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Edson Teles: Eu voto Dilma!

14.10.23_Edson Teles_Eu voto Dilma[Márcia Belarmina da Paixão, na ocupação Copa do Povo]

Por Edson Teles.

No dia 26 de outubro, mais de 130 milhões de brasileiros terão a obrigação de escolher o próximo governo do país. Ainda que seja obrigatório o voto no sistema político brasileiro, cerca de 40 milhões dos que são lançados neste passo formal da democracia simplesmente não escolheram nenhuma das opções em jogo no primeiro turno. Muitos desses votos são considerados inválidos, apesar de registrarem, no mínimo, um descompasso entre boa parte dos brasileiros e o sistema político partidário.

Dentre eles, foram quase 6% dos eleitores brasileiros que anularam seus votos. Estive neste grupo no primeiro turno. Não localizei entre as candidaturas programa partidário com proposição de transformação radical da desigualdade social e da posse fraudulenta das riquezas do país, de discussão das formas de decisão política e da lógica de governo reinante no Estado de Direito brasileiro e nenhuma contestação contundente da militarização da política e da construção de uma democracia de segurança, violenta e repressiva, como vista nos últimos dois anos.

Votei nulo não para me colocar fora da luta política enfrentada dentro das instituições do Estado e do âmbito da democracia representativa. Foi a tentativa de registrar um protesto não ao jogo político que está sendo disputado, mas à ausência de um projeto de transformação profunda da realidade brasileira. Se este jogo está em aberto é necessário agir também dentro de sua lógica de conflito. O governo do sofrimento social e a abertura de possibilidades outras de ação política são questões fundamentais das atuais eleições.

E hoje, às vésperas da votação do segundo turno, o jogo em andamento apresenta-se com outras regras, nas quais se coloca a opção entre dois campos de forças da luta política institucional extremamente opostos.

É por esta razão que declaro meu voto em Dilma Rousseff.

Deixar de tomar uma posição frente ao candidato da direita brasileira, simulacro de uma política liberal e de mudança, significaria para esta minha leitura do jogo em disputa deixar vencer a opção do completo bloqueio de qualquer possibilidade criativa ao agir político, via a institucionalização de um governo fascista.

Para ser breve nesta declaração, atentemos para suas proposições sobre a reforma do Código Penal e de defesa do aprofundamento da política de encarceramento em massa, já vigentes desde anos 70 e cujo alvo é a juventude negra e pobre das periferias, indicando um modelo violento e racista da candidatura tucana.

Esta forma de governo das populações pobres não é projeto exclusivo deste candidato, nem mesmo pertence a um partido ou outro, mas à uma lógica de governo da elite econômica e política cujo projeto é o de uma democracia de roupagem liberal, mas de ação de controle da política e das formas de vida que resistem ao modelo capitalista de sociedade. Contudo, a candidatura tucana seria a estratégia mais aberta de repressão aos movimentos sociais e de controle dos processos de produção de subjetividades, como registrados nas manifestações de junho de 2013, ou nas ocupações de espaços e imóveis abandonados ou sem uso social.

Só para ficar em um exemplo, quando o MTST ocupou o terreno batizado de Copa do Povo em São Paulo, no primeiro semestre de 2014, iniciou-se o processo político que terminaria com uma grande vitória dos movimentos sociais, por meio da negociação entre governo federal e ocupantes concordando com a construção de moradias populares naquele espaço. O modelo tucano, visto poucos anos antes, foi o da desocupação de Pinheirinho, com a violência desmedida da Polícia Militar mesmo diante de liminares da Justiça adiando a operação de despejo.

A aliança heterogênea da candidata Dilma apresenta contradições que abrem maiores campos e possibilidades de conflitos políticos dentro de uma lógica menos agressiva aos movimentos sociais e às reivindicações das minorias. Para combater o projeto autoritário de democracia que ganha terreno em nosso país, a candidatura do PT à presidência apresenta aos movimentos sociais e em luta uma brecha maior de construção de ações criativas de resistência e combate à militarização da política.

Voto em Dilma Rousseff não por acreditar que seu segundo governo resolverá os principais problemas nacionais. Voto em Dilma por uma estratégia de resistência em favor de uma democracia efetiva e radical. Derrotar o projeto fascista tucano é saber que o dia seguinte às urnas será mais um dia de luta.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Edson Teles é autor de um dos artigos que compõe a coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, que tem sua versão impressa vendida por R$10 e a versão eletrônica por apenas R$5 (disponível na Gato Sabido, Livraria da Travessa e outras).

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Albertina

14.10.22_Izaias Almada_Albertina

O colunista relata ter se emocionado com a reação da entrevistada ao ler o artigo para ela, que assim se expressou: “quer dizer que agora sou gente?”

Por Izaías Almada.

Albertina trabalha como diarista em algumas casas em São Paulo. “E com muito orgulho”, diz ela.

Albertina Rodrigues de Oliveira nasceu em Macaúba, interior do Piauí, próximo ao município de Floriano, em 1947, na fronteira com o Maranhão. Filha de Norberto José de Oliveira e de Maria Rodrigues de Oliveira.

Floriano, cidade às margens do rio Parnaíba, tem o nome em homenagem ao marechal Floriano Peixoto, militar nacionalista que governou o país em substituição a Deodoro da Fonseca dois anos após a Proclamação da República em 1889.

Albertina veio para São Paulo em 1978 depois de passar um ano em Fortaleza no Ceará. Seus pais, ainda vivos, o pai com 91 anos e a mãe com 88, tiveram nove filhos, dois já falecidos. Albertina é a filha mais velha.

Começou a trabalhar ainda novinha para ajudar os pais, mas ainda assim conseguiu estudar até o terceiro ano do Curso Normal. Alfabetizou-se no campo, na zona rural piauiense com a professora Maria Olívia, de quem nunca se esqueceu.

Sua infância foi difícil como a de qualquer criança nascida no interior do Piauí na primeira metade do século XX, trabalhando na roça e ajudando a criar os irmãos mais novos.

Quem já não ouviu histórias semelhantes?

Contudo, Albertina tem suas próprias histórias e suas particularidades. Tem histórias que só ela viveu, como cada um de nós.

Quando veio para São Paulo tomou um susto. Nos primeiros dias teve medo, vida extremamente penosa, agitada, quis voltar no primeiro ônibus, mas achou que seria covardia de sua parte. Resolveu ficar.

Católica, embora não acredite no inferno e nem no diabo. Para Albertina o inferno é aqui mesmo. E como disse o filósofo Jean-Paul Sartre, esse inferno são os outros.

Uma das histórias de Albertina aconteceu no ano de 1990 quando foi visitar os pais, após uns bons anos sem vê-los. Conheceu Luiz Inácio Lula da Silva em Floriano e ficou encantada e ao mesmo tempo assustada com todas aquelas bandeiras vermelhas. As coisas que ouvia dizer do PT assustavam-na e, naquela época, costumava votar no PMDB.

Na ocasião ouviu do pai, homem de poucas palavras, uma espécie de vaticínio sobre Lula: “nessa eleição ele não entrou, mas entrará em duas seguidas… Esse homem vai dar certo”.

Até hoje o pai de Albertina, com seus 91 anos de idade, não admite que se fale mal de Lula. Em época de eleições, pede para o levarem de Macaúba até Floriano para poder votar no PT.

Emotiva, Albertina diz que se encantou com Lula quando soube de sua atitude em pedir para ir ao enterro da mãe quando esteve preso.

Quando veio para São Paulo Albertina conheceu Bernadette Figueiredo com quem trabalha até hoje. Bernadette explicou-lhe muitas coisas sobre o Partido dos Trabalhadores e hoje vota no PT e defende com bastante convicção os governos de Lula e Dilma, sobretudo pelo que viu acontecer no nordeste e no seu Piauí.

É testemunha viva dessa mudança e cita os programas Luz para Todos e Bolsa Família, entre outros, como programas que estão redimindo o nordeste e boa parte do povo brasileiro.

“Dilma continuou o programa de Lula e fez ainda melhor”, diz Albertina.

E sobre as declarações do sociólogo FHC a respeito da votação de Dilma no nordeste?, perguntei a Albertina.

“Erro de avaliação”, respondeu… “Ele é que está desinformado sobre o nordeste e sobre o Brasil”

E arrematou: “Vou votar na Dilma domingo porque, além de tudo, é uma pessoa inteligente. Sabe explicar tudo direitinho para as pessoas mais simples. Com ela o país tem melhorado e vai melhorar ainda mais”.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Dois Brasis?

14.10.22_Emir Sader_Dois Brasis_

Detalhe da capa de “Os dois Brasis”, de Jacques Lambert (Col. Brasiliana n° 335, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 5a. ed., 1969)

Por Emir Sader.

Era o titulo de um livro de muito apelo de um economista francês – Jacques Lambert. Era o resgate da modernidade do centro-sul e do sul contra o atraso e a miséria do nordeste. Era o Brasil europeu contra o Brasil africano.

Era uma foto, mas pretendia ser um diagnostico. A imigração nordestina para São Paulo era o resgate generoso da civilização em relação aos famintos, aos miseráveis, aos paus-de-arara.

A direita brasileira, ainda mais tendo São Paulo como sua cabeça, sempre agiu como se fosse a portadora da civilização contra a barbárie. Como uma espécie de Israel cercado de povos incultos, miseráveis, violentos, que se movem pelos instintos, enquanto eles personificariam a razão.

O futuro seria dado pela expansão do polo moderno, industrializado, urbanizado, que iria absorvendo, isolando, derrotando ao polo do atraso, do mundo rural, agrícola. A pujança de São Paulo e sua liderança nacional estaria dada por essa função dinamizadora e modernizadora do pais. “São Paulo é a cidade que mais cresce no mundo: 4 casas por hora.” “São Paulo não pode parar.” Esses lemas, correntes nos anos 1950, eram a atualização dos “ideais de 1932”. Da São Paulo vanguarda do Brasil, que trazia a modernidade do primeiro mundo para o terceiro.

Sabe-se no que deu essa São Paulo que construía 4 casas por hora: naquela que tem mil carros por dia entrando no trânsito, tornando a vida na cidade insustentável. Tornando São Paulo uma cidade desumana, desigual, cruel, que precisa, de forma urgente e prolongada, de políticas que a humanizem de novo.

Na campanha eleitoral atual, analistas levantam de novo a tese de que haveriam dois Brasis: um em torno da modernidade e do progresso, em torno da “rica” e “bem informada” São Paulo, o outro em torno da “atrasada”, pobre e “mal informada”, do nordeste. Se ganhar o primeiro Brasil, voltaríamos à integração subordinada ao centro do capitalismo, como periferia subordinada. Se continuasse a triunfar o segundo, continuaríamos a orbitar em torno do Sul do mundo e da América Latina.

O país estaria dividido, quem quer que ganhe. A diferença essencial é que se triunfar o candidato da elite paulista, promoveria um brutal processo de exclusão social como o Brasil nunca viu, porque com os governos do PT a massa pobre da população conquistou direitos que nunca tinha tido. Será necessário um gigantesco processo de exclusão social para despojá-la, pela força desses avanços. Seria a opressão de um dos Brasis sobre o outro. Seria o aprofundamento da fratura social que sempre caracterizou o nosso país.

Enquanto que o outro projeto vai na direção oposta, a da integração dos “dois Brasis”, pela diminuição das desigualdades sociais. Essa a grande disputa desta eleição: a continuidade do Brasil que integra contra o retorno do Brasil que desintegra.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

As eleições presidenciais e os cenários da política brasileira

14.10.21_Carlos Eduardo Martins_As eleições presidenciais e os cenários da política brasileiraPor Carlos Eduardo Martins.

O segundo turno da política presidencial no Brasil coloca frente a frente dois projetos: o neoliberal, liderado pelo PSDB e representado na candidatura de Aécio Neves; e o de uma centro-esquerda, a la terceira via, que ensaia as bases de um capitalismo de Estado, liderado pelo PT e pela candidatura de Dilma Rousseff. Se o caráter extremamente disputado desta eleição sinaliza para um esgotamento da hegemonia do projeto petista, tal como ele aqui foi elaborado, uma eventual vitória de Aécio Neves representará uma drástica regressão nas conquistas alcançadas nos últimos anos, entre elas, a projeção que o Brasil alcançou no cenário internacional.

O esgotamento da hegemonia petista está vinculado à presença que o capital financeiro continua a exercer sobre o Estado brasileiro, comprometendo com juros e amortizações mais de 40% do orçamento público federal. Ainda que os governos Lula e Dilma tenham reduzido dramaticamente as taxas de juros reais na economia frente às do período de Fernando Henrique Cardoso, elas permanecem acima das taxas de crescimento do PIB, mantendo o pagamento de juros na faixa de 5% do PIB. Tal comprometimento limita os recursos investidos em saúde, educação, transporte e infraestrutura pública – um dos motivos dos protestos de junho de 2013, que reivindicavam qualidade nos serviços públicos e que derrubaram a popularidade da Presidenta Dilma da faixa dos 70% para a dos 30-40%. Assim, as pesquisas para as eleições presidenciais apontam que enquanto Dilma vence com folga na faixa de renda familiar de 1 até 2 salários mínimos, onde os programas de renda mínima, como o Bolsa Família, atuam com força, na faixa de 2 a 5 salários mínimos perde a liderança para Aécio por 54% a 46%.

Embalando a candidatura de Aécio Neves está uma pretensa ofensiva ideológica midiática da direita contra a corrupção que se aproveita da queda de popularidade de Dilma, para atribuí-la aos governos petistas, propondo difusamente uma nova política que Marina se propôs a representar e que lança desconfiança aos partidos políticos tradicionais, pretendendo estabelecer uma reforma que viabilize candidaturas avulsas e independentes. O apoio de Marina a Aécio no segundo turno, candidato cuja carreira precoce associou-se aos laços familiares com velhos políticos tradicionais, enfatiza o caráter altamente retórico desta proposição. A ofensiva ideológica da direita conta com pouquíssima sustentação empírica, se compararmos as práticas políticas do PT com as dos partidos de direita. Ilustrativo a este respeito é o ranking de corrupção comprovada fornecido pelo MCCE, onde o PT ocupa a 9ª posição com 2,9% dos políticos cassados, enquanto o DEM e o PSDB ocupam a 1ª e 3ª posição, respectivamente, com 20,4% e 17,1% das cassações.

Dois caminhos para a direita

Uma eventual vitória de Aécio Neves colocaria duas possibilidades de projeto de governo para a direita neoliberal. A primeira e mais provável, uma versão de governo similar ao de Fernando Henrique Cardoso. Se deslancharia uma nova onda de privatizações cujo alvo principal é a Petrobrás. Durante a gestão de FHC se vendeu 30,7% das ações da empresa na bolsa de Nova York e 8% estão nas mãos de investidores estrangeiros no Brasil, o que leva a empresa remeter 40 % dos seus lucros para o exterior. Hoje a União possui apenas 55% do capital votante da Petrobrás. A perda do controle acionário da União implicaria a transferência ao exterior com fortes repercussões sobre o Pré-Sal, cuja alienação se completaria com o cancelamento do modelo de partilha, através do qual o Estado brasileiro exerce controle majoritário sobre as decisões de investimento. A onda de privatizações poderia se desdobrar dos bancos estaduais (privatizados na gestão de FHC) para os federais, e se reduziria drasticamente o papel do credito público através do BNDES. Estabelecer-se-ia uma política monetária de elevação das taxas de juros com fortes pressões fiscais, que implicariam na contenção salarial do funcionalismo público, das aposentadorias, do valor do salário mínimo e dos programas sociais. No plano da política externa se praticaria o alinhamento aos Estados Unidos, desmontando-se a política em bloco do Mercosul, principalmente com a entrada da Venezuela, baixando-se o perfil da UNASUL e dos BRICS. Os efeitos sobre o tabuleiro político da região seriam notórios, particularmente sobre a Venezuela que enfrenta grave situação de crise cambial e encontra no Brasil um aliado com poderosas reservas internacionais, respaldadas pela arquitetura financeira de um BRICS em construção. A aplicação deste receituário de políticas públicas provocaria uma forte explosão social no país, de impactos imprevisíveis.

Outra possibilidade para a direita, que é improvável – pelo perfil dos integrantes de uma futura equipe de um governo Aécio Neves, fortemente ligados ao rentismo (como Armínio Fraga) –, mas teoricamente possível, é uma política de redução das taxas de juros que se combine às demais anteriormente apresentadas. Da mesma forma que o PT usou a sua presença junto aos movimentos sociais para conter suas reivindicações, o PSDB poderia utilizar sua presença junto ao empresariado para fazer o mesmo, limitando o rentismo em troca de privatizações e da entrega da soberania brasileira sobre recursos estratégicos, em particular o Pré-sal. Neste caso, poder-se-ia manter os recursos para os programas sociais e até ampliá-los, colocando em risco a base política conquistada pelo PT entre os segmentos de 1 a 2 salários mínimos, que poderiam fluir para o PSDB, trazendo novamente o Nordeste para a direita. Tal cenário seria extremamente negativo para as esquerdas, que isoladas socialmente, ofereceriam pouca resistência à entrega de empresas e reservas estratégicas da economia brasileira. O Brasil se converteria num polo de atração conservadora na América do Sul, desestabilizando o equilíbrio de forças na região e isolando as experiências de capitalismo de Estado de base popular que prosperam em nosso continente.

Dois caminhos para a esquerda

Para o PT, a vitória de Dilma colocaria dois cenários. Caso se mantenham as políticas públicas vigentes, o cenário provável é de desgaste crescente, abrindo o espaço para a crise de governabilidade com a eleição de um congresso conservador e com o desprendimento de parte da base aliada, o que pode se aprofundar durante o mandato. Outra possibilidade é que o PT rompa com a hegemonia do capital financeiro sobre o Estado, baixando significativamente as taxas de juros reais, para um patamar inferior ao crescimento da economia. Tal alternativa permitiria ao governo Dilma impulsionar políticas sociais estruturais, elevando os investimentos em saúde e educação, transporte e infraestrutura, permitindo-lhe recuperar o apoio perdido nos segmentos de renda familiar de 2 a 5 salários mínimos e mesmo nos de 5 a 10 salários mínimos. Tal iniciativa permitiria retomar o dinamismo da economia em parte bloqueado pelos limites que a superexploração do trabalho – que constitui ainda a base da economia brasileira – coloca para o processo redistributivo. Ao reduzir o peso dos juros sobre os investimentos produtivos se poderia retomar um ciclo de acumulação com resultados políticos promissores a médio prazo, viabilizando uma forte elevação do nível de organização dos trabalhadores brasileiros.

Para fazer frente à hegemonia petista, a esquerda brasileira terá antes que superar seu enorme grau de atomismo, unificando candidaturas em torno de programas, mais que em torno de partidos, e fazer políticas defensivas anti-neoliberais, quando da impossibilidade de implementar uma agenda ofensiva. Do contrário continuará encastelada fora da história e da agenda de nosso povo

Nos próximos dias saberemos quais alternativas estão à frente no Brasil nos próximos anos.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Michael Löwy, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Um livro com o tupi nosso de cada dia

Mouzar ConvitePor Mouzar Benedito.

Por que você está na pindaíba?

Pode ser porque está desempregado, não? Ou porque tem emprego mas o salário é baixo. Ou porque estourou o cartão de crédito e paga juros muito altos, não sobra dinheiro pra nada. Ou porque o aluguel aumentou demais, o salário não acompanhou. Se é aposentado, então, pior ainda.

Mas os índios de língua tupi há séculos já podiam ficar na pindaíba, sem esses motivos.

É que pindá, em tupi, significa anzol. Iba, significa ruim. Então, pindaíba quer dizer anzol ruim. E nos povos que viviam em grande parte da pesca, anzol ruim é mesmo de deixar a pessoa sem ter o que comer.

Pindaíba é um dos mais de oitocentos e trinta verbetes do livro Paca, Tatu, Cutia! – Glossário ilustrado de Tupi, que escrevi em parceria com o Ohi (textos meus, ilustrações dele) e que acaba de ser publicado pela Editora Melhoramentos.

Não é um “dicionário”, pois não tem aquelas formalidades necessárias para isso, nem a estrutura de um dicionário. E em muitos dos verbetes conto alguma historinha relacionada a eles. Tem um pouco de informações históricas e humor.

Por exemplo: jabá. Não o jabá com sentido de propina que alguns artistas pagavam (ou pagam) para tocar suas músicas nos rádios. Esse tipo de jabá, índio não conhecia.

Mas também, originalmente, essa palavra não era sinônimo de carne seca. Jabá, em tupi, é fuga, fugir, fugitivo.

Antes de trazer escravos africanos para o Brasil (e depois também), os portugueses escravizaram índios. Mas quem é que gosta de ser escravo? Eles fugiam, e eram muito perseguidos para serem recapturados. Durante a fuga precisavam comer, mas não podiam parar para caçar, então levavam carne seca. Assim, a carne que se levava na fuga passou a ser chamada de jabá.

Deve ter alguém imaginando: então Jabaquara, nome de um bairro de São Paulo e outro de Santos, tem algo a ver com isso?

Tem. Quara é um sufixo tupi que significa refúgio, entre outras coisas. Então, Jabaquara significa “refúgio dos fugitivos”. É o mesmo que quilombo do idioma quimbundo. O Quilombo do Jabaquara (curioso, não? Falar quilombo do Jabaquara equivale a dizer “quilombo do quilombo”) de Santos era muito famoso, abrigou escravos fugitivos até à libertação dos escravos, em 1888.

Nomes que descrevem animais

Uma curiosidade da língua tupi é que os nomes que os seus falantes deram aos animais de certa forma falam de alguma característica deles. Por exemplo, jacaré significa “o que olha de lado”.

Você já viu uma cutia comendo uma espiga de milho? Ela pega a espiga com as patas dianteiras e fica de pé sobre as patas traseiras. Por isso, ganhou o nome cutia, que significa “o que come de pé”.

Paca significa esperta, ágil. Caçadores desse bichinho montavam armadilhas e tinham que ficar um tempão esperando escondidos, para pegar a danada. Daí surgiu o verbo paquerar, que hoje usamos para uma atividade mais agradável e mais ecológica, não é? Nada de matar animais silvestres.

Entre as aves, tem o jacu, que é desconfiado, cauteloso. Esse é o significado dessa palavra. E como roceiro, caipira, costuma ser também desconfiado e cauteloso, tem quem o chame de jacu, também.

Por falar em caipira, está aí outra palavra tupi. Tem quem a traduza por desconfiado ou tímido, mas seu significado literal é “morador do mato”. Mas que não se pense que caipira é imbecil. A palavra é usada de forma preconceituosa, mas o caipira tem uma cultura muito rica, e seu jeito de falar tem motivos históricos (ver embaixo: “Nheengatu e língua geral paulista”).

No Nordeste, em vez de caipira, falam – também preconceituosamente – tabaréu, que é “morador da taba”.

Cidades, rios, montanhas…

Em todos os estados brasileiros existem cidades com nomes de origem tupi, mesmo naqueles em que não se falava tupi. É que bandeirantes falavam tupi (ou melhor, a “língua geral paulista”) e jesuítas usavam esse idioma para se comunicar com os índios em geral e “criaram” uma língua a partir dos vários dialetos tupis. Então, tanto bandeirantes como os religiosos usavam o tupi para nomear rios, povoados etc.

No estado de São Paulo, base dos bandeirantes, há uma profusão de nomes tupis nas cidades. Alguns muito curiosos. Por exemplo: Pindamonhangaba e Itaquaquecetuba. Quem tem curiosidade por nomes deve saber que Pindamonhangaba é “lugar onde os homens fazem anzóis”, quer dizer, fábrica de anzol. Quicé é um tipo de taquara muito cortante, como faca. Tuba é coletivo, lugar que tem muito de alguma coisa. Taquaquicetuba, que depois virou Itaquaquecetuba, é lugar que tem muitas taquaras cortantes, do tipo quicé.

Bauru, ao contrário do que muita gente pensa, não tem nada a ver com sanduíche. É cesto de frutas. Poá é mão aberta. Itu é salto, cachoeira. Ituverava é cachoeira brilhante.

Alguns nomes de cidades podem até parecer “bíblicos”, mas são tupis. É o caso de Jacobina, na Bahia. Não parece algo relacionado a algum Jacó? Pois ele vem de já cuã apina, que quer dizer cascalho limpo, jazida de cascalho. O primeiro ouro que os portugueses garimparam no Brasil foi nessa jazida de cascalho, em 1718.

Os rios com nomes tupis são muitos. Paraguai, por exemplo, é rio dos papagaios, e Tocantins é nariz de tucano.

E as montanhas: quer nome mais bonito do que Mantiqueira (“chuva gotejante” ou “chuva contínua”)? No Nordeste tem a Chapada do Araripe, um lugar alto. Araripe é “sobre o mundo”.

Bom, há muita coisa que a gente fala pensando que está falando português, mas na verdade é tupi… ou português do Brasil. Pense em algumas palavras do nosso cotidiano: pereba, tapera, peteca, mingau, pamonha, guri, sapeca, carioca, maloca, pipoca…

Ah, quem é profissional do futebol sonha jogar no Morumbi, Itaquera, Pacaembu, Maracanã… tudo nome tupi.

E nome de gente? Moacir, Jaci, Moema… Vou contar o significado de apenas um: Araci é aurora, mãe do dia. Se uma mulher se chamar Aurora e outra Araci, elas são xarás. Epa! Por falar nisso, xará é uma palavra tupi, significa “o que tem o mesmo nome”.

Enfim, acho, modéstia à parte, que este é um livro que pode ser lido com prazer por adultos e por crianças. E está muito bem produzido, bonito. Convido a todos para o lançamento que será no dia 25 de outubro (sábado), das 16h às 19h, na Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena – São Paulo.

Quem preferir, pode acrescentar algo mais: vá à Festa do Saci, em São Luiz do Paraitinga. No sábado, dia 1o de novembro, haverá um seminário sobre cultura caipira a partir das 10h da manhã, e logo depois (a partir do meio-dia), no mesmo local faremos o lançamento. Vai ser no Centro Turístico e Cultural Nelsinho Rodrigues, na Rua Cel. Domingues de Castro, 33, no centro da cidade.

A vantagem de comprar no lançamento é que o Ohi vai além de dar um simples autógrafo: ele faz um desenho na hora.

Nheengatu e língua geral paulista

Os jesuítas queriam catequizar os povos indígenas e perceberam que quase todos os povos da faixa litorânea falavam dialetos de uma mesma língua, mas não tinham escrita, era uma língua exclusivamente oral. .

Resolveram então “unificar” esses dialetos e criar uma escrita para eles. Em São Paulo, chamaram de “língua geral paulista” e no norte “nheengatu”, que significa língua boa ou falar bem. Mas são línguas bem parecidas e costuma-se usar nheengatu também para o que se falava em São Paulo.

Em São Paulo e sua área de expansão só se falava a língua geral paulista. Depois da guerra em que os exércitos de Portugal e Espanha se uniram para combater os Guarani, apoiados pelos jesuítas, o Marquês de Pombal resolveu expulsar os jesuítas do Brasil e determinou que só se falasse português aqui. Isso foi em 1758. Mas não se muda de língua de um dia para o outro. As escolas passaram a usar só a língua portuguesa e todos os documentos tinham que ser escritos em português.

Demorou muito para assimilar o português, e muitos dos brasileiros do atual Sudeste preservaram o modo de falar nheengatu. No tupi não existe, por exemplo, a pronúncia L nem LH, que acabam virando R na pronúncia caipira (esse pessoal que resistiu ao “sotaque” português). Então, trabalho vira trabaio, por exemplo. Mulher é muié. E no tupi/nheengatu não existe R no final dos verbos, e isso foi mantido no “dialeto caipira”. Falamos fazê, trabaiá, coçá, brincá…

Mas não é só isso. Existem mais diferenças de pronúncia, presentes no nosso linguajar. Vale a pena estudar um pouco disso. Nosso livro é um começo, para os curiosos.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Maria Rita Kehl: Voto contra o retrocesso

14.10.16_Maria Rita Kehl_Voto contra o retrocessoPor Maria Rita Kehl*.

A presidenta Dilma Rousseff criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Em maio de 2012, a primeira presidenta do Brasil, ex-presa política torturada, conseguiu aprovar no Congresso a criação da CNV. Entre os países latino-americanos que sofreram ditaduras, fomos o último a criar uma comissão da verdade.

Antes tarde do que nunca. Ainda que os militares remanescentes do estado de exceção não cooperem com nossas investigações. Ainda que adeptos da linha-dura, hoje na reserva, recusem “colaborar com o inimigo” (todos nós) –e não revelem o paradeiro dos cerca de 150 desaparecidos políticos (sem contar indígenas e camponeses).

Ainda assim, o trabalho da CNV representa um avanço efetivo na consolidação da nossa democracia.

Avanço que exige, ainda, a erradicação da continuada prática de violência de agentes do Estado contra cidadãos detidos. A presidenta criou o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que começará a atuar para coibir os maus tratos a pessoas detidas em presídios, delegacias e hospitais psiquiátricos.

Nosso atraso em termos de direitos humanos, além de envergonhar o país, multiplica a insegurança na sociedade inteira. Já se comprovou que a violência da criminalidade no Brasil é diretamente proporcional à violência das PMs e de outros agentes de segurança contra os cidadãos.

Voto em Dilma Rousseff porque tenho vergonha de nossa desigualdade social. Nunca compreendi como se podia viver com tranquilidade em um país rico onde parte da população passava fome. Problema que, aliás, foi reconhecido como extinto em função dos programas sociais dos governos Lula e Dilma. Iniciados por FHC, sim, mas por que, então, eleitores do PSDB ainda desqualificam o programa Bolsa Família como “Bolsa Esmola”?

Não faltam notícias sobre municípios onde a entrada dessa renda mínima impulsionou a economia local nem sobre cidadãos que cancelaram sua inscrição para recebimento da bolsa tão logo conseguiram ganhar o suficiente para seu sustento.

Depois das gestões Lula e Dilma, a vulnerabilidade dos mais pobres diminuiu em função da expansão de seus direitos. Voto pela continuação do Bolsa Família, do programa Luz para Todos, do Minha Casa, Minha Vida, maior programa de habitação popular já criado no Brasil. Voto também por uma política econômica que, em tempo de crise do capitalismo internacional, preservou o valor dos salários e o pleno emprego.

Os governos de Lula e de Dilma impulsionaram o acesso dos jovens às universidades no país e no exterior. Proporcionaram atendimento médico gratuito em cidades afastadas dos grandes centros.

Suponho que a maioria da classe médica tenha se envergonhado das vaias contra os cubanos contratados com transparência pelo Ministério da Saúde. Afinal, os brasileiros sempre acharam chique a importação de tecnologia. Ninguém vaiou a participação da Alstom, hoje suspeita de corrupção, nas obras de ampliação do Metrô de São Paulo.

Por fim, voto em Dilma pela continuação do combate à corrupção em todos os níveis, inclusive os que atingem setores de seu governo. Desde o governo Lula, a Polícia Federal investiga com transparência crimes de colarinho branco, sem poupar autoridades, empresários e ministros. Melhor o risco de penas injustas, como no caso de alguns mensaleiros, do que a impunidade.

Do outro lado: onde foram parar as investigações de corrupção no Metrô paulista, no mensalão mineiro, as denúncias sobre o aeroporto de Cláudio e o helicóptero da família Perrella que transportava cocaína?

Por que os paulistas não foram informados, até a reeleição do governador Alckmin, da calamidade pública na gestão da água que, desde 2012, era mantida em segredo entre governo e acionistas da Sabesp?

Sei que a erradicação da corrupção depende da independência dos meios de comunicação. Voto na candidata que não tem a grande mídia a seu favor.

* Publicado originalmente na Folha de S.Paulo de 16/10/2014.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora esporadicamente para o Blog da Boitempo esporadicamente.

O Brasil visto de Berlim

14.10.16_Flávio Aguiar_O Brasil visto de BerlimPor Flávio Aguiar.

É difícil, é difícil, é difícil.

Há uma esquerda no Brasil – uma, porque há várias, e um dos problemas das esquerdas no Brasil e no mundo é o de que cada facção acha que só ela é a “autêntica” – que teima em dizer que o PT e seu governo não são “esquerda”, são “direita disfarçada”.

Há quem diga até que o PT e seu governo (Dilma) cooptam os mais pobres para neutralizar os “verdadeiros interesses” da classe trabalhadora. Quem fala por estes “verdadeiros interesses”? A vanguarda, claro. Jamais “a classe trabalhadora”, para aquela uma abstração subsumida ao seu discurso.

No momento, há uma disputa real sim no Brasil. Não é só entre um projeto e outro, embora seja claro que isto exista. É entre voltar a achincalhar os miseráveis e os ex-miseráveis que conseguiram melhorar um pouco seu nível de vida, ou melhorá-lo ainda mais.

É entre melhorar o salário das pessoas ou piorá-lo. Entre possibilitar o acesso à educação a mais ou a menos pessoas.

Entre manter os vínculos do Brasil com a política de aproximação Sul – Sul ou retocá-lo para o aprisco Ocidental da reedição da Guerra Fria que está em curso.

É disto que se trata, não de provar esta ou aquela teoria. Ou de aquele grupinho tem razão sobre o outro.

Leio muita coisa sobre o Brasil escrita no Brasil, e fora dele. Às vêzes me espanta como ambos os lados da escrita ignoram o que se passa no mundo.

A direita faz um carnaval na Europa. Deita e rola, seja na extrema, na médio ou na centro-direita. As esquerdas estão prostradas. Os partidos social-democratas e socialistas rendidos. As escolas de economia só ensinam a ortodoxia. Aqui na Europa só impera o pensamento único, que é o do PSDB no Brasil. A débâcle das esquerdas é mundial. As esquerdas ainda não se recuperaram das pedras do Muro de Berlim que lhes caíram pelas cabeças. Com exceção, vagarosa, mas exceção, da América Latina. E do Brasil.

Mas tem gente que quer que o Brasil seja uma ilha neste oceano de desventuras. Ou seja, que sobrenade por si só, realizando o socialismo de imediato – amanhã já seria depois demais. É o mesmo pensamento, com outros signos, de quem quer que o Brasil se transforme numa ilha verde – na verdade um parque de diversões para ongues ecológicas – em meio à turbulência das emissões de carbono em escala global. O verde é desimportante? Claro que não. O Brasil precisa de um Partido Verde de Verdade. Não estes puxadinhos biocapitalistas em que o PV e a candidatura malograda de Marina se transformaram.

Mal comparando, penso em mim se eu estivesse na Batalha de Stalingrado. Eu poderia me levantar na trincheira e gritar: sou um pacifista, proponho que deponhamos todos as armas e instalemos um soviete internacional entre russos e alemães. Ou ainda eu poderia propor: não, façamos um seminário acadêmico na trincheira 17 sobre a traição mútua à luta de classes representada pela falácia nazista e a cooptação stalinista. Sou um pacifista? Sim, e entusiasmado. Mas…

Tudo bem: eu não estava na batalha de Stalingrado.

Mas estou na do Brasil, de 2014.

E lá como aqui, há o momento de deixar as dúvidas de lado e partir para – agora – o voto.

Não se trata de esquecer as dúvidas, nem as críticas. Pelo contrário. Elas voltarão ao proscênio.

A seu tempo.

O momento agora é de votar.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O sexto turno

14.10.15_Mauro Iasi_O sexto turnoPor Mauro Iasi. 

“Os presidentes são eleitos pela televisão, como sabonetes,
e os poetas cumprem função decorativa. Não há maior magia
que a magia do mercado, nem heróis maiores que os banqueiros.
A democracia é um luxo do Norte. Ao Sul é permitido o espetáculo”.
Eduardo Galeano, O livro dos abraços

Uma vez mais o jogo previsível encontra seu desfecho esperado. Circunscrita pelo poder econômico e midiático, as candidaturas da ordem se encontrarão, mais uma vez, em um segundo turno. Um dos elementos de garantia da ordem pode ser encontrado nos mecanismos de segurança que limita as alternativas e depois as apresenta como liberdade de escolha.

No campo político isso foi descrito por Gramsci como “americanismo” e se expressa classicamente na alternância entre um Partido Democrático e outro Republicano nos EUA, num jogo de imagens no qual nem um é democrático, nem o outro é de fato republicano. Ao sul do equador tal fenômeno pode ser visto historicamente na suposta alternância entre liberais e conservadores, na maldição já descrita na expressão “nada mais conservador que um liberal no poder”, ou na famosa ironia de que no ato de posse o programa conservador é transferido para o partido de oposição, que entrega o programa liberal para quem sai do governo.

Carlos Nelson Coutinho costuma chamar a versão brasileira desta “democracia” de americanalhamento. A expressão parece pertinente.

A instituição do segundo turno no Brasil tem servido a este propósito. No sistema norte americano todo mundo pode ser candidato, mas os filtros vão se dando nas eleições dos convencionais (que de fato elegem o presidente numa eleição indireta e absurdamente antidemocrática), até que só chegam à disputa de fato os dois partidos oficiais citados. No Brasil não é necessário tal engenharia política. Os filtros de segurança começam pelas clausulas de barreira que impedem a organização partidária, depois a legislação eleitoral absolutamente desigual e inconstitucional (mas isso nunca foi problema em nosso país segundo o TSE), passa pelo financiamento privado de campanha e chega na cobertura desigual da imprensa monopólica.

Não podemos esquecer o mecanismo que decide o voto antes da eleição pelo controle dos cofres públicos, dos governos estaduais, prefeituras e cabos eleitorais numa verdadeira chantagem de verbas, financiamentos e facilidades que controlam regiões inteiras sem a necessidade de uma único debate de programas ou ideias.

Como diz Galeano no texto que nos serve de epígrafe, a democracia é um luxo reservado ao Norte, ao Sul cabe o espetáculo que não é negado a ninguém, afinal, diz o autor uruguaio, “ninguém se incomoda muito, que a política seja democrática, desde que a economia não o seja”. Quando as urnas se fecham, prevalece a lei do mais forte, a lei do dinheiro.

Mas, é essencial ao espetáculo que você sinta a sensação de estar decidindo. É neste campo que se inscreve o chamado voto útil.

A máquina eleitoral burguesa não pode impedir movimentos de opinião, que se expressam no primeiro turno e, mesmo, no segundo. É perfeitamente compreensível que muitas pessoas pensem na lógica do mal menor, numa análise comparativa entre as alternativas que restaram. Como sempre há diferenças entre elas, convencionou-se que a esquerda deve votar no mais progressista e evitar o risco da direita.

Analisemos mais detidamente as alternativas que o poder econômico, a legislação restritiva e os meios de comunicação monopolizados selecionaram.

De um lado Aécio Neves do PSDB, legenda conhecida pelos mandatos de FHC e do próprio político mineiro em seu estado, assim como a longa dinastia paulista. Neste caso não há dúvida sobre seu programa conservador, seu compromisso com o mercado e os grandes grupos monopolistas, sua lógica privatista e sua subserviência ao imperialismo. Trata-se de uma legenda que nada tem de social democrata e tornou-se o centro aglutinador da direita representada na aliança com o DEM, o PPS e outras que compuseram sua base de governabilidade quando no governo, como o sempre presente PMDB, PTB e outros.

De outro, o PT, partido que tem sua origem nos movimentos sociais e sindicais dos anos 1970 e 1980, e que chegou à presidência em 2002 com a eleição de Lula para aderir ao pacto e ao presidencialismo de coalizão tornando-se o centro de um bloco do qual participam o PCdoB e o PSB, garantindo sua governabilidade com o PMDB, o PTB, PP, PSC, e outras siglas no mercado do fisiologismo político próprio do americanalhamento citado. Difere do PSDB na medida em que defende uma maior presença do Estado para garantir a economia de mercado, sustentando seu pacto de classes através de medidas de cooptação e apassivamento, tais como a garantia do nível de emprego e políticas sociais focalizadas e compensatórias de combate aos efeitos mais agudos da miséria absoluta.

A mera comparação justifica a tendência do voto em Dilma de grande parte dos que temem um governo do PSDB como expressão mais clara da política conservadora.

Coloquemos, entretanto, as coisas numa perspectiva histórica. Este não é um mero segundo turno, é o sexto turno. É a terceira vez que tal situação se apresenta. Nas duas primeiras, em 2006 e 2010, o PCB, por exemplo, indicou o voto crítico no candidato do PT, ou priorizou o combate à direita no momento eleitoral, ainda que sempre se mantendo na oposição. Não seria o caso agora?

Lembremos quais os discursos que acompanharam este processo. Quando da passagem para o segundo mandato do Lula o discurso é que o primeiro mandato havia sido para acertar a casa, mas agora viria uma guinada em favor das demandas populares, o governo Lula estaria em disputa. Quando da passagem para o mandato de Dilma o discurso é que, agora viria a guinada na forma de uma opção pelo mítico “neodesenvolvimentismo”.

No entanto, o que vimos nas duas oportunidades não foi uma reversão do rumo do pacto social e das medidas conservadoras, pelo contrário. O fato é que cada governo subsequente foi sendo mais à direita que o anterior. Os governos eleitos para “evitar a volta da direita”, a perda de direitos para os trabalhadores, o aprofundamento das privatizações, a criminalização dos movimentos sociais, o abandono da reforma agrária, acabaram por impor um crescimento das privatizações, uma precarização do trabalho, o ataque aos direitos dos trabalhadores (eufemisticamente chamado de “flexibilização”) e o aprofundamento da criminalização dos movimentos sociais. Reforma da previdência, privatização do campo de Libra, imposição da EBSERH, rendição do Plano Nacional de Educação à lógica dos empresários e do sistema S, prioridade para o agronegócio, a farra da Copa, as remoções, o aumento da violência urbana e a política genocida das polícias militares contra a população jovem, pobre e negra, a não demarcação das terras indígenas, as concessões ao fundamentalismo religioso que impede a legalização do aborto, a criminalização da homofobia…

Talvez a área mais emblemática seja a luta pela terra. Não apenas reduz-se a cada mandato o número de famílias assentadas, como cada vez mais assentamentos são abandonados à sua própria sorte, e os pequenos produtores considerados “economicamente irrelevantes” (nas palavras de um representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário em resposta às demandas do MPA). Ao mesmo tempo dirige-se toda a política agrária para a prioridade ao agronegócio, tornando aliado central na governabilidade e na direção da política econômica, como mostram os apoios, ainda no primeiro turno, de Kátia Abreu e Eraí Maggi (o rei da soja).

Algo estranho ocorre por aqui. Primeiro, trata-se de fazer reformas possíveis no lugar da revolução necessária. Para tanto, um pacto social que leva o governo, que deveria ser reformista de esquerda, para um perfil de centro-esquerda – ou nos termos de André Singer, de um reformismo de alta intensidade apoiado na classe trabalhadora para um reformismo de baixa intensidade apoiado nas camadas mais pobres. Em seguida trata-se de tomar medidas de um governo de centro-direita para enfrentar a crise do capital com massivas doses de apoio ao capital por parte do Estado para garantir a manutenção de um crescimento com emprego e geração de renda. E agora uma clara composição de direita apoiada nos grandes bancos, nos setores monopolistas, nas empreiteiras, no agronegócio, numa situação parlamentar ainda mais conservadora que empurrará qualquer governo eleito para posição ainda mais conservadoras para realizar os “ajustes necessários” para enfrentar a crise que já se apresenta no horizonte.

O que é forçoso constatar é que a política do acumulo de forças não acumulou forças. Pelo contrario, desarmou a classe trabalhadora e abriu espaço para o crescimento da direita. O que era uma estratégia para evitar a direita pode ter se tornado o caminho pelo qual pôde se garantir sua “volta”. De fato, ela nunca teve seus interesses ameaçados – porque nos referimos a interesses de classe e não das legendas políticas que representam seguimentos e facções das classes dominantes. A classe dominante apoia as duas alternativas, fato que fica evidente na distribuição dos financiamentos de campanha.

O tão falado crescimento da direita, ou a “onda conservadora”, não se dá por acidente, mas é o resultado previsível dos governos de pacto social e da profunda despolitização que resulta de doze anos de governos petistas. Como disse Ruy Braga em artigo recente, que a burguesia e a classe média sejam conservadoras é perfeitamente compreensível, mas o que precisa ser explicado é porque o conservadorismo tomou a consciência de setores da classe trabalhadora. A candidata do PT perdeu no ABC paulista, somando os votos de Aécio e Marina, perdeu em São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul.

Parte da classe trabalhadora, equivocadamente, aposta em candidaturas conservadoras que são contra seus interesses de classe. Veja, ao invés de infantilmente culpar a esquerda, os governistas deviam se perguntar por que isso ocorreu. Parte da classe quer o fim do ciclo do PT e não há discurso da esquerda que possa convencer este segmento que o governo atual é que lhe representa, pelo simples fato que a sequência de medidas que descrevemos indicam claramente outra coisa.

O que está acontecendo é que os meios de apassivamento e cooptação são insuficientes para continuar mantendo o governo do PT com a aparência de esquerda enquanto opera uma política de direita. Mantêm-se o nível de emprego, mas os precariza, garante acesso ao crédito para manter o consumo, mas gera endividamento das famílias, garante acesso precário às universidades privadas ou através de uma expansão que não garante a permanência e a qualidade necessária no setor público, tira-se as pessoas da miséria absoluta para colocá-las na miséria.

A explosão do ano passado foi didaticamente um alerta, mas as forças políticas, governistas ou de oposição no campo da ordem, literalmente ignoraram as demandas que ali surgiram. Nenhuma demanda foi considerada, desde a questão do transporte urbano, os gastos do Estado priorizando as empreiteiras e bancos e não educação e saúde, a violência policial e os limites da democracia de representação. Silencio total.

A esquerda – aquela que resistiu a este caminho suicida, foi estigmatizada, atacada, criminalizada e excluída do centro do jogo político – no seu conjunto não chegou aos 2% dos votos, e mesmo o voto nulo e a abstenção ficaram nos níveis históricos das últimas eleições. Não pode, portanto ser culpabilizada por uma eventual derrota do PT. A insatisfação de 2013 se apresenta nas eleições como caldo de cultura da necessidade de uma mudança e é atraída pelo canto da sereia da direita que numa eventual vitória governará com a mesma base de sustentação do governo atual.

Alguns afirmam que o que há de diverso agora é que o PT terá que vencer o PSDB enfrentando-o pela esquerda. Não é o que parece, nem o que o cenário político anuncia com a composição do novo Congresso Nacional. Ao que parece, Dilma investe em se apresentar como ainda mais confiável ao grande capital e seus atuais aliados prioritários, ignorando solenemente as demandas populares para recompor seu governo à esquerda. Respondam rapidamente: quantas vezes, nos últimos debates, a presidente tocou no tema da Reforma Agrária?

Mais uma vez, compreendo e respeito aqueles que votarão em Dilma para evitar o governo do PSDB. Apenas preocupa-me que pouco se analisa do que consiste o conteúdo desta suposta alternativa. Talvez algumas perguntas, na linha da nota do PCB, ajudem na reflexão:

  1. O eventual segundo mandato de Dilma reverterá a prioridade do agronegócio e avançará na linha de uma reforma agrária popular tal como proposta pelo MST e uma política agrícola que considere os interesses dos pequenos camponeses como preconiza o documento do MPA?
  2. Romperá com a política de superávits primários, de responsabilidade fiscal e de reforma do Estado que tem imposto a prioridade ao pagamento da dívida que consome cerca de 42% do orçamento?
  3. Demarcará as terras indígenas se chocando com os interesses do agronegócio e dos madeireiros?
  4. Romperá com a dependência em relação à bancada evangélica avançando nas questões relativas ao aborto, ao combate à homofobia e a política retrograda de combate às drogas?
  5. Alterará o rumo da política de segurança fincada no tripé: endurecimento penal, repressão e encarceramento?
  6. Vai administrar a crise do capital revertendo a tendência à precarização das condições de trabalho e ataque aos direitos dos trabalhadores?
  7. Vai mudar a lógica de criminalização dos movimentos sociais na linha da Portaria Normativa do Ministério da Defesa que iguala manifestante a membro de quadrilha e traficante, ou estenderá o fundamento desta política de garantia da Lei e da Ordem na forma de uma Lei de Segurança Nacional que torna permanente a presença das Forças Armadas como instrumento de garantia da ordem?
  8. Vai alterar a linha geral do Plano Nacional de Educação que institucionaliza a transferência do recurso público para educação privada, se entrega à concepção empresarial de ONGs e outras instituições empresariais e adia por vinte anos a meta dos 10% para educação?
  9. Vai fazer uma reforma política nos termos indicados pelo plebiscito que reuniu 7 milhões de assinaturas, ou aplicará o acordo com o PMDB que produziu um texto conservador e ainda mais concentrador de poder nas atuais siglas do Congresso Nacional tornando mais eficiente o presidencialismo de coalizão?

Nós que podemos interferir pouco no resultado eleitoral só podemos alertar que quem votar em Dilma não estará apenas evitando a vitória de uma opção mais conservadora – objetivo louvável – mas, também, referendando os atos que vierem a ser aplicados. O próximo governo Dilma, se ganhar, não responderá positivamente, na perspectiva da classe trabalhadora, a nenhuma destas nove questões. Por isso o PCB não pode empenhar seu apoio, mais uma vez, nem que seja crítico, pois os governos petistas já responderam a estas questões com doze anos de governo.

E se perder? Neste cenário, que não depende de nós e nem pode ser atribuído à esquerda, que não é desejável, mas possível, o PT teria que voltar à oposição. Neste caso temos a dizer que aqui a situação está muito difícil. A criminalização se intensifica, a polícia militar e as UPPs matam pobre todo dia. O Estado Burguês se armou, graças aos últimos governos, de todo um arcabouço jurídico e repressivo para nos combater, os assentamentos da reforma agrária estão abandonados, os serviços públicos foram direta ou indiretamente precarizados através de parcerias públicos privadas, as Universidades estão sendo mercantilizadas e sucateadas, o governo prefere negociar com sindicatos domesticados do que com as organizações de classe, os meios de comunicação reinam incontestes e impõem um real que nos torna invisíveis, reina o preconceito, a violência, a homofobia e a transfobia, parte da classe trabalhadora vivencia uma inflexão conservadora na sua consciência de classe e ataca o marxismo e o pensamento de esquerda como seu inimigo, imperando a ofensiva irracional da pós-modernidade que se revela cada vez mais fascista nos levando para a barbárie.

Bom, mas isso vocês sabem, não é? Talvez só não saibam de onde veio este retrocesso. Bom, procurem nos seis turnos, naquilo que foi anunciado e no que foi posto em prática… é uma boa pista.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Dez boas razões para votar em Aécio

AÉCIO_10Por Michael Löwy.

  1. Se você acha que o que é bom para os bancos é bom para o Brasil, vote em Aécio.
  2. Se você acha que o que é bom para Exxon, Texaco, Goldmann & Sachs e J.P. Morgan (o banco do Armínio Fraga) é bom para o Brasil, seu candidato é o Aécio.
  3. Se você pensa que os Estados Unidos são os protetores da paz no mundo e que o Brasil deve se alinhar à política norte-americana, tem mesmo de votar em Aécio.
  4. Se você acha que a educação e a saúde estariam em bem melhor situação se fossem privatizadas, apoie Aécio.
  5. Se você acha que o salário mínimo está alto demais, agravando o “custo Brasil”, vote sempre em Aécio.
  6. Se você acha que o lugar de criança delinquente é no Carandiru, não deixe de votar em Aécio.
  7. Se você acha que os ricos, os fazendeiros, os empresários e os donos de supermercados pagam impostos demais, Aécio é seu candidato.
  8. Se você acha que o neoliberalismo demonstrou, na Europa, sua eficácia para enfrentar a crise econômica e o desemprego, Aécio é seu homem.
  9. Se você acha que a taxa de juros esta baixa demais, prejudicando os detentores da dívida pública, seu candidato é mesmo Aécio.
  10. Se você acha que a Reforma Agrária é coisa do passado e que o futuro de um Brasil moderno é o agronegócio produtor de commodities, por favor, vote em Aécio.

Se entretanto, por alguma razão obscura – ignorância, preconceito anticapitalista, esquerdismo, falta de confiança em nossas elites – você não acredita em nada disso, provavelmente votará na Dilma…

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Michael Löwy está no Brasil para lançar seu novo livro A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano, e a edição #23 da Margem Esquerda, com dossiê especial dos 150 anos da Associação Internacional dos Trabalhadores. Ao logo de outubro e novembro ele fará cursos, conferências e debates sobre as sínteses possíveis entre Marx e Weber e os desafios da atual luta anti-capitalista. Hoje, 14/10, ele debate A jaula de aço em São Paulo com Isabel Loureiro, Maria Elisa Cevasco e Eleni Varikas. Confira a programação completa de Löwy no Brasil aqui.

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Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

A proposta tucana de redução da maioridade penal

A imprensa divulga que o candidato tucano continua com a proposta de redução da maioridade penal. Ele não a retira nem muda porque, em primeiro lugar, a criminalização de jovens agrada à população intoxicada pelos apresentadores da tevê. Em segundo, porque um tema tão “secundário”, tão micro para o Brasil, nem foi considerado no apoio da ex-candidata do PSB.

Chega a ser irônico. No mesmo domingo em que se comemorava o Dia da Crianças, a ex Marina Silva renegava um ponto de humanidade para abraçar o justiceiro contra menores infratores. Lembro que o ano passado, quando os clamores de vingança mais subiam na mídia, surgiu uma pesquisa do Datafolha sobre a redução da maioridade penal. Por que fenômenos tão diferentes no tempo se avizinham? Um calendário não se explica em si mesmo. Naquela pesquisa soubemos que 93% dos moradores da cidade de São Paulo queriam a prisão para menores a partir de 16 anos. Noventa e três por cento são quase uma unanimidade. Daí a sua inclusão no programa do candidato esperto, cujos princípios são o marketing.

O que é isso? Por experiência, acredito que a pesquisa espelhava um dado real. Em um programa de direitos humanos no rádio, o “Violência Zero”, travamos com travo esse conhecimento. No estúdio da Rádio Tamandaré, no fim dos anos 80, sentíamos a disputa de ideias na sociedade do Recife entre punir sem medida e o direito à justiça. Mas não com esses números. Ainda que sem método científico, pelos telefonemas dos ouvintes, notávamos que a divisão entre os mais bárbaros e civilizados era quase meio a meio. O que houve agora para esse assalto de vingança, com sua inclusão em programa presidencial? Segundo o Datafolha, a pesquisa havia sido a maior aprovação à proposta de redução penal. Em 2003 e 2006, o apoio foi de 83% e 88%.

É claro que a pesquisa espelhava um instante de abalo emocional na população. Ela veio depois do assassinato do universitário Victor Hugo Deppman. O suspeito pelo crime era um jovem que estava a três dias de fazer 18 anos. Isso foi repetido à náusea. No tempo anterior do “Violência Zero” no rádio, não sofríamos o massacre de imagens repetidas na televisão. Melhor dizendo, sofríamos, mas a doutrinação não atingia os noticiários mais “educados”, como o Jornal Nacional, Jornal da Band e outros. Antes, as insinuações do “só vai matando” ficavam restritas aos guetos dos programas policiais no rádio. No entanto, consideremos.

Ainda que sintamos a batalha perdida diante do clamor, é um dever de consciência não seguir a onda do marketing e do momento. Está certo, é justo, criminosos têm que ser punidos. Se possível, com algo exemplar que iniba e reprima o crime. Mas para a maioridade penal que deveria cair, levanto algumas perguntas:

Qual seria o limite da redução? 12 anos, 11 anos, 10,9, 8, 7 anos? Bebês? Qual o limite? Sintam que a cada redução devem ocorrer novos crimes que estarão no limite da punibilidade. Mais: com o necessário aumento da população carcerária, que já é um inferno e um fracasso do sistema, não estaríamos dando ótimas escolas do crime aos meninos?

Já imagino que os reformadores do Código Penal podem argumentar que teríamos alas de criminosos de 16, outra de 15, mais outra de 14, até atingir um berçário, digamos, mas tudo dentro das mais perfeitas condições de higiene e cura da perversão. Diante do crime que ameaça e atinge a própria casa, já existe quem declare pérolas do gênero “sou de opinião que não deveria haver nenhuma idade mínima na lei”. Salve, daí partiremos fácil fácil para a pena de morte aplicada aos diabinhos que ainda mamam.

Enquanto isso, não vemos ou fingimos não ver a exclusão social e humana que cobre as cidades. Comemos, bebemos, nos vestimos, vamos aos shoppings sem olhar para os lados. E depois nos surpreendemos o quanto o mundo pode ser cruel quando atinge a estabilidade – porque nos julgamos estáveis em chão sólido -, ou a estabilidade sagrada – por tudo quanto mais é santo e elevado acima da animalidade dos outros, que não somos nós mesmos – a estabilidade sagrada dos nossos lares – pois somos aqueles que temos casa, enquanto os outros, ah, eles dormem na rua, que casa podem ter? Seria até uma questão de justiça, nós, os verdadeiros humanos, devemos destruir e tirar dos olhos a mancha da escória.

Lembro que uma vez perguntei a idade a um menino que cheirava cola nas ruas do Recife. “Onze anos”, ele me respondeu. E eu, com minhas exatidões burras de classe média: “Vai fazer, ou já fez?”. Silêncio. Eu insisti, acreditando que não havia entendido a minha pergunta: “Você faz anos em que mês?”. Então ele me ensinou, antes de correr até a esquina:

– Tio, eu não tenho aniversário.

Todos não notamos que vem dessa exclusão o alimento e sangue para o horror. Enquanto fazemos de conta que nada temos a ver com isso, crescem os comentários com que termino aqui, no tempo de Dia das Crianças e proposta de redução da maioridade penal: se os Direitos Humanos criarem caso, prendam, arrebentem ou mandem para fora do Brasil os amigos dos bandidos! Temos que punir duramente quem mata, sequestra, seja quem for. Esses degenerados, com a idade de treze anos, já sabem muito bem o que estão fazendo. Se não melhorarem com novas leis e proposta tucana, que venha a pena de morte. Na lei.

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Eleições630p

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.