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Lembranças tropicais: Gabriel García Márquez

14.04.17_Perry Anderson_Lembranças tropicaisPor Perry Anderson.

Como formas de escrever sobre o passado, memórias e autobiografias são empreitadas diferentes, apesar de na prática não se sobreporem. No limite, um livro de memórias pode recriar um mundo ricamente povoado por pessoas, sem contudo falar muito sobre o próprio autor. Uma autobiografia, em compensação, pode assumir a forma de um retrato puro de si, no qual o mundo e os outros aparecem apenas como uma mise-en-scène para a aventura íntima do narrador. Ao recontar sua vida, romancistas já produziram atos de bravura em ambos os gêneros. Entre as obras modernas, To Keep the Ball Rolling [Para Manter a Bola Rolando], de Anthony Powell – quatro volumes agradáveis, embora lacônicos –, é uma obra-prima do primeiro gênero. O breve As Palavras, de Sartre, é talvez o maior exemplo do segundo. Viver para Contar, de Gabriel García Márquez, é classificado como livro de memórias por seus editores, mas há certa dúvida de que, no conjunto, se enquadre nessa categoria. Márquez é, obviamente, um lendário contador de histórias. Além disso, possui uma aguda inteligência autorreflexiva, como podemos observar emCheiro de Goiaba, em que reproduz suas conversas biográficas com Plinio Apuleyo Mendoza.

Em Viver para Contar, Márquez exerce com comedimento esse outro lado de seus dons. Por opção artística, construiu um livro de memórias mais próximo, na forma, de um romance do que jamais se tenha escrito. Começa com a chegada de sua mãe a Barranquilla, a fim de levar o filho – então com 22 anos – para vender a casa da família em Aracataca, viagem que fez com que se tornasse o escritor que é hoje; e termina com o ultimato escrito por ele durante um voo para Genebra, cinco anos depois, e que transformou uma paixão esquiva de adolescência em sua futura esposa. Entre esses dois coups de théâtre paralelos, o autor rememora sua vida até o momento em que deixou a Colômbia, em 1955, numa narrativa que obedece não aos padrões desordenados da experiência ou da memória, com toda a sua irregularidade, mas às regras de uma composição perfeitamente simétrica. O livro é dividido em oito capítulos de tamanhos praticamente idênticos – um arranjo que corresponde menos ainda à maneira como qualquer vida poderia ser de fato vivida, como que para sublinhar o fato de estarmos diante de outro artifício supremo.

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Desde o início de sua carreira, Márquez vem praticando dois estilos de escrita relativamente distintos: a prosa figurativamente carregada, já visível de maneira brilhante em seu primeiro livro de ficção, A Revoada: O Enterro do Diabo, que teve sua publicação rejeitada na época, com a concessão de que era “poética”; e a concisão objetiva de histórias como Ninguém Escreve ao Coronel ou reportagens como Notícia de um SequestroSe, tecnicamente, o registro de Viver para Contar fica entre os dois, o tom e o efeito do conjunto – e isso decorre da concepção das memórias – têm a grandeza viva e suntuosa de seus grandes romances. Estamos ali no mundo de Cem Anos de Solidão ou de O General em seu Labirinto, com sua densidade metafórica e seus diálogos típicos: sentenças curtas e sublimes, que funcionam quase como epigramas, de pungência inimitável e ironia bem-humorada.

O que o livro conta é a história da juventude de Márquez na Colômbia. Retratos vívidos de seus pais e avós criam um ambiente familiar dos mais estranhos. Então é mostrada sua infância, até os 8 anos, com o avô na zona bananeira da costa do Caribe; os primeiros dias de escola e a pobreza em Barranquilla, as férias num interior paradisíaco; a subida do rio Magdalena até um liceu nos Andes; o ingresso na universidade em Bogotá; uma descrição em primeira mão dos tumultos apocalípticos na capital após o assassinato do principal político populista do país, Jorge Eliécer Gaitán; o retorno à costa para fugir dos distúrbios; os primeiros anos como jornalista em Cartagena; o entusiasmo literário e a dissipação boêmia em Barranquilla; e, por fim, o trabalho regular como repórter em Bogotá e a ida ao exterior para cobrir a conferência de Genebra, em 1955. Tudo isso com uma grande variedade de incidentes impressionantes, detalhes intrigantes e uma sorte extravagante que poucas obras de ficção seriam capazes de igualar.

No entanto, o resultado não é um Bildungsroman [romance de formação] do autor, cuja personalidade raramente está em foco, mas a recriação de um universo assombroso, a costa caribenha da Colômbia na primeira metade do século XX. Quem acha que a contraparte factual da ficção de Márquez é, na melhor das hipóteses, uma pálida cópia dela pode ficar tranquilo. Uma cena impressionante atrás da outra, um personagem inesquecível atrás do outro, cascatas de gestos que vão além da lógica e coincidências que vão além da razão fazem de Viver para Contar um primo dos grandes romances. Esse primeiro volume é um grande e bem planejado edifício de imaginação literária. É tentador, assim, lê-lo apenas como uma obra de arte, independentemente de seu status de documento biográfico.

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Isso, contudo, seria diminuir seu interesse. Para entender o porquê, pode-se compará-lo com as memórias do escritor latino-americano ao qual é mais comumente associado, e que perde somente para ele em fama. Peixe na Água, de Mario Vargas Llosa, publicado há mais de uma década, tem uma estrutura menos convencional. Escrito após a derrota de sua candidatura à Presidência do Peru, em 1990, alterna capítulos sobre a sua infância e a adolescência, e a campanha para liderar o país quando tinha mais de 50 anos – um recurso de contraponto que ele usou mais de uma vez em seus livros de ficção, de Tia Julia e o Escrevinhador até O Paraíso na Outra Esquina. Nesse formato, os três anos de campanha presidencial ocupam mais espaço do que os 22 anos até a idade adulta. Só isso já faz desse um livro de memórias muito diferente do de Márquez. Ainda mais impressionantes, então, são as semelhanças entre suas primeiras experiências, misteriosamente próximas em muitos aspectos.

Ambos os escritores passaram os primeiros anos cruciais da meninice sob o teto de um avô que os adorava, o patriarca da família – um deles um veterano da guerra civil na Colômbia, o outro um fazendeiro e prefeito na Bolívia e no Peru. Os pais, que tinham empregos semelhantes (um era operador de telégrafo, o outro era operador de rádio) e fizeram casamentos semelhantes (contra a vontade da família da noiva, de classe social superior), eram ausentes: um vazio na estrutura emocional da infância, em que mesmo as mães desempenhavam papel secundário. A iniciação sexual veio cedo, em bordéis sobre os quais escrevem com afeição maliciosa. Mais tarde, casaram-se ambos com moças de sua cidade natal. Quando adolescentes, foram enviados contra a vontade para colégios internos pelos pais. Formaram-se com alegria nas províncias e experimentaram a chegada à capital como um infortúnio.

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Na universidade, mergulharam numa vida paralela de jornalismo e farras noturnas. Os dois mostraram habilidade para novelas de rádio, inspirados pelo mesmo dramalhão – El Derecho de Nacerde Félix B. Caignet (sem conotações anacrônicas antiaborto) [No Brasil, exibida no formato de radionovela e telenovela, em diferentes versões, com o título O Direito de Nascer]. Em ambos os casos, a grande descoberta literária da juventude foiFaulkner, cujos romances eles dizem que os marcaram mais fundo do que qualquer outro. Cada um encerra suas memórias no mesmo ponto decisivo, quando o escritor – logo depois de descobrir alguma coisa sobre o interior desconhecido de sua terra (El Chocó e Amazonas) – deixa o país natal em direção à Europa, para nunca mais voltar a fixar residência ali.

Uma série de paralelos desse tipo é um convite para algum futuro Plutarco das letras latino-americanas. Mas o que eles evidenciam, afinal, são os contrastes dos dois romancistas e de suas memórias. Apesar de todas as semelhanças entre as constelações familiares, Vargas Llosa tem – pelo lado materno – uma herança social mais privilegiada, um clã da elite de Arequipa que produziu o primeiro presidente peruano do pós-guerra, Bustamante y Rivero. Classe e cor o situavam mais alto na escala social, naquela que era uma sociedade rigidamente racista, do que um menino mestiço da Colômbia poderia chegar. A educação formal também os separou. Márquez explica quão desafeiçoado era dos estudos na universidade, onde seu pai insistira que cursasse direito e a qual acabou por abandonar. Vargas Llosa, ao contrário, teve um brilhante cursus estudantil e tornou-se assistente do maior historiador de Lima antes mesmo de se formar. A universidade foi uma experiência central para ele, enquanto para Márquez não significou nada. Essa diferença explica por que ele foi para a Europa muito mais cedo, com uma bolsa de estudos em Madri. E também por que, uma vez na Europa, nunca mais a deixou, tendo vivido essencialmente em Paris, Londres e Madri, viajando a passeio para Lima. Márquez, ao contrário, logo retornou à América Latina, terminando por se estabelecer no México.

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As trajetórias divergentes têm seus correlatos atmosféricos no trabalho de cada um. Na vida dos autores, a história de seu país – medida em termos de matança, repressão, frustração, corrupção – dificilmente poderia ser mais sinistra, e isso, é claro, encontra expressão em seus romances. Mas os retratos que Márquez faz de sua terra natal, mesmo em seus piores momentos, são repletos de um afeto lírico, um amor imutável, que não têm equivalentes no mundo de Vargas Llosa, no qual a relação do escritor com sua terra de origem é sempre tensa e ambígua.

A razão dessa diferença pode ser encontrada em parte em suas situações individuais. Se, por um lado, a configuração das famílias de origem era de uma similaridade impressionante, a voltagem emocional era oposta. A mãe de Márquez, retratada de forma adorável por ele, era claramente uma mulher de grande força de caráter, capaz de administrar um marido determinado, ainda que inconstante, e onze crianças, tanto na prosperidade como na penúria. O pai de Vargas Llosa, que sem uma palavra abandonou a esposa no quinto mês de gestação e, dez anos depois, apareceu inesperadamente para retomá-la e cooptá-lo, foi, em contraste, um pesadelo traumático: temido pela esposa e odiado pelo filho. Sem nenhum apego por sua terra natal, acabou por emigrar para os Estados Unidos e morreu como faxineiro em Pasadena.

Mesmo o melodrama da primeira experiência sexual dos dois escritores, com roteiros conhecidos de honra e ultraje latinos, reflete esse contraste. Quando Vargas Llosa se casou com a tia – naquela família semidesenraizada, não por coincidência uma boliviana –, seu pai sacou um revólver, denunciou-o à polícia em Lima e ameaçou matá-lo com cinco tiros, como um cão raivoso. García Márquez, apanhado in flagrante com a esposa negra de um policial do interior, também teve de encarar uma pistola, assim como as palavras: “Traição na cama se resolve na bala.” Mas o sargento que sofreu a afronta deixou o menino apavorado escapar com a humilhação – em gratidão a um serviço médico prestado pelo pai de Márquez, e quando vistos pela última vez, bebiam juntos.

As duas cenas, composições de um machismo teatral, ilustram duas sociedades diferentes. A poesia e a humanidade do episódio colombiano capturam o espírito geral de Viver para Contar, assim como os laços de seu autor com a comunidade em que cresceu. Já o título de Peixe na Água inverte a história que na verdade conta. Isso é expresso de maneira mais precisa na primeira edição, intitulada Um Peixe Fora d’Água – uma inversão que não é a menos importante das estranhezas das memórias de Vargas Llosa como um todo. Embora escrito num momento de aguda decepção política, e inevitavelmente um tanto descolorido por ela, o livro é atravessado pelo horror a boa parte da vida peruana – social e cultural, bem como política –, que expressa de modo claro sentimentos havia muito existentes.

As consequências literárias dessa diferença não são as que se esperam. O rótulo de “realismo fantástico” – hoje desgastado pelo uso – é habitualmente atribuído aos romances de Márquez. Nunca se ajustou bem a Vargas Llosa, que não reconhece o adjetivo. “Tenho uma fraqueza invencível pelo assim chamado realismo”, observa ele em Peixe na Água. Um dos contrastes mais significativos da ficção de ambos decorre dessas opções distintas – ou talvez as dite. O grosso do trabalho de Vargas Llosa situa-se no presente peruano, contemporâneo à sua própria experiência. A principal exceção são os deslocamentos, não apenas no tempo, como também no espaço – o Brasil de A Guerra do Fim do Mundo ou a França e os mares do sul de O Paraíso na Outra Esquina.

Em compensação, nenhum dos grandes romances de García Márquez representa a época em que ele próprio se tornou escritor. Macondo desaparece na Grande Depressão. O patriarca pertence ao mundo rústico de Juan Vicente Gómez. Os tempos do cólera são vitorianos. O general expira com o fim da Restauração. A modernidade é alérgica à mágica. Os poderes de Márquez sempre necessitaram de uma volta ao passado para serem exercidos com plena liberdade.

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É claro que, na mente do público, o que provavelmente distingue os dois escritores é a imagem convencional de suas posições políticas – García Márquez como amigo de Fidel Castro, Vargas Llosa como devoto de Margaret Thatcher, figuras respectivamente da esquerda ecumênica e da direita liberal. Tal polaridade existe, é claro. Mas, ao olhar para a escrita em vez de para as filiações, percebemos um contraste mais impressionante. Vargas Llosa foi desde cedo, e assim permanece, um animal político. Como estudante em Lima durante a ditadura de Odría, foi um ativo militante comunista, levado para o partido por Héctor Béjar, que mais tarde, nos anos 60, comandaria a primeira guerrilha peruana; ao chegar à Europa, mergulhou na teoria marxista na qualidade de entusiasta da Revolução Cubana. No começo dos anos 70, quando rompeu com a esquerda por causa de Cuba, não se recolheu à literatura simplesmente, como outros, mas tornou-se um admirador apaixonado de Hayek e Friedman, e um dos principais defensores do capitalismo de livre mercado na América Latina. Sua candidatura à Presidência do Peru, com o apoio da direita tradicional, não foi um capricho repentino, mas consequência de uma década de atividade pública consistente. Logicamente, sua ficção – desde o primeiro retrato da academia militar em A Cidade e os Cachorros, passando pelas conspirações revolucionárias em Conversa na Catedral e História de Mayta, até A Festa do Bode – usa os conflitos políticos contemporâneos diretamente como tema organizador.

Esse nunca foi o caso de García Márquez, e Viver para Contar ajuda a explicar o porquê, apesar de permanecer algum mistério. Ele retrata um jovem, vindo da costa para o altiplano durante a adolescência, tão absorvido pelos temas literários – primeiro e acima de tudo pela poesia – a ponto de não ter praticamente nenhum interesse pelos assuntos públicos. A Colômbia já se encontrava num estado de grande tensão política em seus últimos anos de escola e, assim que chegou à universidade, o país sucumbiu à guerra civil. Em seu capítulo mais poderoso, Viver para Contarpinta um panoramaao estilo de Goya do terremoto social que engolfou Bogotá quando Gaitán, seu político mais popular, foi assassinado, em 1948. De sua pensión a três quarteirões de distância, García Márquez correu para a cena, chegando a tempo de presenciar o linchamento do assassino e a irrupção de uma maré de tumultos e saques que varreu a cidade. Mas sua reação, tal como se recorda, foi simplesmente voltar à pensão para terminar o almoço. Encontrando-o na rua, um parente mais velho – o qual se tornou um dos líderes da junta revolucionária que tentou direcionar os tumultos para um levante contra o governo conservador – instigou-o a participar dos protestos estudantis contra o assassinato. Em vão. Aterrorizado com a destruição e as mortes em massa nos dias seguintes, quando o Exército entrou na cidade para restaurar a ordem, seu único desejo era fugir.

A violênciaque devastou a Colômbia na década seguinte, opondo os liberais aos conservadores que se mantinham no poder, ceifou 300 mil vidas – uma catástrofe pior do que qualquer outra que o Peru tenha sofrido. Esse foi o pano de fundo histórico do início da carreira de Márquez como jornalista e escritor. Mas ele parece ter continuado misteriosamente intacto. Apesar de ser colunista regular de um diário de Cartagena, escreve que “no meu ofuscamento político da época, eu nem sabia que a lei marcial havia sido imposta de novo no país”. Em Barranquilla, pouco depois, “a verdade de minha alma era que o drama da Colômbia me atingia como um eco remoto, e me comoveu apenas quando transbordou em rios de sangue”. Essa confissão nos desarma, mas a distinção não se sustenta: o drama da Colômbia era o derramamento de sangue. Parece que a realidade foi que o jovem literato, inteiramente envolvido em descobertas e experimentos da imaginação, de fato ignorava o destino de seu país naqueles anos.

Era mais fácil agir assim nas cidades costeiras, já que o litoral do Caribe, embora não estivesse imune às chacinas sectárias, foi poupado do pior da violência que grassava nas fronteiras cafeeiras das terras altas. A identificação de Márquez com sua região – “o único lugar em que realmente me sinto em casa” – conferiu à sua escrita uma intensidade luminosa, mas parece também tê-lo protegido, ou cegado, dos padrões e forças mais amplos da nação. “A Colômbia sempre foi um país com uma identidade caribenha que se abria para o mundo pelo cordão umbilical do Panamá”, escreve. “Sua amputação forçada nos condenou ao que somos hoje: uma nação com uma mentalidade andina, cujas circunstâncias favorecem que o canal entre os dois oceanos pertença não a nós, mas aos Estados Unidos.”

O lamento é palpável e significativo. Não é exagero dizer que as terras elevadas dos Andes, que formam o cerne da sociedade colombiana, permanecem uma espécie de livro fechado para Márquez. Não há dúvida de que vem daí, em parte, o silêncio em Viver para Contar a respeito da guerra civil durante a qual se passa boa parte da história.

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A única aventura de Márquez na história contemporânea, Notícia de um Sequestro, humana e cativante como relato do episódio final da carreira de Pablo Escobar, confirma certo mal de altitude intelectual. Falta-lhe a compreensão do contexto social da guerra da droga na Colômbia ou mesmo uma visão crítica da oligarquia que a comandava. Lendo o livro, ficamos tentados a achar que, no fundo, Márquez permanece tão apolítico quanto era no início.

Isso é um erro, como mostra a sequência de Viver para Contar. Mas tanto suas memórias quanto sua ficção sugerem uma mente com uma maravilhosa sensibilidade intuitiva para o temperamento, as cores e os detalhes do mundo em que cresceu, sem muita consideração pela definição de suas relações ou estruturas. Por esse relato, é difícil situar com precisão a família de Márquez na escala social. Seu avô, apesar de ser representado como um patriarca com alguma substância, parece não ter sido originalmente mais do que um artesão, ainda que ourives; a base econômica da lendária casa de Aracataca – o pai é descrito como alguém que pediu a mão de uma “filha de família rica” – é obscura. Os altos e baixos das venturas do pai, da extrema pobreza ao conforto modesto – aparentemente sem relação com a proliferação dos onze filhos –, são apenas um pouco menos incompreensíveis. Com o passar do tempo, as conexões entre o clã se revelam: um tio na polícia de Cartagena, capaz de arranjar empregos; um professor em Bogotá, dono de uma grande livraria. Cabe a nós tentar adivinhar como se encaixava o jovem Gabito nessa hierarquia complicada de classe e cor.

O que dizer, finalmente, do autorretrato que emerge dessas memórias? Ele é curiosamente oblíquo. Márquez oferece um relato abrangente do desenvolvimento de sua vocação literária, do tempo de escola até mais ou menos seus 20 anos, e muitos incidentes cativantes ou encontros arrebatadores em sua jornada rumo à maturidade. Mas não está tão claro como ele era enquanto menino ou jovem. A autoconfiança que seu avô lhe deu na infância parece nunca tê-lo abandonado, salvo nas brevíssimas turbulências da adolescência. Mas há poucos sinais de ambição deliberada. Ele se fecha em sua timidez, mas obviamente era companhia animada, já que nunca lhe faltaram amigos. Mas não revela o quanto se empenhou em procurá-los ou até que ponto era visto apenas como um boêmio inconsequente.

Nas transações com o sexo oposto, as iniciativas de sedução partem na maioria das vezes das mulheres. Apesar de dizer que quando voltou a Barranquilla “tinha a timidez de uma codorna, que eu tentei contrabalançar com arrogância insuportável e franqueza brutal”, ele parece ter se dado bem em geral com parentes mais velhos e amigos, em todos os lugares por que passou. Com exceção de um conflito com o pai sobre a escolha de sua carreira, nenhuma grande discussão marca esse progresso. Ele cita apenas ocasionalmente os lados mais vulcânicos de sua personalidade – “acessos de raiva sem nenhum motivo”, “birras pueris” –, mas não oferece mais detalhes.

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Em vez de fazer uma autoanálise detida, Márquez oferece um espelho generoso aos seus contemporâneos. Viver para Contar contém uma abundante galeria de parentes, amantes, colegas, mentores e aliados, capturados num parágrafo ou em uma ou duas páginas. Isso basta para deixar impacientes os leitores anglo-saxões, mas é uma lealdade atraente, que distingue suas memórias das de Vargas Llosa. Um Peixe na Água, pensado desde o início para um público internacional, é mais tênue nesse sentido. As memórias de Márquez são destinadas aos leitores colombianos antes de tudo.

Elas anunciam seu princípio de construção no início, num manifesto gravado como epígrafe na abertura do livro: “A vida não é o que se viveu, mas o que se lembra, e como isso é lembrado para ser contado.” Tomado literalmente, é um convite à memória seletiva, com todas as facilidades de uma amnésia conveniente. Não há motivo para supor que Márquez tenha abusado de sua máxima. Mas é sempre legítimo perguntar em que medida as memórias correspondem aos fatos. Independentemente de quanta licença concedamos a um artista em sua reconstrução do passado, não valorizaríamos do mesmo modo o resultado se tudo se revelasse imaginário.

Nesse caso, a narrativa dá ensejo a alguns pontos de interrogação na margem. Sexo, política, literatura: cada um deixa uma penumbra de incerteza em seu entorno. Comentando “os modos de caçador furtivo” de seu pai, Márquez diz que houve um período em que ficou tentado a imitá-lo, mas logo descobriu que se tratava da “mais árida forma de solidão”. Nada em seu relato corresponde a essa breve afirmação. Em Cheiro de Goiaba, ele diz que, quando estava na universidade, pertenceu a uma célula do Partido Comunista Colombiano. Não há vestígio disso emViver para Contar.

Entre os autores que o formaram, ele enfatiza Faulkner. Mas a afirmação de que “cada sentença deve ser responsável pela estrutura toda” e o uso celestial do adjetivo (ele diz ter aversão a advérbios), que é a marca de sua prosa, derivam de Borges, que ele pouco menciona. A saída do grupo de Barranquilla que produzia a revista literária Crónica, cadinho de seu primeiro florescimento como escritor, é apresentada como uma partida amigável, sem dificuldades ou ressentimentos. No entanto, entrega que renunciou ao cargo de editor num acesso de raiva algum tempo antes, por razões não especificadas. A ruptura pode ter sido mais dolorosa do que ele sugere.

Tais discrepâncias têm importância? A epígrafe as absolve. Mas uma vida e uma história nunca são a mesma coisa, e os interstícios entre elas – mais largos ou mais estreitos – são inevitavelmente parte do interesse de cada uma. Na luz resplandecente dessas memórias, há um brilho tênue à distância, próprio da latitude.

* Ensaio publicado originalmente em
Espectro: da direita à esquerda no mundo das ideias, de Perry Anderson.

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Leia também, no Blog da Boitempo, O outono de Gabriel García Márquez e O escritor Mario Vargas Llosa e sua tia Júlia, na coluna de Urariano Mota, e O último livro de Vargas Llosa: radiografia sem diagnóstico, na coluna de Emir Sader.

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Perry Anderson é um historiador inglês nascido em 1938. Professor da UCLA, Estados Unidos, foi editor da New Left Review, a principal revista de esquerda do mundo anglófono. Ensaista político, Anderson é conhecido por seu trabalho em história intelectual, e filia-se à tradição do Marxismo Ocidental do pós-1956. É autor, entre outros, de Espectro e Afinidades seletivas, ambos publicados pela Boitempo.

Carro fantasma

14.04.17_Roniwalter Jatobá_Carro fantasmaPor Roniwalter Jatobá.

O funileiro aposentado Amarildo Figueiredo, morador no Jardim Maia, na Zona Leste de São Paulo, só foi descobrir o problema mais grave do seu Fusca 1200, ano 1967, três meses depois de comprado de um primo distante. A princípio julgou uma “galinha morta”, pois o automóvel foi oferecido pela metade do preço de mercado. Mesmo com um pára-lama amassado, valia. Para ele, conceituado profissional do ramo, o serviço de funilaria era como uma brincadeira num final de semana. Com o equipamento que guardava em casa, usado para consertar carros alheios, era fácil, fácil.

Pagou à vista. Pegou o carro num domingo e seguiu para casa. Numa travessa da antiga São Paulo-Rio, resolveu comemorar num bar a recente aquisição. Estacionou com cuidado. Quando voltou, o carro tinha andado cerca de 50 metros e notava-se um amassado bem grande no pára-choque traseiro.

Verificou o freio de mão. Funcionava direitinho. Tentou empurrar o carro para ver se rodava mais alguns metros, mas ele nem se mexeu do lugar. Amarildo ficou encafifado.

– Quem arruma um pára-lama arruma também um pára-choque – pensou.

Já em casa, fez questão de mostrar à mulher todos os detalhes do carro.

– Fiz um grande negócio – disse. – No próximo domingo, com ele todo arrumado, vamos descer a Serra e beber uma cerveja e comer um peixe assado numa barraca da Praia Grande.

Era o que ele pensava. Na segunda-feira, misteriosamente todo o óleo do cárter havia vazado. Na terça, ao tirar o carro da garagem, viu pelo retrovisor a figura de seu velho sogro, falecido logo depois de seu casamento.

Outro dia, Amarildo me contou esses e outros problemas fantasmagóricos. Agora, não tinha coragem de sair nem mesmo na sua rua com o automóvel tanto desejado.

– Será que tem jeito? – indagou.

Conto para ele que um motorista britânico foi obrigado a fazer uma coisa que só tinha visto em ser humano. Morador em Londres, pediu ao padre de Sussex para exorcizar seu carro.

Era o empresário Keith Tagliaferro, de 42 anos. Segundo ele, o veículo era responsável por todas as desgraças que sofreu desde que foi comprado. Tagliaferro culpava seu velho Ford Capri vermelho pela descarga de um raio, da morte de sua cadela de estimação, do surgimento de ferrugem no teto da capota do veículo e do aparecimento de fantasmas no porta-malas. Num jornal, o empresário afirmou que a placa do carro, ARK 666Y, pode ter relação com ARK – sigla da Arca da Aliança bíblica –, enquanto 666 é o número do diabo.

– Comprei o carro porque negocio placas e esta é bem procurada – relatou o empresário. – Mas o homem que me vendeu parecia ansioso para se livrar do veículo. Não sei se o proprietário anterior passou pelos mesmos apuros, mas desde que o comprei começaram a acontecer coisas estranhas.

A cerimônia de exorcismo foi feita realmente pelo sacerdote Kevin Carylon, de Sussex. Para dizer a verdade, não sei se deu certo. Mas, ando pesquisando para saber o resultado. Qualquer hora dessas, levo a fórmula para o desesperado e assustado Amarildo, que até hoje não usufruiu nadinha do primeiro – e último – carro próprio.

14.04.17_Roniwalter Jatobá_Carro fantasma_2

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

A versão e os fatos: lágrimas que alimentam meu ódio

14.04.16_Mauro Iasi_A versão e os fatosPor Mauro Iasi. 

Ao jovem Jefferson

O jovem Jefferson Rodrigues da Silva, de dezoito anos, foi morto a tiros por fuzileiros navais no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Na versão oficial, trocou tiros com os soldados que responderam ao fogo causando a baixa.

A Polícia Militar e o Exército ficam sempre muito bravos quando se coloca em dúvida as versões oficiais. Mas, vejam bem, outras versões oficiais que nos foram apresentadas: Amarildo, pedreiro sequestrado, torturado e assassinado por policiais militares da UPP da Rocinha, teria, na versão oficial, sido morto por traficantes; Claudia, atingida por dois disparos da polícia e que foi jogada na parte de trás de uma viatura e acabou sendo arrastada pelas ruas do Rio, teria sido apenas socorrida pela polícia; Giovanni, jovem que foi atingido por tiros pelas costas ao sair de casa de bermuda e boné quando a Polícia Militar entrava em seu bairro, e que, já caído, ao seu lado foi deixada uma quantidade de drogas e um revolver que não lhe pertencia, na versão das autoridades é um traficante que trocou tiros e tentou fugir; Herzog se enforcou em sua cela, mesmo que de uma altura na qual seria impossível tal ato; o golpe burguês e militar de 1964, que rompeu a Constituição e abriu décadas de terror e arbítrio, teria sido, na versão oficial, a reação das forças democráticas contra a provocação de comunistas que queriam fazer reformas de base, que ameaçavam a família, a religião e os bons costumes.

Há uma perversidade extra na guerra das versões. Jefferson tinha 18 anos, morava em uma enorme área abandonada desde sempre pelos poderes públicos, sem condições mínimas de saneamento, tampouco acesso a serviços essenciais, esquecida pelas verbas de infraestrutura, na qual impera o medo permanente, seja do crime organizado, seja do aparato policial corrupto e violento que vive em simbiose com a criminalidade e dela se alimenta.

O fato de Jefferson ser um trabalhador – alvejado como um efeito colateral (como tantos já foram) e agora tornado criminoso para ocultar sua morte – ou um jovem que naquela situação descrita vivia dos rendimentos da lucrativa atividade do tráfico e estava armado defendendo-se da invasão militar, não muda a tragédia do caso. Para boa parte da juventude estas são as opções: sobreviver em precárias condições e morrer de “bala perdida”, ou resistir armado e morrer em conflito com o aparato repressivo. Muitos decidem viver menos e viver melhor com os ganhos do tráfico, o prestígio e poder de, pelo menos, estar armado.

O BOPE quando subia os morros com o malfadado “caveirão” tocava em seus alto-falantes uma mensagem que dizia: “em bandido a gente atira com fuzil, em trabalhador é tapa na cara”. É compreensível que alguns decidam por estar, pelo menos armados, ao invés de tomar tapa na cara, levantar as mãos e virar para o muro enquanto são revistados.

Ali mesmo, no Complexo da Maré, que margeia a Linha Vermelha que leva os turistas do Galeão privatizado até a cidade maravilhosa, o poder público tomou uma iniciativa paradigmática. Não foram obras de infraestrutura, de implantação de serviços, ou mesmo de segurança pública (de uma verdadeira segurança… pública), do desenvolvimento dos serviços básicos como saneamento, educação ou saúde; foi, ao invés disso, o levantamento de anteparas sobre a murada da via que cobriam a visão das favelas e nestes painéis foram colocadas reproduções de desenhos, muitos feitos por crianças, com uma imagem idealizada e idílica do Rio e da própria favela.

Parece que esta iniciativa representa bem uma concepção. Esconder o real com uma representação idealizada que oculta e inverte a realidade. Nós, marxistas, chamamos isso de ideologia.

Ocorre que o real oculto segue existindo e suas contradições um dia explodem, fica impossível escondê-las. Já tiramos do centro e jogamos para a periferia, já ocultamos por painéis, já amenizamos com políticas pontuais, fragmentárias e insuficientes, já tentamos calar as vozes dissidentes a golpes de balcão de projetos e ONGs, bem ou mal intencionadas, mas simplesmente cresce o trafico, a repressão policial, as mortes, os autos de resistência… Como nada parece dar certo, então, eles mandam o exército, seus tanques de guerra e seus soldados, treinados no Haiti – que, Caetano já alertava, é aqui.

Na Portaria Normativa n. 3.461 do Ministério da Defesa, que estabelece as chamadas Operações de garantia da Lei e da Ordem (OpGLOs), encontramos uma espécie de confissão quando afirma que tais operações “tem por objetivo a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio em situações de esgotamento dos instrumentos para isso previstos no art. 144 da Constituição ou em outras em que se presuma ser possível a perturbação da ordem” [grifos meus].

Ocorre que o “esgotamento” não é dos instrumentos previstos, é de toda a concepção de sociedade sobre a qual eles se assentam. Como é difícil encarar esta verdade, vamos nos enganando que um intensificação da mesma lógica pode um resolver nosso problema. É como se nós tivéssemos um grande vazamento de água em nossa casa, causado pelo rompimento de uma tubulação, e acreditássemos que o problema é o tamanho do balde e a qualidade do pano que usamos para enxugar o chão.

O arremedo de política social e gotas de empreendedorismo, assim como a presença repressiva militar não deu certo, ora, mandamos o BOPE, não deu certo, ora mandamos as Forças Armadas. E se não der certo? Vamos fazer campos de concentração e fornos crematórios? Para que nenhum cidadão de bem seja confundido com um “marginal” vamos cortar seus cabelos, obrigá-los a usar pijamas listrados e pregar estrelas amarelas em seus peitos?

A ordem capitalista já resolveu este dilema. A segregação espacial de classes já criou os guetos modernos, a herança escravista colonial já pintou de preto as classes perigosas facilitando o trabalho da polícia e das forças armadas. Às vezes se mata uma dona de casa, uma criança, um jovem trabalhador, mas são efeitos colaterais na sagrada “guerra” contra o crime em defesa da lei e da ordem. Ninguém mandou eles parecerem tanto com as “forças oponentes”, são pobres, pretos, andam provocativamente de bermuda e chinelo, moram nas favelas, olham para a polícia com medo ou, pior, com o que lhes sobra de dignidade.

Certo, nos sabemos que tem gente rica no comando, organizando e lucrando muito com o tráfico de drogas e armas. Quando aparece na televisão o “grande chefe” do tráfico, morando na favela, mesmo os mais convictos em sua ingenuidade não acreditam que por trás dele não tem algum figurão com conexões em altos escalões, contatos com a própria polícia e políticos influentes. Bom, então, porque não vemos os tanques cercando a Vieira Souto, os condomínios de luxo na Barra, o caveirão entrando no Congresso Nacional e aqueles deputados e senadores com a mão na parede e pernas abertas sendo revistados sob a mira de um fuzil?

É que eles andam de terno, parecem gente de bem, da nossa “melhor sociedade”. Guardamos a forma repressiva, violenta e arbitrária para nossa “pior sociedade”. Enquanto o lixo humano, os dejetos incômodos de uma sociedade de riquezas e ostentação de luxo, estiverem escondidos e em ordem, tudo bem. Mas, se quiserem ocupar um terreno no centro, abandonado por uma pirata (ou corsária, já que pratica pirataria oficialmente… Oi?) das telecomunicações, aí não, enfeia a cidade maravilhosa. Aí chama a guarda pretoriana, chama a SS, chama os camisas pretas, chama a Gestapo e tira esse povo feio, preto e mau vestido, sem senso arquitetônico adequado, sem licitação e, pior, sem caixinha ou financiamento de campanha para as autoridades constituídas.

No fundo é o mesmo princípio da reforma do prefeito Pereira Passos que eliminou os cortiços no início do século e tentou imitar Paris e seus belos jardins, ou de outros que jogavam mendigos no mar, ou de Clinton que mandou tirar os pobres desempregados que dormiam sob a marquise do local no qual os democratas queriam fazer sua convenção e anunciar medidas importantes para combater a pobreza.

Para realizar estas medidas de ocultamento da pobreza estruturalmente determinada, até pela violência explicita que envolve tal ato, é preciso, assim como na Maré, um tapume ideológico. A mesma portaria normativa citada prevê isso naquilo que denomina de “Batalhão de Operações Psicológicas” (B Op Psico) que teria, entre seus objetivos “obter a cooperação da população diretamente envolvida na área de operações, desenvolvendo uma atitude contrária às F Opn [Forças Oponentes] e outra favorável às forças empregadas”.

Um enorme tapume entorno da pobreza e das áreas de conflito, cercas protegendo os lugares nos quais se darão os grandes eventos esportivos, placas que impedem a visão da favela por toda a rota que leva os turistas até os hotéis e ruas cercadas até os estádios. O problema é que vai ser difícil esconder todas as contradições embaixo do tapete ideológico, mesmo com as Forças Armadas no comando da vassoura repressiva. Os pobres insistem em estar por todos os lados, como disse certa vez a rainha Elizabeth da Inglaterra “Pauper ubique jacet” (o pobre está prostrado em toda parte). Que fazer, então? [ver: Karl Marx, O capital, livro I, p. 793]

Bom, sugerimos óculos com telas de cristal líquido e imagens editadas e transmitidas diretamente do centro de operações da Policia Militar e da central Globo de jornalismo, que seriam distribuídos a cada um que chegasse ao Brasil. Melhor seria distribuí-los antes do desembarque para já operarem vendo aeroportos com as reformas concluídas e funcionando perfeitamente.

No país da Copa não pode ter pobre sendo espancado pela polícia. Não pode um representante da Lei e da Ordem chamar uma menina de “macaca favelada” e desferir um murro em sua boca quebrando seus dentes, não pode um policial atirar e deixar uma pessoa cega ou mutilada, como na desocupação do terreno da Oi. Não pode ter greves, manifestações e ônibus incendiados. Não pode uma filha chorando com sua mãe baleada nos braços e perguntado ao policial que ria “por que… minha mãe não era bandida… por que?” Não pode o exército assassinar a tiros um jovem de 18 anos, seja ele ou não um infrator.

Não sei se o jovem Jefferson era ou não um criminoso. Recolho seu corpo e sinto em mim mesmo sua dor, é meu sangue que se esvai no chão da Maré. Sinto o tiro do fuzil assassino varando seu peito e abrindo um abismo de dor no coração de seu pai. Posso, em um relance, ver os filhos que não irão buscar seu abraço fantasma, as bocas que nunca sentirão o calor de seus lábios. Recolho mais este sacrifício no interminável martírio de nossa classe e o engulo com as lágrimas que alimentam meu ódio profundo. Eu os acuso!

Não apenas o infeliz soldado que puxou o gatilho e seu comandante, engrenagens da máquina de morte, mas também aqueles que se escondem atrás de seus cargos: Senhor Ministro da Defesa que pediu aos militares que escrevessem a portaria, senhor Ministro da Justiça de um pais injusto que permite que a Constituição seja suspensa e desfigurada, senhora Presidente Dilma Rousseff que assinou os atos que tornou legal o massacre, senhor governador (o ex e o atual) escondido covardes em seus escritórios: eu os acuso! A vergonha os acompanhará para sempre. Suas mãos estão sujas de sangue… jamais conseguirão lavá-las desta ignomínia.

14.04.16_Mauro Iasi_A versão e os fatos_passeata

Manifestantes fecham a pista central da Av.Brasil por alguns minutos depois de morte de Jefferson Rodrigues da Silva (Foto: Carlos Moraes / Agência O Dia)

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Mauro Iasi assina o posfácio do novo livro de Slavoj Žižek, Violência: seis reflexões laterais. A edição brasileira, que chega às livrarias em maio, vem acrescida ainda de um prefácio inédito do filósofo esloveno, escrito especialmente para o momento sombrio em que vivemos no país.

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Mauro Luis Iasi é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato entre outros. Confira, abaixo, o debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, com os autores Carlos Vainer, Mauro Iasi, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira:

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Eutanasinha

A imagem da menina do último carnaval, eu pensei tê-la esquecido. Dizem que uma imagem vale mil palavras. Bobagem, diz não. Entre tantas imagens que cometi no carnaval que passou, do porta-estandarte de Banhistas do Pina, orgulhoso da sua tradição, ao desfile do Bloco da Saudade, com suas mulheres bonitas mais um imenso galo ao fundo sobre a ponte, a mais bela é a de uma negra princesinha. Ela ficou na memória, acredito, porque não era uma imagem. É uma pessoa. É uma linda menina, passado e futuro do carnaval. A princesinha da memória era a filha da cozinheira de um boxe do Mercado da Boa Vista. Ela, a menina, tão feliz estava, que nem comeu todo o seu almoço no prato. Talvez a mãe, generosa como todas, tenha posto mais comida do que a menina queria. Mas não, penso mais é que a princesinha estava tão feliz, que perdeu a vontade de comer, assim como ocorre a todos nós em raras ocasiões. Quando o peito está contente, para que melhor alimento?

A princesinha, informa a memória, portava uma coroinha de lata, um vestidinho verde, umas trancinhas crespas que caíam em graça pelos lados da coroinha. O que a lembrança também diz é que as trancinhas elegantes davam na gente uma vontade de cheirar os cabelos da princesinha. Vontades assim dão na gente, de vez em quando, mas o adulto, escolado, sabe que a beleza, se tocada, pode reagir mal. Assim como um cão amarrado em corrente, que na infância enfiou os dentes na mão deste escritor. Não que a princesinha fosse morder. Pelo contrário, ela ainda mais sorriria encabulada, penso. Mas morderiam este escrevinhador outros homens na multidão do mercado, porque deviam achar descabido um beijo em trança rebelde de uma criança negra. Coisa de pedófilo se aproveitando do carnaval, assim podia pensar a maldade do vulgo em forma de julgamento. Por isso eu a toquei com os olhos, que estavam encantados e úmidos de álcool e emoção, nessa mistura que vem no rosto e nem a disciplina mais férrea consegue esconder. Então pedi à minha mulher, “tire por favor uma foto da princesinha”. E o celular registrou.

Eu não lembro agora o seu nome. É claro, eu lhe perguntei tudo, o nome, idade, bairro, quem eram os pais, essas perguntas idiotas de repórteres que primam pela objetividade. Ou seja, aqueles clássicos 5 burros Ws: Who, What, Why, Where, When, que traduzidos se mostram mais límpidos ainda na sua burrice: Quem, O quê, Por quê, Onde e Quando. Meu Deus dos ateus, só não perguntei à princesinha, para minha salvação, se ela gostava de carnaval. Se gostava!… ela era um sorriso amplo, guardado, de menininha cuja beleza não é um esplendor, mas que faz a alegria e ternura da mãe. Isso, sim. Mas isso, sim, também, transmite felicidade e amor a quase toda a gente.

Eu queria falar tudo o que manda o coração para essa menina. Eu bem queria ser um homem feliz por dizer tudo o que ela inspira em um espaço tão breve, que será lido de passagem, entre um instante e outro da última notícia, entre a passagem de um bloco, de um maracatu, de um clube ou outro nas ruas. Por isso digo apenas, antes que esqueça, que o sorriso da princesinha era triste e feliz em um só movimento. O triste vinha do seu modo de ser, ou da pequena experiência que ela já possuía da crueldade do mundo. E feliz, ainda assim, porque tão poucas vezes ela foi ou será princesa, uma princesinha, ainda que de mentirinha, sorrindo para alguém que a descobriu no meio da multidão. E feliz também ela era porque crianças não gostam de ser tristes, crianças retiram do maior golpe um instante para sorrir. Como agora, nesta lembrança do carnaval que passou e permanece.

Então eu a vou chamar de Mariinha, quem sabe, princesinha Maricota, quando mais próprio seria chamá-la de Eutanasinha. Sim, uma pequenina eutanásia, porque no seu sorriso há um quê de matar sem dor a gente, ou de matar suave, que é uma forma de matar no coração que fala baixinho agora, enquanto o som dos clarins não toca mais alto: olha, a humanidade está na infância e ninguém vê. É toda uma gente muito bárbara, princesinha, tão bárbara, que pensou tê-la esquecido no carnaval do ano passado.

Dizem sempre e repetem até o cansaço que uma imagem vale mil palavras. Bobagem, princesinha. Difícil é encontrar uma foto que expresse as mil palavras que o afeto dos mais bárbaros quer dizer. Assim, façamos um acordo de paz provisória entre o que pretendia tudo falar e a tua imagem no mercado: feliz carnaval, Eutanasinha. O cheiro que não te dei vai nestas linhas.

*Do Dicionário amoroso do Recife, publicado pela Casarão do Verbo.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O amor em tempos das almas puras

Resenha de Do amor louco e outros amores, de Ricardo Goldenberg

14.04.09_Christian Dunker_O amor nos tempos das almas puras[Fotografia de Chema Madoz, que ilustra a capa de Do amor louco e outros amores, de Ricardo Goldenberg]

Por Christian Ingo Lenz Dunker.*

O novo livro de Ricardo Goldenberg, Do amor louco e outros amores (Editora Instituto Langage, São Paulo, 2013), é uma grata surpresa no cenário de publicações psicanalíticas sobre o amor. Há algum tempo este tema vem sendo parasitado por uma glosa, mais ou menos repetitiva, sempre em tom sapiental, sobre como Lacan ou Freud, podem nos alumiar nas trevas líquidas e desencontradas que tomaram conta de nossa época em matéria de amor. A coisa caminha de tal forma que quando conseguimos dizer alguma coisa a mais, e ademais interessante, geralmente é para nos reconhecermos como parte da grande narrativa moderna, que é o romance. Os romances nos ensinam a amar, um pouco mais do que os manuais de arserotica e os guias de sexologia, e um tanto menos do que as palavras íntimas, cada vez mais raras, entre amigos, amantes e quejandos.

A novidade no livro é que ele resolve colocar as coisas pelo lado mais difícil, ou seja, pelo lado do amor, do desejo ou do gozo que o analista experimenta em sua aventura reversa que são as análises que ele conduz. Há pouquíssimos precedentes nesta matéria: Ferenczi de Diário Clínico, Theodore Reik de Escutando com o terceiro ouvido e mais recentemente Stephen Mitchell e a psicanálise relacional. A raridade se explica, em parte, pelo fato de que a tarefa exige altas doses de franqueza e honestidade para falar da experiência tal como ela se dá, para aquele que a narra e problematiza, mais do que de como ela deveria se dar, segundo aqueles que nos precederam e em acordo com ideias que cultivamos. Goldenberg tem esta vocação para a pahresia, a fala franca que os latinos exigiam daqueles que se dedicavam a cuidar da alma. Isso se combina com as oscilações entre alta e a baixa cultura, entre exegese talmúdica e Janis Joplin. Quiçá esta atitude tenha sido formada nos tempos dourados em que foi hold da legendária banda de rock Emerson, Lake and Palmer, ou então nos anos de chumbo da psicanálise argentina engajada.

No famoso axioma lacaniano de que “a impossibilidade de sustentar autenticamente uma práxis se transforma no exercício de um poder, como é comum na história dos homens”, o termo que me parece mais problemático é este “autenticamente”. A autenticidade não é apenas um problema de boa vontade e disposição moral à transparência. A autenticidade é um problema formal de alta dignidade literária. Ou seja, Ricardo se coloca a questão de como falar de amor desta posição na qual faltam palavras. Posição difícil, pois se deixamos as palavras virem, espontaneamente, como na análise, faremos romance, conto ou autobiografia e se as levamos a sério demais entramos na prosa deontológica, moral ou universitária. Resta a carta. A carta como tensão entre forma e conteúdo, entre ato e discurso. Restância. Por isso, coerentemente, o livro é composto por uma série de quase-cartas: de um homem para as mulheres, de analista para analisante, de analisante para analista, de um homem para uma mulher.

A solução encontrada para imiscuir desequilíbrios formais com desenvolvimento de teses, envolve uma inteligente combinação entre certos experimentos formais e elevada agilidade frasística e aforismática que vão compondo a casuística das cartas. O livro é um verdadeiro experimento diagramático conduzido por este, antes chamado de enfant terrible da psicanálise paulista. Senão vejamos. A introdução é impressa em páginas negras com letras em branco. Seguem-se dois intrólitos: um em alinhamento poemático, preto no branco, sobre o sultão Xeriar e Sherazade. Depois disso, em páginas azuis com tipos em branco, encontramos o pequeno e erudito excurso sobre a deserotização calculada pelo cristianismo do pequeno tratado bíblico sobre o amor, o “O cântico dos cânticos”.

O primeiro introduz, em estilo ligeiro, a oposição entre a obrigação de cumprir a masculinidade e o gozo contínuo, ilimitado e indiscreto do lado feminino. Aqui somos introduzidos à ideia de que os amores loucos são também os vividos pelas almas impuras, as únicas realmente dotadas de existência. O segundo ensaio recoloca no centro da interpretação do texto sagrado, a mulher e a carne como um tema político. Lido em nada menos do que 11 traduções, verifica-se que entre Salomão e Sulamita não se trata de sedução, o soberano “não foi enganado senão loucamente vencido pelo encanto de uma mulher”. Aqui começa a fazer comichão a ideia de que assim como a morte é o mestre absoluto, o amor produz o escravo absoluto.

Se o volume se abre com a paginação em preto no branco, seguido pelo branco no azul, ele se fecha, de forma quase simétrica, com outros dois pequenos estudos sobre Lolita, de Nabocov e sobre A hora e a vez de Augusto Matraga. Os quatro pequenos estudos sobre a literatura de amor, mais as duas cartas, que abrem e fecham o livro, incursionam por um modo de apropriação da literatura que não a coloca em situação subalterna. Essa inversão, quase simétrica, da forma impressa e concreta do texto, combina-se com titulações dispostas de modo contra-intuitivo, alterações do tipo de letra usada para grafar cartas, citações, diálogos interpostos e conceitos. Sem falar nas desafiadoramente longas notas de rodapé, em minúsculas letras incomiseráveis, onde encontramos, à custa de infinita perseverança ocular, a chave inesperada do texto, ou aquela enunciação fundamental que o esclarece. Justa lembrança de que o tão badalado conceito lacaniano de letra (lettre, l´etre), ou de carta de amor (lettre d´amour) se antecipa nos experimentos formais de Mallarmé e Pound antes de se consagrar na caligrafia oriental. Ponto para a renovação concretista da psicanálise brasileira. O formalismo de Lacan seria, neste ponto, mais propedêutico do que propriamente substancial. Dele Ricardo relembra preceitos de método, há muito esquecidos, sempre em nome do último Lacan: textos não são casos, personagens não são pacientes, analistas não são críticos literários e o romance, escrito e fixado como um “eterno já acontecido”, não é “a vida ela mesma”.

A oposição entre as bordas feitas de branco no preto e o miolo do livro onde o amor é trabalhado preto no branco, é suplementada pela incrível carta de despedida ao analista, sensível e corajosa, e que fará qualquer analista tremer no juízo mais íntimo de seu ser quando pensa na ultima sessão de sua própria análise. A graça final: ela vem diagramada de modo quase ilegível, na forma preto no preto. A forma e a cor das cartas de amor não são indiferentes ao seu conteúdo.

Entre a abertura e o fechamento temos o cerne do livro. No inquieto e irreverente ensaio “Uma carta de amor”, o autor prescreve que sua leitura será intensificada, se nos fizermos acompanhar da audição de Miles Davis, Leonard Cohen e Winton Marsalis (segui à risca, sem arrependimento). O conteúdo é uma anatomia crítica da moral psicanalítica. Uma renovação impiedosa do Freud de Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna, mas agora incluindo a psicanálise como parte do problema e sem o final otimista. Parafraseando o problema central: “análise boa é análise que continua”, fora disso é o fracasso. É como se estivéssemos em uma nova forma de patologia que concede ao amor infinito todas as forças. E na beatitude do final de análise, bem questionada pela experiência, o antídoto para este mal, bem ilustrado pelo caso deste paciente cuja única dedicação na vida é amar sua Dama. Contra essa espécie de doença incurável a psicanálise acabou acreditando demais em sua própria mitologia maquínica, de que o amor é uma repetição, e que uma boa análise acrescentaria a isso um: “Edição revisada pelo autor”.

Conveniência teórica ou álibi para o amor que causamos em transferência? Onde estariam então os amores não regressivos, mais além da neurose, que dariam corpo à promessa lacaniana de um Novo amor?

Neste clima de “inversão completa de valores” Ricardo escava os meandros dos impasses transferenciais que levaram à teoria da transferência como forma de amar. Ele mostra como o imbróglio de Freud com Ferenczi, Jung, Jones e Abraham exigia uma conceitualização que, de certa maneira, devia estar à frente da própria experiência. Disso avançamos para a situação real de amor erotizado sob transferência. Amor que apavorou Breuer. Amor que deu luz ao mito fundador da transferência. Amor que teria levado à formulação da regra da abstinência e o seu corolário psicanalítico das almas penadas, errante e puras. Abstinência paradoxal se cotejamos o que seria a suposta falsa satisfação com o metro de platina, guardado em algum recanto suíço, onde estaria o verdadeiro padrão ouro da satisfação da pulsão do amor. Nem falso no sentido de contrário ao verdadeiro, nem ideal na acepção de contrário ao real, seria preciso pensar o novo amor lacaniano, como novo e inédito. Isso significa ir bem mais além de sua forja corrente no molde da indiferença, na decepção, na frustração hipócrita ou empobrecida imposta pela moral dietética de nossa época em matéria de amor (não falamos em gozo). Responda o analista à demanda ou não, se é que isso é possível.

Exemplo perfeito: Elfriede Hirschfeld, o sexto, e até pouco tempo inédito, caso clínico escrito por Freud, abandona a análise justamente quando ele “está pronto a lhe dizer a última palavra sobre a sua doença”. Uma palavra que seria “o substituto do amor que ela espera dele”. Só assim poderíamos saber se a psicanálise é de fato uma erótica, uma ars amatória, e não apenas uma ars consolatória, para nossos pacientes.

“Até Lacan fazer do analista um desejante na década de setenta, ele era tido um homem sem desejo. Mais tarde o anátema caiu sobre seu gozo, e este último não seria levantado. [...] Defendo então um psicanalista qualificado e profissional, que também seja um diletante e um amador da psicanálise.” (p.88)

Concordo amplamente. Sempre desconfiei dos psicanalistas profissionais, prefiro os amadores. Aqueles cuja única promessa é a de que um dia poderemos nos separar deste amor que virá. No contexto destas ligações perigosas aparece então uma psicanálise com menos ideais de pureza e purificação. Para ela, um analista que tenha por condição de autenticação sua capacidade de amar. Afinal, este era o único critério decente de normalidade que encontramos em Freud (além de trabalhar). Aqui reencontramos a tese destilada nos ensaios mais literários do livro. O amor nos rende. Aquele que quer ser o soberano e supremo senhor do amor, que jamais se deixa cair e que imagina-se imune à queda (fall in love, tomberamoureux) no fundo é alguém que perdeu sua capacidade de amar, alguém que está curado de sua transferência, mas também de sua loucura, e com ela de sua humanidade. Esse tipo de psicanalista não corresponde à bela alma hegeliana, mas à alma pura que jamais se deixa cair como objeto, nem cair em luto, com a última sessão de um analisante.

O livro-carta enviado por Ricardo é um mergulho nas águas profundas cheias de moreias e corais, um livro no qual está o fôlego e o sangue frio, necessário para as grandes perguntas, e para os grandes amores, não sem uma pitada de histeria.

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Confira a aula Žižek e a psicanálise de Christian Dunker ministrada no “Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek” do Seminário Internacional Marx: a criação destruidora, que trouxe, entre outros, David Harvey e o filósofo esloveno ao Brasil:

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Futebolices, sacizices e livros

14.04.08_Mouzar Benedito_Futebolices, Sacizices e livrosPor Mouzar Benedito.

Aproveito meu espaço aqui para fazer algo que podem classificar como oportunismo: convidar os leitores para um lançamento de livros meus. Mas antes de dar as informações sobre títulos a serem lançados, local, data e horário, lanço um desafio: identificar quem escreveu a crônica intitulada Futebol, de que pincei trechos que se seguem.

“Dá energia. Dá tática. Dá agilidade. Dá calma, sobretudo nas emergências mais escabrosas. Dá o golpe de vista pronto, seguro e firme.

Dá energia moral, porque a energia moral é quase sempre um reflexo da energia física. Dá iniciativa. Dá confiança em si próprio.

Dá responsabilidade. Os porquês de tantos ‘dás’? Dá energia muscular porque o jogo movimenta a musculatura do corpo, os músculos do pé e da perna em primeiro lugar, e os do torço e do pescoço em seguida.

(…) Dá tática porque nas multíplices fases dum ataque ou duma defesa, num dribling, inesperado, num chute falho, em qualquer das mil peripécias de luta, o espírito dos foot-ballers, pela tensão prolongada de todas as suas faculdades, acarreta o aperfeiçoamento da mais e da mais evidência, a presteza da percepção, a tática.”

Mais adiante, no mesmo artigo, ele diz:

“Um ditador que tomasse conta desta República e acabasse com as fábricas de bacharéis e normalistas, substituindo-os por severos teams de futebol, faria mais pelo Brasil que as dez gerações de Feijós, Zés Bonifácios e Cotegipes e demais estadistas que nos têm governado.”

E termina assim:

“E é dessa raça de gente que precisamos. Menos bacharéis, menos parasitas, menos coronéis, menos deputados, menos promotores, menos esfria-verrumas e mais struggle for lifes, mais ‘homens’, mais fibra, mais glóbulos de ferro no sangue que um Camilo C. Branco do futuro não venha repetir que tem nas veias um podre sangue e dentro dos ossos farinha de mandioca.”

Bem, só pode ser um fanático por futebol quem “cometeu” esse texto, não? Duas surpresas: 1) a data e local em que ele foi publicado, o jornal O Povo, de Caçapava, na edição que circulou entre 10 e 17 de julho de 1905; 2) o autor, Hélio Bruma, que – fiquem sabendo (eu só fiquei há pouco) – era um pseudônimo de Monteiro Lobato.

Em outra crônica, chamada O 22 de Marajó, Lobato fala coisas que cito a seguir:

“Esse delírio que por aí vai pelo futebol tem seus fundamentos na própria natureza humana.”

“Não é mais esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas raças inimigas. Durante o tempo de luta, de quarenta a cinquenta mil pessoas deliram em transe, estáticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola. Conforme corre o jogo, há pausas de silêncio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentíssimas de entusiasmo, que só a palavra delírio classifica. É gente pacífica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fora de si, torna-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos.”

“Admiramos hoje os grandes filósofos gregos. Platão, Sócrates, Aristóteles; seus coevos, porém, admiravam muito mais aos atletas que venciam no estádio. Milon de Crotona, campeão na arte de torcer pescoços de touros, só para nós tem menos importância que seu mestre Pitágoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria inconcebível a ideia de que o filósofo pudesse no futuro ofuscar a glória do lutador.”

Pois é, quem diria! Monteiro Lobato, até praticou futebol, que admirava muito na juventude, mas depois de algumas caneladas o abandonou. E nunca mais jogou. Já adulto passou a desprezar o futebol.

Tornou-se o pai da literatura infantil brasileira, tem muitas bibliotecas com seu nome, inclusive a mais importante biblioteca infantojuvenil de São Paulo. E é nela, na região central da capital paulista, que será comemorado de maneira especial o aniversário do escritor este ano. As comemorações sob o título Semana Monteiro Lobato começaram no sábado, dia 12 de abril, e se estendem até dia 18.

E como estamos no ano da Copa a ser realizada no Brasil (com protestos e contestações) a semana vai ser aberta com… futebol. E lançamento de livros escritos por mim e publicados pela Liz Editora, incluindo um sobre o futebol.

A programação completa está embaixo deste texto, mas quero convidar a todos para eventos com minha participação: às 16h de sábado, dia 12, um bate-bola que vou fazer com Oiram Antonini. Em seguida, será lançado o meu livro Para entender o Brasil – o país do futebol. Escrito em português e inglês (afinal, a pretensão é que gringos o leiam – e uso a palavra gringo extensiva a estrangeiros em geral) dá um rápido panorama do que é o Brasil hoje e depois capítulos com muitas informações sobre as cidades sedes da Copa, com dicas para aproveitar bem a visita a elas, incluindo clima, comida, ambiente, cultura e um pouco mais. Em algumas, comento até o sotaque. Com mais de 300 páginas e muitas fotos, o preço de lançamento será promocional: apenas R$ 30.

E será lançada também uma coleção de livros infantis com textos meus e belas ilustrações do Ohi. Chama-se Turminha Brava. São oito livros: Ninguém engana o Saci?; O caiporismo do Tenório; Um boi chamado Tatá?; Bete e o Boto; O dia em que Joaquim correu atrás do Curupira mata adentro; Quem será o Lobisomem?; Um mergulho atrás da Iara; e A menina que montou na Mula sem Cabeça. O preço desta coleção também será promocional: R$ 15 cada volume, e a coleção completa sairá por R$ 100.

O lançamento será no saguão da Biblioteca Monteiro Lobato, na rua General Jardim, 485 – Vila Buarque (fica no meio da praça).

No mesmo momento será aberta uma exposição do processo criativo do Ohi.

Compareçam.

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A seguir, a programação completa da Semana Monteiro Lobato.

Sábado, 12 de abril
Abertura: Das 10h às 15h

1º Torneio Monteiro Lobato de Futsal Feminino e Masculino Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato e Base Comunitária da Praça Rotary / Coordenação: Renato Cesar /Local: Praça da Biblioteca (Pça Rotary) / às 16h

Sacizisses e futebolices
Bate-Bola com o jornalista e escritor Mouzar Benedito / Mediação: Oiram AntoniniLançamento dos livros Para entender o Brasil, país do futebol e a Coleção Turminha Brava de Mouzar BeneditoExposição do processo criativo de Ohi, o ilustrador dessa Coleção.

Dia 14 de Abril (segunda)

10h30 – Homenagem a Hilda Vilela Junqueira Merz
Palestra: Como era a Biblioteca nos tempos de Lobato e outros relatos sobre a Memória da Biblioteca.- com Dr. Victor Nussenzweig – diretor, na adolescência, do Jornal “A Voz da Infância”
14h – Histórias do Sítio – pela contadora de histórias Edna Cardoso, da Ed. Globo
15h – exibição do filme “Fantasia

Dia 15 de Abril (terça)

10h – Lançamento da Bibliografia Brasileira Infantil e Juvenil online
Apresentação dos Acervos Especiais da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, por Azilde Andreotti
Fala do Prof. André Moura sobre sua experiência como resenhador
Apresentação do Grupo Teatral “Pé de Zamba, em parceria com a Ed. FTD
15h – Fantasia e Realidade em Monteiro Lobato – Emília e Visconde: duas faces do autor – por André Moura

Dia 16 de Abril (quarta)

10h – Histórias do Sítio – contação de histórias para crianças
15h – exibição do filme “Alice no País das Maravilhas

Dia 18 de Abril – Sexta-Feira Santa

Publicação do texto Jesus Cristo segundo Monteiro Lobato – extraído do livro História do Mundo Para Crianças – no blog da Biblioteca

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Django livre

14.04.03_Luiz Bernardo Pericás_Django LivrePor Luiz Bernardo Pericás.

Conhecido por se apropriar de ideias de outros diretores e pelo uso excessivo de violência gratuita em seus filmes, Quentin Tarantino lançou recentemente seu Django livre, um trabalho bastante insatisfatório e considerado por diversos críticos como racista. Acostumado ao estilo cut and paste, este “artista” pop, por certo, conseguiu arregimentar admiradores ao longo de sua carreira cinematográfica. Mas nesta película foi capaz de desagradar não só à intelligentsia afroamericana como também àqueles que apreciam o gênero do faroeste. O que Tarantino provavelmente chama de “homage”, de tributo, pode ser visto como “cópia”. Mas uma reprodução que fica apenas na superfície e nos aspectos essencialmente estéticos, destituindo sua obra de qualquer profundidade ou sofisticação em termos de enredo e mensagem.

Os filmes de Sergio Corbucci que “inspiraram” Tarantino, principalmente Django (1966) e O grande silêncio (1968), podem ser vistos tanto como tentativas ousadas de reinterpretar imageticamente o western tradicional como, igualmente, alegorias para as inquietações “políticas” do cineasta italiano em relação ao mundo contemporâneo. Já o “produto” comercial de Tarantino, recheado de linguagem insultuosa, cenas de tortura e preconceitos, serve apenas como um instrumento (ou veículo) para chocar o público espectador. O fato de a palavra “nigger” ser usada 110 vezes no filme é apenas “um” dos aspectos em consideração aqui. O “colega” Spike Lee, ofendido com a trama, chegou a dizer: “American slavery was not a Sergio Leone Spaghetti Western. It was a Holocaust. My ancestors are slaves. Stolen from Africa. I will honor them”. Em realidade, nesta verdadeira “colcha de retalhos”, não há qualquer mensagem “aparente”. Até irmos mais fundo na história.

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Não custa lembrar que sempre foi comum que diretores de “bangue-bangues” reelaborassem enredos de outras produções, dando seu toque pessoal e reconstruindo as narrativas originais a seu modo. Por isso, filmes como Yojimbo ou Day of the Outlaw serviriam como pano de fundo para obras cinematográficas distintas de auteurs como Leone, Corbucci ou Solima, que adaptariam, com nova roupagem, clássicos do cinema. Mas a “realização” e a “intenção” daqueles diretores eram certamente bastante distintas das excentricidades de Tarantino.

Recordemos rapidamente os significados implícitos nos longas de Corbucci, para fazer, em seguida, uma contraposição ao trabalho do counterpart norte-americano. A história de O grande silêncio (Il grande silenzio)ocorre no final do século XIX, durante uma nevasca avassaladora em Utah. O cenário em que predomina o branco, frio e desolador, coberto por neve e neblina constantes (também usado em Django livre, no qual se tentou emular a fotografia magnífica de Silvano Ippoliti, sem sucesso) já é em si um símbolo do pessimismo e da falta de perspectivas com a realidade opressiva e estéril que cerca todos os personagens daquela região erma e abandonada do “oeste selvagem”. Num inverno particularmente duro, os moradores do pequeno vilarejo de Snow Hill passam fome e são obrigados a roubar para sobreviver. Assim, homens e mulheres, forçados a transgredir as regras jurídicas pela necessidade de se manter vivos, se tornam automaticamente “foras da lei”.

Para resolver a questão desta afronta contra a propriedade privada, a segurança e a ordem instituída, o banqueiro Policutt (que também era o juiz de paz da cidade), contrata “caçadores de recompensas” para matar ou capturar o populacho faminto. É aí que entra Loco (ou “Tigrero”, na versão italiana, interpretado por Klaus Kinski), um sádico que recebe dinheiro para cumprir essa missão. Corbucci, neste sentido, faz a crítica explícita a Sergio Leone, que colocara Clint Eastwood como o “herói” de sua Dollar Trilogy. Desta vez, o “caçador de recompensas” não é o protagonista, mas o vilão. Junto com Policutt, Loco representa o próprio sistema capitalista.

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Afinal, em O grande silêncio, o Estado (que protege a propriedade) e a lei (feita pelos e para os ricos) são controlados pelo capital, e estão do lado dos assassinos bounty hunters, e não dos mais humildes. Corbucci, assim, ataca ao mesmo tempo os Estados Unidos, o aparato de “justiça” e os clichês do faroeste hollywoodiano. Para vingar o assassinato de seu marido por Loco, Pauline (Vonetta McGee), contrata “Silêncio” (Jean-Louis Trintignant), um pistoleiro mudo, que perdera a voz ainda criança, quando Policutt e seus sequazes mataram seus pais e cortaram sua garganta. Ele é o “povo” sem voz, que tenta lutar sozinho contra um inimigo muito maior e mais forte.

É importante salientar que Pauline é negra, e ganha destaque na película. A partir do momento em que ela começa a se relacionar com “Silêncio”, temos um casal “interracial” em papel de relevo, rompendo todas as barreiras do preconceito, especialmente se atentarmos para o fato de a história se passar no final do século XIX, período em que as lutas pelos direitos civis eram uma possibilidade ainda muito distante. Pauline recusa o sexo com Policutt em troca de dinheiro e se envolve com “Silêncio” por amor. Ela é, portanto, o símbolo da nova mulher negra, que tem um papel ativo e feminista no destino daqueles personagens.

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Enquanto o racismo é claramente representado por Policutt e Loco, Pauline e “Silêncio” lutam contra a intolerância étnica e social. Mas, ao contrário da maioria das histórias do gênero, desta vez o “herói” não vence. “Silêncio”, Pauline e os outros cidadãos pobres e esfomeados são executados a tiros, numa chacina comandada por Loco. Tudo dentro da lei!

Vale dizer que as mãos de “Silêncio” são inutilizadas, e ele mal consegue sacar sua arma. É o mesmo que acontece com Django, na trama original (nome inspirado, por sinal, no guitarrista Django Reinhardt, que teve alguns dedos paralisados por queimaduras após um incêndio). As mãos quebradas são um retrato simbólico: é a impossibilidade de vitória do homem solitário, da “individualidade”. Por isso, talvez, Corbucci tenha dedicado O grande silêncio a Jesus Cristo e Che Guevara. O mártir do cristianismo, afinal, teve suas mãos pregadas na cruz. E as do revolucionário argentino, cortadas depois de ser assassinado. Ambos eram os campeões do homem comum e foram esmagados. A solução, portanto, seria a luta das “coletividades”, das “massas” em conjunto, e não de “indivíduos”, mesmo que fossem bem intencionados e estivessem do lado dos oprimidos.

Um resultado similar no cinema da época foi, por exemplo, o apresentado em Easy Rider (1969), o clássico road movie dirigido por Dennis Hopper, quando, ao final, ambos os protagonistas, dois motoqueiros outsiders que desafiavam o sistema vigente, também são destruídos. Ou seja, não há espaço para aqueles que saem da linha, que não cumprem o papel que lhes foi determinado, que não seguem as regras impostas. Todos os que tentam, são eliminados.

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A referência mais explícita de Tarantino para seu filme, contudo, é Django, interpretado por Franco Nero, trabalho que inspirou dezenas de outras películas com personagens de mesmo nome (o melhor deles, provavelmente, Viva Django!, de Ferdinando Baldi, estrelado por Terence Hill). Tarantino tirou cenas inteiras da obra corbucciana, a música de Rocky Roberts e Luis Bacalov, o nome do protagonista e muito mais.

Famoso pela violência, o Django original tem como cenário uma cidade coberta de lama, decadente, com personagens desestimulados e sem perspectivas. Dos donos de bares e prostitutas até o ambiente e os diálogos, tudo é cinza. A realidade, estática: o contrário, a antítese da imagem clássica da “prosperidade”, “mobilidade social” e “oportunidade para todos” tão propaladas na “América”. Dali não há escapatória. A única saída é o “dinheiro”.

Por sua vez, Django (um soldado da União desmobilizado) puxa um caixão, sinal claro de tormento existencial, de quem carrega seu próprio destino nas costas. E de que dele não há como escapar. Ainda assim, de dentro do ataúde, o homem misterioso tira uma metralhadora, com a qual massacra dezenas de inimigos. Entre seus rivais, os asseclas do major Jackson, sugestivamente vestidos com capuzes que remetem à Ku Klux Klan (outra apropriação de Tarantino, que fez alusão ao grupo antes mesmo de ele existir, em mais uma total demonstração de anacronismo e desconhecimento histórico, ainda que não designasse a turba encapuzada como tal). No drama de 1966, o racismo é abordado de forma séria, ainda que com muita estilização visual e “coreografia” nas cenas. É novamente o retorno da temática comum nos filmes de Corbucci, a do indivíduo solitário e oprimido tentando lutar contra um inimigo poderoso. Em outras palavras, todo o sistema.

No longa de Tarantino (que se passa em 1858, antes da Guerra Civil, e que foi considerado por ele como um “southern”), por sua vez, Django é um escravo “libertado” por um “dentista” e caçador de recompensas alemão, o Dr. King Schultz (interpretado pelo ator Christoph Waltz). O pistoleiro (Jamie Foxx) consegue a liberdade através da ação de um europeu de caráter duvidoso, e não por sua própria luta. Não há o “sujeito coletivo” contra a instituição da escravidão, nem mesmo o papel protagônico dos negros contra seus opressores. Django, afinal, é um “individualista” (assim como o Dr. King; a escolha do nome, por sinal, uma sugestão infame, de mau gosto). Ele e o bounty hunter de Düsseldorf são, em certa medida, “parceiros”. Ou melhor, essencialmente, Django é um marionete nas mãos de Schultz, indivíduo salafrário que o leva para todos os lugares, que o ensina a atirar, que o apresenta às pessoas, que diz a ele o que fazer e como agir. Na prática, Django não é igual:certamente não tem o mesmo status do “colega”. É, para todos os efeitos, um “acessório conveniente” nas mãos de um homem branco, que controla, de fato, a situação. O fator da “recompensa” financeira é, as usual, acentuado aqui.

A mulher de Django, Broomhilda, que deve ser salva do jugo do fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), dono de escravos e proprietário de uma plantation, é inexistente em termos de personalidade. Subserviente, é destituída de qualquer papel ativo na trama. Ela não dá a tônica da história, servindo quase como um apêndice da mesma.

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Por outro lado, o destaque fica para Samuel L. Jackson, interpretando Stephen, um fiel escravo idoso, o típico house negro (aquele que morava com os patrões na “Casa Grande” e se identificava completamente com os senhores brancos) tão criticado por Malcolm X. Só que, neste caso, um “Uncle Tom” que age como um bosse anglo-saxão, que dá ordens e despreza seus irmãos cativos. Assim, dá-se a entender que a figura poderosa “por trás da escravidão”, dando suporte a ela e que queria sua continuidade, é, na verdade, um negro (e não o establishment político-econômico dominado pelos escravocratas sulistas)! Já o outro afrodescendente, Django, não luta contra o escravismo per se, mas pela “liberdade individual”, pelo liberalismo! As massas escravas, por sua vez, são coadjuvantes para Tarantino, passivas e incapazes de combater seus captores e modificar sua realidade. Essa, a mensagem de Django livre. Não custa recordar que os escravos negros nos Estados Unidos historicamente foram protagonistas de importantes rebeliões e lutas de libertação, como a de Gabriel Prosser, na Virginia, em 1800, a de Denmark Vesey, em Charleston, Carolina do Sul, em 1822 e a de Nat Turner, a “Southampton Insurrection”, em 1831 (o diretor, por sinal, passa ao largo de todas elas).

O tema central do filme não é, portanto, a “escravidão”, mas a vingança – assunto excessivamente explorado no cinema comercial de Hollywood (que também vende, como sempre, todo tipo de memorabilia, bonecos e brinquedos relacionados às suas produções, como no próprio caso desta película, que teve caixas de réplicas dos personagens retirados das lojas após furor da comunidade afroamericana, que se sentiu ofendida e desrespeitada pela insensibilidade dos grandes estúdios). Em última instância, Django é basicamente uma figura de cartoon ou de história em quadrinhos, provido de uma personalidade unidimensional, sem camadas dramáticas ou qualquer profundidade emocional.

Mesmo os aspectos formais da produção podem ser criticados. Não só Tarantino utiliza canções de outras películas indiscriminadamente, mas aproveita de maneira pobre o gênio de Ennio Morricone, compositor da trilha original deste e de vários westerns emblemáticos. Morricone chegou a dizer que “é frustrante trabalhar com Tarantino”, já que “ele insere a música em seus filmes sem coerência”. Por isso, “não é possível fazer nada com alguém como ele”. A música de Morricone, de fato, é um elemento central e fundamental no andamento de outras obras cinematográficas, quase uma co-protagonista dos filmes. Em Django livre, contudo, é superficial, secundária e não recebe a devida importância. Aparentemente, a insatisfação do maestro e arranjador italiano foi tal, que ele chegou a declarar não ter mais qualquer intenção de trabalhar com o diretor nascido no Tennessee.

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Tarantino pode ser classificado como o típico cineasta “pós-moderno”. Não custa lembrar que, de acordo com o teórico literário e crítico cultural marxista Fredric Jameson, o “pós-moderno” pode ser caracterizado por uma falta de profundidade e superficialidade, uma cultura excessivamente fixada na “imagem”, o abandono do conceito de verdade, a perda da historicidade, a desintegração do sentido do tempo em uma série de presentes puros e não-relacionados, a prevalência do pastiche e a canibalização de estilos passados. Estes seriam alguns dos traços definidores deste estilo ascendente da cultura capitalista da atualidade. E também, a marca dos filmes de Tarantino ao longo dos anos.

Neste trabalho, só Django é supostamente “livre”, “unchained”. Apenas ele fica sem as correntes. Os outros negros como comunidade e entidade coletiva, não. Mas se Django perde suas correntes “físicas”, ele, mesmo sem se dar conta disso, continua preso pelos grilhões da opressão e da realidade sulista norte-americana, uma realidade de exploração, de trabalho abusivo e de racismo. E dela, por mais que se esforce, não consegue escapar. Ou seja, Django, afinal de contas, não é tão “livre” como pensa.

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Recomendamos a leitura do aclamado Os cangaceiros – ensaio de interpretação histórica, de Luiz Bernardo Pericás, uma análise cultural, política e sócio-histórica da figura mítica do cangaceiro, referência obrigatória para o estudo banditismo rural nordestino e seus desdobramentos na atualidade.

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Chega às livrarias este mês a coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizada por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco! 27 ensaios sobre Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Paulo Freire, Milton Santos, Astrojildo Pereira, Câmara Cascudo, Jacob Gorender, Ruy Mauro Marini, Maurício Tragtenberg, entre outros pensadores críticos do Brasil.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

1964, 50 anos depois

14.04.03_Flávio Aguiar_1964 50 anos depois.jpgPor Flávio Aguiar.

A tentação de fazer ficção científica é muito grande: o que teria acontecido nas nossas vidas se houvesse de fato resistência ao golpe?

Já nem digo se o golpe fosse derrotado. Mas simplesmente se houvesse resistência.

Certamente teria havido uma guerra civil.

Seria sustentável? Seria. Ainda no dia 2 de abril houve uma reunião (são estas coisas de Brasil: sei disto através do parente de um vizinho…) reunindo um pessoal da Petrobrás, o general Ladário Pereira Telles (nomeado às pressas comandante do 3º. Exército), Brizola, Jango, Sereno Chaise (que era o prefeito de Porto Alegre) e outros possíveis líderes da resistência.

Nesta reunião, os sindicalistas da Petrobrás apresentaram um plano de tomar todas as refinarias do sul do Brasil. Um eventual avanço de tropas de São Paulo para o Rio Grande do Sul encontraria pela frente um provável deserto de combustível. O que era necessário para isto? Armas.

Jango preferiu se exilar imediatamente no Uruguai. Um dos motivos alegados era o rápido deslocamento de uma força naval dos Estados Unidos do Caribe em direção ao Rio de Janeiro e o porto de Santos. Haveria uma invasão? Talvez.

Com a fuga de Jango, não houve a entrega das armas. Ficou tudo por isto mesmo. O plano teria funcionado? Hoje é impossível dizer que sim. Mas também é impossível dizer que não. São destas caixas pretas da história, mas sem leitura possível.

Outra caixa preta: haveria muitas mortes? Certamente. Mas não como a grande maioria que houve nos anos depois do golpe, com pessoas caçadas como ratos ou na tortura, em calabouços infames. Isto teria sido melhor? Impossível saber. A única coisa possível de se saber é que a falta de resistência naquele momento decisivo da história tornou mais amargo o fruto amargo que tivemos de comer sem vomitar. O resto fica no mistério da caixa preta.

Este é o principal efeito do golpe, ainda hoje, esta semeadura de caixas pretas ao longo das vidas posteriores. É claro que há um sem número de caixas pretas nas nossas vidas. O que teria acontecido comigo se eu não tivesse feito aquela escolha, naquele momento, ou fizessem outra escolha, tivesse outra namorada, aceitasse outro emprego, e por aí afora.

Somos os destino das nossas escolhas e também o seu desatino, ou ainda o destino de nossa falta de escolha por vezes. Mas a caixa preta do golpe é diferente. Porque as outras vão variando, diminuindo ou variando de importância conforme o tempo vai passando. A do golpe não. Ela não passa, ela fica, ela pesa sempre na memória. É a cicatriz do futuro que não houve. E por baixo da cicatriz a ferida ainda está aberta, ainda lateja.

Em alguns casos ela se transformou em câncer, e levou pessoas ao suicídio. Outras vezes ela levou pessoas ao suicídio moral, à adesão deslavada e descarada à direita. Até hoje isto acontece.

Esta caixa preta está irremediavelmente plantada na memória. A memória é um labirinto, onde frquentemente nos encontramos, mas também onde frequentemente nos perdemos. Se falarmos de memória, caixa preta, labirinto, perda, um caso que nos vem à mente – evocado em várias ocasiões – é o de Frei Tito de Alencar. Barbaramente torturado pelo delegado Sergio Paranhos Fleury durante a caçada a Carlos Marighella, Frei Tito ficou com algo de si preso a esta memória horrenda, como um anzol. A única maneira de se libertar desta verdadeira possessão demoníaca foi através da morte. Tão grave foi seu caso que apesar do suicídio ele recebeu as exéquias cristãs no convento onde residia, em Paris, quando de seu suicídio.

A memória tem destes redemoinhos. Há coisas que queremos lembrar e não podemos; há coisas que queremos esquecer e não conseguimos. A caixa preta de 64 está nesta encruzilhada: queremos por vezes lembrar-nos deste futuro que nos era prometido, que poderíamos construir, e que nos foi arrebatado pelo golpe, e isto se torna uma operação cada vez mais difícil e nebulosa; queremos esquecer do amargor de ter todo este futuro negado, e não conseguimos, pois a dor da perda é sempre presente, cada vez mais espessa e onipresente.

Virar a página? Sim, é necessário virar a página. Até porque os que não querem virar a página, os Bolsonaros da vida, os militares de pijama nostálgicos da ditadura, os amantes de privilégios em todas as classes sociais não querem virar a página. Querem ficar presos e deter-nos todos na prisão da reverência ao canalhismo de 64. Mas virar a página não significa esquecer. Porque se a metáfora é a do livro, o livro pode e deve ser folheado numa e noutra direção.

Haverá um ajuste de contas com este passado? É muito difícil prever. Duas coisas seriam necessárias: a revisão da Lei da Anistia e a abertura dos arquivos das Forças Armadas. Isto depende do STF e do Congresso Nacional, além da pressão dentro e fora do Brasil. Isto nos leva ao encontro de outra caixa-preta, mas esta cheia de possíveis surpresas, a da política.

A ver.

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Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Almas socialistas incansáveis: Soledad e as guerreiras da luta

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Como era ser jornalista e escritor, com as suas colaborações de contos para os jornais de oposição, naqueles tempos?

Olha, na imprensa alternativa que existiu, que eu lembro claramente, os jornais Opinião, Pasquim e o Movimento, que veio depois do Opinião, essa imprensa alternativa era, sinceramente, um respiradouro. Vocês não podem imaginar o que era para nós receber, ler O Pasquim. Era uma coisa!

Ler O Pasquim para nós era melhor do que o último selinho, era melhor do que o último filme de grandes mestres do cinema. Porque terminávamos fazendo uma irmandade, uma fraternidade de pessoas que estavam no sufoco. Então, é o seguinte: eu sempre quis ser escritor. E o meio era absolutamente contrário a isso.

Quando você vem de uma família de classe média, de alta classe média, ainda se aceita, mas quem é, por exemplo, do meio popular, isso é uma coisa que nem está no horizonte, e a minha participação para os jornais da imprensa alternativa se dava através daquilo que era mais caro para mim. Que eram os textos, de contos e crônicas.

Então, um belo dia, eu trabalhava no INPS nessa época – não era INSS, era INPS – e tinha uma banca de revista próxima ali, ao edifício JK, onde ficava a sede do INPS, e um belo dia quando eu vou na banca, está lá, na revista escrita, um conto meu.

Aquilo pra mim foi, sabe, eu não achava solo nos pés, entendeu? Porque a revista escrita era uma revista de circulação nacional. E tava lá, o meu primeiro conto publicado na imprensa de circulação nacional.

Depois eu publiquei no jornal Opinião. Um belo dia, eu também passo pelo Diário de Pernambuco, que tem uma banca de revista, e lá está o jornal Opinião e eu já fui lá atrás: era publicado na última folha. Estava um conto meu “Pensão Paraíso”, que havia sido lido e elogiado por Hermilo Borba Filho, que fazia parte do conselho editorial. Então, esses contos, essas contribuições da imprensa de oposição, eram ao mesmo tempo uma realização íntima e uma maneira de dizer: eu estou presente. Eu estou com vocês, vocês estão comigo.

Uma curiosidade a respeito disso, você naquela época colaborava para esses jornais de São Paulo e Rio de Janeiro, mas estava no Recife. Como era feito, você enviava?

Eu enviava, eu via o endereço no expediente lá atrás e enviava por carta. Era carta, datilografada. Que não havia computador. A gente datilografava, até o verbo é uma desgraça, a gente batia a máquina, o texto e mandava para o Conselho Editorial. A gente não sabia nem se havia sido recebida e como havia sido recebida, ficava aguardando. E não vinha nenhuma comunicação, não. Você, um belo dia, abria e estava lá. Era assim que era feito.

Corria o risco disso também não chegar e ser…

Sim, havia naturalmente, como era uma imprensa combativa, que combatia a ditadura, havia o risco de nem chegar, de ser aberto. E a partir do nome publicado, mostrava que você também estava ao lado daqueles caras.

Aqui no Recife, eu ia esquecendo isso, uma coisa importantíssima, aqui nós criamos a nossa imprensa alternativa. Eu, Luiz Paulo, Geraldo Sobreira, Graça Ferreira, Ral, fundamos o jornal A Xepa, e isso no ano, se não me engano, de 1974 ou 75. Fundamos A Xepa, mas A Xepa conosco só durou dois números. Havia censura prévia. Teve que ser registrada na Polícia Federal, os textos irem pra lá, e só depois liberados. Houve isso também aqui no Recife.

Durante essas apenas duas publicações, receberam algum tipo de ameaça, ou durante as suas colaborações, uma vez apresentado o seu nome, naqueles jornais?

Urariano Mota: Não, eu não cheguei a receber qualquer tipo de ameaça. Mas hoje, só agora entendo o que ocorreu comigo na minha chamada vida funcional. Na época, tinha passado para um concurso no INPS, mais adiante entrei para o Banco do Brasil, e sempre fui preterido, sempre fui jogado de lado em todas as promoções. Eu não sabia como havia gente absolutamente sem um mínimo de qualificação que era promovida.

Hoje eu sei por que. O meu nome devia constar na lista dos serviços internos de informações, que toda empresa pública no país havia o serviço de informações. Isso ainda não foi levantado pela Comissão da Verdade. Vai ter, sinceramente, é uma mina, é um tesouro extraordinário de serviços de informações que havia no Banco do Brasil, nos Correios, na Caixa Econômica Federal, na Petrobrás, em todas as empresas públicas. E eu, seguramente, hoje entendo por que fui jogado de lado.

Mas ameaça, pessoal não. Agora, é claro. Sofri ameaça séria na ditadura Médici a partir do momento em que houve os seis assassinatos no Recife, que eu falo no livro Soledad no Recife.

Cinquenta anos depois, nós ainda vivemos o luto da ditadura militar?

Sim, é claro. Nós ainda não superamos esses traumas, repare bem, existem traumas da ditadura que não estão claros, os traumas não atingiram somente os torturados nas prisões – com eles fundamentalmente, que as torturas foram bárbaras e selvagens, tem pessoas que estão acabadas pelo resto da vida, que carregam sequelas, e o que eu acho pior são as sequelas morais, os pesares morais.

Eu faço parte de uma lista, não estou autorizado a dizer o nome da pessoa, em que ela havia feito um trato com o seu companheiro, de que não se entregariam vivos, sob hipótese nenhuma. Havia militantes que carregavam, é incrível isso, tinham um pacto com a morte. Não se entregavam vivos, porque sabiam que a tortura ia ser de tal maneira que eles poderiam abrir informações preciosas, que carregavam a outros companheiros e combatentes.

Os jovens de hoje não entendem, havia uma questão de ponto de honra em não abrir nada. A gente sabe que isso é muito difícil ou impossível. Como disse Dilma, no depoimento, no Senado, em que ela desbancou completamente aquele sacana que é daqui do Rio Grande do Norte, quando ele disse que ela havia mentido durante a ditadura. Ela virou-se para ele e disse: “você não sabe o que é mentir sob tortura, é preciso muita coragem para mentir sob tortura”. Ela é a voz viva da experiência.

Dilma, soube-se depois, que com hemorragia, no hospital, recebeu o conselho de não parar a hemorragia, porque se parasse estava boa para tortura. Ela disse que quando ia parar, ela começava a pular para voltar a hemorragia. As pessoas não sabem o que é isso.

Havia um ponto de honra em não abrir, isso é muito difícil ou impossível. Houve pessoas que abriram, o que é plenamente compreensível. Dizer, numa boa, sentado nesta cadeira, que não se deve abrir é uma coisa. Outra coisa é você estar passando por afogamento, pau de arara, ameaça de cortar os bicos de seios com tesouras. Entende? Vendo seu filho, sendo torturado na sua frente, o seu filho sendo apresentado a você torturado, como há depoimentos, de filhos que diziam: mamãe, por que a senhora tá toda verde? Não conheciam o que era isso.

Essa pessoa da lista que participo, ela tinha um pacto com o esposo. O companheiro dela foi morto, e ela não conseguiu se suicidar, não conseguiu engolir um veneno. Não fez, fraquejou. Acredite você, até hoje ela carrega isso como uma culpa. Como uma culpa de ter faltado a palavra, com o companheiro que ela viu cair fuzilado, no cerco de um aparelho, que era o reduto onde eles estavam clandestinamente.

Essas são as sequelas mais gerais.

Mas há outras sequelas, outros traumas. O meu particular foi ter visto companheiros assassinados, presos, e ter risco de cair também, quando o cabo Anselmo entregou os seis militantes aqui no Recife.

Explica um pouco melhor do que se trata essa lista?

Eu participo hoje da lista “Os Amigos de 68”. É uma lista na internet, por email. Uma participante da lista dos Amigos de 68, que é ex-presa política, nos relatou isso de uma maneira muito traumatizada, que havia faltado a palavra com o companheiro. Aí, fui pesquisar a história dela, e fui entender o porquê.

O companheiro dela foi morto tentando fugir de um apartamento pela outra janela e foi fuzilado. E ela fraquejou. Eu não estou autorizado a dizer o nome dela.

Até hoje se negam tais relatos de tortura. Até hoje tem quem acredite que os mortos da ditadura foram terroristas. Como isso soa para alguém que testemunhou o tamanho das crueldades?

A primeira coisa que ocorre em relação a isso é um sentimento de indignação, é um insulto isso. Quando algumas vítimas da tortura escaparam, estão vivas. É insulto quando a gente viu e soube de pessoas que foram trucidadas. Que foram destruídas, não só físicas como psicologicamente.

Há relatos da advogada Mércia Albuquerque, uma extraordinária mulher, que ainda tem que ser recuperada para a história do Brasil, Mércia dizia que quando visitava presos políticos que tinham sido torturados, eles estavam sabe como na cela? Estavam comidos, em posição fetal. O que é isso? O que é isso? É uma pessoa no mais absoluto desamparo! Na absoluta nulidade, procurando o ventre da mãe. Em posição fetal!

Quer dizer, isso é um escárnio! Isso é insulto! E a extrema-direita insiste nessa conversa de terroristas. Terroristas foi a ditadura, que fez um terror de Estado, calculado e claro.

Recentemente, eu vi um relato de que um militar que estava com um prisioneiro do PCdoB no Araguaia e chegou a fazer quase uma amizade com ele porque ficavam jogando dominó. De repente, vem a ordem de Brasília para executá-lo. A ordem vinha lá de cima. Querem dizer pra gente que os torturadores eram desalmados pessoais que agiam por sua conta e risco. Isso é falso! As execuções vinham de cima. A ordem é de cima. Agora, os seus serviçais executavam a ordem suja.

Em entrevista em 2011 para uma TV Universitária, você diz que ambos os livros, tanto Soledad no Recife” como Os Corações Futuristas, são literatura, e que você não estava ali como jornalista, mas como escritor. O ponto comum de um escritor da ditadura e um jornalista, é que ambos reportam a memória daqueles anos. A sua escolha por falar com poesia foi uma forma de enfrentar a frieza do período?

Também. E tem uma outra coisa Patricia, é que o escritor não está amarrado ao gancho. Um dos grandes defeitos da profissão do jornalista é ele ser amarrado ao gancho. Então, o escritor é fundamentalmente a memória. Ele fala à memória. Enquanto a imprensa normalmente quer o espetacular, o escritor é a memória por excelência. É contra o jornal velho. Por outro lado, eu também exercia a função de jornalista e sei, naturalmente, das limitações. Quando escreve em um jornal, você está limitado pelo espaço, pelo editor, pelo anunciante. Você não tem condições de aprofundar, não tem tempo de aprofundar. Você está, na verdade, correndo contra o tempo.

Um escritor, pelo contrário, ele utiliza a memória, ele aprofunda aquilo que a imprensa não pode dizer. Agora, é claro, existem grandes repórteres. Recentemente, você vê o trabalho que o Mário Magalhães fez da biografia de Marighella, um grande trabalho. Mas Mário Magalhães atuou ali, fundamentalmente, como pesquisador. Ele teve que se ausentar das redações. Disse que foi sustentado pela mulher durante esse tempo todinho.

A opção por ser escritor é, primeiro, de vocação e, segundo, é estratégico. Para ter tempo de aprofundar um tema. Repare bem, o personagem como o cabo Anselmo ainda merece ser analisado. As cartas não estão postas na mesa ainda. Uma personagem como Mércia Albuquerque, advogada, ainda não está valorizada a altura de seu grande papel de advogada na ditadura.

Várias coisas, por exemplo, não podem ser feitas na imprensa do dia-a-dia. Infelizmente.

Na obra Soledad no Recife você cita em “almas socialistas”. Depois de Os Corações Futuristas, você se considera um jornalista, ou escritor, a serviço de almas socialistas?

Eu me considero um escritor a serviço de almas socialistas. Isso eu coloquei em Soledad no RecifeAí, eu peço licença para observar uma coisa que é meio supersticiosa. Depois dos Corações Futuristas, eu tinha recebido uma correspondência de uma jornalista italiana, e eu não sei italiano, e procurei uma pessoa da Sociedade Brasil Itália, pra que traduzisse aquilo.

Quando eu chego lá, eu tinha saído de um câncer, tinha feito cirurgia, a mulher chegou pra mim e disse: “me dê a sua mão”. Eu dei, “o que essa mulher quer com a minha mão?”. Ela começou a olhar, olhar, e disse: “olhe, você tava pensando que ia morrer, você não vai morrer agora. Você ainda tem um grande trabalho pela frente, e seguramente…”

Aí ela usou esta expressão, uma expressão feliz e emocionante [Urariano dá uma pausa, comovido]: “Existem almas socialistas. Que pedem uma recuperação”. Foi isso. Eu sou escritor a serviço delas.

Durante a pesquisa da sua biografia, vi que você é ateu. Continua sendo ateu, depois dessa situação?

Eu continuo a ser ateu, mas sei lá, às vezes um ateu meio abalado. Eu não digo ateu graças a Deus, mas digo um ateu meio abalado. Inclusive com algumas coisas que, sinceramente, são sem explicação. Não tem explicação.

Por exemplo, no Corações Futuristas, eu coloquei o nome na principal personagem de Cintia. Mas o modelo dela era Mirtes, uma lutadora extraordinária cearense que esteve no Recife. Quando eu mandei o livro para Mirtes, ela leu e depois ligou pra mim de Fortaleza.

Disse pra mim: “De onde foi que você tirou esse nome de Cintia?”. Eu parei assim, e disse “Mirtes, eu não sei, mas eu achei sinceramente que a personagem tinha cara de Cintia, eu não sei por que botei, mas só podia ser Cintia”. Ela falou: “Você não sabia, não? Ninguém lhe disse?”, eu falei “não”.

 Cintia é o nome de minha primeira filha, que nasceu na clandestinidade, aí em Pernambuco.

Quer dizer, eu fico sem entender, fiquei besta, não é possível isso. Ninguém nunca me falou isso.

Em Soledad no Recife, eu coloquei coisas que eu não sabia, não tinha certeza, absoluta, não tinha. Mas como é um trabalho de ficção, eu fui fundo, fui mais longe. E eu não sabia, mas depois se confirmaram. Havia razão naquilo que eu julgava como hipótese, e não era hipótese.

Eu vejo o trabalho de pesquisa como um iceberg, o que aparece é o que está nas páginas, mas existe uma base sustentando embaixo.

 Por exemplo, eu tinha visto um relato de uma pessoa que diz que Soledad, um belo dia, ficou ninando o seu filho, cantando em Guarani, cantigas guaranis para bebês. E eu fui atrás, fui atrás, terminei descobrindo um disco de crianças guaranis cantando, invocando os espíritos para a ressurreição dos guerreiros. Eu disse: “isso me fere, isso é para Soledad”.

Aquela imagem das santas paraguaias, que tem uma lua nos pés, mas no caso de Soledad era um feto, aquilo me ocorreu também através de pesquisa e de intuição.

A intuição não é uma coisa só do artista. É uma coisa também da Ciência e de todo o conhecimento humano. E essa intuição, sinceramente, a gente não explica. As razões positivistas de causa e efeito ficam sem explicação. Eu não sei, sinceramente, eu não sei.

Você acredita que, um dia, essas almas socialistas vão te deixar dormir?

Eu creio que as almas socialistas não dormem nunca. O trabalho delas é incansável. É permanente. É de construção e de reconstrução do mundo.

Mas, enquanto houver torturadores impunes, enquanto houver o escárnio, enquanto houver Bolsonaros, essas almas socialistas estão sem descanso.

Eu acho sinceramente, que nós temos o dever. Nós, que levamos tanto tempo pra reconstruir o mundo. Nós temos o dever de dizer: “olha, nós queremos dar uma pausa nessa impunidade, eu quero que vocês reflitam sobre isso”. É assim que eu penso.

Abordando a sua obra Soledad no Recife. Gostaria de entender a sua proximidade com a personagem principal, Soledad: se deu meramente temporal e geograficamente? Houve algum laço afetivo, de amizade?

Essa dúvida que você tem Patricia é uma dúvida que acompanha o livro, que acompanha todos os leitores. Não só, como o primeiro leitor dele, que foi Flávio Aguiar, escritor também, professor aposentado da USP, que foi quem primeiro leu Soledad no Recife, depois a própria editora. As pessoas pensam, realmente, que eu namorei Soledad ou tive alguma paixão platônica por ela.

Na verdade, é o seguinte, não estão muito longe da verdade, porque eu tive por Soledad uma aproximação do tempo, na fase, e geográfica, no Recife. Mas eu nunca vi, nunca tive contato com a pessoa dela. Então, para reconstruir, essa paixão do narrador por Soledad, eu tive que reconstruir as dezenas de mulheres guerreiras que eu conheci na vida dura, de belíssimas mulheres guerreiras. E que a beleza vinha mais do que faziam do que das formas físicas.

Você sabe que o amor é um sentimento muito subjetivo, então essa subjetividade incluía aquela expedição, aquele risco, aquele futuro que apontava nelas e eram o contrário do comum da mulher brasileira, que na época era profundamente passiva dona de casa, então essas mulheres apontavam o futuro. Eram as musas. Aí, eu pude reconstruir a pessoa de Soledad, a partir da minha vivência com outras mulheres, com outras guerreiras da luta.

Agora, estar frente a frente com ela, não.

Enquanto corre a leitura, mistura-se muito a realidade com ficção, propositalmente ou não, mas a obra apresenta esse incrédulo dos anos de chumbo, que muito parecia ficção. Diante da constatação do que falou agora, de ter se inspirado nas mulheres da época que lutaram, nós, brasileiros, somos todos um pouco narradores de Soledad no Recife?

Essa é uma pergunta que eu gostaria, sinceramente, que fosse respondida fundamentalmente pelos leitores. Mas a minha ambição não foi outra. Eu quis realmente deixar todos os jovens brasileiros como narradores de Soledad. Porque o livro transcorre na juventude, no meio jovem que combatia a ditadura, e hoje eu gostaria que os jovens tivessem a reconstrução desse tempo que é fundamental na formação de toda uma geração, na formação da história brasileira. Agora, essa mistura de realidade com ficção, foi absolutamente proposital. Não foi casual. E é um absolutamente de propósito de tal maneira que o leitor, eu sei, é incapaz de separar o que é ficção do que é fato.

Eu imagino que eu tenha conseguido, que é como pele e músculo. Estão juntos, ligados. Agora, nisso não há truque nenhum. Não há truque, nem perícia, nem habilidade. A questão fundamental é a seguinte, Patricia, para quem leva a sério a literatura, nós só temos um dever: fala a verdade. Fala a verdade. Fala o que não foi falado. Diga o que tu fez, diga o que viveste. É isso. E é assim que se mistura ficção e realidade.

Em entrevista a Conceição Lemes, de Viomundo, em 2009, você falou que “o crime contra Soledad é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil”. Diante de tantos casos, por que você considera esse?

A minha compreensão disso é que eu acho que é um caso raro, não só no Brasil, como também no mundo, de um agente duplo que era o cabo Anselmo entregar a própria companheira.

Quando fui pesquisar para escrever Soledad no Recife – que foi apoiada em cima da minha vivência e também, naturalmente, de pesquisa – para entender o cabo Anselmo, ele deu uma pista quando disse que adorava literatura policial. Fui pesquisar. E na melhor literatura policial está a história de agentes duplos.

Pude ver que os agentes duplos têm um ponto de honra: eles entregam tudo, só não entregam o próprio sangue. Não entregam a própria esposa e o filho, o resto, não cruza não que eles entregam. E o cabo Anselmo é o caso único que entrega a própria mulher. Com um detalhe: a mulher estava grávida.

Até hoje, ele procura como um amenizante do crime. Como aquele assassino que diz: eu não matei 50, não, só matei 10, ele quer dizer que Soledad não estava grávida. Mas existem inúmeros depoimentos de pessoas outras que tiveram contato com Soledad e que atestam que estava grávida.

É por isso que eu disse a Conceição Lemes, de Viomundo, que esse era o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil.

O que foi de real e inventado na Chacina da Chácara São Bento?

A primeira coisa que eu tenho que esclarecer é o seguinte: a maioria das pessoas, quando falam de ficção tem uma ideia equivocada, porque parece que ficção é mentira. Eles não estão sabendo de nada.

O que acontece é que a ficção é fundamentalmente uma investigação do real. Ela é uma prospecção do aprofundamento do real. Então ela avança sobre fatos, coisas, que não estavam ditas ou exploradas ainda.

Agora, tem muito ficcionista que pensa que pode abusar da imaginação, achar que a imaginação é superior à realidade. Balela, esse cara não está sabendo de nada. A realidade é o dom supremo.

Nesse caso da chacina da Chácara São Bento, tudo que eu digo ali [no livro Soledad no Recife] é real, é documentado. Ali não está nada inventado. Agora, o inventado entre aspas que eu faço em torno da Chácara São Bento são os dilemas que atravessam a consciência de Anselmo na véspera de entregá-la a morte. Mas para fazer aquilo, eu tive que pesquisar muito o Anselmo. De ver como ele se manifesta, quais são as defesas.

Porque repare bem, acho que posso usar a palavra aqui, todo filho da puta não quer aparecer como filho da puta para sua própria consciência. Se pegar um ladrão, por exemplo: eu roubo para sustentar a minha família; se pegar um assassino violento, ele diz: ele já tava condenado, por isso que fiz. Procura se justificar à própria consciência. Eu sabendo desse recurso, que é universal, procurei ver que discurso Anselmo deu a sua própria consciência para entregar Soledad. Aí é que está esse dilema.

Aquela festa, no aniversário de Soledad é real. Mas não da maneira como eu narro. Porque eu morava numa favela do Recife, Brasília Teimosa, na época era favela, e lá havia uma igreja que foi gente dessa igreja que deu a festa de aniversário para Soledad, esteve presente, e fotografou Anselmo no dia do aniversário dela. No outro dia, ela estava entregue à repressão. Então, a festa houve, atestada por padres da igreja no Recife. Mas não da maneira como eu narro.

Aquela reunião que existe em Olinda, aquela casa, eu tive que ver qual era a casa ideal para ter havido aquela reunião. Agora, o fato é que Anselmo e Soledad moraram em Olinda e tiveram uma boutique, a quem ele deu o nome de boutique Mafalda. Existe arapuca maior do que isso na ditadura? Com o Quino censurado? Arapuca você sabe o que é. Aquilo era uma armadilha.

Então é essa mistura do real e do inventado. E, mais, no livro talvez eu fui a primeira pessoa a dizer que a Chacina da Chácara São Bento era mentira. Eera uma farsa, aquilo estava inventado. E dizia mais, que nos jornais da ditadura, você não acredite nem nas datas que estão lá. Quando o jornal aparecia 9 de janeiro, você não sabia, se era 10, se era 8. “Ontem”, esse ontem ninguém sabia o que era, principalmente porque havia segurança previa. O informe que saia da segurança era o mesmo reproduzido em toda a imprensa brasileira.

A Chácara de São Bento houve, agora o fato que eu desmontei foi, primeiro, aquela chácara não existiu, não existiu, como treinamento de guerrilha. Não existiu como ponto em que os militantes foram assassinados. E, recentemente, na Comissão da Verdade de Pernambuco, o ex-major Ferreira declarou, claramente, que o negócio da Granja São Bento foi um teatrinho montado pelo Exército brasileiro.

Desde que publicou o livro, em 2009, até hoje, mudou sua observação sobre o cabo Anselmo?

Pelo contrário, se aprofundou. Eu tenho acompanhado ele, em depoimentos, como houve no Roda Viva, e outros programas, através de relatos, de um advogado dele que gravou e está no YouTube.

Ele é uma pessoa absolutamente cínica, continua sendo uma pessoa fria, venenosa. O veneno dele não tem limite. Não pense que o cabo Anselmo parou de trabalhar. Ele continua a trabalhar e tem o apoio de setores a direita, tanto das Forças Armadas, como da polícia, como de empresários. Ele continua a ser sustentado por essa gente.

Ele é profundamente venenoso, que procura atingir a memória de Soledad até entre parentes de Soledad. Acredite se quiser. Plantando informações.

Não pense que a partir daí, ficou mais claro pra mim o seguinte, que Anselmo não é de índole uma pessoa violenta. Não é interessante isso? Eu acredito até que o cabo Anselmo tem horror a barata. Ele não pode ver sangue de barata. Ele é incapaz de puxar o gatilho. Não é ele quem puxa o gatilho, como ele diz muito bem “não fui quem matei”. Ele apenas indicou as pessoas para serem mortas. Eu asseguro a você, se ele levar uma porrada, ele não reage. Agora, ai de quem der uma porrada, entra na agenda dele. Ou seja, como todo covarde, ele não enfrenta, ele é de atacar pelas costas. E temos que nos precaver não é dos corajosos. Os corajosos tem que ser respeitados, os covardes é que são profundamente perigosos.

Ele continua com a obra dele, porque continua a existir a direita no país. De lá para cá, o sentimento que eu tenho em relação a ele apenas se aprofundou. Ele continua a ser um indivíduo inteligente, venenoso e perigoso.

Urariano, você não teria vontade de entrevistá-lo, um dia, cara-a-cara?

Muita! Muita! É um dos meus sonhos! Muita! Muita vontade de fazer isso. O, meu Deus do céu, como eu gostaria e nunca tive a oportunidade. Eu gostaria de ouvi-lo, eu gostaria de estar cara-a-cara com ele, pra conversar com ele, pra saber dele.

Porque, pra mim que sou escritor, ele continua a ser um objeto de estudo. Sinceramente, vamos e venhamos, é típico da história de toda a literatura. Os grandes personagens terminam sendo os vilões também. Isso desde sempre, até hoje. Ele é um vilão, é um personagem extraordinário à complexidade. Ah, se eu pudesse!

Na obra Soledad no Recife você cita em “almas socialistas”. Depois de Os Corações Futuristas, você se considera um jornalista, ou escritor, a serviço de almas socialistas?

Eu me considero um escritor a serviço de almas socialistas. Isso eu coloquei em Soledad no RecifeAí, eu peço licença para observar uma coisa que é meio supersticiosa. Depois dos Corações Futuristas, eu tinha recebido uma correspondência de uma jornalista italiana, e eu não sei italiano, e procurei uma pessoa da Sociedade Brasil Itália, pra que traduzisse aquilo.

Quando eu chego lá, eu tinha saído de um câncer, tinha feito cirurgia, a mulher chegou pra mim e disse: “me dê a sua mão”. Eu dei, “o que essa mulher quer com a minha mão?”. Ela começou a olhar, olhar, e disse: “olhe, você tava pensando que ia morrer, você não vai morrer agora. Você ainda tem um grande trabalho pela frente, e seguramente…”

Aí ela usou esta expressão, uma expressão feliz e emocionante [Urariano dá uma pausa, comovido]“Existem almas socialistas. Que pedem uma recuperação”. Foi isso. Eu sou escritor a serviço delas.

Você acredita que, um dia, essas almas socialistas vão te deixar dormir?

Eu creio que as almas socialistas não dormem nunca. O trabalho delas é incansável. É permanente. É de construção e de reconstrução do mundo. Mas, enquanto houver torturadores impunes, enquanto houver o escárnio, enquanto houver Bolsonaros, essas almas socialistas estão sem descanso.

Eu acho sinceramente, que nós temos o dever. Nós, que levamos tanto tempo pra reconstruir o mundo. Nós temos o dever de dizer: “olha, nós queremos dar uma pausa nessa impunidade, eu quero que vocês reflitam sobre isso”. É assim que eu penso.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O golpe militar de 1964 e o Brasil: passado e presente

14.04.01_Carlos Eduardo Martins_O golpe de 1964

Por Carlos Eduardo Martins.

Os 50 anos do golpe de 1964 ensejam uma reflexão sobre seu caráter e legado para a sociedade brasileira.

O golpe foi civil-militar e articulou os diversos segmentos da burguesia em torno da liderança do grande capital nacional e estrangeiro contra a ofensiva do movimento de massas, dirigida principalmente pelo trabalhismo, formado pelos trabalhadores urbanos, rurais, estudantes e soldados e militares de baixa patente, que buscava construir um capitalismo de Estado com forte dimensão popular, democrática e nacional. Este programa centrava-se nas reformas de base, em particular a agrária e urbana, no controle da remessa de lucro, na nacionalização de setores estratégicos e promoção da indústria nacional e numa política externa independente, anti-imperialista, baseada no direito à autodeterminação dos povos. Postulava ainda a extensão de voto aos analfabetos, que constituíam quase a metade da população brasileira, aos soldados e sub-oficiais, bem como elegibilidade a todos os eleitores.

A dimensão civil do golpe militar foi muito bem demonstrada em obras como 1964: a conquista do Estado, de René Dreyfuss, que evidencia as intensas articulações entre o empresariado nacional e estrangeiro, o governo dos Estados Unidos e os militares de alta patente para construir uma oligarquia que partilhasse cargos e espaços nos conselhos empresariais, em instituições estatais e em organismos ideológicos formadores de quadros (ESG) ou de opinião pública (IBAD e IPES). O núcleo duro da política econômica dos governos militares foi entregue a civis, representantes do grande empresariado nacional e associado. No governo Castello Branco 8 ministérios estiveram nas mãos de civis e 3 nas de militares; no governo Costa e Silva, 9 ministros eram civis e 4 militares; no governo Médici, 11 ministros eram civis e 4 militares; no governo Geisel, 10 ministros eram civis e 4 militares; e no governo Figueiredo, 11 ministros eram civis e 4 militares.

O golpe institucionalizou-se através da ação do Congresso Nacional que ilegalmente declarou vaga a Presidência da República, estando o Presidente Jango Goulart em território nacional. Desde seus primórdios criou uma legislação que transferiu ao poder executivo a capacidade de legislar, subtraída do Congresso, cuja função era principalmente a de legitimar os atos do executivo. Ao contrário do que pensam alguns, que veem entre 1964 e 1968 uma “ditabranda”, o AI-5 não representou descontinuidade, mas um aprofundamento da estrutura institucional implantada em 1964 e incorporada à carta constitucional de 1967. O AI-1 já mencionava que “a revolução vitoriosa se investia de poder constituinte”.  Estava aí constituído o fundamento da ditadura. Um golpe de Estado, desfechado pelas armas, sem apoio popular e sem legitimação das urnas, se auto-invocava o poder de legislar rasgando a constituição de 1946 e os fundamentos do sistema representativo e da democracia vigente.

Pesquisas do Ibope realizadas entre os dias 20 de março e 30 de março de 1964 mostraram o forte apoio popular a Jango. 49,8% da população pretendia votar em Jango nas próximas eleições presidenciais, contra 41,2%. 15% consideravam o seu governo ótimo, 30% bom e apenas 16% o consideravam mal ou péssimo. O dado é ainda mais relevante porque a pesquisa foi realizada principalmente no estado de São Paulo, onde Jango havia perdido a eleição de 1960 para Milton Campos, a pedido da Federação do Comércio de São Paulo.

O golpe de 1964 foi dirigido principalmente contra o trabalhismo e as organizações de esquerda, contando com o apoio inicial de parte significativa das classes médias e de políticos liberais, como o Deputado Ulisses Guimarães e o ex-Presidente Juscelino Kubitschek. Entre 1964 e 1967, um total de 76 deputados federais foram cassados, e destes 39 (mais da metade) eram do PTB que possuía apenas 27% da representação congressual. O governo Castello Branco cassou 224 mandatos populares, entre eles 10 governadores, cifra só superada no período Costa e Silva/Junta Militar, que cassou 349 mandatos – mas nenhum de Governador – e muito superior aos governos Médici e Geisel, que cassaram 10 e 12 mandatos populares respectivamente.

A ditadura montou um sistema repressivo que impôs a perseguição, o desaparecimento, a tortura e a morte, financiado pelo grande capital e as oligarquias locais, sendo sua expressão mais aguda a Operação Bandeirantes (OBAN), dirigida pelo Delegado Sergio Paranhos Fleury.  O balanço realizado pela Comissão da Verdade aponta pelo menos 50 mil atingidos direta ou indiretamente em seus direitos e cerca 400 mortos, número este que pode triplicar em função das violações cometidas contra os indígenas no Araguaia. Neste balanço não se contam as mortes provocadas pelos efeitos indiretos da ditadura, como aquelas derivadas do péssimo sistema de saúde e de saneamento públicos que mantiveram altíssimas taxas de mortalidade infantil, mais que 4 vezes superiores às de Cuba, em 1980, cujo PIB per capita correspondia à metade do brasileiro.

O golpe unificou as diversas frações da burguesia para impor um regime de terror do grande capital e uma política de superexploração dos trabalhadores, incrementando fortemente os níveis de desigualdade e de pobreza no país. Aprofundou a desnacionalização da economia brasileira e a penetração do capital estrangeiro no espaço nacional. Conservou o latifúndio, restringiu a reforma agrária à colonização de novas terras, o que frequentemente beneficiou as grandes empresas, elevando a concentração da propriedade no campo. Reafirmou as tradições coloniais de nossa burguesia, sublinhando suas tradições anti-democráticas, destruindo os níveis de organização institucional e de subjetividade das massas populares, e vinculou a modernização tecnológica ao imperialismo, ao capital financeiro internacional, à formação de uma burguesia monopólica associada e à grande propriedade da terra.

O projeto de modernização tecnológica da ditadura esteve subordinado ao capital financeiro internacional. Sua aspiração de aprofundar a substituição de importações implantando uma indústria de bens de capital carecia de fontes de financiamento internas, baseando-se na volatilidade do crédito internacional contratado a taxa de juros flutuantes durante a crise internacional de longo prazo que se iniciou em 1967-73. Incapaz de criar uma estrutura tributária que incidisse sobre a propriedade, lucros e dividendos ou de montar um poderoso sistema de ciência, tecnologia e inovação ao apoiar a acumulação na superexploração do trabalho –  até 1980 a força de trabalho possuía escolaridade média de 4 anos -, criou-se um modelo dependente e associado altamente vulnerável à elevação das taxas juros pelos Estados Unidos. A incapacidade dos economistas da ditadura de analisar os ciclos econômicos e o papel descapitalizador no médio e longo prazo do capital estrangeiro em países dependentes, os levou a impulsionar uma modernização acelerada baseada em expressivos déficits comerciais e no endividamento externo nos anos 1970.

A crise da dívida externa a partir do fim dos anos 1970 estrangulou este projeto de modernização, deixando incompleto o setor industrial, particularmente o segmento de produção de bens de capital, e iniciou o processo de financeirização da economia brasileira com a formação de uma dívida interna crescente, destinada primeiramente a transferir os dólares dos exportadores para pagamentos dos juros e amortizações, mas que ganhou dinâmica própria, baixando drasticamente as taxas de crescimento econômico e de investimento, elevando ainda a pobreza em níveis absolutos e relativos nas décadas de 1980 e 1990. A economia brasileira apenas apresentaria taxas de crescimento mais expressivas com o boom das commodities iniciado em 2003, em função da projeção da China na economia mundial.

A volta aos quartéis planejada pela linha Sorbonne das forças armadas, com forte penetração na estrutura empresarial – cujas maiores expressões eram Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel –, atendeu às demandas do grande capital nacional e estrangeiro de conter o fortalecimento das tendências nacionalistas em âmbito militar, cuja maior expressão na América Latina havia sido o Peru de Velasco Alvarado, e buscou antecipar-se às pressões populares, cujo descontentamento se evidenciava nas eleições de 1974, uma vez vencida a esquerda armada. Isto contribuiu para o significativo controle da redemocratização pelas principais forças sociais que apoiaram a ditadura, mantendo relativamente intocado os privilégios das frações de classe que dela se beneficiaram. De grande importância foi o esforço realizado por Golbery do Couto e Silva para separar a tradição trabalhista, em torno da qual haviam se organizado os trabalhadores nos anos 1950 e 60, da cultura operária que se devolveu no ABC paulista em função da modernização industrial produzida nos anos 1970. Decisivo para isso foi a proibição a Leonel Brizola de utilização da legenda PTB, principal herdeiro político do trabalhismo.

Além do legado da financeirização da economia, o golpe de 1964 deixou várias heranças que permanecem presentes, entre elas podemos citar a concentração da propriedade e de renda, a lei de anistia, a constituição congressual, o monopólio dos meios de comunicação e a privatização do ensino superior.

A concentração da propriedade e da renda foi o resultado da hegemonia inicial da burguesia industrial no período ditatorial e posteriormente da burguesia financeira nos períodos ditatorial e pós-ditatorial. Ainda que os governos Lula e Dilma tenham melhorado a distribuição de renda do fator trabalho, esta permanece bastante concentrada e desigual. Assim, se em 1990, os 10% mais ricos percebiam 47,5% desta renda, em 2011 esta proporção havia caído para 40,8%, mantendo-se bastante elevada. Por outro lado, em 2008, os 10% mais ricos se apropriavam de 75% da riqueza do país, o que inclui para além da renda, os estoques de propriedade.

A lei de anistia enviada pelo governo militar a um congresso submetido ao Pacote de Abril de 1977 – a quem impôs a indicação de 22 senadores biônicos (21 dos quais da Arena) escolhidos por colégio eleitoral – foi aprovada por escassos 206 votos contra 201, descartando a alternativa de anistia ampla geral e irrestrita, proposta pelo MDB. Esta lei buscou garantir a impunidade para o terrorismo de Estado, na medida em que excetuou dos benefícios da anistia justamente aqueles que haviam sido condenados por crimes políticos, proporcionando impunidade aos que usaram criminosamente o aparato coercitivo do Estado para violar direitos individuais e coletivos entre 1961-1979. Todavia, mesmo elaborada para decretar a impunidade do terrorismo de Estado, a lei de anistia deixou brechas. Em 1998, o Brasil reconheceu a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos que considera imprescritíveis os crimes de violação de direitos humanos, qualificando como continuados os crimes de sequestro e desaparecimento de pessoas até que se conheça seu paradeiro e destino. Em decisão de 2010, o STF descartou o direito a punir os responsáveis pelos crimes praticados, continuados ou não, o que levou a condenação do Estado brasileiro pela Corte interamericana de direitos humanos.

São dois os caminhos democráticos em relação à lei de anistia: o primeiro (mais moderado e conservador) é interpretá-la de acordo com a Corte Interamericana de Direitos Humanos, não estendendo sua validade para os crimes continuados; o segundo é revogá-la por decisão do Congresso ou Plebiscito Popular. Todavia, tanto o STF quanto o Congresso são forças que resistem a caminhar nesta direção. Para isso contribui o formato institucional do poder público no Brasil. O tipo congressual da constituinte de 1986 – realizada sem que a democracia estivesse plenamente estabelecida – a partir da iniciativa do então Presidente Sarney, impulsionou um modelo de representação política e institucional corporativo e autocrático, distanciado da vontade popular e vinculado ao poder econômico pelo financiamento privado de campanha. O Senado, com oito anos de mandato, e o STF, cujos ministros são constituídos por indicação presidencial, com mandato até os 70 anos, sendo apenas destituídos por 2/3 do Senado, são a maior expressão desta autocracia. Bastiões do conservadorismo, não se interessam em apurar os crimes da ditadura e desvendar as conexões civis-militares que envolvem suas fontes de financiamento ou redes de poder a que se articulam.

A hegemonia conservadora no processo de redemocratização vinculou-se à construção do império midiático e ao monopólio das telecomunicações representado pela Rede Globo, criada oficialmente em 1965 e beneficiada pela associação ilegal com o capital estrangeiro por meio do grupo Time-Life, do qual obteve financiamento e assessoria gerencial e técnica, entre 1962-1971. Em 1967, o governo Costa e Silva baixou um decreto proibindo a associação financeira, gerencial e técnica no setor de telecomunicações com o capital estrangeiro, criando de fato uma situação de privilégio e monopólio ao considerar que este não se aplicava à Rede Globo por seu contrato com o Grupo Time-Life ser anterior à legislação. Os laços da ditadura se estenderam a outros grupos de comunicação como é o caso da família Abravanel, produzindo uma concentração privada do espaço midiático nacional muito superior à concentração fundiária. Esta situação se aprofundou durante o período de redemocratização. Diversos políticos conservadores e reacionários se tornaram proprietários de retransmissoras locais de impérios midiáticos, sendo os casos mais notórios os que envolveram dois ex-presidentes da República, das famílias Sarney e Arnon de Mello, e o ministro das telecomunicações do governo Sarney, todos vinculados à Rede Globo. Em 2008, 271 políticos eram sócios dos grandes grupos midiáticos do país – que concentravam 61,3% dos veículos de comunicação – entre estes 20 senadores e 47 deputados federais. 58 pertenciam ao DEM, 48 ao PMDB, 43 ao PSDB, 23 ao PP, 16 ao PTB e 14 ao PPS, representando 74,8% das concessões a políticos. Tal situação contraria o inciso 5º do artigo 220 da constituição brasileira de 1988 que determina que os meios de comunicação não podem ser direta ou indiretamente objeto de monopólio. A ausência de regulamentação do artigo e a promiscuidade de interesses entre os oligopólios midiáticos e certos partidos políticos mantém esta situação de violação constitucional cuja estrutura foi plantada na ditadura. 

A ditadura interveio também sobre as universidades expurgando as esquerdas, privatizando o ensino superior, impulsionando a pós-graduação em detrimento da graduação e fortalecendo os vínculos com a hegemonia liberal norte-americana sobre o pensamento brasileiro. Em 1960, 60% das matriculas no ensino superior estavam nas universidades públicas e ao final da ditadura esta proporção havia caído a 35%. Esta trajetória se aprofundou nos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula, quando se reduziram a 30% e 25%, respectivamente, evidenciando as restrições do orçamento público em educação e o seu comprometimento crescente com o setor privado. A intervenção sobre as universidades expurgando as esquerdas se deu por meio do decreto 477/69, da lei 5540/68 e da colaboração com a USAID. A destruição chegou ao pico na UNB onde 80% de seus docentes foram demitidos. Paralelamente se buscou criar outra estrutura que destinou recursos à pós-graduação, subordinando parcialmente as universidades às agências externas de financiamento, em estrutura de poder fortemente verticalizada, priorizando-se a especialização e o pensamento disciplinar, deslocando-se o foco dos temas nacionais, regionais e mundiais, com forte vocação transdisciplinar. Neste contexto, outras agências de fomento norte-americanas, como a Ford, ganham expressão no Brasil com o objetivo de constituir novos paradigmas de investigação e uma nova comunidade acadêmica, financiando diversos centros de pesquisa, muitas vezes isolados das universidades, e as associações nacionais de pós-graduação.

O balanço dos 50 anos do golpe de 1964 revela sua ação constitutiva sobre a sociedade brasileira. Se o processo de redemocratização que se desenvolveu no Brasil escapou ao controle das forças golpistas e conservadoras, levando a eleição à presidência da República do Partido dos Trabalhadores, seus principais pilares encontram-se de pé: a concentração da propriedade e de renda; a preservação da lei de anistia e de uma interpretação que garante impunidade aos crimes de Estado; o monopólio midiático; a privatização do ensino superior e seu significativo afastamento da cidadania e das grandes necessidades nacionais; e por fim, a manutenção de elementos corporativos numa constituição feita por uma Assembleia Constituinte congressual, convocada antes que a legalidade democrática mínima houvesse sido plenamente instaurada.

Romper estas barreiras e sepultar o golpe de 1964 em nossa história são desafios que se colocam ao século XXI àqueles que lutam por um mundo democrático e justo e, principalmente, às novas gerações que nasceram sob a sua influência. Neste sentido, a abertura dos arquivos da ditadura e a atuação das comissões da verdade são da maior importância para restaurar os fatos e suas conexões onde há a mentira e o silêncio. Mas a batalha das ideias não se dará no vazio. Enfrentará a resistência daqueles que se beneficiaram da ditadura. As autocríticas tímidas e ambíguas da Folha S.Paulo e de O Globo são evidências disto.

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O QUE RESTA DO GOLPE DE 1964

Confira o especial de 50 anos do golpe no Blog da Boitempo, com artigos, eventos e lançamentos refletindo sobre os legados da ditadura para o Brasil contemporâneo, aqui.

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.