9 notas sobre a conjuntura pós-eleitoral brasileira

É preciso uma profunda avaliação do que está se passando no Brasil. Carlos Eduardo Martins propõe nove reflexões iniciais para ajudar nesta direção.

Por Carlos Eduardo Martins.

É preciso uma profunda avaliação do que está se passando no Brasil. A seguir, nove notas iniciais para ajudar nesta direção:

1) Perdemos para um novo ator político que sela a aliança entre uma burguesia emergente e mestiça, centrada no empresariado neopentecostal, o agronegócio, o rentismo, o baixo clero da oficialidade militar, o grande capital estrangeiro e o imperialismo estadunidense mais extremado e anti-liberal;

2) Este ator político maneja o discurso do empreendedorismo como disfarce para a eliminação de direitos sociais e imposição das mais altas taxas de superexploração do trabalho. Os direitos são tratados como privilégios e formas de opressão sobre os trabalhadores que vivem fora deste mundo, que os sustentariam com o suor do seu trabalho com o qual pagam os impostos;

3) Essa aliança possui importantes contradições internas e conflitos com o bloco de poder dominante no Brasil. Uma das contradições está no aparente discurso nacionalista deste ator emergente e o radical entreguismo do programa econômico articulado por Paulo Guedes, que supõe a liquidação das estatais, o fim da Petrobrás, a entrega do Pre-Sal e a independência do Banco Central, que garante o protagonismo do rentismo no novo governo. Esse programa, que inclui o fim das universidades públicas e o fim das cotas sociais, a manutenção da EC 95 e o estabelecimento de uma carteira de trabalho que funcione fora da CLT, restringirá radicalmente a mobilidade ascendente e provocará enorme desigualdade e exclusão social, distanciando as políticas de Estado de qualquer projeto de nação, gerando imensas frustrações;

4) Essa nova burguesia interna, que propõe-se a dirigir o Estado brasileiro e a ser a intermediaria da entrega do país ao capital estrangeiro, atinge o protagonismo da burguesia branca, eurocêntrica, laica, racionalista e com uma herança industrialista decadente, que vem dirigindo com certa tranquilidade o capitalismo brasileiro desde os anos 30, excetuando-se o período varguista, o governo Jango, a promulgação da Constituição de 1988 e a ascensão do petismo, quando se estabeleceu um condomínio de poder interrompido mais cedo ou mais tarde, de forma violenta, em seu favor. Essa burguesia branca e tradicional, desde os anos 1990 converteu-se à globalização neoliberal que a nova burguesia vê com suspeição. Esta atinge o liberalismo político mas aceita o mais radical entreguismo econômico complementar e subordinado ao imperialismo da extrema direita dos países centrais, mas na contramão de seu programa nacionalista;

5) A nova burguesia interna pretende atingir visceralmente o que há de universalismo no velho capitalismo dependente brasileiro, o que resta das indústria, as estatais e principalmente as universidades públicas, e substitui-lo por uma visão de mundo messiânica e fanática;

6) A tentativa da velha burguesia retomar o controle do Estado brasileiro destruindo a centro-esquerda fracassou e pariu um novo ator político mais ameaçador na luta intra-capitalista aos seus interesses, que a centro-esquerda o era na luta de classes;

7) Cabe à esquerda se reestruturar e impulsionar uma agenda antifascista que ultrapasse os conflitos entre os blocos de poder em disputa, mas taticamente tire partido dos mesmos;

8) Se o PT é parte fundamental do bloco de esquerda, dificilmente poderá dar sua orientação estratégica, pois mostrou-se incapaz de impulsionar o nível de mobilização necessário que o país precisa;

9) É preciso avaliar o quanto a estética empreendedores/oprimidos versus trabalhadores com direitos/opressores penetrou na esquerda sob novos formatos. As lutas identitárias são fundamentais e chegaram para ficar, mas devem articular uma nova unidade da classe trabalhadora e não sua pulverização em novos corporativismos orientados à integração na ordem dominante através de aparelhamentos e disputas micropolíticas manipuladoras.

Boitempo nas eleições // Na nossa cobertura das eleições 2018 realizamos uma série de ações que buscam contribuir com a reflexão coletiva durante o período, entre as quais a publicação de textos inédito no Blog da Boitempo, vídeos na TV Boitempo e um serviço gratuito de indicações de leituras pelo WhatsApp, com curadoria da equipe editorial. Reflexões de Luis Felipe Miguel, Boaventura de Sousa Santos, Vladimir Safatle, Flávia Biroli, Esther Solano, Ricardo Antunes, Mauro Iasi, Christian Dunker, Rosane Borges, Mouzar Benedito, Dênis de Moraes, Flávio Aguiar, Felipe Brito, entre outros. Clique aqui para conferir.

***

Carlos Eduardo Martins é Professor Associado do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ e Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ). Membro do conselho editorial da revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, é autor, entre outros, de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

3 comentários em 9 notas sobre a conjuntura pós-eleitoral brasileira

  1. João Damah // 30/10/2018 às 5:06 pm // Responder

    Considero também bastante grave a delapidação das denominadas “poupanças compulsórias” como o PIS-Pasep e o FGTS como que compensando o congelamento de gastos em educação e saúde.
    Primeiramente para tentar mascarar a crise implantada pelo “golpe” , depois uma alternativa para azeitar a engrenagem de sustentação dos bancos que conseguiram reduzir o nível de inadimplência, “tomando” da população a “bufunfa” liberada e preconizando juros baixos.
    Depois, como alguém já alertou, o surgimento de um novo tipo de escravidão pela dívida financeira – já que os bancos estavam com a “burra cheia – com avalanche de empréstimos garantidos ou consignados, substituindo desta forma os grilhões mais clássicos.. .
    Além da gradativa retirada de direitos trabalhistas alastrou-se a “deusificação” do tal “empreendedorismo”, fazendo bater recordes de “abre e fecha” de micro-empresas..

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  2. Antonio Tadeu Meneses // 30/10/2018 às 5:23 pm // Responder

    Que Notas bem esclarecedoras sobre a conjuntura pós eleitoral. Porém, a velha burguesia branca tem consciência do problema que enfrentará, para retomar o estado brasileiro, nota nº6.
    Tanto que querem aprovar nos primeiros 6 meses as reformas que regulará as medidas mencionadas na nota nº3.
    Será que a esquerda saberá aproveitar-se destas contradições nota nº3?
    Será que ela vai conseguir se reestruturar nota nº7?
    Porque, além do problema da nota nº8:
    – A esquerda em geral ficou muito tempo apaziguada;
    – A esquerda “Institucional-parlamentar” saiu muito enfraquecida destas eleições;
    – A esquerda “tradicional-radical-ideológica”, esqueceu de trabalhar a base econômica;
    – A “neo-pós esquerda”, colocou seu foco nas questões de grupos e esqueceu da luta de classes, da infraestrutura e da supraestrutura ideológica e jurídico-política.

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