Arquivo da categoria: Colunas

O vírus zika, o direito ao aborto e a cidadania das mulheres brasileiras

flavia biroli zika abortoPor Flávia Biroli.

No segundo semestre de 2015, a discussão pública sobre o direito ao aborto no Brasil se ampliou. As mulheres foram às ruas contra o PL 5069/2013, que propõe uma legislação que interfere no direito daquelas que sofreram violência sexual ao atendimento hospitalar para a profilaxia e, caso desejem, para a interrupção da gravidez. Vale lembrar que no Brasil, como na maior parte da América Latina, aborto é crime. Aqui, a gravidez resultante de estupro é uma das três exceções previstas em lei – as outras são risco de vida da mãe e anencefalia fetal. Continuar lendo

O bloco “Comuna que Pariu!” como fenômeno cultural e político

comuna que pariu 2016 blog[Bloco “Comuna Que Pariu!” em 8.2.2016. Imagem a partir de foto de Guilherme Nogueira de Souza]

Por Mauro Luis Iasi.

O “Comuna Que Pariu!” é um bloco de carnaval que se organizou em 2009 por iniciativa da UJC (União da Juventude Comunista) e tomou forma mais definitiva em 2013, aquecido pelas lutas na cidade do Rio de Janeiro. Tornou-se uma iniciativa da base de cultura do PCB, hoje denominada de célula de cultura, que reúne militantes do partido, ainda que o bloco tenha aglutinado militantes de diversos campos da esquerda de forma bem ampla. Continuar lendo

Retalhos da memória (III)

retalhos izaias iii[Parque Municipal de BH , de Alberto da Veiga Guignard]

Por Izaías Almada.

“Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?”
– M. NASCIMENTO/F.BRANT

LEIA”RETALHOS DA MEMÓRIA (I)” E “RETALHOS DA MEMÓRIA (II)“, DE IZAÍAS ALMADA.

Feitas essas observações iniciais, peço aos leitores que invadam as minhas memórias. Não se preocupem: não tem zika.

E começo por desafiá-los a responder uma pergunta que me incomoda há anos desde a adolescência, para ser mais preciso, vivida em meio a outros adolescentes da Igreja Metodista Central de Belo Horizonte.
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A conquista da cozinha: As hostes inimigas e o primeiro combate

a conquista da cozinhaPor Flávio Aguiar.

Conforme o tempo passou e as coisas mudaram ou não, as paisagens se tornaram outras. Deixei Porto Alegre rumo ao exílio em São Paulo (as razões disto já expus em outras ocasiões), entrei pela USP a dentro como estudante e permaneci como professor (idem, ibidem), casei, fui preso, fui solto (idem, ibidem), mudei de casa, e um belo dia nasceu uma filha, a minha primogênita, Renata. (Depois viriam Maria e Tânia).

Neste percurso, minha familiaridade com o reino da cozinha foi aumentando. Fui aprendendo a fazer sopas – grande fracasso, porque na época eu achava que fazer sopa era ferver tudo o que eu encontrasse pela frente. Massas: sucessos relativos, aprendi a fazer molhos vermelhos e bolonhesas razoáveis. E carnes: sucesso absoluto, seguindo as tradições gaudérias que trouxera do pampa. Continuar lendo

O capitalismo pode sobreviver à democracia? | Uma homenagem a Ellen Wood

ellen wood boitempo[Ellen Meiksins Wood (1942-2016), autora de Democracia contra o capitalismo e O império do capital]

Por Emir Sader.

O pensamento marxista perdeu, em pouco tempo, dois de seus maiores expoentes contemporâneos – Benedict Anderson e Ellen Meiksins Wood. Benedict, irmão de Perry Anderson, foi um dos maiores especialistas nos nacionalismos atuais, tendo seu livro Comunidades imaginadas como uma das leituras indispensáveis sobre o tema. Ellen foi uma das mais importantes pensadoras marxistas do século XX, e seu livro Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico se constituiu como um marco do pensamento político.

Como forma de homenageá-la, retomo aqui o texto de uma conferencia que preparei, centrado nesse livro dela, sobre o tema das diferenças entre a democracia antiga e a moderna. Continuar lendo

Balanço 2015: Velhos ataques e novas resistências

souto maior 2015Por Jorge Luiz Souto Maior.

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  1. Os ataques aos direitos trabalhistas na era neoliberal

No final de 2002 fui instado pelo antigo site Carta Maior Jurídico a escrever uma retrospectiva daquele ano, avaliando o que havia se passado com Direito do Trabalho.

A análise dos fatos ocorridos me levou a concluir que 2002 tinha sido o ano da virada, o que foi refletido no título do artigo: “Direito do Trabalho: a reviravolta de 2002 e a esperança de 2003”1. Continuar lendo

Um olhar argentino sobre o Brasil: Raymundo Gleyzer e “La tierra quema”

pericás blog1Por Luiz Bernardo Pericás.

A câmera de filmar como arma de combate. Era assim que o documentarista argentino Raymundo Gleyzer via sua arte. O diretor portenho pode ser colocado junto com Glauber Rocha, Santiago Alvarez, Fernando Pino Solanas e Octavio Getino como um dos maiores expoentes do cinema engajado de sua época. Mas se estes dois últimos, responsáveis por levar às telas o clássico La hora de los hornos (1968) eram peronistas de esquerda e membros do grupo “Cine Liberación”, Gleyzer seria guevarista e integrante do PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores). Continuar lendo

Retalhos da memória (II)

retalhos2[Paisagem de Ouro Preto, de Alberto da Veiga Guignard]

Por Izaías Almada.

“Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?”
– M. NASCIMENTO/F.BRANT

LEIA”RETALHOS DA MEMÓRIA (I)“, DE IZAÍAS ALMADA.

Para os últimos trinta anos, contudo, os que me foram dados viver intensamente, mergulharei eu mesmo como autor inconteste das minhas mais recentes e legítimas memórias, correndo – aqui sim – o risco da inconfidência proposital, da maledicência voluntária ou involuntária e mesmo de algumas inegáveis injustiças. “Lembrar é resistir” é o título de uma peça que escrevi em coautoria, mas pode ser também “Lembrar é desistir”. Uma questão de escolha. Continuar lendo

Menos Baudelaire, mais Apollinaire: um novo modelo editorial para o Brasil

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Por Christian Ingo Lenz Dunker  e José Roberto Barreto Lins.

O recente fechamento da editora Cosac Naify, símbolo de excelência editorial, cobiça autoral e de respeito aos leitores qualificados, faz pensar não só no fracasso de uma experiência individual, com seus ganhos e perdas, mas nas razões para uma nova articulação entre o espaço público. Afinal, trata-se de publicação, e os agentes produtores de ciência e cultura encontram cada vez mais facilidade quanto aos meios que tornam algo público e cada vez menos propósito nos fins a que se destinam. Continuar lendo

Cultura Inútil: Ode à preguiça

preguiça cultura inútil mouzar[Fotograma do filme Macunaíma (1969), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade.]

Por Mouzar Benedito.

“Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos” — pode ter algo de marxista nesse pensamento? Bom… a frase não foi exatamente empregada por Karl Marx, mas foi escolhida pelo genro dele, Paul Lafargue (casado com Laura Marx), como epígrafe de um de seus livros mais ilustres: O direito à preguiça.

Li esse livro há um tempão e desde então virei seu fã. Nele, esse meu ídolo disse, entre outras coisas: “Que se proclamem os Direitos da Preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem. Que as pessoas se obriguem a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite”. E mais: “Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal. Depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade”.

Meu amigo Zé Roberto Alencar (que infelizmente não viveu para ver isso — e nem eu vou viver), defendia (e eu o apoiava) que as pessoas deveriam trabalhar apenas um dia por mês. Há ou haverá tecnologia para se produzir tudo o que precisamos sem ter que trabalhar muito. Assim, por exemplo, se meu dia de trabalho fosse o 21 de cada mês, no dia 20 eu não faria nenhum excesso, passaria me preparando física e psicologicamente para trabalhar no dia seguinte. E do dia 22 em diante, até o 19 de cada mês seguinte, seria só alegria, dedicação a atividades artísticas e coisas gostosas de se fazer.

Já sei que algumas pessoas vão resmungar, contra essa “vagabundagem” que a gente quer. Acreditam que cabeça ociosa é oficina do diabo. E de certa forma, é: quem está desocupado pode pensar em coisas que não convêm ao status quo. Esse é um dos motivos pelos quais há instituições patronais e governamentais que “oferecem” atividades de lazer aos trabalhadores. Lazer, no caso, implica em atividade, é diferente do ócio.

Na primeira eleição depois da II Guerra Mundial e do fim da ditadura no Brasil, o Partido Comunista teve uma grande vocação, e muitos trabalhadores se interessaram por política, pela esquerda. Foi aí que empresários e gente do governo se reuniram e resolveram criar o Sesc e o Sesi, para oferecer aos trabalhadores da indústria e do comércio, nas suas horas de folga, atividades de esporte e lazer em geral, de maneira que os desviassem da política. Não deu tão certo assim, e essas entidades não se dedicam — pelo menos nos dias de hoje — a desviar trabalhadores da política.

Antes de continuar, aí vão alguns sinônimos de preguiça: preguiceira, ignávia, indolência, lombeira, modorra, moleza, inação, vadiação, vadiagem, madraçaria, ócio, ociosidade, pachorra, mangona, calaçaria, sornice, marasmo, vagabundagem, inatividade, inércia, mandria e mandriíce. E quem pratica a preguiça, como o chamam, além de preguiçoso? Aí vão alguns adjetivos relativos a ele: indolente, mandrião, pachorrento, ignavo, ocioso, vadio, vagabundo, inativo, preguiceiro, lânguido, modorrento

Mas voltemos ao Lafargue. No seu livro, ele disse também que “o trabalho desenfreado é o mais terrível flagelo que já atacou a humanidade”, e que “os filósofos da antiguidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses”.

Pensando nele, selecionei algumas frases e alguns ditados populares sobre a preguiça. Mas enquanto fazia isso fui me lembrando de algumas coisas que conto antes de apresentar essa minha “pesquisa”.

Alemães exemplares

Quando comecei o curso de Geografia na USP, em 1967, uma das excursões de estudos que fazíamos era ao “Sertão de Santo Amaro”. Isso mesmo: uma região bem grande, no sul do município de São Paulo, era um sertão de verdade.

Para chegar a Parelheiros, lugar ainda hoje considerado distante, mas relativamente populoso e servido por muitas linhas de ônibus, na época era por estradinhas de terra batida e tendo que pegar duas ou três balsas. A população era pequena e a maioria dos moradores dali achava que a cidade de São Paulo tinha como centro o Largo 13 de Maio, em Santo Amaro. Quase nenhum morador do “Sertão de Santo Amaro” tinha ido além do Largo 13, e muitos nem chegaram lá. Eram roceiros como os de qualquer outro lugar.

Na beira das estradas havia vendinhas típicas da roça de qualquer lugar da época, com cavalo selados parados na porta e, dentro, alguns homens tomando cachaça, pitando um cigarrinho de palha e conversando com sotaque bem caipira. E, surpresa: havia entre eles loiros de olhos azuis. Mas como os demais, usavam roupas de roceiros e chapéu de palha, calçavam botina ou andavam descalços, e não raramente lhes faltavam dentes da frente. Os nomes deles? Hans, Fritz…

— Como!? — os estudantes pasmos perguntavam ao professor.

E ele explicava: quando Dom Pedro I era imperador, a princesa Leopoldina dizia que brasileiro era indolente, preguiçoso. Os roceiros não gostavam de trabalhar e produziam pouco mais que o suficiente para sua família sobreviver. Isso, claro, não contando os donos de engenhos de açúcar e outras agroindústrias que, com o trabalho escravo, produziam mercadorias exportáveis. E também muitos brasileiros urbanos que consideravam o trabalho uma coisa indigna, só de escravos.

Um parêntese aqui: Monteiro Lobato no início do século XX, criou o personagem Jeca Tatu, indolente e preguiçoso, como ele achava que eram todos os roceiros daqui, ao contrário dos imigrantes, trabalhadores e dinâmicos. Depois, ele fez uma autocrítica, constatando que eles eram vítimas muitas doenças, como o impaludismo, que provocavam essa moleza. Além disso, os lavradores imigrantes recebiam apoio do governo, e os brasileiros não.

Voltando à princesa Leopoldina, ela convenceu Dom Pedro a trazer para cá um monte de agricultores alemães, para servirem de exemplo aos brasileiros. Vendo os alemães produzirem bastante e “progredirem”, os brasileiros poderiam se aculturar, seguir o exemplo dos alemães. Assim, trouxeram para perto de São Paulo, onde o clima é menos quente que lá pelas bandas da antiga corte, centenas de famílias alemãs.

Acontece que alemão trabalhava tanto assim lá na terra deles, que tem um inverno rigoroso e, além de precisarem de casas e roupas que os protegiam do frio, necessitavam também acumular alimentos para o inverno inteiro. Aqui, não precisavam nada disso. E foram eles os aculturados pelos nossos caipiras.

Viva Caymmi!

Os baianos têm fama de cultuar a preguiça. Não é bem assim, trabalha-se muito na Bahia. Mas, bons gozadores, os baianos brincam com isso. Alguns deles, meus amigos, fazem piada sobre a suposta preguiça que lhes seria característica. Um deles me disse que baiano, para morrer de repente, gasta uma semana. Outro disse que um menino se espreguiçava deitado numa rede, com os pés fora dela, apoiados no chão, e perguntou calmamente para a mãe: “Mãínha… mordida de tartaruga mata?”. A mãe respondeu calmamente também: “Não, meu filho. Mata não! Alguma tartaruga te mordeu?”. E a resposta do menino: “Mordeu não, mãinha… mas tem uma vindo no meu rumo”.

E alguns grandes baianos fazem ou fizeram loas à preguiça. Um deles — olha aí outro ídolo meu — foi Dorival Caymmi. Há até uma piada que ele estava conversando com Jorge Amado, um dia, numa varanda. Caymmi deitado numa rede, com os pés apoiados no chão, e Jorge Amado, de frente para ele, numa cadeira de balanço. A certa altura, Caymmi perguntou: “Jorge… Você que está de frente para mim, me diga: minha braguilha está aberta?”. Jorge Amado respondeu: “Está não, Dorival”. E a conclusão de Caymmi: “Então eu mijo amanhã”.

Preguiçoso inigualável

Um exemplo verdadeiro de preguiça eu não vi na Bahia, foi na minha terra mesmo, em Minas, um sujeito conhecido como Julinho da Penha. Andava numa lentidão que parecia bicho preguiça. E não falava.

Um dia, já morando em São Paulo, fui a Nova Resende e estava conversando com um amigo, o Tião Dentista, na porta de um bar, quando vi o Julinho se aproximando a uns trinta metros de distância. Falei com o Tião: “Olha o Julinho, aquele mudo. Eu não via ele desde que mudei daqui”. O Tião me disse: “Ele não é mudo, não”. Dei risada, discordei: “Eu nunca ouvi ele falar nada!”. É por preguiça que ele não fala”, afirmou o Tião. Não acreditei e meu amigo propôs uma aposta que aceitei. Se o Julinho falasse qualquer coisa, eu perderia a aposta.

Só depois dessa discussão toda e da aposta é que o Julinho da Penha chegou até nós, em sua caminhada lerda, com apoio de um cajado. Parou de frente para nós, levantou a mão direita vagarosamente até perto da boca e movimentou os dedos para frente e para trás, sempre muito devagar, pedindo comida.

O Tião falou: “Olha Julinho, eu pago um sanduíche procê, mas você vai ter que falar ‘eu quero comer’”. O Julinho fez uma cara triste, mas o Tião insistiu: “Se não falar, não come”.

E não adiantou a cara de quase choro do Julinho. “Se não falar, não come”, insistia meu amigo. Eu estava com uma baita pena do cara, ia falar pro Tião que ia pagar o sanduíche pro Julinho, quando ele falou, baixo, devagar: “Eeeeuuuu queeerooo cuuuummmêêêê…”.

Um deus brasileiríssimo

Quem criou o Céu e a Terra? Deus, claro!, dizem os cristãos. Mas para povos indígenas de Roraima, o deus criador do mundo foi Macunaima (pronuncia-se macunáima, e não macunaíma, como teve o nome adaptado no romance de Mário de Andrade). Nas lendas indígenas, era brincalhão e gozador, muito diferente dos deuses caretas e carrancudos da Grécia e de Roma. Mas não perdoava os inimigos: transformava-os em pedras.

Mário de Andrade, grande pesquisador da cultura brasileira, conheceu a história dele e escreveu seu belo romance (que virou ótimo filme também) chamado Macunaíma, publicado em 1928.

No livro, filho de índios, Macunaíma é um herói sem nenhum caráter, na verdade um anti-herói, representante do povo brasileiro. Quando aprendeu a falar, a primeira coisa que disse foi: “Ai que preguiça”.

Por falar nisso, lembro-me de uma menininha bem preguiçosa, neta de um colega de trabalho que dizia: “Pregui…”, quando perguntavam o que ela tinha. Não falava nem a palavra preguiça inteira.

Bom, vamos às frases… Mas antes, mais uma coisa: certamente alguém vai se lembrar do bicho preguiça. Tá aí um animal símbolo das minhas propostas. Mas em tupi, o nome dele não tem nada a ver com preguiça, é “aí” ou “aígue”, que não significa nada, é a voz onomatopaica do bicho, quer dizer, o som que ele emite.

Frases e ditados

Mário Quintana: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”.

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Agatha Christie: “Não acho que a necessidade é a mãe da invenção – uma invenção, na minha opinião, surge diretamente da indolência, possivelmente também da preguiça. Para poupar-se trabalho”.

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Jerome K. Jerome: “É impossível desfrutar completamente a preguiça, a menos que se tenha muito o que fazer”

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Eça de Queiroz: “Não há profissão mais absorvente que a vadiagem”.

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Jules Renard: “Preguiça – o hábito de descansar antes da fadiga”.

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Vicente Avelino: “A preguiça é a delícia de não ser, para gozar certas volúpias do ser”.

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Jean-Jacques Rousseau: “Rico ou pobre, todo preguiçoso é um cretino”.

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O povo (ditado popular): “Para o preguiçoso, todos os dias são feriados”.

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Autor desconhecido: “Nunca faça amanhã o que pode deixar para depois de amanhã”.

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Clarice Lispector: “Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e agora sono”.

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Clarice Lispector, de novo: “Recuso-me a ser um fato consumado. Por enquanto sobrenado na preguiça”.

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François La Rochefoucauld: “Temos mais preguiça no espírito que no corpo”.

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Marquês de Maricá: “A paciência, em muitos caso, não é mais senão medo, preguiça ou impotência”.

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O povo (ditado popular): “A preguiça é muitas vezes confundida com paciência”.

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Francis Bacon: “Passar muito tempo a estudar é preguiça”.

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Mia Couto: “Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que a doença: é preciso entrar e sair dela”.

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Charles Bukowski: “Tudo que era mau me atraía: gostava de beber, era preguiçoso, não defendia nenhum deus, nenhuma opinião política, nenhuma ideia, nenhum ideal. Eu estava instalado no vazio, na inexistência, e aceitava isso. Tudo isso fazia de mim uma pessoa desinteressante. Mas eu não queria ser interessante, era muito difícil”.

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Bukowski, de novo: “Minha ambição é prejudicada pela minha preguiça”.

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Tati Bernardi: “O bom de ficar velho é que dá uma preguiça de sofrer”.

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Luc de Clapiers Vauvernagues: “Os preguiçosos têm sempre vontade de fazer alguma coisa”.

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Vauvenargues, de novo: “A indolência é o sonho do espírito”.

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O povo (ditado popular): “O diabo tenta o homem, e o ocioso tenta o diabo”.

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Sócrates: “Chamo de preguiçoso o homem que poderia estar melhor empregado”.

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Aviso na porta de um bar da Vila Madalena, em São Paulo: “Não abriremos hoje. Motivo: preguiça”.

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Jean de la Bruyere: “É por fraqueza que odiamos um inimigo e pensamos em nos vingar; é por preguiça que nos acalmamos, desistindo da vingança”.

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Artur Renzo (editor do Blog da Boitempo): “Pensei em fazer uma frase para acrescentar aqui, mas deu preguiça. Então vai um vídeo do Adoniran em um de seus melhores momentos captado pelo programa Radiola, da TV Cultura:”

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O povo (ditado popular): “A preguiça não lava a cabeça e, se a lava, não se penteia”.

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Miguel Unamuno: “A erudição é, em muitos casos, uma forma mal disfarçada de preguiça intelectual ou um ópio para adormecer as inquietações íntimas do espírito”.

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Samuel Taylor Coleridge: “O amor à indolência é universal, ou pouco menos”.

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O povo (ditado popular): “A preguiça caminha tão devagar que a pobreza em pouco tempo a alcança”.

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Charles Baudelaire: “A alma toma cá um banho aromatizado pela saudade e pelo desejo. É algo crepuscular, azulado e rosado, um sonho voluptuoso durante um eclipse”.

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O povo (ditado popular): “Preguiça não faz casa de sobrado”.

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Sébastien Roch Chamfort: “É de se desejar a preguiça dos maus e o silêncio dos tolos”.

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Alphonse Allais: “Um preguiçoso é um homem que não finge que trabalha”.

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Jaime Balmes: “O preguiçoso é um relógio sem corda”.

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O povo (ditado popular): “Não há domingo sem missa, nem segunda-feira sem preguiça”.

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Termino com a letra da música “Sossego”, de Tim Maia. Tem gente que considera essa música um hino e sonha com ela sendo tocada em datas cívicas, até com desfiles… Sugiro que a ouçam, é fácil baixar na internet. E imaginem a gente cantando isso como um hino!

Sossego

Ora bolas, não me amole
Com esse papo, de emprego.
Não está vendo, não estou nessa.
O que eu quero?
Sossego, eu quero sossego!

O que eu quero? Sossego!
O que eu quero? Sossego!
O que eu quero? Sossego!
O que eu quero? Sossego!

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Gostou? Clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.