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A acumulação do horror e o horror da acumulação | Uma entrevista com Silvia Viana

14.07.24_Silvia Viana_A acumulação do horror e o horror da acumulaçãoPor Silvia Viana.

A socióloga Silvia Viana, autora de Rituais de sofrimento concedeu uma entrevista ao jornalista Mauricio Duarte para a Revista da Cultura de julho. Elaborada na efeméride dos 100 anos da Primeira Guerra Mundial, a matéria convidava três pensadores brasileiros (Silvia Viana, Luis Felipe Pondé e Maria da Graça Marchina Gonçalves) a refletirem sobre nossa relação com o horror e o sofrimento. Na matéria publicada, intitulada “A sangue frio“, as considerações de Silvia Viana aparecem polemizando com um lugar comum expresso em uma afirmação de Pondé – “Há um sadismo humano e um fascínio pelo sofrimento. Às vezes erótico, outras vezes metafísico” – e em seguida em um comentário sumário sobre a normalização e a comercialização do sofrimento nos reality shows contemporâneos. A entrevista completa, contudo, é muito mais extensa que o espaço disponibilizado pela revista. Publicamos, abaixo, o texto integral enviado pela autora ao Blog da Boitempo:

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1. Por que o ser humano é atraído pelo horror ou por situações macabras, que geralmente envolvem o sofrimento alheio?

O fato de sempre imputarmos aos outros a atração pelo sofrimento alheio já é indício de que essa afirmação, tida hoje como fato inelutável, deve ser questionada. Podemos facilmente contrapor esse pressuposto pétreo à repulsa que, em tantos, e em nós mesmos, tais situações são capazes de gerar. Então, a questão que nos devemos fazer não é o que nos atrai, mas o que nos leva a crer que tal atração é constitutiva do ser humano.

Não é fácil, aliás, muito pelo contrário, é agoniante assistirmos passivamente à agonia: ela respinga sua própria substância ao redor. À exceção dos psicopatas – cuja incapacidade de refletir sofrimento é mesmo excepcional –, a indiferença diante do horror não é algo natural e sim o resultado de uma construção social. Tanto assim que a mesma sociedade que enxerga nas manifestações de rua, e seu saldo de vidros quebrados, uma violência inaceitável, é capaz de destilar a demanda por mais pernas quebradas; uma exigência que pode, do mesmo modo, arrefecer ou virar de cabeça para baixo quando o terror estatal e espetacular, sabe-se lá mediante qual contra poder subterrâneo, toca os juízos; então se faz necessário um novo dispositivo para a dupla produção, de indiferença diante das pernas e de compaixão pelas vitrines: “há uns e outros, e os outros merecem…”. O outro sempre merece, não obstante ser objeto infinitamente intercambiável, tornando-se passível de ser machucado ao sabor da dominação. Até que, de vez em quando, ele morre na contramão e o olhar do mundo torna-se capaz de se desviar do tráfego, pois sua última agonia transborda a contrapelo: Amarildo e Douglas não são exceções, o fato de sua dor ser socialmente sentida, sim. Então, mais uma vez, como uma maldição, o mecanismo de distanciamento é reativado: “mas eles eram trabalhadores, já os outros…”.

Há uma lógica social que calibra os campos da indiferença e do intolerável. Apesar de se tornar mais explícita em momentos de viravolta insurgente, ela permanece despercebida por ser segunda natureza. É dessa perspectiva que devemos abordar as infindáveis provas e contraprovas desse nosso suposto “fascínio” pelo horror: que lógica o materializa?

2. O fascínio que esse tipo de situação causa nas pessoas não é um fenômeno novo. Porém, existe alguma particularidade referente ao modo como ele é percebido atualmente?

Antes de qualquer coisa, precisaríamos definir o tipo de situação à qual nos referimos. Se pensarmos nas situações cruéis e/ou bizarras levadas a cabo em reality shows, por exemplo, a questão a ser posta é: até que ponto os programas são socialmente sentidos como tal. Não que a brutalidade não esteja explícita, pelo contrário ela é propalada pela própria propaganda, que nos promete embates violentos a cada temporada, que sublinha o sofrimento dos participantes a cada rodada, que enaltece o sangue frio dos “vencedores” etc. Contudo, a paixão pelo horror não passa disso: propaganda de um produto cujo consumo não pode ser tido como atestado de fascinação. Pelo contrário, os programas são tão descartáveis quanto seus participantes, e a compulsão febril cessa assim que é encenado o último “paredão”.

Contudo, tal constatação é, ou deveria ser, ainda mais assustadora que o pressuposto de sua questão, pois se trata de uma brutalidade perpetrada e acompanhada mecanicamente. A novidade está nisso, na “banalização do mal”, entendida aqui em seu sentido original. Ou seja, não se trata da mera proliferação da crueldade, mas no fato dela ocorrer desprovida de qualquer paixão – política, guerreira, estética, sádica etc. – afinal, “é só um jogo”. O escândalo causado por Hannah Arendt, ao cunhar o termo, estava precisamente na percepção de que Eichmann não era um monstro, mas apenas um funcionário ordinário cumprindo suas funções ordinárias, no caso, a logística ferroviária. Arendt nada mais fez que traduzir a ética profissional específica do III Reich que, logo em seus primeiros anos, expulsou de suas fileiras todos aqueles que gozavam com o sangue alheio, substituindo-os por técnicos e gestores competentes. Como essa ética voltou a funcionar, ainda que com outro aspecto e novas facetas, é a questão que devemos nos fazer caso ainda consideremos o horror horrível.

3. Qual é o papel da imprensa e da mídia em geral nisso tudo?

Não há nada na transmissão televisionada da crueldade que já não tenha sólido assentamento em nossa reprodução social. Então a questão jamais deve ser posta, em primeiro lugar, do lado de lá da tela. Se a “banalidade do mal” não tivesse se tornado estrutural, nada disso seria palatável – em casos como os reality shows, não seria sequer compreensível. A eliminação aleatória de pessoas que concorrem ferozmente entre si por uma única vaga só faz sentido na TV quando as relações de produção tomam exatamente a mesma forma. Também nós “batalhamos” cotidianamente para “sobrevivermos” em um mercado de trabalho cada vez mais seleto – ou pelo menos assim rezam nossos rituais cotidianos, sejam eles espetacularizados ou não. A mídia reafirma e reforça essa lógica, o que não é pouco, mas jamais será o suficiente caso não haja uma estrutura social que a sustente. Por exemplo: a aflição de uma senhora entrevistada no ponto de ônibus, graças a uma manifestação, não é uma manipulação ideológica banal, ela só adquire peso coercitivo por estar pautada na coerção real de um “paredão” que parece mais próximo em dias de atraso. Nessa entrevista-chavão podemos vislumbrar a baliza que separa a crueldade ignorada daquela vivenciada como insuportável: as horas de vida desperdiçadas em posição estressante em um trem lotado para que se alcance nada mais que a possibilidade de continuar sobrevivendo são “parte da vida”, não nos parecem horripilantes. O adjetivo cabe, ao contrário, para a violência política posta na ação de frear esse movimento brutal e autopropulsionado.

A partir dessa cena, que de “macabra” aparentemente não tem nada, talvez possamos começar a entender a comiseração diante de vidros quebrados que, ao mesmo tempo, brada por mais pernas quebradas. A imprensa pode ninar cuidadosamente tal ressentimento, mas foi a precarização, do trabalho e da existência que gira a seu redor, que o pariu. A violência aceitável é a que toma a vida inteira, ela é ordinária, cotidiana, profissional: é aquela do participante de programa de TV que não quer ser eliminado; do gestor que precisa demitir mais e melhor; do porteiro que recusa a entrada de alguém com quem compartilha a cor da pele; do policial que nada mais faz senão “cumprir o seu dever” – e há aqueles que creem poder realizar essa tarefa de modo mais eficiente, acorrentando o outro da vez ao poste, pelo pescoço, com uma trava de bicicleta. À âncora do jornal não cabe muito mais que aplaudir o “trabalho bem feito”.

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Rituais de sofrimento, de Silvia Viana, já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso na Gato Sabido e na Travessa entre outras. Confira abaixo, o Booktrailer do livro.

No dia 5 de maio de 2014, Silvia Viana participou do debate de lançamento de O novo tempo do mundo, de Paulo Arantes, com o autor e com o historiador Jorge Grespan. Confira a gravação completa do evento:

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Silvia Viana é professora de sociologia da FGV-SP. Graduada em ciências sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Além de corintiana, é autora de Rituais de sofrimento, pela coleção Estado de sítio da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.

China Miéville: este é o cara (que você não conhece)

China MiévillePor Fábio Fernandes*.

China Miévile. Não, não é pseudônimo. E o sujeito também não é descendente do autor de Moby Dick (que, vamos nos lembrar, tinha o sobrenome Melville e que nos deixou como descendente um dos mestres da música eletrônica, Richard Melville Hall, mais conhecido como Moby, mas esta é outra história).

Google him. Procure o sujeito no Google, em bom português anglicizado. E o que você vai encontrar, se procurar no Google Images, é a foto e um sujeito careca, cheio de piercings na orelha esquerda, musculoso e com cara de skinhead.

Mas diz o antiquíssimo ditado: não se julga um livro pela capa. De skinhead hooligan Miéville não tem nada: formado em Antropologia Social por Cambridge em 1994, com Mestrado e Doutorado em Relações Internacionais pela London School of Economics, Miéville atualmente é professor de creative writing na Warwick University. Trotskista de carteirinha e membro do Partido Socialista Inglês, concorreu em 2001 a um cargo na Câmara dos Comuns (não ganhou).

E, além disso tudo, é escritor. Dos bons.

Mas por que você nunca ouviu falar em China Miéville? É algo um tanto estranho, principalmente se levarmos em conta que o sujeito tem 37 anos, ou seja, é da mesma geração de Nick Hornby, Neil Gaiman e Will Self (na verdade, um pouco mais novo, mas quem está contando?), todos estes publicados no Brasil e sucessos de público e crítica. É cooller pelo menos um desses autores (pensando bem, talvez não Neil Gaiman, porque é autor de quadrinhos e de roteiros para cinema – quem viu a constrangedora entrevista de Edney Silvestre com Gaiman na Globonews, gravada na FLIP em 2008, vai entender do que estou falando).

China Miéville escreveu até agora seis romances e uma coletânea de contos. Começou com King Rat (1998), e logo em seguida iniciaria o que ficaria conhecido como o Ciclo de Bas-Lag (um mundo próprio, que não é a Terra, e que não se explica se é um outro planeta, uma outra dimensão, um universo paralelo – e isso não é importante): Perdido Street Station (2000), The Scar (2002), Iron Council (2004). Em 2005, Miéville lança uma coletânea de contos, Looking for Jake, que contém uma história de Bas-Lag, e em 2007 o infanto-juvenil Un Lun Dun, com ilustrações do autor. No dia 15 de maio de 2009, Miéville vai lançar no Reino Unido (e no dia 26 de maio nos EUA) um livro que está sendo esperado com ansiedade por fãs e críticos há anos, e tem tudo para se equiparar a Perdido Street Station em status cult: A cidade & a cidade.

Perdido Street Station está se tornando a passos largos um cult underground no Brasil. Primeiro apenas entre fãs mais empedernidos de ficção científica e fantasia – e todos sabemos o que isso significa. A marca de Caim indelével do sujeito que, como o Sheldon de Big Bang Theory, só usa camisetas de super-heróis, tem tiques esquisitos e vive discutindo (normalmente em altos brados) que este ou aquele filme de Jornada nas Estrelas é horrível porque se afasta da cronologia da série original, que afinal de contas precisa ser respeitada a todo custo, etc. etc. etc. Enfim, fanboys – pessoas de quem os ditos “normais” fogem com mais rapidez do que da gripe suína.

Mas Perdido Street Station furou esse cordão sanitário, essa barreira, como queiram, em pouco tempo. E agora já está sendo lido até mesmo por escritores brasileiros respeitados e tidos como cult.

Eu poderia passar a maior parte deste texto explicando diversas teorias pelas quais um livro ganha popularidade, mas o caso é que aí eu estaria escrevendo um texto de ficção (talvez até científica). Porque essas teorias são todas furadas. Sucesso não se explica. O sucesso existe – toda explicação é retroativa.

O que eu posso dizer pela minha experiência de escritor, tradutor e principalmente de leitor é que Perdido Street Station me pegou pelos colhões porque é cheio de vida. O que é que você pode dizer quando abre as páginas de um livro que te mostra uma cidade tecnorrenascentista habitada por humanos e alienígenas, com sexo interespécies, cientistas em busca dos segredos do voo através de estudos de contenção de energia taumatúrgica usando a teoria do caos como base, políticos do nosso plano de realidade negociando com embaixadores infernais, greves de trabalhadores humanos e aliens e polícia comendo todo mundo na porrada – como em qualquer universo que se preze, porque o mundo de Perdido Street Station tem homens-pássaro, homens-cacto, mulheres-inseto, mas não tem unicórnio nem bichinho bonitinho.

É um mundo de trabalhadores, imigrantes, ladrões e prostitutas. É um mundo de violência e sangue. É um mundo quase igual ao nosso, só que diferente. Perdido Street Station foi publicado originalmente como Fantasia, o mesmo rótulo de gênero ao qual pertencem clássicos como O Senhor dos Anéis, de J.R.R.Tolkien, ou a série Harry Potter, de J.K.Rowling.

E no entanto não é nada disso.

O romance de estreia de Miéville prestou uma homenagem a autores clássicos de horror como H.P.Lovecraft e Robert Howard (autores depulp fiction nas décadas de 1920 e 1930 e criadores da chamada Weird Fiction, ou, numa tradução literal, ficção bizarra). Mas adicionou à mistura, neste mundo pós-moderno (ou de modernidade líquida, como queiram), muitos outros autores, como Borges, Gramsci e Marx, John Reed, e escritores de fantasia pós-Tolkien como Mervyn Peake (autor da trilogia Gormenghast, bem mais adulta e sombria que O Senhor dos Anéis, e que não tem a menor previsão de lançamento no Brasil) e M. John Harrison (este ainda vivo, e cujo livro Viriconium, escrito na década de 1970, influenciou ativamente o estilo de Miéville – preciso dizer que Harrison também é desconhecido por estas bandas?)

Em 2003, numa lista de discussão na web (cujos apontamentos foram documentados na coletânea de contos e ensaios inéditos The New Weird, publicada em 2008), Harrison e outros escritores, ao se referirem ao trabalho de Miéville, consolidaram o termo New Weird Fiction, que já andava sendo utilizado aqui e ali havia algum tempo, mas sem muito rigor.

Para eles, New Weird Fiction era um retorno ao tipo de fantasia com horror que se lia nos tempos da revista norte-americana pulp Weird Tales (a mesma que publicava Lovecraft e Howard).

A diferença era que desta vez havia, ao contrário dos autores da velha onda, uma preocupação com a linguagem e com a construção de personagens tridimensionais e coerentes.

Em um artigo escrito para o jornal britânico The Guardian em 2004, Miéville se declara um completo “control freak”. Aliás, se ele ainda não tem uma grande fortuna crítica, só o fato de merecer espaço num dos mais conceituados jornais britânicos já deveria ser motivo suficiente para ficarmos de olho no sujeito. O rigor com que Miéville constrói sua linguagem e seus personagens é do nível de um Martin Amis, William Golding, Hanif Kureishi, apenas para ficarmos em autores britânicos mainstream relativamente recentes.

Como disse o jornalista José Castello recentemente a respeito de Leite Derramado, de Chico Buarque, literatura é invenção. Mas Castello acha que o ápice da invenção é o Chico. Com o devido respeito, Castello (e eu te respeito pra burro, você é um dos meus críticos favoritos), não é não. Já tem uma pá de autor brasileiro tentando fazer (e alguns até conseguindo) o que Miéville faz em seus livros.

Os outros livros do ciclo de BasLag abordam outras partes desse estranho mundo: The Scar é uma história de piratas – mas não esperem Jack Sparrow e piadinhas engraçadinhas. Como Perdido…, The Scar tem muita sujeira e sangue. É uma versão marinha do livro mais famoso de Miéville. Iron Council é,  surpreendentemente, a versão areia. É um western. Com criaturas bizarras e fantasmagóricas, mas com muito deserto e cactos (e homens-cacto, como em Perdido Street Station).

A cidade & a cidade não se passa em Bas-Lag, mas numa versão paralela de nosso próprio mundo, na cidade fictícia de Beszel, em algum lugar do leste europeu. Ali, o que seria um simples assassinato de rotina para o Inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Radicais, se torna a ponta de um iceberg muito maior, que revela conspirações estranhas e incompreensíveis. Borlú terá de viajar de Beszel à única metrópole na Terra mais estranha que a sua própria, a cidade de Ul Qoma, cujas fronteiras precisam ser atravessadas não só física como psiquicamente.

Outra prova do talento e do rigor de Miéville neste livro é o esforço que ele faz para emular o pidgin English – o inglês “porco” de um falante do Leste Europeu que não tem o inglês como idioma nativo e que precisa pensar antes de enunciar.

Com ecos de Borges e Kafka, e borrifos de Marcel Schwob e Ítalo Calvino, este livro promete atrair os nãonerds – e mostrar também para eles que um livro não se julga pela capa, nem um autor pelo seu público.

* Este texto foi escrito em 2009 e publicado pelos Cadernos de Não-Ficção #2 (Não Editora).

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Fábio Fernandes é escritor e tradutor. Está atualmente traduzindo A cidade e a cidade, de China Miéville, previsto para ser lançado pela Boitempo em novembro de 2014.

Žižek: O círculo de giz de Jerusalém

O círculo de giz de Jerusalém2Por Slavoj Žižek.*

Em um contexto de acirramento do conflito no oriente médio, o Blog da Boitempo recupera um trecho do livro Violência, seis reflexões laterais, escrito por Slavoj Žižek em 2008 e que acaba de ganhar edição brasileira pela Boitempo. Saiba mais ao final deste post.

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É demasiado fácil marcar pontos no debate sobre a violência por meio de inversões espirituosas e que poderiam prosseguir indefinidamente – então vamos acabar com este polêmico diálogo imaginário e arriscar um passo que conduza diretamente ao “coração das trevas” do conflito do Oriente Médio. Muitos pensadores políticos conservadores (e não só conservadores), de Blaise Pascal a Immanuel Kant e Joseph de Maistre, elaboraram a ideia das origens ilegítimas do poder, a ideia de “crime fundador” sobre o qual os nossos Estados se baseiam, e é por isso que devemos oferecer ao povo “nobres mentiras” sob a forma de heroicas narrativas de origem. A respeito dessas ideias, o que muitas vezes se diz de Israel é bastante verdadeiro: o infortúnio de Israel é ter sido estabelecido como Estado-nação um ou dois séculos mais tarde do que devia, em condições nas quais tais crimes fundadores deixaram de ser aceitáveis. A suprema ironia aqui é o fato de que foi justamente a influência intelectual judaica que contribuiu para a afirmação dessa inadmissibilidade!

Durante minha última visita a Israel, fui abordado por um intelectual israelita que, a par das minhas simpatias palestinas, me perguntou em tom jocoso: “Não tem vergonha de estar aqui, em Israel, esse Estado ilegal e criminoso? Não tem medo de ver aqui contaminadas as suas credenciais de esquerda e de se tornar cúmplice do crime?”.

Com toda a honestidade, tenho de admitir que toda vez que viajo a Israel experimento esse estranho estremecimento de quem entra num território proibido, de violência ilegítima. Será que isso significa que sou (não tão) secretamente antissemita? Mas o que me perturba é precisamente que me descubro num Estado que ainda não apagou a “violência fundadora” de suas origens “ilegítimas”, recalcando-as para um passado intemporal. Nesse sentido, aquilo com que o Estado de Israel nos confronta é simplesmente o passado apagado de todo e qualquer poder de Estado.

Por que seremos hoje mais sensíveis a essa violência? Precisamente porque, num universo global que se legitima através de uma moralidade global, os Estados soberanos deixaram de poder eximir-se a juízos de ordem moral, mas são tratados como agentes morais puníveis por seus crimes, apesar de continuar a ser discutível tanto aquele que exerce a justiça como o estatuto de quem julga o juiz. A soberania do Estado é assim severamente constrangida. Este aspecto explica o valor emblemático do conflito no Oriente Médio: ele nos confronta com a fragilidade e a permeabilidade da fronteira que separa o poder não estatal “ilegítimo” do poder estatal “legítimo”.

No caso do Estado de Israel, suas origens “ilegítimas” ainda não puderam ser elididas. Seus efeitos são hoje plenamente sentidos. O que nos faz lembrar o lema da Ópera dos três vinténs de Bertolt Brecht: o que é um assalto a banco comparado com a fundação de um banco? Para dize-lo de outra forma, o que são os assaltos que violam a lei comparados com os assaltos que têm lugar no quadro da lei? O que só faz crescer a tentação de propor uma nova variação em torno deste lema: o que é um ato de terrorismo face a um poder de Estado que faz a sua guerra contra o terrorismo?

Quando os observadores ocidentais se perguntam desesperados por que é que os palestinos persistem no seu apego obstinado à sua terra e se recusam a dissolver a própria identidade num mar árabe mais vasto, estão exigindo que os palestinos ignorem precisamente aquilo que constitui a violência fundadora de Estado “ilegítima” por parte de Israel. Numa demonstração de justiça poética que afirma a ironia da história, os palestinos devolvem a Israel a sua própria mensagem, sob uma forma invertida e verdadeira. Existe o apego patológico à terra, implicando um direito de regresso a ela ao cabo de milhares de anos – uma negação efetiva da desterritorialização que se alega ser característica do capitalismo global atual. Mas a mensagem invertida vai mais longe ainda. Imagine se lêssemos a seguinte declaração nos meios de comunicação atuais:

Nossos inimigos nos chamaram de terroristas […]. Pessoas que não foram nem nossos amigos nem nossos inimigos […] também usaram esse nome latino […]. E, no entanto, nós não fomos terroristas […]. As origens históricas e linguísticas do termo político “terror” demonstram que ele não pode ser aplicado a uma guerra revolucionária de libertação […]. Os combatentes da liberdade têm de usar armas; de outro modo seriam imediatamente esmagados […]. O que tem a ver com o “terrorismo” uma luta em defesa da dignidade do homem, contra a opressão e a servidão?

Automaticamente atribuiríamos esta mensagem a um grupo terrorista islâmico e, consequentemente, o condenaríamos. Todavia, o autor dessas palavras não é outro senão o ex-primeiro-ministro de Israel Menachem Begin, durante os anos em que a Haganah combatia as forças britânicas na Palestina1. É interessante notar que, durante os anos de luta dos judeus contra o exército britânico na Palestina, o termo “terrorista” tinha uma conotação positiva. Passemos a outro exercício mental: imaginemos ler nos jornais contemporâneos uma carta aberta intitulada “Carta aos terroristas da Palestina”, que contivesse as seguintes afirmações:

Meus bravos amigos. Podem não acreditar no que escrevo a vocês, dada a atmosfera turva que hoje se respira. Mas dou a minha palavra de velho repórter quando afirmo que o que escrevo é verdade. Os palestinos da América estão do seu lado. Vocês são os nossos heróis. Vocês são o nosso sorriso. São a pluma que enfeita o nosso chapéu. São a primeira resposta que faz sentido – para o Novo Mundo. Toda vez que vocês explodem um arsenal israelita, assaltam uma prisão israelita, fazem ir pelos ares um trilho de trem israelita, roubam um banco israelita ou combatem com suas armas e suas bombas os traidores israelitas invasores da sua pátria, os palestinos da América celebram uma pequena festa em seus corações.

Na realidade, uma carta aberta muito parecida foi publicada no fim da década de 1940 pela imprensa estadunidense, assinada por ninguém menos que Ben Hecht, o célebre roteirista de Hollywood. Limitei-me aqui a substituir a palavra “judeus” por “palestinos” e “britânicos” por “israelitas”2 quase encantador vermos a primeira geração dos líderes israelitas confessarem abertamente o fato de suas reivindicações relativas à terra da Palestina não poderem basear-se numa noção de justiça universal, de se inscreverem no quadro de uma simples guerra de conquista travada entre dois grupos, não sendo possível qualquer tipo de mediação entre eles. Eis o que o primeiro-ministro de Israel David Ben-Gurion escreveu:

Qualquer pessoa pode se dar conta do peso dos problemas nas relações entre árabes e judeus. Mas ninguém vê que não há solução para estes problemas. Não há solução! Estamos diante de um abismo e ninguém pode ligar seus dois lados […]. Nós, como povo, queremos que esta terra seja nossa; os árabes, como povo, querem que esta terra seja deles.3

O problema que esta declaração nos coloca hoje é muito claro: a ignorância de qualquer consideração moral relativamente aos conflitos étnicos em torno da terra deixou de ser admissível. É por isso que se nos parece tão profundamente problemático o modo como o célebre caçador de nazistas Simon Wiesenthal abordou o problema em seu Justica não é vinganca:

Um dia se compreenderá que é impossível instaurar um Estado sem afetar os direitos de algumas das pessoas que a essa altura vivem na região. (Porque onde ninguém viveu antes é presumivelmente impossível de se habitar.) Teremos de nos contentar com o fato dessas consequências serem limitadas e afetarem relativamente poucas pessoas. Tal era a situação na época da fundação de Israel […]. Afinal, existira durante muito tempo uma população judaica na região, e a população palestina era relativamente dispersa e tinha alternativas relativamente numerosas perante a perspectiva de ceder as suas posições.4

O que Wiesenthal advoga aqui nada menos é do que uma violência fundadora de Estado com rosto humano; uma violência, portanto, cujos abusos sejam limitados. (No que se refere à dispersão comparativa dos colonos, a população do território palestino, em 1880, contava 25 mil judeus e 620 mil palestinos.) Todavia, na nossa atual perspectiva, a afirmação mais interessante do ensaio de Wiesenthal aparece uma página antes, onde escreve: “O continuamente vitorioso Estado de Israel não poderá contar eternamente com a simpatia demonstrada às vítimas”5. Wiesenthal parece querer dizer que hoje, quando o Estado de Israel se tornou “continuamente vitorioso”, já não tem necessidade de se comportar como uma vítima, mas pode passar a afirmar plenamente a sua força.

Talvez seja verdade, mas devemos acrescentar que tal posição de força implica também novas responsabilidades. O problema atualmente é que o Estado de Israel, apesar de “continuamente vitorioso”, continua a apoiar-se na imagem dos judeus como vítimas para legitimar a sua política de potência, bem como para denunciar os que o criticam como simpatizantes disfarçados do Holocausto. Arthur Koestler, o grande convertido anticomunista, formulou uma intuição profunda: “Se o poder corrompe, a formulação inversa também é verdadeira; a perseguição corrompe as vítimas, embora talvez de formas mais sutis e trágicas”.

Tal é a fraqueza fatal do único argumento forte em defesa da criação de um Estado-nação judaico após o Holocausto: ao criarem o seu próprio Estado, os judeus superariam a situação na qual a sua liberdade dependeria dos Estados da diáspora e da tolerância ou intolerância das respectivas maiorias nacionais. Embora esta linha de argumentação seja diferente da religiosa, tem de recorrer à tradição religiosa para justificar a localização geográfica do novo Estado. De outro modo, estaríamos na situação descrita pela velha piada em que um louco procura a sua carteira perdida perto de um poste de luz, ao invés de explorar o canto escuro em que efetivamente a perdeu, porque na luz é mais fácil de enxergar: foi porque era mais fácil assim que os judeus ocuparam a terra dos palestinos e não uma outra, tomada àqueles que lhes haviam causado tanto sofrimento e manifestamente lhes deviam reparação.

Robert Fisk, jornalista britânico que vive no Líbano, fez um documentário sobre a crise do Oriente Médio, em que descreve como os seus

vizinhos árabes, refugiados palestinos, lhe mostraram a chave da casa que tinham possuído outrora em Haifa, antes de ela lhes ter sido tirada pelos israelitas. Então ele visitou a família judia que morava naquela casa e perguntou aos seus membros de onde eles tinham vindo. A resposta foi Chrzanow, uma pequena cidade próxima de Cracóvia, na Polônia, e mostraram-lhe então uma fotografia da sua anterior casa polaca, que haviam perdido durante a guerra. O homem viajou, portanto, até a Polônia e procurou a mulher que então vivia na casa de Chrzanow. Era uma “repatriada” de Lemberg, atualmente na Ucrânia Ocidental. Não era difícil adivinhar qual seria o próximo elo da cadeia. A repatriada fora exilada da sua cidade natal por ocasião da sua conquista pela União Soviética. Sua casa fora evidentemente ocupada por russos enviados no pós-guerra pelo governo para a cidade a fim de promover a sua sovietização.6

E a história continua, é claro: a família russa provavelmente se mudou de uma casa na Ucrânia Oriental, destruída pelos alemães durante as grandes batalhas da Frente Leste… É aqui que entra o Holocausto: a referência ao Holocausto permite aos israelitas eximirem-se dessa cadeia de substituições. Mas quem evoca o Holocausto nestes termos, o que faz de fato é manipula-lo, instrumentalizando-o ao serviço de objetivos políticos momentâneos.

O grande mistério do conflito israelo-palestino é ter persistido por tanto tempo quando todo mundo a única solução viável para ele: a retirada dos israelitas da Cisjordânia e de Gaza e a instauração de um Estado palestino, bem como um compromisso conseguido de uma maneira ou de outra a propósito de Jerusalém. Sempre que um acordo pareceu exequível, acabou desaparecendo inexplicavelmente. Quantas vezes não aconteceu que, precisamente quando parece não faltar mais do que uma formulação adequada relativa a certas questões menores para se chegar à paz, tudo volta a se desfazer, revelando a fraqueza da solução negociada? O conflito do Oriente Médio assumiu a feição de um sintoma neurótico: todo mundo vê a maneira de vencer o obstáculo, e contudo ninguém quer removê-lo, como se houvesse algum tipo de benefício libidinal na persistência do beco.

É por isso que a crise do Oriente Médio é um ponto tão sensível para as políticas pragmáticas que visam resolver o problema passo a passo, de maneira realista. No caso vertente, o que é utópico é a própria ideia de que uma abordagem “realista” poderá funcionar quando a única solução “realista” seria aqui a de maior dimensão: resolver o problema pela raiz. A velha palavra de ordem de 1968 parece a única aplicável: Soyons realistes, demandons l’impossible! [Sejamos realistas, vamos exigir o impossível!]. Só um gesto radical e “impossível” no quadro traçado pelas circunstâncias presentes poderia ser uma saída realista. Talvez a solução que “todo mundo conhece” como sendo a única viável – a retirada dos israelitas da Margem Ocidental e de Gaza, a instauração de um Estado palestino – não funcione, e tenhamos, portanto, de mudar de quadro, mudar as condições do problema e encarar o horizonte da solução de um só Estado.

Aqui nos sentimos tentados, uma vez mais, a falar sobre um sintomático: no conflito israelo-palestino, não é verdade que os papéis habituais se encontram de certo modo invertidos, torcidos como à volta de um nó? Israel – representando oficialmente a modernidade liberal ocidental na região – é legitimado ao invocar a sua identidade étnico-religiosa, enquanto os palestinos – acusados de “fundamentalistas”– legitimam as suas reivindicações em termos de cidadania secular. (É grande a tentação de arriscar a hipótese de que foi a própria ocupação israelita dos territórios palestinos que impeliu os palestinos a perceberem-se como uma nação separada em busca do seu próprio Estado, e não mais como uma simples parte da massa árabe.)

Temos assim o paradoxo do Estado de Israel, uma alegada ilha de modernidade liberal e democrática no Oriente Médio, opondo-se às reclamações árabes por meio de uma afirmação étnico-religiosa ainda mais “fundamentalista” do seu direito a uma terra santa. A ironia maior é que, segundo certas pesquisas, os israelitas constituem a nação mais ateia do mundo: cerca de 70% de sua população não crê em nenhum tipo de divindade. Sua referência à terra assenta, assim, numa denegação de tipo fetichista: “Sei muito bem que Deus não existe, mas acredito, apesar de tudo, que foi Deus quem nos deu a terra do Grande Israel…”. E, como nos ensina a história do nó górdio, a única maneira de se sair do beco atual não é desenredar o nó, mas corta-lo. Como? Badiou abordou recentemente o impasse:

“A fundação de um Estado sionista foi uma realidade composta altamente complexa. Por um lado, foi um acontecimento que fazia parte de um outro ainda maior: a ascensão dos grandes projetos revolucionários comunistas e socialistas, a ideia da fundação de uma sociedade inteiramente nova. Por outro lado, foi um contra-acontecimento, parte de um contra-acontecimento maior: o colonialismo, a conquista brutal por parte de gente que vinha da Europa, de uma nova terra onde já vivia um outro povo. Israel é uma mistura extraordinária de revolução e reação, de emancipação e opressão. O Estado sionista tem de se tornar o que continha em si de justo e de novo. Tem de se tornar o menos racial, o menos religioso e o menos nacionalista dos Estados. O mais universal de todos eles.”7

Embora haja algo de verdadeiro nessa perspectiva, o problema persiste: será possível desatar de fato o nó diretamente e simplesmente separar os dois aspectos de Israel, no sentido de consumar a perspectiva do projeto revolucionário do Estado sionista sem a sua sombra colonizadora? Estamos como que perante a lendária resposta por meio de um “Se…” que um político norte-americano deu, na década de 1920, à pergunta “Apoia a proibição do vinho: sim ou não?”: “Se por vinho você entende a terrível bebida que arruinou milhares de famílias, fazendo dos homens destroços que batiam nas mulheres e se esqueciam dos filhos, então sou inteiramente favorável à proibição. Mas se por vinho você entender a nobre bebida, de gosto maravilhoso, que torna cada refeição um enorme prazer, então sou contra!”

Talvez precisemos de um pouco mais: não só do traçado da linha que distingue o bom do mau Israel, mas de um autêntico ato que transforme as próprias coordenadas da situação presente. O antigo primeiro-ministro israelita Isaac Rabin deu o primeiro grande passo nessa direção quando reconheceu a OLP como representante legítima dos palestinos e, por conseguinte, o único verdadeiro parceiro de negociação.

Quando Rabin anunciou a inversão da política israelita de “não fazemos negociações com a OLP, organização terrorista” e pronunciou as simples palavras “vamos deixar esta comédia de negociarmos com os palestinos sem ligações públicas com a OLP e começar a falar com os nossos interlocutores reais”, a situação do Oriente Médio mudou de imediato. Tal é o efeito de um verdadeiro ato político: torna pensável o impensável. Embora fosse um político trabalhista, Rabin efetuou assim um gesto que caracteriza os melhores momentos de certos políticos conservadores: só um De Gaulle podia assegurar a independência da Argélia; só um conservador como Nixon podia estabelecer relações com a China8.

Que poderia, então, constituir hoje um ato desse tipo por parte dos árabes? Fazer o que Edward Norton faz em Clube da luta, de David Fincher: antes de mais nada, atacarem a si próprios – deixarem de atirar todas as culpas para cima dos judeus, como se a expansão sionista na palestina fosse a origem e a representação simbólica de todas as desgraças árabes, o que leva à ideia de que a vitória sobre Israel é a condição imprescindível da autoafirmação árabe. Os palestinos que sustentam que a libertação do seu território da ocupação israelita dará um novo impulso à democratização do mundo árabe não estão vendo as coisas direito. Estas são precisamente ao contrário. Deveríamos começar por denunciar abertamente os corruptos regimes clericais e militares, da Síria à Arábia Saudita, que se servem da ocupação israelita para se legitimarem. O paradoxo é que o foco de toda a sua atenção em Israel é a razão pela qual os árabes estão perdendo a batalha. O sentido fundamental da jihad no Islã não é a guerra contra o inimigo exterior, mas o esforço de purificação interior.

Trata-se de uma luta contra as próprias fraquezas e derrotas. Por isso talvez os muçulmanos devessem proceder mais ativamente à passagem do sentido mais corrente entre o público ao verdadeiro sentido da jihad. Os três principais agentes da Guerra Contra o Terrorismo (os Estados Unidos pós-11 de Setembro, Israel e os árabes) veem-se a si próprios como vítimas e usam sua condição de vítimas para legitimar políticas expansionistas. Em certo sentido, o 11 de Setembro aconteceu no momento certo para justificar o expansionismo militar norte-americano: agora que nós também somos vítimas, podemos nos defender e contra-atacar.

A aliança Estados Unidos/Israel, essa estranha associação entre a nação (desenvolvida) mais religiosa do mundo insistindo na separação entre a religião e o Estado e o povo mais irreligioso do mundo cuja existência se baseia na natureza religiosa de seu Estado, pode assim apresentar-se como um eixo das vítimas.

Então vamos à grande questão: qual seria hoje o ato ético-politico verdadeiramente radical no Oriente Médio? Tanto para os israelitas como para os árabes, consistiria no gesto de renúncia ao controle (político) sobre Jerusalém, isto é, a promoção da transformação da Cidade Velha de Jerusalém em um lugar extraestatal de culto religioso sob o controle (temporário) de uma força internacional neutra.

O que os dois lados deveriam aceitar é que, ao renunciarem ao controle político de Jerusalém, não estão efetivamente renunciando a nada. Antes, estão conseguindo a elevação de Jerusalém a um autêntico lugar sagrado e extrapolítico. O que perderiam seria precisamente e só o que já, por si próprio, merece ser perdido: a redução da religião a uma parada em jogo na peça do poder político. Seria um verdadeiro acontecimento no Oriente Médio a explosão da verdadeira universalidade política no sentido de São Paulo: “Para nós não existem judeus nem palestinos.” Ambos os lados teriam de compreender que essa renúncia do Estado-nação etnicamente “puro” seria uma libertação para eles e não um simples sacrifício que cada um faria ao outro.

Recordemos a história do círculo de giz caucasiano em que Bertolt Brecht baseou uma de suas últimas peças. Em tempos antigos, em algum lugar no Cáucaso, uma mãe biológica e uma mãe adotiva recorreram a um juiz para que este decidisse a qual delas pertencia a criança. O juiz desenhou um círculo de giz no chão, pôs o bebê no meio dele e disse às duas mulheres que cada uma delas agarrasse a criança por um braço; a criança pertenceria àquela que a conseguisse tirar para fora do círculo. Quando a mãe real viu que a criança estava se machucando por ser puxada em direções opostas, a compaixão levou-a a soltar o braço que segurava. Evidentemente, foi a ela que o juiz deu o filho, alegando que a mulher demonstrara um autêntico amor maternal. Segundo a mesma lógica, poderíamos imaginar um círculo de giz em Jerusalém. Aquele que amasse verdadeiramente Jerusalém preferiria perde-la a vê-la dilacerada pela disputa. Evidentemente, a suprema ironia é aqui o fato de a pequena história brechtiana ser uma variante do juízo do Rei Salomão que aparece no Antigo Testamento, que, reconhecendo que não havia maneira justa de resolver o dilema maternal, propôs a seguinte solução de Estado: a criança deveria ser cortada em duas, ficando uma metade para cada mãe. A verdadeira mãe, é claro, desistiu da reivindicação.

O que os judeus e os palestinos têm em comum é o fato de uma existência diaspórica fazer parte de suas vidas, parte de sua própria identidade. E se ambos se unissem na base deste aspecto – não na base de ocuparem, possuírem ou dividirem o mesmo território, mas na de manterem-no partilhado, aberto como refúgio aos condenados à errância? E se Jerusalém se transformasse não no lugar de um ou do outro, mas no lugar dos sem-lugar?

Tal solidariedade partilhada é a única base possível para uma verdadeira reconciliação: para o entendimento de que, ao combatermos o outro, combatemos o que há de mais vulnerável em nossa própria vida. É por isso que, com plena consciência da seriedade do conflito e de suas consequências potenciais, deveríamos insistir mais do que nunca na ideia de que estamos diante de um falso conflito, de um conflito que obscurece e mistifica a verdadeira linha de frente.

Notas

1. Menachem Begin, The Revolt (Nova York, Dell, 1977), p. 100-1.
2. A carta apareceu como um anúncio de página inteira no New York Post, 14 maio 1947, p. 42.
3. Citado pela revista Time, 24 jul. 2006.
4. Simon Wiesenthal, Justice, Not Vengeance (Londres, Mandarin, 1989), p. 266.
5. Ibidem, p. 265.
6. Norman Davies, Europe at War (Londres, Macmillan, 2006), p. 346 [ed. port.: A Europa em guerra: 1939-1945, Lisboa, Edições 70, 2008].
7. Alain Badiou, “The Question of Democracy”, Lacanian Ink, n. 28, 2o sem. 2006, p. 59.
8. Do mesmo modo, deveríamos elogiar Ehud Barak por sua resposta a Gideon Levy no Ha’aretz. Quando lhe perguntaram o que faria se tivesse nascido palestino, Barak respondeu, com efeito: “Teria aderido a uma organização terrorista”.

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violencia_capa_site_altaEste texto integra o livro Violência: seis reflexões laterais, de Slavoj Žižek, sobre o fenômeno moderno da violência, entre as explosões contraditórias das ruas e a opressão silenciosa de nosso sistema político e econômico. A edição conta ainda com um prefácio inédito, de Žižek, e um posfácio, de Mauro Iasi, situando a discussão no contexto das manifestações que tomaram as ruas do Brasil em junho de 2013!

[Disponível em versão eletrônica (ebook) por R$ 18,00 na Amazon]

Violência Zizek Debates_rj_sp

No dia 3 de setembro, Mauro Iasi e Gilberto Maringoni debaterão o livro de Žižek na Livraria Martins Fontes de São Paulo. Em julho, o autor do posfácio participou de um debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, na Livraria Gramsci:

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Alguém disse totalitarismo? Cincon intervenções no (mau) uso de uma noção * ePub (Amazon | Gato Sabido) 

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Amazon |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub  (Amazon | Gato Sabido)

Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético * ePub (Amazon | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Violência, seis reflexões laterais * Kindle (Amazon | Travessa)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Lembrança de velhos

14.07.24_Roniwalter Jatobá_Lembranças de velhosPor Roniwalter Jatobá.

Durante algum tempo da vida, realizei trabalhos fascinantes. Em um deles, coisa rara, reunia prazer, conhecimento e sabedoria. Foi num tempo em que colhia depoimentos de aposentados da antiga Light, pois pensava em fazer um paralelo sobre as profissões que se acabaram para sempre. Ideia louca? Tenho exemplos. O apagador de lampiões, no século passado e, mais próxima de muita gente, o motorneiro ou condutor de bondes.

Muitos idosos por modéstia, no entanto, consideravam sem importância a sua vida pessoal e profissional. Quase sempre, convencia-os com uma história que ouvira em algum lugar e nem sabia se na verdade havia mesmo acontecido.

Era assim – eu contava. Um dia, o famoso pregador norte-americano Fulton Sheen solicitou a presença de um jornalista em sua igreja para uma reunião de fiéis. Surpreso, ele perguntou:

– Mas, haverá alguém importante nesta reunião?

O religioso, então, respondeu com entusiasmo:

– Sim, todos. Todos são importantíssimos.

A historinha funcionava. Depois, era só preparar o gravador e partir para o agradável bate-papo. Um chegou a me confidenciar que era prazeroso lembrar-se de coisas do passado. Quando findou seu depoimento, até ficou assustado com os fatos que havia presenciado na sua trajetória paulistana, e disse:

– Quem diria que a minha vida poderia servir para contar uma história.

Nesta época de Copa do Mundo, quando todo mundo só fala de futebol, lembro de José Penha.

– Tenho orgulho de ter sido um dos primeiros a jogar em campo iluminado. Sabe que o primeiro campo iluminado do mundo era da Light? Ficava na Várzea do Glicério e pertencia à Seção de Linhas e Cabos. O sistema de iluminação foi idealizado por um colega nosso, o Severino Gragnani. Foi ele, também, o primeiro a mandar fazer uma bola branca para jogos noturnos – me revelou.

José Penha nasceu no interior paulista, em 1915. Seis anos depois, a família mudou-se para São Paulo.

– As minhas primeiras recordações são do bairro da Luz, onde moravam meus avôs maternos. Eles forneciam aves e ovos para a Força Pública e eu, garoto, acompanhava a entrega das encomendas aos quartéis.

As lembranças chegavam à sua mente como densa garoa por uma São Paulo em pé de guerra: a revolução de 1924, quando mal podia dormir com o barulho das metralhadoras e, nas manhãs bem cedo, quando saía em busca de pentes de balas abandonados nas trincheiras; o susto na revolução de 30, quando soube que Getúlio Vargas mandou bombardear a Usina de Cubatão. A mais marcante, porém, foi a revolução de 32, ao assistir a morte de quatro estudantes na Praça da República.

Foi aí que contagiado pelo clima de patriotismo vivido em São Paulo, pensou em se alistar na luta. Com alguns amigos foi até a Faculdade de Direito do largo de São Francisco, onde funcionava um posto de voluntários. Mas, na hora, lembrou do pai já morto e da mãe precisando dele, e desistiu. Em vez disso, largou a escola e começou a procurar emprego, o que não era fácil. Acabou chegando na Light. Iniciou como mensageiro em agosto de 1932 — o prédio da empresa da Rua Xavier de Toledo, no centro paulistano, ainda cheirava a novo.

– Naquele tempo eu era muito inquieto e participava de tudo. Imagine que até ajudei a fundar o nosso sindicato. Lá, o meu número de inscrição era 210.

Conheceu sua mulher, Tereza, num baile carnavalesco.

– Os carnavais daquele tempo eram muito diferentes dos de hoje. Os casais dançavam fantasiados, faziam cordões… Todos levavam confete e serpentina para o salão.

Casou-se em abril de 1940, na igreja da Boa Morte, na Rua do Carmo.

– Foi tudo muito simples e, depois da cerimônia, fomos em lua-de-mel para Santos. O ônibus era movido a gasogênio. Era tempo de guerra, havia racionamento de combustível, e os veículos eram movidos a carvão. Todos possuíam um grande cilindro preto, colocado verticalmente na traseira, onde o carvão era queimado para produzir o gás que acionava os motores. Era muito sujo e queimava as pessoas.

Frequentava os bailes patrocinados pela Associação Atlética Light and Power (A. A. L. P.) no Clube Germânia, na 24 de Maio; no Clube Lira, na Rua São Joaquim; e nas estações de bondes da Vila Mariana. Também ia à sede da entidade no Sacomã, onde aos domingos sempre havia piqueniques.

– Um trem especial era contratado para nos levar a Santos. Descíamos a serra cantando e brincando. Quando chegávamos, bondes especiais nos esperavam para nos conduzir até a praia. A banda ia junto, tocando. Depois do banho de mar vinha o almoço e, num salão alugado pelas redondezas, promovia-se um baile. A volta era lá pelas cinco da tarde. Isso só acontecia aos domingos, pois nos sábados trabalhávamos até o meio-dia: era a semana inglesa.

Aposentou-se em 1983, depois de 51 anos de trabalho.

– Ainda me sentia muito bem. Pena que nesse período eu fui perdendo colegas. Sabe que me lembro de todos? Estou ligado a eles por um hábito que venho mantendo: quando saio de casa para um passeio a pé, vou me recordando de cada um deles e vou rezando. Lembro de um e rezo para ele. Lembro de outro e rezo. Faço sempre isso. É o meu modo de sentir saudade.

***

Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Memórias de um futuro recente

14.07.21_Izaías Almada_Memórias de um futuro recente[O dramatúrgo rússo Anton P. Tchekhov e o escritor argentino Julio Florencio Cortázar]

Por Izaías Almada.

Racionalizar um espetáculo teatral sustentado pela emoção não é tarefa das mais fáceis, não é verdade? Mas não custa tentar…

Comecemos pelo jogo do faz de conta.

O que pensaria um camponês medieval europeu diante de um computador? Ou um pintor renascentista diante de uma ilha de pós-produção digital na realização de efeitos especiais para os filmes de Hollywood? Perguntas sem propósito?

Vamos, então, inverter o raciocínio: que memórias guardamos nós, já no limiar do século XXI dos mistérios medievais ou das barricadas populares na tomada da Bastilha em Paris, por exemplo?

Em ambas as simulações acima descritas, creio que não seria exagero dizer que nos comportaríamos ou nos situaríamos exatamente dentro daquele período das nossas primeiras semanas de vida, onde a realidade e a fantasia se misturam e os nossos sentimentos ainda não têm presente, nem passado e nem futuro. Em outras palavras, ao nascermos, a memória ainda é um grande vazio diante do novo e desconhecido mundo.

Mesmo considerando as várias teorias no campo das biociências ou ainda os estudos das teorias psicanalíticas, antropológicas ou mesmo filosóficas, não temos memória da nossa entrada nesse mundo. Do nosso nascimento e dos primeiros dias de vida. E nem uma previsão de quando o deixaremos.

Ao enfrentarmos a realidade do nosso cotidiano com o passar dos anos, ficamos entre os sonhos e as memórias. Entre os desejos e as lembranças. Entre o que somos agora, o que fomos antes e aquilo que ainda poderemos vir a ser.

O homem contemporâneo debate-se com o caos de um mundo que ganha em conquistas científicas e tecnológicas e perde em capacidade de amar e de ser solidário. Quanto mais avançamos em tecnologias e inventos para ampliar e aumentar a comunicação, parece que mais nos distanciamos uns dos outros, isolando-nos em nossas casas, ruas e escritórios diante de sofisticados aparelhos de comunicação.

Acrescentemos agora a esse jogo do faz de conta uma pitada de nostalgia e poesia.

O que pode haver de semelhante entre um casarão argentino dos anos 30 do século XX e um casarão russo do final do século XIX, além do fato de abrigarem famílias, pais, avós, irmãos e irmãs, amigos, todos cheios de desejos e esperanças de uma vida saudável e feliz e as memórias, por vezes amargas e cruéis, de não terem conseguido realizá-las?

Muitas das questões aqui mencionadas são, no meu entender, o fio condutor de uma viagem de introspecção e – mais do que isso – de um mergulho nostálgico e sedutor no mundo de Não vejo Moscou da janela do meu quarto, performance teatral produzida pelo Núcleo Corpo Rastreado em uma das salas da SP Escola de Teatro.

O espetáculo junta um conto de Julio Cortázar (Casa tomada) e uma peça clássica de Anton Tchekhov (As três irmãs). Escritas em épocas e cenários distintos, parte do realismo fantástico do escritor argentino se integra ao, chamemos assim, realismo impressionista do escritor russo levando o espectador a uma viagem para dentro de si mesmo. Uma viagem cruel e ao mesmo tempo poética que fala do isolamento do ser humano e que constrói uma metáfora atualíssima para os dias que vivemos no Brasil e no mundo.

Em suas memórias, Irina, Macha e Andrei vão de Buenos Aires a Moscou, como poderiam estar indo da Califórnia do século XXI ao Tibete do século XIX ou de São Paulo hoje a uma Lisboa quinhentista. Não importa o percurso e sim o fato de carregarem em sua memória e em seus antigos pertences a esperança de uma nova vida. Fazem em sua caminhada aquilo que fez o primeiro homem a habitar a terra: buscam a felicidade.

E, curiosamente, à medida que se deslocam pelo espaço cênico o fazem carregando alguns símbolos ultrapassados da comunicação contemporânea: o toca discos, o rádio galena, um velho projetor de cinema, cartas e bilhetes, tudo isso a que hoje chamamos pomposamente, num outro patamar tecnológico, de multimídia.

O programa da peça nos alerta que “essas três personagens transitam entre dois níveis, entre o medo de dentro e o medo de fora, a esperança e a nostalgia”. Eu diria, com alguma ousadia, que vão além disso. Divididos entre o mundo interior e exterior que enfrentam, entre as marcas do passado e a angústia do desconhecido, os três refugiam-se naquela que talvez seja a mais cruel característica do mundo capitalista atual: o egoísmo. Egoísmo que se confronta, de maneira perversa por vezes, com a busca da felicidade.

Desse confronto brota a nossa empatia com o texto e com todo o espetáculo levando-nos ao sorriso e ao marejar dos olhos, não propriamente para a obtenção de uma catarse aristotélica, mas para perceber que passam os séculos e continuamos a procurar uma felicidade que parece cada vez mais distante.

Nesse ponto devo render tributo à interpretação das atrizes Maria Tuca Fanchin e Sol Fanganello, e do ator Leonardo Devitto, pois seguimos a caminhada dos personagens exatamente enquanto personagens e, acredito, esse é o melhor elogio que se pode fazer ao trabalho de um ator. A ambiguidade de gestos e intenções no espetáculo pertence inteiramente ao mundo dos personagens e não necessariamente ao histrionismo de quem os interpreta.

Como Andrei, dancei o tango sem saber dançá-lo, senti os ciúmes e incertezas de Irina e Macha, com os três evoquei o medo e o terror da ficção científica projetada sobre o alvo lençol da sala dos casarões.

Segundo a diretora Silvana Garcia “a proximidade entre Casa tomada de Julio Cortázar e As três irmãs de Anton Tchekhov” sempre lhe pareceu evidente. Partindo dessa premissa, Silvana construiu um espetáculo sensível, poético, sem concessões a qualquer tipo de modismo ou a dramaturgias mofadas de telenovelas, onde o aparente caos do cenário, o figurino de trajes elegantes e cores sóbrias, a iluminação que valoriza cada pormenor do que se vê e se ouve e uma emocionante trilha musical nos carregam por um mundo de fragmentado humanismo suficiente o bastante para nos colocar diante do mais antigo e talvez eterno desafio do homem: qual o sentido da vida?

14.07.21_Izaías Almada_Memórias de um futuro recente_APTJC[Da esquerda para a direita, Leonardo Devitto, Maria Tuca Fanchin e Sol Faganello em cena na peça Não vejo Moscou da janela do meu quarto, dirigida por Silvana Garcia]

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Lançamento Boitempo: Estado e política em Marx, de Emir Sader

estado e politica em marx_capa envio

A Boitempo acaba de lançar, em nova edição, Estado e política em Marx, de Emir Sader. Escrito durante a ditadura, nos densos anos 60, trata-se da primeira tese sobre Marx defendida na USP. Partindo da ampliação das democracias políticas do final do século XX, Sader enfrenta em Estado e política em Marx, um enigma que insiste em se colocar como atual ainda nos dias de hoje: “como os poderes políticos continuaram a ser monopolizados por elites econômicas e sociais, apesar da democratização?”

Leia abaixo a apresentação que Emir Sader escreveu, para a nova edição, publicada 46 anos depois da redação original do livro

Quando escolhi cursar filosofia na Universidade de São Paulo, estava impactado pelos três anos de estudos filosóficos no curso clássico noturno do Colégio Estadual e Escola Normal Brasílio Machado, situado na Vila Mariana, na capital paulista. Porém, mais especificamente pela leitura da primeira parte de A ideologia alemã, do Marx. (Naquela época, e até bem pouco tempo, só havia edições da primeira parte do livro, a que se refere a Feuerbach. A edição integral da obra foi publicada pela Boitempo Editorial em 2007.) Essa leitura me abriu o horizonte de toda a dimensão do pensamento marxista e, de certo, foi a que mais me ajudou a entender o mundo e as possibilidades de transformá‑lo revolucionariamente. Foi, por fim, a obra que consolidou minha decisão de fazer o curso de filosofia – e não os de
ciências sociais ou de psicologia.

Aquele jovem que concluiu o curso noturno de filosofia na USP completava 25 anos quando defendeu sua dissertação de mestrado. Era professor do Departamento de Filosofia da USP e militava politicamente na clandestina Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) e havia realizado a dissertação em meio a grandes mobilizações contra a ditadura – desde passeatas estudantis até as greves de Osasco e Contagem.

A releitura deste texto hoje me permite ter um sentimento de orgulho da capacidade de combinar a elaboração teórica com a militância politica e o trabalho profissional, em um tempo tão denso como aquele. Confesso, imodestamente, considerá-lo um bom texto, daí que eu me permita republicá‑lo mais uma vez, 46 anos depois, e submetê‑lo aos leitores.

São Paulo, abril de 2014

As lições da derrota

Ainda não tiramos as lições da derrota sofrida na última Copa. Vivemos até agora no Brasil uma imensa quarta-feira de cinzas. Uma quarta-feira sem fim. No silêncio das ruas, na quarta-feira 9 de julho, não se ouvia nem um carro acelerado. Só os celerados de sempre, a reação mais à direita, acompanhada pela esquerda que todo fascista deseja ter, que comemorava a derrota da seleção brasileira como se fosse uma derrota da presidenta Dilma. A estupidez é infinita, amigos.

Levantemos voo do chão mais básico: quantas Copas nós perdemos? Teria sido melhor uma derrota final no Maracanã, como em 1950? Sim, digo perder porque a nossa sorte estava selada, antes do jogo contra a Alemanha. Mas não víamos, crentes que estávamos na fé, em palavras de fé, de sentimento da fé no hexa. Mas a fé ganha só no cacófato: fe-ganha.

A parte boa da derrota é aprender com ela. Aliás, deve ser a única parte boa. As pessoas inteligentes, quando sábias, passam os olhos de volta pelo caminho que andaram. Elas crescem com a derrota. O pensamento vulgar, mesquinho, o pensamento de anúncio de televisão (supondo que ali exista pensamento) divulga a máxima de que o sucesso é a vitória. Ou a vitória é o sucesso. Mas esquecem, ou não veem, que na vida real o sucesso, a vitória, só se alcança com a derrota. E não é a derrota do adversário. É a própria derrota de quem um dia poderá ter o sucesso. Mas como? Será isso verdade? Sim, somente o exame maduro sobre o amargo poderá um dia ter a doçura. Somente o trabalho sem trégua, sem descanso, alcançará o fruto, a maçã do paraíso.

Se isso é verdade para a pessoa, é mais clara ainda no progresso e no desenvolvimento da ciência, do conhecimento humano. Reflitam: quantos fracassos tivemos antes de um acerto? Quantos alquimistas foram necessários para que um dia houvesse a Química? Quantos homens de pensamento foram torturados, queimados na fogueira da Inquisição, antes que se tornasse universal que a terra é apenas um insignificante planeta entre as galáxias e estrelas? Quantas vezes Thomas Edison fracassou antes da invenção da lâmpada? Quantos cadáveres, ruínas houve antes da Teoria da Evolução das Espécies e da Teoria da Relatividade? Quanta inumanidade, quanta exploração, inconsciência houve antes que se escrevesse O capital?

Então eu digo que não há crescimento individual, nem coletivo, nem humano, enfim, que se faça sem a derrota. Mas para que haja crescimento, é preciso que se reflita sobre os erros cometidos. Que se retire deles o sumo de toda amargura, que se revejam passos, que se tornem pontos de discussão para o mais impiedoso exame, e só então poderá ter começo uma vitória firme, segura, mas jamais arrogante. Porque na própria vitória há um germe de derrota, no próprio sucesso há um momento de fracasso, no passado ou no futuro.

Mas nada disso nos virá daquela entrevista do técnico Felipão, depois do desastre dos 7 a 1 contra a Alemanha. Estas foram as declarações dele nos jornais:

“Um dia após ver sua equipe passar o maior vexame da história da seleção, Luiz Felipe Scolari deu entrevista coletiva e afirmou que não tem como explicar a goleada por 7 a 1 para a Alemanha. Disse, porém, que o time nacional está no caminho certo.”

Felipão usou a entrevista para defender seu trabalho. Apontou estatísticas da sua segunda passagem pelo time (19 vitórias, 6 empates e 3 derrotas) e lembrou que foi a primeira vez que o Brasil chegou à semifinal da Copa desde 2002, quando comandou a equipe do pentacampeonato.

Felipão classificou que houve uma “pane geral” na seleção durante os seis minutos em que a Alemanha fez quatro gols seguidos.

À primeira vista, ele falou suas razões como quem monta um currículo para um emprego. Omitiu informações, ressaltou outras. Pior: justificou os erros. Se devemos supor que Felipão se encontra no pleno exercício das faculdades mentais, ele mentiu, porque não mostrou, além da retórica “a culpa foi minha”, onde foi que ele errou.

A entrevista de Felipão, depois da humilhante derrota, poderia assim ser resumida: foi uma derrota sem erros. Mas Felipão faria melhor se dissesse: perdemos porque o adversário ganhou. Não explicava, é claro, mas em lugar da burrice e arrogância, teríamos pelo menos uma frase irônica, que é sempre é um brinde à inteligência.

Felipão, que gosta tanto de livro de autoajuda, que faz um sarapatel, uma mistura de escritores diversos e momentos deslocados e prega frases nas portas dos apartamentos dos jogadores – ele não é um intelectual, está visto, ele pesca no Google o que lhe pode servir como um pescador no mar sem rumo e sem bússola – em resumo: Felipão, que gosta tanto de autoajuda, depois da derrota frente à Alemanha bem que poderia refletir nas palavras de Goethe, o clássico alemão acima da arrogância e da barbárie.

Então vejamos o que Goethe escreveu em uma obra madura, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister.

“— Não é obrigação do educador de homens preservá-los do erro, mas sim orientar o errado; e mais, a sabedoria dos mestres está em deixar que o errado sorva de taças repletas seu erro. Quem só saboreia pouco o seu erro, nele se mantém por muito tempo, e dele se alegra como se fosse uma felicidade rara. Mas quem o esgota por completo, deve reconhecê-lo como erro, se não for demente”.

Aí está, Felipão, esta luz de Goethe, que parece ter sido escrita pra você, depois dos 7 a 1 sofridos:

“A sabedoria dos mestres está em deixar que o errado beba a taças completa do seu erro. Quem só saboreia pouco o seu erro, nele se mantém por muito tempo”.

Se assim o técnico brasileiro pudesse refletir, só então poderá dizer, como Goethe, quando concluiu o Livro VII do seu romance com estas linhas luminosas:

“Chegaram ao fim teus anos de aprendizado: a Natureza te absolveu”. 

E nós, quem sabe se na próxima Copa, ou em outra, voltaremos a vencer, depois desse amargo aprendizado. Mas não agora. Por enquanto, é só uma imensa quarta-feira de cinzas.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A ocupação é a atrocidade

14.07.21_Edward Said_A ocupação é a atrocidade[Cartaz em memória de Edward W. Said sobre muro israelense erguido na Margem Oeste. Foto tirada em agosto de 2004 por Justin McIntosh]

Por Edward Said.

Em um contexto de acirramento do conflito no oriente médio, Blog da Boitempo recupera um artigo de Edward Said, escrito em agosto de 2001, pouco antes do atentado às torres gêmeas em Nova York, para o periódico Al-Ahram, n. 547. O texto integra o livro de ensaios Cultura e política, organizado por Emir Sader, e publicado poucos meses antes da morte do autor. A tradução é do historiador e colunista do Blog da Boitempo, Luiz Bernardo Pericás.

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Nos Estados Unidos, onde Israel tem sua principal base política, e de quem recebeu mais de 92 bilhões de dólares em ajuda desde 1967, o atentado a bomba de quinta-feira num restaurante de Jerusalém e o desastre de segunda-feira em Haifa, ambos acontecimentos que tiveram um terrível custo humano, são rapidamente explicados dentro de um quadro já familiar: Arafat não fez o suficiente para controlar seus terroristas; extremistas suicidas islâmicos estão em toda a parte, fazendo mal a “nós” e aos nossos principais aliados, impulsionados por puro ódio; Israel, portanto, deve defender sua segurança.

Um indivíduo ponderado poderá acrescentar: essas pessoas têm lutado incansavelmente por milhares de anos, de qualquer forma; a violência deve parar; os dois lados têm sofrido demais, embora a maneira como os palestinos mandam seus filhos para a batalha seja outro sinal do quanto Israel tem tido de aguentar. E então, exasperado, mas ainda assim moderado, Israel invade Jenin, cidade sem fortificações nem defesas, com tratores e tanques, destruindo vários edifícios, entre os quais os da polícia da Autoridade Palestina. Depois manda seus propagandistas dizerem que era uma mensagem para Arafat controlar seus terroristas. Enquanto isso, Arafat e seu círculo estão suplicando pela proteção norte-americana, sem dúvida se esquecendo de que Israel é o aliado que goza da maior proteção dos Estados Unidos e que tudo que vai conseguir, pela enésima vez, é apenas uma ordem para parar a violência.

O fato é que Israel praticamente já ganhou a guerra de propaganda nos Estados Unidos, país onde está para colocar vários milhões de dólares numa campanha de relações públicas (usando astros como Zubin Mehta, Yitzhak Pearlman e Amos Oz) para melhorar ainda mais sua imagem. Mas consideremos o que Israel conseguiu com sua guerra implacável contra o indefeso, basicamente desarmado e mal conduzido povo palestino. A disparidade de poder é tão grande que dá vontade de chorar. Equipados com o poder aéreo mais moderno, não só produzido como presenteado gratuitamente pelos Estados Unidos, os israelenses possuem helicópteros com canhoneiras, mísseis, incontáveis tanques e uma marinha excelente, assim como um serviço de inteligência extremamente eficiente. Ou seja, Israel é uma potência nuclear abusando de um povo sem tanques, artilharia, força aérea (sua única e patética pista de decolagem em Gaza é controlada por Israel), marinha ou exército: nenhuma das instituições de um Estado moderno.

A contínua e estarrecedora história dos trinta e quatro anos [hoje, 46 anos] de ocupação militar de terra palestina ilegalmente conquistada (a segunda mais longa da história moderna) tem se apagado da memória pública quase em toda a parte, assim como a destruição da sociedade palestina em 1948 e a expulsão de 68% da população local, da qual 4,5 milhões de pessoas continuam vivendo como refugiados nos dias de hoje. Por trás das resmas de propaganda, as características evidentes da pressão diária de Israel, por várias décadas, sobre um povo que tem como maior pecado por acaso estar vivendo lá, no meio de seu caminho, são chocantemente perceptíveis em seu sadismo desumano. O confinamento fantasticamente cruel de 1,3 milhão de pessoas, apertadas como sardinhas humanas na Faixa de Gaza, além dos quase 2 milhões de residentes palestinos da Cisjordânia, não tem paralelos nos anais do apartheid ou do colonialismo. Caças F-16 nunca foram usados para bombardear lares sul-africanos. Mas são usados contra as cidades e vilarejos palestinos.

Todas as entradas e saídas são controladas por Israel (Gaza está completamente cercada por uma cerca de arame farpado), que também detém todo o fornecimento de água. Dividida em aproximadamente sessenta e três cantões não contíguos, completamente cercada e sitiada por tropas israelenses, pontuada por cento e quarenta assentamentos (muitos deles construídos durante o governo Barak), com uma rede de estradas própria, de acesso proibido aos “não judeus”, como são chamados os árabes, juntamente com outros epítetos depreciativos, como ladrões, cobras, baratas e gafanhotos, os palestinos sob ocupação, agora, foram reduzidos a 60% de desemprego e uma taxa de pobreza de 50% (metade das pessoas de Gaza e da Cisjordânia vive com menos de dois dólares por dia); eles não podem viajar de um lugar para outro; são obrigados a esperar em longas filas em postos de controle israelenses, que detêm e humilham os idosos, os doentes, os estudantes e os religiosos por horas a fio; cento e cinquenta mil de suas oliveiras e árvores cítricas foram arrancadas como punição; duas mil de suas casas, demolidas; muitos hectares de suas terras foram destruídos ou expropriados para servirem de assentamentos militares.

Desde que a Intifada da Al-Aqsa começou, no final do último setembro [de 2000], 609 palestinos foram assassinados (quatro vezes mais que as mortes de israelenses) e 15 mil feridos (doze vezes mais que do outro lado). Os assassinatos regulares realizados pelo exército israelense foram de supostos terroristas escolhidos indiscriminadamente. Na maior parte das vezes, mataram civis inocentes como moscas. Na última semana [agosto de 2001], 14 palestinos foram assassinados pelas forças israelenses que usavam mísseis e canhoneiras de helicópteros; os palestinos assassinados, portanto, foram “impedidos” de matar israelenses no futuro, apesar de, nessa ocasião, pelo menos duas crianças e cinco inocentes também terem perdido a vida, para não dizer nada sobre outros tantos civis feridos e diversos edifícios destruídos – parte do efeito colateral, de alguma forma aceitável para os israelenses. Sem nome nem rosto, as vítimas palestinas diárias de Israel raramente são mencionadas nos noticiários americanos, apesar de – por razões que eu simplesmente não consigo entender – Arafat ainda estar esperando que os americanos resgatem a si e ao seu regime em desintegração.

E isso não é tudo. O plano de Israel não é apenas manter a terra e povoá-la com colonos armados assassinos que, protegidos pelo exército, levam a destruição aos pomares, às crianças em idade escolar e aos lares palestinos; o projeto israelense é, como afirmou a pesquisadora americana Sara Roy, fazer regredir a sociedade palestina, tornar a vida impossível para a população local, com o objetivo de obrigar os palestinos a sair, a desistir de sua terra de alguma forma ou a fazer algo insano, como explodir a si mesmos.

Desde 1967, líderes foram presos e deportados pelo regime de ocupação de Israel, pequenos negócios e fazendas tornaram-se inviáveis, ao serem confiscadas e simplesmente destruídas, estudantes foram impedidos de estudar, universidades foram fechadas (em meados dos anos 1980, as universidades palestinas na Cisjordânia foram fechadas por quatro anos). Nenhum agricultor ou empresário palestino pode exportar diretamente a um país árabe; seus produtos devem passar por Israel.

Impostos também são pagos ao Estado israelense. Depois que o processo de paz de Oslo começou, em 1993, a ocupação foi simplesmente remodelada: apenas 18% da terra foi entregue à Autoridade Palestina liderada por Arafat, uma organização corrupta e similar ao governo Vichy, já que sua função parece ter sido somente a de policiar e cobrar impostos de seu povo para o agrado de Israel. Após oito infrutíferos e miseráveis anos desde as negociações de Oslo, arquitetadas por uma equipe americana de antigos lobistas israelenses, como Martin Indyk e Dennis Ross, Israel continua a controlar as terras, a ocupação apresentada mais eficientemente e a frase “processo de paz” criou uma aura de consagração que permite mais abusos, mais assentamentos, mais prisões e mais sofrimento palestino que antes. Incluindo um leste de Jerusalém “judaizado”, com a Orient House ocupada e seu conteúdo saqueado (como havia feito com os arquivos da OLP em Beirute, em 1982, Israel roubou os registros, títulos de terra, mapas valiosos do local), o governo israelense implantou não menos de 400 mil colonos em solo palestino. Chamá-los de espreitadores e bandidos não é um exagero.

Vale a pena lembrar que duas semanas após a visita desnecessariamente arrogante de Sharon a Haram Al-Sharif, em Jerusalém, em 28 de setembro, acompanhado de mil soldados e seguranças fornecidos pelo primeiro-ministro Barak, Israel foi condenado unanimemente por essa ação pelo Conselho de Segurança da ONU. Depois, como até mesmo uma criança poderia ter previsto, a rebelião anticolonial irrompeu, tendo como suas primeiras vítimas oito palestinos assassinados. Sharon foi levado ao poder essencialmente para “subjugar” os palestinos, dar-lhes uma lição, livrar-se deles. Seu histórico como matador de árabes data de trinta anos, antes dos massacres de Sabra e Shatila, supervisionados por suas forças em 1982 e pelos quais foi indiciado numa corte belga. Ainda assim, Arafat quer negociar com ele e chegar, talvez, a um arranjo cômodo para salvaguardar a própria Autoridade sob seu comando, que Sharon sistematicamente está desmantelando, destruindo, arrasando.

Mas ele tampouco é um bobo. A cada ato de resistência palestina, suas forças aumentavam a pressão um pouco mais, apertando cada vez mais o cerco; tomando mais terra; tornando um hábito incursões mais profundas e em maior número, em cidades palestinas como Jenin e Ramallah; cortando mais suprimentos; abertamente assassinando líderes palestinos; tornando a vida mais intolerável; redefinindo os termos das ações do seu governo, que certa vez fez “concessões generosas” enquanto “defendia” a si mesmo; que “previne” o terrorismo; que dá “segurança” a certas áreas; que “restabelece” o controle; e assim por diante. Ao mesmo tempo, ele e seus lacaios atacam e desumanizam Arafat, chegando a ponto de dizer que ele é um “arquiterrorista” (apesar de ele literalmente não poder se mover sem a permissão de Israel), e que “nós” não estamos em nenhuma guerra contra o povo palestino. Que dádiva para aquele povo! Com tal “comedimento”, por que uma invasão maciça, cuidadosamente divulgada para aterrorizar os palestinos ainda mais sadicamente, seria necessária? Israel sabe que pode retomar seus edifícios à vontade (como mostram o roubo em grande escala da Orient House de Jerusalém, assim como o de mais nove outros edifícios, escritórios, bibliotecas e arquivos, lá e em Abu Dis), da mesma maneira pela qual quase já eliminou os palestinos como povo.

Essa é a verdadeira história da pretensa “vitimização” de Israel, construída há vários meses com cuidado premeditado e má intenção. A linguagem foi separada da realidade. Não tenham pena dos inaptos governos árabes que não podem e não farão nada para deter Israel: tenham pena do povo que carrega as feridas na pele e no corpo descarnado de seus filhos, alguns dos quais acreditam no martírio como a única saída. E Israel, presa numa campanha sem futuro, agredindo a torto e a direito, sem piedade? Como disse, em 1925, James Cousins, o poeta e crítico irlandês, o colonizador está nas garras de “preocupações falsas e egoístas, que impedem que dê atenção à evolução natural de seu próprio gênio nacional, e o desvia do caminho de aberta retidão para tortuosos atalhos do pensamento, discurso e ação desonestos, na defesa artificial de uma falsa posição”. Todos os colonizadores seguiram esse caminho, sem nada aprender e sem nada que os detenha. No final, quando os israelenses deram as costas a vinte e dois anos de ocupação do Líbano, saíram de seu território, deixando para trás um povo exausto e mutilado. Se o objetivo era atender às aspirações dos judeus, por que exigiu tantas vítimas de outro povo que não tinha absolutamente nada a ver com a perseguição e o exílio judeu?

Com Arafat e companhia no comando, não há esperança. O que faz esse homem, grotescamente se refugiando no Vaticano, em Lagos e em outros lugares distintos, pleiteando, sem dignidade nem inteligência, por observadores imaginários, por ajuda árabe, por apoio internacional, em vez de ficar com seu povo, tentando ajudá-lo com suprimentos médicos, medidas para levantar seu moral e agindo como uma verdadeira liderança? O que precisamos é de uma liderança unificada, com pessoas que estejam na região, que estejam de fato resistindo, que estejam realmente com o povo e que façam parte do povo e não de burocratas gordos, que fumam charutos, que querem seus acordos de negócios preservados, que seus passes VIP sejam renovados e que perderam todo traço de decência ou credibilidade. Uma liderança unificada que tome posição e planeje ações destinadas não a promover um retorno a Oslo (pode-se imaginar a loucura dessa ideia?), mas a ir em frente com a resistência e a libertação, em vez de confundir as pessoas com conversas sobre negociações e o estúpido Plano Mitchell.

Arafat está acabado: por que não admitimos que ele não pode nem liderar, nem planejar, nem fazer nada que faça diferença, exceto para ele próprio e seus amigos de Oslo, que se beneficiaram materialmente da miséria de seu povo? Todas as pesquisas mostram que sua presença impede que qualquer avanço se torne possível. Precisamos de uma liderança unificada para tomar decisões e não simplesmente para se humilhar diante do papa e do estúpido George W. Bush, mesmo que os israelenses estejam matando nosso heroico povo impunemente.

Um líder deve liderar a resistência, refletir as realidades na área, responder às necessidades de seu povo, planejar, pensar, se expor aos mesmos perigos e dificuldades que todos vivenciam. Lutar pela libertação da ocupação israelense é a posição de todo palestino que tem algum valor: Oslo não pode ser reconstituído ou reelaborado, como Arafat e companhia poderiam querer. O tempo acabou para eles, e o quanto antes fizerem as malas e se forem, melhor será para todos.

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Amanhã, dia 22 de julho a Reitoria da Unifesp e o ICArabe, inauguram, no dia 22 de julho, a Cátedra Edward Said de Estudos Pós-Coloniais. A cerimônia ocorrerá no anfiteatro da Reitoria da Unifesp, e contará com a presença da viúva do pensador, Mariam Said. Confira a programação completa do evento aqui.

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Para aprofundar a reflexão sobre opressão, emancipação, marxismo e judaismo, recomendamos também a aula da historiadora e diretora do Centro de Estudos Árabes Arlene Clemesha, autora de Marxismo e judaismo e tradutora de Edward Said, em torno do livro Sobre a questão judaica de Karl Marx:

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Edward Wadie Said, nascido em Jerusalém em 1935, foi um dos principais intelectuais palestinos de nosso tempo. Exilado em Nova York, foi professor de literatura comparada na Universidade de Colúmbia e crítico musical da revista The Nation. Faleceu em 24 de setembro de 2003. Pela Boitempo, publicou Freud e os não-europeusCultura e política.

A Copa e a desnacionalização do futebol brasileiro

14.07.18_Carlos Eduardo Martins_A desnacionalização do futebol brasileiroPor Carlos Eduardo Martins.

A Copa do Mundo de 2014 no Brasil chegou ao final e, como grande evento de massas, traz várias questões para a reflexão do pensamento social e a ação comprometida com a democracia, soberania e a cultura popular.

1. O “Não vai ter Copa” foi um erro de parte das esquerdas

O futebol, como expressão do lazer, é item importante da cultura popular brasileira e tentar desprezá-lo como uma atividade menor diante das mazelas históricas que permanecem no Brasil (saúde, educação, saneamento, dependência e subdesenvolvimento em setores chaves da economia brasileira) é um erro estratégico de orientação política, que levou ao isolamento da direção dos movimentos sociais das grandes massas populares. Não foi o “Não vai ter Copa” a razão dos movimentos de junho de 2013 e sim um conjunto de desigualdades econômicas, políticas, sociais e culturais que dela independem e permanecem no Brasil gerando profundas assimetrias e frustrações. Tentar extrapolar uma palavra de ordem que surgiu durante a radicalização dos protestos, fora deste contexto, gerou uma desconexão entre a sensibilidade popular e a direção dos movimentos sociais.

O correto seria defender uma Copa sustentável, soberana e democrática questionando a exclusão das massas dos estádios, as remoções de populações pobres, as violações de direitos humanos, a ingerência imperialista da Fifa sobre o Estado brasileiro (retirando-nos parte da soberania sobre a organização do evento), e o comprometimento de recursos públicos em favor de lucros privados.

2. O futebol deve ser tratado como patrimônio imaterial da cultura brasileira

O futebol brasileiro é um evento cultural de massas nacional e mundial destacando o país em competições internacionais, auferindo 5 copas do mundo, sendo delas 11 vezes semifinalista, e 4 Copas das Confederações. Todavia está sendo fortemente ameaçado pela ofensiva neoliberal sobre este esporte no Brasil por meio: da destruição dos clubes como centros de formação e criação de um mercado mundial oligopólico de circulação de jogadores, articulado pelo capital financeiro internacional; do aprofundamento do caráter autocrático das instituições desportivas brasileiras e sua vinculação aos principais atores deste mercado; e da adoção neocolonial de paradigmas eurocêntricos.

O fim do passe, as precárias compensações estabelecidas pela Fifa e as pressões competitivas do mercado internacional elevaram os custos e colocaram os clubes em situação de brutal endividamento. A desregulamentação abriu o espaço para ampla atuação de empresários e de fundos de investimento no setor levando à criação de clubes fictícios voltados para a valorização de jogadores com o objetivo de destiná-los a transferências internacionais. Estes clubes fictícios controlados por grandes fundos de investimento capturam os direitos de formação das novas gerações transferindo-as ao exterior ou contratam jogadores emprestando-os aos grandes clubes nacionais para valorização e venda ao exterior, apropriando-se de somas fantásticas através de multas rescisórias. A indenização pela formação do atleta incide sobre cada transferência que se realize em sua carreira, podendo acompanha-la até o final.

Estabelecem-se engrenagens subterrâneas envolvendo os grandes dirigentes esportivos e o capital financeiro internacional. A seleção brasileira torna-se vitrine e instrumento para valorização de ativos empresariais, leia-se por isto, jogadores controlados por fundos que pagam comissões a altos dirigentes esportivos ou dos quais estes são sócios. Usam-se bens públicos, o nome do Brasil e o futebol que o representa, para impulsionar lucros privados extraordinários em detrimento das condições de produção que permitem a preservação e desenvolvimento da qualidade do futebol brasileiro. Todo este espetáculo não se faz sem o manejo de vultuosas somas do Estado brasileiro através de isenções fiscais, patrocínios, renegociação de dívidas, créditos bancários, destinação de verbas de loterias, sem o que não se viabilizaria a infraestrutura mínima para o funcionamento do espaço desportivo nacional.

Entrevistado sobre o êxito do futebol alemão, Franz Beckenbauer afirmou que copiou-se o exemplo francês da Copa de 1998, criando-se escolas de futebol nos clubes dedicadas à formação de jogadores. A geração alemã campeã mundial em 2014 foi formada nestas condições. Nosso futebol está tomando o caminho contrário. Desnacionalizando-se, destruindo seus centros históricos e comunitários de formação para impor os interesses do grande capital financeiro internacional e seus sócios locais. Trata-se de um amplo processo de mercantilização que gera desvios de função e corrupção na estrutura administrativa dos clubes nacionais em diversos níveis.

Tal esquema articula-se na cúpula com o poder autocrático e corrupto representado pela CBF. A gestão de Ricardo Teixeira, ex-genro de João Havelange, foi interrompida abruptamente em meio a denúncias pela justiça suíça, que investigava a quebra da empresa de marketing ISL, de que ambos teriam recebido R$ 40 milhões em subornos. Todavia as mudanças foram aparentes e o seu vice, Jose Maria Marin, que vinculou-se no passado à ala radical da ditadura civil-militar iniciada em 1964, assumiu seu lugar em 2012, elegendo antes da copa do Mundo de 2014, o novo Presidente da CBF a tomar posse apenas em abril de 2015, em estratégia articulada ainda por Teixeira. O escolhido em chapa única é Marco Polo del Nero, alvo da Policia Federal, na Operação Durkheim, por suspeita de envolvimento em quadrilhas dedicadas à quebra ilegal de sigilos bancários, fiscais e telefônicos para chantagear políticos, desembargadores e juízes, e também à evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Torna-se urgente estabelecer uma regulação pública sobre o futebol brasileiro e suas principais instâncias administrativas integrantes do sistema nacional de desportos. A reforma da Lei Pelé que qualificou as verbas das loterias como de origem pública, a MP 620 – já aprovada no Senado e em vias de ser sancionada pela Presidenta Dilma – que cria exigências de democratização, transparência e eficiência da gestão para o recebimento de recursos estatais são passos importantes que devem articular-se com a CPI da CBF para restabelecer os níveis mínimos de controle nacional e público sobre o futebol brasileiro.

3. Torna-se necessário romper com o paradigma eurocêntrico e neoliberal

A autocracia gerencial e a configuração da seleção brasileira numa expressão de ativos do capital financeiro e interesses particulares se manifestam na adoção de um paradigma eurocêntrico de futebol, na ruptura da relação com o critério de desempenho para participação na comissão técnica ou no elenco de convocados, e na ampla desqualificação do campeonato brasileiro de futebol.

Desde a chegada de Ricardo Teixeira a CBF inaugura-se a era Dunga e substitui-se o futebol ofensivo e técnico por outro que prioriza a marcação e o estilo europeu. Neste sentido, são contratados treinadores que representam este novo enfoque: Lazaroni, Parreira, Zagallo, Dunga e Felipão representam uma monótona repetição de personagens que dominaram a comissão técnicas nos últimos 24 anos, alguns cuja ascensão remonta ao período ditatorial, nos anos 1970 (Zagallo e Parreira).

A indicação de Felipão e Parreira para a campanha de 2014 não teve qualquer relação com o desempenho esportivo recente de ambos. Felipão foi o responsável pelo rebaixamento do Palmeiras em 2012 e, desde 2002, seu único título havia sido o campeonato Uzbeque de 2009 até assumir a seleção brasileira. Parreira havia fracassado na Copa de 2010 com a desclassificação da seleção anfitriã já na primeira fase, situação inédita nas Copas do Mundo.

A relação de convocados para a Copa de 2014 foi fechada na Copa das Confederações de 2013, impulsionando o marketing e a valorização de determinados jogadores, quase na sua totalidade transacionados no mercado mundial. Desconsiderou as mudanças físicas e técnicas individuais dos últimos 12 meses e o campeonato brasileiro de 2013 e 14, ignorando-se o desempenho das principais equipes e seus jogadores. O Cruzeiro, campeão brasileiro com ampla vantagem, não teve nenhum jogador convocado ou testado. Dos 3 convocados que atuam no Brasil, Fred e Jô, centroavantes chamados por Felipão, tiveram desempenho pífio no campeonato brasileiro 2013, fazendo 3 e 6 gols, respectivamente. Jogadores que se destacaram como Ricardo Goulart, Everton Ribeiro, Dedé, Ganso, Hernani e Vitinho jamais foram testados e veteranos como Ronaldinho Gaúcho, sem perspectivas, pela idade, de valorização no mercado mundial, excluídos. Optou-se por uma seleção de jogadores bastante jovens e inexperientes, transacionados no mercado mundial, muitos dos quais reservas em seus clubes de atuação, apostando-se, como numa bolsa de valores, no forte potencial de valorização de alguns de seus ativos. Mas há fortes riscos em toda aposta que busca lucros extraordinários num mercado altamente competitivo, onde o Estado não pode intervir para neutralizar seus resultados.

Que o resultado chocante da Copa de 2014 contribua para impulsionar as reformas institucionais urgentes que o futebol brasileiro necessita para retomar seu vigor. Isto implica na democratização, fortalecimento e desenvolvimento da eficiência gerencial dos clubes para retomar as condições de produção da escola brasileira de futebol. Isso não será possível sem o controle público e democrático sobre a CBF. Avançar nestas tarefas são desafios que o Estado brasileiro tem no campo desportivo nos próximos anos.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Bernardo Buarque de Hollanda, Pier Paolo Pasolini, Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Eduardo Tomazine,  Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Lançamento Boitempo: Altíssima pobreza, de Giorgio Agamben

Altíssima pobreza_capa final

A Boitempo acaba de lançar Altíssima pobreza: regras monásticas e forma de vida, de Giorgio Agamben. Neste novo título do ambicioso projeto Homo Sacer, o filósofo italiano mergulha numa pesquisa rigorosa das regras monásticas, e reconstrói a genealogia  de uma forma-de-vida, “uma vida que se vincule tão estreitamente a sua forma a ponto de ser inseparável dela”. Pensar a vida como aquilo de que nunca se dá propriedade, mas apenas um uso comum, é, para o filósofo, o legado mais precioso do franciscanismo com o qual, tantas vezes, o Ocidente voltará a confrontar-se como se fosse sua tarefa indeferível.

Leia abaixo a orelha do livro, assinada por Edson Teles

Seria possível imaginar um modo de vida em que o agir coincidisse com o ser? Como conceber uma vida não determinada pelo direito e pelas leis? Qual o limiar entre a vida e a regra?

Aprofundando reflexões sobre o contemporâneo já iniciadas nas outras obras de Homo sacer, Giorgio Agamben se lança em uma pesquisa sobre as regras monásticas, nas quais se encontra uma série de regulações da vida, do comportamento, dos hábitos cotidianos que vão desde a marcação do tempo – dividido entre noite, dia, hora de cuidar do ser, do trabalho – até as relações hierárquicas e de obediência e comando, passando pelas incidências de danos às quebras de procedimento.

As “formas de vida” nascem de um ideal monástico, centrado na fuga do indivíduo para uma vida solitária e de entrega espiritual, e parecem dar origem a um modo de vida em comunidade.

Distinto do modelo contemporâneo, no qual se adéqua o cotidiano à lei e às regras, o dispositivo monástico não aplica a norma à vida, mas busca construir uma formulação em que se vive de acordo com a norma. Com os franciscanos elabora-se uma vivência em comum pela indiferenciação entre vida e regra. Uma forma de vida que não é conselho, nem moral, nem ciência, nem lei, mas funciona como o cânone de uma comunidade do bom uso da vida.

“Altíssima pobreza” é menos uma prática ascética de perfeição do que a possibilidade de uma vida fora do direito e da propriedade, como se ela a ninguém pertencesse e pudéssemos apenas dela fazer um uso comum. A vida franciscana não se situa no plano da doutrina ou da lei, mas na experiência de um modo de vida e de relação com o mundo.

Agamben propõe uma rigorosa genealogia das formas monásticas, relacionando-as às liturgias, à vida comum, às instituições de poder, para construir um duplo caminho: através de um profundo mergulho na figura histórica do pensamento religioso, o autor nos remete diretamente aos dilemas do contemporâneo.

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Adverte-se aos curiosos: esta edição de Altíssima pobreza foi publicada 50 anos depois do lançamento de O evangelho segundo são Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini. No filme, o jovem Giorgio Agamben (22 anos), então estudante de Direito, trabalha como ator no papel do apóstolo Felipe. Confira:

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Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.