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Djalma Júnior, ou a lógica no delírio

Minha filha e os da geração dela costumam se referir aos assuntos mais graves, sérios e tocantes como “pesados”. Entendo-os com um esforço de largueza na compreensão. Bem sei que na verdade assim se referem às obras e pessoas fundamentais, com as quais não adianta fazer “greia”, para usar uma gíria recifense, ou mesmo brincar com leveza. Mas jamais poderia imaginar que o adjetivo usado por eles fosse tão impeditivo para mim. Pois adiei falar até hoje sobre Djalma Gomes de Lima Júnior.

Tentarei escrever enquanto escuto e ouço o Tropicália, o disco vanguarda dos tropicalistas. Espero que me ajudem na tarefa, na altura de “as pessoas na sala de jantar”, do “Panis et Circenses”. Começo pela mensagem de Fátima Brandão, que me chegou pelo Face há 16 dias, enviada do Canadá:

15 de março de 2015 2:38

Nunca pensei em usar um meio tão moderno, num momento tão triste. Mas sei do grande carinho que meu mano sempre sentiu por você. E eis que acabo de saber que meu irmão, Djalma Gomes de Lima Junior, faleceu às 21:30h de sábado, hoje, 14 de março, em Olinda, na UTI do Hospital Esperança, onde estava internado desde domingo passado. Walker está lá no hospital cuidando da trabalhosa burocracia da fatalidade do final da vida. Mamãe que passou mal novamente hoje ainda não sabe de nada em casa. Sandra, minha irmã, chega amanhã para avisar. Tudo indica que foram complicações respiratórias, aliadas a um problema renal, mas ainda não me comuniquei ao certo, -nem sequer diretamente- com os responsáveis nem os familiares locais. No dia primeiro ele foi andando e se internou com dificuldade respiratória. No dia seguinte 2 de marco ele havia completado 59 anos. Foi um irmão muito querido e amado. Em setembro realizou um sonho lindo e veio me visitar aqui no Canadá, onde passamos dias felizes juntos e bem unidos. Jamais esquecerei sua presença afável e semblante inteligente. E que ele, de fato, lhe queria tanto bem. Descanse em paz, meu mano Rudo!

A esse golpe, na manhã seguinte respondi:

“Fátima, eu me sinto muito triste. Eu não esperava isso. Pensava que fosse apenas mais uma internação. Que caráter possuía o nosso amigo! Que caráter! E que inteligência também, sofrida, mas que inteligência e sensibilidade. Ele era um divulgador de ‘Soledad no Recife’. Vou procurar agora o que ele escreveu sobre Soledad e me entregou num envelope. Eu acabara de ler a semana passada um texto dele, que ele havia datilografado em 1994. Saiba você que ele possuía um grande orgulho de ser o seu irmão. Que ele sempre falou com as melhores palavras sobre Gildo Marçal. Ou seja, ele possuía a sensibilidade e o caráter de exaltar o que é grande, o que está acima do medíocre. O meu domingo ficou menor. Ele era meu amigo”.

E Fátima:

“Ele era seu amigo. Respeitava e admirava seu intelecto, sua integridade. Sempre me dava notícias suas. Quentes. Pq eu ligo todos os dias. Tava de olhinho aberto de manhã, ainda ontem, veio a febre alta, a pneumonia, em horas se foi. Não sofreu, ao menos. Nem se arrastou. Meu irmão mais próximo, simbiótico mesmo. Senti tudo. To assim passada. Depois voce me mostra os textos?”

O que tento fazer agora, cumprindo o prometido.

Em um envelope improvisado, feito a partir de uma folha de papel ofício, Djalma escreveu “a um mestre das Letras”. Primeiro, foi um choque para mim. Eu não sou mestre nem aqui em casa, que dirá para os de fora. Mas fiquei curioso do que viria. No verso, o meu amigo informou o remetente: “Com os agradecimentos – Djalma Jr.”. Então, quando abri o envelope, pude ler uma surpreendente crítica a Soledad no Recife, escrita à mão. Transcrevo-a, sem tirar nem pôr:

“Prezado URARIANO

Em que me desse a pena aplicar, só num curso do Fogo Fátuo.

Deixar o pixote apodrecer, e lhe triturar os ossos, e como o patrão do bastardo (não sei que data, pois que não sumiu na poeira dos ignóbeis).

Talvez as lágrimas que verti por compaixão em uma senda contrita, me pudessem não comparecer num velório de todos os personagens críticos que assumiu. A beleza de como se apaixona antes do apagar da bela chama. Sim, também sou solidário nesta paixão.

Quisera ter a pena que a mão do autor faz sua jurisprudência, e descreve com tanto suor, a questão que tanto nos empatiza, e enfatiza o papel dos que têm o coração grande, face uma erraiz miúda tão malefunta.

A beleza eterna de SOL, ó você, meu amigo Urariano, que ressaltou de maneira fortemente enfática para qualquer, onde haja uma pena forte.

Olinda 29/01/2012”.

Eu lhe disse na ocasião, no outro dia, ao caminhar na praia de Olinda, que a sua crítica possuía o valor de um troféu para mim. Era verdade, e de tal modo, que a guardei em minha gaveta até hoje, neste 2015. Agora, posso falar que o texto acima é uma sensibilidade exposta como uma fratura, com uma quebra do enunciado que lembra mais verso de poema, como na frase “A beleza de como se apaixona antes do apagar da bela chama”. Explico, para quem não sabe: Djalma tinha o diagnóstico de esquizofrenia. Daí a quebra da fala lógica, mas ainda assim tão expressiva, por força da genialidade que resistia ao terremoto. Ele era poeta, o que eu sei de um livro anterior dele que li. Vem da sua poesia o prumo da frase que define.

A esta altura, enquanto ouço “Mamãe, mamão não chore”, de Mamãe Coragem, devo copiar alguns trechos de um livro de Djalma, escrito em momentos serenos, serenos à sua maneira, devo dizer.

Do livro Os Flashmen – Efêmeros e Descartáveis, datilografado em 1994:

“Às vezes não me lembro; mas também não me esqueço”.

Que sacada. A que junto este parágrafo, quase ao final do livro:

“A economia dos geômetras igualando em céu e terra seus enredos apresentam um universo asséptico e inconciliável; as sociedades dos famintos e deserdados não têm sua saciedade, e a expectativa do errante entre uma lata de lixo ou lixões é a herança a que são condenados em migalhas sem saciedade. Quando parte significativa não encontra perspectivas além do viver mais que vinte anos, o cardápio testamentário como se fala – Não existe ! (NO FUTURE !)”

E poemas, que ele incluiu no texto narrado:

“A rota do rato é reta
Como pode preferir
a tranquilidade
das minhas panelas?

“Tire isso da cabeça
 e ponha no vaso sanitário”

É um texto de saques, de sacadas em uma lógica de delírio, já se vê. Lembraria trechos de livros escritos sob efeito de ácidos, talvez. Mas no trato pessoal, Djalma era uma pessoa pacífica, serena. Na conversa, escutava em silêncio, parecendo coordenar o pensamento com os olhos, e respondia entre um sorriso e um riso com frases epigramáticas. Quase todos os dias eu o encontrava, quando eu ia caminhar na calçada da praia de Olinda. Ele estava sempre sentado, olhando as pessoas no murinho da calçada. Eu parava, convidava-o a caminhar comigo. Ele às vezes atendia, mas poucos metros adiante, obeso, com a respiração cansada e o andar muito lento, parava. Mas com uma saída lógica:

I– Vá caminhar, não atrapalhe as suas elucubrações. Eu espero você na volta.

Elucubrações. A minha mulher já havia notado que Djalma costumava usar as palavras com elegância e precisão. Aliás, com uma necessidade precisa, acrescento agora. Dele eu lembro três momentos antológicos. No primeiro, eu o convidei para beber comigo em uma barraca na praia de Olinda. Ali, conversamos sobre tudo, mas sempre a seu modo, isto é, aqui e ali com hiatos. Na mesa, pude então satisfazer uma curiosidade, que sobre ele eu alimentava, até o nível do escândalo:

– Djalma, é verdade que você se vestiu de Che Guevara em plena ditadura?

– Sim, é verdade.

– É verdade que você, vestido de Che Guevara, com charuto, boina e coturno, entrou no bar da Livro Sete?

– Sim, é.

– Rapaz, como foi que as pessoas reagiram?

– As pessoas fugiam de mim, como se eu estivesse com lepra. Os que ficavam, eu falava com eles em espanhol, mas eles nem me viam.

Na saída, de volta pra casa, me lembrei de repente que ele tomava remédios para doenças psiquiátricas. Então lhe perguntei:

– Você ainda toma aqueles remédios de tarja negra?

– Sim, tomo.

– E sua mãe, ela não fica irada com você tomar remédio e beber cerveja?

– Fica, mas ela não pode falar.

– Por quê?

– Porque ela não bebe, não pode saber o que é isso.

Eu não pude largar um sorriso diante da lógica infernal. Fazia sentido. Se uma pessoa não tem o vício, como poder falar com propriedade sobre o que não conhece?

No começo deste 2015, eu o reencontrei depois de um tempo em que não o havia visto na praia. Então ele me disse que tinha ido visitar a irmã Fátima, no Canadá. E eu, sempre com a curiosidade, que a minha mulher chama de impertinente:

– Mas como você fazia pra se comunicar sem a presença de Fátima?

– Eu falava.

– Sim, sei. Mas em francês?!

– Sim. Mas lá eles falam uma mistura, não é francês puro não.

E eu, monoglota, no limite da incredulidade:

– Se fosse no Canadá inglês aí já era mais complicado.

– Eu falo inglês também.

– Sério?

E o leitor me perdoe, porque na ocasião, para mostrar que o inglês não me era estranho (e como um teste revelador da minha fraqueza), fiz uma crítica às letrinhas idiotas dos Beatles, arremedando o “Love me do”. Para quê? Djalma passou a recitar o Eleanor Rigby, letra completa, em inglês de ótima dicção, com um sorriso. Toma-te, diriam os da geração do meu filho. Bem feito, dizemos os da minha. Ele, mais uma vez, dava uma lição no preconceito que julga sem inteligência, lógica, sensibilidade e cultura uma pessoa que atravessa uma quadra tormentosa no cérebro. Um preconceito do mesmo gênero dos que não veem humanidade nos negros, loucos e marginalizados em geral.

Flávio Brayner, que um dia foi Flávio Gabiru, mas hoje é doutor e trabalha no Centro de Educação da UFPE, escreveu um texto que julgo exemplar sobre a convivência na juventude com Djalma. Publicado no Jornal do Commercio, do Recife, dele não posso deixar de transcrever estes magníficos trechos:

“Djalma Gomes foi o único personagem realmente camuseano que conheci. Desde os dezoito anos recebera o diagnóstico de que era “maníaco-depressivo” (bipolar) e tomou tanto Lítio durante a vida, disse-me certa vez, ‘que tinha energia acumulada para abastecer uma cidade’! Era uma espécie de bad boy do antigo Ginásio de Aplicação, um terrorista em germe, mentor e organizador de práticas curiosamente criativas e destrutivas ao mesmo tempo, como se, para ele, destruir fosse um ato artístico de criação absoluta. Foi com ele, lá pelos meus 14 anos, que ouvi pela primeira vez alguém dizer algo como “O homem é uma paixão inútil!”, ou “O mundo é o lugar do absurdo!”, frases que só vim entender mais tarde, depois de ler os existencialistas que ele mesmo me emprestara. Era a consciência filosófica mais aguda de nossa geração adolescente… Certa vez fugiu de um sanatório, atravessou a nado o Capibaribe e foi bater na minha casa, ali na Madalena, para me falar de um projeto de estudo sobre Bergson!

Djalma foi o sujeito mais improvável que conheci: perfeitamente inadaptado ao mundo em que viveu; correspondido por este mundo que o rejeitou, ao mesmo tempo proprietário de uma ácida ironia com que ele desmoralizava nossas instituições, como um Mersault (o personagem d’ O Estrangeiro de Camus) impotente diante de seu próprio destino, condenado a uma espécie de pena de morte em vida, afastado do mundo por uma psiquiatria primitiva, sintomatológica e excludente, reuniu em si mesmo uma elevada dose de clareza sobre o absurdo de nossas vidas e a escuridão da loucura.

Telefonou-me pouco antes do carnaval, voz embolada de medicamento, para me dizer que, de todas as pessoas que conhecera, eu era a única com quem havia mantido uma amizade desde nossos 8 anos de idade e nunca havíamos brigado! Não recebo este comentário, agora que ele se foi, como uma despedida, mas, antes, como uma declaração derradeira de que, apesar de tudo, nós tínhamos experimentado uma forma de amizade que ele, que conhecia a Ética a Nicômaco, sabia só ser possível na ‘simpatia entre as almas’”.

O que dizer depois de tão brilhante evocação? Concluo, pelo menos por enquanto. No fim do ano passado, presenteei Djalma com o romance “O filho renegado de Deus”. Quando o encontrei uma semana adiante, ele me disse: “Urariano, o teu livro é sério. Eu vou arrumar umas coisas minhas primeiro antes de começar a leitura”. Ele se preparava para o mergulho, me disse. E mais não disse, pois bem sei hoje que ele próprio já havia começado a mergulhar em outros abismos. Ele já começara a partida sem volta. Mas todos nós, com a nossa mania de assuntos mais leves, brincalhões, nem notávamos.

O que vale dizer, ao fim: a vida é mesmo pesada, amigo Djalma. Até hoje, quando vou caminhar em Olinda, eu sinto a sua falta na paisagem. Olho e respiro fundo. É como você bem disse em seu livro datilografado: às vezes a gente nem lembra. Mas não esquece.

***

Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Quem irá nos livrar do fascismo?

Protesto 02[Ilustração de André Almada, sobre fotografia de 15 de março de 2015 na Av. Paulista em SP]

Por Izaías Almada.

O sambódromo em que foi transformada a Avenida Paulista no último dia 15 de março, na patética, mas não menos significativa marcha contra o governo, nos remete a algumas reflexões, algumas delas novas em matéria de política brasileira, pois a realidade muda a cada segundo, muito embora com algumas imagens que nos parecem velhas conhecidas.

Há um governo acuado, apesar de vencer legitimamente as últimas eleições presidenciais; uma mídia agressiva e tendenciosa contra a atual presidente e seu antecessor; uma justiça policialesca; um ar impregnado de partículas fascistas, ainda invisíveis para muitos, mas que podem se transformar em epidemia de intolerância e violência em maior escala.

E se assim for, quem nos livrará do fascismo? Jô Soares e suas meninas? O grande filósofo Pondé? Maitê Proença? As irmãs Marinho? Não confundir com os milionários irmãos brasileiros da revista Forbes… O inglês arrevesado de algumas faixas exibidas pelos ilustrados elitistas dominicais? Pode não parecer para muitos, mas a situação é séria. E temos que tratá-la com seriedade.

Em seu mais recente livro, “Militares e Militância: uma relação dialética conflituosa”, o professor e cientista político Paulo Ribeiro da Cunha conta à página 19 um fato curioso e ao mesmo tempo sintomático sobre as modernas Forças Armadas brasileiras, envolvendo respostas de comandantes militares e grupos de militares da reserva que se manifestaram contra um documento do Clube Militar intitulado “O Alerta a Nação” e escrito por um grupo de militares de direita egressos de 1964. Diz o texto:

“… logo em seguida à divulgação de “O Alerta à Nação”, houve contundentes manifestações democráticas e legalistas bem dissonantes desse posicionamento do Clube Militar. Uma delas, de certa forma “indireta”, foi propiciada pelo general Adhemar da Costa Machado, comandante militar do Sudeste, em palestra sobre “O papel e os desafios do Exército na atual conjuntura”, a convite do Instituto Plínio Correa de Oliveira, vinculado à ultraconservadora Tradição, Família e Propriedade (TFP). Em meio à tensões entre militares da reserva e o governo sobre a polêmica advinda da formação da Comissão da Verdade, a expectativa da vasta plateia era de escutar desse oficial da ativa que estaria em curso uma reação, ou mesmo articulações golpistas, pelas Forças Armadas”.

“O que se ouviu do oficial foi que os militares não voltariam ao governo nunca mais1, bem como uma ponderação sobre a vocação democrática do Exército brasileiro. Complementou o general ao final, com um argumento que já seria uma leitura corrente nas Forças Armadas para o desgosto do público ali presente, que os militares são um instrumento do Estado e a serviço de um governo eleito democraticamente.” [grifo do articulista]

O livro acima citado2, a quem recomendo aos leitores, traça o histórico da presença dos militares de esquerda em muitos dos embates políticos brasileiros e contribui, na minha modesta opinião, para desfazer de parte a parte o preconceito entre civis e militares e, particularmente, entre boa parte da esquerda brasileira e do próprio estamento militar.

Já ouvi em várias ocasiões, dentro ou fora de alguma militância política de esquerda, um discurso, sob certos aspectos tornado enfadonho e repetitivo, de que não se pode confiar nos militares. Nada mais distante de um pensamento que se queira dialético, em particular nas atuais circunstancias históricas e políticas do país.

Desde a última eleição presidencial, que reelegeu a presidente Dilma Rousseff, grupos conservadores e antinacionais tentam chamar as Forças Armadas a intervir no atual quadro político brasileiro através de uma ruptura institucional, o que – na verdade – é um incentivo irresponsável ao golpe de estado, atitude que nos remeteria à velha política de subserviência a interesses estrangeiros e de repressão aos movimentos e conquistas populares dos últimos anos. Nas manifestações do último dia 15 de março isso ficou muito bem caracterizado

O filme já foi visto em outras ocasiões, mas na nova versão que se pretende impor ao país diante do trabalho diário de uma mídia que não mede esforços para tumultuar o Brasil, os atores são outros. Com uma agravante: ao contrário do que pensam manifestantes de direita mais exaltados e seus incentivadores na internet, pedir “intervenção militar” em faixas onde aparecem até suásticas nazistas é – além de ignorância histórica – um grande desrespeito não só aos integrantes da FEB que lutaram bravamente contra o nazifascismo ao lado das forças aliadas em terras italianas, mas também um insulto às atuais FFAA constitucionalistas e democráticas, como se depreende da palestra do general Adhemar da Costa Machado acima citada.

Vivemos o início do século XXI e é outra a situação do país no cenário internacional, com seu território de dimensões continentais mais valorizado e cobiçado, subsolo rico em diversos produtos que integram a fabricação de sofisticados armamentos, notável agricultura exportadora. Somos cada vez mais ricos e independentes em energias, a petrolífera em particular; somos um dos cinco integrantes dos BRICS em alianças e projetos estratégicos com a China, a Rússia, a Índia e a África do Sul. Além de não sermos mais devedores de organismos financeiros internacionais. Nos últimos dez anos foram criados programas sociais elogiados e copiados internacionalmente.

Oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados de solo fértil, tendo a Amazônia e o pré sal como riquezas incalculáveis, água potável em abundância, o Brasil precisa defender cada vez mais suas fronteiras terrestres e marítimas. São missões, entre outras, que precisam de FFAA modernas e bem preparadas, que se recuperaram nos últimos anos após os desastrosos anos dos senhores Sarney, Collor e, sobretudo, Fernando Henrique Cardoso que, com seu pendor subserviente e entreguista sucateou essas mesmas FFAA, ao que chamou hipocritamente de “profissionalização”.

Repito: ao contrário daquilo que imaginam alguns espíritos conservadores e preconceituosos, para dizer o menos, e que procuram materializar suas ações estendendo faixas em manifestações de rua “convocando” os militares para rasgarem a Constituição, essa atitude representa não só uma violência contra a democracia, mas – sobretudo – um enorme desrespeito às atuais Forças Armadas que têm missões mais nobres e importantes para realizar.

E que estão definidas em nossa Constituição no Capítulo II, Título V, Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, DAS FORÇAS ARMADAS:

Art. 142: As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.3

E defender a Constituição significa defender os seus princípios fundamentais que são a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o pluralismo político [grifo do articulista].

Os militares de 2014 não são os militares de 1964 vistas as coisas em seus aspectos negativos ou positivos. Eram, em sua maioria, adolescentes ou pouco mais que isso, pois cinquenta anos se passaram, meio século. A Internet era impensável, para ficarmos num exemplo comezinho, mas significativo. A guerra fria influenciava mentes e corações.

O também cientista social e escritor José Murilo de Carvalho, estudioso das Forças Armadas brasileiras, no capítulo de conclusão de sua obra Forças Armadas e Política no Brasil4 escreve o seguinte sobre o papel que deve ser atribuídos a elas (pág. 197):

“… Devem ser preparadas para a guerra externa? Contra quem? Contra vizinhos? Contra o Império? Devem tornar-se forças auxiliares das Nações Unidas na tarefa de policiamento do mundo? Devem dedicar-se a tarefas policiais de combate ao narcotráfico nas fronteiras e nas rotas internas? Devem preparar-se para substituir as polícias nacionais em eventuais explosões de violência nas grandes cidades? Ou devem dedicar-se a tarefas sociais, como combate à pobreza, ao analfabetismo, às desigualdades?”

O diálogo entre a sociedade civil e suas FFAA deve se dar em nível de frontalidade e respeito, de reciprocidade democrática e na busca de soluções que beneficiem o país como um todo e que procure o fortalecimento das instituições brasileiras e não através de incitações ao ódio, a intolerância, a quebra da legalidade democrática e ao desrespeito entre concidadãos.

NOTAS

1. Matéria Caserna longe da crise com o governo. O Estado de São Paulo,17 de março de 2012;
2. Ribeiro da Cunha, Paulo – Militares e Militância, uma relação dialeticamente conflituosa, UNESP, 2013;
3. Constituição da República Federativa do Brasil.
4. Carvalho, José Murilo, Forças Armadas e Política no Brasil. Jorge Zahar Editor, 2005, Rio de Janeiro

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Brasil: sonhos e pesadelos em 2015

15 03 25 Flávio Aguiar[Manchetes da Tribuna da imprensa em 1954, pouco antes do suicídio de Getúlio Vargas]

Por Flávio Aguiar.

Caras leitoras, caros leitores

Após incursão ao Brasil, diante das circunstâncias, faço breve pausa em minhas crônicas sobre o mundo da cozinha e, embora falando ainda de panelas, introduzo esta variação:

* * *

Ora – direis – ouvir panelas!  Certo
Ficaste louco. E eu vos direi, no entanto,
Que muitas vezes paro, boquiaberto,
Para escutá-las pálido de espanto!

Direis agora: – Mas meu louco amigo,
Que poderão dizer umas panelas?
O que é que dizem quando estão contigo
E que sentido têm as frases delas?

E direi mais: – Isso quanto ao sentido,
Só quem tem fome pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender panelaas.

Aparício Torelly, Barão de Itararé, 1926. 

Em visita ao Brasil neste março, pude observar de perto, a partir de São Paulo, as manifestações dos dias 13 e 15, além dos panelaços, buzinaços, palavrões e outras demonstrações similares.

Tenho lido muitas interpretações a respeito, algumas aproximando a situação atual à de março de 1964. Uma das fontes de tal aproximação é a quase coincidência de datas entre a manifestação conservadora de 15 de março deste ano e a Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade, em 19 de março de 1964. Também pude ler comentários apocalípticos sobre o fim do governo Dilma (alguns desesperados, outros céticos e ainda outros esperançosos), as possibilidades de um golpe militar, o fim do ciclo petista no Brasil e até sobre o fim do ciclo das esquerdas na América Latina, tanto em observações reservadas quanto abertas na mídia nacional e na internacional.

Entretanto uma coincidência feliz me despertou para a possibilidade de outra comparação histórica relevante, da qual se pode retirar alguma lição para o presente e talvez o futuro. Durante a estada li o terceiro volume da excelente biografia de Vargas escrita por Lira Neto (Getúlio, 1945 – 1954: da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Cia das Letras, 2014). Esta leitura, somada a outras do passado, mais recordações pessoais daquele momento, me convenceu da pertinência de comparar 2014/2015 com 1950/1954.

Uma eleição difícil.

A aparente facilidade com que Getúlio venceu seu principal oponente em 1950, o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, por uma diferença de mais de um milhão e meio de votos (então significativa), não deve ocultar as dificuldades da vitória, que rimam, de certo modo, com a apertada decisão de 2015, com uma diferença de apenas 3,5 milhões de votos num universo total de mais de 120 milhões de eleitores.

O caminho de Getúlio até a candidatura foi tortuoso, cheio de negaças, desconversas e só resolvida no final com o concurso do governador de S. Paulo, Ademar de Barros, e seu PSP, o que levou a uma coligação informal (as eleições de presidente e vice eram separadas), ainda que efetiva, com o obtuso Café Filho, suspeito de esquerdismo, mas na verdade já um político conservador.

Getúlio obteve quase 3,85 milhões de votos, contra 2,34 do Brigadeiro, quase 1,7 de Cristiano Machado, o candidato do PSD e oficial do governo Dutra e 9.500 votos do socialista João Mangabeira. Houve ainda 211,5 mil votos em branco e 145,5 mil nulos. Feitas as contas, isto significava que Vargas não obtivera a maioria absoluta, o que provocou uma reação imediata da oposição, liderada pela UDN, pedindo a anulação do pleito, apesar de não haver exigência constitucional a respeito. O pedido foi negado na justiça, mas sinalizou a força da famosa declaração de Carlos Lacerda a respeito de Getúlio: este não deveria ser candidato, se candidato, não deveria se eleger, se eleito, não deveria ser empossado e se empossado, não deveria governar, sendo, no limite, derrubado por alguma “revolução”, termo que no Brasil de então e ainda no de hoje designa simplesmente um levante armado.

As oposições de hoje, as das ruas, das panelas e buzinas, as midiáticas (também ativas em 1950) e a parlamentar, demonstraram ter belicosidade semelhante em relação à presidenta Dilma Rousseff, consubstanciada logo de saída pelo pedido de recontagem dos votos e auditoria da eleição, baseado na pequena diferença no segundo turno. Do mesmo modo como em 50, o pedido não progrediu na justiça, mas ficou a marca da disposição intolerante e antidemocrática, não aceitando o resultado das urnas.

O Congresso, o governo e outras circunstâncias.

Como em 2015, ao tomar posse em 1951, Getúlio se viu às voltas com um Congresso hostil, em que seu partido, o PTB, ainda relativamente pequeno e desorganizado, era minoritário, dependendo o governo de alianças e conchavos para poder governar. Se Dilma Rousseff chamou para o governo políticos e economistas considerados conservadores, Getúlio se viu na contingência de chamar par seu ministério figuras da oposição, até da UDN. Inicialmente entregou o Ministério do Trabalho a um empresário seguramente hostil às leis trabalhistas que foram promulgadas anteriormente. Só depois é que o entregaria a João Goulart, o que provocou enorme reação por parte da direita.

Tais composições de governo desagradaram a gregos e troianos – em termos da época, petebistas e comunistas (nesta altura os anarquistas já eram história) – no movimento sindical. Depois da nomeação de João Goulart, as bases trabalhistas se acalmaram, mas as comunistas continuaram hostis ao governo, transformando manifestações a seu alcance em protestos hostis a Vargas.

A economia patinava, a inflação subia, em 1953 eclodiu uma das maiores greves da história brasileira, a dos 300 mil em São Paulo. Para completar este quadro assustador, os investimentos escasseavam. No plano interno, a burguesia brasileira olhava com desconfiança o que considerava ser a “esquerdização” pessoal do presidente (em que pese a nomeação de seus ministérios conservadores), retraindo investimentos. No externo, inicialmente Vargas conseguiu contornar a preferência dos EUA pelos investimentos na Europa, no Plano Marshall, em época de Guerra Fria, acertando-se com o presidente Truman. Entretanto a eleição do republicano Eisenhower levou ao não cumprimento dos acordos feitos por seu antecessor, secando as fontes externas de investimento. Por seu lado, a Europa ainda estava prostrada pela ressaca da Segunda Guerra. Em suma, o aperto era semelhante ao enfrentado pelo governo brasileiro hoje: bloqueio interno, recessão e arrocho externos, ainda que as razões possam ser outras, tudo isso aliado a uma economia lenta e a uma relativa alta da inflação, ainda que nem de longe ela se compare a séries históricas anteriores.

Os insultos, as acusações e os agravos

O comportamento da mídia dominante então não diferia em nada daquele da velha mídia de hoje. Na campanha de desestabilização do governo apresentavam-se a corrupção e o mandonismo – em qualquer de suas manifestações – como tendo origem exclusivamente no governo e na família Vargas. O quadro é semelhante ao de hoje, onde a esta mídia martela a impressão de que a corrupção foi fundada pelo PT, ou pelo menos, a de que este partido a levou a níveis nunca dantes navegados na história brasileira.

Os insultos hoje ouvidos nas manifestações conservadoras – atestados mais de machismo e de falta de educação de quem os têm lançado – pelo menos desde o episódio do Itaquerão, tinham na década de 50 seu equivalente no calão político difundido na mídia conservadora, de “ladrão” para baixo. Também houve vaias de corpo presente. A certa altura, depois de prolongada ausência de aparições em público devido a fraturas decorrentes de uma queda no Palácio, Getúlio decidiu fazer sua rentrée no Grande Prêmio Brasil, no Jockey Clube do Rio de Janeiro. A “élite” presente, do alto de seus casacos e estolas de pele, além de casacas em pleno calor carioca, o recebeu com sonora vaia, além de insultos, como hoje, pois já hostilizava seus acenos de aumento no salário mínimo, concretizado este em 1954, com um reajuste de 100%.

Esta política de valorização do salário mínimo foi um dos estopins do famoso ou famigerado Manifesto dos Coronéis. Dizia este, iracundo, entre outras coisas, que com estes aumentos do mínimo logo “um operário estaria ganhando tanto quanto um graduado”. Explique-se algo a este respeito. Diz-se de Vargas que ele “trouxe” a classe operária urbana para o cenário político brasileiro. Mas deve-se creditar a suas políticas a partir de 1930 também a emergência de uma classe média – mais ou menos organizada e desorganizada – no país, coisa que não havia até então, embora houvesse “setores médios” que não eram nem abastados, nem pobres ou miseráveis, como grande parte dos então chamados profissionais liberais, como médicos, advogados, engenheiros e parte do funcionalismo público.

Dentre a classe média emergente, o estamento militar despontava, por sua coesão, seu espírito corporativo e também por sua relevância política num clima polarizado de pós-Segunda Guerra e Guerra Fria. Deste modo não surpreendia que o Manifesto dos Coronéis desse voz ao que hoje também transparece nos reclamos de uma “meritocracia” por parte dos que se julgam prejudicados em poder aquisitivo, acesso a serviços baratos e status, pela política de transferência de renda operada pelos governos petistas.

Entre as semelhanças, algumas diferenças, e entre as diferenças, algumas semelhanças.

Além dos fatores ideológicos, a ojeriza da mídia conservadora por Vargas teve duas poderosas razões. A primeira foi, ainda durante o Estado Novo, a extensão dos direitos trabalhistas aos jornalistas. A segunda foi a ajuda à criação da Última Hora, de Samuel Wayner, um jornal que modernizou a imprensa no Brasil e mostrou cabalmente o provincianismo e anacronismo das práticas dos barões assinalados de nossa mídia de então. Aqui há uma diferença gritante entre a situação de Vargas e a dos governos petistas de hoje. Aquele desde sempre compreendeu o valor da mídia, valendo-se do rádio e depois da criação de um jornal favorável ao governo. Já os governos petistas patinaram e ainda patinam neste aspecto. Mostram-se mais prisioneiros do cerco midiático do que Getúlio.

Há ainda outras diferenças importantes: por exemplo, até o momento, pelo menos, a situação e a disposição das Forças Armadas. Não se veem, seja qual for o horizonte para onde se olhem, disposições golpistas nelas de qualquer espécie. Algum golpe, se vier, virá através dos setores do Parlamento ou do Judiciário. Mas nesta diferença, esconde-se uma semelhança. Nos últimos tempos, o “sangramento” (as oposições gostam deste termo, como verbalizou, numa tirada deselegante, o senador Aloysio Nunes, assim como vários líderes da oposição de 50 o usaram em relação a Vargas) do governo teve origem no conluio da ação do juiz Sérgio Moro, no Paraná, de fragmentos selecionados da Operação Lava Jato, e de seus vazamentos também seletivos para a mídia conservadora. Esta “operação conjunta” lembra, mutatis mutandis, a também famigerada “República do Galeão”, o inquérito promovido de forma “ independente” por oficiais da Aeronáutica em sua base naquele aeroporto, depois do atentado contra Carlos Lacerda e a morte do major Rubens Vaz, num episódio até hoje não de todo esclarecido. Naquele inquérito também houve um amálgama de procedimentos escusos, que envolveram, segundo denúncias dos acusados, até a prática de tortura, além de negociações que lembram as “delações premiadas” de hoje. Houve então até mesmo uma aplicação ainda que tosca mas igualmente imprópria da “teoria do domínio do fato”: não importando provas, conhecendo ou não as conspirações, a culpa pelo atentado era do presidente. Carlos Lacerda chegou a imprimir um exemplar fake de seu jornal, a Tribuna da Imprensa, para ser lido por Gregório Fortunato, então preso incomunicável, “noticiando” que Benjamin Vargas, o irmão caçula de Getúlio, muito ligado àquele, tinha fugido para o Uruguai.

Outra diferença: o clima internacional de Guerra Fria era favorável à deposição de Vargas. Hoje a situação é outra. Pode-se até dizer que ao consenso ortodoxo da União Europeia ou a WallStreet agradasse mais a vitória de Aécio Neves (não a de Marina Silva). Mas daí a dizer que haja preferência por mergulhar o Brasil na incerteza de uma virada golpista, mesmo que através dos devidos mecanismos legais e judiciais, e na conturbação que seguiria, vai uma certa distância.

Outro paralelo interessante está nas intenções governistas, embora os estilos sejam muito diferentes. Apesar dos vaivéns ministeriais, Getúlio criou uma espécie de “Círculo Próximo”, que o alimentava com propostas e ideias sobre a reforma ou criação da infraestrutura brasileira. O efeito mais retumbante desta condição foi a criação da Petrobrás (que, aliás, assim como nos anos 50, está em questão hoje). Porém, além disto, criou-se o BNDES e lançaram-se as bases da Eletrobrás; além disto, “tramou-se” a extensão dos direitos trabalhistas urbanos á zona rural. De forma semelhante, a presidenta Dilma Rousseff, com seu estilo muitas vezes injustamente criticado de “gerentona” (este é o termo desgracioso usado), tem o projeto de atualização da infraestrutura brasileira, dependendo vitalmente de investimentos externos e internos nesta área. Se ela vai conseguir, vejamos. Mas dele depende o relançamento da economia brasileira.

Conclusões provisórias

O intertítulo é paradoxal. Mas corresponde à situação real: é cedo demais para conclusões, mas se não tivermos algumas, poderá ser tarde demais.

A primeira, nem tão provisória, é a de que o governo precisa aprender com a disposição comunicativa de Vargas, em todos os seus aspectos e em suas consequências. Deve ter mais arrojo em favorecer a diversificação da mídia brasileira, seguindo, aliás, recomendação da UNESCO a respeito.

Além disto, pode-se ver, ou ler, na situação, que se a do governo é precária, a das oposições também é. A começar por um fator nada desprezível, que é o de sua composição. Samuel Wayner cunhou o famoso apelido de Lacerda, o Corvo. Mas corvos – pelo menos desde La Fontaine e Poe – têm alguma estatura intelectual. Lacerda era um orador brilhante, um político de formação sólida. As hostes oposicionistas contavam com gente do calibre de Afonso Arinos e Gustavo Corção. O brigadeiro Eduardo Gomes podia não ter brilho, mas era elegante, derrubava corações e provocava suspiros apaixonados. Já hoje… sequer vemos uma geração de corvos na mídia conservadora ou mesmo nas oposições parlamentares e próximas. No máximo lembram micuins, aquela praga de ácaros que prolifera nos arbustos rasteiros e provocam uma coceira infernal. Nos anos 50, a oposição tinha um objetivo unitário: derrubar Getúlio. Hoje a situação é diversa. Há os saudosos do regime ditatorial, os adeptos do impeachment (que também foi tentado, sem sucesso, contra Getúlio), os defensores do já mencionado “sangramento”, os descrentes na política, estamentos de classe média e da burguesia que sonham em vão com a ideia de que “tudo voltará a ser como antes”, isto é, que os aeroportos se esvaziarão como num passe de mágica, que emergentes do povão não terão mais acesso ao ensino superior, que as empregadas domésticas venderão seu trabalho em troca de migalhas e voltarão a usar apenas as entradas de serviço, etc. Em suma, sonham com o pesadelo do impossível retorno. O desenho social do país mudou, e isto sim, ao contrário do regime de 64, é “irreversível”.

Outro fator: nos anos 50, Peron acenava com uma “união aduaneira”, ou “frente comum”, entre Argentina, Brasil e Chile. A proposta, que pode ser considerada um embrião do Mercosul, provocava arrepios nos nossos americanófilos de plantão e também nos militares, convencidos da inevitabilidade da futura guerra entre Brasil e Argentina pela supremacia regional. Hoje a música é outra, embora haja saudosistas que detestem as vinculações sul-sul desenvolvidas pelos últimos governos e que sonhem com nossa reintegração subalterna á ordem da falimentar Europa e ás incertezas da política norte-americana. Apesar de seus problemas, o Mercosul é uma realidade, bem como o protagonismo internacional do Brasil, e não há como voltar atrás nisto.

Por fim, uma última observação. Certo dia, no metrô de S. Paulo, ouvi a seguinte observação, de um executivo para outro:

“ – O problema, meu caro, é que não há provas contra ela. E ela também não vai renunciar”.

“É verdade”, pensei. Também pensei: “mas não havia provas contra Getúlio em 54, e ele se recusou a renunciar”. Mas a seguir considerei que, talvez para desespero daqueles executivos, a presidenta Dilma não parece nem um pouco disposta a qualquer tipo de suicídio, nem mesmo algum simbólico, do ponto de vista político.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Cultura Inútil: Profeta do caos

15 03 24 Mouzar Benedito Cultura Inutil Profeta do caosPor Mouzar Benedito.

Jeron Criswell Konig (1907-1982), um “vidente” dos Estados Unidos que se autotintitulou “The Amazing Criswell” (O Incrível Criswell), previu que John Kennedy não se candidataria à reeleição para presidente em 1964 porque seria assassinado antes disso. Acertou. Kennedy foi assassinado em 22 de novembro de 1963. Mas foi um dos poucos acertos dele. Fez um monte de “profecias” totalmente fajutas. Por exemplo: entre 11 de fevereiro e 11 de maio de 1983 as mulheres da cidade de St. Louis iriam ficar carecas. Seus cabelos só voltariam a crescer depois de um período em que aconteceriam muitos assassinatos, divórcios, suicídios e massacres, principalmente de cabeleireiros. Ele tinha previsto também que na década de 1970 os EUA e a URSS fariam 200 estações espaciais que seriam a salvação da humanidade, pois o mundo acabaria em 18 de agosto de 1999 (um “arco-íris preto” roubaria todo o oxigênio da atmosfera terrestre e a Terra sairia de órbita, indo em direção ao sol) e só os colonos dessas 200 estações espaciais sobreviveriam.

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O remo, como esporte, teve início na Inglaterra, em 1829.

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Marco Polo, o primeiro europeu a viajar até a China, quando chegou de volta e começou a contar certas “maravilhas” que viu por lá, ganhou o apelido de Marco Mentira.

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A data 7 de janeiro deve ficar para sempre marcada pelo atentado que matou várias pessoas na redação do Charlie Hebdo, em Paris, cometido por dois fanáticos religiosos. Mas aqui no Brasil, ela pode ser lembrada num sentido contrário: em 7 de janeiro de 1890, Ruy Barbosa apresentou ao Marechal Deodoro o texto do projeto de separação da Igreja do Estado.

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Rachel de Queiroz foi uma apoiadora entusiasmada do golpe de 1964. Quando moça, ela chegou a ser presa sob a acusação de ser comunista.

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A atriz Sarah Bernhard esteve algumas vezes no Brasil e não teve sorte aqui. Em 1886, apresentou Fedra e A Dama das Camélias, sem grande sucesso, e ainda teve briga na plateia. Seu filho foi espancado. Para completar, havia um surto de febre amarela. Ela se mandou. Em 1893, ladrões levaram suas joias e seu dinheiro, e quando ia voltar para a Europa o navio em que estava foi bombardeado na Baia de Guanabara, durante a Revolta da Armada contra o governo de Floriano Peixoto. Em 1906, apresentava a Tosca, em que numa cena teria que “cometer” suicido, se atirando num abismo. Fora do palco, pilhas de colchões deveriam amortecer sua queda, mas um funcionário do teatro, mal informado, tirou os colchões do lugar. Resultado: aos 61 anos, ela se esborrachou no chão fraturou feio um joelho e acabou tendo que amputar a perna.

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Assim falou Getúlio Vargas, quando lhe perguntaram sobre a qualidade dos ministros de seu governo: “Uns não são capazes de nada. Outros são capazes de tudo”.

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Santa Genoveva é Padroeira de Paris. No ano 451, ela organizou o povo da cidade para enfrentar os hunos liderados por Átila. Seu dia é 3 de janeiro.

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Potiguar, denominação para quem nasce no Rio Grande do Norte, significa em tupi “comedor de camarão”. Um dos povos indígenas que moravam lá era o Potiguara, que ainda sobrevive na Baía da Traição, na Paraíba, divisa com o Rio Grande do Norte. Mas os norte-rio-grandenses já foram chamados também de papa-jerimum, porque um presidente da então província do Rio Grande do Norte, sem dinheiro, certa vez pagou funcionários públicos com abóboras.

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Kublai Khan, que liderou o Império Mongol entre 1260 e 1294 foi quem transferiu a capital chinesa de Karakorum para a atual Pequim (ou Beijing, como escrevem hoje em dia – que feiúra de nome ficou!), que na época se chamava Khanbalik. Ele era um político muito habilidoso. Podia não agradar gregos e troianos, mas procurava agradar os seguidores das três maiores religiões do Ocidente: além dos feriados mongóis guardava também o Natal e a Páscoa (dos cristãos), o Pessah e o Dia do Perdão (judeus) e o Ramadã (muçulmano).

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Carmo de Minas, Carmo da Mata, Carmo do Rio Claro, Carmópolis… Mas o que significa esse Carmo que dá nome a várias cidades mineiras? É Nossa Senhora do Carmo, que ganhou esse nome por causa da invocação a Virgem por eremitas que viviam no Monte Carmelo, na Palestina, e pediam  que ela protegesse sua tentativa de viver em contemplação, no século XII. Daí surgiu a Ordem dos Carmelitas.

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A Bolívia tornou-se independente em 1825. Nos cem anos que se seguiram, até 1925, teve 40 presidentes (6 deles assassinados enquanto ocupavam o cargo) e 187 revoltas armadas.

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Em São Paulo, há anos, quando se fala em pasteleiro já se sabe que é “japonês”, quer dizer, descendente de japoneses. Principalmente os que vendem pastéis em barracas de feiras-livres. Mas nem sempre pasteleiro foi “sinônimo” de japonês. Pelo menos até os anos 1970, pastelarias pertenciam invariavelmente a chineses. E não eram em feiras-livres. E também havia na cidade, na época, muitas tinturarias. Provavelmente muitos jovens nem sabem o que é isso, e se for procurar nos dicionários vai achar um outro sentido: nos dicionários atuais, é estabelecimento em que se tinge tecidos. Antes era sinônimo de lavanderia, mas só de roupas, principalmente masculinas. E, ao contrário das lavanderias atuais, não era lugar de se lavar roupa de cama e peças íntimas. Essas tinturarias eram quase que invariavelmente de japoneses. Havia até uma brincadeira dos paulistanos sobre como diferenciar chinês de japonês: chinês é pasteleiro, japonês é tintureiro.

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Aristóteles considerou que os golfinhos eram mamíferos, e não peixes, no ano 340 a.C., ao observar que os filhotes nasciam ligados à mãe por um cordão umbilical. Mas os biólogos só concordaram com ele no século XX.

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Depois da Guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1973, quase 700 mil minas terrestres foram desenterradas das margens do Canal de Suez, por egípcios e israelenses.

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Em 1968 o aborto foi legalizado na Inglaterra.

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André Maginot, que foi ministro da Defesa da França depois da Primeira Guerra, planejou com seus generais a construção de uma muralha fortificada de 314 quilômetros ao longa da fronteira nordeste do país, da Suíça até a Bélgica, para evitar ataques de surpresa da Alemanha. A chamada Linha Maginot era uma linha contínua de casamatas de concreto e tinha fortes auto-suficientes feitos no subsolo, com profundidade equivalente à altura de um prédio de sete andares. Mas não adiantou. Na Segunda Guerra, a tal linha não serviu para conter os alemães, que invadiram o país. Mas Maginot não viu o trágico fracasso de sua obra: ele havia morrido em 1932. O irônico é que esse herói que sobreviveu a ferimentos graves durante a Primeira Guerra morreu por ter comido ostras estragadas, que lhe causaram tifo.

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O passarinho chamado bicudo pode viver até os 26 anos, na gaiola. Mas no Rio de Janeiro um deles viveu 41 anos.

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A “Revolução Cultural” na China começou em 1966. Mao Tse-tung tentava se fortalecer, radicalizando principalmente a juventude chinesa, contra valores ocidentais. E pregava-se um igualitarismo radical. Em alguns momentos, as fardas dos generais passou a ser igual à de soldados rasos e professores se transformavam em faxineiros da escola um dia por semana. Houve muitos excessos, como a destruição de discos de rock e de objetos de arte. Líderes políticos, de repente, passavam a ser vistos como traidores e eram humilhados publicamente. Mao morreu em 1976 e a viúva dele, Jiang Qing, liderou um grupo apelidado “Camarilha dos Quatro”, para tentar tomar o poder. Os quatro foram presos e condenados à morte, pena reduzida depois a prisão perpétua. Jiang Quing se suicidou em 1991.

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O início da Previdência Social no Brasil se deu com a criação da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários, em 24 de janeiro de 1923.

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Quando o Marechal Deodoro era presidente da República, um amigo dele queria a concessão de uma estrada de ferro e praticamente todos os dias ia ao palácio reforçar seu pedido. Um dia, Deodoro perdeu a paciência e, antes que ele pedisse mais uma vez, disse a um auxiliar, para o amigo ouvir, como se estivesse continuando uma conversa: “Estou resolvido a não conceder mais honras de coronel do Exército a ninguém. E quanto a estradas de ferro, só darei uma única concessão: será a que partir do inferno e for terminar na casa da mãe de quem pedir!”.

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Os santos e as datas comemorativas: 28 de agosto é Dia do Filósofo, e também dia de Santo Agostinho, que era filósofo; 22 de novembro é Dia da Música e Dia do Músico, e também dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos (ela tocava lira e morreu cantando, condenada à morte por ser cristã); 24 de maio é, entre outras coisas, Dia do Detento e de Nossa Senhora Auxiliadora: trata-se de uma festa para venerar Nossa Senhora como intercessora do povo junto a Jesus, seu filho – o Papa Pio VII foi feito prisioneiro pelo imperador Napoleão I em Savona e Paris e atribuiu sua libertação ao auxílio de Nossa Senhora; e 27 de abril é Dia da Empregada Doméstica e também dia de Santa Zita, que viveu de 1218 a 1278 e foi empregada doméstica em Lucca, na Itália.

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A coca é nativa da região andina, na América do Sul. Há na região um costume antigo de mascar as folhas e um mais recente de fazer um chá com elas. Isso ajuda a combater os efeitos da altitudes extremas e também entorpece um pouco o estômago, diminuindo a necessidade de comida. A cocaína, extraída da coca, não era conhecida aqui. Foi isolada pela primeira vez em 1859 ou 1860, na Alemanha, por Albert Niemann, que aplicou a droga na veia e sentiu seus efeitos. Em seguida, Freud experimentou a droga nele mesmo e no tratamento de pacientes, mas como ela causou dependência em muitos deles, abandonou seu uso. Ele apresentou a cocaína ao oftalmologista Carl Köller, que em 1884 a usou pela primeira vez como anestésico em cirurgias. A planta era utilizada também para fazer vinhos, e um deles, de marca Mariani, produzido a partir de 1863, era o preferido do Papa Leão XIII, que até deu uma medalha de honra ao produtor da bebida.

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A primeira transmissão pública da TV em cores no Brasil foi feita em 19/02/1972, A Festa da Uva, evento popular no Rio Grande do Sul. O então Presidente Médici inaugurou o evento, cuja transmissão foi comandada pela TV Difusora de Porto Alegre, e difundida pela Embratel para todo o país. A visita do presidente Médici à Festa da Uva durou uma hora, o tempo de exibição do evento a cores.

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A mosca fêmea vive, em média, 20 dias. A mosca macho, 12 dias.

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Ah, as tradicionais famílias quatrocentonas… Em 1555, o jesuíta Manuel da Nóbrega escreveu uma carta para a Corte, reclamando do tipo de gente que mandavam para cá: “A mais vil e perversa gente do reino”.

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Nabucodonosor, imperador da Babilônia, bebia muita cerveja. Mas usava essa bebida também para fins menos nobres: quando se enjoava de alguma amante, ele mandava colocá-la com todas as joias numa tina de cerveja, para morrer afogada.

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No Rio de Janeiro, no bairro de Copacabana, existe uma rua que os gozadores chamam de “Rua Quase-Quase”… E têm motivo: o nome oficial da rua é Bulhões de Carvalho.

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Uma amiga de Stalin foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz, em 1946… mas não ganhou. Alexandra Kilontoy, de 77 anos, primeira mulher que atuou como embaixadora no mundo, era russa e foi indicada para o prêmio pela Finlândia. Autora de “Amor Livre”, ela atuou como mediadora para o fim da guerra entre a URSS e a Finlândia. Os russos ficaram furiosos quando souberam que em vez dela foram premiadas dias pessoas religiosas dos Estados Unidos: John R. Mott (metodista) e Emily Balch (quaker).

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A Bienal do Livro de São Paulo, uma das maiores do mundo, é resultado de uma série de experiências. A primeira foi a Feira Popular do Livro, montada pela CBL (Câmara Brasileira do Livro), em 1951, na da praça da República, inspirada em feiras do livro europeias. Em 1961 foi promovida, em parceria com o Museu de Arte de São Paulo, a 1a Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas, que se repetiu em 1963 e 65. A 1a Bienal Internacional do Livro, bancada exclusivamente pela CBL, foi realizada entre 15 e 30 de agosto de 1970 reunindo algumas centenas de editoras nacionais e estrangeiras e atraiu milhares de pessoas.

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Beethoven começou a ficar surdo aos 32 anos de idade. Aos 46 já não ouvia mais nada, mas continuou compondo até morrer, aos 56 anos.

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Assim falou Mário Quintana: “O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família”.

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Assim falei eu: “Nem só o peido é prenúncio de uma cagada. Eleição também pode ser”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

O suicídio da mídia brasileira

15 03 23 Emir Sader Suicídio da mídia

Por Emir Sader.

A mídia tradicional brasileira é um cadáver. Um cadáver moral, um cadáver de bom jornalismo, um cadáver de boa informação, um cadáver de pluralismo, um cadáver de honestidade e de dignidade.

Como essa mídia chegou a esse ponto? Como rifou a credibilidade e o papel importante que (ao menos alguns de seus órgãos) já teve na democratização do pais?

É certo que vários fatores contam para a decadência irreversível da mídia. Entre eles a internet, sem dúvida, e com ela toda a mudança de hábitos em relação a veículos impressos – tanto jornais quanto revistas encontram-se em processo acelerado de extinção –, mas também ao peso decrescente da televisão (considerando tanto uma redução de sua audiência quanto da credibilidade do seu jornalismo).

Mas a débacle acelerada da mídia no Brasil tem outros fatores que aceleraram e decretaram sua morte. No essencial, o desencontro entre a mídia e o país, os destinos escolhidos e reiterados pelo povo brasileiro e as posições conservadoras de mídia brasileira.

A mídia já tinha se desencontrado da democracia, quando apoiou as mobilizações desestabilizadoras que levaram ao golpe de 1964, que essa mesma mídia saudou como a salvação da democracia, embora se tratasse da instalação da mais brutal e duradoura ditadura que o Brasil já conheceu. Foi, até ali, o pior momento vivido pela mídia, comprometendo-a com o que de pior tinha o país, que iria infelicitá-lo por muito tempo, com consequências até hoje.

Todos os jornais que ainda andam por aí – Folha, Estadão, Globo, entre outros – se comprometeram com o fim da democracia e a instauração da ditadura. A Abril se incorporaria depois, com relações umbilicais com a ditadura também.

Esses órgãos nunca conseguiram se livrar dessa pecha. O Globo tentou uma autocritica, inverossímil, a tal ponto que recém fez um editorial similar àquele com que saudava “a salvação da democracia” em abril de 1964. A Folha passou por uma desastrada operação de tentar enfraquecer o caráter repressivo da ditadura – chamando-a de “ditabranda” – como que para justificar suas relações carnais com a ditadura, a ponto de emprestar carros da empresa para disfarçar operações repressivas dos órgãos da ditadura. Teve que recuar, quando se deu conta do desastrado da operação que tentava.

No fim da ditadura toda a mídia acreditou que, apoiando a transição democrática, virava a pagina da ditadura e do seu passado nela. Todos éramos democratas a partir dali. O próprio caráter conciliador e ecumênico da transição parecia passar diploma de liberal a todos os que se distanciassem minimamente da ditadura – até o ACM e o seu PFL.

A eleição de Fernando Collor serviu para que a mídia – em sua quase totalidade – tratasse de se localizar do lado da nova modernidade, contra a velha esquerda, esclerosada, jurássica, estatista. Se distanciava da incomoda polarização democracia/ditadura, para situar-se no marco das dicotomias que o neoliberalismo colocava – estatal/privado.

A euforia voltava a tomar conta de boa parte da mídia, que erigia em Collor seu novo herói, que salvava a direita brasileira tanto do Lula, quanto do Brizola. Com a queda do Collor a euforia se transferiu para o FHC. Consolidava-se o cenário neoliberal, longe daquele da ditadura e da transição democrática.

O fracasso de FHC foi fatal para o destino futuro da mídia. Porque além de perder seu ídolo maior, teve que encarar o desafio que ela não soube enfrentar: o governo Lula. Quando acreditava que tinha se livrado desse desafio, com as duas vitorias sucessivas do FHC, veio o fantasma do Lula – que consolidou o desencontro da mídia com o país.

Não é um problema de compreensão, mas de interesses e de ideologia. A grande mídia, como conjunto de empresas que vivem de publicidade, tem o rabo preso com estas, que mantem essas empresas. Além disso, foi sempre o órgão das elites dominantes ao longo da historia do país.

Saiu da ditadura abraçando a versão liberal da transição, aquela que militava na democratização pelo restabelecimento do Estado de Direito sem qualquer transformação mais profunda das estruturas de poder herdadas da ditadura. E, com Collor e FHC, aderiu à versão neoliberal do liberalismo.

Lula representava exatamente o oposto. Passou a revalorizar o Estado em detrimento da centralidade do mercado pregada pelo neoliberalismo e pela mídia. Colocava o acento nas politicas sociais e não nos ajustes fiscais. Deslocou a prioridade das alianças do Brasil do Estados Unidos, da Europa e do Japão, para a América Latina e para o Sul do mundo.

A incapacidade de assimilar Lula – o que significaria uma impossível autocrítica por parte da mídia – levou-a a se assumir como força opositora frontal, ao mesmo tempo que negava as transformações positivas que o Brasil viveu desde 2003 e se dissociou do povo e do país. Essa atitude acabou sendo decisiva para o suicídio da grande mídia brasileira.

Sacrificaram qualquer objetividade informativa, qualquer possibilidade de ser um espaço de debate pluralista, reservando suas posições apenas para os editorias. Ao contrario, editorializaram tudo, negaram a realidade, atuaram como mídia partidária do bloco opositor. Foram assim não apenas perdendo audiência, mas perdendo credibilidade também.

Hoje concentram sua atuação como força partidária da oposição tentando inviabilizar a continuidade dos governos do PT – seu maior objetivo. Concentram campanhas de terrorismo econômico, de denuncismo de escândalos, de tentativa de desestabilização política, convocando manifestações contra o governo Dilma. O que acelera ainda mais a crise final da mídia impressa e a perda de credibilidade da radial e televisiva.

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A Boitempo acaba de reeditar o clássico Estado e política em Marx, de Emir Sader. Confira o depoimento abaixo, em que Sader relembra o contexto da defesa e publicação desta que foi a primeira tese sobre Marx defendida na USP:

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Publicou, entre outros, Estado e política em MarxA nova toupeira e A vingança da históriaColabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

Lançamento Boitempo: Quando o Google encontrou o WikiLeaks, de Julian Assange

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“Ninguém quer admitir que o Google se transformou num monstro. Mas foi o que aconteceu.”

A Boitempo acaba de lançar o explosivo novo livro de Julian Assange Quando o Google encontrou o WikiLeaks.

O que está por trás do Google e do sistema operacional Android, tão presentes em nossa vida? Quais os interesses das ferramentas de livre acesso da internet e das tecnologias de comunicação? A quem pertencem as informações geradas por cada passo que damos na era tecnológica?

Em junho de 2011, Julian Assange recebeu a visita inesperada do presidente do Google, Eric Schmidt, na casa de campo onde residia sob prisão domiciliar, em Norfolk, na Inglaterra. Durante horas, o líder sitiado da organização editorial insurgente mais famosa do mundo travou um embate de ideias com o bilionário responsável pelo maior império da informação que já existiu, em uma discussão voltada para os problemas políticos enfrentados pela sociedade e as soluções tecnológicas criadas pela rede global – da Primavera Árabe ao Bitcoin.

Os dois representam perspectivas radicalmente opostas: para Assange, o poder libertador da internet baseia-se em sua natureza livre e sua falta de vínculos com países, enquanto para Schmidt a emancipação está em harmonia com os objetivos da política externa dos Estados Unidos, motivada pelo estabelecimento de comunicações entre países não ocidentais e empresas e mercados norte-americanos. Pontos de vista distintos em um cabo de guerra acirrado sobre o futuro da internet.

Este livro relata o encontro entre Assange e Schmidt. Entre o fascínio e a alarmante revelação de um nada admirável mundo novo, contém a íntegra da conversa e um material inédito escrito por Assange, delineando ponto a ponto sua visão sobre o futuro da internet.

Leia abaixo a orelha do livro escrita por Slavoj Žižek:

As realizações do WikiLeaks podem ser resumidas pela autodesignação irônica de Assange como um “espião para o povo”. “Espionar para o povo” não é uma negação direta da espionagem (o que equivaleria a agir como um agente duplo, vendendo os nossos segredos ao inimigo), mas sim sua autonegação, ou seja, o questionamento do próprio princípio da espionagem, o princípio do sigilo, uma vez que seu objetivo é levar os segredos a público. Assim, o WikiLeaks atua de forma semelhante a como a “ditadura do proletariado” marxista deveria atuar (o que, é claro, raramente foi o caso): como uma autonegação imanente do próprio princípio da ditadura. Para aqueles que acham que o comunismo é uma espécie de espantalho, deve-se dizer que o WikiLeaks está praticando o comunismo ao tratar a informação como um recurso comum da humanidade.

Recentemente, nossos recursos comuns informativos se exteriorizaram como um dos principais domínios da luta de classes em dois aspectos: econômico, no sentido estrito, e sociopolítico. Por um lado, as novas mídias digitais nos confrontam com o impasse da “propriedade intelectual”. A própria natureza da World Wide Web parece ser comunista, tendendo ao livre fluxo de dados. Essa livre circulação, é claro, vem acompanhada dos próprios perigos: tal abertura levou ao surgimento de provedores não criativos (Google, Facebook) que exercem um poder quase monopolista para regular o fluxo de dados, enquanto as pessoas que criam o conteúdo se perdem no anonimato da rede.

Alguns defendem um retorno em massa à propriedade privada como solução: tudo o que circula na web, incluindo dados pessoais, deveria ser tratado como uma mercadoria valiosa e remunerada e tudo deveria ser atribuído com clareza a uma fonte humana individual. Embora seja verdade que a livre circulação anárquica e anônima gere as próprias redes de poder, é preciso questionar a solução proposta: será que a privatização global é realmente a única maneira de regulação?

Por outro lado, a mídia digital abriu novos caminhos para milhões de pessoas comuns criarem uma rede e coordenarem suas atividades coletivas, além de oferecer a órgãos do governo e empresas possibilidades até então jamais sonhadas de rastrear os nossos atos públicos e privados. Foi nessa luta que o WikiLeaks interveio de maneira tão explosiva.

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A construção em abismo da história

15 03 18 Edson Teles A construção em abismo da história[Carlos Alberto Augusto, ex-agente do Dops, posa para fotos em manifestação de 15.03.2015]
[Em depoimento à TV Trip, o delegado apelidado de “Carlinhos Metralha” afirmou que conheceu pessoalmente “muitos dos delinquentes que estão aí hoje… não metralhei porque não tive essa oportunidade. Se tivesse, o faria com o maior prazer.”

Por Edson Teles.

Cinco décadas após o Golpe Militar de 1964, duas de ditadura e três de democracia, o país vive a publicização dos trabalhos de apuração do período ditatorial. São os relatórios das comissões da verdade em suas várias instâncias. No último dia 12 de março foi lançado o Relatório da Comissão da Verdade Rubens Paiva, do Estado de São Paulo. Em pouco mais de dois anos de trabalhos, especialmente focados nos casos de mortos e desaparecidos, a Comissão teve como método principal de reconstituição da história a audição das pessoas que viveram o período.

No material publicado constam narrativas de sobreviventes, testemunhas, militantes, ex-presos políticos, familiares de vítimas, pessoas que eram crianças e adolescentes na época. Centenas de documentos, publicação aberta de livros e a biografia dos mortos e desaparecidos na ditadura estão entre os principais conteúdos do Relatório. O primeiro capítulo se dedica a elencar recomendações para as instituições do Estado de Direito, seja para as políticas de memória, seja para cobrar a ausência de atos de justiça, com a reinterpretação da Lei de Anistia e a punição dos torturadores.

Uma característica forte deste documento é a relação feita entre a repressão e a violência do período ditatorial e a repetição de certa estrutura autoritária na democracia. Os mecanismos de repressão policial, de acobertamento destas ações por parte de outras instituições e a presença de um discurso legitimador da violência do Estado são identificados como estruturas que permanecem em democracia, tendo como alvo principal a população pobre da periferia. No ato de lançamento do Relatório estavam lado a lado familiares das vítimas da ditadura e familiares das vítimas do estado democrático. À Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos juntou-se o movimento Mães de Maio para denunciar a presença de um projeto político autoritário presente e forte no país.

Apesar do tom de vitória, afinal são estes os anos em que apuramos minimamente o que foi a ditadura militar, percebe-se naquilo que não foi dito a ausência do alívio e da conclusão da elaboração de um luto.

Constata-se que o Estado brasileiro não abriu seus arquivos e que as informações das Forças Armadas continuam sonegadas no debate público. Navegando pelas biografias das vítimas fatais da ditadura percebe-se que há versões diferentes para um mesmo indivíduo, ou mesmo dúvidas sobre as circunstâncias de suas mortes. No caso dos desaparecidos políticos, muito continua ainda em aberto em função da ausência de seus corpos, de suas histórias… Os poucos que foram resgatados das valas clandestinas nas quais a ditadura os lançou tiveram esta sorte única e exclusivamente por conta do esforço e da ação individual dos seus familiares. O Estado até agora não localizou ou identificou um único desaparecido. Em 2015, não temos um único torturador condenado em juízo penal. Poucos são os processos. A história contada hoje é aquela sem vida, sem presença no fluxo de nossas existências. Correm o sério risco de ficarem empoeiradas nos museus e nas teses acadêmicas.

Os trabalhos das comissões da verdade, as várias instaladas no país desde 2012, configuram-se como construções em abismo. É como se todo o esforço de apuração tivesse chegado à constatação do vazio da experimentação deste passado recente. Abismo porque quanto mais se lança em direção à chamada verdade, mais se confirma que nada será desvelado. A memória que se constrói é a do irrealizável acesso às informações determinantes dos acontecimentos. É aquela que a “correlação de forças permitiu”. A avaliação que se extrai é a de que certo projeto político autoritário permanece atuante e segue ainda mais fortalecido. Aos familiares de vítimas da ditadura a construção em abismo vem a corroborar a sensação de que vivem a impossibilidade do luto e de que sua luta terminará apenas com a própria morte de suas existências.

Quanto mais se deslocam no tempo, menos potência temos para fazer daqueles eventos uma experiência. O abismo seria a cena do anjo de Paul Klee, como observou Walter Benjamin, que sofre o sopro do progresso impedindo a compreensão das ruínas da história.

Este vazio da experiência torna-se ainda mais concreto nas manifestações alienadas e conservadores dos últimos dias. Assistir à encenação do discurso de polarização da luta política é, de certo modo, a vitória dos golpes contra a democracia. Não há golpismo a caminho, nós já fomos atingidos. Quando a história se apresenta fria, sintetizada pelos pactos políticos, sem a pulsação das ruas é porque a potência da ação política de criar novos caminhos foi golpeada. Assistir jovens serem espancados e presos pela polícia em manifestações contra aumento da tarifa do transporte, neste contexto de ocultação da experiência vivida pela geração desaparecida na ditadura, é o sinal de que não há o que comemorar. Estes relatórios servem como ferramentas para a repetição de velhos questionamentos, para os quais mesmo que não se tenha respostas, precisam ser feitos e refeitos:

Onde está André Grabois?*

Onde está Amarildo?

Onde estão?

Neste abismo entre o passado e o futuro é sempre bom lembrar de Hannah Arendt, para quem os “tempos sombrios” podem ser a abertura para processos criativos.

André Grabois é meu tio, desaparecido na Guerrilha do Araguaia, provavelmente no final do ano de 1973. Conferir a parte conhecida de sua história no portal desaparecidospoliticos.org.br.

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

A adaga dos covardes, ou, O limite da imbecilidade direitista

15 03 17 Mauro Iasi LimitesPor Mauro Luis Iasi. 

Um amigo libanês, pintor de primeira e bruxo militante, mostrou-me certa vez uma adaga em uma bainha de prata ricamente trabalhada com uma inscrição em árabe que ele traduziu. A frase alertava ao portador da arma que seria sábio quem não a desembainhasse, mas aquele que o fizesse não usando a arma seria um covarde.

A delicada conjuntura em que nos encontramos está cheia de blefes, o que torna difícil a análise. A direita ameaça com o impedimento da presidente, um ex-presidente ameaça colocar o “exercito” de outros para defender o seu governo, outro ex-presidente tece pendores democráticos e de respeito a legalidade enquanto seu partido conspira na direção oposta.

Como sempre, para superar a borbulha enganosa da aparência, é necessário descer às determinações de classe e aos interesses em jogo.

[TRÊS BLEFES]

O equilíbrio do governo de pacto social sempre foi difícil uma vez que supõe poder conciliar o que é inconciliável, isto é, os interesses de classe opostos de trabalhadores e burgueses. A engenharia possível pressupõe uma certa estabilidade econômica e uma governabilidade negociada por meio de cargos no governo, favorecimentos eleitorais e emendas ao orçamento para responder aos lobbies por trás (pela frente e por todos os lados) dos digníssimos parlamentares eleitos e se completa com a ação de governo que garante as condições para a acumulação de capitais em proporções adequadas. Enquanto isso acena aos trabalhadores com a miragem da inserção na sociedade de mercado via garantia dos níveis de emprego e salário, acesso ao crédito e programas compensatórios de combate às manifestações mais agudas da miséria absoluta.

O mais importante é que funciona enquanto a burguesia deseje que funcione.

Por um tempo funcionou e reconduziu os governos petistas em três mandatos consecutivos. O quarto mandato chegou de raspão com o país dividido praticamente ao meio. Um congresso nacional ainda mais conservador, uma oposição fortalecida e um PMDB como fiel da balança e representando a condição, mais que nunca, para a governabilidade. Uma receita para a instabilidade, toda a negociação anterior e durante a campanha eleitoral se torna insuficiente. O PMDB exige mais espaço (Lula se apressa em afirmar que concorda com o pleito), mas também mais protagonismo e mais independência. Ganha a presidência da Câmara com Cunha e endurece a negociação sobre a composição do governo e o orçamento abrindo margem para chantagear a presidência.

Aqui o primeiro blefe. O PMDB tem a vice presidência e vários ministérios chaves. Controla um quinhão invejável no segundo e terceiro escalões, governos de estado que por sua vez dependem de projetos e verbas federais, assim como de favores eleitorais dos mais diversos. Tem pouca chances de um vôo solo como alternativa e suas chances estão ligadas ao sucesso do governo que enfraquece para negociar melhor.

O PSDB, histrionicamente bradando contra o governo com o cacife de uma oposição que garfou mais de 48% dos votos no último pleito, também se encontra em posição problemática. Não pode atacar o governo pelas medidas impopulares assumidas, pois as defendeu abertamente na campanha. Da mesma forma tampouco pode se dar ao luxo de se contrapor à linha geral da condução da economia e do Estado, pois no essencial respeita os compromissos macro econômicos, a premissa sacrossanta do superávit primário, a lógica privatista e mercantilizadora da vida… Escolheu a centralidade dos escândalos e da corrupção, mas convenhamos, é um terreno em que o PSDB não tem só o telhado de vidro, mas uma casa todinha de vidro. Basta lembrar a forma como foi feita a privatização das tele-comunicações sob a batuta do falecido Serjão, a entrega da Vale do Rio Doce, as contas não tão secretas em paraísos fiscais, para não falar do metrô de São Paulo e outras aventuras conhecidas.

Eis o segundo blefe. Alardeia-se o combate à corrupção, torcendo para que a apuração rigorosa e profunda, “doa a quem doer”, não chegue muito perto da mão que acusa, como o caso do HSBC parece indicar. Se o caos interromper o mandato da presidente e gerar dividendos eleitorais ao PSDB, ótimo para eles, mas não se pode fritar muito de modo que a fumaça não sufoque a todos na cozinha do Estado burguês. Qualquer alternativa de governo do PSDB passa pela negociação com o PMDB, daí o dilema: como queimar a gordura do PT sem tostar o bife do PMDB?

Por isso o escudeiro do caos, Aloysio Nunes e outros asseclas, vão às ruas pelo “sangue” de Dilma Rousseff, enquanto FHC e Aécio Neves, pedem um pouco mais de calma. Afinal, somos todos civilizados, não é?

[A APOSTA PETISTA]

O governo, um tanto quanto desorientado, pois julgava que bastava a mera repetição do mesmo procedimento anteriormente exercitado e uma base sólida no Congresso para escapar do pior da crise, tateia erraticamente. Antes das eleições sua prioridade era recompor uma base e compensar as defecções, como as PSB e PTB, mas, prioritariamente mostrar-se confiável aos financiadores de campanha: as empreiteiras, os bancos, os industriais, o agronegócio, em suma, os donos do governo. As alianças, o programa e o perfil da campanha não deixaram margem à dúvida desta prioridade.

No entanto, a polarização da campanha contra o PSDB (Marina foi um episódio inflado que não se manteve) obrigou os petistas a desenterrar o discurso da luta entre ricos e pobres, do fantasma do passado e, na reta final, produzir um factóide diversionista segundo o qual trata-se de um embate de projetos que contrapunha de um lado uma direta privatista, que atacaria os direitos dos trabalhadores e reverteria as “conquistas” alcançadas, e de outro uma proposta progressista que enfrentaria a crise com crescimento (o que implicava, por sua vez, a manutenção da generosa ajuda aos capitalistas) e não realizasse ataques aos direitos dos trabalhadores.

Vejam que o governo agiu com uma certa sinceridade. Precisava atrair os setores sociais (por isso o discurso), mas não podia romper com suas alianças e com as exigências de seus patrões (por isso a manutenção do rumo geral conservador). Não é esse o blefe do governo. É que tem gente que quer tanto uma coisa que a projeta na realidade como se realidade fosse…

O problema é que passada as eleições, os setores sociais e movimentos populares que generosamente se dispuseram a votar na candidata “mais progressista” para evitar a direita, se viram diante do constrangimento de um governo que moveu-se rapidamente para implementar tudo aquilo que a direita perversa propôs. Os movimentos sociais e populares já tinham cumprido sua função, agora era o momento da incrível arte do pragmatismo político no qual o governo do PT tinha que gerar as condições para manter-se no governo até o final e, quem sabe, um próximo mandato. Nesta direção era necessário recompor a base, acertar a vida com o Congresso e tomar as medidas amargas contra os trabalhadores para garantir a continuidade da política de superávits primários e a sangria de recursos do fundo público para o capital financeiro.

Evidente que isso gerou um descontentamento muito grande, mas aqui fico na incômoda posição de defender a presidente Dilma. Ela falou que ia fazer isso, era evidente que faria. Os setores sociais que apostaram, com razões louváveis e algumas até justificadas, nesta opção estão descontentes com a imagem que criaram e não com o real efetivo. Acontece com torcidas de futebol, com relacionamentos amorosos… acontece também com projetos políticos. Já cantava Chico com as palavras de Ruy Guerra:

“Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto”.

…e até o Chico acreditou!

Certos movimentos sociais, setores populares e segmentos de esquerda literalmente não negociaram nada. Daí o qualificativo “generosamente” ao tratar do apoio oferecido. O Governo não se comprometeu formalmente com nenhum dos pontos que constituem a fantasia imaginada de uma inflexão à esquerda. Pelo contrario, deu o tempo inteiro mostras que não alteraria o rumo da política que enterrou a reforma agrária em benefício do agronegócio, os direitos trabalhistas em nome das condições favoráveis ao crescimento da economia capitalista, a privatização contra as políticas públicas, o acordo com os fundamentalistas religiosos descartando a luta contra a homofobia e outras pautas, a conivência com velhas formas políticas contra uma verdadeira mudança das regras do fazer política na direção dos interesses populares.

[A VELHA DIREITA]

Aqui é que começa o problema. Apesar de ter cedido em tudo… tudo mesmo, ao que a ordem burguesa exigiu, o governo de pacto social do PT continua ameaçado. Ocorre é que a metáfora da adaga aqui se torna limitada. Não estamos diante de um instrumento nas mãos de um sujeito, mas de uma dinâmica política que uma vez desencadeada ganha certa autonomia. Os sujeitos políticos são compósitos, formados por fragmentos, facções segmentos que reproduzem em ponto menor o dilema da sociabilidade burguesa: a contradição entre interesses individuais particulares e interesse geral.

Nenhum ator particular que desembainhou a adaga parece de fato querer o impeachment, mas parece que a adaga quer. Em tempos de fetichismo absoluto, um fenômeno desses não devia nos espantar. É verdade que a burguesia monopolista em suas diferentes facções (industrial, bancária, agrária, comercial, etc.) nunca ganhou tanto e prescreveu o remédio que seus funcionários no governo estão zelosamente administrando. Precisa de estabilidade institucional, teme reviravoltas que possam colocar em risco, real ou potencial, a ordem. Mas adorariam encerrar este ciclo de governos petistas. E se houver possibilidade, porque não?

O mesmo pode ser dito do imperialismo. Alguns governistas afoitos e seu exercito de dedos nervosos nas redes sociais, desenterraram o imperialismo como o sujeito oculto da desestabilização. Ora o imperialismo sempre pensa em cenários e a desestabilização nunca ficou fora da pauta. A pergunta é: como se pensou nestes doze anos enfrentar esta evidência? Armando o povo, preparando as forças armadas e buscando aliados, como na Venezuela? Ou se mostrando confiável e evitando se apresentar como responsável, como nos governos Lula e Dilma, e fazendo um acordo militar com os EUA, mobilizando e dirigindo tropas de intervenção no Haiti?

Impedimentos e interrupções institucionais não são utilizados apenas contra governos de “esquerda” ou de um reformismo potencialmente perigoso à ordem capitalista (duas coisas que o governo do PT não representa nem remotamente) mas também contra governos que já cumpriram sua função e passaram a se tornar incômodos. É o que aconteceu quando surgiu a necessidade de interromper o Estado Novo getulista ou a autocracia burguesa no final dos anos 1970.

A grande burguesia e o imperialismo lucraram com o ciclo petista, mas não lutarão para defendê-lo se ele ameaçar ir para o ralo. A burguesia não é fiel, nem monogâmica. Nunca foi. Não será agora que irá mudar sua natureza.

A expressão política da burguesia tem, no entanto, outros problemas. A ocupação do espaço político central pelo PT lhe rouba sua essencialíssima função na vida. Ela precisa encontrar um meio de se livrar do PT porque este ocupa o lugar que por coerência seria o seu, por isso quer aproveitar toda chance possível. Sua responsabilidade com os interesses de classe da grande burguesia monopolista faz com que ela hesite, assim como o medo de, no chumbo trocado das acusações, colocar em risco a ordem instituída. Mas ela tem a obrigação de tentar, porque disso depende sua sobrevivência.

[A EXTREMA DIREITA]

Isso é diferente quando se trata da extrema direita. Ela é o cachorro louco da burguesia. É incômoda e caricatural, mas útil. Não pede licença para pôr fogo no circo. Em épocas normais a burguesia a mantém presa na jaula do Estado de Direito, mas a crise é seu habitat natural. Isolada ela é só pitoresca, como nas marchas que andou ensaiando pelo país. Mas, num certo caldo de cultura, se alimenta do irracionalismo e do conservadorismo, cresce e pode se tornar uma ameaça, mesmo um incômodo para seus donos.

A extrema direita foi às ruas e ganhou dimensão massiva nos últimos protestos pelo impeachment. A extrema direita quer o impedimento da presidente, se possível seu fuzilamento e a exumação do corpo de Marx para ser fuzilado também. Parece que descobriram o motivo do desmonte da educação no Brasil, é um perigoso terrorista de barbas longas (sem turbante) chamado Paulo Freire.

[O BLEFE PETISTA]

Diante deste cenário intricado o PT mantém-se fiel à sua ação aparentemente errática. Faz todos os esforços para garantir a credibilidade diante do grande capital e de seus aliados de direita, que constituem a base operacional de seu governo; ao mesmo tempo em que precisa mobilizar suas “bases sociais” (de fato eleitorais) para não virar presa fácil contra aqueles que querem sua queda.

Neste ponto a coisa fica ridícula. O governo impõe as chamadas medidas de austeridade e ataca diretamente os direitos dos trabalhadores. O principal partido do governo (talvez o segundo na linha hierárquica depois do PMDB) – o PT – aprova por maioria as medidas de austeridade propostas, e o ex-presidente Lula conclama que elas são necessárias e não atacam os direitos dos trabalhadores. Ao mesmo tempo conclama suas “bases sociais” (na verdade, em parte aparelhos burocráticos que um dia foram organizações independentes da classe trabalhadora) para atos em defesa do governo, mas contra as medidas de austeridade… do mesmo governo… que implementa as medidas… Estão acompanhando?

Ora, aqui também não se deve culpar o PT. Ele não pode fazer outra coisa. Os setores que, com razões honestas, queriam uma guinada à esquerda estão trabalhando com o desejo, não com a realidade. Este seria o caminho mais rápido para o impeachment. O governo jamais fará isso. Todos sabem. Desde os que sinceramente gostariam que o governo fosse mais à esquerda, até os governistas mais renitentes que acham que tudo está certo e não há nada a ser corrigido.

Este é o blefe.

Mobilizam as massas, mas para apassivá-las. As mobiliza para usá-las como instrumento em seu jogo e não como força própria em busca de seus próprios interesses de classe. É para ameaçar seus aliados e adversários. Desembainha uma adaga que não pretende usar.

A direita chama um ato pelo impeachment. Lógico que a extrema direita se anima. Mas as lideranças estão preocupadas, seus nomes andam sendo divulgados pelas listas dos envolvidos nos atos de corrupção. FHC pede calma, não é hora de impeachment. Michel Temer sorri ao lado dos presidentes do Senado e da Câmara (os dois na lista) na arte de fazer de conta que ele não tem nada a ver com isso.

Na mais alta temperatura do acirramento, escuto a notícia que Dilma propôs um pacto… com o PSDB… que não aceitou… mas, está pensando. Depois do domingo amarelo… duvido.

No meio disso uma população tentando entender o que está acontecendo. De um lado, um cara com uma adaga bradando – “vou te meter um impeachment no bucho!” – (lógico, com muita calma para não prejudicar os negócios), de outro um senhor que pregava a paz e o amor e que adora dizer que banqueiros nunca ganharam tanto em seu governo ameaçando chamar as massas para uma rebelião (lógico, desde que não atrapalhe o bom relacionamento da ministra do agronegócio com a presidente e as medidas de austeridade, que na verdade são necessárias… não é?).

De um lado os governistas chamam um ato contra as medidas de austeridade que atacam os trabalhadores e em defesa do governo que as aplica, de outro a direita que quer derrubar o governo “esquerdista”, mas aprova as medidas.

E vocês querem que os trabalhadores entendam isso? Lá na consciência imediata da classe trabalhadora uma faxineira explica ao repórter de um jornal paulista porque aderiu as vaias contra a presidente diante de seu pronunciamento (no qual disse que era preciso coragem para aplicar as medidas contra os trabalhadores propostas por seu ministro Levy) e diz:

“Querem saber o motivo da vaia? É simples: estou cansada de trabalhar e não ter nada”.

Outro trabalhador é ainda mais direto:

“Ela mexeu nos direitos do trabalhador. Falou a campanha inteira que não ia e fez”.

(“Após manifestação de ‘peões’, empresária defende petista“, Folha de S. Paulo, 11/03/2015, por Juliana Sayuri e Daniela Lima)

[A PERGUNTA QUE NÃO SE CALA]

Que a direita e a extrema direita se comportem como tal é compreensível e esperado. A pergunta que precisa ser respondida é por que ela ganha apoio de amplos setores de massa. A resposta cômoda para o governismo defensor do pacto social é simplista, trata-se de quem votou e quem não votou na Dilma. Típico de quem abandonou o referencial de classe para pensar em eleitores. Trata-se perigosamente de um momento onde os anseios e inquietações de setores dos trabalhadores estão sendo capturados pelo ideário conservador e de direita.

E que ideário é esse? A rede Globo em mais uma demonstração de miséria jornalística tenta enquadrar a realidade no molde de seu jornalismo de desinformação, transformando o circo de horrores da direita na rua no dia 15 em uma “festa da democracia” e perguntando aos inquietos e perdidos ministros Rosseto e Cardoso como o governo responderia às “demandas da ruas”, a “voz das ruas”, o “grito das ruas”. Apesar da emissora (que recebeu auxílio governo petista para não quebrar) tentar reapresentar o samba de uma nota só da corrupção, as “ruas” gritavam coisas como: “pela intervenção militar”, “morte aos comunistas”, “em defesa do feminicídio”, “pela maioridade penal”, “contra as doutrinações marxistas nas escolas”. Algumas demandas, para facilitar o entendimento, escritas em inglês e francês.

Vejam, com todos os problemas das Jornadas de 2013 podíamos ver ali como central um conjunto de demandas como a defesa do transporte público, contra os gastos com os eventos esportivos, contra a violência da política militar, a denúncia dos limites desta pobre democracia representativa. Ainda que houvesse por um tempo, a tentativa de contrabando das bandeiras direitistas elas foram sendo isoladas das manifestações. Agora elas dão o tom e organizam grandes manifestações em defesa da barbárie.

Interessante notar que as Jornadas de 2013 forma violentamente reprimidas e o senhor Cardoso, Ministro da (in)Justiça, se apressou a cercar de garantias legais a ilegalidade da repressão e criminalização dos movimentos. Já no festival da extrema direita anti-comunista a policia militar tirava fotos e selfies com os animados participantes vestidos com a camisa da CBF, enquanto à noite o Ministro dizia que precisamos respeitar as manifestações porque são democráticas.

15 03 17 Mauro Iasi Selfie Choque[Oficial da tropa de choque tira foto com família verde a amarela. A imagem foi capturada pelas lentes da TV Trip na cobertura que fez da manifestação em São Paulo]

Meu barbeiro, filho de operário eletricitário, que se animou com a campanha das diretas porque queria votar para presidente, diz que este governo precisa acabar porque senão vai implementar aqui um regime parecido com o da Venezuela e sugere duas alternativas: entregar o Brasil para ser administrado pelos EUA ou devolver aos índios (eu sugeri que ele insistisse na segunda alternativa).

O mais surpreendente, no entanto, foi sua conclusão diante das minhas ponderações. Com o olhar sério e aquela autoridade que só possui quem segura uma navalha afiada em sua garganta, ele concluiu: “Sabe, eu acho que ninguém quer o impeachment, o que eles querem é deixar este governa sangrar por quatro anos para depois derrotá-lo de uma vez por todas nas próximas eleições”.

Sabe do que mais, acho que meu barbeiro está certo. Feito isso, pegou a navalha e aparou o que restava de cabelo na minha nuca, limpando a espuma em um pano. Lá na rua ainda se ouvem os gritos de combatentes segurando suas adagas cegas que não pretendem usar… “olha que eu te furo”… “não se eu te furar primeiro”… enquanto se prepara o acordo.

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Dilma, o Recife mandou te chamar

Em 12 de março, foi o aniversário de duas meninas quase gêmeas, duas cidades quase em uma só, de tão próximas e parecidas, o Recife e Olinda. Eu gostaria de pedir uma suspensão do noticiário político, como se fosse possível haver uma trégua breve na guerra. Devo? É possível? Façamos de conta que sim, num intervalo ligeiro, para falar de passagem da cidade que na semana passada fez 478 anos.

Do Recife posso dizer que, para onde vou, sinto sempre em todas as ruas de outros lugares uma falta, ora do cheiro de mar, ora do Capibaribe, ora do suco de graviola, de cajá, de feijão com charque e jerimum, das coisas mais caras que fazem uma identidade. Se estou em João Pessoa, cidade bonita e acolhedora, na praia de Tambaú descubro com exclamações o restaurante Gambrinus, mesmo nome do bar que existia na Marquês de Olinda, em nossa juventude. O Recife traz para mim a situação daquela música de Herivelto Martins, Pensando em ti: “eu amanheço, eu anoiteço, pensando em ti”, cidade. Nos livros que tento ler em cada frase o Recife está. Santa cidade, não deixa nem espaço para eu pensar em Deus. Aliás, se existe, Ele é o Recife.

De tantos locais recifenses, poderia falar do Mercado da Boa Vista, onde todos os dias são de sol, pois não consigo imaginar um minuto sequer de tempo sombrio, de inverno pesado, de toró brabo ou de noite soturna, lá no Mercado da Boa Vista. Ou do Mercado de Água Fria, onde se apresentavam mamulengos, na pracinha em frente, ou espetáculos de fantoches, como a eles se referem os dicionários do sudeste. E para a frente do mercado descia também, lá do Alto do Pascoal, um dos maiores artistas de teatro de bonecos que já vi: Ginu, o criador do personagem Professor Tiridá. Ele era um encanto para adultos e crianças. Mas além de Ginu, que ficou conhecido como O Professor Tiridá, assim como Chaplin se transformara em Carlitos, além de Ginu havia uma excelência da arte da ilusão que era um senhor ventríloquo. Não sei o nome dele, mas sei que era ótimo em dar vida a um boneco negro, do tamanho de um menino, a quem ele chamava de Benedito. Hoje compreendo que veio dele a minha primeira e inesquecível lição de romancista. Os personagens têm vida, se tornam pessoas pela verdade que falam.

Era bom continuar a falar sobre a excelência do Recife. Mas acho que não devo pedir a trégua para um lado só, quando contra o nosso lado aumentam os tiros. Assim, eu volto, sem sair do tema do Recife, para falar da política na cidade.

Lembro que no livro A vida quer é coragem, de Ricardo Batista, assim se fala:

“[…] a uruguaia Maria Cristina Uslendi conta que em outubro de 1971, toda vez que voltava das sessões de tortura encontrava Dilma de braços abertos ‘me amparando, me ajudando a usar a latrina quando não tinha forças, me dando sopinhas de colher na boca, me cedendo a parte de baixo do beliche e pondo na vitrolinha de pilhas as melhores músicas da MPB. Cristina conta que Dilma sempre pedia a ela que prestasse muita atenção à letra de ‘Para um amor no Recife’, uma canção de Paulinho.”

Na época, diziam que Paulinho fez “Para um amor no Recife” para a secretária de Dom Hélder Câmara. As boas e as más línguas (principalmente) acrescentavam que a dedicada senhora vinha a ser a namorada secreta do arcebispo. Entre o sussurro e a maledicência, entre a repressão da ditadura Médici e a resistência serena erguia-se um poema belo, quase autônomo da melodia: “A razão por que mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você ”. Esta é uma canção que só fez melhorar ao longo de todos esses anos. A ditadura não existe mais, o seu motivo imediato não mais existe, mas a composição só vem crescendo, apesar da degradação do Recife, que entra quase incidentalmente no título.

E agora falo mais perto do dia seguinte, da sexta-feira 13 de março. O Recife já deu provas, quando tudo era incerteza e o céu era nuvens anunciando trovões e o mais brabo toró, o Recife já deu prova de que não falta à luta. Assim foi aqui em outubro de 2014, quando a militância e todo o povo anunciaram o que seriam as urnas, quando a cidade se tornou vermelha:

Com um convite à militância de Dilma para que comparecesse à saída do bloco de carnaval Eu Acho é Pouco, naquele dia houve um comparecimento em massa de todas as tribos de esquerda e de centro e indecisos no Marco Zero e na Rua do Apolo. Olhem, a cor dominante era a vermelha. E com alegria e com orgulho.

Todas as tribos, quero dizer, velhos, crianças, jovens, idosos, bebês carregados no colo e em carrinhos, mas nada de escadaria Odessa no Encouraçado Potemkin, apenas uma formação de militância. Essas crianças vão ser socialistas e de esquerda no futuro, eu não tenho nem dúvida. E quando eu digo todas as tribos, quero dizer também: classe média, trabalhadores, estudantes, negros, brancos, mulatos, caboclos, intelectuais, artistas e analfabetos. E moças e moças e moças de todas as cores, evangelhos e credos, num autêntico creio em deus pai todo poderoso criador da esquerda e da terra do Recife.

Aquela ideia de não-lugar, de estranhamento, de virar estrangeiro em minha própria cidade, que senti com o resultado das eleições para governador, foi embora. O Recife ontem voltou a ser o abrigo primordial do útero coletivo. A terra que nos faz crescer com novas forças, como aquele deus grego que no contato com o chão virava imortal… Mas com tanta gente de todas as cores e raças e idades, dos bebês que não estavam em Odessa, mas cujos pais iriam à escadaria se estivessem na Rússia do czar, debaixo da estátua de Chico Science na Rua da Moeda, eu soube então que ontem o Recife foi o lugar. Do Brasil.

Assim foi, na mais recente sexta-feira. E continua o mesmo ardor de antes, até mesmo depois do último domingo, presidenta, quando desejam destruir o voto das urnas. Saiba mais uma vez, Dilma, que o Recife mandou te chamar.

* Ouça aqui o comentário de Urariano Mota sobre o aniversário do Recife na Rádio Vermelho.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Reinventando o atraso

15 03 16 Ruy BragaPor Ruy Braga e Elísio Estanque.

Após um período de intensas lutas sociais seguidas à queda da monarquia, em 1910, Portugal foi marcado, durante o século XX, pela dolorosa experiência de uma longa ditadura. Apoiados num Estado corporativo fortemente repressivo e que contou com a ajuda de uma igreja ressentida com as expropriações promovidas pela república, os impulsos de modernidade e de industrialização que o país viveu tiveram sempre por detrás a tutela protecionista do regime autoritário. O processo de formação e recomposição das classes sociais e, em especial, a emergência do operariado industrial e semi-urbano da região de Lisboa-Setúbal constituem um fenômeno no qual se enlaçam não apenas a trajetória e o destino históricos de Portugal nos últimos cem anos, como também as antinomias presentes de todo um subcontinente em crise.

Rumo à margem sul de Lisboa…

A despeito de alguns esforços pioneiros na construção naval ocorridos durante o período monárquico-constitucional consolidado a partir de 1851, é patente que a história da indústria portuguesa praticamente confunde-se com a formação e a consolidação da Companhia União Fabril (CUF). Originalmente criada em 1865 para fabricar velas e sabão, já no final do século XIX, a CUF decidiu investir na produção de adubos a fim de lucrar com um setor agrícola em expansão cujo processo de modernização capitalista floresceu durante o governo de João Franco (1906-1908) e sob os auspícios de políticos reformadores como Hintze Ribeiro1. Assim, já em 1908 foi inaugurada na região de Setúbal, mais especificamente, na cidade do Barreiro, a primeira fábrica de óleo do bagaço de azeitona e, logo a seguir, a de adubos químicos fosfatados destinados às grandes fazendas do Alentejo.2

Tendo à frente Alfredo da Silva, capitão da indústria cujo autoritarismo ajudou a impulsionar a monopolização da economia portuguesa, a CUF, mesmo após a crise de 1929, diversificou suas atividades no entre-guerras, modernizando e ampliando suas fábricas no Barreiro. Este esforço de investimento culminou em 1937 no arrendamento do estaleiro naval da Rocha, localizado em Alcântara, Lisboa, e, posteriormente, em 1963, na criação da emblemática empresa de construção e reparação naval, a Lisnave. Para Fernando Rosas:

“Ao findar o segundo conflito mundial, o essencial do pequeno núcleo dos sectores mais modernos da indústria portuguesa tinha nascido à sombra do aproveitamento possível das sucessivas conjunturas internacionais propícias, desde certas químicas da CUF ou de empresas belgas e francesas e algumas metalúrgicas modernas (finais do século XIX, inícios do século XX), passando pelos cimentos Sommer (no primeiro pós-guerra), até à indústria de material eléctrico ou à refinação de petróleo na segunda metade dos anos 30. Os índices de produção industrial disponíveis registram, aliás, entre 1939 e 1945 um crescimento regular (uma taxa de crescimento médio anual de cerca de 5%) tanto no rescaldo da depressão internacional como nas difíceis condições do conflito mundial. A evolução da formação bruta do capital fixo na indústria, apesar dos parênteses constituídos pelos anos de maior impacto da crise de 1929 (entre 1930 e 1932) – seguidos de uma clara recuperação – e pelas novas quebras originadas pelo cerco económico da guerra (entre 1931 e 1944), manteve a sua tendência ascensional”3

Assim, quando da morte de Alfredo da Silva, em 1942, a CUF já era o mais importante grupo financeiro-industrial da península Ibérica, com investimentos em dezenas de empresas e cerca de 70 mil trabalhadores empregados.4 Por meio dos laços de cumplicidade política desenvolvidos por Alfredo da Silva com a ditadura salazarista5 a empresa prosperou tendo por base a proteção de seus mercados, o crédito oficial subsidiado e a intensa repressão aos sindicatos. Em termos gerais, é possível dizer que o esforço de industrialização e a transição ao modelo corporativista em Portugal foi subsidiado pela repressão aos trabalhadores e pelos baixos salários.6 Nas palavras de Fernando Rosas:

“Uma industrialização historicamente assente na sobreexploração da força de trabalho, em grande medida semicamponesa, com largo peso de mulheres e crianças, analfabeta, sem formação técnica de qualquer espécie e privada de liberdade de associação e expressão sindicais. Salários baixíssimos e longas jornadas de trabalho, conjugados com as várias modalidades de proteccionismo estatal, foram viabilizando a maioria das empresas dos sectores industriais tradicionais. De uma forma geral, eram escassas as preocupações patronais com o investimento tecnológico, a formação do pessoal ou a adopção de esquemas assistenciais, uma vez que se sobrevivia e até se prosperava ao abrigo da concorrência e da reivindicação e à custa de um operariado que, em boa parte, ia buscar à terra o complemento do salário que o empresário não pagava.”7

Um modo de regulação corporativo e despótico imposto pela cúpula do Estado salazarista por meio do chamado “condicionamento industrial”, assim como pelo total desmantelamento dos antigos sindicatos autônomos da I República (1910-1926), organizou-se em torno das péssimas condições laborais, da perseguição aos sindicalistas e de pequenas concessões em termos do acesso à chamada “obra social cufista”, isto é, escolas, moradias e hospitais, mas apenas para aqueles operários que aceitassem a superexploração nas fábricas.

O crescimento da empresa alimentou-se de um caudaloso fluxo de antigos assalariados agrícolas vindos dos grandes latifúndios da região do Baixo Alentejo, região sul de Portugal, localizada entre Lisboa e o Algarve, e, ainda hoje, uma área dominada pela agricultura.8 Fugindo do atraso rural, em busca de melhores oportunidades de trabalho e atraída pelas promessas do acesso aos serviços sociais garantidos pelo paternalismo industrial, uma massa de trabalhadores rurais acantonou-se em várias regiões próximas ou adjacentes à Lisboa, tais como Setúbal e Almada, ao sul, e Moscavide, Sacavém e Vila-Franca-de-Xira, a nordeste.

Entre as décadas de 1930 e 1940, o paternalismo autoritário de Salazar decidiu implementar uma faceta “social” para o regime promovendo, sob a tutela do Ministro Duarte Pacheco, a construção de bairros destinados à classe trabalhadora na periferia de Lisboa, de que são exemplos os bairros da Encarnação, de Madre de Deus ou o Alto da Serafina.9 Esta face “social” era acompanhada pela ideologia do “Portugal de brandos costumes”, além da promoção do estilo “Casa Portuguesa” e outros símbolos exibidos pela doutrina oficial, celebrados na grande Exposição do Mundo Português realizada em 1940, ponto culminante da propaganda salazarista.

Ainda que recém-chegados ao mundo fabril, foi notável o ativismo dos operários industriais de primeira geração no movimento sindical liderado pelo Partido Comunista Português (PCP). Apesar de relativamente pequenos e, em geral, controlados pelo regime,10 os sindicatos industriais foram progressivamente infiltrados por correntes políticas organizadas, sobretudo, comunistas e setores progressistas ligados à igreja católica, tornando-se as principais forças de resistência ao salazarismo. Assim, o movimento sindical protagonizou, em julho de 1943, a mais longa e emblemática greve do Estado Novo, debelada apenas pela ocupação militar das fábricas da CUF.11

Derrotado pelas forças repressivas do regime, o sindicalismo cufista ressurgiu mais tarde, em 1969, durante a greve do jovem operariado da construção naval na Lisnave de Almada, quando a ação clandestina do PCP voltou a crescer no polo industrial da margem sul do Tejo. Em boa parte descendente de alentejanos, esta nova geração de trabalhadores começava a emergir após a saída de Salazar do poder e num contexto marcado por crescentes expectativas quanto às reformas democráticas da “Primavera Marcelista”, coincidente com a consolidação da indústria na região e com o desenvolvimento do setor de serviços.12 Embora esse movimento tenha sido derrotado, e apesar das demissões decorrentes da greve, os jovens operários navais iniciaram no final da década de 1960 um vigoroso ciclo de mobilização que, após o 25 de Abril de 1974, ganharia um novo impulso, culminando na vitoriosa greve de 12 de setembro de 1974.

Após a Revolução dos Cravos, com a nacionalização e o desmembramento do grupo CUF, seguida pela reprivatização e devolução das empresas à família Mello, no final da década de 1980, as atividades industriais da CUF conheceram um período de acentuado declínio econômico seguido pelo aumento do desemprego na região de Setúbal.13 Somente na década de 1980, com a estabilização democrática, um modelo de características fordistas formou-se em Portugal, ainda que nunca tenha logrado se consolidar. No final dos anos 1990, entretanto, com a derrocada do fordismo, as atividades relacionadas aos serviços médicos, financeiros e hoteleiros foram progressivamente adquirindo importância estratégica para Jorge de Mello e José de Mello, os herdeiros do antigo império industrial da CUF.14 Hoje em dia, a CUF transformou-se no maior grupo privado de saúde de Portugal, obviamente interessado em aumentar seus lucros a partir da deterioração do sistema público de saúde promovida pelas políticas austeritárias aplicadas pelo governo de Passos Coelho.

Assim como no Brasil durante a ditadura civil-militar, o esboço de fordismo periférico português, em parte apoiado na íntima cumplicidade entre António de Oliveira Salazar e meia dúzia de famílias,15 como a de Alfredo da Silva, teve como contrapartida o implacável controle do aparelho repressivo sobre um operariado com raízes no Alentejo.

…e de volta ao Alentejo.

Ao visitar a cidade alentejana de Aljustrel, onde ficam as minas que forneciam a pirite para as fábricas da CUF, não é difícil encontrar trabalhadores que ainda se lembram dos assassinatos de António Adângio e Francisco Madeira, em 28 de abril de 1962, durante um protesto contra a prisão de mineiros grevistas. No povoado de Rio de Moinhos, por exemplo, entrevistamos um ex-mineiro, Manuel Guisado, cujo pai, José Guisado, foi preso e torturado pela Guarda Nacional Republicana (GNR) em razão de sua participação na greve de abril de 1960. As lembranças de Manuel Guisado a respeito das inúmeras greves ocorridas na região alongam-se até os anos 1990 quando a atividade mineira declinou em Aljustrel.16

O “condicionamento industrial” implementado por Salazar entre os anos 1930 e 1950 visou tutelar a industrialização incipiente e tardia de um país cujas elites supunham analfabeto, beato e resignado. Porém, mais recentemente, em 1986, após a integração à União Europeia, a entrada de fundos financeiros da Europa do Norte significou o desmantelamento quase total da indústria, assim como da agricultura e de outras atividades tradicionais. No Alentejo, como em outras regiões do país, a decadência industrial foi acompanhada pelo crescimento do turismo e dos investimentos em infraestruturas necessárias a estas atividades, como estradas e pontes.17

Atualmente, ao atravessar esta vasta planície rumo ao Algarve, é fácil seguir as indicações para campos de golfe, hotéis de luxo, grandes resorts, casinos e spas da região. Em paralelo ao crescimento do turismo, é possível perceber igualmente um renascimento de inúmeras manifestações culturais de raiz praticamente desaparecidas e que, com o apoio de prefeituras, muitas delas governadas pelo PCP, como em Castro Verde e em Odemira, florescem hoje em dia entre os jovens, como, por exemplo, a viola campaniça. O cante polifônico alentejano, inclusive, acaba de ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial da humanidade pela UNESCO.18 Dispensável dizer que se trata de atividades artísticas cujos encantos atraem turistas de toda a Europa.

O Alentejo é tradicionalmente considerado o “coração” de Portugal. Talvez haja um certo exagero na afirmação. No entanto, sem dúvidas, o coletivismo solidário que se observa nas envelhecidas comunidades alentejanas simboliza bem o coração da classe operária portuguesa. Ao longo do século XX, das cidades, vilas e aldeias da região, milhares de trabalhadores emigraram para alimentar a “cintura industrial de Lisboa e de Setúbal”. A aproximação dos sindicatos controlados pelo PCP, bem como as lutas contra o regime de acumulação despótico do período salazarista ajudaram a criar um grupo operário relativamente homogêneo, poderoso e auto-confiante. Ainda hoje, a disposição combativa dos estivadores de Lisboa ou a experiência de democracia industrial da empresa Autoeuropa (do grupo Volkswagen, localizada em Palmela, Setúbal)19 oferecem pequenas amostras do vigor demonstrado por este grupo no passado.

Contudo, com o recente desmanche neoliberal do fordismo periférico promovido pela integração de Portugal à União Européia seguido pelo colapso do sistema de solidariedade operária decorrente da desindustrialização do país, os trabalhadores alentejanos sucumbiram ao desemprego e ao subemprego. Muitos deles, envelhecidos e aposentados precocemente, retornaram para sua terra natal, vivendo de aposentadorias e povoando os bancos de jardim em pequenos coletivos no centro das praças aldeãs. Assim, ajudam a compor a paisagem “bucólica” tão valorizada pela indústria do turismo. De fato, a transição para um regime de acumulação financeirizado e organizado sobre os serviços e a mercantilização do trabalho reinventou o atraso em Portugal. O destino do Alentejo revela uma dimensão importante do projeto do capital financeiro europeu para o sul do continente: criar um enorme parque de diversões pós-moderno para que alemães e ingleses endinheirados possam aproveitar suas férias brindando com os ótimos vinhos alentejanos. Saúde!

NOTAS

1 Procurador-Geral da coroa no reinado de D. Carlos, mentor da lei da Reforma Florestal (1901) e mais tarde líder do Partido Regenerador, ministro em diversas pastas, Presidente do Conselho (equivalente ao atual cargo de Primeiro-Ministro) e considerado uma das figuras mais influentes da fase final da Monarquia. É importante recordar que, em 1º de fevereiro de 1908, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro foram assassinados em Lisboa (por dois membros da Carbonária), abrindo as portas para o fim da monarquia.
2 Para mais detalhes sobre as relações entre o patronato, o regime político liberal da “Regeneração” e a formação da classe operária portuguesa, ver Manuel Villaverde Cabral. “L’Etat et le patronat portugais devant la classe ouvrière de 1890 à 1914″. Le Mouvement Social, n. 123, abr.-jun. 1983, pp. 45-68.

3 Fernando Rosas. “Estado Novo e desenvolvimento económico (anos 30 e 40): uma industrialização sem reforma agrária”. Análise Social, v. XXIX, n. 128, 1994, p. 873.
4 Ver Jorge Morais. Rua do ácido sulfúrico: patrões e operários – um olhar sobre a CUF do Barreiro. Lisboa, Bizâncio, 2008.
5 Ver Fernando Rosas. Salazar e o poder: a arte de saber durar. Lisboa, Tinta da China, 2012.
6 Ver Fernando Rosas. “Estado Novo e desenvolvimento económico (anos 30 e 40): uma industrialização sem reforma agrária”. Análise Social, v. XXIX, n. 128, 1994.
7 Fernando Rosas. “Estado Novo e desenvolvimento económico (anos 30 e 40): uma industrialização sem reforma agrária”. Análise Social, v. XXIX, n. 128, 1994, p. 885.
8 Para mais detalhes, ver José Cutileiro. Ricos e pobres no Alentejo: uma sociedade rural portuguesa. Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1977. No Alentejo floresceram, desde finais do século XIX, os grandes latifúndios, cujos proprietários rentistas residiam nas maiores cidades da região e na própria capital, Lisboa.
9 O bairro de Moscavide, situado na fronteira dos municípios de Lisboa e Loures (embora pertencente a este), surge com a criação da respectiva freguesia – a menor unidade territorial em Portugal – em 1928, mas a construção dos atuais edifícios modernos data das décadas de 1950 e 1960.
10 Lembre-se que o Estatuto do Trabalho Nacional, de 1935, colocou fim ao sindicalismo livre da I República.
11 Para mais detalhes, ver Vanessa de Almeida. “A greve de 1943 no Barreiro: resistência e usos da memória”. Ubimuseum – Revista Online do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior, n. 2, 2014.
12 Lembre-se que o final dos anos 1960 foi marcado pelo ressurgimento do movimento estudantil que teve como principal centro a Universidade de Coimbra.
13 Para mais detalhes, ver Ana Nunes de Almeida. “Perfis demográficos e modos de industrialização: o caso do Barreiro”. Análise Social, v. XXIV, n. 100, 1988.
14 Ver Catarina Gomes. “Tudo começou num hospital para os trabalhadores da CUF”. Público, Lisboa, 11 set. 2014.
15 Para mais detalhes, ver Fernando Rosas e Francisco Louçã. Os donos de Portugal. Porto, Afrontamento, 2010; e ainda Francisco Louçã,  J. Teixeira Lopes e Jorge Costa, Os Burgueses. Lisboa, Bertrand, 2014.
16 Para um estudo etnográfico das minas de Aljustrel, ver Inês Fonseca. “Identidades e memórias em torno de uma mina: o caso de Aljustrel”. Revista de Antropología Iberoamericana, v. 1, n. 3, 2006.
17 É possível afirmar que em relação ao patrimônio histórico e às tradições locais, o Alentejo está bem preservado. No entanto, a contrapartida é o dramático envelhecimento dos moradores e a desertificação da região, uma das mais pobres da Europa.
18 Ver Kathleen Gomes. “Decisão da UNESCO sobre cante alentejano é anunciada esta manhã em Paris”. Público, Lisboa, 27 nov. 2014.
19 Para mais detalhes, ver Elísio Estanque. “Transformação social, democracia e cultura de empresa: o caso português no contexto de crise europeia”. Revista da FAE, v. 15, n. 2, Curitiba, pp. 6-23.

Confira, abaixo, a última conferência de Ruy Braga em Portugal, ministrada no ISCTE-IUL no dia 26 de fevereiro de 2015 com o título “a pulsão plebeia: trabalho, precariedade e rebeliões sociais”:

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.