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A Revolução dos Cravos segundo José Cardoso Pires

14.04.24_Flávio Aguiar_José Cardoso PiresPor Flávio Aguiar.

Esta é a primeira vez em que ponho este relato no papel, quer dizer, na tela do computador. Em 1975 o governo português – formado logo depois do 25 de abril de 1974 – enviou uma missão de escritores do país às universidades e outras instituições afins brasileiras para explicar o movimento.

Então eu era um jovem professor de Literatura Brasileira da Universidade de S. Paulo. Houve um encontro com os escritores nas ditas Colméias do CRUSP, pois os cursos de Letras da Universidade ainda estavam lá sediados, como uma “força de ocupação” para impedir o retorno dos estudantes, condição que só deixaríamos em 1983.

O encontro foi muito interessante, até porque os escritores, todos comprometidos com a democratização do país e com a movimentação decorrente do 25 de abril, tinham perspectivas e relatos muito diferentes entre si sobre o que estava acontecendo em Portugal.

Por apresentação de amigos comuns, marquei um encontro com o escritor José Cardoso Pires num bar do centro da cidade. Passamos uma tarde memorável juntos, tomando conhaque, quando ele me contou a sua participação nos acontecimentos do 25 de abril.

Cardoso Pires, autor, dentro outros, do romance O Delfim (1968) é reconhecidamente um dos maiores escritores do país no século XX, coisa de ombrear com Saramago e Fernando Pessoa, dentre outros. Infelizmente faleceria em 1998, vítima de um derrame cerebral.

Mas naquela tarde de talvez agosto de 1975 ele brindou-me com uma narrativa inteiramente pessoal, temperada por seu bom humor e ironia. Desconheço se ele mesmo a pôs por escrito.

Começou contando que na noite de 24 de abril recebeu um telefonema de uma amiga que estava na clandestinidade fazia tempo. Ela lhe disse simplesmente: “José, chegou a hora”, e desligou. Cardoso Pires contou a conversa à mulher, que lhe perguntou o que aquilo podia significar.

“Certamente que vou ser preso”, disse ele, que já andara às turras com DGS, sucessora da famigerada PIDE, a polícia política do país. Pediu que a esposa lhe preparasse uma maleta com um “kit-prisão” (escova de entes, muda de roupa, etc.) e dispôs-se a esperar pelos acontecimentos. Mais tarde, já bem noite adentro, bateram na porta. Surpreso, ele abriu, e mais surpreso ainda, deparou com dois militares, um oficial e um soldado, ambos armados.

Disse-me ele então: “pensei: chegou a hora!”. Qual não foi o espanto quando o oficial entrou, abraçou-o (!) e disse: “camarada, chegou a hora!”. “Esta é uma revolução democrática”, continuou no oficial, “e viemos convocá-lo para fazer um pronunciamento na televisão”. Ele que estava proibido de aparecer na tevê, voltou-se para a esposa e disse “chegou a hora”, e saiu.

Na rua, deparou com um caminhão onde estavam vários conhecidos, todos escritores e intelectuais anti-salazaristas. Entrou no caminhão, e perguntou o que estava acontecendo. Ninguém soube lhe explicar direito: tinham sido arrepanhados pelos militares, e estavam indo – como foram – à estação de televisão.

Lá chegando, foram levados a uma sala, onde ficaram ao redor de uma mesa, onde havia uma garrafa de uísque que, ao que parece, ninguém tocou. Passaram-se as horas. Já amanhecendo, ele pretextou ir ao banheiro, e conseguiu escapulir do prédio. Telefonou à esposa, que ainda estava acordada, sem nada saber, e disse que ia dar uma volta pela cidade, para descobrir o que estava acontecendo. “Chego por volta das dez”, disse, e desligou.

Daí, disse-me ele, deparou com a torrente humana que saía às ruas para festejar a queda do regime salazarista, confraternizar com os soldados dando-lhes cravos vermelhos que estes colocavam nos fuzis, transformando o golpe militar numa revolução democrática. Contou-me que, entre outras coisas, acompanhou, lado a lado, Otelo Saraiva de Carvalho, um dos líderes militares do levante, quando este invadiu a prisão da PIDE, libertando os prisioneiros e aprisionando os esbirros e carcereiros.

“Voltei para casa somente três dias depois. E a minha filha não voltou até hoje”, arrematou ele, naquela tarde de 1975, em São Paulo, no centro da cidade, deixando-me a centelha de esperança que o Brasil também poderia tornar-se uma democracia.

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Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Os 50 (e tantos) anos do(s) golpe(s) contra a classe trabalhadora

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Especial de Jorge Luiz Souto Maior, para o Blog da Boitempo.

Neste ano de 2014 muitas têm sido as manifestações sobre o golpe de 1964 e o regime ditatorial que lhe foi consequente. Há uma grande relevância nessas análises, sobretudo para que momento tão trágico da nossa história não seja esquecido e para que não se repita, sob nenhum pretexto.

Penso, no entanto, que um aspecto para o advento do golpe, e que explica muito da atuação do regime militar, tem sido deixado um pouco de lado e é importante trazê-lo à tona, pois é central na própria compreensão da realidade vivida. Refiro-me ao ataque à legislação trabalhista e ao trabalhador, por conseqüência, que desferido na realidade brasileira, que pode ser classificado historicamente.

A tese aqui defendida é a de que a resistência cultural aos direitos trabalhistas no Brasil é tão forte que foi o risco da aplicação em concreto da legislação trabalhista que impulsionou o golpe de 64, com a intenção, ainda, de reprimir a ação sindical e as greves.

SUMÁRIO

1. O legado da escravidão

2. Trabalho na República Velha: a resistência da classe dominante

3. O advento da legislação trabalhista (1930-1933): a posição dos industriais

4. A Constituição de 34 e a mobilização dos trabalhadores

5. A reação contra os trabalhadores: 1935-1942

6. O trabalhismo: 1942 a 1945

7. A repressão militar aos trabalhadores no governo Dutra: 1946-1950

8. Nova mobilização trabalhista: 1950-1952

9. João Goulart entra em cena

10. Anti-comunismo é anti-trabalhismo

11. A primeira reação militar: origem do golpe de 64

12. Efeitos negativos do golpe de 64 nos direitos trabalhistas

13. O legado da ditadura para a classe trabalhadora

i. A relevância política dos trabalhadores na redemocratizaçao

ii. O neoliberalismo: novos ataques aos direitos trabalhistas

iii. O PT no governo e os trabalhadores à deriva

14. Mais ataques aos trabalhadores

15. A difícil construção do novo cenário (favorável aos trabalhadores)

Cultura inútil: Bolívar não perdeu tempo!

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Por Mouzar Benedito
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Lenda ou verdade? Simón Bolívar, que comandou os exércitos que libertaram a Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia e Panamá, e teve papel importante também da libertação do Peru, participou de 200 batalhas e teve 200 amantes. Ele morreu de tuberculose, aos 47 anos, em 1830. Foi no Monte Sagrado, em Roma, que, quando tinha 22 anos, Bolívar jurou libertar a sua pátria.

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Ausente do noticiário durante muito tempo, a Crimeia agora é foco das atenções. Uma guerra lá, pode influenciar muita coisa no mundo. E isso não seria novidade para os gaúchos. A bombacha, aquelas calças largas que parecem vestimenta de turcos (seu nome vem do espanhol, bombacho, que significa justamente calças largas) se tornaram vestimenta dos gaúchos do campo, acredita-se, por causa da Guerra da Crimeia, ocorrida de 1853 a 1856. O czar Nicolau I tentava expandir o Império Russo e foi combatido pela Inglaterra, França, Império Otomano (atual Turquia) e Sardenha (a Itália ainda não estava unificada). Segundo consta, aquelas calças largas dos turcos eram produzidas na Inglaterra e, com a guerra, não foi possível exportar para seus compradores normais. Capitalista perder dinheiro? Jamais! Então foram atrás de nova freguesia. Introduziram a “moda” na América do Sul, especialmente na região do Prata, os gaúchos acharam as bombachas confortáveis e aderiram a elas. O chapéu típico das “cholas” bolivianas tem história semelhante.

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Logo depois de se candidatar a sede da Copa do Mundo de Futebol de 1962, o Chile sofreu um dos mais terríveis terremotos. Havia dúvida se o país seria capaz de realizar a Copa, e o presidente da Federação Chilena de Futebol fez um apelo: “A Copa do Mundo tem que ser realizada no Chile, porque não temos mais nada”. Dois estádios novos foram construídos rapidamente, e o Brasil foi bicampeão, com Garrincha mostrando sua genialidade.

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A imperatriz Leopoldina achava que os lavradores brasileiros eram indolentes e que eles poderiam mudar de comportamento se trouxessem alemães para cá, para servir de exemplo, e começou a recrutar famílias de lá pra vir para o Brasil. Em 1824, ela escreveu a um recrutador de jovens alemães interessados em vir para o Brasil: “Mande mais 3 mil homens, solteiros e moços, sem descontar o número que lhe escrevi da outra vez”.

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Em 1817, na Revolução Pernambucana, o governo revolucionário revogou o tratamento de “vosmicê” e “senhor”, usados para pessoas importantes, instituindo no lugar deles “vós” (hoje equivalente a “você”), e “patriota” (equivalente a “companheiro”).

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O ouro é considerado um protetor contra mau-olhado, e muita gente usa anel, brinco ou qualquer outro objeto de ouro para se proteger. Mas se quiser ter sorte pra valer, tem que usar uma pedra preciosa (ou semipreciosa) em cada mês: janeiro: granada; fevereiro: ametista; março: água marinha; abril: brilhante; maio: esmeralda; junho: pérola; julho: rubi; agosto: sardônica (acredite: essa pedra existe); setembro: safira; outubro: opala; novembro: topázio; dezembro: turqueza. Haja dinheiro pra ter uma joia pra cada mês!

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A Batalha de Waterloo, em que Napoleão Bonaparte foi definitivamente derrotado, aconteceu em 18 de junho de 1815.

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Bárbara, nascida na atual Turquia, no século III, era filha de Dióscoro, um nobre e rico cidadão do Império Romano, que perseguia os cristãos. Só que ela se tornou cristã, secretamente. Quando Dióscoro descobriu, ficou tão injuriado que denunciou a filha e ela foi condenada a ser decapitada. Ele mesmo se encarregaria de cortar a cabeça da moça. Na hora da execução da pena, quando Dióscoro levantou a espada afiada para a decapitação, caiu um raio na espada e o matou. Esta é uma história que se conta de Santa Bárbara, protetora contra raios e tempestades.

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Segundo a mitologia chinesa, não há apenas uma lua, são doze luas, uma para cada mês.

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Na mitologia persa, há um ponte entre a terra e o céu, chamada Chinvat. Nela, os mortos eram julgados. Os puros passavam, os pecadores eram jogados no inferno.

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Na mitologia hindu existem vários mundos e as leis dos outros mundos não são as mesmas deste em que vivemos. Não há um consenso sobre quantos são esses mundos, o número varia conforme o autor, mas quase sempre em torno de 14.

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Os Estados Unidos compraram o Alasca da Rússia em 1867, e cada hectare custou menos de um centavo de dólar. O Canadá, então colônia da Inglaterra, faz divisa com o Alasca e havia interesse inglês de comprar aquele território, mas a Rússia tinha a Inglaterra como inimiga.

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O primeiro desenho animado de longa-metragem de Walt Disney foi “Branca de Neve e os Sete Anões”, finalizado em 17 de julho de 1937.

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Pelé tinha 16 anos quando jogou pela primeira vez na seleção brasileira de futebol. O jogo foi contra a Argentina, em 7 de julho de 1957. Ele marcou o único gol brasileiro, na derrota por 2 x 1.

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Em livros sobre plantas afrodisíacas, pode-se encontrar entre os estimulantes sexuais o capim barba-de-bode. A parte empregada é a raiz, que deve ser preparada em tintura (infusão em álcool). Recomendam tomar 20 a 80 ml por dia da infusão a 10% em cachaça ou álcool ou 50 a 150 ml por dia de infusão a 20% em vinho branco seco. Quem quiser que arrisque!

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Em dezembro de 1872 tripulantes do navio britânico Dei Gratia, que ia de Nova York para Gibraltar, avistaram um outro navio se deslocando de maneira estranha, irregular. Fizeram uma saudação e não obtiveram resposta. Alguns marinheiros foram de bote até esse navio, que era o Mary Celeste, subiram a bordo e não encontraram ninguém. Nenhuma pessoa! Nunca foi descoberto o que aconteceu com a tripulação.

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Em 1o de janeiro de 1915 foi inaugurada a linha de telégrafo de 1280 quilômetros ligando Cuiabá a Rondônia, na bacia Amazônica, construída pela expedição Rondon. O início da construção foi em 1907.

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Em 25 de janeiro de 1975, mais um piloto brasileiro se destaca na Fórmula 1: José Carlos Pace venceu a corrida em Interlagos. Algum tempo depois ele morreu de acidente de avião, e o governador Paulo Egídio, de São Paulo, nomeado pela ditadura, deu um baita fora: “Eu esperava que ele morresse de acidente de carro, não de avião”.

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No início da ocupação de Pernambuco por engenhos de açúcar, um obstáculo foi o povo Caeté, muito valente, formado por guerreiros excelentes. Uma época, Jerônimo de Albuquerque (que por sinal era filho de um português e uma índia) cobiçou as terras dos Caeté e decidiu expulsá-los. Recrutou quantos brancos pôde e 10 mil índios inimigos dos Caeté e partiu para o ataque, esperando uma vitória fácil, já que os Caeté eram apenas 600. Mas a resistência foi brava. Protegidos por uma paliçada, os Caeté mataram uma porrada de inimigos, e ao amanhecer recebeu o reforço de 200 flecheiros de outras aldeias. Em vez de ficar na defensiva, partiram para o ataque e puseram pra correr os portugueses e seus aliados. Em 1560, o governo português reuniu 22 mil homens muito bem armados, entre índios e brancos, para atacar os Caeté e houve combates com perdas de lado a lado, mas o bravo povo indígena viu que era uma coisa desproporcional e se retirou para o interior.

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Sabe-se que o PCB foi fundado em 25 de abril de 1922, mas antes houve uma tentativa de criação do Partido Comunista do Brasil, em 21 de junho de 1919. Era um partido meio anarquista e teve vida curta.

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Em 1o de março de 1858, termina em Salvador a “Revolta dos Chinelos”, iniciada no dia anterior, 28 de fevereiro. O povo, com apoio da Câmara Municipal, se revoltou contra a alta dos preços da farinha de mandioca e da carne, usando o lema “carne sem osso, farinha sem caroço”. O presidente da Província ficou a favor dos atacadistas e monopolistas de gêneros de primeira necessidade e mandou tropas invadirem a Câmara. O povo reagiu atacando o palácio, a Guarda Nacional foi chamada para dispersar os revoltosos e a praça ficou coberta de chinelos, pois os revoltosos eram pobres e esse era o calçado deles.

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Um ditado: “O anão, quanto mais alto sobe, menor parece”.

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A música popular brasileira estava meio em baixa (será que tanto quanto na época atual?), em meados dos anos 1960, mas aí começou uma era de festivais que mudou tudo. O primeiro festival, realizado pela TV Excelsior, teve sua final em 6 de abril de 1965, e revelou Elis Regina, intérprete da música vencedora, Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Nos anos seguintes a TV Record e a Globo entraram na onda e foi um tempo de músicas maravilhosas, como Domingo no Parque (Gilberto Gil), Sem lenço e sem documento (Caetano Veloso), Roda Viva (Chico Buarque), Disparada (Geraldo Vandré), Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brandt), São Paulo, meu amor (Tom Zé), Pra não dizer que não falei de flores (Vandré) e Sabiá (Chico Buarque e Tom Jobim).

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A data tida como a do primeiro jogo de futebol no Brasil é 14 de abril de 1895, com ingleses residentes em São Paulo. O jogo entre São Paulo Railwai e Companhia de gás, promovido por Charles Miller, na Várzea do Carmo, terminou com a vitória do São Paulo Railway (em que Charles Miller jogava) por 4 x 2.

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Jean-François Champolion, que decifrou a “Pedra da Rosetta” (Rosetta era o nome que os europeus deram a Rashid, no Egito) já era um egiptólogo aos 17 anos de idade, tendo estudado as línguas árabe, caldeu, chinês, copta, pahlavi, parsi e zend. A Pedra da Rosetta foi levada para a França em 1799, e, depois da derrota de Napoleão, para a Inglaterra.

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Em 1507 foi publicado na Europa o livro As quatro navegações de Américo Vespúcio, obra fantasiosa, em que o dito cujo aparece como “grande descobridor”, segundo o cosmógrafo Martin Waldesemüller, que foi quem propôs que o continente levasse o seu nome. Em 1513, o próprio Waldesemüller reviu isso e propôs que o continente se chamasse Colômbia, mas o nome América já tinha pegado, não teve jeito.

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Oataque japonês a Pear Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, tem uma história que começa anos antes. Em 1935, os japoneses queriam começar a espionar a base de Pear Harbor, mas achavam que se mandassem espiões orientais logo suspeitariam deles, então pediram à Alemanha nazista que cedesse espiões a eles. Joseph Goebbels indicou o médico Bernard Kühn, ele aceitou a proposta e se mudou para o Havaí com a família, que se tornou toda espiã: ele, a mulher, uma filha então com 17 anos, e um filho com 5 anos. Era um pessoal muito simpático e ninguém suspeitava deles. Em 1939 a família foi orientada a espionar toda a marinha norte-americana que atuava na área. A filha Susie, bonita, teve papel chave. Namorava oficiais norte-americanos e depois montou um salão de beleza frequentado por mulheres dos oficiais, que fofocavam direto e contavam segredos revelados pelos maridos.

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Ditados sobre cachorros

Cachorro bom de tatu, morre de cobra
Cachorro velho não late à toa
Cachorro velho não se acostuma com coleira
Cão que muito lambe, tira sangue

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Assim falou Camilo Castelo Branco: “Enquanto houver rapazes de quarenta anos, é justo que se desculpem as leviandades dos velhos de dezessete”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV, VI, VII, VIII, IX, X e XI na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Carro fantasma

14.04.17_Roniwalter Jatobá_Carro fantasmaPor Roniwalter Jatobá.

O funileiro aposentado Amarildo Figueiredo, morador no Jardim Maia, na Zona Leste de São Paulo, só foi descobrir o problema mais grave do seu Fusca 1200, ano 1967, três meses depois de comprado de um primo distante. A princípio julgou uma “galinha morta”, pois o automóvel foi oferecido pela metade do preço de mercado. Mesmo com um pára-lama amassado, valia. Para ele, conceituado profissional do ramo, o serviço de funilaria era como uma brincadeira num final de semana. Com o equipamento que guardava em casa, usado para consertar carros alheios, era fácil, fácil.

Pagou à vista. Pegou o carro num domingo e seguiu para casa. Numa travessa da antiga São Paulo-Rio, resolveu comemorar num bar a recente aquisição. Estacionou com cuidado. Quando voltou, o carro tinha andado cerca de 50 metros e notava-se um amassado bem grande no pára-choque traseiro.

Verificou o freio de mão. Funcionava direitinho. Tentou empurrar o carro para ver se rodava mais alguns metros, mas ele nem se mexeu do lugar. Amarildo ficou encafifado.

– Quem arruma um pára-lama arruma também um pára-choque – pensou.

Já em casa, fez questão de mostrar à mulher todos os detalhes do carro.

– Fiz um grande negócio – disse. – No próximo domingo, com ele todo arrumado, vamos descer a Serra e beber uma cerveja e comer um peixe assado numa barraca da Praia Grande.

Era o que ele pensava. Na segunda-feira, misteriosamente todo o óleo do cárter havia vazado. Na terça, ao tirar o carro da garagem, viu pelo retrovisor a figura de seu velho sogro, falecido logo depois de seu casamento.

Outro dia, Amarildo me contou esses e outros problemas fantasmagóricos. Agora, não tinha coragem de sair nem mesmo na sua rua com o automóvel tanto desejado.

– Será que tem jeito? – indagou.

Conto para ele que um motorista britânico foi obrigado a fazer uma coisa que só tinha visto em ser humano. Morador em Londres, pediu ao padre de Sussex para exorcizar seu carro.

Era o empresário Keith Tagliaferro, de 42 anos. Segundo ele, o veículo era responsável por todas as desgraças que sofreu desde que foi comprado. Tagliaferro culpava seu velho Ford Capri vermelho pela descarga de um raio, da morte de sua cadela de estimação, do surgimento de ferrugem no teto da capota do veículo e do aparecimento de fantasmas no porta-malas. Num jornal, o empresário afirmou que a placa do carro, ARK 666Y, pode ter relação com ARK – sigla da Arca da Aliança bíblica –, enquanto 666 é o número do diabo.

– Comprei o carro porque negocio placas e esta é bem procurada – relatou o empresário. – Mas o homem que me vendeu parecia ansioso para se livrar do veículo. Não sei se o proprietário anterior passou pelos mesmos apuros, mas desde que o comprei começaram a acontecer coisas estranhas.

A cerimônia de exorcismo foi feita realmente pelo sacerdote Kevin Carylon, de Sussex. Para dizer a verdade, não sei se deu certo. Mas, ando pesquisando para saber o resultado. Qualquer hora dessas, levo a fórmula para o desesperado e assustado Amarildo, que até hoje não usufruiu nadinha do primeiro – e último – carro próprio.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

A versão e os fatos: lágrimas que alimentam meu ódio

14.04.16_Mauro Iasi_A versão e os fatosPor Mauro Iasi. 

Ao jovem Jefferson

O jovem Jefferson Rodrigues da Silva, de dezoito anos, foi morto a tiros por fuzileiros navais no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Na versão oficial, trocou tiros com os soldados que responderam ao fogo causando a baixa.

A Polícia Militar e o Exército ficam sempre muito bravos quando se coloca em dúvida as versões oficiais. Mas, vejam bem, outras versões oficiais que nos foram apresentadas: Amarildo, pedreiro sequestrado, torturado e assassinado por policiais militares da UPP da Rocinha, teria, na versão oficial, sido morto por traficantes; Claudia, atingida por dois disparos da polícia e que foi jogada na parte de trás de uma viatura e acabou sendo arrastada pelas ruas do Rio, teria sido apenas socorrida pela polícia; Giovanni, jovem que foi atingido por tiros pelas costas ao sair de casa de bermuda e boné quando a Polícia Militar entrava em seu bairro, e que, já caído, ao seu lado foi deixada uma quantidade de drogas e um revolver que não lhe pertencia, na versão das autoridades é um traficante que trocou tiros e tentou fugir; Herzog se enforcou em sua cela, mesmo que de uma altura na qual seria impossível tal ato; o golpe burguês e militar de 1964, que rompeu a Constituição e abriu décadas de terror e arbítrio, teria sido, na versão oficial, a reação das forças democráticas contra a provocação de comunistas que queriam fazer reformas de base, que ameaçavam a família, a religião e os bons costumes.

Há uma perversidade extra na guerra das versões. Jefferson tinha 18 anos, morava em uma enorme área abandonada desde sempre pelos poderes públicos, sem condições mínimas de saneamento, tampouco acesso a serviços essenciais, esquecida pelas verbas de infraestrutura, na qual impera o medo permanente, seja do crime organizado, seja do aparato policial corrupto e violento que vive em simbiose com a criminalidade e dela se alimenta.

O fato de Jefferson ser um trabalhador – alvejado como um efeito colateral (como tantos já foram) e agora tornado criminoso para ocultar sua morte – ou um jovem que naquela situação descrita vivia dos rendimentos da lucrativa atividade do tráfico e estava armado defendendo-se da invasão militar, não muda a tragédia do caso. Para boa parte da juventude estas são as opções: sobreviver em precárias condições e morrer de “bala perdida”, ou resistir armado e morrer em conflito com o aparato repressivo. Muitos decidem viver menos e viver melhor com os ganhos do tráfico, o prestígio e poder de, pelo menos, estar armado.

O BOPE quando subia os morros com o malfadado “caveirão” tocava em seus alto-falantes uma mensagem que dizia: “em bandido a gente atira com fuzil, em trabalhador é tapa na cara”. É compreensível que alguns decidam por estar, pelo menos armados, ao invés de tomar tapa na cara, levantar as mãos e virar para o muro enquanto são revistados.

Ali mesmo, no Complexo da Maré, que margeia a Linha Vermelha que leva os turistas do Galeão privatizado até a cidade maravilhosa, o poder público tomou uma iniciativa paradigmática. Não foram obras de infraestrutura, de implantação de serviços, ou mesmo de segurança pública (de uma verdadeira segurança… pública), do desenvolvimento dos serviços básicos como saneamento, educação ou saúde; foi, ao invés disso, o levantamento de anteparas sobre a murada da via que cobriam a visão das favelas e nestes painéis foram colocadas reproduções de desenhos, muitos feitos por crianças, com uma imagem idealizada e idílica do Rio e da própria favela.

Parece que esta iniciativa representa bem uma concepção. Esconder o real com uma representação idealizada que oculta e inverte a realidade. Nós, marxistas, chamamos isso de ideologia.

Ocorre que o real oculto segue existindo e suas contradições um dia explodem, fica impossível escondê-las. Já tiramos do centro e jogamos para a periferia, já ocultamos por painéis, já amenizamos com políticas pontuais, fragmentárias e insuficientes, já tentamos calar as vozes dissidentes a golpes de balcão de projetos e ONGs, bem ou mal intencionadas, mas simplesmente cresce o trafico, a repressão policial, as mortes, os autos de resistência… Como nada parece dar certo, então, eles mandam o exército, seus tanques de guerra e seus soldados, treinados no Haiti – que, Caetano já alertava, é aqui.

Na Portaria Normativa n. 3.461 do Ministério da Defesa, que estabelece as chamadas Operações de garantia da Lei e da Ordem (OpGLOs), encontramos uma espécie de confissão quando afirma que tais operações “tem por objetivo a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio em situações de esgotamento dos instrumentos para isso previstos no art. 144 da Constituição ou em outras em que se presuma ser possível a perturbação da ordem” [grifos meus].

Ocorre que o “esgotamento” não é dos instrumentos previstos, é de toda a concepção de sociedade sobre a qual eles se assentam. Como é difícil encarar esta verdade, vamos nos enganando que um intensificação da mesma lógica pode um resolver nosso problema. É como se nós tivéssemos um grande vazamento de água em nossa casa, causado pelo rompimento de uma tubulação, e acreditássemos que o problema é o tamanho do balde e a qualidade do pano que usamos para enxugar o chão.

O arremedo de política social e gotas de empreendedorismo, assim como a presença repressiva militar não deu certo, ora, mandamos o BOPE, não deu certo, ora mandamos as Forças Armadas. E se não der certo? Vamos fazer campos de concentração e fornos crematórios? Para que nenhum cidadão de bem seja confundido com um “marginal” vamos cortar seus cabelos, obrigá-los a usar pijamas listrados e pregar estrelas amarelas em seus peitos?

A ordem capitalista já resolveu este dilema. A segregação espacial de classes já criou os guetos modernos, a herança escravista colonial já pintou de preto as classes perigosas facilitando o trabalho da polícia e das forças armadas. Às vezes se mata uma dona de casa, uma criança, um jovem trabalhador, mas são efeitos colaterais na sagrada “guerra” contra o crime em defesa da lei e da ordem. Ninguém mandou eles parecerem tanto com as “forças oponentes”, são pobres, pretos, andam provocativamente de bermuda e chinelo, moram nas favelas, olham para a polícia com medo ou, pior, com o que lhes sobra de dignidade.

Certo, nos sabemos que tem gente rica no comando, organizando e lucrando muito com o tráfico de drogas e armas. Quando aparece na televisão o “grande chefe” do tráfico, morando na favela, mesmo os mais convictos em sua ingenuidade não acreditam que por trás dele não tem algum figurão com conexões em altos escalões, contatos com a própria polícia e políticos influentes. Bom, então, porque não vemos os tanques cercando a Vieira Souto, os condomínios de luxo na Barra, o caveirão entrando no Congresso Nacional e aqueles deputados e senadores com a mão na parede e pernas abertas sendo revistados sob a mira de um fuzil?

É que eles andam de terno, parecem gente de bem, da nossa “melhor sociedade”. Guardamos a forma repressiva, violenta e arbitrária para nossa “pior sociedade”. Enquanto o lixo humano, os dejetos incômodos de uma sociedade de riquezas e ostentação de luxo, estiverem escondidos e em ordem, tudo bem. Mas, se quiserem ocupar um terreno no centro, abandonado por uma pirata (ou corsária, já que pratica pirataria oficialmente… Oi?) das telecomunicações, aí não, enfeia a cidade maravilhosa. Aí chama a guarda pretoriana, chama a SS, chama os camisas pretas, chama a Gestapo e tira esse povo feio, preto e mau vestido, sem senso arquitetônico adequado, sem licitação e, pior, sem caixinha ou financiamento de campanha para as autoridades constituídas.

No fundo é o mesmo princípio da reforma do prefeito Pereira Passos que eliminou os cortiços no início do século e tentou imitar Paris e seus belos jardins, ou de outros que jogavam mendigos no mar, ou de Clinton que mandou tirar os pobres desempregados que dormiam sob a marquise do local no qual os democratas queriam fazer sua convenção e anunciar medidas importantes para combater a pobreza.

Para realizar estas medidas de ocultamento da pobreza estruturalmente determinada, até pela violência explicita que envolve tal ato, é preciso, assim como na Maré, um tapume ideológico. A mesma portaria normativa citada prevê isso naquilo que denomina de “Batalhão de Operações Psicológicas” (B Op Psico) que teria, entre seus objetivos “obter a cooperação da população diretamente envolvida na área de operações, desenvolvendo uma atitude contrária às F Opn [Forças Oponentes] e outra favorável às forças empregadas”.

Um enorme tapume entorno da pobreza e das áreas de conflito, cercas protegendo os lugares nos quais se darão os grandes eventos esportivos, placas que impedem a visão da favela por toda a rota que leva os turistas até os hotéis e ruas cercadas até os estádios. O problema é que vai ser difícil esconder todas as contradições embaixo do tapete ideológico, mesmo com as Forças Armadas no comando da vassoura repressiva. Os pobres insistem em estar por todos os lados, como disse certa vez a rainha Elizabeth da Inglaterra “Pauper ubique jacet” (o pobre está prostrado em toda parte). Que fazer, então? [ver: Karl Marx, O capital, livro I, p. 793]

Bom, sugerimos óculos com telas de cristal líquido e imagens editadas e transmitidas diretamente do centro de operações da Policia Militar e da central Globo de jornalismo, que seriam distribuídos a cada um que chegasse ao Brasil. Melhor seria distribuí-los antes do desembarque para já operarem vendo aeroportos com as reformas concluídas e funcionando perfeitamente.

No país da Copa não pode ter pobre sendo espancado pela polícia. Não pode um representante da Lei e da Ordem chamar uma menina de “macaca favelada” e desferir um murro em sua boca quebrando seus dentes, não pode um policial atirar e deixar uma pessoa cega ou mutilada, como na desocupação do terreno da Oi. Não pode ter greves, manifestações e ônibus incendiados. Não pode uma filha chorando com sua mãe baleada nos braços e perguntado ao policial que ria “por que… minha mãe não era bandida… por que?” Não pode o exército assassinar a tiros um jovem de 18 anos, seja ele ou não um infrator.

Não sei se o jovem Jefferson era ou não um criminoso. Recolho seu corpo e sinto em mim mesmo sua dor, é meu sangue que se esvai no chão da Maré. Sinto o tiro do fuzil assassino varando seu peito e abrindo um abismo de dor no coração de seu pai. Posso, em um relance, ver os filhos que não irão buscar seu abraço fantasma, as bocas que nunca sentirão o calor de seus lábios. Recolho mais este sacrifício no interminável martírio de nossa classe e o engulo com as lágrimas que alimentam meu ódio profundo. Eu os acuso!

Não apenas o infeliz soldado que puxou o gatilho e seu comandante, engrenagens da máquina de morte, mas também aqueles que se escondem atrás de seus cargos: Senhor Ministro da Defesa que pediu aos militares que escrevessem a portaria, senhor Ministro da Justiça de um pais injusto que permite que a Constituição seja suspensa e desfigurada, senhora Presidente Dilma Rousseff que assinou os atos que tornou legal o massacre, senhor governador (o ex e o atual) escondido covardes em seus escritórios: eu os acuso! A vergonha os acompanhará para sempre. Suas mãos estão sujas de sangue… jamais conseguirão lavá-las desta ignomínia.

14.04.16_Mauro Iasi_A versão e os fatos_passeata

Manifestantes fecham a pista central da Av.Brasil por alguns minutos depois de morte de Jefferson Rodrigues da Silva (Foto: Carlos Moraes / Agência O Dia)

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Mauro Iasi assina o posfácio do novo livro de Slavoj Žižek, Violência: seis reflexões laterais. A edição brasileira, que chega às livrarias em maio, vem acrescida ainda de um prefácio inédito do filósofo esloveno, escrito especialmente para o momento sombrio em que vivemos no país.

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Mauro Luis Iasi é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato entre outros. Confira, abaixo, o debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, com os autores Carlos Vainer, Mauro Iasi, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira:

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Eutanasinha

A imagem da menina do último carnaval, eu pensei tê-la esquecido. Dizem que uma imagem vale mil palavras. Bobagem, diz não. Entre tantas imagens que cometi no carnaval que passou, do porta-estandarte de Banhistas do Pina, orgulhoso da sua tradição, ao desfile do Bloco da Saudade, com suas mulheres bonitas mais um imenso galo ao fundo sobre a ponte, a mais bela é a de uma negra princesinha. Ela ficou na memória, acredito, porque não era uma imagem. É uma pessoa. É uma linda menina, passado e futuro do carnaval. A princesinha da memória era a filha da cozinheira de um boxe do Mercado da Boa Vista. Ela, a menina, tão feliz estava, que nem comeu todo o seu almoço no prato. Talvez a mãe, generosa como todas, tenha posto mais comida do que a menina queria. Mas não, penso mais é que a princesinha estava tão feliz, que perdeu a vontade de comer, assim como ocorre a todos nós em raras ocasiões. Quando o peito está contente, para que melhor alimento?

A princesinha, informa a memória, portava uma coroinha de lata, um vestidinho verde, umas trancinhas crespas que caíam em graça pelos lados da coroinha. O que a lembrança também diz é que as trancinhas elegantes davam na gente uma vontade de cheirar os cabelos da princesinha. Vontades assim dão na gente, de vez em quando, mas o adulto, escolado, sabe que a beleza, se tocada, pode reagir mal. Assim como um cão amarrado em corrente, que na infância enfiou os dentes na mão deste escritor. Não que a princesinha fosse morder. Pelo contrário, ela ainda mais sorriria encabulada, penso. Mas morderiam este escrevinhador outros homens na multidão do mercado, porque deviam achar descabido um beijo em trança rebelde de uma criança negra. Coisa de pedófilo se aproveitando do carnaval, assim podia pensar a maldade do vulgo em forma de julgamento. Por isso eu a toquei com os olhos, que estavam encantados e úmidos de álcool e emoção, nessa mistura que vem no rosto e nem a disciplina mais férrea consegue esconder. Então pedi à minha mulher, “tire por favor uma foto da princesinha”. E o celular registrou.

Eu não lembro agora o seu nome. É claro, eu lhe perguntei tudo, o nome, idade, bairro, quem eram os pais, essas perguntas idiotas de repórteres que primam pela objetividade. Ou seja, aqueles clássicos 5 burros Ws: Who, What, Why, Where, When, que traduzidos se mostram mais límpidos ainda na sua burrice: Quem, O quê, Por quê, Onde e Quando. Meu Deus dos ateus, só não perguntei à princesinha, para minha salvação, se ela gostava de carnaval. Se gostava!… ela era um sorriso amplo, guardado, de menininha cuja beleza não é um esplendor, mas que faz a alegria e ternura da mãe. Isso, sim. Mas isso, sim, também, transmite felicidade e amor a quase toda a gente.

Eu queria falar tudo o que manda o coração para essa menina. Eu bem queria ser um homem feliz por dizer tudo o que ela inspira em um espaço tão breve, que será lido de passagem, entre um instante e outro da última notícia, entre a passagem de um bloco, de um maracatu, de um clube ou outro nas ruas. Por isso digo apenas, antes que esqueça, que o sorriso da princesinha era triste e feliz em um só movimento. O triste vinha do seu modo de ser, ou da pequena experiência que ela já possuía da crueldade do mundo. E feliz, ainda assim, porque tão poucas vezes ela foi ou será princesa, uma princesinha, ainda que de mentirinha, sorrindo para alguém que a descobriu no meio da multidão. E feliz também ela era porque crianças não gostam de ser tristes, crianças retiram do maior golpe um instante para sorrir. Como agora, nesta lembrança do carnaval que passou e permanece.

Então eu a vou chamar de Mariinha, quem sabe, princesinha Maricota, quando mais próprio seria chamá-la de Eutanasinha. Sim, uma pequenina eutanásia, porque no seu sorriso há um quê de matar sem dor a gente, ou de matar suave, que é uma forma de matar no coração que fala baixinho agora, enquanto o som dos clarins não toca mais alto: olha, a humanidade está na infância e ninguém vê. É toda uma gente muito bárbara, princesinha, tão bárbara, que pensou tê-la esquecido no carnaval do ano passado.

Dizem sempre e repetem até o cansaço que uma imagem vale mil palavras. Bobagem, princesinha. Difícil é encontrar uma foto que expresse as mil palavras que o afeto dos mais bárbaros quer dizer. Assim, façamos um acordo de paz provisória entre o que pretendia tudo falar e a tua imagem no mercado: feliz carnaval, Eutanasinha. O cheiro que não te dei vai nestas linhas.

*Do Dicionário amoroso do Recife, publicado pela Casarão do Verbo.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O amor em tempos das almas puras

Resenha de Do amor louco e outros amores, de Ricardo Goldenberg

14.04.09_Christian Dunker_O amor nos tempos das almas puras[Fotografia de Chema Madoz, que ilustra a capa de Do amor louco e outros amores, de Ricardo Goldenberg]

Por Christian Ingo Lenz Dunker.*

O novo livro de Ricardo Goldenberg, Do amor louco e outros amores (Editora Instituto Langage, São Paulo, 2013), é uma grata surpresa no cenário de publicações psicanalíticas sobre o amor. Há algum tempo este tema vem sendo parasitado por uma glosa, mais ou menos repetitiva, sempre em tom sapiental, sobre como Lacan ou Freud, podem nos alumiar nas trevas líquidas e desencontradas que tomaram conta de nossa época em matéria de amor. A coisa caminha de tal forma que quando conseguimos dizer alguma coisa a mais, e ademais interessante, geralmente é para nos reconhecermos como parte da grande narrativa moderna, que é o romance. Os romances nos ensinam a amar, um pouco mais do que os manuais de arserotica e os guias de sexologia, e um tanto menos do que as palavras íntimas, cada vez mais raras, entre amigos, amantes e quejandos.

A novidade no livro é que ele resolve colocar as coisas pelo lado mais difícil, ou seja, pelo lado do amor, do desejo ou do gozo que o analista experimenta em sua aventura reversa que são as análises que ele conduz. Há pouquíssimos precedentes nesta matéria: Ferenczi de Diário Clínico, Theodore Reik de Escutando com o terceiro ouvido e mais recentemente Stephen Mitchell e a psicanálise relacional. A raridade se explica, em parte, pelo fato de que a tarefa exige altas doses de franqueza e honestidade para falar da experiência tal como ela se dá, para aquele que a narra e problematiza, mais do que de como ela deveria se dar, segundo aqueles que nos precederam e em acordo com ideias que cultivamos. Goldenberg tem esta vocação para a pahresia, a fala franca que os latinos exigiam daqueles que se dedicavam a cuidar da alma. Isso se combina com as oscilações entre alta e a baixa cultura, entre exegese talmúdica e Janis Joplin. Quiçá esta atitude tenha sido formada nos tempos dourados em que foi hold da legendária banda de rock Emerson, Lake and Palmer, ou então nos anos de chumbo da psicanálise argentina engajada.

No famoso axioma lacaniano de que “a impossibilidade de sustentar autenticamente uma práxis se transforma no exercício de um poder, como é comum na história dos homens”, o termo que me parece mais problemático é este “autenticamente”. A autenticidade não é apenas um problema de boa vontade e disposição moral à transparência. A autenticidade é um problema formal de alta dignidade literária. Ou seja, Ricardo se coloca a questão de como falar de amor desta posição na qual faltam palavras. Posição difícil, pois se deixamos as palavras virem, espontaneamente, como na análise, faremos romance, conto ou autobiografia e se as levamos a sério demais entramos na prosa deontológica, moral ou universitária. Resta a carta. A carta como tensão entre forma e conteúdo, entre ato e discurso. Restância. Por isso, coerentemente, o livro é composto por uma série de quase-cartas: de um homem para as mulheres, de analista para analisante, de analisante para analista, de um homem para uma mulher.

A solução encontrada para imiscuir desequilíbrios formais com desenvolvimento de teses, envolve uma inteligente combinação entre certos experimentos formais e elevada agilidade frasística e aforismática que vão compondo a casuística das cartas. O livro é um verdadeiro experimento diagramático conduzido por este, antes chamado de enfant terrible da psicanálise paulista. Senão vejamos. A introdução é impressa em páginas negras com letras em branco. Seguem-se dois intrólitos: um em alinhamento poemático, preto no branco, sobre o sultão Xeriar e Sherazade. Depois disso, em páginas azuis com tipos em branco, encontramos o pequeno e erudito excurso sobre a deserotização calculada pelo cristianismo do pequeno tratado bíblico sobre o amor, o “O cântico dos cânticos”.

O primeiro introduz, em estilo ligeiro, a oposição entre a obrigação de cumprir a masculinidade e o gozo contínuo, ilimitado e indiscreto do lado feminino. Aqui somos introduzidos à ideia de que os amores loucos são também os vividos pelas almas impuras, as únicas realmente dotadas de existência. O segundo ensaio recoloca no centro da interpretação do texto sagrado, a mulher e a carne como um tema político. Lido em nada menos do que 11 traduções, verifica-se que entre Salomão e Sulamita não se trata de sedução, o soberano “não foi enganado senão loucamente vencido pelo encanto de uma mulher”. Aqui começa a fazer comichão a ideia de que assim como a morte é o mestre absoluto, o amor produz o escravo absoluto.

Se o volume se abre com a paginação em preto no branco, seguido pelo branco no azul, ele se fecha, de forma quase simétrica, com outros dois pequenos estudos sobre Lolita, de Nabocov e sobre A hora e a vez de Augusto Matraga. Os quatro pequenos estudos sobre a literatura de amor, mais as duas cartas, que abrem e fecham o livro, incursionam por um modo de apropriação da literatura que não a coloca em situação subalterna. Essa inversão, quase simétrica, da forma impressa e concreta do texto, combina-se com titulações dispostas de modo contra-intuitivo, alterações do tipo de letra usada para grafar cartas, citações, diálogos interpostos e conceitos. Sem falar nas desafiadoramente longas notas de rodapé, em minúsculas letras incomiseráveis, onde encontramos, à custa de infinita perseverança ocular, a chave inesperada do texto, ou aquela enunciação fundamental que o esclarece. Justa lembrança de que o tão badalado conceito lacaniano de letra (lettre, l´etre), ou de carta de amor (lettre d´amour) se antecipa nos experimentos formais de Mallarmé e Pound antes de se consagrar na caligrafia oriental. Ponto para a renovação concretista da psicanálise brasileira. O formalismo de Lacan seria, neste ponto, mais propedêutico do que propriamente substancial. Dele Ricardo relembra preceitos de método, há muito esquecidos, sempre em nome do último Lacan: textos não são casos, personagens não são pacientes, analistas não são críticos literários e o romance, escrito e fixado como um “eterno já acontecido”, não é “a vida ela mesma”.

A oposição entre as bordas feitas de branco no preto e o miolo do livro onde o amor é trabalhado preto no branco, é suplementada pela incrível carta de despedida ao analista, sensível e corajosa, e que fará qualquer analista tremer no juízo mais íntimo de seu ser quando pensa na ultima sessão de sua própria análise. A graça final: ela vem diagramada de modo quase ilegível, na forma preto no preto. A forma e a cor das cartas de amor não são indiferentes ao seu conteúdo.

Entre a abertura e o fechamento temos o cerne do livro. No inquieto e irreverente ensaio “Uma carta de amor”, o autor prescreve que sua leitura será intensificada, se nos fizermos acompanhar da audição de Miles Davis, Leonard Cohen e Winton Marsalis (segui à risca, sem arrependimento). O conteúdo é uma anatomia crítica da moral psicanalítica. Uma renovação impiedosa do Freud de Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna, mas agora incluindo a psicanálise como parte do problema e sem o final otimista. Parafraseando o problema central: “análise boa é análise que continua”, fora disso é o fracasso. É como se estivéssemos em uma nova forma de patologia que concede ao amor infinito todas as forças. E na beatitude do final de análise, bem questionada pela experiência, o antídoto para este mal, bem ilustrado pelo caso deste paciente cuja única dedicação na vida é amar sua Dama. Contra essa espécie de doença incurável a psicanálise acabou acreditando demais em sua própria mitologia maquínica, de que o amor é uma repetição, e que uma boa análise acrescentaria a isso um: “Edição revisada pelo autor”.

Conveniência teórica ou álibi para o amor que causamos em transferência? Onde estariam então os amores não regressivos, mais além da neurose, que dariam corpo à promessa lacaniana de um Novo amor?

Neste clima de “inversão completa de valores” Ricardo escava os meandros dos impasses transferenciais que levaram à teoria da transferência como forma de amar. Ele mostra como o imbróglio de Freud com Ferenczi, Jung, Jones e Abraham exigia uma conceitualização que, de certa maneira, devia estar à frente da própria experiência. Disso avançamos para a situação real de amor erotizado sob transferência. Amor que apavorou Breuer. Amor que deu luz ao mito fundador da transferência. Amor que teria levado à formulação da regra da abstinência e o seu corolário psicanalítico das almas penadas, errante e puras. Abstinência paradoxal se cotejamos o que seria a suposta falsa satisfação com o metro de platina, guardado em algum recanto suíço, onde estaria o verdadeiro padrão ouro da satisfação da pulsão do amor. Nem falso no sentido de contrário ao verdadeiro, nem ideal na acepção de contrário ao real, seria preciso pensar o novo amor lacaniano, como novo e inédito. Isso significa ir bem mais além de sua forja corrente no molde da indiferença, na decepção, na frustração hipócrita ou empobrecida imposta pela moral dietética de nossa época em matéria de amor (não falamos em gozo). Responda o analista à demanda ou não, se é que isso é possível.

Exemplo perfeito: Elfriede Hirschfeld, o sexto, e até pouco tempo inédito, caso clínico escrito por Freud, abandona a análise justamente quando ele “está pronto a lhe dizer a última palavra sobre a sua doença”. Uma palavra que seria “o substituto do amor que ela espera dele”. Só assim poderíamos saber se a psicanálise é de fato uma erótica, uma ars amatória, e não apenas uma ars consolatória, para nossos pacientes.

“Até Lacan fazer do analista um desejante na década de setenta, ele era tido um homem sem desejo. Mais tarde o anátema caiu sobre seu gozo, e este último não seria levantado. [...] Defendo então um psicanalista qualificado e profissional, que também seja um diletante e um amador da psicanálise.” (p.88)

Concordo amplamente. Sempre desconfiei dos psicanalistas profissionais, prefiro os amadores. Aqueles cuja única promessa é a de que um dia poderemos nos separar deste amor que virá. No contexto destas ligações perigosas aparece então uma psicanálise com menos ideais de pureza e purificação. Para ela, um analista que tenha por condição de autenticação sua capacidade de amar. Afinal, este era o único critério decente de normalidade que encontramos em Freud (além de trabalhar). Aqui reencontramos a tese destilada nos ensaios mais literários do livro. O amor nos rende. Aquele que quer ser o soberano e supremo senhor do amor, que jamais se deixa cair e que imagina-se imune à queda (fall in love, tomberamoureux) no fundo é alguém que perdeu sua capacidade de amar, alguém que está curado de sua transferência, mas também de sua loucura, e com ela de sua humanidade. Esse tipo de psicanalista não corresponde à bela alma hegeliana, mas à alma pura que jamais se deixa cair como objeto, nem cair em luto, com a última sessão de um analisante.

O livro-carta enviado por Ricardo é um mergulho nas águas profundas cheias de moreias e corais, um livro no qual está o fôlego e o sangue frio, necessário para as grandes perguntas, e para os grandes amores, não sem uma pitada de histeria.

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Confira a aula Žižek e a psicanálise de Christian Dunker ministrada no “Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek” do Seminário Internacional Marx: a criação destruidora, que trouxe, entre outros, David Harvey e o filósofo esloveno ao Brasil:

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Futebolices, sacizices e livros

14.04.08_Mouzar Benedito_Futebolices, Sacizices e livrosPor Mouzar Benedito.

Aproveito meu espaço aqui para fazer algo que podem classificar como oportunismo: convidar os leitores para um lançamento de livros meus. Mas antes de dar as informações sobre títulos a serem lançados, local, data e horário, lanço um desafio: identificar quem escreveu a crônica intitulada Futebol, de que pincei trechos que se seguem.

“Dá energia. Dá tática. Dá agilidade. Dá calma, sobretudo nas emergências mais escabrosas. Dá o golpe de vista pronto, seguro e firme.

Dá energia moral, porque a energia moral é quase sempre um reflexo da energia física. Dá iniciativa. Dá confiança em si próprio.

Dá responsabilidade. Os porquês de tantos ‘dás’? Dá energia muscular porque o jogo movimenta a musculatura do corpo, os músculos do pé e da perna em primeiro lugar, e os do torço e do pescoço em seguida.

(…) Dá tática porque nas multíplices fases dum ataque ou duma defesa, num dribling, inesperado, num chute falho, em qualquer das mil peripécias de luta, o espírito dos foot-ballers, pela tensão prolongada de todas as suas faculdades, acarreta o aperfeiçoamento da mais e da mais evidência, a presteza da percepção, a tática.”

Mais adiante, no mesmo artigo, ele diz:

“Um ditador que tomasse conta desta República e acabasse com as fábricas de bacharéis e normalistas, substituindo-os por severos teams de futebol, faria mais pelo Brasil que as dez gerações de Feijós, Zés Bonifácios e Cotegipes e demais estadistas que nos têm governado.”

E termina assim:

“E é dessa raça de gente que precisamos. Menos bacharéis, menos parasitas, menos coronéis, menos deputados, menos promotores, menos esfria-verrumas e mais struggle for lifes, mais ‘homens’, mais fibra, mais glóbulos de ferro no sangue que um Camilo C. Branco do futuro não venha repetir que tem nas veias um podre sangue e dentro dos ossos farinha de mandioca.”

Bem, só pode ser um fanático por futebol quem “cometeu” esse texto, não? Duas surpresas: 1) a data e local em que ele foi publicado, o jornal O Povo, de Caçapava, na edição que circulou entre 10 e 17 de julho de 1905; 2) o autor, Hélio Bruma, que – fiquem sabendo (eu só fiquei há pouco) – era um pseudônimo de Monteiro Lobato.

Em outra crônica, chamada O 22 de Marajó, Lobato fala coisas que cito a seguir:

“Esse delírio que por aí vai pelo futebol tem seus fundamentos na própria natureza humana.”

“Não é mais esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas raças inimigas. Durante o tempo de luta, de quarenta a cinquenta mil pessoas deliram em transe, estáticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola. Conforme corre o jogo, há pausas de silêncio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentíssimas de entusiasmo, que só a palavra delírio classifica. É gente pacífica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fora de si, torna-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos.”

“Admiramos hoje os grandes filósofos gregos. Platão, Sócrates, Aristóteles; seus coevos, porém, admiravam muito mais aos atletas que venciam no estádio. Milon de Crotona, campeão na arte de torcer pescoços de touros, só para nós tem menos importância que seu mestre Pitágoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria inconcebível a ideia de que o filósofo pudesse no futuro ofuscar a glória do lutador.”

Pois é, quem diria! Monteiro Lobato, até praticou futebol, que admirava muito na juventude, mas depois de algumas caneladas o abandonou. E nunca mais jogou. Já adulto passou a desprezar o futebol.

Tornou-se o pai da literatura infantil brasileira, tem muitas bibliotecas com seu nome, inclusive a mais importante biblioteca infantojuvenil de São Paulo. E é nela, na região central da capital paulista, que será comemorado de maneira especial o aniversário do escritor este ano. As comemorações sob o título Semana Monteiro Lobato começaram no sábado, dia 12 de abril, e se estendem até dia 18.

E como estamos no ano da Copa a ser realizada no Brasil (com protestos e contestações) a semana vai ser aberta com… futebol. E lançamento de livros escritos por mim e publicados pela Liz Editora, incluindo um sobre o futebol.

A programação completa está embaixo deste texto, mas quero convidar a todos para eventos com minha participação: às 16h de sábado, dia 12, um bate-bola que vou fazer com Oiram Antonini. Em seguida, será lançado o meu livro Para entender o Brasil – o país do futebol. Escrito em português e inglês (afinal, a pretensão é que gringos o leiam – e uso a palavra gringo extensiva a estrangeiros em geral) dá um rápido panorama do que é o Brasil hoje e depois capítulos com muitas informações sobre as cidades sedes da Copa, com dicas para aproveitar bem a visita a elas, incluindo clima, comida, ambiente, cultura e um pouco mais. Em algumas, comento até o sotaque. Com mais de 300 páginas e muitas fotos, o preço de lançamento será promocional: apenas R$ 30.

E será lançada também uma coleção de livros infantis com textos meus e belas ilustrações do Ohi. Chama-se Turminha Brava. São oito livros: Ninguém engana o Saci?; O caiporismo do Tenório; Um boi chamado Tatá?; Bete e o Boto; O dia em que Joaquim correu atrás do Curupira mata adentro; Quem será o Lobisomem?; Um mergulho atrás da Iara; e A menina que montou na Mula sem Cabeça. O preço desta coleção também será promocional: R$ 15 cada volume, e a coleção completa sairá por R$ 100.

O lançamento será no saguão da Biblioteca Monteiro Lobato, na rua General Jardim, 485 – Vila Buarque (fica no meio da praça).

No mesmo momento será aberta uma exposição do processo criativo do Ohi.

Compareçam.

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A seguir, a programação completa da Semana Monteiro Lobato.

Sábado, 12 de abril
Abertura: Das 10h às 15h

1º Torneio Monteiro Lobato de Futsal Feminino e Masculino Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato e Base Comunitária da Praça Rotary / Coordenação: Renato Cesar /Local: Praça da Biblioteca (Pça Rotary) / às 16h

Sacizisses e futebolices
Bate-Bola com o jornalista e escritor Mouzar Benedito / Mediação: Oiram AntoniniLançamento dos livros Para entender o Brasil, país do futebol e a Coleção Turminha Brava de Mouzar BeneditoExposição do processo criativo de Ohi, o ilustrador dessa Coleção.

Dia 14 de Abril (segunda)

10h30 – Homenagem a Hilda Vilela Junqueira Merz
Palestra: Como era a Biblioteca nos tempos de Lobato e outros relatos sobre a Memória da Biblioteca.- com Dr. Victor Nussenzweig – diretor, na adolescência, do Jornal “A Voz da Infância”
14h – Histórias do Sítio – pela contadora de histórias Edna Cardoso, da Ed. Globo
15h – exibição do filme “Fantasia

Dia 15 de Abril (terça)

10h – Lançamento da Bibliografia Brasileira Infantil e Juvenil online
Apresentação dos Acervos Especiais da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, por Azilde Andreotti
Fala do Prof. André Moura sobre sua experiência como resenhador
Apresentação do Grupo Teatral “Pé de Zamba, em parceria com a Ed. FTD
15h – Fantasia e Realidade em Monteiro Lobato – Emília e Visconde: duas faces do autor – por André Moura

Dia 16 de Abril (quarta)

10h – Histórias do Sítio – contação de histórias para crianças
15h – exibição do filme “Alice no País das Maravilhas

Dia 18 de Abril – Sexta-Feira Santa

Publicação do texto Jesus Cristo segundo Monteiro Lobato – extraído do livro História do Mundo Para Crianças – no blog da Biblioteca

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Django livre

14.04.03_Luiz Bernardo Pericás_Django LivrePor Luiz Bernardo Pericás.

Conhecido por se apropriar de ideias de outros diretores e pelo uso excessivo de violência gratuita em seus filmes, Quentin Tarantino lançou recentemente seu Django livre, um trabalho bastante insatisfatório e considerado por diversos críticos como racista. Acostumado ao estilo cut and paste, este “artista” pop, por certo, conseguiu arregimentar admiradores ao longo de sua carreira cinematográfica. Mas nesta película foi capaz de desagradar não só à intelligentsia afroamericana como também àqueles que apreciam o gênero do faroeste. O que Tarantino provavelmente chama de “homage”, de tributo, pode ser visto como “cópia”. Mas uma reprodução que fica apenas na superfície e nos aspectos essencialmente estéticos, destituindo sua obra de qualquer profundidade ou sofisticação em termos de enredo e mensagem.

Os filmes de Sergio Corbucci que “inspiraram” Tarantino, principalmente Django (1966) e O grande silêncio (1968), podem ser vistos tanto como tentativas ousadas de reinterpretar imageticamente o western tradicional como, igualmente, alegorias para as inquietações “políticas” do cineasta italiano em relação ao mundo contemporâneo. Já o “produto” comercial de Tarantino, recheado de linguagem insultuosa, cenas de tortura e preconceitos, serve apenas como um instrumento (ou veículo) para chocar o público espectador. O fato de a palavra “nigger” ser usada 110 vezes no filme é apenas “um” dos aspectos em consideração aqui. O “colega” Spike Lee, ofendido com a trama, chegou a dizer: “American slavery was not a Sergio Leone Spaghetti Western. It was a Holocaust. My ancestors are slaves. Stolen from Africa. I will honor them”. Em realidade, nesta verdadeira “colcha de retalhos”, não há qualquer mensagem “aparente”. Até irmos mais fundo na história.

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Não custa lembrar que sempre foi comum que diretores de “bangue-bangues” reelaborassem enredos de outras produções, dando seu toque pessoal e reconstruindo as narrativas originais a seu modo. Por isso, filmes como Yojimbo ou Day of the Outlaw serviriam como pano de fundo para obras cinematográficas distintas de auteurs como Leone, Corbucci ou Solima, que adaptariam, com nova roupagem, clássicos do cinema. Mas a “realização” e a “intenção” daqueles diretores eram certamente bastante distintas das excentricidades de Tarantino.

Recordemos rapidamente os significados implícitos nos longas de Corbucci, para fazer, em seguida, uma contraposição ao trabalho do counterpart norte-americano. A história de O grande silêncio (Il grande silenzio)ocorre no final do século XIX, durante uma nevasca avassaladora em Utah. O cenário em que predomina o branco, frio e desolador, coberto por neve e neblina constantes (também usado em Django livre, no qual se tentou emular a fotografia magnífica de Silvano Ippoliti, sem sucesso) já é em si um símbolo do pessimismo e da falta de perspectivas com a realidade opressiva e estéril que cerca todos os personagens daquela região erma e abandonada do “oeste selvagem”. Num inverno particularmente duro, os moradores do pequeno vilarejo de Snow Hill passam fome e são obrigados a roubar para sobreviver. Assim, homens e mulheres, forçados a transgredir as regras jurídicas pela necessidade de se manter vivos, se tornam automaticamente “foras da lei”.

Para resolver a questão desta afronta contra a propriedade privada, a segurança e a ordem instituída, o banqueiro Policutt (que também era o juiz de paz da cidade), contrata “caçadores de recompensas” para matar ou capturar o populacho faminto. É aí que entra Loco (ou “Tigrero”, na versão italiana, interpretado por Klaus Kinski), um sádico que recebe dinheiro para cumprir essa missão. Corbucci, neste sentido, faz a crítica explícita a Sergio Leone, que colocara Clint Eastwood como o “herói” de sua Dollar Trilogy. Desta vez, o “caçador de recompensas” não é o protagonista, mas o vilão. Junto com Policutt, Loco representa o próprio sistema capitalista.

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Afinal, em O grande silêncio, o Estado (que protege a propriedade) e a lei (feita pelos e para os ricos) são controlados pelo capital, e estão do lado dos assassinos bounty hunters, e não dos mais humildes. Corbucci, assim, ataca ao mesmo tempo os Estados Unidos, o aparato de “justiça” e os clichês do faroeste hollywoodiano. Para vingar o assassinato de seu marido por Loco, Pauline (Vonetta McGee), contrata “Silêncio” (Jean-Louis Trintignant), um pistoleiro mudo, que perdera a voz ainda criança, quando Policutt e seus sequazes mataram seus pais e cortaram sua garganta. Ele é o “povo” sem voz, que tenta lutar sozinho contra um inimigo muito maior e mais forte.

É importante salientar que Pauline é negra, e ganha destaque na película. A partir do momento em que ela começa a se relacionar com “Silêncio”, temos um casal “interracial” em papel de relevo, rompendo todas as barreiras do preconceito, especialmente se atentarmos para o fato de a história se passar no final do século XIX, período em que as lutas pelos direitos civis eram uma possibilidade ainda muito distante. Pauline recusa o sexo com Policutt em troca de dinheiro e se envolve com “Silêncio” por amor. Ela é, portanto, o símbolo da nova mulher negra, que tem um papel ativo e feminista no destino daqueles personagens.

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Enquanto o racismo é claramente representado por Policutt e Loco, Pauline e “Silêncio” lutam contra a intolerância étnica e social. Mas, ao contrário da maioria das histórias do gênero, desta vez o “herói” não vence. “Silêncio”, Pauline e os outros cidadãos pobres e esfomeados são executados a tiros, numa chacina comandada por Loco. Tudo dentro da lei!

Vale dizer que as mãos de “Silêncio” são inutilizadas, e ele mal consegue sacar sua arma. É o mesmo que acontece com Django, na trama original (nome inspirado, por sinal, no guitarrista Django Reinhardt, que teve alguns dedos paralisados por queimaduras após um incêndio). As mãos quebradas são um retrato simbólico: é a impossibilidade de vitória do homem solitário, da “individualidade”. Por isso, talvez, Corbucci tenha dedicado O grande silêncio a Jesus Cristo e Che Guevara. O mártir do cristianismo, afinal, teve suas mãos pregadas na cruz. E as do revolucionário argentino, cortadas depois de ser assassinado. Ambos eram os campeões do homem comum e foram esmagados. A solução, portanto, seria a luta das “coletividades”, das “massas” em conjunto, e não de “indivíduos”, mesmo que fossem bem intencionados e estivessem do lado dos oprimidos.

Um resultado similar no cinema da época foi, por exemplo, o apresentado em Easy Rider (1969), o clássico road movie dirigido por Dennis Hopper, quando, ao final, ambos os protagonistas, dois motoqueiros outsiders que desafiavam o sistema vigente, também são destruídos. Ou seja, não há espaço para aqueles que saem da linha, que não cumprem o papel que lhes foi determinado, que não seguem as regras impostas. Todos os que tentam, são eliminados.

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A referência mais explícita de Tarantino para seu filme, contudo, é Django, interpretado por Franco Nero, trabalho que inspirou dezenas de outras películas com personagens de mesmo nome (o melhor deles, provavelmente, Viva Django!, de Ferdinando Baldi, estrelado por Terence Hill). Tarantino tirou cenas inteiras da obra corbucciana, a música de Rocky Roberts e Luis Bacalov, o nome do protagonista e muito mais.

Famoso pela violência, o Django original tem como cenário uma cidade coberta de lama, decadente, com personagens desestimulados e sem perspectivas. Dos donos de bares e prostitutas até o ambiente e os diálogos, tudo é cinza. A realidade, estática: o contrário, a antítese da imagem clássica da “prosperidade”, “mobilidade social” e “oportunidade para todos” tão propaladas na “América”. Dali não há escapatória. A única saída é o “dinheiro”.

Por sua vez, Django (um soldado da União desmobilizado) puxa um caixão, sinal claro de tormento existencial, de quem carrega seu próprio destino nas costas. E de que dele não há como escapar. Ainda assim, de dentro do ataúde, o homem misterioso tira uma metralhadora, com a qual massacra dezenas de inimigos. Entre seus rivais, os asseclas do major Jackson, sugestivamente vestidos com capuzes que remetem à Ku Klux Klan (outra apropriação de Tarantino, que fez alusão ao grupo antes mesmo de ele existir, em mais uma total demonstração de anacronismo e desconhecimento histórico, ainda que não designasse a turba encapuzada como tal). No drama de 1966, o racismo é abordado de forma séria, ainda que com muita estilização visual e “coreografia” nas cenas. É novamente o retorno da temática comum nos filmes de Corbucci, a do indivíduo solitário e oprimido tentando lutar contra um inimigo poderoso. Em outras palavras, todo o sistema.

No longa de Tarantino (que se passa em 1858, antes da Guerra Civil, e que foi considerado por ele como um “southern”), por sua vez, Django é um escravo “libertado” por um “dentista” e caçador de recompensas alemão, o Dr. King Schultz (interpretado pelo ator Christoph Waltz). O pistoleiro (Jamie Foxx) consegue a liberdade através da ação de um europeu de caráter duvidoso, e não por sua própria luta. Não há o “sujeito coletivo” contra a instituição da escravidão, nem mesmo o papel protagônico dos negros contra seus opressores. Django, afinal, é um “individualista” (assim como o Dr. King; a escolha do nome, por sinal, uma sugestão infame, de mau gosto). Ele e o bounty hunter de Düsseldorf são, em certa medida, “parceiros”. Ou melhor, essencialmente, Django é um marionete nas mãos de Schultz, indivíduo salafrário que o leva para todos os lugares, que o ensina a atirar, que o apresenta às pessoas, que diz a ele o que fazer e como agir. Na prática, Django não é igual:certamente não tem o mesmo status do “colega”. É, para todos os efeitos, um “acessório conveniente” nas mãos de um homem branco, que controla, de fato, a situação. O fator da “recompensa” financeira é, as usual, acentuado aqui.

A mulher de Django, Broomhilda, que deve ser salva do jugo do fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), dono de escravos e proprietário de uma plantation, é inexistente em termos de personalidade. Subserviente, é destituída de qualquer papel ativo na trama. Ela não dá a tônica da história, servindo quase como um apêndice da mesma.

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Por outro lado, o destaque fica para Samuel L. Jackson, interpretando Stephen, um fiel escravo idoso, o típico house negro (aquele que morava com os patrões na “Casa Grande” e se identificava completamente com os senhores brancos) tão criticado por Malcolm X. Só que, neste caso, um “Uncle Tom” que age como um bosse anglo-saxão, que dá ordens e despreza seus irmãos cativos. Assim, dá-se a entender que a figura poderosa “por trás da escravidão”, dando suporte a ela e que queria sua continuidade, é, na verdade, um negro (e não o establishment político-econômico dominado pelos escravocratas sulistas)! Já o outro afrodescendente, Django, não luta contra o escravismo per se, mas pela “liberdade individual”, pelo liberalismo! As massas escravas, por sua vez, são coadjuvantes para Tarantino, passivas e incapazes de combater seus captores e modificar sua realidade. Essa, a mensagem de Django livre. Não custa recordar que os escravos negros nos Estados Unidos historicamente foram protagonistas de importantes rebeliões e lutas de libertação, como a de Gabriel Prosser, na Virginia, em 1800, a de Denmark Vesey, em Charleston, Carolina do Sul, em 1822 e a de Nat Turner, a “Southampton Insurrection”, em 1831 (o diretor, por sinal, passa ao largo de todas elas).

O tema central do filme não é, portanto, a “escravidão”, mas a vingança – assunto excessivamente explorado no cinema comercial de Hollywood (que também vende, como sempre, todo tipo de memorabilia, bonecos e brinquedos relacionados às suas produções, como no próprio caso desta película, que teve caixas de réplicas dos personagens retirados das lojas após furor da comunidade afroamericana, que se sentiu ofendida e desrespeitada pela insensibilidade dos grandes estúdios). Em última instância, Django é basicamente uma figura de cartoon ou de história em quadrinhos, provido de uma personalidade unidimensional, sem camadas dramáticas ou qualquer profundidade emocional.

Mesmo os aspectos formais da produção podem ser criticados. Não só Tarantino utiliza canções de outras películas indiscriminadamente, mas aproveita de maneira pobre o gênio de Ennio Morricone, compositor da trilha original deste e de vários westerns emblemáticos. Morricone chegou a dizer que “é frustrante trabalhar com Tarantino”, já que “ele insere a música em seus filmes sem coerência”. Por isso, “não é possível fazer nada com alguém como ele”. A música de Morricone, de fato, é um elemento central e fundamental no andamento de outras obras cinematográficas, quase uma co-protagonista dos filmes. Em Django livre, contudo, é superficial, secundária e não recebe a devida importância. Aparentemente, a insatisfação do maestro e arranjador italiano foi tal, que ele chegou a declarar não ter mais qualquer intenção de trabalhar com o diretor nascido no Tennessee.

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Tarantino pode ser classificado como o típico cineasta “pós-moderno”. Não custa lembrar que, de acordo com o teórico literário e crítico cultural marxista Fredric Jameson, o “pós-moderno” pode ser caracterizado por uma falta de profundidade e superficialidade, uma cultura excessivamente fixada na “imagem”, o abandono do conceito de verdade, a perda da historicidade, a desintegração do sentido do tempo em uma série de presentes puros e não-relacionados, a prevalência do pastiche e a canibalização de estilos passados. Estes seriam alguns dos traços definidores deste estilo ascendente da cultura capitalista da atualidade. E também, a marca dos filmes de Tarantino ao longo dos anos.

Neste trabalho, só Django é supostamente “livre”, “unchained”. Apenas ele fica sem as correntes. Os outros negros como comunidade e entidade coletiva, não. Mas se Django perde suas correntes “físicas”, ele, mesmo sem se dar conta disso, continua preso pelos grilhões da opressão e da realidade sulista norte-americana, uma realidade de exploração, de trabalho abusivo e de racismo. E dela, por mais que se esforce, não consegue escapar. Ou seja, Django, afinal de contas, não é tão “livre” como pensa.

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Recomendamos a leitura do aclamado Os cangaceiros – ensaio de interpretação histórica, de Luiz Bernardo Pericás, uma análise cultural, política e sócio-histórica da figura mítica do cangaceiro, referência obrigatória para o estudo banditismo rural nordestino e seus desdobramentos na atualidade.

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Chega às livrarias este mês a coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizada por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco! 27 ensaios sobre Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Paulo Freire, Milton Santos, Astrojildo Pereira, Câmara Cascudo, Jacob Gorender, Ruy Mauro Marini, Maurício Tragtenberg, entre outros pensadores críticos do Brasil.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

1964, 50 anos depois

14.04.03_Flávio Aguiar_1964 50 anos depois.jpgPor Flávio Aguiar.

A tentação de fazer ficção científica é muito grande: o que teria acontecido nas nossas vidas se houvesse de fato resistência ao golpe?

Já nem digo se o golpe fosse derrotado. Mas simplesmente se houvesse resistência.

Certamente teria havido uma guerra civil.

Seria sustentável? Seria. Ainda no dia 2 de abril houve uma reunião (são estas coisas de Brasil: sei disto através do parente de um vizinho…) reunindo um pessoal da Petrobrás, o general Ladário Pereira Telles (nomeado às pressas comandante do 3º. Exército), Brizola, Jango, Sereno Chaise (que era o prefeito de Porto Alegre) e outros possíveis líderes da resistência.

Nesta reunião, os sindicalistas da Petrobrás apresentaram um plano de tomar todas as refinarias do sul do Brasil. Um eventual avanço de tropas de São Paulo para o Rio Grande do Sul encontraria pela frente um provável deserto de combustível. O que era necessário para isto? Armas.

Jango preferiu se exilar imediatamente no Uruguai. Um dos motivos alegados era o rápido deslocamento de uma força naval dos Estados Unidos do Caribe em direção ao Rio de Janeiro e o porto de Santos. Haveria uma invasão? Talvez.

Com a fuga de Jango, não houve a entrega das armas. Ficou tudo por isto mesmo. O plano teria funcionado? Hoje é impossível dizer que sim. Mas também é impossível dizer que não. São destas caixas pretas da história, mas sem leitura possível.

Outra caixa preta: haveria muitas mortes? Certamente. Mas não como a grande maioria que houve nos anos depois do golpe, com pessoas caçadas como ratos ou na tortura, em calabouços infames. Isto teria sido melhor? Impossível saber. A única coisa possível de se saber é que a falta de resistência naquele momento decisivo da história tornou mais amargo o fruto amargo que tivemos de comer sem vomitar. O resto fica no mistério da caixa preta.

Este é o principal efeito do golpe, ainda hoje, esta semeadura de caixas pretas ao longo das vidas posteriores. É claro que há um sem número de caixas pretas nas nossas vidas. O que teria acontecido comigo se eu não tivesse feito aquela escolha, naquele momento, ou fizessem outra escolha, tivesse outra namorada, aceitasse outro emprego, e por aí afora.

Somos os destino das nossas escolhas e também o seu desatino, ou ainda o destino de nossa falta de escolha por vezes. Mas a caixa preta do golpe é diferente. Porque as outras vão variando, diminuindo ou variando de importância conforme o tempo vai passando. A do golpe não. Ela não passa, ela fica, ela pesa sempre na memória. É a cicatriz do futuro que não houve. E por baixo da cicatriz a ferida ainda está aberta, ainda lateja.

Em alguns casos ela se transformou em câncer, e levou pessoas ao suicídio. Outras vezes ela levou pessoas ao suicídio moral, à adesão deslavada e descarada à direita. Até hoje isto acontece.

Esta caixa preta está irremediavelmente plantada na memória. A memória é um labirinto, onde frquentemente nos encontramos, mas também onde frequentemente nos perdemos. Se falarmos de memória, caixa preta, labirinto, perda, um caso que nos vem à mente – evocado em várias ocasiões – é o de Frei Tito de Alencar. Barbaramente torturado pelo delegado Sergio Paranhos Fleury durante a caçada a Carlos Marighella, Frei Tito ficou com algo de si preso a esta memória horrenda, como um anzol. A única maneira de se libertar desta verdadeira possessão demoníaca foi através da morte. Tão grave foi seu caso que apesar do suicídio ele recebeu as exéquias cristãs no convento onde residia, em Paris, quando de seu suicídio.

A memória tem destes redemoinhos. Há coisas que queremos lembrar e não podemos; há coisas que queremos esquecer e não conseguimos. A caixa preta de 64 está nesta encruzilhada: queremos por vezes lembrar-nos deste futuro que nos era prometido, que poderíamos construir, e que nos foi arrebatado pelo golpe, e isto se torna uma operação cada vez mais difícil e nebulosa; queremos esquecer do amargor de ter todo este futuro negado, e não conseguimos, pois a dor da perda é sempre presente, cada vez mais espessa e onipresente.

Virar a página? Sim, é necessário virar a página. Até porque os que não querem virar a página, os Bolsonaros da vida, os militares de pijama nostálgicos da ditadura, os amantes de privilégios em todas as classes sociais não querem virar a página. Querem ficar presos e deter-nos todos na prisão da reverência ao canalhismo de 64. Mas virar a página não significa esquecer. Porque se a metáfora é a do livro, o livro pode e deve ser folheado numa e noutra direção.

Haverá um ajuste de contas com este passado? É muito difícil prever. Duas coisas seriam necessárias: a revisão da Lei da Anistia e a abertura dos arquivos das Forças Armadas. Isto depende do STF e do Congresso Nacional, além da pressão dentro e fora do Brasil. Isto nos leva ao encontro de outra caixa-preta, mas esta cheia de possíveis surpresas, a da política.

A ver.

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Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.