Blog da Boitempo

Ricardo Antunes: Um precioso “livro-síntese” sobre o desenvolvimento capitalista

Ricardo Antunes na sede da editora Boitempo, durante gravação de série sobre seu livro O privilégio da servidão para a TV Boitempo. (Foto: Artur Renzo)

Por Ricardo Antunes.

O processo de desenvolvimento capitalista enfeixa um conjunto de elementos intimamente relacionados. Podemos recordar a expansão marítima, que possibilitou o salto transatlântico e a ampliação do capital comercial; a gestação do Estado nacional e a criação de uma rude acumulação primitiva nas colônias, cujo excedente econômico enriqueceu sobremaneira as metrópoles – sem esquecer as migrações camponesas criando o mundo operário e a explosão continuada do universo maquínico industrial.

Mas como efetivar a expansão da produção de mercadorias sem um sistema de consumo, distribuição, troca e circulação? Sem a infraestrutura inicial para sua implantação, como seria possível consolidar a lógica do monopólio (e do monopsônio), que impregnava o sentido da colonização? Como acolher a enorme força de trabalho negra que aqui aportou e negociar as mercadorias produzidas ao longo de séculos? Onde encontrar esse espaço de enfeixamento entre produção, exportação e importação, que se desenvolve até nossos dias?

Um porto no capitalismo global retrata com riqueza essa relevante temática. Seu subtítulo – Desvendando a acumulação entrelaçada no Rio de Janeiro – estampa como o porto se converteu em locus vital de articulação, desde a época da acumulação primitiva até o mundo burguês do presente. Refazendo cuidadosamente esse longo percurso histórico, os autores mostram como o espaço portuário se transforma em um “lugar-síntese” que solda os laços entre produção colonial e acumulação metropolitana, momento primeiro de conjugação entre os interesses das burguesias nativas e forâneas que se mantém sob o capitalismo financeirizado de nossos dias e do qual o projeto Porto Maravilha é expressão.

Descortinando sua rica trajetória, recuperando os fios históricos e sociais que atam a vida colonial ao cenário atual, os autores demonstram que o porto (e seu entorno) “não funcionava apenas como porta de entrada e saída de mercadorias e pessoas”, mas também como “cemitério de africanas e africanos recém-chegados ao Brasil, mercado de escravos e lugar da prestação de serviços variados”.

Trata-se, portanto, de um “livro-síntese” precioso.

“Num fio histórico ilustrado e minucioso, os autores dissecam como violência, expropriação e despossessão constituem o contínuo do que denominam acumulação entrelaçada a partir da pilhagem da zona portuária do Rio de Janeiro. Obra indispensável para decifrar o capitalismo contemporâneo.” – Lena Lavinas, Universidade Federal do Rio de Janeiro

“Segundo Rosa Luxemburgo, a acumulação primitiva não está apenas na origem do capitalismo; ela é seu motor dinâmico, que se renova num permanente ciclo de expropriação, violência e injustiças. Os autores aplicam esse conceito para analisar as transformações do porto carioca. Fiel à Rosa e sua teoria, este é um livro pioneiro, provocador e herege.” – Marcelo Paixão, Universidade do Texas, Austin

“As recorrentes violências sociais no porto do Rio de Janeiro foram escancaradas neste século, com Olimpíadas e Copa do Mundo. Expropriações e extorsões se multiplicam. Este livro examina o processo, mediante o entrelaçamento rigoroso de teoria, história e análise social crítica.” Virgínia Fontes, Universidade Federal Fluminense


Coleção Mundo do Trabalho

Coordenação Ricardo Antunes
Conselho editorial Graça Druck, Luci Praun, Marco Aurélio Santana, Murillo van der Laan, Ricardo Festi, Ruy Braga

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Ricardo Antunes é professor titular de sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da coleção Mundo do Trabalho, da Boitempo Editorial. Organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (2007) e Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual (2009), ambos publicados pela Boitempo. É autor, entre outros, de Os sentidos do trabalho (1999), O caracol e sua concha (2005), O continente do labor, (2011) e o mais recente O privilégio da servidão, que acaba de ganhar uma nova edição, revista e ampliada, este ano.