Guia de leitura | ADC#3

O manifesto socialista
Bhaskar Sunkara

Guia de leitura / Armas da crítica #03

O que, afinal, significa socialismo? E que cara teria um sistema socialista no século XXI? 

Nesta obra, Bhaskar Sunkara faz um mergulho descontraído e informativo na história do socialismo desde suas origens com Marx e Engels, passando pelas experiências decisivas do século XX, para apresentar uma visão realista de como pode ser o futuro dessa tradição política hoje. 

Articulando um acúmulo histórico e sua própria experiência de militância, o fundador e editor da revista Jacobin explica como os socialistas podem conquistar melhores condições de vida e moradia, criar instituições democráticas nas comunidades e locais de trabalho, e, ao mesmo tempo, combater opressões como o racismo e o machismo.

Ao mostrar, ponto por ponto, como e por que o socialismo pode funcionar hoje, O manifesto socialista é um livro para qualquer pessoa interessada em buscar uma solução real para as desigualdades abissais que assolam nosso tempo.

autor Bhaskar Sunkara
tradução Artur Renzo
orelha Victor Marques
capa Gabriela Heberle
edição Tulio Kawata
páginas 296

Quem é Bhaskar Sunkara?

Bhaskar Sunkara nasceu poucos meses antes da queda do muro de Berlim, em 1989. Quinto filho de uma família de imigrantes de Trindade e Tobago, foi o único a nascer nos Estados Unidos. Na adolescência, tornou-se socialista ao acaso, por curiosidade intelectual, absorvendo literatura marxista na biblioteca pública do bairro. Mais tarde, sob a influência de Vivek Chiber e Adolph Reed, se tornaria uma das vozes mais destacadas na esquerda norte-americana de sua geração. Agora em 2020 chegou inclusive a aparecer na lista de 40 figuras mais influentes sub-40 da revista Fortune na categoria “Governo e Políticas”.

Sunkara é fundador e editor da revista Jacobin, que ele lançou em 2010 durante seu período de graduação na Universidade George Washington. Como articulista, escreveu para os periódicos The New York Times, The Guardian, VICE e The Washington Post. Ele também é publisher das revistas Tribune e Catalyst: A Journal of Theory and Strategy. Vive e trabalha em Nova York.

“O que dizer do objetivo final do socialismo? Estender a democracia radicalmente às nossas comunidades e aos nossos locais de trabalho, acabar com a exploração dos humanos por outros humanos.

Fundamentalmente, a estratégia política da esquerda precisa conseguir colocar essas questões mais radicais na mesa, uma a uma, empenhando-se, ao mesmo tempo, para não perder a mobilização. E, ao mesmo tempo que fazemos a defesa das conquistas obtidas, precisamos lutar para evitar a burocratização paralisante que levou os grandes movimentos social‑democratas do início do século XX a se acomodarem ao sistema de maneira autodestrutiva.

Não será fácil, mas ainda temos um mundo a vencer.”

“A Jacobin foi fundada por Bhaskar Sunkara em 2010 em Nova York. Seu objetivo era simples: organizar debates socialistas profundos, porém acessíveis. Desde então, a revista é lida por socialistas, mas não apenas socialistas. Sua função é ampliar discussões, destrinchar diferenças, promover sínteses e contextualizar o marxismo no século XXI – para o desgosto daqueles que insistem em dizer que Marx e sua trupe são anacrônicos.

Agora, nosso país ganha sua própria versão, lusófona e brasileiríssima. Nasce Jacobin Brasil. Nossa revista se junta à Jacobin Italia e a parceiros na Alemanha com a Ada Mag e no Reino Unido com a Tribune. Provavelmente, não seremos a última aventura de expansão da rede Jacobin. Somos, porém, a primeira sucursal no Sul Global e que abordará assuntos principalmente da perspectiva de locais subdesenvolvidos, afetados pelo imperialismo e que lidam com dilemas muito particulares na formação do capital e da classe trabalhadora.

Não estamos sozinhos. Nosso portal e nossa revista se une a um time importante de portais de esquerda e progressistas em geral que perseveram nessa conjuntura. Chegamos para somar. Entre nós, há militantes de diferentes pontos da trincheira que entendem a importância de se comunicar bem e com substância em tempos de anticomunismo, perpetrado desde o campo fascista ao liberal.

Não somos uma revista acadêmica e nossos artigos passam por um trabalhoso processo de edição para garantir equilíbrio entre precisão, robustez teórica e uma linguagem sem rodeios. Queremos ser lidos por todos aqueles interessados – e que seu interesse venha a ser de se juntar aos socialistas também.

Sabrina Fernandes, “Razão, Revolta e Jacobin Brasil

“A partir de seu trabalho pioneiro com a Jacobin, Bhaskar Sunkara tem sido uma das vozes mais importantes na introdução do socialismo a toda uma nova geração que, mergulhada em desigualdades e crises econômicas, torna-se receptiva a seus preceitos. Escrito com urgência e clareza comoventes – dispensando o jargão acadêmico –, este Manifesto socialista é crucial para dissipar os mitos e a propaganda negativa em torno socialismo e iluminar suas verdadeiras virtudes.”

GLENN GREENWALD

“Qualquer um que se pretenda socialista, ou que se interesse por ideias socialistas (mesmo que apenas para saber como o outro lado pensa), precisa travar um diálogo com as diversas vertentes dessa história, desde Marx até os dias atuais. Frequentemente tachados de utópicos com olhos voltados apenas para o futuro, os socialistas, na verdade, foram desde o início estudiosos da história. Os socialistas de hoje precisam seguir essa tradição. Em questão de décadas, o socialismo passou de um sonho marginal a regime que vigorava em uma grande parte do mundo.”

“A social-democracia de fato fortaleceu o poder dos trabalhadores a patamares que poucos pensavam ser possível, mas ainda deixou o capital numa posição estruturalmente dominante.

Com o poder de reter investimento, com a economia ainda dependente de seus lucros, os capitalistas foram capazes de manter governos democráticos reféns e reverter reformas. O poder econômico deles se traduziu em poder duradouro sobre o processo político.

A social-democracia constitui um passo na direção correta, mas um passo em última instância insuficiente, por conta de sua vulnerabilidade.”

Socialismo para o nosso tempo

Sunkara diz que gostaria de ter escrito este Manifesto socialista na maturidade, aos 68 anos, mas a conjuntura política o forçou a fazê-lo quatro décadas antes. A pressa se explica pela emergência repentina de uma nova geração de militantes radicais no mundo anglófono, que catapultou veteranos socialistas até então pouco conhecidos – como Bernie Sanders e Jeremy Corbyn – à inesperada viabilidade eleitoral, abrindo uma via para o que o autor chama de “social-democracia de luta de classes”. Este livro nasce do desejo de oferecer a essa juventude uma entrada acessível aos problemas da história e estratégia do movimento socialista.

Nesses debates, Sunkara não é imparcial: assume a tradição do socialismo democrático, inspirado na fórmula do “socialismo a partir de baixo” de Hal Draper. Segundo essa perspectiva, o socialismo é o projeto político da classe trabalhadora, das grandes maiorias – a conquista da igualdade por meio da democracia. Só poderia ser alcançado, portanto, pela participação livre e ativa das massas nas decisões políticas, sociais e econômicas. Trata-se de levar a sério o lema marxista inscrito nos princípios da Primeira Internacional: “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”.

Victor Marques

“Os socialistas não rejeitam as lutas contra a opressão; ao contrário, buscam incorporá-las em um movimento mais amplo dos trabalhadores. Devemos nos esforçar para eliminar a intolerância, o chauvinismo e qualquer forma de preconceito no interior das nossas organizações.

Isso significa levar a igualdade a sério, não como uma meta para um futuro distante, mas como uma prática no aqui e agora. Mas também implica evitar uma “cultura do cancelamento” rasteira, bem como o tipo de política identitária que, levada ao seu extremo, nos conduzirá a uma política hiperindividualizada e antissolidarista.

A hipérbole e a política da exposição da humilhação pessoal são uma receita pronta para desmoralização, paranoia e derrota.”

A perspectiva de Sunkara

Para desenhar uma imagem contemporânea do que poderia ser um futuro depois do capitalismo, assim como uma rota viável para nos levar de onde estamos aonde queremos chegar, Sunkara analisa criticamente, mas sem condenações morais, as conquistas e os limites dos grandes movimentos de massa do século XX que descendem do marxismo: a social-democracia ocidental, o comunismo soviético e as experiências de libertação nacional no terceiro mundo.

Que o livro tenha sido escrito com a juventude norte-americana progressista em mente, a fim de conquistá-la para a análise de classe marxista, é sua grande vantagem – e também desvantagem: o resultado é uma obra bem-humorada, leve e didática, mas centrada na perspectiva do Norte global. Para quem se interessa pela revitalização do socialismo como fenômeno com audiência de massas no coração do capitalismo desenvolvido, trata-se sem dúvida de leitura indispensável.

Escrito na linguagem jacobina irreverente que tornou a revista que edita famosa, seu sentido político é mais profundo e sério: contribuir para a reconstrução de uma esquerda com vocação majoritária, capaz de animar organizações de massa da classe trabalhadora à conquista e transformação do poder de Estado. Fiel a um projeto universalista de emancipação, a convicção de Sunkara é de que o internacionalismo, a ação coletiva, a radicalização da democracia e a centralidade da luta de classes formam o caminho para o socialismo no nosso tempo.

Victor Marques

“Para qualquer social-democrata, independente das suas intenções, sempre será mais fácil deslocar-se à direita do que à esquerda. De um lado estarão garantias de estabilidade por parte de interesses poderosos; do outro, greves de capital e resistência obstinada. Hoje, mais ainda do que no século XX, os socialistas democráticos enfrentam não apenas o problema de como conquistar o poder, mas também o de como lidar com as tentativas do capital de minar seu programa.

Em outras palavras, o compromisso social-democrático é inerentemente instável, e precisamos, portanto, encontrar uma maneira de conseguir avançar, em vez de recuar, diante de tal instabilidade.

A social-democracia enfrenta desafios em duas direções. O capital vai procurar controlá-la de saída, mas, se as reformas iniciais forem bem-sucedidas, os trabalhadores terão mais força para fazer greves e o poder mais elevado de barganha na ponta do trabalho pode produzir incursões insustentáveis na lucratividade das empresas.

O Estado de bem-estar social das décadas de 1960 e 1970 não apaziguou os trabalhadores; ele os tornou mais ousados. As “demandas de transição”, como a garantia empregatícia, podem fazer o mesmo em nosso tempo. Precisamos entender, porém, que, quando a crise vier, o próximo passo não será recuar, mas avançar ainda mais.”

15 lições para o socialismo

  1. A social-democracia da luta de classes
    não fecha caminhos para os radicais; ela os abre.
  2. A social-democracia da luta de classes tem potencial de vencer uma grande eleição nacional hoje.
  3. Ganhar uma eleição não é a mesma coisa que conquistar o poder.
  4. Eles farão de tudo para nos deter.
  5. Nossas demandas imediatas são bastante realizáveis.
  6. Devemos passar rapidamente da social-democracia para o socialismo democrático.
  7. Precisamos de socialistas.
  8. A classe trabalhadora mudou nos últimos 150 anos – mas não tanto quanto pensamos.
  9. Os socialistas devem se incorporar nas lutas da classe trabalhadora.
  10. Não basta trabalhar junto com sindicatos em prol de transformações progressistas. Precisamos travar batalhas democráticas no interior deles.
  11. Não basta termos uma rede mais solta de esquerdistas e trabalhadores de base. Precisamos de um partido político.
  12. Precisamos levar em conta as particularidades nacionais.
  13. Precisamos democratizar nossas instituições políticas.
  14. Nossa política deve ser universalista.
  15. A história é importante.

“Embora o socialismo tenha sido ressuscitado, seu pulso está fraco. A direita populista ainda parece mais bem preparada que a esquerda socialista para mobilizar a raiva, o ressentimento e a conjuntura de desigualdade que as políticas neoliberais inevitavelmente produzem.

Para ter sucesso, a esquerda precisa não apenas construir uma narrativa de oposição às elites econômicas, como saber conquistar vitórias reais que também ajudem a construir uma rede de instituições para enfrentar o capital.”

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos três ensaios de fôlego sobre socialismo no século XXI.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Erik Olin Wright

Por que ser anticapitalista?


Alysson Leandro Mascaro

Carta sobre o socialismo


David Harvey

Ideias para a prática política

Vídeos

Na TV Boitempo, Victor Marques apresenta O manifesto socialista com mediação de Felipe Martins. No canal da Tapera Tapera, o debate de apresentação da Jacobin no Brasil, com Sabrina Fernandes, Sean Purdy e Victor Marques, que contou com a presença de Bhaskar Sunkara.

Para aprofundar…

Aquela compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Bhaskar Sunkara Instagram @sun.ray.sun.ray
Twitter @sunraysunray

Sabrina Fernandes
Instagram @teseonze
Twitter @sabf
YouTube /teseonze

Victor Marques
Twitter @victorxis

Jacobin

Jacobin Brasil

Jacobin Itália

Rádio Jacobina: Pode o socialismo furar a bolha?, Aline Klein, Jones Manoel e Debora Baldin, ago. 2019.

Armas da crítica: CB#08 –Democracia, trabalho e socialismo“, com Ruy Braga, abril 2019.

“S” de Socialismo, Sabrina Fernandes, Tese Onze.

The Socialist Manifesto, lançamento do Manifesto Socialista em Nova York, com Bhaskar Sunkara e Amber Frost [em inglês], Strand Book Store.

As limitações do reformismo“, por Kjell Östberg, Jacobin, 02 out. 2020.

Entrevista com Bhaskar Sunkara: A campanha de Sanders e os Estados Unidos em movimento“, por Thiago Aguiar, Revista Movimento, jul.-set. 2016.

Democracia e socialismo“, por Florestan Fernandes, Crítica Marxista n. 3, 1996 [1989].

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