a criar os irmãos mais novos.

Quem já não ouviu histórias semelhantes?

Contudo, Albertina tem suas próprias histórias e suas particularidades. Tem histórias que só ela viveu, como cada um de nós.

Quando veio para São Paulo tomou um susto. Nos primeiros dias teve medo, vida extremamente penosa, agitada, quis voltar no primeiro ônibus, mas achou que seria covardia de sua parte. Resolveu ficar.

Católica, embora não acredite no inferno e nem no diabo. Para Albertina o inferno é aqui mesmo. E como disse o filósofo Jean-Paul Sartre, esse inferno são os outros.

Uma das histórias de Albertina aconteceu no ano de 1990 quando foi visitar os pais, após uns bons anos sem vê-los. Conheceu Luiz Inácio Lula da Silva em Floriano e ficou encantada e ao mesmo tempo assustada com todas aquelas bandeiras vermelhas. As coisas que ouvia dizer do PT assustavam-na e, naquela época, costumava votar no PMDB.

Na ocasião ouviu do pai, homem de poucas palavras, uma espécie de vaticínio sobre Lula: “nessa eleição ele não entrou, mas entrará em duas seguidas… Esse homem vai dar certo”.

Até hoje o pai de Albertina, com seus 91 anos de idade, não admite que se fale mal de Lula. Em época de eleições, pede para o levarem de Macaúba até Floriano para poder votar no PT.

Emotiva, Albertina diz que se encantou com Lula quando soube de sua atitude em pedir para ir ao enterro da mãe quando esteve preso.

Quando veio para São Paulo Albertina conheceu Bernadette Figueiredo com quem trabalha até hoje. Bernadette explicou-lhe muitas coisas sobre o Partido dos Trabalhadores e hoje vota no PT e defende com bastante convicção os governos de Lula e Dilma, sobretudo pelo que viu acontecer no nordeste e no seu Piauí.

É testemunha viva dessa mudança e cita os programas Luz para Todos e Bolsa Família, entre outros, como programas que estão redimindo o nordeste e boa parte do povo brasileiro.

“Dilma continuou o programa de Lula e fez ainda melhor”, diz Albertina.

E sobre as declarações do sociólogo FHC a respeito da votação de Dilma no nordeste?, perguntei a Albertina.

“Erro de avaliação”, respondeu… “Ele é que está desinformado sobre o nordeste e sobre o Brasil”

E arrematou: “Vou votar na Dilma domingo porque, além de tudo, é uma pessoa inteligente. Sabe explicar tudo direitinho para as pessoas mais simples. Com ela o país tem melhorado e vai melhorar ainda mais”.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Dois Brasis?

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Detalhe da capa de “Os dois Brasis”, de Jacques Lambert (Col. Brasiliana n° 335, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 5a. ed., 1969)

Por Emir Sader.

Era o titulo de um livro de muito apelo de um economista francês – Jacques Lambert. Era o resgate da modernidade do centro-sul e do sul contra o atraso e a miséria do nordeste. Era o Brasil europeu contra o Brasil africano.

Era uma foto, mas pretendia ser um diagnostico. A imigração nordestina para São Paulo era o resgate generoso da civilização em relação aos famintos, aos miseráveis, aos paus-de-arara.

A direita brasileira, ainda mais tendo São Paulo como sua cabeça, sempre agiu como se fosse a portadora da civilização contra a barbárie. Como uma espécie de Israel cercado de povos incultos, miseráveis, violentos, que se movem pelos instintos, enquanto eles personificariam a razão.

O futuro seria dado pela expansão do polo moderno, industrializado, urbanizado, que iria absorvendo, isolando, derrotando ao polo do atraso, do mundo rural, agrícola. A pujança de São Paulo e sua liderança nacional estaria dada por essa função dinamizadora e modernizadora do pais. “São Paulo é a cidade que mais cresce no mundo: 4 casas por hora.” “São Paulo não pode parar.” Esses lemas, correntes nos anos 1950, eram a atualização dos “ideais de 1932”. Da São Paulo vanguarda do Brasil, que trazia a modernidade do primeiro mundo para o terceiro.

Sabe-se no que deu essa São Paulo que construía 4 casas por hora: naquela que tem mil carros por dia entrando no trânsito, tornando a vida na cidade insustentável. Tornando São Paulo uma cidade desumana, desigual, cruel, que precisa, de forma urgente e prolongada, de políticas que a humanizem de novo.

Na campanha eleitoral atual, analistas levantam de novo a tese de que haveriam dois Brasis: um em torno da modernidade e do progresso, em torno da “rica” e “bem informada” São Paulo, o outro em torno da “atrasada”, pobre e “mal informada”, do nordeste. Se ganhar o primeiro Brasil, voltaríamos à integração subordinada ao centro do capitalismo, como periferia subordinada. Se continuasse a triunfar o segundo, continuaríamos a orbitar em torno do Sul do mundo e da América Latina.

O país estaria dividido, quem quer que ganhe. A diferença essencial é que se triunfar o candidato da elite paulista, promoveria um brutal processo de exclusão social como o Brasil nunca viu, porque com os governos do PT a massa pobre da população conquistou direitos que nunca tinha tido. Será necessário um gigantesco processo de exclusão social para despojá-la, pela força desses avanços. Seria a opressão de um dos Brasis sobre o outro. Seria o aprofundamento da fratura social que sempre caracterizou o nosso país.

Enquanto que o outro projeto vai na direção oposta, a da integração dos “dois Brasis”, pela diminuição das desigualdades sociais. Essa a grande disputa desta eleição: a continuidade do Brasil que integra contra o retorno do Brasil que desintegra.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

As eleições presidenciais e os cenários da política brasileira

14.10.21_Carlos Eduardo Martins_As eleições presidenciais e os cenários da política brasileiraPor Carlos Eduardo Martins.

O segundo turno da política presidencial no Brasil coloca frente a frente dois projetos: o neoliberal, liderado pelo PSDB e representado na candidatura de Aécio Neves; e o de uma centro-esquerda, a la terceira via, que ensaia as bases de um capitalismo de Estado, liderado pelo PT e pela candidatura de Dilma Rousseff. Se o caráter extremamente disputado desta eleição sinaliza para um esgotamento da hegemonia do projeto petista, tal como ele aqui foi elaborado, uma eventual vitória de Aécio Neves representará uma drástica regressão nas conquistas alcançadas nos últimos anos, entre elas, a projeção que o Brasil alcançou no cenário internacional.

O esgotamento da hegemonia petista está vinculado à presença que o capital financeiro continua a exercer sobre o Estado brasileiro, comprometendo com juros e amortizações mais de 40% do orçamento público federal. Ainda que os governos Lula e Dilma tenham reduzido dramaticamente as taxas de juros reais na economia frente às do período de Fernando Henrique Cardoso, elas permanecem acima das taxas de crescimento do PIB, mantendo o pagamento de juros na faixa de 5% do PIB. Tal comprometimento limita os recursos investidos em saúde, educação, transporte e infraestrutura pública – um dos motivos dos protestos de junho de 2013, que reivindicavam qualidade nos serviços públicos e que derrubaram a popularidade da Presidenta Dilma da faixa dos 70% para a dos 30-40%. Assim, as pesquisas para as eleições presidenciais apontam que enquanto Dilma vence com folga na faixa de renda familiar de 1 até 2 salários mínimos, onde os programas de renda mínima, como o Bolsa Família, atuam com força, na faixa de 2 a 5 salários mínimos perde a liderança para Aécio por 54% a 46%.

Embalando a candidatura de Aécio Neves está uma pretensa ofensiva ideológica midiática da direita contra a corrupção que se aproveita da queda de popularidade de Dilma, para atribuí-la aos governos petistas, propondo difusamente uma nova política que Marina se propôs a representar e que lança desconfiança aos partidos políticos tradicionais, pretendendo estabelecer uma reforma que viabilize candidaturas avulsas e independentes. O apoio de Marina a Aécio no segundo turno, candidato cuja carreira precoce associou-se aos laços familiares com velhos políticos tradicionais, enfatiza o caráter altamente retórico desta proposição. A ofensiva ideológica da direita conta com pouquíssima sustentação empírica, se compararmos as práticas políticas do PT com as dos partidos de direita. Ilustrativo a este respeito é o ranking de corrupção comprovada fornecido pelo MCCE, onde o PT ocupa a 9ª posição com 2,9% dos políticos cassados, enquanto o DEM e o PSDB ocupam a 1ª e 3ª posição, respectivamente, com 20,4% e 17,1% das cassações.

Dois caminhos para a direita

Uma eventual vitória de Aécio Neves colocaria duas possibilidades de projeto de governo para a direita neoliberal. A primeira e mais provável, uma versão de governo similar ao de Fernando Henrique Cardoso. Se deslancharia uma nova onda de privatizações cujo alvo principal é a Petrobrás. Durante a gestão de FHC se vendeu 30,7% das ações da empresa na bolsa de Nova York e 8% estão nas mãos de investidores estrangeiros no Brasil, o que leva a empresa remeter 40 % dos seus lucros para o exterior. Hoje a União possui apenas 55% do capital votante da Petrobrás. A perda do controle acionário da União implicaria a transferência ao exterior com fortes repercussões sobre o Pré-Sal, cuja alienação se completaria com o cancelamento do modelo de partilha, através do qual o Estado brasileiro exerce controle majoritário sobre as decisões de investimento. A onda de privatizações poderia se desdobrar dos bancos estaduais (privatizados na gestão de FHC) para os federais, e se reduziria drasticamente o papel do credito público através do BNDES. Estabelecer-se-ia uma política monetária de elevação das taxas de juros com fortes pressões fiscais, que implicariam na contenção salarial do funcionalismo público, das aposentadorias, do valor do salário mínimo e dos programas sociais. No plano da política externa se praticaria o alinhamento aos Estados Unidos, desmontando-se a política em bloco do Mercosul, principalmente com a entrada da Venezuela, baixando-se o perfil da UNASUL e dos BRICS. Os efeitos sobre o tabuleiro político da região seriam notórios, particularmente sobre a Venezuela que enfrenta grave situação de crise cambial e encontra no Brasil um aliado com poderosas reservas internacionais, respaldadas pela arquitetura financeira de um BRICS em construção. A aplicação deste receituário de políticas públicas provocaria uma forte explosão social no país, de impactos imprevisíveis.

Outra possibilidade para a direita, que é improvável – pelo perfil dos integrantes de uma futura equipe de um governo Aécio Neves, fortemente ligados ao rentismo (como Armínio Fraga) –, mas teoricamente possível, é uma política de redução das taxas de juros que se combine às demais anteriormente apresentadas. Da mesma forma que o PT usou a sua presença junto aos movimentos sociais para conter suas reivindicações, o PSDB poderia utilizar sua presença junto ao empresariado para fazer o mesmo, limitando o rentismo em troca de privatizações e da entrega da soberania brasileira sobre recursos estratégicos, em particular o Pré-sal. Neste caso, poder-se-ia manter os recursos para os programas sociais e até ampliá-los, colocando em risco a base política conquistada pelo PT entre os segmentos de 1 a 2 salários mínimos, que poderiam fluir para o PSDB, trazendo novamente o Nordeste para a direita. Tal cenário seria extremamente negativo para as esquerdas, que isoladas socialmente, ofereceriam pouca resistência à entrega de empresas e reservas estratégicas da economia brasileira. O Brasil se converteria num polo de atração conservadora na América do Sul, desestabilizando o equilíbrio de forças na região e isolando as experiências de capitalismo de Estado de base popular que prosperam em nosso continente.

Dois caminhos para a esquerda

Para o PT, a vitória de Dilma colocaria dois cenários. Caso se mantenham as políticas públicas vigentes, o cenário provável é de desgaste crescente, abrindo o espaço para a crise de governabilidade com a eleição de um congresso conservador e com o desprendimento de parte da base aliada, o que pode se aprofundar durante o mandato. Outra possibilidade é que o PT rompa com a hegemonia do capital financeiro sobre o Estado, baixando significativamente as taxas de juros reais, para um patamar inferior ao crescimento da economia. Tal alternativa permitiria ao governo Dilma impulsionar políticas sociais estruturais, elevando os investimentos em saúde e educação, transporte e infraestrutura, permitindo-lhe recuperar o apoio perdido nos segmentos de renda familiar de 2 a 5 salários mínimos e mesmo nos de 5 a 10 salários mínimos. Tal iniciativa permitiria retomar o dinamismo da economia em parte bloqueado pelos limites que a superexploração do trabalho – que constitui ainda a base da economia brasileira – coloca para o processo redistributivo. Ao reduzir o peso dos juros sobre os investimentos produtivos se poderia retomar um ciclo de acumulação com resultados políticos promissores a médio prazo, viabilizando uma forte elevação do nível de organização dos trabalhadores brasileiros.

Para fazer frente à hegemonia petista, a esquerda brasileira terá antes que superar seu enorme grau de atomismo, unificando candidaturas em torno de programas, mais que em torno de partidos, e fazer políticas defensivas anti-neoliberais, quando da impossibilidade de implementar uma agenda ofensiva. Do contrário continuará encastelada fora da história e da agenda de nosso povo

Nos próximos dias saberemos quais alternativas estão à frente no Brasil nos próximos anos.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Michael Löwy, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Um livro com o tupi nosso de cada dia

Mouzar ConvitePor Mouzar Benedito.

Por que você está na pindaíba?

Pode ser porque está desempregado, não? Ou porque tem emprego mas o salário é baixo. Ou porque estourou o cartão de crédito e paga juros muito altos, não sobra dinheiro pra nada. Ou porque o aluguel aumentou demais, o salário não acompanhou. Se é aposentado, então, pior ainda.

Mas os índios de língua tupi há séculos já podiam ficar na pindaíba, sem esses motivos.

É que pindá, em tupi, significa anzol. Iba, significa ruim. Então, pindaíba quer dizer anzol ruim. E nos povos que viviam em grande parte da pesca, anzol ruim é mesmo de deixar a pessoa sem ter o que comer.

Pindaíba é um dos mais de oitocentos e trinta verbetes do livro Paca, Tatu, Cutia! – Glossário ilustrado de Tupi, que escrevi em parceria com o Ohi (textos meus, ilustrações dele) e que acaba de ser publicado pela Editora Melhoramentos.

Não é um “dicionário”, pois não tem aquelas formalidades necessárias para isso, nem a estrutura de um dicionário. E em muitos dos verbetes conto alguma historinha relacionada a eles. Tem um pouco de informações históricas e humor.

Por exemplo: jabá. Não o jabá com sentido de propina que alguns artistas pagavam (ou pagam) para tocar suas músicas nos rádios. Esse tipo de jabá, índio não conhecia.

Mas também, originalmente, essa palavra não era sinônimo de carne seca. Jabá, em tupi, é fuga, fugir, fugitivo.

Antes de trazer escravos africanos para o Brasil (e depois também), os portugueses escravizaram índios. Mas quem é que gosta de ser escravo? Eles fugiam, e eram muito perseguidos para serem recapturados. Durante a fuga precisavam comer, mas não podiam parar para caçar, então levavam carne seca. Assim, a carne que se levava na fuga passou a ser chamada de jabá.

Deve ter alguém imaginando: então Jabaquara, nome de um bairro de São Paulo e outro de Santos, tem algo a ver com isso?

Tem. Quara é um sufixo tupi que significa refúgio, entre outras coisas. Então, Jabaquara significa “refúgio dos fugitivos”. É o mesmo que quilombo do idioma quimbundo. O Quilombo do Jabaquara (curioso, não? Falar quilombo do Jabaquara equivale a dizer “quilombo do quilombo”) de Santos era muito famoso, abrigou escravos fugitivos até à libertação dos escravos, em 1888.

Nomes que descrevem animais

Uma curiosidade da língua tupi é que os nomes que os seus falantes deram aos animais de certa forma falam de alguma característica deles. Por exemplo, jacaré significa “o que olha de lado”.

Você já viu uma cutia comendo uma espiga de milho? Ela pega a espiga com as patas dianteiras e fica de pé sobre as patas traseiras. Por isso, ganhou o nome cutia, que significa “o que come de pé”.

Paca significa esperta, ágil. Caçadores desse bichinho montavam armadilhas e tinham que ficar um tempão esperando escondidos, para pegar a danada. Daí surgiu o verbo paquerar, que hoje usamos para uma atividade mais agradável e mais ecológica, não é? Nada de matar animais silvestres.

Entre as aves, tem o jacu, que é desconfiado, cauteloso. Esse é o significado dessa palavra. E como roceiro, caipira, costuma ser também desconfiado e cauteloso, tem quem o chame de jacu, também.

Por falar em caipira, está aí outra palavra tupi. Tem quem a traduza por desconfiado ou tímido, mas seu significado literal é “morador do mato”. Mas que não se pense que caipira é imbecil. A palavra é usada de forma preconceituosa, mas o caipira tem uma cultura muito rica, e seu jeito de falar tem motivos históricos (ver embaixo: “Nheengatu e língua geral paulista”).

No Nordeste, em vez de caipira, falam – também preconceituosamente – tabaréu, que é “morador da taba”.

Cidades, rios, montanhas…

Em todos os estados brasileiros existem cidades com nomes de origem tupi, mesmo naqueles em que não se falava tupi. É que bandeirantes falavam tupi (ou melhor, a “língua geral paulista”) e jesuítas usavam esse idioma para se comunicar com os índios em geral e “criaram” uma língua a partir dos vários dialetos tupis. Então, tanto bandeirantes como os religiosos usavam o tupi para nomear rios, povoados etc.

No estado de São Paulo, base dos bandeirantes, há uma profusão de nomes tupis nas cidades. Alguns muito curiosos. Por exemplo: Pindamonhangaba e Itaquaquecetuba. Quem tem curiosidade por nomes deve saber que Pindamonhangaba é “lugar onde os homens fazem anzóis”, quer dizer, fábrica de anzol. Quicé é um tipo de taquara muito cortante, como faca. Tuba é coletivo, lugar que tem muito de alguma coisa. Taquaquicetuba, que depois virou Itaquaquecetuba, é lugar que tem muitas taquaras cortantes, do tipo quicé.

Bauru, ao contrário do que muita gente pensa, não tem nada a ver com sanduíche. É cesto de frutas. Poá é mão aberta. Itu é salto, cachoeira. Ituverava é cachoeira brilhante.

Alguns nomes de cidades podem até parecer “bíblicos”, mas são tupis. É o caso de Jacobina, na Bahia. Não parece algo relacionado a algum Jacó? Pois ele vem de já cuã apina, que quer dizer cascalho limpo, jazida de cascalho. O primeiro ouro que os portugueses garimparam no Brasil foi nessa jazida de cascalho, em 1718.

Os rios com nomes tupis são muitos. Paraguai, por exemplo, é rio dos papagaios, e Tocantins é nariz de tucano.

E as montanhas: quer nome mais bonito do que Mantiqueira (“chuva gotejante” ou “chuva contínua”)? No Nordeste tem a Chapada do Araripe, um lugar alto. Araripe é “sobre o mundo”.

Bom, há muita coisa que a gente fala pensando que está falando português, mas na verdade é tupi… ou português do Brasil. Pense em algumas palavras do nosso cotidiano: pereba, tapera, peteca, mingau, pamonha, guri, sapeca, carioca, maloca, pipoca…

Ah, quem é profissional do futebol sonha jogar no Morumbi, Itaquera, Pacaembu, Maracanã… tudo nome tupi.

E nome de gente? Moacir, Jaci, Moema… Vou contar o significado de apenas um: Araci é aurora, mãe do dia. Se uma mulher se chamar Aurora e outra Araci, elas são xarás. Epa! Por falar nisso, xará é uma palavra tupi, significa “o que tem o mesmo nome”.

Enfim, acho, modéstia à parte, que este é um livro que pode ser lido com prazer por adultos e por crianças. E está muito bem produzido, bonito. Convido a todos para o lançamento que será no dia 25 de outubro (sábado), das 16h às 19h, na Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena – São Paulo.

Quem preferir, pode acrescentar algo mais: vá à Festa do Saci, em São Luiz do Paraitinga. No sábado, dia 1o de novembro, haverá um seminário sobre cultura caipira a partir das 10h da manhã, e logo depois (a partir do meio-dia), no mesmo local faremos o lançamento. Vai ser no Centro Turístico e Cultural Nelsinho Rodrigues, na Rua Cel. Domingues de Castro, 33, no centro da cidade.

A vantagem de comprar no lançamento é que o Ohi vai além de dar um simples autógrafo: ele faz um desenho na hora.

Nheengatu e língua geral paulista

Os jesuítas queriam catequizar os povos indígenas e perceberam que quase todos os povos da faixa litorânea falavam dialetos de uma mesma língua, mas não tinham escrita, era uma língua exclusivamente oral. .

Resolveram então “unificar” esses dialetos e criar uma escrita para eles. Em São Paulo, chamaram de “língua geral paulista” e no norte “nheengatu”, que significa língua boa ou falar bem. Mas são línguas bem parecidas e costuma-se usar nheengatu também para o que se falava em São Paulo.

Em São Paulo e sua área de expansão só se falava a língua geral paulista. Depois da guerra em que os exércitos de Portugal e Espanha se uniram para combater os Guarani, apoiados pelos jesuítas, o Marquês de Pombal resolveu expulsar os jesuítas do Brasil e determinou que só se falasse português aqui. Isso foi em 1758. Mas não se muda de língua de um dia para o outro. As escolas passaram a usar só a língua portuguesa e todos os documentos tinham que ser escritos em português.

Demorou muito para assimilar o português, e muitos dos brasileiros do atual Sudeste preservaram o modo de falar nheengatu. No tupi não existe, por exemplo, a pronúncia L nem LH, que acabam virando R na pronúncia caipira (esse pessoal que resistiu ao “sotaque” português). Então, trabalho vira trabaio, por exemplo. Mulher é muié. E no tupi/nheengatu não existe R no final dos verbos, e isso foi mantido no “dialeto caipira”. Falamos fazê, trabaiá, coçá, brincá…

Mas não é só isso. Existem mais diferenças de pronúncia, presentes no nosso linguajar. Vale a pena estudar um pouco disso. Nosso livro é um começo, para os curiosos.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Maria Rita Kehl: Voto contra o retrocesso

14.10.16_Maria Rita Kehl_Voto contra o retrocessoPor Maria Rita Kehl*.

A presidenta Dilma Rousseff criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Em maio de 2012, a primeira presidenta do Brasil, ex-presa política torturada, conseguiu aprovar no Congresso a criação da CNV. Entre os países latino-americanos que sofreram ditaduras, fomos o último a criar uma comissão da verdade.

Antes tarde do que nunca. Ainda que os militares remanescentes do estado de exceção não cooperem com nossas investigações. Ainda que adeptos da linha-dura, hoje na reserva, recusem “colaborar com o inimigo” (todos nós) –e não revelem o paradeiro dos cerca de 150 desaparecidos políticos (sem contar indígenas e camponeses).

Ainda assim, o trabalho da CNV representa um avanço efetivo na consolidação da nossa democracia.

Avanço que exige, ainda, a erradicação da continuada prática de violência de agentes do Estado contra cidadãos detidos. A presidenta criou o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que começará a atuar para coibir os maus tratos a pessoas detidas em presídios, delegacias e hospitais psiquiátricos.

Nosso atraso em termos de direitos humanos, além de envergonhar o país, multiplica a insegurança na sociedade inteira. Já se comprovou que a violência da criminalidade no Brasil é diretamente proporcional à violência das PMs e de outros agentes de segurança contra os cidadãos.

Voto em Dilma Rousseff porque tenho vergonha de nossa desigualdade social. Nunca compreendi como se podia viver com tranquilidade em um país rico onde parte da população passava fome. Problema que, aliás, foi reconhecido como extinto em função dos programas sociais dos governos Lula e Dilma. Iniciados por FHC, sim, mas por que, então, eleitores do PSDB ainda desqualificam o programa Bolsa Família como “Bolsa Esmola”?

Não faltam notícias sobre municípios onde a entrada dessa renda mínima impulsionou a economia local nem sobre cidadãos que cancelaram sua inscrição para recebimento da bolsa tão logo conseguiram ganhar o suficiente para seu sustento.

Depois das gestões Lula e Dilma, a vulnerabilidade dos mais pobres diminuiu em função da expansão de seus direitos. Voto pela continuação do Bolsa Família, do programa Luz para Todos, do Minha Casa, Minha Vida, maior programa de habitação popular já criado no Brasil. Voto também por uma política econômica que, em tempo de crise do capitalismo internacional, preservou o valor dos salários e o pleno emprego.

Os governos de Lula e de Dilma impulsionaram o acesso dos jovens às universidades no país e no exterior. Proporcionaram atendimento médico gratuito em cidades afastadas dos grandes centros.

Suponho que a maioria da classe médica tenha se envergonhado das vaias contra os cubanos contratados com transparência pelo Ministério da Saúde. Afinal, os brasileiros sempre acharam chique a importação de tecnologia. Ninguém vaiou a participação da Alstom, hoje suspeita de corrupção, nas obras de ampliação do Metrô de São Paulo.

Por fim, voto em Dilma pela continuação do combate à corrupção em todos os níveis, inclusive os que atingem setores de seu governo. Desde o governo Lula, a Polícia Federal investiga com transparência crimes de colarinho branco, sem poupar autoridades, empresários e ministros. Melhor o risco de penas injustas, como no caso de alguns mensaleiros, do que a impunidade.

Do outro lado: onde foram parar as investigações de corrupção no Metrô paulista, no mensalão mineiro, as denúncias sobre o aeroporto de Cláudio e o helicóptero da família Perrella que transportava cocaína?

Por que os paulistas não foram informados, até a reeleição do governador Alckmin, da calamidade pública na gestão da água que, desde 2012, era mantida em segredo entre governo e acionistas da Sabesp?

Sei que a erradicação da corrupção depende da independência dos meios de comunicação. Voto na candidata que não tem a grande mídia a seu favor.

* Publicado originalmente na Folha de S.Paulo de 16/10/2014.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora esporadicamente para o Blog da Boitempo esporadicamente.