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Não deve haver limites para o homem…

15 02 26 Izaías Almada Limites[Paulo Roberto Costa, novo herói brasileiro, e Eddie Redmayne no papel de Stephen Hawking em fotograma de A teoria de tudo]

Por Izaías Almada.

Tenho absoluta convicção de que os leitores, em algum momento de suas vidas, se confrontaram com a estranha sensação de se sentirem perdidos, psicologicamente desequilibrados mesmo, ao compararem fatos comezinhos completamente díspares ou mesmo paradoxais, quer da sua vida particular, da vida coletiva à sua volta ou mesmo entre tempos e épocas diferentes, consoante o conhecimento que se tem da História. Uma sensação de pesadelo ao vivo. Ou, se me faço entender, uma espécie de bipolaridade na velocidade da luz. Esperança e desilusão em segundos. Euforia e desanimo instantâneos.

E neste particular, a arte – em suas diversas manifestações – tem uma função importante e por vezes pedagógica quando nos aponta tais situações e nos faz refletir sobre elas. Como, por exemplo, descobrirmos que no mesmo instante em que uma jovem mãe dá à luz ao seu primeiro filho na cidade do Cabo, alguém perde a vida num desastre ferroviário no interior do México. Ou enquanto um grupo de juízes condena arbitrariamente cidadãos sem provas, um poeta escreve versos exaltando a liberdade.

No caso, nada que se assemelhe ao Efeito Borboleta ou teorias do gênero.

Há alguns dias tive uma sensação dessas. Foi durante a sessão do excepcional filme que vi (e recomendo) sobre o físico Stephen Hawking, A teoria de tudo. Um filme sobre o ser humano e não sobre fórmulas matemáticas na lousa que a maioria dos mortais não entende, porque antes dos números e dos teoremas está o homem.

Sabemos que o cinema, quando se trata de apresentar a vida de alguns seres humanos excepcionais pode se tornar redutor ou parcial na apresentação dos fatos históricos que o cercam ou, num outro extremo, exagerar na dose dos bons atributos do protagonista.

Não é o caso aqui: com um roteiro seguro na apresentação da ideia central e das peripécias que acontecem ao protagonista, A teoria de tudo é um filme encantador. Realista, mas com toques românticos e mesmo melodramáticos para os mais emotivos, a história é um belo exemplo da vontade de viver, da perseverança e do respeito entre seres humanos, sobretudo com aqueles que, sem tornar o ato de amor piegas ou o dissimulado fruto de uma crença religiosa qualquer, dedicam-se àquela das nossas virtudes mais esquecidas: a solidariedade.

Stephen Hawking, ainda estudante na Universidade de Cambridge, onde fazia seu mestrado, recebeu o diagnóstico de ser portador de esclerose lateral amiotrófica, doença incurável e responsável pela paralisia progressiva dos músculos do movimento e não só, podendo levar à morte em curto espaço temporal. Hawking, a quem o diagnóstico médico deu dois anos de vida quando estava com vinte e poucos anos de idade, vive até hoje. A biografia de Hawking pode ser fartamente encontrada na internet ou em livros.

O que importa aqui é chamar a atenção para uma singularidade, ou duas, se quiserem: o livro, escrito por sua primeira mulher, Jane Hawking, com carinho, mas sem concessões aos altos e baixos de uma personalidade acostumada a orgulhar-se de sua inteligência; e a fulgurante interpretação do ator Eddie Redmayne, merecidamente ganhador do Oscar de interpretação, numa das mais brilhantes atuações que vi nos últimos anos. Não só pela progressiva e bem cuidada construção física da doença, mas – sobretudo – pelas expressões faciais, dos olhos em particular, do ligeiro tremor dos lábios, que demonstram em fração de segundos a tristeza, a alegria, a dor, o amor, esses sentimentos que um close-up pode engrandecer ou mostrar a falta de talento de atores e atrizes.

Pois bem: em algumas dessas cenas passei pela tal bipolaridade na velocidade da luz, quando me perguntava: como é possível, por exemplo, existirem seres humanos com as qualidades de Stephen Hawking ou um atrasado mental como Paulo Roberto Costa? Qual é a química que forma neurônios em busca do avanço da ciência e da felicidade do homem e aquela que induz mentecaptos a dilapidarem o patrimônio público de um país em proveito próprio? Ingenuidade do autor nos tempos que correm? Disparate?

Pior ainda: qual a razão política, cultural, psicológica, sociológica – seja ela qual for para aqui chamada – que submete um país como o Brasil contemporâneo a um tratamento de choque moralista, anticorrupção, protofascista, justamente por parte daqueles que a praticam vinte quatro horas por dia?

Ou como alguns juízes da mais alta corte de justiça do país, atropelando elementares fundamentos do direito e escondendo provas desencriminadoras, se põem a alardear, antes da sentença final, que determinado partido político promoveu a maior corrupção da história brasileira até que se desmente, um ano depois, com o surgimento de uma lista de clientes de poderoso banco internacional na Suíça que arrola mais de cinco mil brasileiros sonegadores de impostos ao enviaram qualquer coisa ao redor de sete bilhões de dólares para o exterior. Alguma dúvida que entre esses honestos e íntegros brasileiros estejam alguns donos de jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão no Brasil?

Que mundo é esse cada vez mais injusto e desigual? Qual a origem disso tudo? Onde começou? Onde irá terminar? Questões que nos afetam (ou não) de maneiras e intensidades diferentes é verdade, mas que estão nas mentes dos cientistas mais brilhantes e do mais comum dos cidadãos.

Tem razão boa parte da classe média brasileira e seus arautos da mediocridade e da subserviência: o Brasil é um país de merda, mas não necessariamente pelos problemas que apontam. É um país de merda por ter a elite que tem, é um país de merda por sua secular subserviência a culturas exógenas, por ter parte das suas universidades ainda arraigada a um colonialismo cultural, por não lutar com maior vigor para diminuir a injustiça social, por continuar a fazer da política um cabide de empregos e negócios, por ainda ter vergonha da senzala enquanto mendiga favores aos donos da Casa Grande ao norte e ao sul do Equador. Por ter uma esquerda desorientada e inerte para travar o combate político. E, sobretudo, nos dias que correm, por ter uma mídia nefasta ao país, criminosa e entreguista.

A frase que dá título a esse artigo resume um dos conceitos de Hawking sobre a ciência e penso que a história da humanidade corrobora tal pensamento. O que o professor inglês não tinha em mente é que os gigolôs das grandes conquistas do homem têm o mesmo entendimento, mas num viés diferente e totalmente oposto: não têm limites nem escrúpulos para justificar os seus atos.

E para continuarmos apenas no atual momento da conjuntura brasileira, que tal se nos fosse dado saber os nomes da já famosa lista de sonegadores do HSBC suíço? O suiçalão? Desses brasileiros acima de qualquer suspeita, de caráter ilibado? Talvez muitos cidadãos começassem a perceber como compram gato por lebre quando se emprenham pelos ouvidos ou pelos olhos com a nossa imprensa, cuja ética e o profissionalismo já não cabem nos contornos de seus próprios vasos sanitários.

A teoria de tudo: um filme, algumas reflexões e uma enorme vontade de vomitar.

E viva a democracia da delação premiada! Da justiça feita em tribunais penitenciários que acobertam juízes, delegados e políticos como uma espécie de membros de um PCC de gravatas borboletas. Dos sonegadores em pele de cordeiro! Da liberdade de imprensa em causa própria! De deboche ao cidadão brasileiro.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Ódio sem fim ao PT

15 02 25 lincoln secco odio sem fio ao ptPor Lincoln Secco e Ciro Seiji.

Manchete da Folha de São Paulo no dia 12 de fevereiro de 2015: “Doleiro Afirma que José Dirceu Sabia de Repasses de Desvios da Petrobrás ao PT”. Nenhum acusado por um criminoso sob delação premiada mereceria uma primeira página. Exceto se ele for do PT.

José Dirceu foi condenado e já cumpriu parte de sua pena. Aguarda sua liberdade plena para pedir a revisão criminal de seu julgamento e, eventualmente, apelar a tribunais internacionais. A sua condenação não teve sustentação nos autos, como juristas de diferentes posicionamentos ideológicos declararam.

Obviamente que Dirceu cometeu erros políticos que deveriam, em outras circunstâncias, ser julgados pelo seu partido. Foi ele quem escolheu o caminho de um partido social democrata de massas com alianças amplas para chegar ao poder.

O PT entrou no governo pedindo licença – não precisava. Vinha sustentado pelas ruas, com a identidade dos militantes dos sindicatos, dos movimentos populares e da esquerda. Mas introjetou a ideia de que tinha ganho a partir de uma artimanha publicitária, a Carta ao Povo Brasileiro. Tanto que ao primeiro sinal de golpe em 2005, Lula colocou o boné do MST e quer repetir a dose hoje com o MTST. Mas agora a nova geração de lutadores sociais não levará borrachada por ele.

NEOPETISMO

Os dirigentes neopetistas1 até poderiam ter rifado Dirceu e Genoíno para salvar a própria pele, mas não deveriam ter abandonado o partido às hienas míopes para que a sua rebeldia, história e prontidão fossem transformadas em moranguinhos2 e burocratas da estrutura do Estado.

Depois, o PT conseguiu a proeza de escolher os juízes que colocaram na cadeia dois de seus ex-presidentes: Dirceu e Genoíno. Eles pagaram pela ideologia do republicanismo periférico: aquele que considera neutras instituições forjadas pela classe dominante apenas para seu uso egoísta.

Mas José Dirceu também foi condenado pelo seu “sucesso” político. Arquiteto da chegada do PT ao poder e oriundo da luta armada, os de cima não o perdoariam jamais.

A causa disso é aquilo que Florestan Fernandes denominava a resistência sociopática da burguesia periférica a qualquer mudancismo social. A insistência na fabricação de escândalos como arma política e a tentação recorrente de derrubar o PT de um governo para o qual foi eleito legitimamente demonstram que nem mesmo as mudanças ordeiras produzidas pelo neopetismo foram assimiladas.

A perseguição atinge até mesmo executivos de empresas no exercício de seu “sagrado” direito de financiar todos os partidos em troca de favores públicos. Inconformados em suas celas, perguntam-se: “O que fizemos de errado?”. A resposta é uma só: juntaram-se ao PT. O objetivo da maioria do poder judiciário é secar as fontes de financiamento do partido infligindo o pânico nos doadores de campanha.

CAOS

No entanto, há um preço a se pagar. O PT foi a última chance da burguesia legitimar sua “dominação democrática”. A derrocada “ética” do PT e seu afastamento de práticas socialistas não ensejaram novas formas permanentes de luta na esquerda. Junho ainda não decantou e as derrotas populares de 2014 o comprovaram. O neopetismo, mistura de covardia republicana e repressão aos novíssimos movimentos sociais colaborou com aquelas derrotas.

O PT seguiu o caminho da água, o mais fácil, porque os neopetistas não são leões famintos, mas lobos domesticados de estômago elástico. Mesmo assim insultou com a sua mera presença na festa das figuras medíocres da política nacional, da elite sem berço que vê o Brasil como uma criança branca que volta de Miami carregada de brinquedos de plástico.

O único que eles temiam, e temiam porque já teve um revolver na mão, era Dirceu. Era preciso, portanto, reduzir a pedaços os seus nervos e a sua vontade. Mas não conseguiram porque o ódio não tem data de validade.

O destino de José Dirceu é um símbolo do futuro de seu partido. À sua direita o seu próprio governo; à sua esquerda, os reclamos de sua militância desorganizada, sem núcleos e perdida nas ruas desde junho. Dali ecoam cada vez menos discretamente os sons da insurreição.

Na encruzilhada, o PT hesita entre a debandada e outra revolta dos bagrinhos3. Só que os bagrinhos de hoje estão nas ruas, ocupações, na educação popular, nos mesmos lugares em que apanham sob o olhar cúmplice de dirigentes que se calam para proteger seus glúteos recostados em cadeiras irresistíveis.

NOTAS

1 O neopetismo não diz respeito a pessoas que adentraram recentemente no partido. O PT mais que dobrou de tamanho nos primeiros 3 anos de governo Lula, mas muitos jovens aderiram não apenas por oportunidade de carreira, e sim porque a imagem do PT continua incomodando as elites das classes dominantes. Por outro lado, muitos dirigentes neopetistas são antigos membros do partido que aderiram ao nepotismo, ao conservantismo e apoiam a repressão policial e judiciária de manifestantes.

2 Primeira leva em massa de militantes pagos pelo PT em São Paulo.

Alusão à imagem de revolta interna da base petista nos anos 1980.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, e um dos autores do livro de intervenção da Boitempo inspirado em Junho Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

“Eu sou estúpido e maldoso” | Žižek esclarece sua posição sobre o “Je suis Charlie”

Zizek esclarece hebdoPor Slavoj Žižek.

No rescaldo dos atentados de Paris, o filósofo esloveno Slavoj Žižek escreveu, no calor da hora, um artigo de intervenção no debate sobre o Charlie Hebdo. Rejeitando o diagnóstico de um impasse civilizacional entre ocidente e oriente, ele insistia que o fenômeno tinha de ser analisado a partir de um mesmo chão comum e recuperava a tese frankfurtiana de que o fascismo fundamentalista seria uma resposta – ainda que falsa e mistificadora – a uma fratura real no paradigma liberal. Republicado na Folha de S.Paulo, o texto teve uma repercussão em larga medida pautada pelo contraponto encomendado a João Pereira Coutinho e, como apontou Christian Dunker em sua intervenção no debate, por uma estigmatização da posição de esquerda que acabou por não registrar o essencial da contribuição de Žižek. 

Neste novo artigo enviado pelo autor ao Blog da Boitempo, Žižek esmiúça sua posição mais a fundo, repassando (agora não mais no calor da hora) os principais atores e elementos envolvidos no fenômeno, mapeando os mecanismos ideológicos em jogo nas suas interpretações. Para ele, os ataques terroristas conseguiram o impossível: reconciliar a geração de 1968 com seu arqui-inimigo. O filósofo enfrenta ainda a difícil questão dos limites do humor e do “politicamente incorreto”, e mostra como é justamente neste debate que aparece a zona cinzenta que funda os impasses da modernidade capitalista. Para ele não devemos condenar o humor do Charlie Hebdo por ter ido longe demais, muito pelo contrário, “o problema é que ele se encaixava perfeitamente no funcionamento cínico hegemônico da ideologia em nossas sociedades. Ele não representava ameaça alguma àqueles no poder; ele meramente tornava seu exercício do poder mais tolerável.”

Contra as acusações de estar pregando o retorno a um novo fundamentalismo no ocidente, Žižek insiste enfim que “alegar que o anti-semitismo articula, de forma deslocada, uma resistência ao capitalismo de forma alguma o justifica” e que procurar compreender o mal, de forma alguma significa relativizar ele, nem “transformar opressor em vítima”, e conclui com a triste constatação de que é preciso abandonar a ideia de que há algo de emancipatório em experiências extremas, que o terror não nos permite abrir os olhos à radical verdade da situação. A tradução é de Artur Renzo, confira:

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O OBSCENO DA IDENTIFICAÇÃO

A patética formula de identificação “Eu sou …” (ou “Somos todos …”) só funciona no interior de certos limites, para além dos quais converte-se em pura obscenidade. Podemos até proclamar “Je suis Charlie”, mas as coisas já começam a ruir com exemplos como “Somos todos de Sarajevo!” ou “Estamos todos em Gaza!”. O fato brutal de que não estamos de forma alguma em Sarajevo nem em Gaza é forte demais para ser compensado por uma patética identificação dessas. E a identificação se torna plenamente obscena no caso dos Muselmänner (o termo alemão para “muçulmanos”, usado para descrever os prisioneiros mais miseráveis e brutalizados de Auschwitz). É completamente inconcebível dizer: “Somos todos Muselmäner!” Em Auschwitz, a desumanização das vítimas foi tão longe que se identificar com elas em qualquer forma significativa é impossível. (E na direção oposta, seria também ridículo declarar solidariedade com as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 alegando que “Somos todos Nova Iorquinos!” Milhões diriam: “Sim, adoraríamos ser Nova Iorquinos, nos dê um visto norte-americano então!”)

O mesmo vale para os assassinatos do mês passado: era relativamente fácil se identificar com os jornalistas do Charlie Hebdo, mas teria sido muito mais difícil anunciar: “Somos todos Baga!” Para quem não ficou sabendo: Baga é uma pequena cidadezinha no nordeste da Nigéria onde Boko Haram executou duas mil pessoas. O nome “Boko Haram” pode ser traduzido meio ao pé da letra como “Educação ocidental é proibida” (mais especialmente educação das mulheres). Como dar conta do estranho fato da existência de um movimento sociopolítico maciço cuja principal pauta programática é a regulação hierárquica da relação entre os sexos? O enigma é o seguinte: por que é que esses muçulmanos, que estão sem dúvida expostos à exploração, dominação e outros aspectos destrutivos e humilhantes do colonialismo, miram sua reação na melhor parte (para nós, ao menos) do legado ocidental, nosso igualitarismo e nossas liberdades pessoais, incluindo a liberdade de tirar sarro de todas autoridades? A resposta óbvia é que seu alvo na verdade é muito bem escolhido: o oeste liberal é tão insuportável porque ele não só pratica a exploração e a violenta dominação, como ainda por cima apresenta essa realidade brutal à guisa de seu oposto: liberdade, igualdade e democracia.

ESPETÁCULO DE HIPOCRISIA

Mas voltemos ao espetáculo dos grande nomes políticos do mundo tudo de mãos dadas em solidariedade às vitimas das chacinas de Paris, de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas: se alguma vez houve imagem de falsidade hipócrita, foi essa. Quando a procissão passava sob a janela de um cidadão anônimo, ele colocou pra tocar num alto falante a “Ode à alegria” de Beethoven, o hino não-oficial da União Europeia, acrescentando um tom de kitsch político ao repugnante espetáculo encenado pelos maiores responsáveis pela bagunça em que estamos hoje. E o que dizer do Ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov se juntando à fila de dignitários se manifestando diante da morte de jornalistas? Se ele se atrevesse a participar de uma tal marcha em Moscou (onde dezenas de jornalistas foram assassinados) ele seria imediatamente reprimido! E que tal a obscenidade do Netanyahu se espremendo para aparecer na frente da manifestação, enquanto que em Israel a mera menção pública a al-Nakbah (a “catástrofe” de 1948 para os palestinos) é proibida? Cadê a tolerância para com a dor e o sofrimento do outro?

E o espetáculo foi literalmente encenado: as fotos expostas na mídia davam a impressão de que a linha de líderes políticos estava na frente de uma grande multidão que marchava pela avenida – dando assim a impressão de uma suposta solidariedade e união com o povo… Só que outra foto foi tirada mais de longe pegando a cena toda e mostrou claramente que atrás dos políticos só haviam cento e poucas pessoas e muito espaço vazio, patrulhado de todos os lados pela polícia. O verdadeiro gesto digno do Charlie Hebdo seria ter publicado na sua capa uma caricatura grande e de brutal mal gosto tirando sarro desse episódio todo.

Embora eu seja um ateu resoluto, acredito que essa obscenidade foi demais até para Deus, que se viu obrigado a intervir com uma obscenidade divina digna do espírito do Charlie Hebdo: enquanto o presidente François Hollande abraçava Patrick Pelloux, o médico e colunista do Charlie Hebdo, na frente do escritório do semanário, um passarinho cagou no ombro do presidente francês! Os funcionários do jornal, ao fundo, se esforçavam para segurar o riso… Relembre, nesse contexto, a imagem cristã da uma pomba pousando para entregar uma mensagem divina… além disso, em alguns países, quando um pombo caga na sua cabeça, é sinal de boa sorte!

SOMOS TODOS POLICIAIS

Há ainda um elemento dos recentes acontecimentos na França que parece ter passado desapercebido: além dos cartazes e das faixas dizendo “Je suis Charlie” haviam outras que diziam “Je suis Flic” [Eu sou policial]. A grande unidade nacional celebrada e encenada em grandes mobilizações populares não era apenas a unidade das pessoas, atravessando grupos étnicos, classes sociais e religiões, mas também a unificação das pessoas às forças de controle e ordem.

Até então, a França era o único país no ocidente em que (até onde sei) os policiais eram um constante foco de piadas brutais os retratando como burros e corruptos (como era comum nos países ex-comunistas). Agora, no rescaldo da chacina do Charlie Hebdo, a polícia é aplaudida e elogiada – não só a polícia mas também o CRS (um dos slogans de maio de 1968 era inclusive “CRS-SS”), o serviço secreto e todo o aparato securitário estatal. Não há lugar para Snowden ou Manning nesse novo universo. “Ressentimento contra a polícia não é mais o que era, exceto entre a juventude pobre de origens árabes ou africanas”, escreveu Jacques-Alain Miller no mês passado. “Algo sem dúvida jamais visto na história da França”.1

Em resumo, os ataques terroristas conseguiram o impossível: reconciliar a geração de 1968 com seu arqui-inimigo em algo como uma versão popular francesa do Patriot Act, com pessoas se voluntariando para serem vigiadas.

A CONTRADIÇÃO IMANENTE DO POLITICAMENTE CORRETO

Esses momentos extáticos das manifestações de Paris foram um triunfo da ideologia: eles mobilizaram as pessoas contra um inimigo cuja fascinante presença momentaneamente oblitera todos os antagonismos. Ao publico restou uma escolha deprimente: ou você está com os Flics [policiais], ou está com os terroristas. Mas como é que o humor irreverente do Charlie Hebdo se encaixa aqui nesta escolha? Para responder a esta questão temos que ter em mente a interconexão entre o Decálogo e os direitos humanos como seu obverso moderno: que o que a experiência de nossa sociedade liberal-permissiva demonstra é que os direitos humanos são no final das contas os direitos de violar os dez mandamentos.2

O direito à privacidade é um direito a cometer adultério. O direito à propriedade privada é um direito de roubar (de explorar os outros). O direito de liberdade de expressão é um direito de dar falso testemunho. O direito de portar armas é um direito de matar. O direito à liberdade de culto religioso é um direito de adorar falsos deuses. É claro, os direitos humanos não toleram diretamente a violação dos Mandamentos, mas eles mantém aberta uma zona cinzenta marginal que deve estar fora do alcance do poder (religioso ou secular). Nessa zona cinzenta, eu posso violar os mandamentos, e se o poder se debruçar sobre ela e me pegar no flagra, posso gritar: “Assalto aos meus direitos humanos básicos!” A questão é que para o poder é estruturalmente impossível traçar uma linha clara de separação para prevenir só o “uso indevido” dos direitos humanos sem infringir no seu uso adequado, isto é, o uso que não viola os mandamentos.

É nessa zona cinzenta que pertence o humor brutal do Charlie Hebdo. Lembremos como o semanário começou em 1970 como um sucessor do Hara-Kiri, um periódico banido por ter tirado sarro da morte do General de Gaulle. Depois de receberem uma carta de leitor acusando o Hara-Kiri de ser “estúpido e maldoso” (“bête et méchant”), a frase foi adotada como o slogan oficial do jornal e passou a permear a linguagem cotidiana: “Hara-Kiri: journal bête et méchant”. Essa é a zona cinzenta do Charlie Hebdo: não sátira benevolente mas sim, muito literalmente, estúpida e maldosa, de forma que seria mais apropriado que os milhares marchando em Paris proclamassem “Je suis bête et méchant” ao invés do simples e piegas “Je suis Charlie”. E de fato, as manifestações midiáticas de solidariedade em Paris foram efetivamente “bête et méchant”.

Por mais refrescante que podia ser em algumas situações, a atitude “bête et méchant” do Charlie Hebdo é condicionada pelo fato de que o riso não é por si só liberador, mas profundamente ambíguo. Lembremos daquele famigerado contraste que a imagem difundida da Grécia Antiga nos trás: entre os Espartanos solenes e aristocráticos e os Atenienses jocosos e democráticos. O que escapa a essa imagem é que os espartanos, que se orgulhavam de sua severidade, punham o riso no centro de sua ideologia e prática: eles reconheciam o riso comunal como um poder que ajudava a aumentar a glória do Estado. (Os atenienses, em contraste, legalmente restringiam tal riso brutal e excessivo como uma ameaça ao espírito do respeitável diálogo onde nenhuma humilhação do oponente deve ser permitida). O riso espartano – a zombaria brutal de um inimigo ou escravo humilhado, tirando sarro de seu medo e dor a partir de uma posição de poder – encontrou um eco nos discursos de Stalin, quando ele escarnecia do pânico e da confusão dos “traidores”, e persiste ainda hoje, no humor dos ditos “politicamente incorretos”. (Aliás, esse riso deve ser distinguido ainda de outro tipo de riso daqueles em poder, a derrisão cínica que mostra que eles próprios não levam sua ideologia a sério).

O problema com o humor do Charlie Hebdo não é que ele tenha ido longe demais em sua irreverência, mas que era um excesso inócuo que se encaixava perfeitamente no funcionamento cínico hegemônico da ideologia em nossas sociedades. Ele não representava ameaça alguma àqueles no poder; ele meramente tornava seu exercício do poder mais tolerável.

É nesse sentido que devemos abordar o delicado tema dos diferentes modos de vida. Nas sociedades liberais-seculares ocidentais, o poder do Estado protege as liberdades públicas mas intervém no espaço privado – quando há uma suspeita de abuso infantil, por exemplo. Mas como esclarece Talal Asad3, tais “intrusões no espaço doméstico, em domínios ‘privados’, não são permitidas pela Lei Islâmica, embora a conformidade no comportamento “público” pode até ser mais rigorosa. […] Para a comunidade, o que importa é a prática social do sujeito muçulmano – incluindo manifestações verbais – não seus pensamentos internos, quaisquer que possam ser.” O Al corão diz: “A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser.” Mas, nas palavras de Asad, esse “direito de pensar o que for que se quiser não […] inclui o direito de expressar suas crenças religiosas ou morais publicamente com a intenção de converter pessoas a um ‘falso comprometimento’”. É por isso que, para os muçulmanos, “é impossível permanecer em silêncio quando confrontados com a blasfêmia […] sua reação é tão acalorada pois para eles, a blasfêmia não é nem ‘liberdade de expressão’ nem o desafio representado por uma nova verdade mas algo que busca perturbar uma relação de vida”. Do ponto de vista liberal ocidental, há um problema com ambos os termos desse nem/nem: e se a liberdade de expressão passasse a incluir também atos que podem perturbar uma relação viva? E se uma “nova verdade” tiver o mesmo efeito disruptivo? Uma decodificação científica do universo não tende a perturbar uma “relação de vida” tradicional? E se uma nova consciência ética fizer com que uma relação de vida existente apareça injusta?

Se, para os muçulmanos, não é somente “impossível permanecer em silêncio diante da blasfêmia” como é também impossível permanecer inativo – e o impulso de fazer algo pode incluir aí atos violentos e assassinos – então a primeira coisa que devemos fazer é localizar essa atitude em seu contexto contemporâneo. O mesmo vale para o movimento cristão anti-aborto, que também acha “impossível permanecer em silêncio” diante das mortes de centenas de milhares de fetos todo dia, uma chacina que eles comparam ao Holocausto. É aqui que começa a tolerância: a tolerância ao que sentimos como impossível-de-suportar (“l’impossible-a-supporter”, na formulação de Lacan), e nesse ponto o “politicamente correto” da esquerda liberal se aproxima do fundamentalismo religioso com sua própria lista de “blasfêmias” diante das quais é “impossível permanecer em silêncio”: machismo, racismo e outras formas de intolerância. O que aconteceria se um jornal abertamente zombasse do Holocausto?

É fácil tirar sarro de todas as regras muçulmanas para cada detalhe da vida cotidiana (uma característica que, aliás, compartilham com o judaísmo), mas e da lista “politicamente correta” de todos aqueles jogos de “sedução” (sic.) que podem ser considerados assédio verbal, das piadas que são consideradas racistas ou machistas – ou ainda “especiestas” (que tiram sarro de outras espécies de animais que não a humana)? O que interessa ressaltar aqui é que há uma contradição imanente na posição liberal de esquerda: a posição libertária de ironia universal e zombaria, tirando sarro de todas as autoridades, espirituais e políticas (a atitude personificada no Charlie Hebdo), tende a deslizar em seu oposto, uma sensibilidade aguçada à dor e à humilhação do outro.

RESPOSTAS À ESQUERDA

É por conta dessa contradição que boa parte das reações de esquerda às chacinas de paris seguiram um deplorável padrão previsível: eles corretamente suspeitaram que algo estava profundamente errado com o espetáculo do consenso e da solidariedade liberal para com as vítimas, mas tomaram a direção errada quando se permitiram condenar as chacinas só depois de longas e enfadonhas qualificações do tipo “também somos todos culpados”. Esse medo de que ao condenar abertamente a chacina estaríamos de alguma forma alimentando a islamofobia é politicamente e eticamente errado. Não há nada de islamofobico em condenar as chacinas de paris, da mesma forma em que não há nada de anti-semita em condenar o tratamento de Israel aos palestinos.

Quanto à noção de que devemos contextualizar e “compreender” as chacinas de Paris, ela pode também ser uma completa armadilha. Talvez um dos melhores exemplos de burrice mascarada de profunda sabedoria seja o ditado: “Um inimigo é alguém cuja história você ainda não conhece”.4 Não há exemplo melhor dessa tese que Frankenstein, de Mary Shelley. Shelley faz algo que um conservador jamais teria feito. Em uma parte central de seu livro, ela permite que o monstro fale por conta própria e nos conte a história a partir de sua perspectiva. Essa escolha de Shelley expressa, em seu nível mais radical, a atitude liberal diante da liberdade de expressão: o ponto de vista de todos deve ser ouvido. Em Frankenstein, o monstro não é um terrível objeto que ninguém ousa confrontar; ele está plenamente dotado de subjetividade. Shelley mergulha na sua mente e pergunta como é ser rotulado, definido, oprimido, excomungado, e ainda fisicamente distorcido pela sociedade. O supremo opressor pode assim se apresentar como supremo oprimido. O monstruoso assassino se revela como sendo um individuo profundamente machucado e em apuros, ansiando por companhia e amor… Há, no entanto, um claro limite para esse procedimento: será que estamos dispostos a afirmar que Hitler só era um inimigo porque sua história não foi realmente ouvida? Para mim, muito pelo contrário, quanto mais conheço e “compreendo” Hitler, tanto mais imperdoável ele aparece a mim. Compreender o mal não é perdoá-lo, é ver como o mal funciona – com isso, o mal não é de forma alguma relativizado muito menos amenizado.

O que isso também significa é que, ao abordarmos o conflito Israel-Palestina, devemos nos ater a padrões frios e implacáveis: devemos incondicionalmente resistir à tentação de “compreender” o anti-semitismo arábico (quando realmente o encontramos) como uma reação “natural” à triste condição dos palestinos, ou de “compreender” as medidas de Israel como uma reação “natural” à memória do Holocausto. Não deve haver “compreensão” alguma para o fato de que em muitos países árabes Hitler seja considerado um herói, e que crianças na pré-escolas são incutidas de inúmeros mitos anti-semitas, dos notoriamente forjados Protocolos dos sábios de Sião até alegações ridículas de que os judeus usam o sangue das criancinhas para fins sacrificiais.

Alegar que esse anti-semitismo articula, de forma deslocada, uma resistência ao capitalismo de forma alguma o justifica (o mesmo vale para o anti-semitismo nazista: ele também extraiu sua energia da resistência anti-capitalista). O deslocamento aqui não é uma operação secundária, e sim o gesto fundamental de mistificação ideológica. O que essa alegação sim implica é a ideia de que, no longo prazo, a única forma de derrotar o anti-semitismo não é pregando a tolerância liberal, mas articular o motivo anticapitalista subjacente de uma forma direta, não deslocada.

A LIÇÃO DO TERROR

O ponto chave é portanto precisamente não interpretar ou julgar atos singulares “em conjunto”, não localizar eles no “contexto mais amplo”, mas extraí-los de sua textura histórica: as atuais ações das Forças de Defesa de Israel na Margem Oeste não devem ser julgadas contra o pano de fundo do Holocausto; a celebração que muitos árabes fazem à imagem de Hitler ou a profanação de sinagogas na França e por toda parte na Europa não devem ser julgados como reações inapropriadas porém compreensíveis ao que Israel está fazendo na Margem Oeste.

Quando qualquer protesto contra Israel é categoricamente denunciado como uma expressão de antissemitismo – isto é, quando a sombra do Holocausto é permanentemente evocada a fim de neutralizar qualquer crítica às operações militares e políticas de Israel – será que não basta insistir na diferença entre antissemitismo e crítica a políticas específicas do Estado de Israel que, nesse caso, esta profanando a memória das vítimas do Holocausto, as instrumentalizando como uma forma de legitimar medidas políticas presentes?

O que isso significa é que devemos categoricamente rejeitar a noção de qualquer ligação lógica ou política entre o Holocausto e as atuais tensões Israel-Palestina. Eles são dois fenômenos rigorosamente diferentes: um deles é parte da história europeia da resistência direitista às dinâmicas da modernização; a outra é um dos últimos capítulos na história da colonização. Em contrapartida, a difícil tarefa diante dos palestinos é aceitar que seu verdadeiro inimigo não são os judeus, mas sim os próprios regimes árabes que manipulam sua condição oprimida precisamente para prevenir essa transformação – isto é, a radicalização política em seu próprio seio.

A ascensão do antissemitismo na Europa é inegável. Quando, por exemplo, uma minoria muçulmana agressiva em Malmö molesta os judeus a ponto deles terem medo de andar nas ruas com suas vestimentas tradicionais, isto deve ser condenado claramente e sem ambiguidade. A luta contra o antissemitismo e a luta contra a islamofobia devem ser vistos como dois aspectos de uma mesma luta. E longe de configurar uma posição ingenuamente utópica, essa necessidade de uma luta comum se funda na própria natureza de vasto alcance que as consequências da opressão extrema têm.

Em uma memorável passagem de seu Still Alive, Ruth Klüger descreve uma conversa com “alguns candidatos avançados de PhD” na Alemanha:

Um deles relata como ele conheceu um velho judeu húngaro que era um sobrevivente de Auschwitz, e entretanto esse homem xingava os árabes e nutria desprezo por eles. “Como pode alguém que vem de Auschwitz falar assim?”, pergunta o alemão. Eu entro na conversa e discuto, talvez de forma mais acalorada do que fosse preciso. O que ele esperava? Auschwitz não era nenhuma instituição de instrução […] Não se aprendia nada lá, muito menos humanidade e tolerância. “Absolutamente nada de bom saiu dos campos de concentração”, eu me pego dizendo, com minha voz se elevando, e ele espera catarse, purgação, o tipo de coisa que se espera quando se vai ao teatro? Foram os estabelecimentos mais inúteis e sem sentido imagináveis.

Ou seja, o extremo horror de Auschwitz não o fez um lugar que purifica suas vítimas sobreviventes tornando as sujeitos eticamente sensíveis desprovidos de interesses egoístas tacanhos; muito pelo contrário, parte do horror de Auschwitz é que ele também desumanizou muitas de suas vítimas, as transformando em sobreviventes brutos e insensíveis e tornando impossível para elas praticarem a arte do juízo ético balanceado.

Temos que abandonar a ideia de que há algo emancipatório em experiências extremas, que elas nos permitem abrir os olhos à radical verdade da situação. Essa talvez seja a mais deprimente lição do terror.

NOTAS
1.
Ver Jacques-Alain Miller, “L’amour de la police“, bloggado em 1/13 2015 e publicado em inglês em lacan.com como “France loves its cops“.
2. Me baseio aqui no artigo de Julia Reinhard Lupton (UC Irvine) and Kenneth Reinhard (UCLA), “The Subject of Religion: Lacan and the Ten Commandments.”
3. Talad Asad, Wendy Brown, Judith Butler, Saba Mahmood, Is Critique Secular? Blasphemy, Injury, and Free Speech, Berkeley: University of California Press 2009.
4. Epígrafe de “Living Room Dialogues on the Middle East,” citado em Wendy Brown, Regulating Aversion, Princeton: Princeton University Press 2006.
5. Ruth Kluger, Still Alive: A Holocaust Girlhood Remembered, New York: The Feminist Press 2003, p. 189.

* Texto enviado pelo autor ao Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Um novo mundo é possível?

15 02 12 Izaías Almada Um novo mundo é possível[Imagem feita pelo designer André Almada, especialmente para esta coluna]

Por Izaías Almada.

Quanto riso, ó, quanta alegria.
Mais de mil palhaços no salão…”
– Zé Kéti

Sempre tive grande fascínio pelo cinema, desde o momento em que fui levado pelo meu pai para assistir ao clássico Fantasia com os famosos bonecos da Disney. O mundo cicatrizava as feridas de uma segunda guerra mundial e eu, na inocência dos meus quatro anos de idade, não tinha a menor ideia do que se passava além dos muros da nossa casa. Contudo, fiquei conhecendo o rato Mickey, aprendiz de feiticeiro, na divertida sequencia com a vassoura e as baldes.

Ainda na infância fui apresentado ao Pato Donald, à Margarida, ao Pateta, à dupla Tom & Jerry, ao Pernalonga e ao Hortelino Trocaletra, Gaguinho, Petúnia Resedá, Reco-Reco, Bolão e Azeitona (desses poucos se lembram), Pica Pau, Frajola e outros divertidos personagens que encantaram a minha e várias outras gerações de crianças.

Mais alguns anos e descubro o gênero western que, ao lado do gênero musical, me encantou na adolescência. Dois gêneros de filmes, que após Chaplin e ao lado de Hitchcock, transformaram o cinema americano numa das maiores máquinas de diversões, dinheiro e manipulação da mente humana, antes da televisão, da Internet e do Facebook.

O western foi minha primeira incursão ao mundo do homem bom e do homem mau, do bandido e do mocinho. Maniqueísmo em cinemascope.

E assim vem caminhando a humanidade. Aos trancos e solavancos, como diz uma amiga.

Apesar de toda parafernália tecnológica atual e dos grandes avanços da ciência, a medicina em particular, entre outros, o homem tem evoluído pouco. A frase, com algum ranço de lugar comum, não explica, entretanto, porque – afinal de contas – a bandidagem tem se misturado tanto com a política.

Não estou falando da bandidagem dissimulada de gravata borboleta e vestidos longos. Ou a dos bicheiros ligados a policiais, hoje substituída pelo rentável tráfico de droga pesada. Sequer a do Comando Vermelho ou do PCC.

Não: estou falando da bandidagem moderna, “democrática” e cheia de títulos acadêmicos. Onde já não conseguimos distinguir mocinhos e bandidos. Ou lobistas, para ser mais sutil. Vale tudo. O público e o privado se misturam e estão nas principais manchetes dos jornais.

Já há quem desavergonhadamente insinue que existe uma “corrupção do bem” e outra “corrupção do mal”, tamanho o cinismo dos partidos de oposição e seus senhores na mídia.

Em Washington, Paris, Tel-aviv, Pequim, Brasília, Buenos Aires. As máfias contam-se aos magotes. Até mesmo em facebooks, onde a hipocrisia e algum sentimento nazifascista recheiam milhões de entradas nessa rede social pelo mundo.

Empresas, bancos, políticos, advogados, policiais, juristas, misturam-se todos num caldeirão que vai cozinhando a honestidade em banho Maria, deixando que os falsos moralistas tomem a frente no combate à corrupção, num teatrinho sem vergonha que já não engana a mais ninguém. E atenção: o fenômeno não é só brasileiro como gostam de encher a boca os pusilânimes caboclos em particular nossa classe média idiotizada e neofascista. Está presente na maioria dos países…

A justiça é matéria obrigatória, obvio, nas faculdades de Direito, mas aos poucos vai se tornando uma espécie de arqueologia do saber. Um museu de boas intenções. Quem tem dinheiro, manda. Quem tem dinheiro, faz justiça em causa própria. Quem não tem…

O deboche, a arrogância, a hipocrisia, a injustiça são as palavras e as ações da vez. E, na contramão de Fernando Pessoa, arrisco dizer que tudo vale à pena quando a alma é pequena.

Andaram espalhando por aí que um novo mundo seria possível. Também apostei minhas esperanças nessa possibilidade. E ele está aí, mais firme e arrogante como nunca. É o capitalismo na sua forma mais requintada e que dispõe de todos os meios para espalhar a eterna boa nova aos crentes e aos inocentes: seja um homem de sucesso!

Estude aqui ou acolá, compre esse carro, aumente o seu desempenho sexual, deposite nesse banco que seu dinheiro vai render mais, vote num democrata cristão, contribua para tais obras de caridade, leia a lista dos mais ricos do mundo, não vai ter copa, o Brasil é uma merda, a corrupção começou com o PT, nos Estados Unidos a justiça funciona, Miami é uma maravilha, lá fora é tudo mais barato… O intoxicante repertório de imbecilidades é extenso e produz efeitos deletérios até entre mentes mais abertas e progressistas.

A tal ponto que jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, sem nenhum compromisso com o povo brasileiro deitam e rolam sobre o leite derramado. O que dizem é lei e não há contestação.

O momento é de guardar a máscara da honestidade no armário (pois corruptos são sempre os outros, não é senhor Fernando Henrique Cardoso?) e cair na folia, pois ninguém é de ferro. E não se preocupem irmãos, pois Deus é brasileiro! Aleluia, Saravá!

Todos aos sambódromos!

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Michael Löwy: a ofensiva do capital financeiro na Grécia

15 02 11 Michael Löwy Grécia[Alexis Tsipras, novo Primeiro Ministro da Grécia, deposita rosas no monumento aos resistentes comunistas fuzilados pelos nazistas em Kesariani, perto de Atenas; Fotografia de Alexandros Beltes, EPA]

Por Michael Löwy.

Pela primeira vez em sua história, a Grécia tem um governo “vermelho” (não rosa-bombom), um governo dirigido pelo Syriza (Synaspismos tis Rizospastikis Aristeras), ou Coligação da Esquerda Radical, uma formação que se originou do Partido Comunista Grego do Interior (eurocomunista), fundado em 1968, mas reúne hoje um amplo leque político, que vai dos trotskistas aos ecologistas de esquerda, além de muitos militantes oriundos dos movimentos sociais, antirracistas, feministas e outros. O primeiro gesto de Alexis Tsipras depois de eleito foi depositar uma rosa – vermelha – no monumento aos resistentes comunistas fuzilados pelos nazistas em Kesariani, perto de Atenas.

Nasce uma grande esperança! Mas o governo da esquerda radical terá mil dificuldades para superar, a começar pela ausência de maioria absoluta (ele precisava de dois deputados mais), pela sabotagem da oligarquia grega, pelas medidas de retaliação do capital financeiro e pela má vontade da Comissão Europeia. Eles serão bem-sucedidos? Isso depende não só dos dirigentes do Syriza, mas principalmente do povo grego, de sua capacidade de se mobilizar para que as promessas sejam cumpridas, sem concessões nem recuos.

A oligarquia capitalista europeia – os Junker, Merkel, Draghi –, com a anuência frouxa dos chamados sociais-democratas – Sigmar Gabriel, François Hollande –, decidiram declarar guerra (financeira) contra o povo grego. O objetivo é estrangular economicamente essa tentativa corajosa de romper com o calamitoso “austericídio” neoliberal. Os eurocratas a serviço do capital financeiro estão decididos a impedir, a todo custo, que essa experiência dê certo. Para eles, é uma questão de demonstrar, de uma vez por todas, que, como dizia Ms. Thatcher, TINA (“There Is No Alternative”). E dane-se que o resultado da operação seja a decomposição da União Europeia e o crescimento inexorável da extrema direita.

* A tradução é de Mariana Echalar, para o Blog da Boitempo.

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A aula de abertura “Karl Marx como sociólogo da religião”, já está disponível online abertamente. Aulas novas toda semana! Acompanhe no canal da Boitempo no YouTube clicando aqui.

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Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Cultura inútil: Isso é que é anticoncepcional!

15 02 10 Mouzar Cultura InutilPor Mouzar Benedito.

Como evitar a gravidez? Colocando na vagina um preparado de mel, soda, excremento de crocodilo e uma substância gelatinosa não identificada. Isso consta num papiro egípcio datado de 1850 a.C. Dava certo: espantava os homens, que não encaravam uma vagina assim.

* * *

Em 1918, Mao Tse-tung tinha 25 anos e trabalhava na Universidade de Pequim, como assistente do bibliotecário chefe e abandonou o emprego porque foi esquecido na hora das promoções. Será que uma promoção o teria sossegado no emprego e ele não teria sido o revolucionário que foi?

* * *

O grego Anaximandro foi o primeiro a concluir que a Terra não era plana, em 560 a.C. Para ele, o nosso planeta tinha a forma de um cilindro. No século IV a.C. os gregos já consideravam como verdade absoluta que a Terra era esférica.

* * *

Não é de hoje que franceses dedicam um carinho extremado a cachorros. Quando foi exibido na França o filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, adaptado do romance de Graciliano Ramos que tem o mesmo nome. O filme foi muito aplaudido, mas a morte da cadela Baleia, pareceu tão real que houve protestos. Foi preciso que o diretor levasse a cadela à França na semana seguinte para provar que não haviam feito mal algum a ela.

* * *

O primeiro plano para fazer um túnel ligando a França à Inglaterra foi concebido durante o reinado de Napoleão, em 1802.

* * *

“Gay” originalmente significava alegre, em inglês. A palavra deriva do francês, gai, que significa também alegre, jovial. Em português, ela virou gaio, que depois “progrediu” para gaiato. Mas tem um detalhe: em francês, gai significa também invertido. No Brasil, há alguns anos, invertido era uma gíria preconceituosa para qualificar homossexuais. Coincidência?

* * *

Jimi Hendrix nascido em Seatle, Estados Unidos, principal atração do famoso Festival de Woodstock, em agosto de 1969, apresentou uma versão para o Hino Nacional dos Estados Unidos em que sua guitarra imitava a explosão de bombas. Era tempo de protestos por causa da Guerra do Vietnã.

* * *

Muita gente pensa que o jingle de Jânio Quadros prometendo varrer a corrupção foi criado para a campanha presidencial de 1960. Para quem não se lembra, a letra é assim: “Varre, varre, vassourinha. / Varre, varre a roubalheira / que o povo já está cansado / de sofrer dessa maneira”. Mas esse jingle é anterior, foi usado inclusive nas eleições para governador de São Paulo. Em um “Almanhaque” de 1955, o Barão de Itararé ironizou, propondo mudança da letra: “Varre, varre, vassourinha. / Varre, varre a roubalheira. / Varre a dos outros / mas varre também a minha”.

* * *

No sul do Marrocos existe uma região chamada Tanger, que deu nome à tangerina. Só que a tangerina não é originária de lá, e sim da China. A fruteira deu-se tão bem na região que recebeu seu nome. Mas em alguns lugares a fruta é chamada de mandarina, por sua origem chinesa.

* * *

Europeus chegaram à América cinco séculos antes de Colombo: os vikings noruegueses liderados por Erik, o Vermelho, chegaram à Groenlândia no ano 987, e no ano 1000, seu filho Leif Erikson chegou ao Canadá. Tentaram fundar uma colônia, Vinland, que não foi pra frente.

* * *

Albert Einstein esteve no Brasil em 1952. Quis conhecer o jardim botânico do Rio de Janeiro e lá se impressionou tanto com o tamanho de um jequitibá que abraçou e beijou a árvore.

* * *

Quando veio para o Brasil, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte, em 1808, Dom João VI declarou guerra à França, mas preferiu guerrear por aqui mesmo, tomando a Guiana Francesa, que era quase desguarnecida. Assim, 470 soldados portugueses apoiados por uma corveta inglesa entraram em Caiena em 12 de janeiro de 1809. Napoleão foi derrotado pelos ingleses em 1815, e o Brasil prometeu devolver a Guiana à França, o que fez só em novembro de 1817, mas anexando parte dela: o Congresso de Viena fixou o rio Oiapoque como a nova fronteira. Algumas plantas que não existiam aqui foram trazidas de lá – do Jardim Gabrielle – nesse período e se deram muito bem aqui. Entre elas, o abacateiro, o chá, a canela, a fruta-pão, a palmeira imperial e a variedade de cana chamada caiena ou caiana, ótima para produzir cachaça.

* * *

Cícero, orador e político romano que viveu de 106 a.C. a 43 a.C., foi quem criou a expressão “ócio com dignidade” (otium cum dignitate), no sentido de que todo homem tinha o direito a uma aposentadoria honrada, no fim da vida, depois de ter trabalhado muito.

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Provérbio japonês: “Os cinzeiros e os ricos, quanto mais cheios, mais sujos”.

* * *

O primeiro transplante de coração realizado no Brasil foi feito pelo dr. Euríclides de Jesus Zerbini, em 26 de maio de 1968, no Hospital das Clínicas de São Paulo, seis meses depois do primeiro transplante de coração realizado no mundo, pelo sul-africano Christian Barnard. Um lavrador conhecido como João Boiadeiro recebeu o coração de um homem atropelado, e viveu apenas 28 dias. Só depois é que apareceram drogas contra a rejeição de órgãos. O dr. Zerbini tinha um irmão general, Euryale de Jesus Zerbini, que era contra a ditadura e teve seus direitos políticos cassados. A mulher dele, Therezinha Zerbini, foi uma militante ferrenha pela anistia. Fundou o jornal feminista e antiditatorial Brasil Mulher.

* * *

No testamento de Heinrich Heine, poeta alemão, havia uma cláusula para que a esposa pudesse usufruir sua herança: tudo ficaria para ela, desde que se casasse novamente. Explicou o motivo: “Assim, haverá pelo menos um homem para lamentar a minha morte”.

* * *

Atribui-se ao chinês Tien Txen, que nasceu em 2697 a.C. a invenção da tinta de escrever.

* * *

Machado de Assis foi eleito presidente da Academia Brasileira de Letras em 4 de janeiro de 1875. Nessa mesma data começou a circular o jornal A Província de São Paulo, que depois da Proclamação da República viraria O Estado de S. Paulo.

* * *

Sagarana, o primeiro livro de Guimarães Rosa, foi lançado em 21 de abril de 1946.

* * *

Uma das mais belas fases da campanha pela Anistia a presos políticos no Brasil, concluída em 1980, teve como protagonista uma brasileira presa não no Brasil, mas no Uruguai. Flávia Schilling, ligada ao Movimento Tupamaro, tornou-se um símbolo. Até membros do governo brasileiro pediram ao governo uruguaio a sua libertação, que finalmente aconteceu em 14 de abril daquele ano. Mas no Brasil mesmo restava um preso político que acabou sendo libertado só em 8 de outubro de 1980. Era José Sales de Oliveira, preso em Fortaleza.

* * *

A cidade de Quebec, no Canadá, foi fundada por franceses em 1609.

* * *

Pablo Neruda era candidato a presidente do Chile, pelo Partido Comunista, em 1970. Retirou a candidatura para apoiar o socialista Salvador Allende, que foi eleito.

* * *

Fazer greve é ir para a praia? Para alguns, é. Bom… Isso tem história. No francês antigo, grève era praia com areia e pedregulhos. Na beira do rio Sena, em Paris, havia uma delas, a Place de Grève, onde funcionava um órgão encarregado de cadastrar desempregados. Então, desempregados iam para lá. “Fazer greve” era se reunir na praça, por falta de trabalho. A primeira vez que se usou a expressão “fazer greve” no sentido que tem hoje foi em 1805. Em 1806 mudaram o nome da praça para Place de L’Hotel de Ville (nome do prédio da administração municipal de Paris). E muitos grevistas iam lá protestar. A Comuna de Paris foi proclamada nessa praça, em 1871.

* * *

O Prêmio Nobel de Literatura de 1964 foi concedido a Jean-Paul Sartre. Mas o autor de obra Náusea e Sem Saída recusou-se a aceitá-lo. Declarou: “Não é a mesma coisa assinar simplesmente Jean-Paul Sartre ou assinar Jean-Paul Sartre, ganhador do Prêmio Nobel. Um escritor não pode permitir que o transformem numa instituição, mesmo que seja sob a forma mais honrada possível”.

* * *

A queda da produção de ouro representou não só uma decadência econômica em Minas Gerais, a partir de 1750, mas também uma “desurbanização”. Vila Rica, a atual Ouro Preto, tinha 20 mil habitantes em 1740 e em 1804 sua população ficou reduzida a 7 mil.

* * *

Uma data histórica para a música brasileira: 21 de novembro de 1962. Nesse dia, foi apresentada a bossa nova aos gringos, no Carnegie Hall, Nova York. Cerca de três mil pessoas lotaram o local para ouvir João Gilberto, Agostinho dos Santos, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Tom Jobim e outros artistas. Jacqueline Kennedy, mulher do então presidente, chamou o espetáculo de “simplesmente maravilhoso”, completando que “nunca houve coisa igual aqui”. A multidão aplaudiu com muito entusiasmo.

* * *

Assim falou Millôr Fernandes: “Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos bem!”.

* * *

Até 1960, só filmes falados em inglês tiveram atrizes premiadas com o Oscar. A primeira a ganhar esse prêmio falando outra língua foi Sophia Loren, em 1961, com o filme italiano La Ciociara (traduzido para o inglês como Two Women). Ela concorreu com Audrey Hepburn (Bonequinha de Luxo), Geraldine Page (O Anjo de Pedra) e Natalie Wood (Clamor do Sexo).

* * *

O francês Jean Pierre François Lanchard, que subia aos ares em balões perto do fim do século XVIII, inventou o paraquedas em 1785, mas não ousou a pular lá do alto para testar seu invento. Colocou um cachorro num cesto e o lançou lá de cima.

* * *

Um gênero cinematográfico típico do Brasil, iniciado lá pela década de 1940, era a chanchada, com humor ingênuo, popularesco, e muita música. A Atlântida era a grande produtora de chanchadas, geralmente ambientadas no Rio de Janeiro e em seus cassinos. Grande Otelo, Oscarito, Zé Trindade e Dercy Gonçalves se destacaram nesses filmes. Eliana (sem sobrenome mesmo) era uma atriz que sempre aparecia como a mocinha ingênua, bonita e desejada. Em 1971, surgiu a “pornochanchada”, que tinha uma forte carga erótica, da qual despontaram vários diretores talentosos, como Cláudio Cunha, Alfredo Sternheim, Ody Fraga e Fauzi Mansur, entre outros. A “Boca do Lixo”, em São Paulo, tinha várias produtoras dedicadas ao gênero. Houve filmes de grande sucesso, como A super fêmea (com Vera Fisher), Caçada erótica, com Matilde Mastrangi, Monique Lafond, Selma Egrei e Tânia Alves, e Ainda agarro essa vizinha, com Adriana Prieto, atrizes que depois se tornaram estrelas da TV. Aldine Muller foi uma atriz que também migrou das pornochanchadas para a TV.

* * *

Quem se veste de baiana talvez não saiba que está usando um traje criado com influência islâmica: surgiu na região do Sudão, na África.

* * *

A meia de tricô foi inventada pelo inglês Guilherme Rider, em 1560. Ela foi introduzida na França nove anos depois, pelo rei Henrique II.

* * *

O gesto de fazer figa – com a mão fechada, colocar o dedo polegar entre o indicador e o médio – foi trazido da África, pelos escravos, segundo alguns, com o sentido de espantar os maus espíritos. Para outros, veio do Oriente Médio e os portugueses já o conheciam esse gesto havia muito tempo. E usavam também para afastar forças negativas. Mas para os japoneses o significado é bem diferente: equivale ao nosso gesto de bater com a palma de uma mão em cima da outra mão fechada (top-top), em referência ao ato sexual. Há algumas décadas, vi muito na Bahia turistas japoneses risonhos e corados comprando no Mercado Modelo figas de tamanhos variados para levar e dar de presente a amigos, como objetos de alta safadeza.

* * *

O número 1 da revista Veja chegou às bancas em 11 de setembro de 1968. Editada por Mino Carta, trazia na capa vermelha mãos segurando uma foice e um martelo cruzados e a manchete “O grande duelo do mundo comunista”. Em maio de 1976, Mino Carta, Silvio Lancellotti, Hélio de Almeida, Tão Gomes Pinto e outros jornalistas lançam Isto É, pela editora Encontro Editorial.

* * *

O último pedido antes de morrer, de Pedro, o Grande, czar russo, foi aos seus ministros, para que mantivessem a Rússia sempre em guerra, para o bem da nação. Ele deixou um testamento com estratégia para conquistar toda a Europa.

* * *

Casanova, o famoso conquistador de mulheres, chegava a consumir 50 ostras como café da manhã, geralmente com uma companheira, dentro de uma banheira para duas pessoas.

* * *

Um provérbio brasileiro, de pouco depois da Proclamação da República, define as especialidades dos nossos estados. Lembro que na época ainda não havia os estados Acre, Rondônia, Roraima e o Amapá. Mas estranhamente esse provérbio “ignorou” Santa Catarina e Espírito Santo:

São Paulo para café,
Ceará pra valentão,
Piauí pra vaca brava,
Pernambuco pra baião;
Rio Grande pra cavalo,
Paraná pra chimarrão,
Em Minas carne de porco,
Rio de Janeiro eleição;
Alagoas povo macho,
Mato Grosso pra brigão,
Amazonas pra borracha,
Paraíba pra algodão;
Para castanha o Pará,
Para arroz o Maranhão.
Bahia para mulata,
Sergipe, cana e feijão;
No Rio Grande do Norte
Jerimum e violão,
Em Goiás moça bonita
E rapaz sem coração…

* * *

Assim disse o Barão de Itararé: “O júri, no Brasil, consta de um número limitado de pessoas escolhidas, para decidirem quem tem o melhor advogado”.

* * *

Assim disse eu mesmo: “Eleições são muito importantes: por meio delas escolhemos quem vai nos ferrar a vida nos próximos anos”.

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Gostou? Clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Fundamentalismo narcísico

15 02 09 Christian Dunker Fundamentalismo narcísico[Michael Keaton, em fotograma do filme Birdman, ou, a inesperada virtude da ignorância (2014), dirigido por Alejandro González Iñárritu.]

Por Christian Ingo Lenz Dunker.

1. RESUMO DA ÓPERA

O artigo que Slavoj Žižek publicou aqui no Blog da Boitempo, pensando, em ato, o atentado contra o semanário Charlie Hebdo, começa suspendendo nossa recepção espontânea, que procura culpados e vítimas segundo geografias pré-estabelecidas. Apoiando-se em Nietzsche e Yeats ele imputa parte das razões do atentado a uma espécie de crise de nossas crenças, no contexto de um colapso regressivo das nossas teorias da transformação. Ao aventar a possibilidade de que os próprios terroristas desconfiem dos princípios que pregam, e que isso poderia ter os levado a confirmar sua crença em ato, como uma prova de fé, ele retoma uma perspectiva que é absolutamente liberal.

Retomando um de seus temas mais importantes – a crença – Žižek nos remete ao problema das comunidades autênticas, ao retorno de valores esquecidos e ao poder construtivo da indignação com o mundo que nos é oferecido. Seu argumento sugere que o fundamentalismo islâmico é um caso particular do fundamentalismo em geral e por isso não deve ser apreciado pelo seu conteúdo, como se a cultura islâmica devesse ser chamada ao tribunal. O ponto de Žižek é que esta é uma resposta muito pobre e pouco elaborada para este estado de crise permanente com relação a nossas próprias crenças. Certo, isso é um traço de nossa disposição ética na modernidade desde a noção cartesiana de moral provisória. Contudo, isso não explica porque só depois da queda do muro de Berlin, da intervenção irrestrita em regiões resistentes a este modelo civilizacional e da implantação inquestionada das políticas neoliberais que um novo tipo de terrorismo se alastrou.

A hipótese de Žižek não tem nada que ver com a repetição de um mantra marxista ou revolucionário. Ele afirma que o fundamentalismo é uma resposta exagerada, em meio a um cenário composto pela ausência de alternativas, sentidas como efetivamente reais, para a transformação de um determinado estado de coisas. A hipótese que não foi efetivamente discutida por seus críticos é de que os terroristas sentem-se inferiores e não superiores quando se trata dos valores que defendem. Esta indeterminação quanto ao que realmente acreditamos, não é oriental ou ocidental, mas um sintoma típico do excesso de crença que nos é exigido quando temos que engolir este mundo como o melhor dos mundos possíveis. Daí a ligação entre a ascensão do fundamentalismo islâmico e o declínio da esquerda no oriente:

“O fundamentalismo é uma reação – uma reação falsa, mistificadora, é claro – contra uma falha real do liberalismo, e é por isso que ele é repetidamente gerado pelo liberalismo. Deixado à própria sorte, o liberalismo lentamente minará a si próprio – a única coisa que pode salvar seus valores originais é uma esquerda renovada. Para que esse legado fundamental sobreviva, o liberalismo precisa da ajuda fraterna da esquerda radical. Essa é a única forma de derrotar o fundamentalismo, varrer o chão sob seus pés.” (Slavoj Žižek, “Pensar o atentado ao Charlie Hebdo”)

O texto de Žižek foi republicado pela Folha com resposta de João Pereira Coutinho, intitulada “Não é o ocidente que deve mudar, mas o Islã” e que declarava, em síntese, que

  1. o Islã precisa passar por uma reforma que desvincule vida comum e religião, modernizando-se e iluminando-se como nós;
  2. Žižek alinha-se com ideias de Hitler, Lenin e Carl Schmitt sendo ele mesmo um fundamentalista de esquerda, (“que deveria estar na cadeia”, como ele diz em outro artigo);
  3. Žižek engana-se porque desconhece os pormenores das formas religiosas islâmicas confundindo assim jihadismo, fundamentalismo e radicalismo.

É realmente incrível como críticos especializados, que ganham a vida com isso, sejam incapazes de ler: a única forma de salvar os valores originais do liberalismo é reconhecer que a nova esquerda tem alguma contribuição a dar em matéria de formação de convicções. Não se trata do comunismo, nem do socialismo, mas da importância da esquerda radical para o próprio liberalismo.

Para surpresa geral o texto de João Coutinho é ecoado por gente esclarecida como Contardo Calligaris (“O que me ofende“, Folha de S.Paulo), para quem nossa modernidade se funda na ausência de fundamentos. Mas premido pelo contra-fundamentalismo de ocasião, a tese de Žižek se transforma na ideia de que nossa fraqueza (a crise de convicções) é nossa força, de tal forma que não seria preciso “injetar um novo fundamentalismo no Ocidente”. Como se fosse isso mesmo que Žižek está a pregar. Como se o individualismo não fosse um dos fundamentos da modernidade. Como se só os de esquerda procurassem fundamentos, enquanto os de direita flutuam no ar. Também Paulo Ghirardelli (“Sobre o Islamismo: nem Žižek e nem Coutinho, mas redescrição rortiana“), apesar de mais ponderado, comprou esta versão neutralizante do texto. Tudo não passa de uma repetição de um estigma do que a esquerda (e Žižek em particular) diria em qualquer situação. Espero ter mostrado que isso se aplica ao espírito carniceiro de João Coutinho, mas não a Žižek, que raras vezes defende o retorno aos valores originais do liberalismo.

Ou seja, Žižek foi transformado no inimigo interno. Ele mesmo é o fundamentalista defensor de crenças perigosas. O fato de que Charlie Hebdo é uma publicação de esquerda foi esquecido. O fato de que seus quadrinhos davam sobrevida a um tipo de humor descendente de Maio de 1968, foi tornado irrelevante. A grande marcha triunfal que descreve a evolução de nossas crenças, que vão do animismo às religiões patriarcais, terminando na ciência e passando pelo liberalismo político e principalmente econômico, fica incólume. O atentado não coloca em questão nada do que estejamos realmente fazendo. Ele é apenas um fenômeno residual, externo à nossa própria forma de vida e ao nosso consequente regime de crenças. Uma forma que será saneada com o progresso da consciência e com a expansão do espírito de liberdade assim constituído. Até então devemos resignadamente acolher os efeitos colaterais da modernidade neoliberal.

A tese de que o fundamentalismo é uma solução simplória para um tipo específico de narcisismo talvez seja banal, mas é ela que deve ser discutida, não se as nossas crianças universitárias estão em perigo nas mãos do esloveno. O narcisismo, assim como o capitalismo, tem uma história que se transforma em relação direta com a gramática de nossas crenças. Incrível que nada disso tenha sido tocado, ou sequer reconhecido, pelos críticos de Žižek. Parece que o ódio prevenido contra o seu “fundamentalismo” os obriga a retratá-lo vomitando Marx, Lenin e Stalin, mesmo que o que ele esteja realmente fazendo seja sussurrar Nietzsche, Yeats, e talvez também Freud ou Lacan.

2. BIRDMAN

O debate em torno do Charlie Hebdo transformou-se assim em uma oposição inútil – esta sim repetitiva – entre os que defendem crenças envelhecidas, baseadas em valores comunistas (Cuba Khmer Vermelho, PT, corrupção, tudo isso junto e misturado com militância religiosa e política…), e aqueles que não precisam mais acreditar em nada porque já superaram este estágio primitivo de permanência no mundo. Em vez de insistir na inanidade desta falsa divisão, gostaria de mostrar como certos atos perturbadores, incompreensíveis e violentos podem emergir bem no centro de nossa forma de vida “correta”, ainda que advoguemos que não há nada de errado com ela.

O problema não está numa disputa entre valores mais arcaicos ou mais modernos, que nos faria ler os ataques terroristas como uma espécie de crise de crescimento. Os terroristas não vieram dos confins rurais do Afeganistão. Eles são pessoas nascidas e criadas na França, são imigrantes na Inglaterra, como poderiam ser adolescentes insatisfeitos em um colégio americano. Pessoas cuja insatisfação tornou-se tão sistemicamente impossível de ser acolhida e nomeada, que lhes resta o suicídio como mensagem. É esta divisão que o neoliberalismo não consegue pensar porque é ele mesmo que a produz.

Aquilo que Žižek chama de “reação falsa e mistificadora” ligada à “falha real do liberalismo” pode ser pensada também com o filme Birdman, ou, A inesperada virtude da ignorância (2014), dirigido por Alejandro González Iñárritu. O filme aborda uma espécie de tragédia que se dissemina e se aprofunda nas relações quando estas estão expostas a expectativas de reconhecimento totalmente fora da potência de auto-realização dos envolvidos. Ela não tem a ver com os valores envolvidos, girem eles em torno da família, do trabalho ou do amor, mas com a superestimação da crença e do modo como se realizam. Não tem a ver com a natureza das regras, sejam elas modernas, pré-modernas ou pós-modernas, mas com o sentimento de injustiça e de que não é possível sua transformação prática. Finalmente, não tem a ver com fundamentalismo ou radicalismo, com a pureza ou podridão de princípios gerais, mas com o nível de implicação e consequência que alguém coloca naquilo que faz.

Riggan Thomson (Mikael Keaton) é o protagonista de uma peça de teatro, cujo roteiro ele mesmo adaptou a partir de uma história de Raymond Carver, e que está prestes a estrear na Broadway. A peça é sua desesperada tentativa de voltar a fazer sucesso desligando-se do papel que lhe trouxera fama e fortuna, mas que agora torna-se um pesadelo que ele arrasta dentro de si. Birdman, o super-herói que ele interpretava no cinema, sobrevive como voz e sombra a puxá-lo para o passado, incitando seu lugar especial junto ao público. Sua tentação narcísica oscila entre provar que ele é mesmo super-poderoso, por trás da máscara, e as dificuldades em se fazer reconhecer por um sistema que ele não entende mais como funciona.

Assim como antes falávamos de um choque de civilizações, podemos dizer que o filme trata de um choque narcísico entre gerações.

No primeiro andar está o velho e decadente Riggan e sua problemática identificação com um personagem, que é também a síntese de tudo o que ele não é mais. Sua crise narcísica é vivida como solidão e esvaziamento. Falta crônica de amor. Como não ver aqui uma alusão a Ronald Reagan, que nos anos 1980 sai das telas para a presidência implantando, junto com Tatcher, a religião neoliberal.

No segundo andar encontramos, Mike Shiner (Edward Norton) com quem ele contracena na peça, que é um ator de meia idade marcado pelo cinismo e pela máxima de que “o real é o próprio palco”. Aqui está uma metonímia dos anos 1990 e sua brilhante (shine) promessa de consumo sem fim, de realização ilimitada e de ganhos infinitos. Ele é capaz de tudo, desde que perceba o olhar da plateia. Sem isso, sente-se impotente. Parece superior mas está obcecado pela inferioridade. Ele pode matar, mas só se perder o olhar do outro.

No terceiro andar está a filha de Riggan, meio debilitada, meio alheia, voltando da reabilitação e tentando achar seu lugar no mundo. Ela sofre na errância e no recuo defensivo com relação a crer, em qualquer coisa. Seu narcisismo digital foi formado em uma geração que cresceu advertida quanto aos poderes da imagem fabricada. Tatuada em seu ombro está uma pena de escrever que se dissolve em inúmeros pássaros que, qual um desenho de Escher, saem voando no desintegrar da pena.

Se nos anos 1980 tudo que é sólido desmancha no ar, e se nos anos 1990 tudo vem do pó ao pó retorna, nos anos 2010, tudo que se escreve evapora como pássaros à deriva. Sequelada pelo falso reconhecimento das gerações anteriores, ela está dividida entre o pai, excessivamente preocupado em ter sido um bom pai e ter fracassado na missão (preocupado com o sucesso aqui também), e o ator coadjuvante, que ela tenta seduzir, apesar dele estar excessivamente preocupado com seu próprio fracasso viril. Dividida entre verdade ou consequência ela pratica o narcisismo do distanciamento, sedento de autenticidade.

Óbvio que os determinantes do descontentamento e da insatisfação são de natureza material, mas o capitalismo não sobrevive sem um espírito. A reação “falsa e mistificadora” de que fala Žižek é o correlato narcísico deste problema. A crise de crenças não é uma crise no quê acreditar (Bíblia ou Corão), mas na própria gramática narcísica e simbólica das crenças. Por isso as palavras de Alain Badiou sobre o episódio do Charlie Hebdo são também como comentário involuntário sobre Birdman:

“Várias identidades falsas, cada uma se considerando superior a outra, fixam ferozmente sua dominação local em pedaços deste mundo unificado. Elas dividem o mesmo mundo real, onde os interesses dos agentes são os mesmos em toda parte: a versão liberal do Ocidente, a versão autoritária e nacionalista da China ou da Rússia de Putin, a versão teocrática dos Emirados, a versão fascista dos grupos armados…” (Alain Badiou, “O vermelho e o tricolor”, Blog da Boitempo)

A ideia de que a vida é um teatro está nos fundamentos da modernidade, de Caldeirón de La Barca a Shakespeare, mesmo que se queira acreditar, como Shiner, que não há fundamento algum, só palco e plateia. Birdman é uma anatomia do narcisismo de nossa época porque o mundo não é só palco e plateia. Ele tem coxias, iluminação, camarins, bastidores e até mesmo a beirada do telhado, na qual meditam os candidatos a anjos caídos; o café da esquina, o teatro da frente, os tipos periféricos da rua, a bilheteria, o público pagante e até mesmo o crítico especializado.

Tudo isso permite que a trama se desenrole absorvendo uma das características formais mais típicas de nosso narcisismo fundamentalista: a passagem das cenas ocorre sem corte. Há aceleração do tempo, transições escalonadas pela imagem, câmera no pescoço do protagonista, mas não há o tão decisivo corte em que uma cena termina e outra começa, ainda que com um diminuto intervalo. A trilha sonora baseada quase que exclusivamente em percussão trabalha na mesma direção, pois não permite inferir modulações de humor, apenas momentos de intensificação e depressão. Ocorre que o relógio da história não marca a mesma hora em todos os seus quadrantes. A solução terrorista, não é somente a do suicídio, nem a agressão ao olhar do outro que não o reconhece, ela é também um apelo errante e à deriva, para criar um lugar em meio a um diálogo sem cortes.

Nos diálogos de Birdman não há campo e contra-campo, a câmera foca um objeto intermediário, geralmente decisivo para a compreensão do encontro. Também os travelings citam Godard, não para apreender a totalidade da situação, mas para mostrar como a ilusão de que com a totalidade mostrada vamos perder o essencial. Se Bird, o filme de Alan Parker (1984), retrata o narcisismo dissociativo de dois egressos do Vietnam (um sem rosto, outro que se acha um pássaro), Birdman (2014) é o retrato de um narcisismo associativo, que vive um estado perene de indeterminação, às vezes calculado, entre público e privado, entre solilóquio e diálogo, entre representação e real, entre ficção e verdade.

Portanto quem acha que os atentados são coisa de quem está querendo voltar para a Idade Média, de que sua mensagem representa um anseio de retorno a valores sólidos, comunitários e estáveis, que falaciosamente a esquerda estaria defendendo, está simplesmente equivocado.

Aqui existe uma diferença entre o atentado contra o Charlie Hebdo e as decapitações e imolações promovidas pelo Estado Islâmico. A nova esquerda defende o corte, a suspensão, a retomada da lógica do conflito. Sem ela não haverá mais lugar para a dissonância que não no ato de violência, na encruzilhada das ilusões. O choque narcísico vivido pelos imigrantes, refugiados, excluídos e pelas demais formas de vida primitivas ou ultrapassadas, nada fica a dever ao heroísmo de nossos próprios ídolos. Eles acham que vão sair voando, e às vezes fazem por onde. Eles se revoltam contra o sistema, ignorando suas transformações. Só que a eles não concedemos a virtude da ignorância. Não vamos dar o Oscar para eles, nem exterminá-los como eles fazem conosco, não vamos fazer nada até que entendamos que eles são intimamente como nós.

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Dunker_provisóriaA Boitempo lança este mês o novo livro de Christian Dunker: Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros. A integrar a coleção Estado de Sítio, coordenada por Paulo Arantes, o livro parte de uma psicanálise da vida em condomínios para desenvolver uma aprofundada reflexão interdisciplinar sobre a privatização do espaço público e a inserção da psicanálise no Brasil. Confira a aula dele, no Café filosófico do CPFL Cultura, sobre as transformações no sofrimento psíquico:

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012, seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, no prelo). Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

A rebeldia de Octobriana

Octobriana _ capa-3Por Luiz Bernardo Pericás.

É provável que você, caro leitor, nunca tenha ouvido falar de Octobriana, a sensual e iconoclasta heroína soviética que nadava em lava incandescente e lutava contra uma morsa gigante. Quem ler The Living Sphinx of the Kamchatka Radioactive Volcano 1934 poderá acompanhar esta aventura. Mas há outras, muitas outras, escritas por distintos autores ao longo de vários lustros.

A história desta personagem dos quadrinhos da “Cortina de ferro”, de fato, é pouco conhecida. E nebulosa. O Ocidente só viria a conhecer a loira de cabelos longos (que carregava um revólver na cintura, calçava botas de caubói, tinha uma serpente enrolada no pulso e uma estrela vermelha na testa) depois da publicação do livro Octobriana and the Russian Underground, do tcheco Petr Sadecký, lançado em 1971.

Octobriana_quadrinhos

Sadecký costumava contar que estivera na URSS na segunda metade da década de sessenta, quando teria sido convidado a participar de uma reunião do PPP (Pornografia Política Progressista), um suposto grupo clandestino que se encontrava regularmente para fazer orgias num porão repleto de pôsteres de Lenin nas paredes e pilhas de revistas eróticas jogadas por todos os cantos do recinto. No quarto escuro que visitou, o jovem notou, através de uma espessa cortina de fumaça de cigarro, dezenas de garrafas de bebidas alcoólicas e gibis da Octobriana espalhados pelo chão. Os líderes desta confraria alternativa (teoricamente fundada em 1957, no ano seguinte ao XX Congresso do PCUS e às denúncias de Kruschev contra Stálin) pediram a Sadecký para levar os exemplares para a Europa Ocidental. Ele aceitou a missão e no começo da década seguinte, então, publicaria na Inglaterra o conhecido volume já citado, pelas mãos do editor britânico Tom Stanley.

Mas a narrativa parecia fantasiosa demais para ser verdade. Algo cheirava a lorota. E, ao que tudo indica, era mesmo. Afinal, acredita-se que tudo não passou de uma invencionice de um rapaz ambicioso em busca de atenção, fama e dinheiro.

Aparentemente Sadecký encomendou os desenhos a dois amigos, os também tchecos Bohumil Konecný e Zdenek Burian, que produziram, juntos, as tiras sobre uma guerreira amazona. Mas o tema não causaria, aparentemente, maior interesse ou impacto em outros países. Assim, Sadecký decidiu roubar a arte dos colegas, mudou algumas características da heroína (incluindo, principalmente, uma estrela escarlate na fronte) e lhe deu um nome que remetia à revolução de Outubro. Pronto! Só faltava alterar os textos dos balões. Os diálogos foram prontamente modificados e politizados. Agora, ele tinha um produto que poderia seduzir os editores ocidentais. Era só criar uma mentira sobre as origens daquele comic book e ele poderia ganhar uma boa grana com sua publicação. Só que o rapaz não pediu autorização aos cartunistas de Praga que, indignados com o ocorrido, desmascararam Sadecký e o processaram numa Corte da República Federal da Alemanha.

Octobrianas

O émigré escroque conhecia os famosos ilustradores desde garoto. Começou como admirador, e depois se tornou íntimo da dupla. Ludibriou a ambos, convencendo-os a ceder vários desenhos inéditos, os quais tentaria negociar com editoras em outras partes do mundo. Simplesmente afanou o material, reelaborou seu conteúdo e o comercializou de forma indevida. Afinal, Octobriana acabou se tornando uma crítica ao sistema soviético. E isso poderia trazer sérios problemas para os quadrinistas em sua terra natal.

De fato, os dois foram escorraçados publicamente, sofrendo um total repúdio das autoridades de seu país. Sem contar que não ganharam um tostão com a obra. Ainda assim, historietas como Octobriana and the Atomic Suns of Chairman Mao certamente interessaram os fãs dos quadrinhos alternativos do “mundo capitalista”.

Ao longo dos anos, outros ilustradores iriam interpretar à sua maneira esta personagem (que acabou em domínio público). Entre 1979 e 1987, Bryan Talbot desenharia a Octobriana, seguido por Larry Weltz, que produziria, em 1992, Cherry’s Jubilee, uma trama com forte carga erótica. Os finlandeses Reima Makinen, Petri Tolppanen e Timo Niemi, por sua vez, criaram Octobriana and the Tenth Circle of Hell. Cartunistas como Stuart Taylor e Karel Jerie, manteriam esta tendência.

Como se vê, a guerreira seria retratada por muitos artistas estrangeiros. É só lembrar da interessante (e surrealista) The Commie Zombie Dictator From Hell!, com roteiro de John A. Short e desenho de Andy Nixon e Shaun Bryan, na qual Lenin se levanta de seu túmulo de vidro, no mausoléu em Moscou, e manda os guardas locais matarem a heroína (para variar, vestida em trajes sensuais).

“Eu darei um jeito no camarada Lenin!”, exclama a jovem contestadora, atirando várias vezes no líder bolchevique. Mas de nada adiantam os disparos. Afinal, ele era um zumbi! Nem uma cruz apontada para ele fazia efeito…

Lenin_Octobriana_Boitempo_completo

O antigo dirigente comunista apenas dá uma gargalhada, zombando de todas as tentativas de destruí-lo, e ordena:

“Kill Octobriana!”

A resposta da jovem vem em seguida:

“And you used to be such a great public speaker!” Afinal, para ela, “it’s always disappointing when you meet your heroes!”

O zumbi de Lenin está acabando com tudo à sua volta quando, de repente, solta um grito desesperado. Seus olhos embranquecem, a voz some e sua cabeça começa a pegar fogo. Isso tudo porque ele se dá conta de que… está em frente a um McDonald’s! E aquela lanchonete, símbolo do imperialismo ianque, era pior do que alho, estaca de madeira e crucifixo para um vampiro! Que história!

O cantor britânico David Bowie cogitou fazer um filme sobre a personagem, mas o projeto nunca foi adiante. Ainda assim, foi lançada anos atrás Octobriana and the finger of Lenin (2003), uma fita sem maior destaque.

De qualquer forma, o leitor agora já conhece a provocadora heroína soviética com uma estrela vermelha na testa. É a rebelde Octobriana, pronta para novas aventuras. E sempre disposta a contestar!

Octobriana _ fim

Conhece o Barricada, novo selo de quadrinhos da Boitempo? Como o próprio nome sugere, o selo se dedica a títulos libertários, de resistência, nacionais e internacionais, garimpados por , um conselho editorial composto por Luiz Gê, Ronaldo Bressane, Rafael Campos Rocha e Gilberto Maringoni.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O reino da cozinha: Com a mão na massa

15 02 05 O reino da cozinha_Com a mão na massaPor Flávio Aguiar.

Na última – e primeira – crônica desta série, “O reino da cozinha”, contei como minha avó exercia a monarquia absoluta naquele reino. Mas havia momentos de exceção. Um deles ocorria de quando em quando, num fim de semana. Preparava-se e comia-se uma macarronada domingueira.

A festa começava no sábado a tarde. Porque naqueles idos não havia tanta massa pronta no supermercado. Aliás, a rigor, nem havia supermercado. O primeiro em Porto Alegre abriu quando eu já era grandote. Me lembro que foi na prefeitura do Brizola, e ele era público, como eram os recentes sacolões em São Paulo antes da privatização de tudo. Chamava-se Cobal, o super – gaúcho gostava de abreviar tudo, até de vez em quando a vida, naquelas revoluções apopléticas de antanho.

As massas eram feitas em casa. Reunia-se uma companhia: amigas, tias, primas, todas mulheres, é claro. E tocava-se a fazer a massa.

Primeiro tinha aquilo maravilhoso de misturar a farinha e os ovos. Eu, que gostava de amassar barro no quintal, adorava meter a mão na maçaroca feita da farinha branca, dos ovos divididos ente a transparente clara e a dourada gema, e ficar amassando aquela mistura entre os dedos. Depois vinha o momento em que as massas informes se reduziam a verdadeiras línguas longas e amarelas de massa pronta ao serem passadas na máquina cheia de bobinas e com uma manivela que – maravilha das maravilhas – era eu quem tocava. E ainda havia um segundo momento – em que as línguas de massas passavam novamente pela máquina, com bobinas trocadas, que as reduziam a fios, que eram os que seriam comidos no almoço do domingo, com o molho de carnes e tomates que, exclamo, minha avó preparava: o cetro voltava as suas mãos. Também aqui eu exercia meus dotes manuais, tocando as manivelas. Terá isto alguma relação com minha preferência no futuro por ser goleiro?

Este foi meu primeiro passo adentro daquele reino da cozinha, aprendendo com minha avó que tão importante quanto exercer o cetro era por vezes saber delegar o poder que ele representava. Uma lição que desenvolvi na minha futura vida de sindicalista.

Mas havia mais.

Naqueles sábados de convívio com as mulheres aprendi a curtir a sua conversa. Porque entre uma massa e outra, uma bobina e mais uma, passavam-se em revista as fofocas e futricas da semana. Era um desfiar – como as massas nas bobinas – de suspeitas, comentários maldosos, confidências traídas, medos, traições aventadas ou realizadas, enfim, um universo muito mais interessante do que as insípidas conversas dos homens sobre futebol, cavalos, carros, ou até política.

Desconfio que as mulheres então achavam que crianças que nem eu eram bobas demais para perceber o significado daquelas frases, como uma que guardei em minhas orelhas hoje tão fatigadas, mas então sempre alertas: “é, ele frequenta uma aqui na rua de cima, mas eu finjo que não sei”. Desconfio que foi aí que começou a se tecer minha veia de escritor. Afinal, seja como for, o que a gente desfia são fofocas sobre a vida alheia ou a própria.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Alain Badiou: A farsa do Charlie Hebdo

Alain Badiou[Alain Badiou: contra os crimes terroristas, é preciso reativar a ideia comunista e não o totem da República francesa]

Por Alain Badiou.*

Para Alain Badiou, o respaldo do atentado ao semanário francês adquiriu ares de um teatro farsesco. Em artigo intitulado “O vermelho e o tricolor” [Le rouge et le tricolore], publicado no Le monde no final de janeiro de 2015, o filósofo francês situa o episódio no seio de um mundo completamente tomado pelo capitalismo global e “predatório”. Na batalha de identidades e contra-identidades nacionais, religiosas, ideológicas encenadas neste contexto, a França recorre ao “totem” de sua République démocratique et laïque – auto-imagem fundada, lembra Badiou, nos massacres da Comuna de Paris de 1871. São nos vasos comunicantes entre o falatório pós-atentado da liberdade de expressão e a política de militarização da vida social francesa que Badiou identifica a atual figura desse perverso “pacto republicano”, do qual não poupa nem o humor do que chama dos “ex-esquerdistas” do Charlie Hebdo. O atentado de janeiro, por outro lado, aparece decifrado como um crime essencialmente fascista – ao que Badiou insiste: contra o antisemitismo e a lógica identitária não é o tricolor francês que se deve erguer, e sim a bandeira vermelha. A tradução é de Danilo Chaves Nakamura, para o Blog da Boitempo. Confira:

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Hoje o mundo está totalmente tomado pela figura do capitalismo global, submisso ao governo da oligarquia internacional e subjugado à abstração financeira como única figura reconhecidamente universal.

Neste contexto desesperador montou-se uma espécie de peça histórica farsesca. Sobre a trama geral do “Ocidente”, pátria civilizada do capitalismo dominante, contra o “Islamismo”, símbolo do terrorismo sanguinário. Aparentemente teríamos, de um lado, os grupos de assassinos e indivíduos fortemente armados, acenando para garantir o perdão de Deus; e do outro, em nome dos direitos humanos e da democracia, selvagens expedições militares internacionais que destroem Estados inteiros (Iugoslávia, Iraque, Líbia, Afeganistão, Sudão, Congo, Mali…), que fazem milhares de vítimas, que chegam para negociar com os bandidos mais corruptos em busca de poços, minas, recursos alimentares e enclaves onde as grandes empresas possam prosperar.

Esta é uma farsa que transforma as guerras e as atividades criminosas na principal contradição do mundo contemporâneo, a que alcança a essência da questão. Mas hoje, soldados e policiais da “guerra ao terror”, bandos armados que reivindicam um islã mortal e todos os Estados, sem exceção, pertencem ao mesmo mundo, o mundo do capitalismo predatório.

Várias identidades falsas, cada uma se considerando superior a outra, fixam ferozmente sua dominação local em pedaços deste mundo unificado. Elas dividem o mesmo mundo real, onde os interesses dos agentes são os mesmos em toda parte: a versão liberal do Ocidente, a versão autoritária e nacionalista da China ou da Rússia de Putin, a versão teocrática dos Emirados, a versão fascista dos grupos armados… As populações de todas as partes defendem, por unanimidade, a versão que sustenta o poder local.

Isto é tão certo que o verdadeiro universalismo – aquele que reconhece o destino da humanidade na própria humanidade e, portanto, a nova e decisiva encarnação histórico-político da ideia comunista – não será um poder em escala mundial sem anular a dominação dos Estados pelas oligarquias proprietárias e seus agentes, a abstração financeira e, finalmente, as identidades e contra-identidades que assolam as mentes e necessitam morrer.

A identidade francesa: a “República”

Nesta guerra de identidades, a França tenta se distinguir com a invenção de seu totem: a “república democrática e laica” ou o “pacto republicano”. Este totem valoriza a ordem estabelecida pelo parlamento francês – pelo menos, desde a sua fundação, a saber, o massacre em 1871 de 20.000 trabalhadores nas ruas de Paris, por Adolphe Thiers, Jules Ferry, Jules Favre e outras vedetes da esquerda “republicana”.

Este “pacto republicano” ao qual aderiram muitos ex-esquerdistas, até o Charlie Hebdo, sempre suspeitou da trama de coisas assustadoras nos subúrbios, nas fábricas da periferia e nos bares escuros do subúrbio. Com inúmeros pretextos, uma República sempre povoada de prisões, de perigosos jovens mal educados que lá vivem. Na República, ocorreu também a multiplicação de massacres e de novas formas de escravidão exigidos para a manutenção da ordem no império colonial. É este império sangrento que encontrou seu estatuto de fundação nas declarações do mesmo Jules Ferry – indubitavelmente, um ativista do pacto republicano – que exaltava a “missão civilizadora” da França.

Agora, veja você, os inúmeros jovens que povoam nossos subúrbios, além de atividades suspeitas e flagrante falta de educação (estranhamente, ao que parece, a famosa “escola republicana” não tem sido capaz de fazer nada e assumir que a culpa é sua e não dos alunos), são filhos de proletários de origem africana ou vieram por conta própria da África para sobreviver e, consequentemente, na maioria das vezes, são muçulmanos. Em suma, de uma só vez, proletários e colonizados. Duas razões para desconfiar e tomar sérias medidas repressivas.

Suponhamos que você é um jovem negro ou um jovem com aspectos árabes, ou ainda, uma jovem mulher que decidiu, no sentido da livre revolta, já que é proibido, cobrir a cabeça. Bem, assim você terá sete ou oito vezes mais chances de ser parado na rua por nossa polícia democrática e, muitas vezes ser retido em uma delegacia, o que indica que se você tiver a cara de um “francês”, simplesmente, não deve ter a cara de um proletário nem de um ex-colonizado. Nem de um muçulmano.

Charlie Hebdo, em certo sentido, protestava com esses meios e costumes policiais no estilo “divertido” de piadas com conotação sexual. Nada muito novo. Lembrem-se das obscenidades de Voltaire sobre Joana d’Arc: a donzela de Orleans é um poema digno de Charlie Hebdo. Por si só, este poema sujo dirigido contra uma heroína sublimemente cristã, autoriza a dizer que as verdades e as luzes do pensamento crítico não são ilustradas por esse Voltaire medíocre.

Ele ilumina a sabedoria de Robespierre quando ele condena todos os que fazem da violência antirreligiosa o coração da Revolução e obtendo somente a deserção popular e a guerra civil. Ele nos convida a considerar que o que divide a opinião democrática francesa é, conscientemente ou não, o lado constantemente progressista e realmente democrático de Rousseau, ou então, o lado das negociatas, dos ricos e especuladores céticos e sensuais, que como o gênio do mal alojado neste Voltaire também é capaz, por sua vez, de autênticos combates.

O crime de tipo fascista

E os três jovens franceses que a polícia rapidamente matou? Eu diria que eles cometeram o que deve ser chamado de crime de tipo fascista. Eu chamo de crime de tipo fascista um crime que tem três características.

Em primeiro lugar, ele é orientado, não de maneira cega, por suas motivações ideológicas, de caráter fascista, que são estritamente identitárias: nacional, racial, comunitária, consuetudinária, religiosa… Nestas circunstancias, os assassinatos são antissemitas. Muitas vezes, o crime fascista visa publicitários, jornalistas, intelectuais e escritores tais como os assassinos representantes do lado oposto. Nas circunstancias, o Charlie Hebdo

Em seguida, ele é de uma violência extrema, assumido, espetacularmente, dado que ele procura impor a ideia de uma determinação fria e absoluta que, no entanto, inclui de forma suicida a probabilidade de matar o assassino. Este aspecto de “viva la muerte!” de aparente niilismo, está em ação.

Em terceiro lugar, o crime visa, por sua grandiosidade, pelo seu efeito de surpresa, pelo seu lado fora da norma, criar um efeito de terror e estimular, por conseguinte, do lado do Estado e da opinião, reações descontroladas, completamente fechada em uma vingativa contra-identidade, as quais, aos olhos dos criminosos e dos seus patrões, justificarão após o fato, por simetria, o atentado sangrento. E foi isso o que aconteceu. Neste sentido, o crime fascista obteve uma espécie de vitória.

O Estado e a opinião

De fato, desde o inicio, o Estado estava envolvido na utilização desproporcional e extremamente perigosa de crime fascista, porque ele está inscrito no registro das identidades da Guerra Mundial. O “fanático muçulmano” se opõe descaradamente ao bom democrata francês.

A confusão estava no auge quando vimos o chamado do Estado, claramente autoritário, para a manifestação. Caso Manuel Valls não tivesse a intenção de capturar os fugitivos e não tivesse convocado as pessoas, uma vez que elas têm demonstrado uma obediência identitária sob a bandeira francesa, elas se esconderiam em suas casas ou vestiriam o uniforme de reservista sob o som da corneta na Síria.

Assim, no momento mais baixo de popularidade, nossos líderes têm tido a capacidade, através de três fascistas pervertidos que não poderiam imaginar tal triunfo, de aparecer diante de milhares de pessoas, também aterrorizadas pelos “muçulmanos” e alimentadas por vitaminas de democracia, o pacto republicano e a grandiosa soberba da França.

A liberdade de expressão, vamos falar sobre ela! Era praticamente impossível durante todos os primeiros dias deste caso, expressar o que estava acontecendo por outro ponto de vista que não aquele que consiste em se encantar por nossa liberdade, nossa República, em amaldiçoar a corrupção de nossa identidade por jovens muçulmanos proletários e suas filhas horrivelmente cobertas com véu, e em se preparar corajosamente para a guerra contra o terror. Ouvimos o seguinte grito dessa admirável liberdade de expressão: “Somos todos policiais”.

Na realidade é natural que o pensamento único e a submissão ao medo sejam regras em nosso país. A liberdade em geral, incluindo a de pensamento, de expressão, de ação, da própria vida, consiste, hoje em dia, em tornar-se unanimemente auxiliar da polícia para o rastreamento de dezenas de agrupamentos fascistas, para delação universal de suspeitos barbudos ou cobertos com véu, e criar uma exceção permanente nos escuros conjuntos habitacionais, herdeiros dos subúrbios onde já mataram os communards? Por outro lado, a tarefa central da emancipação, da liberdade pública, consiste em agir conjuntamente com a maioria desses jovens proletários dos subúrbios, a maioria das jovens, cobertas com véu ou não, pois isto não importa. Nos quadros de uma nova política, que não se refere a nenhuma identidade (“os proletários não tem pátria”) prepara-se uma figura igualitária de uma humanidade que finalmente se apropria do seu próprio destino? Uma política que considera de forma racional que nossos verdadeiros mestres impiedosos, os ricos governantes do nosso destino, devem ser finalmente demitidos?

Houve na França, há muito tempo, dois tipos de manifestações: as sob a bandeira vermelha e as sob a bandeira tricolor. Acredite em mim: no que concerne a reduzir a nada os pequenos grupos fascistas identitários e assassinos – aqueles que apelam para formas sectárias do Islã, a identidade nacional francesa ou a superioridade Ocidental –, não são as tricolores, controladas e utilizadas pelos poderosos, que são eficientes. Estas bandeiras são outras, as vermelhas, e que precisam voltar.

* Publicado em francês no Le monde de 27 de janeiro de 2015. A tradução é de Danilo Chaves Nakamura, para o Blog da Boitempo.

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Alain Badiou é tido como um dos principais filósofos franceses da atualidade. Nascido em 1937 na cidade marroquina de Rabat, lecionou filosofia entre 1969 e 1999 na Universidade de Paris-VIII e, atualmente, é professor emérito da École Normale Supérieure de Paris, onde criou o Centre International d’Étude de la Philosophie Française Contemporaine. Com uma trajetória intelectual marcada por forte ativismo político, Badiou é autor de diversos livros, dentre os quais destacamos os mais recentes A hipótese comunista (2012) e São Paulo: a fundação do universalismo (2009), ambos publicados pela coleção Estado de Sítio, da Boitempo.